Orfeu, Orfismo e Mistérios Órficos

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Orfeu (descendo do morro para a cidade [o inferno]) :

“Não sou daqui, sou do morro. Sou o músico do morro. No morro sou conhecido – sou a vida do morro. Eurídice morreu. Desci à cidade para buscar Eurídice, a mulher do meu coração. Há muitos dias busco Eurídice. Todo mundo canta, todo mundo bebe: ninguém sabe onde Eurídice está. Eu quero Eurídice, a minha noiva morta, a que morreu por amor de mim. Sem Eurídice não posso viver. Sem Eurídice não há Orfeu, não há música, não há nada. O morro parou, tudo se esqueceu. O que resta de vida é a esperança de Orfeu ver Eurídice nem que seja pela última vez”.

Orfeu da Conceição – Vinícius de Moraes

Introdução

O mito de Orfeu exerce uma atração fascinante no imaginário da cultura ocidental, tanto no passado como no presente. A primeira ópera conservada até hoje em sua totalidade é o L’Orfeo de Cláudio Montiverdi, estreada em Mântua em 1607. O primeiro balé alemão – Orpheus und Eurydice – foi criado por Heinrich Schütz em 1638. Glück, no século XVIII, criou Orfeo ed Eurídice. No século XIX, Offenbach, não nos legou somente Os Contos de Hoffmann, mas também um Orfeu no Inferno. Orfeu foi tema para os seguintes musicistas: Liszt, Benda, Paer, Milhaud, Malipiero, Casella, Krenek, Birtwistle e Stravinsky. O cinema, no século XX, apresentou-nos os dois Orfeus (Orpheus [1949] e Le Testament d’Orphée [1959]) de Jean Cocteau e o carnavalesco Orfeu Negro (1959) de Marcel Camus, premiado com a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar em Hollywood, baseado na peça de Vinícius de Moraes – Orfeu da Conceição, testemunhando a modernidade do tema. Folheando-se os jornais hoje (maio/1999), depara-se com o último filme de Cacá Diegues – Orfeu – e o último livro de Salman ”Versos Satânicos” Rushdie – O Chão Que Ela Pisa – que, segundo a crítica, é um mergulho no universo pop e traz à tona o mito de Orfeu. Já que se passou para a literatura, não se pode deixar de citar o maior poeta lírico grego – Píndaro; Platão na República, no Górgias e no Banquete; as Geórgicas de Virgílio (principalmente o Livro IV); o Paradise Lost (Canto VII) e o L’Allegro (145) de Milton; as Pastorals de Pope; o romântico Novalis e o nosso brasileiríssimo e monumental poema barroco (no dizer de Murilo Mendes) de Jorge de Lima: Invenção de Orfeu (1952). Na pintura, o poeta Guillaume Apollinaire, em 1912, criou um termo – cubismo órfico – que influenciou Robert Delaunay, Fernand Léger, Francis Picabia e Marcel Duchamp.

O porquê desta orfeumania é o que se tentará enfocar neste artigo.

Lendas sobre Orfeu

Numerosas fontes históricas relatam a existência dos mitos órficos. Tudo leva a crer que não era conhecido de Homero (antes de 700 a. C.) mas, já no século VI, aparece em algumas tradições. O primeiro escritor grego a fazer menção ao “célebre Orfeu” foi Ibykos em meados do século VI. a. C. A lenda de Orfeu coloca-o como um dos principais poetas e músicos da época heroica, ao lado de Homero e Hesíodo. Determinou a existência de uma religião especial – o orfismo – e de uma seita – os órficos – que se expandiu por todo o mundo grego e a Itália meridional.

Encontram-se alusões ao mito em Píndaro, Ésquilo, Eurípedes, Empédocles etc. É, contudo, o já citado Platão que o entroniza na República em plena época clássica (século IV a. C.). Ele e os neoplatônicos influenciaram vigorosamente o pensamento cristão. A humanidade herdou três obras completas, numerosos fragmentos e uma longa lista de obras, efetuadas pelo lexicógrafo grego Suidas, atribuídas ao próprio Orfeu.

Orfeu, do grego Oρφεύς, é um herói lendário grego dos tempos antigos com extrema habilidade na música, no canto e na poesia e que se tornou o patrono de um movimento religioso ritualizado por um corpus de escritos sagrados que teria sido composto pelo próprio.

Remanescem dúvidas se Orfeu teria sido um personagem histórico. A lenda, contudo, reza que teria nascido na Trácia e era filho de uma Musa (provavelmente Calíope, patrona da poesia épica e a mais importante das musas) e Eagros, rei da Trácia. Outra versão, apresenta-o como filho do próprio Apolo.

Orfeu é considerado como o maior músico da antiguidade, não só pela música como pelo canto. Todos os poetas antigos celebraram sua lira e sua cítara, pois, até mesmo esta, teria sido inventada ou aperfeiçoada por ele, pois aumentou-lhe o número de cordas, de sete para nove, numa homenagem às Nove Musas. Seus acordes eram tão melodiosos que os homens e os animais quedavam paralisados para o escutar. Os animais ferozes deitavam-se a seus pés como cordeiros; as árvores vergavam para melhor escutá-lo; os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de ternura e bondade. Educador da humanidade, conduziu os trácios da selvageria para a civilização. Iniciado nos ‘mistérios’, completou sua formação religiosa e filosófica viajando pelo mundo. Ao retornar do Egito, divulgou na Hélade a ideia da expiação das faltas e dos crimes, bem como os cultos de Dioniso e os mistérios órficos, prometendo, desde logo, a imortalidade a quem neles se iniciasse.

Juntou-se à expedição dos Argonautas, assim chamados por causa do navio Argos no qual embarcaram para a Cólquida em busca do Tosão de Ouro. Este célebre navio transportou a fina flor da mocidade grega, cerca de 55 heróis, dos quais cita-se: Jasão, promotor e chefe da empresa, Héracles (que participou só no começo da missão), Argos, Castor e Pólux, Deucalião, Glauco, Laertes, pai de Ulisses, Oileu, pai de Ajax, Peleu, pai de Aquiles, o nosso poeta Orfeu e muitos outros. Teve participação expressiva, pois salvou-lhes a vida em diversas oportunidades: seja acalmando o mar encapelado; seja dando cadência, com a sua música, aos remadores; seja entorpecendo o dragão da Cólquida, o guardião do Tosão de Ouro, ao som de sua cítara; seja recobrindo a música maléfica das Sereias com o som de seu instrumento. Passaram pelo Helesponto, pelo Ponto Euxino, pelas Ciâneas (recifes móveis) também chamadas de Simplégades, por Cila e Caribdes etc. No tocante as Simplégades, seria interessante relacionar seu simbolismo aos ritos de iniciação. Spencer diz que:

“As Simplégades, eram duas rochas em luta, na entrada do Mar Negro, e por entre as quais Jasão e os Argonautas tinham de passar em seu barco. As Simplégades simbolizam a passagem para um outro mundo e têm uma tripla significação: elas representam o guardião do umbral; representam o terror do umbral e a ameaça de deixar a familiar condição mundana; quando a passagem é realizada, elas representam a união dos opostos. Quando o homem deseja transferir-se deste mundo para outro, ele deve passar através de um intervalo sem dimensão e sem tempo, que divide duas forças relacionadas porém contrárias. No momento real da passagem, o herói abraça ambas as forças e deste modo anula os opostos. Nesse preciso momento ele se encontra no outro mundo” (Spenser, pg.31).

