Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso – Parte V

Imagem relacionada

2.4 – A “Questão Religiosa” (1872 -1875) e seus reflexos no discurso antimaçônico

No Brasil oitocentista identifica-se pelo menos dois projetos ideológicos opostos. Na perspectiva de Eliane Lucia Colussi, o primeiro foi consubstanciado pela influência das correntes de pensamento liberal e cientificista que transpunha para a esfera da política e da cultura a defesa de noções, como racionalismo, progresso e modernidade representada, sobretudo, pela Maçonaria. O segundo, uma reação do catolicismo mundial frente aos avanços do liberalismo, que, no Brasil, reuniu os defensores do pensamento católico-conservador[99].

Este último, como bem observou o historiador Luiz Eugenio Vescio, pretendia impor à religiosidade popular os princípios definidos no Concilio de Trento. A Igreja reformada esperava reverter o quadro de decadência e ignorância no qual se encontrava a doutrina católica. Suas ações efetuaram-se através do regramento do clero, da criação de grandes redes escolares católicas, da expulsão dos padres maçons que não abjurassem a Maçonaria e da suspensão dos trabalhos das irmandades e confrarias que estivessem sob suspeita de influência maçônica criando assim o terreno perfeito para ocorrer aquilo que veio a se chamar Questão Religiosa[100].

Naquilo que tange, especialmente à Questão Religiosa, Vieira destacou que diversos elementos entraram em choque e ocasionaram o conflito[101]. Essa agitação não teve lugar somente no Brasil, mas por toda a Cristandade. Em sentido geral, o conflito foi, de um lado, uma colisão do galicanismo, jansenismo, liberalismo, Maçonaria, racionalismo e o protestantismo, todos vagamente “aliados” contra o conservantismo e ultramontanismo da Igreja Católica do século XIX. Numa época em que a submissão da Igreja ao Estado revelava a fragilidade e ambiguidade da instituição no Brasil. Assim ao mesmo tempo em que o catolicismo criticava a sua dependência do Estado, através do padroado e do galicanismo, usufruía das prerrogativas constitucionais de religião oficial. Os membros do clero eram pagos pelo governo, os recursos públicos financiavam a construção e reformas de igrejas e a vinda de sacerdotes estrangeiros para suprir as necessidades. O antiliberalismo católico no Brasil se defrontava com a sua real situação, queria liberdade face Estado, mas, também queria permanecer com os privilégios da situação de ser a religião oficial do Império[102].

O ultramontanismo – termo utilizado desde o século XI para descrever cristãos que buscavam a liderança de Roma (“do outro lado da montanha”), ou que defendiam o ponto de vista dos papas – não encontrou um clima muito favorável no Brasil[103].

No entanto esta situação seria alterada ao longo do século XIX. A Igreja Católica aos poucos efetivava no Brasil o movimento de renovação e afirmação de sua doutrina. Essa reação católica caracterizou-se pela reafirmação do escolasticismo, pelo restabelecimento da Sociedade de Jesus (1814) e por uma série de encíclicas, bulas, alocuções que foram fulminantemente lançadas contra o que a Igreja considerava serem elementos errôneos e tendências perigosas dentro da religião e da sociedade civil[104].

Como nos informa Vieira, os mais ilustres mestres do escolasticismo e tomismo na primeira parte do século XIX, foram o padre português Patrício Muniz (1820-1871) e o italiano Mons. Gregório Lipparoni, que haviam estudado em Roma. Cumpre ressaltar, entretanto, que o ultramontanismo do Padre Muniz não era intransigente. Entre os ultramontanos radicais, dois foram de grande influência como os padres Luís Gonçalves dos Santos e William Paul Tilbury. O primeiro, cognominado “Padre Perereca”, foi talvez o mais vocifero dos ultramontanos no Brasil. Entrou em violentas disputas com o Padre Feijó sobre o projeto legislativo que daria permissão aos padres brasileiros de se casarem. O Padre Perereca atacou Feijó com termos insultantes, aos quais Feijó revidou à mesma altura. Tanto o Padre Tilbury como o padre Perereca têm o crédito de terem sido um dos pioneiros da narrativa antimaçônica no Brasil. Em 1826 Tilbury publicou Exposição Franca Sobre a Maçonaria. A contribuição do padre Perereca foi em forma de uma série de cartas publicadas nos jornais do Rio de Janeiro contra a Maçonaria e o jornal o Despertador Constitucional[105].

O folhetim intitulado de Antídoto Salutifero contra O Despertador Constitucional…que circulou na década de 1820 dá o tom do seu discurso antimaçônico.

Carta Primeira. (Quinta do Corcovado aos 15 de Abril de 1825)
Senhor Despertador Constitucional. Com grande prazer, e satisfação dou a V.S. os sentimentos do mau sucesso, que teve na defesa, que fez, da sua decantada, e venerável Ordem Maçônica: igualmente me congratulo com todos os Brasileiros honrados, amantes da Religião, do Império, da Verdade, e do Bem Público, de que V.S., em lugar de tosquiar, tivesse ficado de tal modo tosquiado, que lhe levaram pele, e cabelo.[106]

Outros nomes ultramontanos de influência são o Dr. José Soriano de Sousa (1833-1859) e o Senador Cândido Mendes de Almeida (1818-1881). Cândido Mendes de Almeida, por exemplo, lutou contra o galicanismo através de seu estudo de quatro volumes sobre as legislações portuguesa e brasileira. Nesse trabalho, estabeleceu toda a base jurídica da disputa entre ultramontanos e a Coroa pelos direitos tradicionais da Igreja. Os ultramontanos brasileiros não lutaram sozinhos. Tiveram grande ajuda da parte dos núncios e internúncios bem como das ordens religiosas estrangeiras que, pouco a pouco, foram voltando para o Império: os lazaristas em 1827, os capuchinhos em 1862 e os jesuítas em 1866. Entre os internúncios, o mais vigoroso pregador do ultramontanismo foi Mons. Gaetano Bedini (1846-1847) que se tornou notório pelos seus sermões contra casamentos mistos entre os colonos alemães em Petrópolis, e por suas críticas públicas, feitas a Dom Pedro II, por não ir este à missa tão frequentemente quanto seus antepassados[107].

Entre os ultramontanos estrangeiros que mais influenciam a formação de várias gerações de ultramontanos brasileiros, encontramos os lazaristas que, em 1821, fundaram o Colégio Caraça, em Tejuco (Diamantina hoje) em Minas Gerais. Vários lazaristas franceses foram importados para lecionar no mencionado colégio. Os jansenistas, galicanos e liberais de todos os matizes se revoltaram contra a volta dos frades estrangeiros. O Deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos foi um dos primeiros a protestar contra esse retorno e apresentou uma “indicação” propondo que se recomendasse ao governo a execução das leis que, “pra sempre”, tinham abolido no Império do Brasil a Sociedade de Jesus. Vasconcelos foi secundado por Raimundo José da Cunha Matos, que dizia estarem jesuítas voltando ao país, a convite do Gabinete, e que esses jesuítas estavam regressando disfarçados em capuchinhos e lazaristas[108].

Os debates no Parlamento sobre a presença de frades estrangeiros no Brasil continuaram por muito tempo. Em face do que foi debatido na Câmara durante esse período, diríamos que o consenso entre os jansenistas, galicanos de todas as espécies e liberais, no Parlamento brasileiro, era que o ultramontanismo representado pelas ordens religiosas estrangeiras não deveria ser importado e, se já estivesse no Império, deveria ser confinado aos conventos e nunca lhe ser permitido “contaminar” o povo com “idéias absolutistas”. O Deputado baiano José Lino Coutinho expressou, em poucas palavras, o que os liberais desejavam: “O Brasil , Sr. Presidente, precisa de estrangeiros que lhe venham trazer a indústria e as artes”, disse ele, o que devemos “é dar à mocidade uma educação de verdadeiros católicos mais livres de preconceitos; devemos ensinar-lhes a religião de Jesus Cristo e não a hipocrisia’. Por essa razão, Coutinho se opunha à importação de frades e exigia outro tipo de imigração para o Brasil[109].

Em 1864, as teses ultramontanas foram sistematizadas na Encíclica Quanta cura e no Sillabus, anexo à mesma. Portanto, a grosso modo, pode se dizer que o ultramontanismo do século XIX colocou-se, não apenas numa posição a favor de uma maior concentração do poder eclesiástico nas mãos do papado, mas também contra uma série de coisas que eram consideradas erradas e perigosas para a Igreja[110]. Entre esses “perigos” estavam: o galicanismo, o jansenismo, o protestantismo.

No Brasil, o ultramontanismo conquistou setores importantes da Igreja. Essa “vitória” foi em parte alcançada quando os bispos conseguiram o direito de suspender qualquer clérigo ex-informata conscientia (Decreto n°. 1911 de 28 de março de 1857), sem que o clérigo afetado pudesse apelar para a Coroa, bem como quando obtiveram o controle dos Seminários. Com o seu desejo de obter para o país um clero bem mais educado, mandou para a Europa um grande número de seminaristas brasileiros que absorveram ideias ultramontanas nos seminários da França e da Itália. Ao voltarem ao Brasil, esses jovens em pouco tempo conquistaram posições de liderança dentro da Igreja. Muitos deles chegaram a bispo em pouco tempo. A verdade é que, pelos idos do Concílio Vaticano I (1869-1870), todos os bispos brasileiros e seus colegas latino-americanos eram ultramontanos e se juntaram na defesa das “Constituições Dogmáticas” que estabeleciam a “Fé Católica” e a “infalibilidade do Papa”[111].

Em 1872, os bispos de Olinda, D. Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e o de Belém D. Antônio de Macedo resolveram atender às ordens de Roma e expulsaram os maçons das organizações religiosas. Naquela época, a Maçonaria se encontrava infiltrada na Igreja em Pernambuco, fato que levou D. Vital a se levantar contra essa instituição, proibindo inúmeras vezes os padres de celebrarem missas encomendadas pelos maçons. Soma-se a esta delicada situação o fato da imprensa maçônica, atacar os dogmas da Igreja Católica, o que fez com que D. Vital, a 21 de novembro de 1872 escrevesse uma carta pastoral ao clero, acautelando, seus padres e colaboradores a estarem premunidos a respeito das doutrinas pregadas pela Maçonaria[112].

A Maçonaria, na figura do Grão Mestre do Lavradio o Visconde do Rio Branco – Presidente do Conselho de Ministros – ofendida com a reação do bispo, que invocava textos pontifícios não placitados pelo governo imperial para atacar a imagem da instituição, utilizou-se de sua forte presença no Gabinete e no Senado para desencadear uma guerra pelos jornais contra o episcopado brasileiro. Neste sentido, em 17 de maio de 1873, Visconde do Rio Branco em discurso no Senado defendeu com vigor os princípios maçônicos contra as acusações da Igreja.

Eu entrei na maçonaria há muitos annos, e nunca vi que ella se ocupasse com a religião nem com a política do Estado: foi sempre a meus olhos, pela experiência que tenho, uma associação destinada a socorrer os seus membros e a promover o aperfeiçoamento moral e intellectual do homem. Se ella faz pouco neste empenho, se tem ereado poucas escolas, os actos de beneficência são incontestáveis (apoiados); muitas famílias recebem auxílios dessas sociedades, que se pretende estygmatisar, a que se pretende mesmo negar os foros de cidade no Brazil.[113]

O Conselho de Estado considerava o interdito ilegítimo porque a excomunhão não respeitava a Constituição Brasileira de 1824 que garantia ao Imperador o direito do beneplácito. Assim a indicação de bispos, arcebispos, cardeais, superiores de ordens e beneficiários, além da autorização de bulas e breves papais deveriam receber a autorização de D. Pedro II. Na sessão do Senado de 24 de maio de 1873, o discurso pronunciado pelo Sr. Alencar Araripe elucidava alguns pontos desta questão e ao mesmo tempo denunciava a desobediência dos bispos perante as leis imperiais.

Lamento profundamente que o nosso episcopado não conheça o perigo, e tente a árdua empreza contra as attribuições da autoridade civil (Apoiados), sonhando com a restauração de uma ordem de cousas que jamais voltará. Longe vai a época do domínio temporal do clero, e essa época não figurará mais na historia futura da humanidade.O estudo do que entre nós se passa demonstra que resurgio a idéa de restabelecer um domínio decahido; e para rehabilitar a supremacia do poder temporal no episcopado, os nossos bispos planejarão investir contra a associação maçônica, e depois proceder, em aberta resistência, contra o próprio poder civil. Havião bullas papaes excommungando os maçons; portanto os bispos brasileiros, na execusão do seu plano, devião começar dizendo que a associação estava condemnada, e que não podia existir porque merecia a reprovação da igreja.[114]

É interessante observar que o agravamento do conflito possibilitou algo que parecia impossível no Brasil, a união entre os dois Grandes Orientes. Os dois grão-mestres, Rio Branco e Saldanha Marinho convocaram os maçons de todo o Brasil para a batalha que se ia travar contra a Igreja. Os jornais maçônicos se agitaram. A Família do Rio de Janeiro; A Família Universal e A Verdade, de Pernambuco; O Pelicano, do Pará; A Fraternidade, do Ceará; A Luz, do Rio Grande do Norte; A Laborum, de Alagoas; O Maçom, do Rio Grande do Sul. Em vários pontos do país, foram fundados novos jornais com a finalidade confessada de combater o que chamavam “ultramontanismo” ou “jesuitismo”.

Essa imprensa sectária era liderada, principalmente, por Saldanha Marinho, sob o pseudônimo de Ganganelli. Palavras como padrecos, ferrenhos detratores, maltrapilhos, capadócios de grande força, irrisórios pedagogos, sicofantas, tornaram-se comum nestes textos[115].

O governo imperial tentou tranquilizar os ânimos enviando o Barão de Penedo até Roma. Em carta, o papa Pio IX pediu aos clérigos brasileiros para terem mais cautela e tolerância, mas a correspondência papal não chegou a tempo e o agravamento da crise foi inevitável. O bispo de Olinda, acusado perante o Supremo Tribunal foi preso e recolhido ao arsenal da marinha do Recife, a 2 de janeiro de 1874. Na sessão do julgamento apresentaram-se para defendê-lo o Conselheiro Zacarias de Góis e Vasconcelos e o senador Cândido Mendes de Almeida. Todavia D. Vital foi condenado a 4 anos de prisão com trabalhos forçados. Por decreto de 12 de março, foi-lhe comutada a pena a prisão simples na fortaleza de São João, no Rio de Janeiro[116].

A reação negativa da opinião pública nacional e internacional levou ao desgaste e, consequentemente, a queda do Gabinete Conservador liderado por Rio Branco. Em resposta o Imperador nomeia outro conservador, Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, para chefiar o novo Gabinete. Duque de Caxias também era maçom, mas condicionou a aceitação do Ministério à concessão da anistia aos dois bispos. Fez ver ao Imperador que a solução da anistia incondicional dos prelados era a única medida capaz de estancar a crise[117].

Finalmente em 17 de setembro de 1875 o governo decidiu recuar e assinou o decreto que libertava os clérigos, coloca-se um fim a Questão Religiosa que já se arrastava por 3 longos anos. Entretanto os ataques continuavam de ambos os lados demonstrando que o impasse ainda permanecia entre as duas instituições. Do lado maçônico as críticas à hierarquia clerical, à intervenção nos assuntos civis e o atraso representado pelo catolicismo permanecia em pauta. Em conferência realizada, no dia 21 de julho de 1876, no Grande Oriente Unido do Brasil, o orador Ruy Barbosa elucidou de forma precisa os contornos dessa situação.