Mircea Eliade também dedica grandes parágrafos ao simbolismo iniciático das Simplégades (Eliade, 1975, pg. 108).

Ao regressar da expedição dos Argonautas, casou-se com a ninfa Eurídice a quem amava perdidamente. Acontece que no dia de suas núpcias, o apicultor Aristeu tentou violar a esposa de Orfeu. Eurídice, ao fugir de seu perseguidor, pisou em uma serpente que a picou, causando-lhe a morte. Possuído por um desgosto inconsolável, o poeta deixa de cantar e tocar e permanece em silêncio soturno pela morte da esposa. Resolveu, então, descer às profundezas do Hades, para trazê-la de volta ao mundo dos vivos. Orfeu desce aos infernos, nos versos imortais de Virgílio e, com sua cítara e sua voz divina, encantou de tal modo o mundo plutônico que a roda de Exíon parou de girar; o rochedo de Sísifo deixou de oscilar; Tântalo esqueceu a fome e a sede e as Danaides descansaram de sua faina eterna de encher os tonéis sem fundo. Às margens do Styx, tange de tal modo sua cítara que Caronte e Cérbero deixam-no atravessar o rio. Comovidos com tamanha prova de amor, Plutão e Perséfone concordaram em devolver-lhe a esposa. Impuseram-lhe, contudo, uma condição penosa: ele seguiria à frente e ela lhe acompanharia os passos. Enquanto caminhassem pelas trevas infernais, acontecesse o que fosse, Orfeu não poderia olhar para trás, até que o casal transpusesse os limites do império das sombras. Orfeu aceita a imposição e inicia a sua peregrinação. Estava quase alcançando a Luz quando uma dúvida lhe assalta o cérebro: e se tudo não fosse uma enganação dos deuses? E se sua amada não estivesse atrás dele? Acutilado pela incerteza, olhou para trás, transgredindo a ordem dos deuses. Ao voltar-se, viu Eurídice, esvaindo-se para sempre, “morrendo pela segunda vez…”. Tentou ainda retornar, mas o barqueiro Caronte foi implacável na sua recusa.

Inconsolável, tomado de amor pela sua musa, o vate passa a repelir todas as mulheres da Trácia. Por causa disso, uma vertente da lenda rezava que Orfeu foi estraçalhado pelas enfurecidas mulheres do seu torrão. A outra vertente, afirmava que tinha sido esquartejado pelas Mênades por ter abandonado o culto de Dioniso pelo de Apolo. Sintomático é que em ambas as versões, nota-se uma certa similaridade com o esquartejamento de Osíris e a junção dos pedaços por Ísis no Antigo Egito. É o tema da degradação do ovo original.

Sua cabeça foi lançada ao rio Hebro, cantando e recitando em versos órficos, o nome de sua amada. Desgostosos com esse crime, os deuses resolveram castigar o país com uma grande peste. Consultado o oráculo de como acalmar a ira divina, foi dito que o flagelo só terminaria quando se encontrasse a cabeça de Orfeu e lhe fossem prestadas honras divinas. Após longas buscas, um pescador encontrou a cabeça na embocadura do rio Meles, na Jônia, onde foi erguido um templo em homenagem a Orfeu, cuja entrada era proibida às mulheres. Se a lira do poeta foi parar na ilha de Lesbos, berço principal da lírica grega, pespegaram-na também no firmamento onde se tornou a Constelação da Lyra, que tem Vega como uma das estrelas de primeira grandeza.

Comentários sobre o Mito

Orfeu dirigiu-se ao Hades para buscar Eurídice morta. E aqui convém salientar que pela cultura cristã, imagina-se o Hades, o mundo inferior, como o inferno. No orfismo, a topografia do Hades está divida em três regiões:

  • o Tártaro, a parte mais abissal, profunda, ou seja, infernal, pois os castigos eram cruéis e violentos;
  • o Érebo, com castigos não tão horrendos como o Tártaro; e
  • os Campos Elísios, destinados àqueles que, tendo passado pelos horrores dos dois primeiros, aguardavam o retorno.

Ao descer à mansão do Hades, Orfeu teria trazido Eurídice de volta ao mundo dos vivos se não tivesse olhado para trás, ou seja, mostrou estar ainda preso ao passado, à matéria, enfim, a Eurídice.

“Um órfico autêntico, segundo se verá mais adiante, jamais ‘retorna’. Desapega-se, por completo, do viscoso do concreto e parte para não mais regressar. Certamente o citaredo da Trácia ainda não estava preparado para a junção harmônica e definitiva com sua anima Eurídice. Seu despedaçamento pelas Mênades, supremo rito iniciático, o comprova. Como Héracles, que, apesar de tantos ritos iniciáticos e até mesmo uma catábase [ida] ao mundo das sombras, somente escalou o luminoso Olimpo após uma morte violenta numa fogueira no monte Eta. Orfeu olhou para trás, transgredindo o tabu das direções. Estas, bem como os lados e os pontos cardeais, possuíam, nas culturas antigas, um simbolismo muito rico.” (Brandão, vol.II, pg. 144).

Convém comparar essa parte do mito com o Gênesis (19, 17-26) quando os dois anjos recomendam a Lot que não olhasse para trás quando fugisse com sua família da destruição de Sodoma e Gomorra. Ao fugirem, a esposa de Lot olhou para trás e foi transformada numa estátua de sal. Este olhar para trás dela representa a volta ao passado, o apego a uma cidade do pecado. A desobediência, tanto a Javé como a Plutão, causa a desgraça do infiel.

Na macumba, após o despacho na encruzilhada, quem elabora nunca deve olhar para trás. As culturas tradicionais sempre privilegiaram o silêncio e o interdito do olhar para trás: seja o agricultor ao plantar; a mulher ao fiar o tecido; o coveiro ao abrir a sepultura; os desfilantes ao acompanhar o cortejo fúnebre.

Com a harmonia (em grego, harmonia significa junção das partes) perdida ou rompida, Orfeu não mais podia tanger a lira e o seu canto perdeu a magia. Perdeu tudo: Eurídice, a música, o canto, ele mesmo.

O despedaçamento de Orfeu está ligado a ritos antiquíssimos, pois como se sabe, o neófito ou iniciado, despedaçava um animal e o comia, para significar seu renascimento em Dioniso ou algum deus tribal. O rito frenético de Dioniso, executado pelas bacantes, reflete a originalidade do deus no panteón bem comportado da religião estatal grega. A participação das bacantes demonstrava que Dioniso era um deus das mulheres. Tanto assim que uma delegação de mulheres atenienses, a cada três anos, se dirigia ao campo para serem possuídas pelo charme e a ‘folia’ do deus, longe das cidades, corriam e dançavam ao som de uma flauta, sobre as montanhas e as florestas.

A cabeça de Orfeu sendo lançada ao rio Hebro também tem um significado lapidar. A cabeça sempre foi considerada, nas mais diversas culturas, como uma das partes mais nobres e sagradas do ser humano, pois hospedava a alma. Possuir a cabeça de um inimigo, quanto maior a hierarquia maior a honra; era um troféu digno de um rei ou de um chefe tribal. Os deuses somente deram descanso aos mortais depois que foi encontrada a cabeça de Orfeu e lhe foram prestadas honras fúnebres. Mesmo decapitada, a cabeça continuava a viver, pois é o símbolo da voz, do verbo, da imortalidade.

Orfismo

Possui-se hoje uma visão razoável do orfismo através dos diversos escritos, principalmente os textos de Platão e Virgílio que o integraram no seio de suas obras. O orfismo é um movimento religioso complexo onde se detectam influências dionisíacas, pitagóricas, egípcias, apolíneas e obviamente orientais.

O orfismo oscila entre Dioniso, que sempre desejou romper a camisa de força da religião tradicional da pólis grega, e Apolo, que corrigia os excessos e os desvarios dionisíacos. Esta aproximação que Orfeu faz dos dois deuses antagônicos tem um certo sentido: segundo Eliade, o espírito grego exprime por ela sua esperança de encontrar uma solução às crises desencadeadas pela ruína dos valores das religiões homéricas.

Rejeita daquele os ritos, nos quais os iniciados despedaçavam a vítima viva e ainda palpitante, e a consumação imediata da carne e do sangue do animal, pois eram radicalmente vegetarianos. A antropologia órfica tem como consequência o crime dos Titãs, contra Zagreu, o primeiro Dioniso, a mando da ciumenta Hera. A mitologia conta que Dioniso-Zagreu era filho de Zeus com Sêmele, uma mortal que, aconselhada pela deusa esposa Hera, pediu a Zeus que o queria ver com os olhos mortais, o que era um verdadeiro suicídio. Ao se apresentar a Zeus, a mortal não pôde suportá-lo em toda a sua radiante epifania. Morreu carbonizada e o feto foi recolhido por Zeus e agasalhado em sua coxa até o nascimento. Mais tarde, os Titãs, ainda a mando de Hera, após raptarem Zagreu, mataram-no e cozinharam-no num caldeirão. Em seguida, o devoraram-no. Zeus, possesso, fulminou os Titãs, transformando-os em cinzas. Dessas cinzas, nasceram os homens, com sua dupla natureza: o mal advindo de sua natureza titânica e o bem, representado pelo menino Dioniso-Zagreu que os Titãs tinham devorado. A chispa do divino, que o homem carrega dentro de si, advém pois de Dioniso, deus da fertilidade e também da morte. Na religião dionisíaca, inexiste, contudo, esperança escatológica, enquanto o orfismo é essencialmente soteriológico. Além do mais, o êxtase dionisíaco manifestava-se de modo coletivo tanto quanto o orfismo é, por princípio, individual.

De Apolo, herdou uma componente da catarsis, ou seja da purificação, tão praticada no oráculo apolíneo de Delfos, mas era radicalmente contra a weltanschauung de Apolo. Este comandou a religião estatal com mão-de-ferro, freando qualquer inovação que significasse um rompimento com o métron, tão conhecidos na lição apolínea por excelência: ‘conhece-te a ti mesmo’ e ‘nada em demasia’. A inteligência, a ciência e a sabedoria são consideradas pelos epígonos de Apolo como modelos divinos. A serenidade apolínea tornou-se, para o homem grego, o emblema da perfeição. A divergência residia até mesmo na catarsis, enquanto em Apolo, esta visava prioritariamente a purificar o homicídio. Os órficos purificavam-se nesta e na outra vida, visando libertar-se do ciclo das existências. A religião apolínea era o bem viver; a órfica, o bem morrer.

Os órficos substituíram a ‘folia’ dionisíaca pela catarsis apolínea. Através da prece e da oferenda, a purificação – catarsis – é um dos ritos principais das religiões antigas. Tudo que é impuro provoca a repulsão dos deuses e, por impuro, entende-se tanto a alma quanto o corpo. Convém notar que, por purificação, entende-se tanto a individual como a coletiva. Na antiguidade grega, quando se cometia um crime, o castigo recaía não só sobre o criminoso como sobre todo o seu clã. Assim, uma pretensa purificação de um crime, tinha que ser não só individual como coletiva. Ao contrário dos cultos dionisíacos, os apolíneos eram públicos, pois rejeitavam os mistérios das iniciações e dos ritos secretos. Por sinal, conhece-se muito pouco destes ritos secretos e destas iniciações órficas. Eliade nota uma semelhança entre os ritos apolíneos e os xamânicos, pois ambos procuram o conhecimento, a sabedoria e a exaltação do espírito, ao contrário das histerias (no sentido grego) e das possessões dionisíacas. Os órficos resolveram o problema da culpa de forma original na cultura grega: a culpa é sempre de responsabilidade individual e por ela se paga aqui; quem não conseguiu purgar-se nesta vida, pagará por suas faltas no além e nas outras reencarnações até a catarsis final.

A semelhança entre o orfismo e o pitagorismo, nos aspectos religiosos, é por demais sintomática: o dualismo corpo-alma, a crença na imortalidade da alma, a metempsicose, a punição no Hades, a glorificação final da psiqué nos Campos Elísios, o vegetarianismo, o ascetismo e a importância das purificações. Por outro lado, o orfismo era menos elitista do que o pitagorismo, menos esotérico e não se imiscuía em política.

Orfeu é essencialmente um reformador. O orfismo quebra com a religião homérica, principalmente no tocante à sua teogonia. Salienta-se que a teogonia de Homero foi transmitida pelos rapsodos gregos. Sumariamente, a teogonia órfica afirma o seguinte: na origem estava Cronos (o Tempo) e dele saíram o Éter e o Caos que geraram o Ovo Cósmico, um ovo de prata imenso (daí a proibição de se comerem ovos). Desse Ovo surgiu o deus andrógino Fanes, mais tarde chamado de Eros. Após seu nascimento, a parte superior do ovo tornou-se o céu e a parte inferior, a terra. Fanes criou a lua e o sol, o outros deuses e o mundo. Zeus, contudo, engole Fanes e toda a criação. Houve a produção de um mundo novo, tornando-se, a partir daí, o criador único. Um papiro, descoberto em 1962, revela uma teogonia ainda mais radical: um verso, atribuído a Orfeu, proclama que “Zeus é o começo, o meio e o fim de todas as coisas”. A seguir, Zeus criou um numeroso panteão no qual é preciso salientar Dioniso-Zagreus que terá realce fundamental no culto do orfismo.

É importante aqui salientar o caráter monoteísta dessa teogonia que representa uma ruptura importante com os mitos olímpicos advindos dos rapsodos homéricos. O orfismo propugna por uma noção de um deus criador, soberano, simbolizando a vida universal. Contudo, o rompimento mais radical com o mito homérico é na parte escatológica, ou seja, na ciência dos fins últimos do homem, naquilo que deverá seguir à vida terrestre. A descida ao Hades, simboliza a vida após a morte. A concepção órfica da imortalidade advém de um crime primordial: a alma está enterrada no corpo como se fosse um túmulo (soma-sema, que significa em grego corpo-túmulo). Como consequência, a existência encarnada se assemelha mais a uma morte e o falecimento constitui o começo da verdadeira vida. Esta verdadeira ‘vida’ não é obtida automaticamente; a alma será julgada segundo as suas faltas e os seus méritos. Após um certo período, ela reencarna. A influência egípcia – julgamento de Osíris e reencarnação – é insofismável no orfismo. Nessa via crucis de reencarnação em reencarnação, até mesmo em corpo de animais, a alma vai se purificando. Nesses intervalos reincarnacionistas, a alma chega a demorar uns 1000 anos no castigo do inferno, onde sofre um ciclo de pesadas penas. Quando completamente purificada, sai desse ciclo de gerações para reinar entre os heróis. O destino, obviamente, não será o mesmo para os iniciados órficos e os profanos. O mortal comum, profano, deverá percorrer dez vezes o ciclo antes de escapar.