Subscrever á falsidade ultramontana, confessar em si chagas que está consciente de não ter, sentar-se resignada e humildemente no muladar de vilependio que lhe indicam e murmurar, na inércia, as palavras de Job? Não!Nunca! (Bravos, Apoiados Geraes). Não seria simplesmente suicídio, mas pusillanimidade; não seria unicamente ruína, mas covardia; não seria só aniquilamento, mas apostasia, deserção, opprobrio… (Aplausos)[118]

Segundo Ruy Barbosa, a Questão Religiosa foi antes de tudo uma “Questão Política”, uma disputa travada entre a ortodoxia-religiosa e o legalismo monárquico. Em meio a esta situação, a Maçonaria foi tomada como “bode expiatório”. Por isso, para Ruy Barbosa, a luta dos maçons deveria continuar no sentido de construir um Estado laico e secular.

Eis a pedra de tropeço, pedra de escândalo entre elles e vós. Eis o nosso symbolo, o segredo immortal da nossa força: o crente emancipado na igreja, a igreja livre no Estado, o Estado independente da igreja. Eis o nosso terreno, onde os legisladores somos nós, não o papa, onde os decretos são os do nosso parlamento, não os da cúria. Trata-se de nossas pessoas, de nossas almas, de nossa prosperidade individual e collectiva, de nossa incommunicavel responsabilidade perante Deus.[119]

No âmbito internacional, o clima hostil entre a Maçonaria e a Igreja parecia não ter fim. Em 1879 a Maçonaria francesa declarava apoio incondicional a todos os elementos que tinham interesse em combater o catolicismo. Em resposta, os setores católicos intensificaram ainda mais a propaganda antimaçônica, que assumiu as formas mais diversas, desde as declarações do Magistério Romano e de livros sérios, até panfletos, destituídos de todo rigor científico, que utilizavam argumentos muitas vezes fantasiosos. Dentre estes últimos, destacamos Os mistérios da franco-maçonaria revelados (1885) de autoria do ex-maçom e jornalista francês Gabriel Jogand Pages, mais conhecido como Leo Taxil. Rapidamente esta obra se tornou um best-seller da época, difundindo ainda mais a narrativa antimaçônica nos meios católicos.

Taxil “revelava” ao mundo a existência de uma ordem maçônica secreta chamada Palladium, no interior da qual haveria maçons incorporados pelo demônio. Nos rituais os maçons dançavam ao redor de Baphomet, uma criatura pagã cultuada pelos Templários que possuía um corpo humano com cabeça de bode. Além disso, o livro descrevia o aparecimento pessoal de Satanás em rituais maçônicos – “aparentemente ele tomou a forma de um crocodilo e tocou piano” – e os laboratórios secretos sob Gibraltar onde demônios fabricavam germes de pestilência para devastar a Europa católica[120].

O livro ficou tão famoso que Taxil ganhou uma audiência com o papa Leão XIII, em 1887. Depois do encontro, o Vaticano patrocinaria sua campanha antimaçônica e a publicação de vários outros livros.

Desde minha admissão sob o estandarte da Igreja, estava bem convencido de uma verdade: que não saberia ser um bom ator se não me metesse na pele do personagem que representava; se não acreditasse – ao menos de momento – que estava acontecendo. No teatro, se representa uma cena de desespero, não se pode dissimular as lágrimas; o cômico enxuga com seu lenço olhos secos; o artista chora realmente. Por esta razão, durante toda a manhã que precedeu minha recepção, concentrei-me na situação de uma forma tão completa que estava pronto para tudo e era incapaz de dar um tropeço, apesar de toda surpresa. Quando o Papa me perguntou: – Filho meu, que desejais? Respondi-lhe: – Santo Padre, morrer a vossos pés, agora, neste momento… Seria minha maior sorte…Leão XIII se dignou dizer-me, sorrindo, que minha vida era mais útil, todavia, para os combates da fé. E abordou a questão da Maçonaria. Tinha todas minhas novas obras em sua biblioteca particular; ele as havia lido de cabo a rabo e insistiu no direcionamento satânico da seita.[121]

Finalmente, em 1897, Taxil comunicou que iria reunir um grupo de pessoas para apresentar uma senhorita que desejava renunciar a Satã e converter-se ao catolicismo. No dia marcado, o salão encontrou-se abarrotado de religiosos, maçons e jornalistas e, surpreendentemente, Taxil informou que nada havia de revelar, porque nunca havia existido a tal Ordem Palladium e que tudo não passava de uma brincadeira que visava ridicularizar a credulidade católica.

Não vos aborrecei, meus reverendos Padres, riais melhor, com vontade, ao saber hoje que o que aconteceu é exatamente o contrário do que acreditastes ter acontecido. Não houve, de modo algum, nenhum católico que se dedicou a explorar a Alta Maçonaria do paladismo. Pelo contrário, houve um livre-pensador que para seu proveito pessoal, de modo algum por hostilidade, veio passear por vosso campo, durante onze anos, talvez doze; e… é vosso servidor. Não há o menor complô maçônico nesta história e o provarei imediatamente. É preciso deixar Homero cantar os êxitos de Ulisses, a aventura do legendário cavalo de madeira; esse terrível cavalo não tem nada que ver no caso presente. A história de hoje é muito menos complicada.[122]

A lição de Taxil para aquela plateia era clara “o demônio só existe na cabeça de quem acredita”. Entretanto parecia que a lição de Taxil não foi aprendida, pois apesar de todos terem ouvido de modo indignado a sua confissão, seria tarde demais para a Maçonaria. Sua imagem já se encontrava solidamente associada às práticas satânicas, rituais macabros e, principalmente, à incômoda figura de Baphomet.

Segundo Marco Morel, nem só de histórias bíblicas, heroicas e exemplares é constituído o conjunto lendário que explica as origens da Maçonaria e alimenta o imaginário acerca desta sociedade. Há também aquelas narrativas que, ao contrário de enaltecer e legitimar a organização dos Pedreiros-Livres, procuram desqualificá-la, relacionando sua origem e seus objetivos com tudo o que há de mais obscuro e contrastante com os valores morais, principalmente, no que se refere àqueles advindos da cultura cristã. Seja por razões de natureza religiosa, por desavenças políticas ou tão-somente com o intuito de criar polêmica, o fato é que as chamadas narrativas antimaçônicas são tão ou mais abundantes do que as elaboradas pelos próprios maçons. Aliás, são também mais criativas e pitorescas, o que as tornam mais populares e freqüentes na imaginação coletiva. Não obstante a constante referência a elementos esotéricos, assim como a representações do imaginário cristão como o inferno e o diabo, todos os escritores antimaçônicos, ironicamente, procuraram dar um caráter de cientificidade aos seus relatos, embasando-os, no dizer destes, em uma “sólida” documentação e metodologia[123].

Desta maneira, a Maçonaria adentrava o século XX como sinônimo de anticlericalismo e anticristianismo. Nas palavras de Leão XIII, a Ordem maçônica representava a própria materialização do Diabo.

Nesta empreitada insana e pervertida nós quase podemos ver o ódio implacável e o espírito de vingança com o qual o próprio Satanás está inflamado contra Jesus Cristo – Do mesmo modo o estudado esforço dos Maçons para destruir as principais fundações da justiça e honestidade, e para cooperar com aqueles que desejarem, como se fossem meros animais, fazer o que eles quiserem, tende somente para a ignominiosa e desgraçada ruína do gênero humano.[124]

Em suma: a diabolização caricatural da Maçonaria foi uma das principais estratégias de ataque aos Pedreiros-Livres na segunda metade do século XIX. Não foram poucos os autores que interpretaram a Maçonaria como “o anticristo, profetizado por Jesus”. A sustentação desta acusação foi uma tarefa relativamente simples, visto que a simbologia maçônica, com sua influência egípcia e cabalística e com seus misteriosos rituais e cerimônias de iniciação propiciaram e a até alimentaram essas associações imagéticas.

Para Morel, o padre brasileiro Teófilo Dutra, é um bom exemplo, ao escrever, em 1931, sua obra As seitas secretas, procurou mostrar que a ciência era útil à Igreja no momento de desmascarar os seus inimigos: “Sabe ela [a Igreja] que a ciência lhe presta auxílio direto […] a ciência é um ácido que dissolve todos os males [seitas] exceto o ouro [cristianismo].” Apesar de buscar fundamento e legitimidade na ciência, as fontes utilizadas pelo padre, assim como pela maioria dos detratores da Maçonaria, possuíam procedência duvidosa. Vinham, em geral, “de um amigo da Europa que as enviara secretamente pelo correio”; de padres que “pertenceram” à maçonaria e que, após a abjurarem, resolveram delatar os seus segredos ou de moribundos que, em busca do perdão no leito de morte, resolveram confessar seus pecados maçônicos. Ao explicar, por exemplo, a origem da Maçonaria, o já citado padre Dutra narrou uma história pitoresca, baseada, segundo ele, “na filosofia e no critério”. Dizia que, após terem-se desenvolvidos as corporações de Pedreiros-Livres, o diabo teria percebido a propriedade dessa sociedade e teria dela se apoderado. Em seguida, amalgamou na Maçonaria todas as heresias que havia feito brotar na terra e a transformou na “seita tenebrosa”, a quintessência das heresias, a síntese de todas elas. Já em outras versões elaboradas por escritores católicos, a maçonaria descenderia ora da cabala judaica, do gnosticismo ateu e, até mesmo, do herege protestantismo. Desse modo, independente da versão que narra a origem da maçonaria, ela constituir-se-ia, por natureza, como uma instituição de pecado. Desde a sua origem, ela seria inimiga da Igreja e amiga do diabo, “do qual é filha reverente”[125].

De acordo com a narrativa antimaçonaria os maiores iludidos seriam os próprios maçons que, desconheceriam os segredos ocultos da Ordem. Os membros de baixa graduação serviriam apenas para que a “seita” se apresentasse perante a sociedade como uma organização do “bem”, uma vez que seria composta por pessoas respeitáveis como padres, nobres e até reis. A ideia de que o segredo maçônico escondia sempre o seu caráter conspiratório influenciou vários escritores, sendo que, cada um deles deu ao mito uma versão particular. O objetivo de tal conspiração é que recebeu explicações diversas: instaurar o reino de satanás, impor a anarquia, o comunismo, o capitalismo ou até mesmo, a dominação judaica universal. Este último objetivo, inclusive, foi amplamente divulgado pelo Os protocolos dos sábios de Sião. 126 Livro apócrifo hoje considerado uma das maiores falsidades do século, Os protocolos foi publicado pela primeira vez na Rússia, em 1905 e denunciava uma Conspiração universal dos judeus.

Além disso, como consequência do mito do complô, a Maçonaria passou a ser associada praticamente a todos os acontecimentos que marcaram a humanidade nos últimos séculos. Por trás de cada fato, de cada decisão política, de cada guerra, de cada calamidade, estaria a Maçonaria, planejando, maquinando, manipulando. Do modo como demonstrou Morel, nem mesmo os Estados Unidos, grande potência mundial, estariam livres dos desígnios maçônicos. Pelo contrário, tendo em vista que nessa nação reside a maior comunidade maçônica do mundo, de lá sairiam as principais decisões norteadoras dos destinos da humanidade. Reza a lenda que o próprio presidente americano Woodrow Wilson, em 1913, teria dito, numa clara referência à Maçonaria, que “existe um poder em algum lugar tão organizado, tão sutil, tão atento, tão entrelaçado, tão completo, tão disseminado e abrangente, que é melhor abaixar muito bem a voz ao dizer qualquer coisa em condenação a ele”[127].

Mais uma vez a tese de Girardet é reforçada, pois segundo ele nos momentos de crise o mito do complô ressurgiria com força total. Dessa maneira, por baixo das grandes ondas da história humana fluiria a corrente subterrânea e furtiva das sociedades secretas, que frequentemente determinam, nas profundezas, as mudanças que serão feitas na superfície. Diante de tais “evidências”, ou na impossibilidade de refutar tais acusações o mais prudente e seguro parece ser acreditar na Maçonaria como uma sociedade poderosa e onipresente[128]. Pois como vimos o próprio mito do complô maçônico surgiu como conseqüência dos abalos causados pela Revolução Francesa e pelo advento da modernidade. Diante de transformações tão rápidas e profundas, difíceis de explicar e de digerir, as pessoas buscavam formas de tornar o destino novamente inteligível ou, ao menos, coerente. Para tal, bastava encontrar um agente a quem pudesse incutir todas as responsabilidades. Sendo a Maçonaria uma sociedade fechada e cercada de mistérios, ela acabava por reunir todas as características que fariam dela o “bode expiatório” da vez.

Continua…

Autor: Luiz Mário Ferreira Costa

Notas

[99] – COLUSSI, Eliane Lúcia. (op. cit), , p. 12

[100] – VÉSCIO, Luiz Eugênio. O crime do Padre Sório: Maçonaria e Igreja Católica no Rio Grande do Sul (1893-1928). Santa Maria: EDUFSM; Porto Alegre: EDUFRGS, 2001. p. 88-89.

[101] – David Vieira informa-nos sobre a biografia de Dom Antônio de Macedo Costa, escrita por Dom Antônio de Almeida Lustosa, Arcebispo da Arquidiocese de Belém. E outros quatro trabalhos como o livro do Padre Júlio Maria, O Catolicismo no Brasil, a História Eclesiástica de Monsenhor Camargo, a obra de Oliveira Torres, A História das Idéias Religiosas no Brasil e por último, o livro do Frei Palazzolo, Crônica dos Capuchinhos do Rio de Janeiro. Outros dois trabalhos, na opinião de Vieira, mereceriam reconhecimento, são eles, O Pensamento Católico no Brasil de Antônio Carlos Vilaça e a Evolução do Catolicismo no Brasil, de João Alfredo de Souza Montenegro. Do lado acatólico e secular, Vieira ressalta apenas um estudo completamente dedicado à Questão Religiosa: O Padroado e a Igreja Brasileira de João Dornas Filho, pois os outros trabalhos limitam-se a um ou dois capítulos ou pequenas monografias tais como a de Basílio Guimarães, D. Pedro II e a Igreja, e os estudos de José Maria Paranhos, de Lídia Besouchet, e de Viveiro de Castro. Ver: VIEIRA, David. (op. cit), , p. 16.

[102] – Idem, p. 27

[103] – Idem, p.32.

[104] – Idem, p.32.

[105] – Idem, p.34.

[106] – ANTÍDOTO Salutifero contra O Despertador Constitucional Extranumerário No. 3. Dividido em sete cartas dirigidas ao Auctor d’aquelle folheto impio, revolucionário, e execravel. Para beneficio da Mocidade Brasileira, especialmente da Fluminense, por hum seu patricio fiel aso deveres, que lhe impõe a religião, e o Imperio. Lisboa: Impressão Regia, 1827. (Impressa no Rio de Janeiro) [BNL – RES 16951 -V – Reservados]

[107] – VIEIRA, David (op. cit), p. 35-36.

[108] – Idem, p.36.

[109] – Idem, p.37.

[110] – Idem, p.33.

[111] – Idem, p.38.

[112] – TERRA, João Evangelista Martins (op. cit), , p. 158.

[113] – DEFESA da Maçonaria no Parlamento Brasileiro pronunciado no Senado pelo Sr.Visconde do Rio Branco (Presidente do Conselho de Ministros) e Alencar Araripe (Membro da Camara Temporia) Ouro Preto Typ. do Echo de Minas, 1873. p. 4

[114] – Idem, p. 9.

[115] – TERRA, João Evangelista Martins (op. cit), , p. 156.

[116] – Idem, p. 161.

[117] – Idem, p. 162.

[118] – BARBOSA, Ruy. Novos Discursos e conferencias. (colligido e revisto por Homero Pires) São Paulo. Editores Livraria Acadêmica. Editora: Saraiva & Cia. 1933. p. 12

[119] – Idem, p.13.

[120] – CONFERÊNCIA, Leo Taxil disponível em http://www.guatimozin.org.br/artigos/taxil_confer.htm 
Acessado em 05 de Janeiro de 2009.

[121] – Ver: CONFERÊNCIA, Leo Taxil disponível em (op.cit)

[122] – Idem.

[123] – MOREL, Marco & SOUZA, Françoise Jean de Oliveira (op. cit), , p. 35

[124] – BULA Humanus genus. On-line. (op. cit),

[125] – MOREL, Marco & SOUZA, Françoise Jean de Oliveira (op. cit), p. 37.

[126] – No Brasil o livro Os Protocolos dos Sábios de Sião, foi publicado e comentado por Gustavo Barroso em 1936. Ver: BARROSO, Gustavo. Os Protocolos dos Sábios de Sião. São Paulo: Minerva, 1936.

[127] – APUD. MOREL, Marco e SOUZA, Françoise Jean de Oliveira (op. cit), p. 39.

[128] – GIRARDET, Raoul. (op. cit), p. 12.

Anúncios
Publicado em Maçonaria e Antimaçonaria: Uma análise da “História secreta do Brasil” de Gustavo Barroso | Marcado com , , , , | 1 Comentário

A Mudança

Resultado de imagem para mudanças tumblr

Na sequência da Prancha apresentada por um  Irmão, intitulada “Sobre a Impermanência”, pareceu-me ser consistente escrever sobre a mudança e os processos que lhe estão associados, já que está subjacente à impermanência.

Deixem-me começar por transcrever algumas frases soltas que creio poderem servir para enquadrar o tema:

  • “Quando sentimos a necessidade de uma mudança profunda, normalmente vemo-la como algo que deve ocorrer, mas não em nós. Nas funções em que exercemos autoridade, sejamos pais, professores, chefes, ou outra coisa qualquer, somos particularmente atentos à necessidade de mudar dos outros. Esses esforços falham frequentemente e é comum que respondamos aumentando a pressão. Esta luta raramente traz consigo mudança ou excelência.” – Robert E. Quinn
  • “Se nos conseguíssemos mudar a nós próprios, então as tendências do mundo também mudariam. Conforme a nossa mudança, assim muda também a atitude do mundo perante nós… não precisamos de esperar que os outros mudem.” – Mahatma Gandhi
  • “A mudança não é algo opcional… é inevitável.” – Barbara Sher
  • “A mudança pode ser um desafio, mas pode também ser uma ameaça. Aquilo em que acreditamos pavimenta o nosso caminho para o sucesso ou insucesso.” – Marsha Sinetar
  • “A espécie que sobrevive não é a mais forte, nem sequer a mais inteligente; é sim a que se adapta mais facilmente à mudança.” – Charles Darwin
  • “Todos já aceitámos que a mudança é inevitável. Mas todos ainda a encaramos como a morte ou pagar impostos – deve ser adiada o mais possível e se for possível, fiquemos na mesma. Contudo, no período em que vivemos o normal é a mudança e não a permanência.” – Peter F. Drucker
  • “Mudemos antes que tenhamos de mudar.” – Jack Welch
  • “A mudança é difícil porque tendemos a sobrevalorizar o que temos e a desvalorizar o que poderíamos ter se mudássemos.” – James Belasco e Ralph Stayer
  • “Não há nada mais difícil de assumir, mais arriscado de dirigir, ou com maior incerteza no resultado, do que a liderança na mudança.” – Niccolo Machiavelli
  • “Choque com o futuro é o resultado do stress e desorientação que induzimos nos indivíduos, quando os submetemos a demasiadas mudanças num curto espaço de tempo.” – Alvin Toffler
  • A vida é constituída por uma série de mudanças naturais e espontâneas. Resistir-lhes só serve para trazer frustração e tristeza. Deixemos que a realidade seja a realidade. Deixemos as coisas fluírem naturalmente na direcção que tiverem de tomar.” – Lao Tzu
  • Quando a taxa de mudança nos mercados for maior que a da organização, o fim está à vista.” – Jack Welch

Entremos em matéria…

A vida vai acontecendo e o que acontece é muitas vezes denominado de mudanças. Algumas são resultado da evolução biológica e da passagem do tempo, no que é o ciclo natural do nascimento, crescimento, decrescimento e morte. Outras resultam de factos sob o nosso controlo e esforço ou da interacção com familiares, amigos, etc. Finalmente, há um terceiro grupo que resulta de factos totalmente fora do nosso controlo.

As nossas experiencias resultam de factos externos ou internos que seguem um caminho linear, regulado pelo tempo, pelo espaço, ou pelas estruturas sociais. Podem também resultar de aspectos emocionais, psicológicos ou até das nossas lutas internas e externas. Podem ser subtis ou graduais, fáceis e bem-vindas ou difíceis e exigentes. Podemos encará-las e à mudança que implicam, com aceitação e adesão ou com protesto e resistência.

O significado pessoal de cada mudança ocorre quando decidimos mudar, já que isto significa passar do estado mais contemplativo em que as coisas acontecem porque sempre aconteceram, para um estado mais activo em que mudamos para obter um resultado por nós escolhido. Mudar o nosso foco do que acontece para o que fazemos com o que acontece é outra forma de descrever a mudança. Não nos esqueçamos que a forma como interagimos com a mudança é uma escolha pessoal.

O perigo de mudar sem verdadeiramente experimentarmos a mudança é o de essa mudança não chegar a ocorrer. Se estivermos focados na mudança em si mesmo e/ou demasiado ansiosos por resolver um problema, podemos perder a mensagem que o processo contém, bem como o seu aspecto transformativo. Daqui resulta que é importante não só a mudança, mas também a forma como mudamos. Mudanças radicais sem um processo evolutivo resultam frequentemente em cenários “déjà-vu” e no reforço de comportamentos que pretendíamos mudar. Para que a mudança seja real e tenha um efeito efectivo, é necessário que aprendamos a trabalhar realmente com ela e não a evitá-la sempre que possível. Já agora, contemplá-la também não costuma dar resultado.

Os antigos filósofos diziam que tudo muda permanentemente (impermanência). O I Ching, o Livro da Mudança, é um texto Chinês que tem servido como ferramenta para tomada de decisões e para tentar prever o futuro, por mais de cinco mil anos. Apesar de tudo ser transitório e estar em constante mudança, o conceito e o seu processo evolutivo respeitam as leis naturais, que pelas suas propriedades cíclicas e repetitivas, fazem da mudança um processo que não muda (impermanência).

I Ching contem uma simbologia cujo objectivo é ajudar-nos a encontrar ordem dentro dos acontecimentos quase aleatórios da vida. Basicamente, todas as situações na vida ocorrem segundo seis estadios, que embora sejam mutáveis, são previsíveis: começar a ser, início, expansão, evolução para atingir o potencial mais alto, potencial mais alto, regressão. Podemos estabelecer um paralelismo com os seres: concepção, nascimento, crescimento, evolução para a maturidade, maturidade, envelhecimento e morte. Estes estadios são também aplicáveis às organizações, aos produtos e a muitas outras coisas que nos rodeiam. Tudo parece ter um inicio e um fim e nesse intervalo está em constante mudança.

Apesar da mudança poder interromper o decurso normal das nossas vidas (e fá-lo), constitui também uma oportunidade e um desafio para analisar o que fazemos e o que poderemos fazer e para alterar esse estado, se assim o entendermos. Pode até servir para nos mantermos como estamos e assim permitir-nos melhores escolhas e decisões.

Afastar ou negar a mudança e o que nos pode oferecer, pode ser uma oportunidade perdida de aprendizagem ou de descoberta. A chave está em entender e aceitar que a mudança é a regra e não a excepção e que mesmo que não aceitemos mudar, estaremos ainda assim a fazê-lo. Quando aceitamos esta realidade e aprendemos a lidar com ela, torna-se muito mais fácil ajustar-nos, já que o fazemos com a consciência de que estamos a mudar de forma controlada, num processo que não muda.

Colocando a mudança de lado, vejamos a outra parte da equação – a complexidade do desenvolvimento da personalidade individual. O desenvolvimento da personalidade é função de três variáveis ou sistemas: o corpo (soma), a psique (psyche), e o comunitário ou social (ethos).

Existem diversas teorias sobre o desenvolvimento da personalidade, mas as do psicanalista Erik Erickson são consideradas das que melhor nos podem ajudar a compreender a mudança no contexto do ciclo da vida. A sua teoria ajuda a clarificar como é que um individuo adere e processa a sua mudança intrínseca o que permite perceber se a pessoa está à altura para fazer mudanças em si próprio.

Esta teoria identifica oito estadios pelo qual o individuo passa, desde o nascimento até à velhice. Todos estão presentes à nascença, mas desenvolvem-se em função de uma dicotomia entre o pessoal e o social.

Cada estadio é marcado por uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma vertente negativa. As duas vertentes são necessárias, mas é essencial que se sobreponha a positiva à negativa. A forma como cada crise é ultrapassada ao longo de todos os estadios influenciará a capacidade para se resolverem conflitos inerentes à vida, bem como a atitude perante a evolução (mudança). Para Erickson, o conflito e a crise psicossocial são positivas, já que são fontes de crescimento, força e compromisso.

A forma como cada individuo evolui ao longo deste trajecto de oito estadios, pode determinar que seja mais ou menos confiante e que tenha uma maior ou menor aversão ao risco. Confiança e atitude perante o risco são dois factores fundamentais que balizam a forma como lidamos com a mudança.

Para além desta perspectiva mais teórica, há diversos factores de ordem pratica que influenciam se e como lidamos com a mudança.

O temperamento, ou seja, a nossa atitude perante a vida, que faz de nós maleáveis e adaptáveis, envergonhados e medrosos, ou difíceis e inflexíveis, influencia de forma decisiva a forma como vemos o mundo e os outros e consequentemente a nossa capacidade de nos adaptarmos. Os pensamentos, atitudes e comportamentos de todos aqueles que nos rodeiam, podem influenciar a nossa forma de pensar e de agir. Por exemplo, amor, aceitação ou optimismo induzem confiança e esperança, ao contrário de críticas, pessimismo e outras atitudes negativas. O mesmo papel podem desempenhar experiências passadas: uma mudança com sucesso gera optimismo, abertura e confiança.

Os valores familiares e sociais são sempre herdados pelo individuo, desde o princípio da sua vida. O medo da mudança e de assumir riscos são contagiosos e interferem na forma como o individuo encara a mudança e limitam o que é capaz de fazer. Para muitos a simples ideia de mudar é esmagadora e geradora de ansiedade, constituindo algo a evitar a todo o custo.

Mas quais são realmente as implicações da mudança quer no plano individual, quer no grupo ou organização. O que é que devemos e/ou pudemos tentar gerir?

Edgar Henry Schein (Ph.D., Psicologia Social, Harvard University) propõe-nos um modelo conceptual para a mudança e suas implicações. Segundo ele, a mudança gera normalmente dois tipos de ansiedade:

A ansiedade associada ao ter de mudar (também chamada “Ansiedade de Aprendizagem”, já que isso implica ter de aprender e deixar o que sabemos por o que não sabemos. Esta ansiedade pode ser gerada e alimentada por diversas razões, toda elas válidas:

  • Receio de perder poder e/ou posição;
  • Receio de sermos temporariamente incompetentes;
  • Receio de não sermos capazes de mudar (Princípio de Peter), ou seja, o receio de já termos atingido o nosso limiar de competências que evoluir implique passarmos a ser incompetentes;
  • Finalmente, o receio de perca de identidade e de pertença ao grupo.

Como parece ser claro, quanto maior for esta ansiedade, maior será também a nossa Resistência à Mudança. Adiante veremos formas de tentar minimizar estes efeitos.

Mas a mudança também pode induzir a chamada “Ansiedade de Sobrevivência”, ou seja, o medo sobre o que pode acontecer se não mudarmos.

Como é evidente, estamos perante duas ansiedades que jogam em sinal contrário – “eu estou bem como estou, mas o que é que acontecerá se eu não mudar”. Parece também ser evidente que a mudança fica claramente dificultada enquanto a Ansiedade de Aprender for superior à de Sobrevivência e a forma de conseguirmos que o processo evolua é precisamente “jogar” com estas duas variáveis.

Como???

Para baixar a Ansiedade de Aprendizagem, há algumas alternativas.

  • Desdramatizar o processo, envolvendo os implicados e criando condições para que possam participar;
  • Estabelecer programas de formação e de apoio à aquisição e implementação de novas competências;
  • Gerir a mudança para que não seja brusca ou implique rupturas;
  • Implementar mentalidades que permitam errar… a chamada gestão do erro;
  • Outras…

Relativamente à aquisição e implementação de novas competências, importa reflectir sobre o processo de aprendizagem, que podemos estruturar em quatro fases:

  1. Somos Inconscientemente Incompetentes, ou seja, não sabemos e nem sequer sabemos que não sabemos. Os processos de avaliação de desempenho ou uma análise de “gaps” entre o que sabemos e o que teremos de saber no futuro, poderão ajudar a passarmos para a próxima fase;
  2. Conscientemente Incompetentes – não sabemos, mas já sabemos que não sabemos. Aqui importa ter formação que nos permita adquirir novos conhecimentos;
  3. Conscientemente Competentes – já sabemos como se faz, mas ainda não sabemos fazer. Usando o desporto como analogia, é nesta fase que devemos treinar, praticar; devemos conscientemente utilizar os novos conhecimentos até que sejam interiorizados e os possamos utilizar de forma inconsciente;
  4. Inconscientemente Competentes – esta é fase que se pretende atingir, ou seja, estamos em condições de usar as nossas novas competências e assim acompanhar o processo de mudança, ou seja Mudámos.

Naturalmente que este processo deve ser acompanhado com apoio e envolvimento que permitam criar um ambiente “psicologicamente seguro” onde a aprendizagem fique facilitada.

A cultura que possa existir de “gestão do erro”, poderá facilitar ou dificultar a mudança e a aprendizagem. Numa organização em que quem erra é quase que “crucificado” por o ter feito, haverá certamente resistência à mudança, já que todos quererão continuar na sua zona de conforto e a fazer como sempre fizeram. Este aspecto aplica-se também ao nível individual; a forma como lidamos com os nossos erros, pode facilitar ou dificultar bastante a adesão a novas formas de estar, pensar ou agir.