São outro artefato importantíssimo no orfismo as lamelas órficas ou orfo-pitagóricas. Lamelas são pequenas lâminas ou placas de ouro descobertas na Itália meridional e na Ilha de Creta, e em túmulos órficos. São, também, todas marcadas com o sinal secreto Y, até hoje um mistério. Delgadas e elegantes, enroladas sobre si mesmas, eram depositadas em pequenas placas hexagonais. Estas, presas a correntes de ouro, eram colocadas no pescoço dos iniciados, como talismãs, à maneira de passaporte para a eternidade.

Numa das lamelas encontradas, estão incrustados versos de aconselhamento à alma do morto para sua viagem em direção ao Hades. Em lá chegando, deve escolher entre um caminho da direita e um da esquerda.

“À esquerda da morada do Hades, tu encontrarás o Lago da Memória, e os guardiões estarão lá. Diga-lhes… eu sou o menino da Terra e do Céu estrelado, mas estou morrendo de sede. Dá-me rapidamente a água fresca que flui do Lago da Memória”.

Para a alma que deve retornar à Terra para reencarnar-se essa água do Lethes tem por função não esquecer sua existência terrestre mas eclipsar a recordação do mundo pós-morte. O orfismo assim reverte a função da água do Esquecimento pela nova doutrina da transmigração. O esquecimento não simboliza mais a morte, mas o retorno à vida. A alma que teve a imprudência de beber na fonte do Lethes reencarna e será novamente projetada no ciclo do devir.

Para aquelas almas que não precisam mais se reencarnar é aconselhado evitar a água do Lago da Memória e passar ao caminho da direita. E esta escrito numa das lamelas: “Venho de uma comunidade de puros, ó puro soberano dos Infernos”. Ao que Perséfone replica: “Saúdo-te, toma o caminho da direita em direção aos prados sagrados e aos bosques de Perséfone”.

A sede da alma, comum a tantas culturas, configura não apenas o refrigério pelo longo caminhar da mesma em direção a outra vida, mas, sobretudo, simboliza a ressurreição, no sentido da passagem definitiva para um mundo melhor. Se para os gregos “os mortos são aqueles que perderam a memória”, o esquecimento para os órficos não mais configura a morte, mas o retorno à vida.

Conclusão

Orfeu não morreu com a Grécia antiga. A sua figura continuou a ser reinterpretada pelos teólogos, tanto judeus quanto cristãos. Nos afrescos das catacumbas romanas, encontram-se imagens de Orfeu tangendo sua lira no meio de animais simbolicamente cristãos: carneiros, ovelhas, cachorros, pombas. Noutros, encontram-se duas ovelhas: uma simbolizando Orfeu e outra o Cristo. Nos mosaicos do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena, é representado como Bom-Pastor. Uma antiga cena de crucificação chega mesmo a chamar Cristo de “Orfeu báquico”.

A semelhança dos simbolismos são flagrantes: o crime primordial dos Titãs e o pecado original de Adão e Eva, a consumação do corpo do deus cristão e do deus grego, Cristo como filho de Deus assim como Orfeu era filho de Apolo, são pontos comuns entre as duas doutrinas religiosas, numa visão simplista.

Para os filósofos da Renascença até Pope, para os poetas do seicento, passando pelos hermetistas até os dias atuais, o Mundo Ocidental teima em não esquecer Orfeu. Se pouco restou dos mistérios órficos, a figura de Orfeu tem cadeira cativa no inconsciente coletivo de nosso mundo.

Autor: William Almeida de Carvalho

Fonte: Pietre-Stones – Review of Freemasonry

Bibliografia

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O Maçom e o Super-Homem de Nietzsche

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A maçonaria não é religião. A crença no Grande Arquiteto do Universo na maçonaria é uma realidade filosófica, e não dogmática. Traduz uma ideia de entidade dinâmica, um foco social que evolui enquanto se mescla a moralidade e as necessidades da época, moldando e guiando o maçom em seu processo evolutivo de construção de um novo homem. Para a maçonaria a  ideia de Deus resulta da consciência, e as exteriorizações do seu culto, não passam de um sentimento íntimo que se  pode traduzir nas mais diversas maneiras. Ao mesmo tempo, a maçonaria não se prende a um determinado sistema filosófico porque isso seria tirar de seus adeptos a liberdade de interpretação de seus símbolos, alegorias e mitos, os obrigando a seguir um determinado caminho, o que seria negar a sua própria pregação de liberdade de pensamento.

Utilizando o pensamento de Nietzsche, em sua obra Assim falou Zaratustra, podemos deduzir que objetivando não criar sectarismo, a maçonaria apresenta como verdade provisória ao seu recém-iniciado, ainda fortemente influenciado por suas convicções religiosas pré-concebidas e mistificadas ao longo dos anos, a crença no Grande Arquiteto do Universo como sinônimo de Deus “das religiões”, crença que ele deverá corrigir aos poucos, à medida que ele sobe os degraus da escada da sabedoria, e deverá, gradativamente, “matar esse Deus”, convertendo-o para o Deus “nas religiões”, até chegar, no último grau, ao descobrimento de seu “deus interior” – o conhecimento de si mesmo e de sua Essência – transmutando-o em um ‘homem superior’, perfeitamente identificável com o “Übermensch”, o “super-homem”.

A “morte de Deus”, segundo Nietzsche, representa a desconstrução do padrão de Deus que a metafísica clássica ocidental construiu: o de ser absoluto e supremo. Esse conceito de Deus deveria morrer na consciência do ser humano enquanto mantenedor do sistema tradicional de valores morais e éticos. Como resultado disso, alguém deveria ocupar o seu lugar – o próprio homem, pelo seu autoconhecimento. Entretanto, Nietzsche, entendia que a proclamação da “morte de Deus”, desestabilizaria emocionalmente o homem arraigado em suas crenças metafísicas, pois ela acentua a natureza do medo e da dramaticidade existencial, uma vez que pensar na ausência de Deus assinalaria o declínio da esperança e o estabelecimento da incerteza. O anúncio da “morte de Deus”, portanto, não se trata de propagar ideias anti-teístas. Não pretende ser a disseminação do ateísmo. Mas em erigir um novo conceito sobre o homem e sobre Deus.

Assim, Nietzsche observa que a “morte de Deus” é um acontecimento cultural e existencial. Significa, em outras palavras, matar o “dogma”, o “fanatismo”, o “conformismo”, a “superstição” e o “medo” e desenvolver-se pelo “autoconhecimento” e não aceitar mais a imposição de regras sedimentadas e impostas, que impossibilitam a superação e a auto-afirmação do ser humano que luta incansavelmente para libertar-se desses ‘vícios’ e elevar-se em sua saga existencialista.

Para Nietzsche, o homem deveria ele mesmo conduzir os seus próprios desígnios. Cabe somente a ele fazer as suas escolhas. E, acima de tudo, optar por uma delas, certa ou errada. Os valores arcaicos devem ceder espaço ao surgimento de novos valores. Não mais centrados em afirmações religiosas ou metafísicas, mas em sentenças redigidas pelo próprio homem, transmutado em um Übermensch (literalmente “homem superior” ou “super-homem”). Concretamente existencialista, que não promete a felicidade e gozos na vida futura, transcendental.

Nietzsche em sua obra apresenta um paradigma de humanidade que extingue e supera pelo autoconhecimento o modelo da religião piedosa dos fracos e oprimidos que se encaixa perfeitamente a proposta utópica da maçonaria de criar uma humanidade mais feliz através de “homens superiores”, livres de vícios, superstições e preconceitos.