Relativamente à segunda ansiedade – a de Sobrevivência -, deixo à imaginação e criatividade dos meus irmãos a forma de o conseguir, já que nem sempre é possível reduzir a Ansiedade de Aprender para níveis inferiores à de Sobrevivência e há que actuar nesta, aumentando-a.

A forma como se utilizam as duas ansiedades pode ajudar também a analisar o estilo de direcção de um qualquer gestor. Um líder tenderá a dar prioridade à Ansiedade de Aprendizagem, quase esgotando a sua utilização, antes de se voltar para a outra. Por outro lado, um chefe recorrerá muito mais precocemente à Ansiedade de Sobrevivência, estabelecendo regras e definindo penalidades.

Fazendo um parêntesis nesta prancha, se analisarmos, à luz desta teoria, as dificuldades que algumas organizações têm para implementar mudanças, facilmente entendemos porque assim é. A Ansiedade de Sobrevivência é muito baixa e é muito difícil de subir.

Gostaria também de vos apresentar o conceito de “instabilidade Contida” desenvolvido por Ralph Stacey. Segundo ele, as organizações, sejam de que tipo forem, devem ter estabilidade suficiente para que as pessoas não desperdicem tempo e energia a “reinventar a roda” e a criar mecanismos de defesa, mas ter também suficiente instabilidade que leve as pessoas a serem motivadas para mudar, para serem criativas e para procurar novas formas de actuar e fazer as coisas, mesmo quando esse processo possa eventualmente ser doloroso.

E o que é que tudo isto tema ver com a Maçonaria?

Tudo!!!

A Maçonaria visa ajudar a criar homens melhores e de alguma forma esperar que estes sejam cristalizadores na sociedade. Nós aderimos à Ordem porque sentimos que podemos melhorar e porque reconhecemos a Ordem como um espaço para isso.

Quem muda ou faz as nossas próprias mudanças somos nós e nós somos Maçons. A Maçonaria disponibiliza-nos um espaço de mudança onde não há Ansiedade de Sobrevivência, já que nada nos será cobrado se não evoluirmos, e onde cada um muda ao seu ritmo e na direcção que quer, respeitando naturalmente os nossos princípios e regras.

Termino atrevendo-me a acrescentar algo às palavras de Mahatma Gandhi, apresentadas no início: “podemos mudar os outros, começando por nos mudar a nós próprios”.

Autor: António Jorge

Fonte: A Partir da Pedra

Publicado em Filosofia | Marcado com , , | 1 Comentário

Sobre a Impermanência

Resultado de imagem para drop in the sea

Alinhando e desalinhando estes parágrafos, maldizendo, (apenas um pouco), a minha incontida verborreia que me fez falar em impermanência numa sessão onde, e muito bem, foi apresentada a prancha “A Existência Humana”, um ensaio no qual Drucker (19NOV1909 a *11NOV2005) faz uma análise do pensamento de Kierkegaard (05MAI1813 a *11NOV1855), com os olhos postos nas mudanças de pensamento, principalmente o político e social, que ocorriam no fim da 1.ª metade do século XX.

Segundo Kierkegaard, o homem terá que renunciar a si mesmo para superar as limitações que a realidade lhe impõe, e assim poder aceder ao transcendente, aceder a Deus e à verdadeira individualidade; neste sentido, realçou “o existir concreto do homem” (o existencialismo) que anseia pela transcendência, focando em consequência disso, os sentimentos de angústia e desespero inerentes a tal condição.

Ora, em minha modesta opinião, na vida onde tudo é transitório, tanto os pensamentos quanto os amores e as coisas, que vão, vêm, ficam e passam, nada é assim tão importante, a não ser a experiência da vida que passa (e apenas enquanto passa), pelo que não me apetece mesmo nada ter algo que me obrigue a viver em desespero e angústia para poder vir a ter a ilusão de “possuir” ou “conquistar” o que quer que seja. O que vier, virá; mas virá sem sofrimento consentido; assim sabendo e aceitando ser o traço característico da existência terrestre a impermanência, decidi iniciar esta prancha por “a Morte”, indubitavelmente a carta mais forte, ou mesmo o trunfo (e o triunfo) maior, do tema que aqui se pretende tratar.

Para nós, que de certa forma nos alinhamos e nos preparamos para a viagem rumo ao G\O\E\, não há dúvida que encararemos a nossa morte física como a prova provada (desculpem o pleonasmo) da impermanência pois não iremos/voltaremos mais “viver” nos moldes actuais (ou iremos?).

Octávio Paz (31MAR1914 a 19ABR1988) escritor poeta e ensaísta mexicano, Nobel da literatura em 1990, dizia que “a morte não nos assusta (aos mexicanos) porque a vida já nos curou dos medos”; enquanto que Giuseppe Belli (07SET1791 a 21DEZ1863), poeta italiano famoso pelos seus sonetos em romanesco (o dialecto de Roma) nos conta que “A morte está escondida nos relógios” (La golaccia).

A palavra morte quase não é pronunciada em Nova Iorque, em Paris ou Londres, e infelizmente começa a não ser pronunciada também em Lisboa, porque queima os lábios; contudo ainda vai havendo quem a respeite, a acaricie, a celebre e até brinque com ela e não só no México onde é, segundo Octávio Paz, “um dos seus brinquedos favoritos e o seu mais constante amor”.

Lembro aqui o filme “Meet Joe Black”, um filme rodado em 1998 e quase todo em Nova Iorque, cidade onde como acima referimos se evita pronunciar a palavra morte, produzido por Martin Brest tendo como actores, entre outros Brad Pitt e Anthony Hopkins, um filme que, ao que eu saiba, pela primeira vez nos põe em contacto personificado com a Morte, com humor e com alguma naturalidade, o que não é habitual nos filmes ou narrativas que nos habituámos a ver provenientes dos EUA, onde a angústia e a perda são pulsões permanentes.

Neste filme ocorre uma festa de aniversário que, apesar de ser a última e o aniversariante o saber, foi um festejo alegre e coroado com fogo-de-artifício!

O nosso portuguesíssimo “Pão por Deus” que ultimamente vai sendo desvirtuado e substituído pelo “dia das Bruxas” ou “Halloween”, era o dia em que antigamente se oferecia pão, bolos, vinho e outros alimentos aos mortos, celebrado em cada ano no primeiro dia de Novembro, na véspera do dia consagrado a todos os mortos, e era de reminiscências bem antigas, que aqui me escuso de referir ou tão cedo não sairíamos daqui; era, como vinha dizendo, um ritual de “comer a morte” ritual esse que pode representar a continuidade da vida, como se do ventre da morte pudéssemos ver nascer ou até renascermos na própria vida; era o Morrer para Renascer; era o ensinamento que diariamente o Sol propiciava (e propicia se o quisermos/pudermos ver/entender) nascendo incansavelmente e a cada dia no Oriente, de onde vem a Luz, para inexoravelmente se extinguir moribundo, no útero devorador do mundo, o Ocidente.

Estará então o homem condenado à morte e à vida, ambas repetitivas e eternas? A ser assim a morte e vida serão dois aspectos de uma mesma realidade? Eclodirá a vida da morte qual planta que brota da semente que se decompõe no seio da terra?

A ser assim, a morte será um bem colectivo que dá continuidade à criação e que funciona como regresso à essência do universo.

Será o verdadeiro objectivo da vida chegar “purificado” “com mais luz” ou “aperfeiçoado” à “morte”?

Assim sendo, a “vida” outra coisa não será senão uma caminhada com vista à santificação da nossa existência; viver para morrer, tendo que sofrer para viver eternamente como preconizava Kierkegaard?

Ou será que a vida se nos apresenta como um verdadeiro desafio, e uma grande oportunidade para percorrer o caminho que nos leva à porta da imortalidade? Nascer para morrer e então renascer para viver o caminho; no fundo um caminho iniciático.

Não é só a morte, porém, que atesta, talvez consagre, a impermanência. A impermanência é desde logo, a vida ou, se preferirmos, o percurso “desta” vida com todos os seus mitos e dúvidas.

Lemos em Fernando Pessoa: (13JUN1888 – 30NOV1935) in Mensagem – II – Os Castelos – Primeiro/Ulisses:

O mytho é nada que é tudo.
O mesmo Sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

E ainda: in Livro do Desassossego

Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente torna-se outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.

Foi “este” Fernando Pessoa que muito nos chamou a atenção, tanto para as coisas que nos rodeiam, como para a nossa “pessoa”, os nossos rostos e as nossas máscaras, da nossa permanente transformação, e do nosso perpétuo movimento, e que, na pele de Bernardo Soares, nos ensinou a aceitar, sem mais questões, a impermanência: gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro.

A impermanência porém, com frequência, assusta-nos … todavia não somos nós, bem por dentro da nossa vivência, a personificação acabada dessa impermanência?

Afinal a vida é uma prática mortal, um livro de desassossego que se abre ao fascínio dos humanos!

Poderia aqui deixar páginas de citações sobre a impermanência; fiquemos apenas por estas:

  • O progresso é impossível sem mudança. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada. George Bernard Shaw (26JUL1856 a 02NOV1950)
  • Nada é permanente, excepto a mudança. Heráclito de Éfeso (540AC a 475AC**)
  • Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança. Maquiavel (03MAI1469 a 21JUN1527)
  • Tudo é mudança; tudo cede o seu lugar e desaparece. Eurípedes (481AC a 407AC)
  • Muda-se o ser, muda-se a confiança;
  • Todo o mundo é composto de mudança
    Tomando sempre novas qualidades.
    Continuamente vemos novidades,
    Diferentes em tudo da esperança;
    Do mal ficam as mágoas na lembrança,
    E do bem, se algum houve, as saudades. Luís de Camões (+- 1524 a 10JUN1580)

Conto-vos agora uma história na primeira pessoa, e vai ser na primeira pessoa do singular; eu sei que poderia utilizar a primeira pessoa do plural e dar-lhe um ar mais majestático, mas, de todo, não me parece que seja necessário:

Certo dia, aí pelos meus trinta e poucos, numa conversa de café, ou melhor numa conversa de club, pois o facto que aqui relato ocorreu na sala de convívio do C.R.M. (Club Recreativo Mortuense), quando em cavaqueira com um grupo de jovens com quem “brincava” aos teatros (pretendíamos levar à cena “A Promessa” de Bernardo Santareno), uma das raparigas do grupo tratou-me por senhor.

Nesse momento não percebi lá muito bem o que se estava a passar, fiquei um pouco sem jeito e com a capacidade de raciocínio afectada, pelo que, com um pedido de desculpa, antecipei o meu regresso a casa.

Já mais refeito e no aconchego relativo do meu lar, olhei-me ao espelho e apercebi-me que esta barriguinha, que hoje envergo, despontava, bem como umas aberturas no cabelo, por sobre as têmporas, aquilo que ao tempo se chamava, e, embora isso já não me preocupe, acho que ainda se chama, de “entradas”!

Dei então conta que havia uma grande distância entre a idade com que me sentia e a minha verdadeira idade biológica; percebi que tinha parado na idade em que os ideais surgem e nos sentimos vivos em qualquer circunstância. Até tinha ido à guerra e voltado, tinha sido atropelado e sobrevivido!

O que eu tinha mesmo, era percorrido cerca de uma década e meia sem que tivesse dado por ela.

Era impossível que essa mudança drástica se tivesse dado naquele exacto momento em que dela eu me apercebi!

É claro que, fisicamente, a cada momento que tinha passado na minha vida, algumas células foram morrendo e outras nascendo, o meu cabelo tinha iniciado uma viagem sem retorno, a minha fisionomia tinha mudado, e o espelho lá de casa não tinha servido para nada, pois não me avisou! É igualmente claro que paralelamente a cada um desses momentos, a perspectiva que eu tinha das coisas, do mundo e de mim mesmo, com certeza que essa perspectiva foi igualmente mudando, só que o fez de forma tão sorrateira que, para mim, se tornou imperceptível, mas, de repente, e porque uma jovem me tratou por senhor, toda a percepção do mundo me caiu cima!

Aquela história do “eu sou assim”, “sempre fui assim” “serei sempre assim” firmemente convicto da minha permanência foi-me muito mal contada até ao dia em que caí na realidade porque algo tão simples como a palavra “senhor” finalmente me tocou/afectou.
Por esse tempo percebi e, claro aceitei, que até eu um dia teria um fim; fim que já conhecia e aceitara, mas para os outros … Na sequência, um sentimento de desilusão, ou talvez insatisfação instalou-se no meu íntimo, tal como no dia em que, ainda criança, desvendei o truque do ilusionista… já nada era o que aparentava ser…!

Nós, enquanto seres sencientes, por muito que nos custe admitir, não passamos de manifestações transitórias totalmente interdependentes de tudo o que nos rodeia.

Somos o somatório, não desagregável, neste ponto da vida em que nos encontramos, de matéria e consciência, ou corpo e espírito, se preferirmos.

Vivemos num meio muito escrutinado e de grandes expectativas, e, deixamo-nos levar pela ilusão de que são as certezas que nos farão felizes e quando a vida nos mostra que nada é controlável e que a permanência não existe, sofremos e somos os únicos responsáveis por esse sofrimento, e provavelmente apenas quando com clareza nos apercebermos que há uma grande harmonia nos caminhos naturais da vida, estaremos prontos para aceitar a impermanência.

O budismo tem da impermanência um conceito muito simples: “Nada é permanente, a não ser a própria impermanência das coisas”.

Continuadamente e em todo o tempo, as nossas vidas, interna e externa, se movimentam e por mais que julguemos que podemos controlar todas as coisas, ou pelo menos algumas, não o conseguimos; estamos apenas a escolher um guia errado, a ilusão; e a ilusão é perigosa, pois cria expectativas e necessidades que não existem.

Na descrição freudiana, o ser humano é um animal que nasce prematuramente, em condição de dependência absoluta, que desde cedo busca o amparo e a protecção necessários à sua sobrevivência, e é instado a responder a solicitações e injunções dos meios físico, biológico e cultural.

O “eu” da psicanálise é fragmentado e governado por forças que ele próprio não domina; é uma montagem mais ou menos bem-sucedida que leva o sujeito a agir no mundo, a buscar satisfações e a lidar de alguma maneira com o desamparo, a angústia e o desejo.

Esse “eu”, para usar uma expressão do filósofo Daniel Dennett, (28MAR1942 – 75 anos), é “um centro de gravidade que não tem substância pois tudo nele deriva dos efeitos produzidos pelas interacções:

  • com os outros aspectos significativos de sua história;
  • com o ambiente natural e simbólico que o circunda; e
  • com as expectativas e desejos projectados sobre ele, mesmo antes que tivesse nascido, no desejo inconsciente dos pais”.

Afinal, o que é, ou quem é o “eu”? A não resposta parece ser a única resposta.

O rio da vida flui continuamente, mas para o “eu” da psicanálise, cuja existência depende de congelar esse fluxo de mudança, tal fluência é aterrorizante, pois não a conseguirá nunca tornar permanente, e isso, de certo modo, encaminha-o na direcção da impermanência. O que quer que pareça ser permanente na nossa vida é, na realidade, bastante temporário. Vem e vai incerto e inserto na roda da fortuna.

O fortuna

Velut luna
Statu variabilis
Semper crescis
Aut decrescis
Vita detestabilis
Nunc obdurat
Et tunc curat
Ludo mentis aciem
Egestatem
Potestatem
Dissolvit ut glaciem

Oh, fortuna

És como a Lua
Estado mutável
Sempre cresces
Ou decresces
A detestável vida
Ora oprime
E ora cura
Para brincar com a mente
Miséria
Poder
Dissolve-os como gelo

Carl Orff (10JUL1895 a 29MAR1982) – “Cantiones profanæ cantoribus et choris cantandæ” …a roda da fortuna, girando eternamente, trazendo alternadamente a boa e a má sorte… é mais uma parábola da vida humana exposta à constante mudança.

De tudo o antes exposto resulta ser a impermanência um fenómeno, ou se quisermos, um conceito (gostemos ou não, tudo o que nos rodeia na cultura humana está conceptualizado e vemo-nos obrigados a usar os conceitos para podermos, com êxito, nos relacionar com os outros), um conceito que convém ser trabalhado se nos queremos aproximar do conhecimento e aceitação de nós mesmos, dos outros e deste mundo que nos contém e nos rodeia.

Claro que tudo tem um início e um fim; no planeta terra já viveram dinossauros… porém esta evidência de princípio e fim tornou-se tão translúcida que quase deixámos de a ver, o que, erradamente, nos pode levar a crer que certas coisas são eternas, sejam elas as casas que habitamos, as cidades que povoamos, as estradas que percorremos ou um sem fim de objectos que usamos. Acaba por ser esse mesmo conceito que erradamente aplicamos à nossa própria existência, mesmo sabendo que num dado momento, muito embora ainda desconhecido, abandonaremos este plano em que nos encontramos, continuando porém a comportarmo-nos como se fossemos, nesta configuração, por cá ficar eternamente.

Passamos e gastamos muito do nosso tempo no nosso plano actual, a fazer a manutenção constante das coisas, sempre em luta contra o caos (a entropia), e ainda assim, a entropia (o caos) acaba sempre por nos ganhar a batalha, pois todas as coisas, tarde ou cedo, acabam destruídas ou gastas e atiradas para o respectivo caixote do lixo, seja ele qual seja.

E isto ocorre e acontece com tudo, as relações incluídas (e nem sequer me vou referir às amorosas); o que era maravilhoso e quase eterno ao princípio, torna-se frágil, estranho, desnecessário, incómodo e todo o rol de tantos quantos adjectivos quisermos acrescer!

Por muito que queiramos e nos esforcemos por perpetuar certas coisas todas elas são finitas, incluindo as que só nos deixam no nosso fim. A impermanência acaba por se nos impor e a ilusão de criar uma eternidade “a la carte” daquilo que queremos prolongar traz consigo o apego, essa amarra que se converte numa pena que teremos que carregar, e tudo fará para manter em nós essa sensação de permanência, o que, duma forma ou doutra, mais cedo ou mais tarde nos irá conduzir ao sofrimento.

E assim nós existimos, mas existimos apenas porque a existência global, essa sim, permanece, mas permanece na sua impermanência e indiferente à nossa existência individual, e persiste em ser movimento contínuo, estar acima do bem e do mal, em não ter forma estática, em ser indefinível, inapreensível, cambiante, caprichosa e, para nós, “ilógica”; essa existência é e contém o vento, as árvores, a terra, as nuvens, as ondas, o conflito, o movimento, equilíbrio e o rio sob a ponte (recordo aqui Heráclito – ninguém vai duas vezes ao mesmo rio, pois nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem).

É importante, para não dizer necessário, cultivar o desapego como regulador universal do estado de alma; será essa a chave que nos permitirá crescer e passar a outro nível de funcionamento onde a impermanência seja permanente (Heráclito).

Nascemos sós e nus; conforme a nossa vida se desenrolar, passaremos por todas as situações possíveis: necessitar, possuir, perder, sofrer, chorar, tentar… etc., mas depois morreremos, e, tal como nascemos, morreremos sós, e aí não fará a menor diferença se fomos ricos ou pobres, conhecidos ou desconhecidos; com mais ou menos pomposo enterro, maior ou menor acompanhamento, a morte será sempre o grande e último nivelador da nossa passagem por este estado.

A Siddhartha Gautama (+- 563AC a +- 483AC**), o primeiro Buda (o Iluminado) atribuem a seguinte frase: “Há uma única lei do universo que não muda, e essa lei é que tudo muda”.

Por vezes, provavelmente muitas, temos/teremos alguma dificuldade em perceber a realidade, pois nosso ego possui vários, para não dizer muitos, momentos de permanência através do seu apego a sentimentos, a momentos e a pessoas; é uma defesa interna mas é igualmente uma ilusão, e esta é a maior e mais perigosa ilusão que podemos manter na vida, pois sempre que tentarmos controlar as coisas, tarde ou cedo, vamos perceber que as coisas não são controláveis, e daí provém a frustração, o que é bom, pois é essa frustração que nos leva à desconstrução e ao consequente fim do sofrimento.

Para sermos por inteiro e vivenciar tudo o que há para viver, teremos que colocar as ilusões de lado e olhar para a vida real tal como ela é, com toda a sua beleza e toda a sua impermanência.

Nós não precisamos de ser culpados das coisas!

Nós não precisamos de arranjar culpados para as coisas!

Concluindo, impermanência é um conceito segundo o qual tudo está em constante movimento; nada é estável, fixo ou imutável; nada, incluindo aquilo a que temos por hábito chamar de fim.

Ao que a lagarta chama o fim do mundo o mestre chama borboleta – Richard Bach (23JUN1936 – 81 anos).

Sendo ou estando tudo em impermanência quem é ou onde está o “eu”, que no fundo é o “nós”, porque “não passamos de manifestações transitórias totalmente interdependentes de tudo o que nos rodeia”?

Quem é e onde está então, e neste momento, o “eu/nós” que redigiu estas linhas?

Disse V\M\
ARS M\M\

Fonte: Freemason

Notas

[1] – Apenas por curiosidade, Drucker e Kierkegaard faleceram ambos a 11 de Novembro.

[2] – Pode ser mera coincidência mas não deixa de ser interessante: Siddhartha Gautama é contemporâneo de Heráclito. Numa época em que, ao que eu saiba a globalização não ocorria ainda, nem mesmo aquela temporã dos Descobrimentos Portugueses, época em que não havia aviões como os de hoje que levam meio-dia a fazer esse trajecto, como é que dois indivíduos a 5.700 quilómetros de distância e desconhecendo a existência um do outro (ou não?) proclamam o mesmo?

Publicado em Filosofia | Marcado com , | 2 Comentários

A morte (e a vida)

Imagem relacionada

Em Maçonaria, os símbolos e rituais servem para colocar ao dispor do maçom os conhecimentos, os temas, os valores com significado e importância no ideário maçônico. O que cada maçom aprende ou não aprende, reflete ou não reflete, assimila ou não assimila em face desses símbolos ou rituais é com ele. Cada um é como é e livremente aproveita (ou não) da forma que melhor entende o que lhe é proporcionado.

Ao longo do seu percurso, o maçom é confrontado, simbólica e ritualmente, com a morte. Desse confronto, fará a reflexão que quiser ou for capaz, tirará a lição que conseguir tirar. Mas é importante que esse confronto exista.

A morte – sabemo-lo, embora mutos o procurem esquecer pelo máximo de tempo possível… – é inevitável. A todos chegará, a cada um na sua hora. Normalmente, quanto mais novos somos, mais afastamos esse tema do nosso pensamento. É uma desagradável questão distante com que esperamos não ser confrontados por décadas – se nos detemos a pensar nisso ainda vamos deprimir e mais vale mas é pensarmos no que vamos fazer hoje e amanhã e esta semana e nas próximas férias…

No entanto, os maçons são confrontados com a morte e assisado é que reflitam sobre esse tema. Desde logo, porque fazendo-o quando a morte não lhes está iminente, tal lhes permite racionalmente fazerem a sua análise e, sem urgências, ficarem em paz com a certeza de que um dia ela os atingirá.

A morte faz parte da vida. O ciclo natural do nascimento, crescimento, maturidade, declínio, morte está presente em todos os seres vivos, é ínsito à Vida. Quanto mais cedo e melhor aceitarmos isso, mais cedo e melhor estaremos em condições de aproveitar e viver plenamente a vida.

Para o crente, a morte não é o fim, mas uma Passagem. Mas, deste lado da mesma, forçoso é reconhecer que é uma Passagem para o Desconhecido…

A morte, o reconhecimento da sua inevitabilidade e, portanto, a sua aceitação, é, desde logo um importante fator de consciência da fundamental Igualdade entre todos nós.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama, logo no seu art. 1.º, que todos os seres humanos nascem livre e iguais em dignidade e em direitos. Mas, ao contrário do que possa parecer, a parte final desta proclamação (“em dignidade e em direitos”) restringe o alcance da primeira parte da frase. E fá-lo bem, porque, em bom rigor todos os seres humanos, sendo essencialmente iguais, são individualmente diferentes. Uns nascem em berço de ouro, outros em pobres enxergas. Uns são geneticamente dotados de saúde, outros têm a infelicidade de virem a este mundo com doenças congênitas. Uns são inteligentes, outros nem tanto assim. Uns são belos, outros nem por isso. Pese embora a proclamada igualdade “em dignidade e em direitos”, temos que reconhecer que, parafraseando George Orwell em O Triunfo dos Porcos, “uns são mais iguais do que outros”. Uns, bafejados pela genética, mas também condições sociais, partem para a jornada da vida com vantagem. Outros terão de superar deficiências, insuficiências, simples acasos como o lugar de nascimento ou de colocação social dos seus genitores para lograrem atingir os mesmos objetivos e patamares muito mais facilmente atingidos pelos bafejados pela sorte na sua concepção e nascimento.

Quer queiramos, quer não, apesar da fundamental Igualdade entre os seres humanos, a verdadeira, a completa, a material Igualdade só existe na morte! A morte é o encerrar do ciclo neste plano de existência para o milionário e para o indigente, para o belo e para o feio, para o inteligente e para o menos dotado. A morte é a Grande Igualizadora!

Entender a nossa finitude e aceitá-la, mas também entender a fundamental Igualdade que a todos junta na morte é essencial para entendermos e fruirmos completamente a Vida.

A essencial Igualdade da morte é que todos, rigorosamente todos, quando chega esse momento tudo deixam para trás: riquezas, estatuto, honras, mas também dívidas, condenações e opróbrios.

Acumular riquezas, obter estatuto, receber honras implicam esforços, escolhas, renúncias. Ter suficientes bens materiais para poder proporcionar a si e aos seus uma vida segura e confortável e fazer sacrifícios para isso é entendível. Prescindir de fruir plenamente a vida só para acumular riquezas muito para além dessa medida e que, chegada a hora da morte, para trás ficarão, não será, para muitos, uma prioridade. O mesmo quanto ao estatuto, que inexoravelmente termina com a morte física, e com as honras, que gradualmente se desvanecem nas memórias dos que ficam até inevitavelmente desaparecerem, ou, quando muito, e em reduzido número de casos, se limitarem a referências nos livros de história ou de uma qualquer especialidade. Mesmo os grandes, celebrados e recordados artistas, heróis e criadores desconhecem, após a sua morte, que permanecem celebrados e recordados…

Portanto, a consciência e a aceitação de que a nossa vida é finita e que, chegada a morte, tudo deixamos para trás, em bom rigor não são pungentes, não são atemorizadora, são libertadoras, porque essa consciência e aceitação nos permitem viver e fruir plenamente a Vida.

A vida á para ser vivida da forma mais livre, mais pujante, mais compensadora, que nos for possível.

A VIDA É BELA! Mas só temos total consciência disso e a plena capacidade de a fruir depois de termos encarado a nossa finitude e de estarmos em paz com a nossa morte.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: A Partir da Pedra

Publicado em A Morte | Marcado com , , | Deixe um comentário

A Alegoria do Templo e a Iniciação Maçônica

Imagem relacionada

“Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso” (Melanie Klein)

A alegoria da construção do Templo foi forjada por intelectuais dos anos 30 do século XVIII, sem compromisso com verdades históricas, com a finalidade de criar seus próprios personagens e dar uma origem nobre e não apenas operativa à moderna Maçonaria. A narrativa dramatizada, inspirada na descrição bíblica da obra de construção do Templo de Jerusalém, liderada pelo Rei Salomão, evoca uma reflexão sobre o assassinato do Mestre Hiram por Companheiros que representam inimigos internos e simbolizam três grandes males que afligem a humanidade: a ignorância, o fanatismo e a ambição.

O aspecto iniciático da cerimônia de recepção dos novos membros foi aprimorado a partir de então, com um roteiro adaptado de escritos sobre figuras religiosas de diferentes culturas e épocas, e funciona como um estímulo para o desenvolvimento de várias ideias de cunho espiritual, de forma a educar o homem para ser um agente de transformação da sociedade.

As pessoas são ensinadas a acreditar em narrativas desde a mais tenra idade. O homem primitivo lançava mão da lenda para narrar os fatos; para educar, utilizava-se da fábula. O exemplo dos professores, nas séries iniciais de ensino, torna-se emblemático, ao adotarem recursos didáticos como alegorias, lendas, fábulas, mitos, fantasias poéticas e histórias criadas a partir da imaginação, com o objetivo de sugerir um sentido moral e valores. O que não se pode é interpretá-los como se fossem acontecimentos reais.

Ocorre que o ser humano é um contador de histórias e pensa o universo como uma narrativa povoada de personagens bons e maus, conflitos, derrotas e vitórias, estereótipos, cada um procurando ao seu modo o significado da existência e o sentido da vida, começando a encontrar respostas quando desenvolve independência intelectual e emocional que permita fazer nova leitura, questionar e verificar o mérito dessas narrativas ou mesmo desconstruí-las à luz da verdade.

A psicologia explica que a mente humana não é racional e calculista, e precisa de alegorias, fábulas e ficções para organizar sua ação. Por sua vez, os símbolos agem no sentido de provocar uma introspecção, um estado de receptividade. A alegoria é simbólica e não se constitui um termo final, mas por trás encontra-se uma realidade superior, que a inteligência humana percebe indiretamente, como um começo, onde se inicia o divino (J. Boucher, A Simbólica Maçônica).

A maçonaria, ao utilizar o poder de alegorias para transmitir e organizar conceitos, faculta a seus adeptos a liberdade de interpretação como forma de não negar a própria liberdade de pensamento, de investigação, sem nenhuma intenção de orientar ou de defender uma verdade específica. Incentiva no iniciado o exercício da mente na busca do conhecimento, sem se deixar levar pelo pensamento alheio.

Segundo Carl Jung, “até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chama-lo de destino”. Mas, a conscientização segue o ritmo individual e chega para cada um no seu tempo, baseando-se em observações e evidências e não apenas na fé, de forma a não se confundir verdade com crenças, no refletir sobre a sociedade em que vive e compreender a história da própria humanidade, onde a vida tem o sentido que damos a ela e que não há outra maneira de entendê-la a não ser vivendo e crescendo conscientemente, na percepção de quem efetivamente somos, enfrentando riscos e desafios, cada um com o seu conjunto de valores, ou uma ética.