Autor: Ubyrajara de Souza Filho

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O Irmão Rabugento

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Nem todo velho é bom só por ser velho. Ao contrário, se não acumularmos bom humor, autocrítica, certa generosidade e cultivo de afetos vários, seremos velhos rabugentos que afastam família e amigos” (Lya Luft)

O termo “rabugento” logo traz à mente a fisionomia de uma pessoa que reclama de tudo, vive se queixando e implicando com tudo e com todos, e não se restringe a idade ou gênero específicos. Nos dicionários colhemos ainda: ranzinza, ranheta, briguento, birrento, mal-humorado, impaciente etc. Com certeza, a associação com “rabujo”, que significa fedor, sarna ou mau cheiro, e provoca um afastamento estratégico, permite-nos entender o simbolismo envolvido.

Seguramente, um número bem reduzido, excetuando-se os praticantes do socrático “conhece-te a ti mesmo”, se dá conta da situação e, como sempre, os outros é que nos “reconhecem como tal”, pois identificar uma pessoa com essas características é relativamente fácil.  Nesse cenário, inconcebível não vir à mente a citação bíblica sobre ficar olhando o cisco no olho do irmão e não prestar atenção na trave que há em nosso próprio olho.

Antes de prosseguir informamos, cautelarmente, que os comentários e exemplos abaixo, pertencentes à esfera da ficção, que qualquer semelhança com a realidade de nossas lojas é mera coincidência. Trata-se de “causos” capturados durante peregrinações com a Escola Maçônica. Poder-se-ia até supor que a narrativa calhasse em Oriente longínquo, preferentemente de outra Potência, quiçá “irregular”. Mas, a caricatura pode ser proveitosa como um sobreaviso para que não nos deixemos sucumbir frente às garras da rabugice.

Deparamo-nos, eventualmente, com situações em que obreiros atravessam a ritualística e quebram a harmonia dos trabalhos com comentários paralelos, julgando-se senhores do certo e do errado. Outros apontam deslizes de forma abrupta, como se donos fossem, com ar professoral e recorrendo à condição de “fundadores”, usurpando função dos titulares responsáveis, quando não reclamam de uma determinada circunstância, falando fora de hora e invocando “questão de ordem”, desconcentrando os demais. Esses críticos contumazes, em várias oportunidades, ao executarem uma função, cometem erros similares aos que apontam ou ainda costumam desempenhar o ofício de forma apática, desobrigando-se a observar as regras.

Poucos, quando não cochilam, resmungam por nada e o tempo todo, “pensam alto”, reclamam de demora da reunião ou do tempo de estudos – “o trabalho ficou grande, poderia ter feito um resuminho…se desse uma boa enxugada ficaria melhor…poderia ter diminuído a falação…perdemos o primeiro tempo do jogo… ou … o ágape já começou, sabia?!”. Nas oportunidades em que recebem uma cópia de trabalho, desdenham e o “esquecem” sobre o assento ao se retirarem.

Ainda não foram confirmadas ocorrências da espécie, mas já se especula sobre a possibilidade de rabugentos e seguidores evoluírem no sentido de se colocarem contra proposições da direção da Loja apenas e tão-somente para obstaculizar a operacionalização de sugestões, ao impor derrotas e não dar créditos para os proponentes, com demonstrações de mentalidades tacanhas ou vingativas. Dir-se-ia, talvez, que se pode ouvir nos átrios comentários do tipo “eu faria diferente…”, típico dos “engenheiros de obras feitas” ou a “fácil sabedoria ex-post”. Esperamos que fique apenas no campo da imaginação, mas é importante manter a vigilância.

Nossos rabugentos favoritos, se não estão carrancudos, fazem caras e bocas e agitam-se o tempo todo. Ao argumentarem ou questionarem sobre algum episódio, e mesmo com razão, exprimem nervosismo e esticam mais do que podem a fala. Nas sessões magnas pedem a palavra, se inflamam ao tecer arrastadas loas individualmente aos diversos contemporâneos ocupantes de cadeiras cativas no Oriente, com o uso de frases elaboradas, expressões emotivas, gestos enfáticos, narrativas de experiências alhures compartilhadas e nada sobre o ato que acaba de ser realizado, apenas para desejar um bom fim de semana a todos e a cada um em particular.

Não são raros os casos em que esses amados irmãos durões se melindram com a mais cortês crítica, dizendo – “já cansei de falar sobre isso e ninguém me leva a sério, minhas palavras foram levadas pelo vento. Doravante não falo mais nada”. Na sequência, atravessam um pedido de desculpa geral e auto impõem-se um obsequioso silêncio. Durante um bom período se fecham em copas, mostrando-se reticentes em fazer qualquer comentário. Mas, graças às luzes do Grande Arquiteto do Universo suplicadas na exortação de abertura dos trabalhos, e depois de alguns afagos, voltam a se manifestar e a compartilhar os inexauríveis conhecimentos de que são detentores.

Há ainda os que se julgam os únicos a enfrentar adversidades, sempre se vitimizam e não revelam serenidade para ouvir os demais quando em uso da palavra. Ai daquele obreiro mais inspirado que ousa ilustrar uma explanação com um recurso filosófico ou poético, provocando a ira dos rabugentos a sussurrarem que maçonaria é “coisa de macho”, instigando sorrisos sarcásticos de concordância por parte de títeres que não refletem criticamente.

Os mais estrategistas não falam diretamente nos momentos apropriados, mas enviam recados por intermédio dos mais simpáticos e acolhedores, com grande movimentação dos Mestres de Cerimônias, que já estão habituados a ouvir o som do estalar de dedos ou a chamada com um gesto do indicador. E tem aquele que nos faz lembrar a letra da música “Sabiá” de Dominguinhos – “A todo mundo eu dou psiu – Psiu, Psiu, Psiu”. Ex-Veneráveis mais modernos às vezes são persuadidos a levar mensagens dos rabugentos (diga ao seu Venerável isso, isso e isso…..). Perdoemos, por ora, os renitentes produtores de efeitos sonoros com copinhos descartáveis e papeis de balas, que mesmo alertados persistem, lembrando-nos o crepitar de uma fogueira de São João – nosso Patrono.

Nestes tempos de redes sociais palpitantes e funcionando as 24 horas do dia, com as caixas de entrada de e-mails superlotadas, aplicativos repletos de mensagens e vídeos repetitivos, longos, cansativos e fora de contexto, enviados por impulso e sem nenhuma avaliação prévia, não podemos deixar de falar dos melindrosos, que por uma opinião divergente, saem do grupo de WhatsApp –  “espírito obsessor”, segundo os que rejeitam e torcem para que essa tecnologia se exploda – da Loja, por qualquer motivo, retornam por algum tempo, quando não são bloqueados provisoriamente pelos administradores para dar uma esfriada nos ânimos, mesmo sendo portadores da mais alta estima e consideração. Tudo por amor e em nome da harmonia e da fraternidade.

Se o irmão teve perseverança para ler até aqui e não se reconheceu em nenhuma das descrições acima (Glória a Deus!), compreenda que dentro de um rabugento bate um coração afável e incomensurável. Nesse contexto, vislumbra-se emblemática a mensagem do poema “Amor é Síntese” de Myrtes Mathias (atribuído a Mário Quintana em determinados sites), que permitimo-nos propor, com a devida vênia por um oportuno e sutil ajuste em destaque:

Por favor, não me analise.

Não fique procurando cada ponto fraco meu.

Se ninguém resiste a uma análise profunda, quanto mais eu…

Ciumento, exigente, inseguro, carente, todo cheio de marcas que a vida deixou.

Vejo em cada grito de exigência, um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese, é uma integração de dados.

Não há que tirar nem pôr.

Não me corte em fatias, ninguém consegue abraçar um pedaço.

Me envolva [fraternalmente] em seus braços e eu serei o perfeito [irmão].

Por tudo isso e mais, a Loja é uma escola onde somos instigados a praticar a tolerância, a aceitar as diferenças e a exercitar o verdadeiro amor fraterno, valorizando o respeito mútuo, desafiando-nos constantemente a estar vigilantes quanto aos nossos vícios e focados na prática das virtudes. Não necessariamente precisamos ter juízo sobre tudo e querer sempre estar certos, alentando o individualismo e o ego. Como diz a sabedoria popular, às vezes é melhor ser feliz, ter uma relação boa com a vida, do que ter razão. A oração de São Francisco é inspiradora (Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz…).

Enfim, torna-se de bom alvitre refletir sobre o criativo ensinamento do Professor Mário Sérgio Cortella: “A regra beneditina que eu mais gosto é a regra 34: É PROIBIDO RESMUNGAR! Não é proibido discordar, reclamar, debater. Resmungar é aquele que ao invés de acender a vela fica amaldiçoando a escuridão. É uma questão de decisão, de atitude. Decidir acender a vela, procurar a vela e acendê-la. Por isso, vamos falar como São Bento: é proibido resmungar. Vai e faça, levante e faça”. Exerçamos, portanto, a Plenitude Maçônica.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

 

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O Abismo da Ignorância

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Os acontecimentos recentes em nosso país nos mostram que ainda estamos a anos-luz de termos capacidade de conviver com as diferenças.

Mas ainda há tempo de reverter essa situação que está quase insustentável! Afinal, se eu não acreditasse nisso não teria sentido algum fazer parte da nossa Sublime Ordem.

Não é de hoje que o cidadão, para defender o seu ponto de vista, algo em que acredita, seja esse algo um partido político, um time de futebol, uma emissora de tv, uma personalidade pública, etc, tem como ferramenta exclusiva de argumentação o ataque (verbal, físico, virtual ou psicológico) àquele que discorda de suas crenças, o que recentemente foi absurdamente intensificado. Muitas vezes, por não aceitar um pensamento divergente, cria apelidos para seus “oponentes” (coxinha, mortadela, bolsominion, maria, franga, bambi, etc). Mesmo que não tenha conhecimento das diretrizes defendidas por determinadas ideologias políticas e sociais, e sem conhecimento histórico, não demora em tachar seus “inimigos” de fascistas, comunistas, nazistas, socialistas, vendidos, bolivarianos, esquerdistas, direitistas, liberais, conservadores, e por aí vai…

Com sua mente deturpada pelo ódio e pela incompreensão, o desejo de ser detentor do que é certo lhe cega a razão, e até mesmo os que lhe são mais próximos passam a ser vítimas de sua bestialidade.

Não existe paz em um ambiente marcado pela odiosidade. Palavras, escritas ou faladas, são como flechas, e devem ser bem analisadas antes de serem lançadas. No mundo moderno o que você posta na internet não pode ser apagado pois o print é eterno.

Nesse universo de enganos, disfarces, quimeras e máscaras, somos todos induzidos ao erro e iludidos pelas aparências. Devemos, meus irmãos, ir em busca da Verdade para que sua luz possa iluminar nosso percurso, evitando assim que sejamos surpreendidos com uma queda sem fim no abismo da ignorância e da selvageria.

Estou constantemente em busca da Verdade. Procuro respostas às minhas perguntas. Encontrei algumas.

Morri algumas vezes, e renasci sempre melhor do que eu era. Compreendo minhas fraquezas, mas conheço também as virtudes que tenho e as uso para deixar meus vícios presos em uma masmorra.

Vigio minhas atitudes e tento ser um exemplo virtuoso para aqueles com quem convivo, respeitando as dissimilitudes, sem criar apelidos para me referir aos que não compartilham das minhas posições.

Será que um mundo onde cada um de nós possa respeitar o direito de pensar diferente do outro é uma utopia? Talvez. Mas se você continuar sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar, o fim que nos aguarda será muito mais tenebroso do que as distopias já produzidas pelos estúdios de Hollywood.

Somos os responsáveis pela mudança do atual cenário. Nós devemos ser o exemplo de convivência, mesmo que meu irmão, meu amigo (no mundo real e no virtual), meu vizinho, não tenha posicionamento ideológico, partidário ou futebolístico idêntico ao meu. Devemos defender os valores filosóficos pregados por nossa instituição. Não basta apenas ser maçom! Devemos ser reconhecidos como tal por nossas atitudes!

Autor: Luiz Marcelo Viegas
ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG

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Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte IV

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Uma reconciliação ou eventual aliança entre a Igreja Católica e a Maçonaria, como instituição, tão sonhada e sempre distante, permanecerá improvável enquanto as partes se valerem de arroubos retóricos e continuarem a alardear o privilégio e a propriedade da Verdade, sem examinar as reais causas do conflito com espírito fraterno, e não vislumbrarem as características complementares do Exoterismo (Igreja) e Esoterismo (Maçonaria), estratégia essa que continuará a alimentar uma série de equívocos e incompreensões, enquanto os seus reais adversários de fato evoluem, renovam-se e conquistam terreno. Nesse impasse, perde-se a oportunidade de construir uma sociedade melhor para todos.

Caso a maçonaria ceda às pressões para tornar transparente seus rituais simbólicos e sua tradição de sociedade iniciática, restando a sua essência e sua aparência aberta aos não iniciados em seus arcanos, a Ordem perderá certamente seu glamour e a aura de sociedade discreta, transformando-se em algo parecido com um clube social ou de serviço, comprometendo sua sobrevivência na autenticidade construída ao longo dos últimos 300 anos, formando protagonistas e construtores sociais.

Vale reiterar que maçonaria não é uma instituição secreta, pois as Lojas têm endereço, CNPJ, Estatutos e Regimentos registrados em Cartório, porém somente entra quem é convidado, não existindo, portanto, um guichê de inscrições. Ademais, “maçons desfilam pelas ruas com seus ternos pretos, alguns levam sempre na lapela um distintivo, outros até usam decalque no seu carro, ou trazem seus chaveiros com emblemas maçônicos” (Vasconcellos, 1999).

Até aqui, a maçonaria sobreviveu aos ataques sofridos, tanto internamente, no sentido de controlá-la, por interesses particulares e disputas de poder, bem como à indiferença de muitos de seus membros, como externamente, visando a enfraquecê-la e suprimi-la. A maçonaria não pode, isso sim, perder de vista a sua condição de escola de civismo, de liberdade, de fraternidade, de progresso, de solidariedade e de formação de líderes, onde se estuda moral, arte e ciência e debatem-se questões sociais de relevo com o foco na responsabilidade social e cidadã, visando à felicidade da humanidade.

É notório que maçonaria não é religião, não faz apologia de nenhum líder espiritual, pois não existe um magistério maçônico, não oferece sacramentos, não podendo, pois, opor-se ao da Igreja. Contudo, seus membros são espiritualizados e comungam uma dimensão religiosa não limitada a uma religião específica, consubstanciando-se no efetivo ecumenismo. A comparação com uma “seita” é inapropriada, pois essa expressão é atribuída a uma religião falsa sob o ponto de vista da Igreja Católica.