Para esse fim, a maçonaria apresenta aos escolhidos, homens livres e de bons costumes, uma série de instrumentos relacionados à construção de um santuário, não vinculado a contexto religioso, mas que se consubstancia no templo simbólico do Conhecimento, da Sabedoria, da Luz da Inteligência, onde o iniciado deve sacrificar no altar da verdade todas as suas crenças e superstições, provando que é o criador de seu caráter, o moldador da sua vida, o construtor do seu destino, vislumbrando alcançar com muito trabalho e dedicação a independência e libertação que o conduzem à fraternidade plena, sem descurar da simplicidade expressa nas palavras de Helena Blavatsky : “Sê humilde se queres adquirir sabedoria; sê mais humilde ainda quando a tiveres adquirido”.

A cerimônia de iniciação maçônica, como um rito de passagem e sem nenhum valor sacramental, funciona como a porta de entrada para essa nova proposta de vida, esboçando novos horizontes, além de promover uma oxigenação ao recarregar a Loja de energia para a permanente renovação dos quadros. Não é uma mera formalidade. Quando realizada de acordo com a ritualística, ou seja, o rigor teatral, é um momento de êxtase, um choque emocional, face ao apelo sensorial envolvido, promovendo mudanças na condição do indivíduo, e deixa marcas indeléveis ao despertar a consciência do recipiendário para uma série de questionamentos e inquietações, expandindo-a, ao sugerir caminhos que despertem o interesse pela pesquisa.

Tomando como referência a alegoria da Caverna, de Platão (427 – 347 a.C), a iniciação enseja o início da caminhada do mundo sensível – a Caverna – para o mundo das ideias, da luz, da iluminação, onde se encontra a verdadeira essência das coisas, o verdadeiro conhecimento, compreensível através da razão, do pensamento.

O formalismo e a linguagem esotérica tem o objetivo apenas de proteger sob um véu os arcanos da Ordem, pois seu glamour está justamente na sua aura de segredos. O significado real da cerimônia pertence exclusivamente ao iniciado e é resultado da vivência de cada momento e não pode ser expresso em palavras. É consenso que se a essência da maçonaria fosse transparente para não iniciados, a Ordem já teria desaparecido ou se transformado em mais um dos inúmeros clubes de serviços existentes.

A iniciação maçônica, portanto, dispara esse gatilho do exercício do autoconhecimento e de uma jornada de libertação, consubstanciada na descoberta da verdadeira identidade, do aperfeiçoamento, no sentido de criar oportunidades para o vislumbre de realidades as quais o iniciado ignorava, ao rever hábitos e conduta, de pensar e agir, ajudando-o a construir ou reformar o seu Templo Humano, de forma continuada em busca de progresso permanente ao longo de sua vida, por esforços próprios, gozando da mais estreita fraternidade, onde se torna mais um elo de uma potente corrente de união. A verdadeira iniciação não se endereça senão ao espírito e a meta de todo Iniciado é tornar-se seu próprio Mestre.

E isso é um desafio, pois no outro extremo estaria a manutenção do túmulo onde podemos nos esconder de nós mesmos, representado pela caverna da mente, simbolizando a imersão nas sombras da solidão, das paixões, da ignorância, dos vícios, das tristezas, da inércia, como uma fuga ou medo de enfrentamento da realidade e deixar se levar pela correnteza, tipo “deixa a vida me levar…..”.

As várias iniciações ou viagens espirituais de aprimoramento a que são submetidos os maçons nos Graus Simbólicos e Altos Graus contêm uma metáfora de metamorfose, destruição ou falecimento, reconstrução ou ressurreição, transmitindo uma mensagem de ciclos e renovações contínuas, ou seja, a sua Natureza interior renasce e se purifica. Com a morte simbólica do Candidato/Profano, nasce o Aprendiz; com a morte deste, nasce o Companheiro, e este ao morrer dá lugar ao Mestre, e assim se desdobram em várias alegorias representativas dessas passagens, demonstrando que o Templo Espiritual, onde se rende preito à Virtude, à Filosofia e à Ciência é indestrutível e se apura constantemente por meio de estudos e reflexões sobre a realidade.

Essa alusão constante sobre o tema da morte enseja a construção do novo a partir da superação. Segundo Plutarco (46-120 d.C): “morrer é ser iniciado”. O sentido da iniciação é a renovação, o renascimento após a morte, pois através dela se retorna à Luz interior do seu ser, ao discernimento proveniente do seu pensamento, como novo homem, transformado, livre por sua própria retidão e hábitos edificantes, que se desvinculou por completo do domínio das sombras do mal e da ilusão. Em síntese, o que se procura é atingir um estado de consciência esclarecida pela Luz da Verdade, do Conhecimento, vencendo as ilusões da ignorância.

A maçonaria sempre se apoiou em correntes filosóficas e culturais que possam contribuir para formar o Homem como livre pensador e foi inspirar-se sobre a morte e ressurreição lá nas encenações e performances dos Antigos Mistérios, originárias da Suméria, do Egito e da Grécia, nas iniciações Mitraicas, que fundamentavam lições morais e que não perdem sua originalidade, no sentido de valorização da vida. À época, erigir um templo significava fundar uma escola esotérica. Para Platão, o objetivo dos Mistérios era restabelecer na alma a sua pureza primordial. Como explica o Capítulo III, do Evangelho de São João, morrer para renascer, para “nascer outra vez, de água e espírito”, pois “quem não nascer outra vez não pode ver o reino de Deus”.

No aspecto físico, o templo maçônico é um lugar fechado onde se realizam as reuniões de trabalho. Esse local tem características e símbolos tomados da Bíblia e adaptados em vários graus, com o objetivo de estimular a memória e de transmitir didaticamente uma lição ou moral, ao fazer refletir a filosofia desses elementos no terreno espiritual, conforme detalhado no trabalho “A Influência da Bíblia na Maçonaria”, publicado no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/08/28/a-influencia-da-biblia-na-maconaria/.

A Loja é a própria reunião em si mesma. Para J.M. Ragon, a palavra tem raízes em LOGA e LOGOS, com o sentido de “um lugar onde certas coisas são discutidas”. Na prática, representa a assembleia de maçons, orientados por uma pauta – a Ordem do Dia -, conforme planejamento prévio, seguindo-se uma ritualística orientadora dos trabalhos. No contexto espiritual, o simbolismo da obra que se deve edificar no coração e na mente é o Templo da Virtude, no sentido esotérico representado pela moral, caráter e personalidade, com inspiração na narrativa bíblica contida em 1Cor 3,16. Em Atos 7,48 temos: …“o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens…”.

Assim, a falta do entendimento a respeito do verdadeiro sentido da iniciação maçônica tem contribuído para uma série de conflitos e dissidências no âmbito de várias Lojas, com exceção das nossas, é claro, em especial nas disputas por cargos e reconhecimentos, bem como na relação entre os que já comandaram a Loja e as novas gerações, tudo aliado a problemas de gestão. Não são raros os casos de obreiros que ainda não sabem o que estão fazendo na Ordem, e por consequência, não estudam, não participam das discussões filosóficas, não debatem, enfim, não se envolvem. Quando muito aportaram na maçonaria atraídos pelo seu capital social. (ver artigo em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2015/09/04/o-capital-social-da-maconaria/).

Para esses fica a sugestão de revisitar o “Norte” da Loja, onde começam os Aprendizes, rever atentamente as instruções ministradas naquela “Coluna” e refazer a rota de caminhada, com força e vigor. É um bom exercício, se é que o Templo Individual ainda tenha estrutura consistente que suporte esse desafio da reiniciação, que deveria ser automática. Em caso de vacilo, é só lembrar a resposta para a pergunta sobre o que foi fazer na Maçonaria.

Quem conhece os outros é sábio; quem conhece a si mesmo é iluminado” (Lao-Tse, 570 – 490 a.C)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Publicado em Simbolismo e Símbolos | Marcado com , , , , | 2 Comentários

Uma viagem ao topo do Norte

Resultado de imagem para paisatges d hivern

1 – Introdução: venha conhecer o verdadeiro Norte

Logo após o calor do Natal no verão de 2017 E∴ V∴ passado com a família em Belo Horizonte fui conhecer outro belo horizonte a partir de um ponto de vista no Canadá em pleno inverno. Uma viagem marcante e repleta de primeiras experiências. Primeira vez no Canadá, primeira vez que experimentei a neve, primeira vez que visitei uma Loja fora do Brasil, primeira vez que visitei um Capítulo dos Graus Superiores do Rito de York, primeira vez que vivi num fuso horário com seis horas de diferença do fuso de Brasília, primeira vez numa temperatura abaixo de zero. E que temperatura!!!

O marketing canadense faz um convite, mas também uma provocação: Venha conhecer o verdadeiro norte!

O país é lindo, mas nessa época do ano as cores vibrantes são encontradas nos letreiros das lojas, nas roupas de inverno, nas pranchas de snowboarding, nos óculos de sol. Sim, os óculos de sol no inverno canadense precisam ter uma proteção extra para evitar queimadura nos olhos decorrentes do reflexo dos raios solares na neve.

Nos quase trinta dias que passei ali o termômetro permaneceu mais tempo marcando entre vinte e dois e vinte e seis graus negativos, mas chegou a marcar -33, -37 e -39º. Também o fotografei em zero e -1º para não me esquecer do efeito dessa temperatura no trânsito após uma temporada de neve.

A paisagem nessa temperatura tem uma beleza singular e certamente bem mais do que os cinquenta tons de cinza do cenário de Portland, no norte americano, romanceado numa famosa trilogia. A arquitetura da cidade de Vancouver é impressionante e uma das mais belas e ousadas que eu já vi. Encontra-se arte até na tampa de um bueiro. Se a folha de Maple é um símbolo apaixonante, o povo é ainda mais com a sua generosidade em tentar entender o parco inglês falado por um mineiro abestalhado por tamanha beleza. A educação deles chega a causar vergonha e inveja, desde o tratamento pessoal utilizando algumas palavrinhas mágicas como “sorry”, “thank you” e “you’re welcome”, passando pelo praticado “merge” nas encruzilhadas e estreitamento de pista pelo trânsito afora e culminando na limpeza da neve no passeio em frente às suas respectivas casas para que os outros não se machuquem ali. E por falar em símbolo e educação, é simbólico perceber que o “você é bem-vindo” deles seja traduzido “por nada” aqui.

No topo do norte, conhecendo um povo e uma cultura diferente, pude redescobrir o Brasil e resignificar muito de nossa cultura e de mim mesmo trabalhando na P∴ B∴.

2 – Especulação: no topo do Norte e ao Sul do Brasil

Nos primeiros dias do janeiro canadense os dias são curtos. O sol aparece por volta das 08h30 da manhã e se põe por volta das 16h30, sendo noite já às 17 horas. A vida noturna numa cidade com cerca de 70 mil habitantes no sul canadense atinge o seu auge por volta das 19h30m e nada mais há a fazer quando o relógio marcar 22h30.

Já no sul do Brasil nessa mesma época do ano os dias são longos com o sol aparecendo por volta das 07h00 da manhã e se pondo por volta das 20h00.

O movimento do sol, do oriente ao ocidente passando pelo sul, favorece o sul no Brasil com a sua luz e intensidade. Se por aqui o sol é sinônimo de calor, por lá não há essa correlação nessa época do ano.

Apesar de o sol cumprir a sua jornada no céu canadense entre 08h30 e 16h30, levando luz e renovando o ciclo diário, nada muda no que tange a sensação da temperatura. Ao meio dia o sol está no zênite, mas lá embaixo todos estão empacotados em seus trajes de inverno, com gorro, botas e luvas para suportar a gélida, porém, deliciosa temperatura de duas ou três dezenas negativas.

No topo do norte além da luz permanecer por pouco tempo, a sua intensidade, ou para mais bem dizer, a sua força e vigor não é percebida como se percebe mesmo no inverno do sul brasileiro.

Há algum tempo a correlação de luz e calor tem sido minimizada por conceitos que marcam o terceiro milênio. Antigamente as lâmpadas mais comuns eram as chamadas incandescentes e nos queimavam as mãos ao serem tocadas quando em pleno uso. Atualmente as lâmpadas da moda são as ditas frias: fluorescentes ou de LED.

Essa também tem sido uma marca simbólica para o terceiro milênio. Trocou-se a especialização de conhecimentos aprofundados em determinadas matérias como marcou o mecanicismo numa época denominada de Modernidade, pela superficialidade das informações rasas em todas as matérias como tem sido a marca da globalização nessa época que eu prefiro denominar por Hipermodernidade enquanto alguns estudiosos ainda insistem no termo Pós-modernidade. Trocou-se o sólido pelo líquido, o fixo pelo móvel, o coletivo pelo individual, o laço social vertical pelo horizontal, o simbólico pelo real. Parece-me que algumas pessoas vivem como algumas águas dos lagos do Canadá: no inverno a água sem movimento se congela.

Por outro lado, nem todo movimento produz o efeito de quebra da inércia e alguns deles servem para manter o sujeito numa mesma posição. Quanto mais se move, mais firme se permanece no mesmo lugar, como um hamster correndo na roda ou como um sujeito dentro de uma piscina que, não sabendo nadar, bate mais rapidamente os braços na esperança de se manter na superfície da água.

Na rotina humana este fenômeno acontece quando se vive correndo no curso do dia e apesar disso não se consegue realizar tudo o que foi planejado, e, ao fim, tem-se a sensação de que o dia foi curto demais. Talvez ainda mais curto do que o dia no inverno canadense. Apesar de se ter vivido 24 horas da mesma forma que se mede o dia há anos, algumas pessoas têm a nítida sensação de que apesar da correria os problemas e as tarefas continuam lá, intactos.

As águas superficiais dos rios canadenses também podem se congelar no inverno, apesar de seu movimento.

3 – Construção: as Luzes e o trabalho na Maçonaria

Em Maçonaria a repetição tem o poder de fixar um conhecimento, ou melhor dizendo, ela tem o poder de fixar um aprendizado, a ponto de o Obr∴ não mais ter que pensar no comportamento em si para executá-lo, pois o mesmo estará gravado na memória. Grosso modo, o que acontece na memória é que gravamos o que aprendemos e lembramos o que gravamos.

Contudo, tal repetição também está no lado negro do Pav∴ Mos∴ já que se pode esquecer do valor simbólico dos objetos, símbolos, sinais, posturas e alegorias. Movimentos e repetições sem valor simbólico pode manter o sujeito estático e permitir o congelamento das águas.

Eis um exemplo:

Pouco antes da primeira das três LLuz∴ de uma Oficina declarar que a mesma se encontra aberta e seus trabalhos em plena força e vigor, um diálogo alegórico acontece entre estas LLuz∴, o qual é acompanhado por todos os OObr∴.

Somos instruídos pela alegoria de que a primeira luz do dia nasce no oriente e, portanto, a Luz no Ori∴ lá ocupa aquele lugar para abrir a Loja, dirigir-lhe o trabalho e esclarecê-la com as LLuz∴ de sua sabedoria nos assuntos de nossa Sublime Instituição.

Assim como o sol se põe no ocidente a segunda Luz ocupa um lugar no Oci∴ para terminar o dia, fechar a Loja, pagar os OObr∴ e despedi-los contentes e satisfeitos.