Também não é uma escola ocultista e não tem uma filosofia própria, a não ser a prática do bem e da solidariedade, que não lhe são exclusivos. A maçonaria sempre respeitou a opção religiosa de seus membros e não proíbe as divergências de pensamentos. É reconhecido o apoio que prestou a várias denominações evangélicas que enfrentaram preconceitos e dificuldades para instalação em algumas localidades no Brasil.

A Franco-Maçonaria apresenta-se como uma das vias de pesquisa do Conhecimento, via que não se choca com nenhuma crença. A arte de construir o templo, cara aos maçons da Idade Média, não interessará a todo homem preocupado com a autenticidade?” (Jacq, 1977).

Conforme demonstra Alec Mellor (1976), não existem dogmas maçônicos. “A própria noção de Landmark não se confunde com o do dogma”. Segundo ele, “a diferença está em que a Maçonaria não reivindica a Revelação…. longe de opor-se à Igreja, neste ponto, a incompatibilidade teria surgido se ela tivesse seus dogmas”.

Por outro lado, vislumbra-se estéril essa preocupação e expectativa de muitos maçons no sentido de que a Ordem e a Igreja assinem um tratado de paz e recebam as bênçãos para continuar os trabalhos como o fora nos tempos da maçonaria de ofício. A situação atual não se mostra incômoda a não ser para aqueles maçons inseguros, que não tem equilíbrio emocional, independência intelectual, coragem moral suficiente para assumir com todas as letras que são católicos ou de outra religião e maçons, e que tal postura não é dual, e sim complementar.

Já é hora de erguer-se uma ponta do véu. A Igreja, que já desfrutou de poder hegemônico e influência imediata junto à sociedade, tem os seus motivos regulamentares e contradições como todas as instituições e não pode sucumbir a pressões maçônicas para que se superem eventuais divergências. O Papa Francisco, na sua missão apostólica de liderança e renovação, enfrenta resistências da ala ultraconservadora e de alguns Príncipes da Igreja, além de outras verdades inconvenientes em seus bastidores.

Da mesma forma, sabe-se que muitos maçons ocupantes de posições não eclesiásticas nas igrejas, os ministros leigos, recebem por vezes pressão para que escolham ficar nos postos ou abandonar a maçonaria. Isso também depende da linha de pensamento de cada Diocese.

Não resta dúvida de que situações de decepção e frustração poderão ser enfrentadas por vários obreiros e familiares em suas comunidades religiosas, no sentido de sentirem-se discriminados ou considerados nocivos pelo fato de pertencerem à Ordem, e por vezes estigmatizados. Mas, isso é fruto de desconhecimento dos fatos e da história, sobre os quais muitos desafetos se felicitam pela incompreensão.

Ademais, acreditar que o fim do conflito oficial poderá acarretar o fim do conflito das ideias seria, no entanto, ilusório, pois resistências de religiosos e anticlericalismo de certos maçons, ainda que regulares, se circunscreve na seara da liberdade de pensamento e expressão. Nem por isso, Igreja e a Maçonaria deixarão de seguir seus caminhos. Lembrando Galileu Galilei:  Eppur si muove!.

Por sua vez, ainda que a qualificação de “universal” da maçonaria faça transparecer uma falsa ideia de unidade, na realidade enseja uma instituição dividida em várias Potências ou Obediências, com milhares de Lojas, que gozam de autonomia administrativa, e vários Ritos e estes com seus respectivos graus, estando esse ideal de união em estado latente, como uma aspiração, uma quimera. Há outros, entretanto, que veem essa diversidade como vantagem.

E o desafio que se impõe aos Mestres Maçons é justamente reunir o que está disperso. Apesar dessas “várias maçonarias”, algumas com orientações mais particulares, pelo menos o espírito de união, de fraternidade, de reconhecimento e a interação entre os obreiros na base permanecem inabaláveis.

Como a pretensa reaproximação entre Igreja e Maçonaria vislumbra-se improvável, que os obreiros incomodados façam a escolha que ditar a consciência! Se não estiverem seguros dos pilares da maçonaria é melhor que aceitem o conselho do arrependimento e peçam para sair de forma honrosa e não sofram mais por isso. A vida é muito curta para que se suporte mais esse conflito. Se servir de consolo, importa relevar que mesmo fora, continuam maçons, visto terem passado pela “iniciação”, podendo ser reintegrados quando assim o desejarem e estiverem plenamente seguros de que na maçonaria não há coisa alguma que atente contra suas crenças.

Enfim, a Igreja é eterna e a Maçonaria tem prazo de validade. Conforme ensina Michel Cugnet, citado por Benimeli (2007, p.666):

O mais belo futuro que poderia ser oferecido à Franco-Maçonaria seria que ela desaparecesse por não ter mais razão de ser, pois isto significaria, então, dizer que todos os seres humanos responderam sem restrição alguma ao ideal de Fraternidade e de Tolerância, vivendo em ‘Fé, Esperança e Caridade’, e que o Templo simbólico da Humanidade estaria terminado.”

“… examinem tudo e fiquem com o que é bom” (1 Ts 5,21)

Finis

Autor: Márcio dos Santos Gomes

* Trabalho apresentado na reunião de 02.10.2018 da Academia Mineira Maçônica de Letras – A Casa de Tiradentes.

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Clique AQUI para ler a série completa.

Referências bibliográficas

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BARROSO, Gustavo. História Secreta do Brasil – Volume 1. Porto Alegre: Editora Revisão, 1990;

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https://infovaticana.com/2017/11/27/asi-desaparecio-la-prohibicion-la-masoneria-del-codigo-derecho-canonico/

CARVALHO, António Carlos. Para a História da Maçonaria em Portugal (1913-1935), 2ª ed. Lisboa: Vega, 1993;

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CASTELLANI, José. Os Maçons e a Questão Religiosa. Londrina: A Trolha, 1996;

CASTELLANI, José. A Ação Secreta da Maçonaria na Política Mundial. São Paulo: Landmark, 2007;

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__________________________ A Proclamação da República e a Maçonaria, no Blog “O Ponto Dentro do Círculo”, em:

https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2016/11/05/a-proclamacao-da-republica-e-a-maconaria-parte-i/

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Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte III

Imagem relacionadaCharge de c.1870 a respeito da Questão Religiosa

Na Revolução Pernambucana de 1817, também conhecida como “Revolução dos Padres”, e na Confederação do Equador, de 1824, ambas com foco em Pernambuco e de influência maçônica, a liderança principal encontrava-se nas mãos de padres e frades formados em Olinda. Em 1817, dos 310 ditos subversivos, havia 60 padres e 10 frades. Em 1824 havia 40 padres, com destaques para a liderança de Frei Caneca, e do Padre Mororó, outra importante liderança, ambos executados a tiros. “O iluminismo chegou ao Nordeste pelas mãos dos padres Oratorianos…” (Terra, 1996).