Nesse sentido, pode-se especular que a força e o vigor dos trabalhos de uma Loja passam pelo crivo dessa segunda Luz que deve avaliar os trabalhos realizados e conceder o pagamento devido a cada Obr∴. Dito de outra forma, é responsabilidade da segunda Luz avaliar os trabalhos realizados, instruir os OObr∴ para que sejam capazes de trabalhar com toda força e vigor, mantendo o respeito, disciplina e ordem, e, por fim, efetuar os pagamentos, incluindo os aumentos de salário e a composição dos cargos de uma próxima gestão, já que ambas as ações são formas de pagamento e reconhecimento pelo trabalho realizado numa certa temporada.

A missão da terceira Luz que ocupa um lugar ao Sul é melhor observar a direção do Sol no seu meridiano, ou a direção dada pela primeira Luz na condução da Loja, chamar os OObr∴ para o trabalho e mandá-los à recreação, a fim de que os trabalhos prossigam com ordem e exatidão.

A primeira Luz é responsável pela sabedoria na direção dos trabalhos, a segunda Luz é responsável pela força dos trabalhos e a terceira Luz é responsável pela beleza do canteiro de obras e pelas tendas repletas de OObr∴ prontos para o trabalho.

Se no inverno canadense a luz do Sol não está em sua plena força e vigor, se no terceiro milênio as luzes frias são moda e fazem parte do conceito de sustentabilidade, o mesmo é insustentável em Maçonaria.

Na Arte Real o trabalho realizado deve sempre estar em sua plena força e vigor, tanto o realizado pelas LLuz∴ móveis quanto o realizado pelos OObr∴ fixos, seja pelos trabalhadores no Oci∴ ou pelos que estão no Ori∴, seja o trabalho coletivo ou individual.

Assim como no Canadá cada morador é responsável em manter o passeio na frente de sua casa limpo de neve, cada Obr∴ é responsável pelas suas próprias ferramentas e pelo seu quinhão no canteiro de Obras que nos concedeu o G∴A∴D∴U∴.

Nesse sentido, uma vez iniciado na Arte Real, uma vez que a Luz foi dada ao Maçom, cada Obr∴ se torna um foco de luz, um luzeiro. Ser luz fria não é uma opção nem mesmo em tempos de Hipermodernidade. A força e vigor do trabalho de cada Obr∴ dependerá do tempo que se dedica na manutenção e no uso de suas ferramentas, em especial, a régua de 24 polegadas.

Antes de terminar, porém, é mister, afirmar aqui que os OObr∴ não trabalham apenas durante as poucas horas de suas reuniões, mas em todo o restante do tempo que passam fora.

Se voltarmos os olhos para a Maçonaria Operativa, rapidamente identificaremos que o termo “lodge” tão mal traduzido em “loja”, assim como aconteceu com o “você é bem-vindo” canadense pelo “de nada” brasileiro, significa, de fato, “tenda” ou lugar de afiar as ferramentas de trabalho. Quando uma Loja se reúne não é uma reunião de OObr∴ no canteiro de obras para realizar o trabalho, mas antes, uma reunião de OObr∴ na tenda para planejar o trabalho, bem como para inspecionar e afiar as ferramentas necessárias para tal.

Visitar o Norte em temporada de dias cinzas e frios é sempre uma boa forma de renovar a força e o vigor, de realinhar a direção, de afiar as ferramentas e de relembrar o propósito do movimento.

O Norte é sempre o ponto inicial de onde se separa, em Maçonaria, os sujeitos dos hamsters.

Autor: Júlio César Mendes Pereira

Júlio é Mestre Maçom da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte.

Referências Bibliográficas

GRANDE LOJA MAÇÔNICA DE MINAS GERAIS. Aprendiz Maçom: Ritual Grau 1 – R∴ E∴ A∴ A∴ [1928]. Belo Horizonte: Infinity, 2017. 162p.
______. Aprendiz Maçom: Instruções Grau 1 – R∴ E∴ A∴ A∴. Belo Horizonte: Infinity, 2012. 88p.
PEREIRA, Júlio César Mendes. COELHO, Solange. Relações Sociais Virtuais: uma leitura psicanalítica. Governador Valadares: UNIVALE, 2010.

Publicado em Simbolismo e Símbolos | Marcado com , , | Deixe um comentário

Maçonaria e Secularismo

Resultado de imagem para secularismo

O secularismo é um conjunto de princípios legais baseados no primado da liberdade de consciência; não é uma arma contra as religiões, nem uma religião civil. A universalidade da lei comum não deve se referir a nenhuma das várias religiões para se impor a todos os cidadãos. Uma loja maçônica é um lugar de aceitação da diferença, de pacificação de intercâmbios. Isso porque a Maçonaria considera que o secularismo é um princípio universal de pacificação social.

A oportunidade que nos é oferecida de questionar aqui as ligações entre a Maçonaria e o secularismo é particularmente bem-vinda.

Princípio emblemático da tradição republicana francesa, sacralizado pela Terceira República e considerado “intangível” até 1940, o secularismo é hoje o lugar de um profundo esquecimento e, no momento em que ele é perigosamente desafiado pelos “fanatismos” e intolerâncias, sejam eles culturais, políticos, econômicos, religiosos, raciais, não é mais propriamente defendido e a pior das confusões reina em torno da noção…

Às vezes, o secularismo é confiscado em favor de um projeto identitário e usado como uma arma contra o Islã. Outras vezes, e ao contrário, pode-se dizer, ele é reduzido a um simples princípio de tolerância a serviço de um projeto multicultural de organização de designações identitárias. Ele é também apresentado como uma espécie de religião civil – aquela daqueles que não teriam nenhuma religião – quando não é visto como uma mera máquina de guerra contra convicções e sentimentos religiosos!… Cada um à sua maneira, todos esses discursos constituem tantas desnaturações do secularismo republicano.

É verdade que em nosso país a Maçonaria é sempre associada ao secularismo. Com suas tomadas de posição vigilantes a cada suposta ameaça, ela seria até vista – sem trocadilho – como “guardiã do templo”! …

A inspiração das lojas

Desde seus primeiros passos, a moderna Maçonaria desenvolve um pensamento universalista.  As Constituições de Anderson – seu texto fundador – anunciam que ela pretende se tornar o “Centro da União, [permitindo] uma amizade sincera entre pessoas que poderiam ter permanecido a uma distância perpétua”, seja por razões políticas, religiosas ou nacionais.

A loja que trabalha nesse “centro da união” é uma comunidade que implementa uma “fraternidade eletiva” em busca do pluralismo social, político e religioso. Ela só pode existir e durar porque é soldada por rituais rigorosos e eficazes.

A Loja Maçônica em trabalho é também um método, uma disciplina que contraria toda a espontaneidade e se opõe a todas as inclinações naturais, para realizar uma mudança de estrutura mental para assegurar a superação de intercâmbios interpessoais em benefício da unidade da loja. É uma contra-cultura tradicional na qual os maçons, protegidos pelo segredo de seus intercâmbios, se tornam tantos “contrabandistas” heterodoxos.

O que esta contracultura propõe é, antes de tudo, o trabalho sobre si mesmo – os maçons falam do seu “templo interior” que torna possível encontrar a unidade interior, reconciliar-se consigo mesmo, a condição primeira para poder para realmente abrir para os outros que eles aprenderam a ver como irmãos e, ao fazê-lo, trabalhar para a melhoria da humanidade – no “templo da humanidade” – Esta contracultura se afirma como um continuidade espiritual, uma tomada de consciência da solidariedade universal.

Ela é o lugar de uma certa igualdade, marca de tolerância e de abertura. Em loja, aceitar a diferença do outro, aceitar sua palavra e a respeitar é, para todo maçom, um requisito absoluto. Mas a tomada em consideração desta alteridade é feita no âmbito de referências comuns que não podem ser transgredidas.

Com suas ferramentas tradicionais de pacificação progressiva das relações, a Maçonaria é, portanto, uma espécie de laboratório de sociedade, laboratório do laço social que faz germinar naturalmente o princípio do secularismo.

Embora supervisionadas de perto, as lojas maçônicas foram, na sociedade política muito fechada do século XIX francês, as únicas associações ativas toleradas e, portanto, naturalmente, os lares subterrâneos do essencial da vida intelectual e política do país. É por isso que, desde a capitulação de Sedan, a República surgirá toda armada de lojas. Léon Gambetta, e todos os Jules, Simon, Grévy, Favre e especialmente Ferry, para citar apenas essas eminentes personalidades da primeira geração republicana, todos vieram diretamente das lojas.

A construção republicana do secularismo

A República tem por ambição uma construção permanente do laço cívico além das designações identitárias de cada um, na busca e preservação do que é comum a todos. No final do século XIX e início do século XX, a Maçonaria será participará verdadeiramente dos combates políticos para a construção do secularismo do Estado e as concepções que ela defenderá não serão diferentes daquelas que a República vai se dedicar a implementar.

O secularismo é um conjunto de princípios jurídicos baseados no primado da liberdade de consciência. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de agosto de 1789, tem a religião por uma “opinião” como qualquer outra (Artigo 1.0), que surge, portanto, exclusivamente da liberdade de cada um. Isso necessariamente decorre da igualdade de todas essas opções espirituais aos olhos da lei e, portanto, a igualdade de todos os cidadãos, independentemente de suas opiniões ou religião. A universalidade da lei comum que não deve se referir a nenhuma das diferentes religiões para se impor ao conjunto dos cidadãos é indispensável.

O secularismo torna-se, assim, um princípio de organização social.  O poder público e a esfera a ele associada, com vistas a constituir, estabelecer e garantir os direitos e liberdades que beneficiarão a universalidade dos cidadãos, deve estar sujeitos a uma reserva absoluta em matéria de opções espirituais.

A esfera privada é a dos indivíduos e das comunidades, livre no respeito a lei.  Cada cidadão devem poder exercer estas liberdades individuais e privadas, que são as liberdades de consciência, de opinião religiosa ou outras – e da expressão, fora do domicilio privado, em nível de espaço civil aberto a todos, no respeito ao direito comum e à ordem pública.

Ao mesmo tempo, o Estado garante a independência dessas duas esferas e da unidade da comunidade política dos cidadãos em torno de valores comuns compartilhados.

Em uma sociedade secular, o reconhecimento do direito de cada um construir e expressar sua diferença é, portanto, sempre concebida em um espaço de relacionamento, confronto e diálogo com os outros. Esse comportamento representa, obviamente, um ideal difícil de construir e alcançar, que produziu em nosso país um modo de vida que é objeto de um consenso duradouro.

Ninguém precisa conhecer as escolhas filosóficas ou religiosas uns dos outros, elas lhes pertencem. Ninguém precisa conhecê-las, especialmente o Estado, que se proíbe de os recensear. Aqui, novamente, a religião é entendida como uma escolha individual, uma opinião – que se pode mudar – e não como um pertencimento. O culto público, que é legítimo, é praticado em lugares que lhe são normalmente reservados  e isso se traduz em nosso país pelo surgimento gradual de uma cultura compartilhada da discrição das expressões religiosas na sociedade civil.

É a própria essência da tradição histórica e jurídica francesa que vê nessa discrição compartilhada a melhor maneira de garantir que todos tenham a oportunidade de viver juntos em uma convivência serena e pacífica, baseada no respeito aos diferentes pensamentos.

Fundamentalmente, se o secularismo francês respeita todas as opções espirituais, é antes de tudo na medida em que elas são expressões da liberdade de consciência dos cidadãos. Assim, a República estará, sem dúvida, menos preocupada expressamente com o indivíduo cuja afiliação a uma comunidade é adquirida do que com o ateu, o agnóstico ou o crente individualista que rompe com seu grupo, porque eles estão sozinhos e sua liberdade precisa da proteção do Estado, que também deve ser capaz de proteger o direito de acreditar e de blasfemar.

Os desafios do presente

A construção republicana se define por seu caráter universalista, do qual o secularismo é uma ferramenta essencial.. Atualmente, assistimos a um ressurgimento de manifestações de afirmação identitária inspiradas na religião, mas que vão muito além das questões de culto, desafiando abertamente o secularismo e os princípios republicanos. E também observamos que a liberdade de consciência e a igualdade de todos recuam e não são mais garantidas em certos espaços privados.

No exato momento em que, portanto, parece que nosso secularismo constitucional devia, sem dúvida, ser exercido, além dos serviços públicos, na proteção do espaço social, “um lugar de compartilhamento sob o olhar dos outros”, em face de demandas urgentes de expressão religiosa, percebemos que o secularismo perdeu muito de sua força simbólica. O Estado republicano tem o dever de se envolver na defesa de projetos universalistas diante  ataques comunitaristas de certos grupos de pressão.

Como as lojas sabem fazer, a República deve se esforçar para criar públicos comuns.  Ela deve saber lutar contra as discriminações com base na igualdade, apresentando o que é comum aos indivíduos e grupos sociais, e não através do reconhecimento identitário, que se fechará como uma armadilha implacável sobre o cidadão e seus direitos.

Um estado neutro, sensível apenas à liberdade do cidadão individual é um modelo moderno e portador de progresso para o futuro. Seu instrumento fundamental é o secularismo, que por si só é capaz de impregnar um pensamento universalista da diversidade, livre da vulgata culturalista que atualmente está se espalhando sem restrições alguma no debate político e na mídia. Ela aparecerá então como um princípio universal de pacificação social.

Autor: Jean-Philippe Hubsch
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Publicado em Maçonaria e religião | Marcado com | Deixe um comentário

Nietzsche e a morte de Deus

As doutrinas esotéricas sugerem que nos primórdios da criação, a humanidade compartilhava dos mesmos símbolos arquetípicos, razão pela qual havia uma unidade cultural que unificava os grupos humanos e os fazia partícipes de um mesmo destino. Nesses áureos tempos, havia uma língua universal, falada por todos os povos, e a humanidade vivia em paz, sob os olhares de deuses bondosos e complacentes.

Foi a partir da multiplicação das línguas que tudo mudou, e nesse dia o mal entrou na terra. Isso é o que dizem as antigas tradições e a Bíblia, no episódio da Torre de Babel, atesta essa velha memória como sendo a experiência básica que destruiu a unidade da raça humana e implantou as diferenças que até hoje se observam.

É possível que o mal tenha realmente entrado no universo quando os homens começaram a “fazer” história, ou seja, a partir do momento em que passaram a compor exercícios semióticos variados, como consequência da multiplicidade de linguagens que se instalou na terra com a multiplicação das famílias humanas. Por essa razão os símbolos deixaram de ser comuns e Deus afastou-se dos homens, pois desse momento em diante, sua história não seria mais que um reflexo das suas próprias consciências, não mais refletindo a Consciência Dele.

É provável, também, que até certo momento na vida dos grupos que povoaram a terra, tivesse sido possível para os homens captar o reflexo da Consciência Divina e com isso interferir nas próprias ações da natureza. Mas isso, como se pode perceber, deixou simplesmente de acontecer a partir de certa época.

É certo que até os tempos de Josué, pelo menos a Bíblia está a indicar isso, Deus parecia estar bem presente na história humana. Grosso modo, parece que a intervenção divina, imobilizando o sol no firmamento para que os israelitas pudessem vencer os amorreus e depois marchar em volta das muralhas de Jericó para derrubá-las com o som de suas trombetas, foi uma das últimas ações diretas da Divindade na história dos homens. Depois dela as intervenções pessoais de Deus na terra escassearam e a partir de certa época não se falou mais nisso. Deus passou a falar com os homens através de seus profetas, isto é, não mais diretamente, como antes fazia, quando se manifestava em tudo e em todos, de tal forma que suas figurações eram tantas que se podia dizer que os antigos povos tinham mais deuses que população.

A doutrina cristã sugere que Deus deixou de falar com o homem “face a face”, como fazia nos tempos bíblicos, em virtude de Ele ter mandado à terra seu próprio filho, que seria o primeiro e último verdadeiro enviado divino, o Cristo. Depois da vinda de Jesus, Deus não precisou mais falar com os homens diretamente, pois toda comunicação entre o céu e a terra seria feita pela Igreja que ele fundou. Esse postulado encontraria fundamento nas palavras de Jesus: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” e na tese que fundamenta as pretensões da Igreja de Roma, segundo a qual Jesus teria dado a Pedro a incumbência de ligar a terra ao céu, e esse prerrogativa ele teria repassado ao Papa.

Aos ouvidos de Nietszche tudo isso soava como uma grosseira usurpação. Entendia ele, que a partir do momento em que os hebreus se apropriaram do conceito de Deus e fizeram de si mesmos os seus eleitos sobre a terra, na verdade eles “mataram” a verdadeira divindade ─ ou seja, a ideia da existência de uma energia que formata e organiza o universo ─ e a substituíram por uma Entidade amorfa e mesquinha que reflete o homem em sua mais abjeta condição. Assim, o Deus judaico-cristão, no entender do polêmico filósofo alemão, nada mais era do que uma cópia modelada no velho patriarca dos antigos clãs, que refletia suas virtudes e defeitos, enquanto as deidades dos antigos povos, que viam a divindade nas forças da natureza, especialmente o sol, eram bem mais representativas e estavam muito mais próximas da ideia que se deve ter de um verdadeiro Deus.

Assim, a partir da oficialização de uma religião como sendo a única verdadeira na face da terra, tudo acontece como se a divindade se desinteressasse do destino dos homens, provocando uma ruptura entre os dois estratos que formam o universo: o divino e o profano. Então matéria e espírito também se separam em duas realidades diferentes e às vezes antagônicas, cada uma vivendo em substratos diversos, com necessidades que muitas vezes se chocam. Dai o surgimento das moléstias psíquicas, causadas por esse descompasso. E também a ansiedade do homem moderno para voltar a esse mundo de harmonia, beatitude e paz que havia antes da queda, ansiedade essa que ele reflete na multiplicidade de religiões e teorias que ele inventou para tentar falar novamente com Deus face a face.

Mas para que Deus se daria ao trabalho de se comunicar com os homens se Ele agora tem emissários oficiais para isso? Assim, a partir do advento das religiões reveladas, a presença de Deus entre os homens foi considerada desnecessária e por isso o Zaratustra de Nietzsche pode dizer: “Deus morreu. Eu vos anuncio o Super-Homem.”[1]

Sim, porque o pensamento de Nietzsche era exatamente esse. O homem, se quisesse voltar à era dourada dos seus primeiros tempos teria de abandonar a crença estereotipada que a religião judaico-cristã lhe impusera. Por que essas crenças haviam criado um homem fraco, senil, subserviente e incapaz de cuidar de si mesmo. Esse era o homem do Velho Testamento, que vivia sob o tacão de um Deus cruel, ciumento e injusto, que era capaz de fazer seletivas entre a própria família que Ele criou, privilegiando uns e relegando todo o resto a uma cruel exclusão. E tudo isso culminou depois numa outra crença mais limitante ainda, que levou os homens a se transformarem em vermes do seu próprio cadáver. Essa crença foi o Cristianismo, com sua falsa noção de valores, socializando a fraqueza, a fome, a servidão e a covardia. Por isso, diz Nietzsche, os cristãos eram vermes e o seu deus um pastor de larvas. Essa foi a crítica mais ácida e contundente do irrequieto filósofo alemão, e foi esse pensamento que encantou Hitler e seus “guerreiros do fogo”. E desse ponto de vista é possível entender o Holocausto que ele provocou, especialmente em relação aos judeus.

Autor: João Anatalino

Nota

[1] – Friedrich W. Nietzsche- Assim Falava Zaratustra, Ed Hemus, São.Paulo,1979. Evidentemente, essa é uma opinião do próprio Nietzsche, que desprezava as doutrinas judaico-cristãs. O Zaratustra histórico (Zoroastro) jamais diria uma coisa dessas, pois na verdade, a doutrina que ele pregava (O Mazdeímo) era altamente espiritualista e em nossa opinião, foi a precursora do Cristianismo. Sobre esse assunto ver a nossa obra “Mestres do Universo”, publicada pela Biblioteca 24×7. Nietzsche era o filósofo favorito dos nazistas e dos anti-semitas que os precederam.

Publicado em Filosofia | Marcado com , , | Deixe um comentário

Take my hand; follow me.

Imagem relacionada

When I was a young man, a long time ago,
The secrets of Masonry I wanted to know.
Of a Mason I asked what those secrets might be.
He replied,”First, we talk, then we will see.”

A petition he granted and ordered it filled
To be read at a meeting and a judgment be willed.
Then questions I answered about God and home;
Of habits and friends; a wife or alone.

In time I was summoned – a date to appear
Before an assembly of men gathered near.
I entered the building and looked up the stair;
Does pleasure or pain await me up there?

A hazing by paddle, taunting by joke?
My petition accepted or maybe revoked?
Introductions and handshakes welcomed me there
And lessons symbolic, an aid to prepare

For a journey in darkness, a predestined plight
To a Holy of Holies, the source of all light.
How well I remember what I heard someone say,
To enter God’s Kingdom there is but one way;

Be ye naked and blind, penniless and poor;
These you must suffer ‘fore entering that door.
The journey ahead is not yours to know,
But trust in your God wherever you go.

Then assurance from the darkness whispered tenderly,
“My Friend, be not afraid;
TAKE MY HAND;
FOLLOW ME.”

With nervous attention a path I then trod;
A pathway in darkness to the altar of God.
With cable-tow and hoodwink, on bare bended knee,
A covenant was made there between God and me.

Charges and promises were made there that night.
Dispelling the darkness and bringing me light.
Mid lightening and thunder and Brethren on row!
Cast off the darkness! And cast off the tow!

In the company of men, a man you must be,
Moral in character, the whole world to see.
Trust in your God, promise daily anew
To be honest and upright in all things you do.

Each man is a brother in charity to share
With those suffering hunger, pain or despair.
The widow and orphan and brother in pain
Depend on your mercy their welfare to gain.

The secrets of Brethren keep only in mind.
To the ladies of Brethren be noble and kind.
Go now, my brother, your journey’s begun
Your wages await you when your journey is done.

That journey I started, Oh, so long ago
And I’ve learned of those things I wanted to know.
I’ve learned of the secrets, not secret at all,
But hidden in knowledge within Masons’ hall.

Childhood yields to manhood, manhood yields to age,
Ignorance yields to knowledge, knowledge yields to sage.
I’ve lived all my life the best that I could,
Knowing full well how a good Mason should.

I know of those times when I slipped and then fell.
What’s right and what’s wrong were not easy to tell.
But a trust in my God and a true brother’s hand.
Helped raise me up and allowed me to stand.

I’ve strode down the old path, Masonically worn
By all Mason’s raised for the Masons unborn.
But this tired old body, once young and so bold,
Now suffers the afflictions of having grown old.

The almond tree’s flourished; the grinders are few.
The housekeepers tremble; desires fail too.
The locusts are a burden; fears are in the way.
The golden bowl is breaking, a little every day.

Mine eyes are again darkened, my sight again to fail;
I sense the Master’s presence mid my family’s silent wail.
I’ve laid aside my working tools, my day is nearly done.
For long I’ve played the game of life; the game’s no longer fun.

Life’s pathway ends before me. I see what’s meant for me;
An acacia plant is growing where a beehive used to be.
The Ethereal Lodge has summoned from beyond the wailing wall
And I vowed that I must answer when summoned by a call.

Again I stand bewildered at the bottom of the stair
In nervous apprehension of what awaits me there.
Once again, and now alone, I stand without the door.
With faltering hand, I slowly knock as once I did before.

I pray again to hear those words,
whispered tenderly,
“My son, be not afraid.
TAKE MY HAND;
FOLLOW ME.”

Autor: Sir Knight Alvin F. Bohne, P.M.

Publicado em Maçonaria, Sobre Ritos e Rituais | Marcado com , , , | 1 Comentário

Booz ou Boaz?

Resultado de imagem para matrimonio de la ley del leviratoRuth and Boaz – David Wilkie Wynfield (1879)

Nas Lojas brasileiras muito se confunde quanto à forma correta do nome Boaz, uns dizendo Booz, outros Boaz. Neste texto, eu procuro mostrar duas coisas. Primeiro, que o correto é Boaz, o que, aliás, é trivial, pois, para tanto basta observar a pronúncia hebraica. Em segundo lugar — e principalmente — , eu procuro dar uma explicação sobre o porquê de os tradutores antigos, ao escreverem a Septuaginta e a Vulgata, optaram pela transliteração incorreta do nome.

O termo Boaz aparece 18 vezes no Livro de Ruth, 3 vezes nas Crônicas, 1 vez em 1 Reis, 1 vez em Mateus e 1 em Lucas.

Na edição maçônica norte-americana da Bíblia Sagrada (Heirloom Bible Publishers, Kansas), o termo é Boaz. Na Encyclopedia of Freemasonry, de Albert Mackey (1917), é Boaz. Em Light on Masonry, de Elder D. Bernard (1828), é Boaz. O Manual of Freemasonry, de Richard Carlile (uma exposée da Maçonaria publicada aos poucos na revista The Republican, em 1825), é Boaz. No The Complete Ritual of the Scottish Rite Profuselly Illustrated, editado por um Soberano Grande Comendador (anônimo), 33o, e complementado por J. Blanchard, no século XIX (sem data), é Boaz. Em Morals and Dogma, de Albert Pike (1871), é Boaz.

Em todas as obras antigas, enfim, o termo é Boaz. Isso não nos surpreende, se observarmos que na escrita hebraica massorética, o que temos é בֹּ֫עַז (Bṓʿaz) e que, além disso, não existem vogais repetidas no Hebraico, de modo que Booz é uma pronúncia incorreta. Nos tempos modernos, o Irmão Harry Carr, em seu artigo “Pillars and globes, columns and candlesticks”, publicado em Ars Quatuor Coronatorum, Transactions of the Quatuor Coronati Lodge №2076 London, em 2001, e apresentado antes na Vancouver Lodge of Education and Research, em 20 novembro de 1998, é Boaz. Nesse artigo, Harry Carr reproduz alguns trechos de exposées publicadas entre 1760 e 1765, nos quais o termo é Boaz.

Por que, então, alguns autores nacionais insistem que o correto é Booz ou, quando muito, que tanto pode ser Booz quanto Boaz? Há duas razões para esse erro. O primeiro deles — e mais óbvio — é o desconhecimento do Hebraico. Em geral o argumento usado é que na escrita hebraica antiga não existiam vogais até o surgimento dos sinais massoréticos (século X), o que, segundo eles, justificaria qualquer pronúncia. Porém, não atentam para o fato de o Hebraico não admitir vogais repetidas, o que prontamente elimina Booz, de modo que, neste caso, a suposta ambivalência não existe.

A segunda razão está nas traduções portuguesas da Vulgata. De fato, na Vulgata o termo é Booz. Se São Jerônimo (347–420 d.C.) traduziu o Antigo Testamento diretamente do Hebraico para o Latim, por que optou por Booz e não Boaz? Só vejo duas explicações. Primeiro, em sua época, ainda não existiam os sinais massoréticos, que indicam as vogais. Somente alguém absolutamente fluente em Hebraico poderia ler corretamente o texto hebraico. São Jerônimo, porém, era ilírio e só aprendeu Latim e Grego no início de sua vida adulta. Quando maduro, mudou-se para Jerusalém para estudar Hebraico. É bem provável que, diante de uma dúvida, consultasse a Septuaginta, a versão grega da Bíblia, que também traz Booz (Βοος, que deve ser lido como Βοός, pois não é possível, por razões morfológicas, dizer Βόος em Grego).

Nessa série encadeada de porquês, surge mais um. Por que a Septuaginta traz Booz e não Boaz? Por uma razão muito simples. Boaz é nome próprio e é oxítono. Em Grego, um nome próprio masculino pode terminar em –ας, como ὁ Ξανθίας (cuja pronúncia é ksanthías, donde veio o nosso Xântias), mas não pode jamais ser oxítona. O mesmo ocorre com os substantivos terminados em –ας, como ὁ νεανίας (o jovem), que não podem ser oxítonos. Por outro lado, substantivos terminados em –ος podem ser oxítonos, como θεόϛ (theós, pronuncie the-ós, com o th ligeiramente aspirado).

Dessa forma, os sábios que verteram a Bíblia para o Grego podem ter optado por Booz (Βοός) em vez de Boaz apenas para preservação do acento tônico na última sílaba, uma exigência natural se a intenção era não desvirtuar demais a pronúncia de um nome próprio e fazê-lo ser entendido pelo leitor ou ouvinte grego. Em outras palavras, se a intenção era fazer a história bíblica minimamente inteligível ao grego, os tradutores tinham de resolver a seguinte questão: ou preservavam a grafia BOAZ mas trocavam o acento tônico da última para a penúltima sílaba (ou seja, Bóaz) ou trocavam Boáz para Boós e preservavam a oxítona. O nome Boáz, oxítono, soaria muito estranho ao ouvido grego, mas não Boóz e tampouco Bóaz. O que é mais próximo de Boáz: Bóaz ou Boóz? Eles julgaram que era Boóz. Dessa forma, São Jerônimo, mesmo que estivesse ciente da correta pronúncia hebraica, pode ter optado por Booz por influência da Septuaginta, tendo preferido, sabiamente, manter uma coerência entre a versão latina e a versão grega já estabelecida há séculos.

Os autores maçônicos antigos devem ter sabido disso, pois todos, no mínimo, eram fluentes em Latim, com boas noções de Grego e alguns até de Hebraico, além de, sendo em sua maioria protestantes, terem em mãos a versão protestante da Bíblia, que, ao contrário da Vulgata, trazia Boaz, graças ao gênio de Lutero. Textos não-maçônicos também trazem Boaz, como Historiarum Totius Mundi Epitome, seção 16, de Cluverius Johannes, de 1667.

Conclui-se, assim, que a pronúncia correta é Boaz e que, além disso, Booz é apenas a herança de uma característica fonética do idioma Grego, que herdamos por intermédio da Vulgata. A opção pelo aparente erro fonético se deve à perspicácia dos antigos tradutores, convictos que estavam de tornar esse e outros nomes hebraicos inteligíveis aos ouvidos gregos, sem prejuízo do significado mais profundo das histórias que traduziam.

Autor: Rodrigo Peñaloza

Rodrigo é  Ph.D em Economia pela University of California at Los Angeles (UCLA), M.Sc. em Matemática pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e Ba. em Economia pela Universidade de Brasília (UnB). É professor adjunto do Departamento de Economia da UnB, Mestre Instalado, filiado à Loja Maçônica Abrigo do Cedro n.8, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica do Distrito Federal.

Fonte: Medium

Publicado em História, Maçonaria, Maçonaria e religião | Marcado com , , , | 1 Comentário