“A Constituição de 1824 estabelecia o catolicismo como religião oficial do Império. O Brasil havia herdado de Portugal o “regalismo”, que subordinava a Igreja ao Estado. O monarca, exercendo a chefia do Estado, era o representante supremo da Santa Sé no país. Os membros da Igreja eram pagos e sustentados pelo Estado, como se fossem funcionários públicos, por isso o imperador tinha o direito do “padroado”, podendo nomear os sacerdotes para os principais cargos religiosos. Ainda pelo direito do “beneplácito” (Art. 102, § XIV), as bulas e breves do papado somente eram aplicadas após a aprovação do imperador.” (Gomes, 2016)

“Com essa independência em relação a Roma, o padre brasileiro atuava politicamente, raramente respeitava o voto de castidade e muitos viviam com sua mulher e criavam filhos. A vinculação a partidos políticos facilitava a nomeação e promoção. Os bispos que defendiam a moralização da Igreja lutavam contra a subordinação ao império e muitas vezes entravam em choques com as autoridades, na tentativa de impor aos seus subordinados as doutrinas que vinham de Roma e não tinham o beneplácito do imperador.” (Gomes, 2016)

“Grandes políticos do império, inúmeros sacerdotes e membros das irmandades religiosas eram militantes de lojas maçônicas. Entretanto, em 1864, Pio IX, através da bula “Syllabus”, proibiu qualquer ligação da Igreja com a Maçonaria. Em 1873, o bispo de Olinda, dom Vital Maria de Oliveira, disposto a reformar o clero e as irmandades, ordenou que os padres abandonassem a maçonaria e os maçons fossem excluídos das irmandades religiosas, encontrando muitas resistências. O mesmo fez o bispo do Pará, dom Antônio de Macedo Costa. Aí eclodiu a chamada Questão Religiosa, também conhecida como Questão Maçônica ou Questão dos Bispos.” (Gomes, 2016)

“A situação se tornou crítica quando, durante uma festa em comemoração à lei do Ventre-Livre, o padre Almeida Martins negou-se a abandonar a maçonaria, sendo suspenso de sua atividade religiosa pelo bispo do Rio de Janeiro. Essa punição tinha sido antecedida por um discurso feito pelo padre Almeida Martins em loja maçônica do Grande Oriente, no qual o religioso exaltou a figura do visconde do Rio Branco, que, como primeiro-ministro, era Grão-Mestre da maçonaria, porém da ala monarquista.” (Gomes, 2016)

“Neste processo, o bispo de Olinda, D. Vital e o de Belém, D. Macedo, determinaram o fechamento de todas as irmandades que não quiseram excluir seus associados maçons. A reação do governo foi rápida e enérgica, quando em 1874, o primeiro-ministro, visconde do Rio Branco, então Grão-Mestre da maçonaria, determinou a prisão dos bispos. Os atingidos recorreram ao Imperador, que pressionou os bispos a voltar atrás. Não acatando a ordem foram condenados a quatro anos de prisão.” (Gomes, 2016)

“Dom Pedro II, embora não sendo maçom, era simpatizante e circulavam notícias de que participaria das discussões filosóficas das lojas e por isso não acolheu bulas de Pio IX que proibiam fiéis de aderirem à Ordem. Em 1875, o gabinete conservador do duque de Caxias anistiou os dois bispos. Apesar da anistia a ferida não foi cicatrizada e o Império decadente perdia o apoio do clero e da população, constituindo-se num importante fator para queda do obsoleto regime monárquico e para separação do mesmo com a Igreja. As punições contra as irmandades do Pará e de Olinda foram suspensas por Roma.” (Gomes, 2016)

Sobre a “Questão Religiosa” o Bispo-auxiliar-emérito de Brasília, o jesuíta Dom João Evangelista Martins Terra, no seu livro Maçonaria e Igreja Católica (1996), afirma:

Quem saiu vitoriosa dessa dolorosa questão foi a Igreja, que, forçando o Governo a recuar, deixou o Estado regalista desmoralizado e a maçonaria completamente abalada em seu prestígio. D. Vital passou à posteridade como Mártir da maçonaria”. Prossegue, assegurando: “Os ataques da imprensa maçônica ainda continuaram, mas o clero, escarmentado, saiu depurado.” (p. 61/62).

Na mesma obra, comentando sobre a situação dos bispos e padres maçons de então, ressalta que não é preciso negar esse fato, mas explicá-lo no contexto histórico, no sentido de que os envolvidos não se interessavam pelas doutrinas maçônicas e sim por desfrutar de ambiente secreto onde podiam discutir suas ideologias liberais ou ideias revolucionárias. Por outro lado, aduz que a maçonaria tinha-se infiltrado em quase todas as confrarias e irmandades da Igreja e pretendia dominar o próprio poder eclesial.

Ainda dentro da questão religiosa, o conflito entre a igreja e o governo rendeu agressões à maçonaria na Paraíba. A Revolta do Quebra-Quilos (1874-1875), considerada uma das mais importantes revoltas sociais no fim do Império, ocorrida da região Nordeste, foi motivada pela adoção do sistema métrico decimal francês (Lei 1.157, de 26 de junho de 1862), pela obrigatoriedade do alistamento militar (imposto do sangue) e pela criação do imposto do chão pago nas feiras.

Um dos efeitos colaterais foram os ataques a casas de maçons e lojas maçônicas, como foi o caso da loja maçônica “Segredo e Lealdade”, em Campina Grande, que foi saqueada e seus documentos destruídos. Os quebra-quilos, insuflados por padres, alegavam que várias autoridades na Paraíba e no resto do país pertenciam à maçonaria e eram responsáveis pela introdução daquelas medidas. Padres diziam que o imperador era maçom, assim como o fora seu pai e, portanto, haveria um complô maçônico no país (Gomes, 2016).

Durante o Estado Novo, nos anos de 1930 a 1945, a maçonaria enfrentou várias campanhas difamatórias, polêmicas e notícias falsas, fruto do desconhecimento de seus princípios, por várias organizações, decorrentes de pensamentos conservadores e de tendências autoritárias, alegando que os maçons articulariam a destruição de todas as pátrias, estando por traz de todos os acontecimentos revolucionários no Brasil e no mundo, segundo escreveu o intelectual católico Ramos de Oliveira em sua obra “A ilusão maçônica” (Gomes, 2018).

Na mesma linha, o supracitado Gustavo Barroso, também militante integralista e simpatizante do nazismo, atacou a maçonaria em várias de suas obras, defendendo a tese de que a mesma teria planos para o Brasil e que os principais acontecimentos da história brasileira seriam resultado de ações conspiratórias maçônicas. A imprensa integralista reforçou a associação entre maçonaria, judaísmo e comunismo (Gomes, 2018).

As transformações do século XX, no contexto social, tornaram as condenações sofridas pela maçonaria menos impactantes, vez que foram baseadas em momentos político-sociais em processo de evolução.

O historiador maçônico José Castellani (2007) analisa:

“O subdesenvolvimento intelectual do povo brasileiro, todavia, iria proporcionar ao clero de pequenas e médias cidades, a base popular de suas difamações contra os Maçons, gerando até fatos pitorescos: párocos que afirmavam que os Maçons adoravam ao diabo, realizando missas negras e cultuando bodes negros, faziam com que os fiéis de seus rebanhos, ricos em fervor religioso……. tivessem medo de passar em frente aos templos maçônicos e que se, forçosamente tivessem que fazê-lo, fizessem contritamente o sinal da cruz para se livrarem dos ‘maus fluídos’ daquelas ‘casas do diabo’”.

Todos esses acontecimentos ainda estão presentes na mente popular, fruto dessas sementes do passado, gerando descrédito e prevenção contra os maçons, sendo este um tema negligenciado pelos estudiosos e por muitos visto como exótico.

Entre 1751 a 1902 a Maçonaria sofreu severas condenações de parte da Igreja, todas sempre se reportando à In Eminenti, de Clemente XII, a “Bula Mãe”, adicionando-lhes elementos religiosos, sendo registrados vários pronunciamentos[7]. Em 25 de maio de 1917, as encíclicas e cartas apostólicas anteriores foram consolidadas no Código de Direito Canônico. A igreja declarava, no Cânone 2335, que “aqueles que se juntam a uma seita maçônica ou outras sociedades do mesmo tipo conspiram contra a Igreja ou contra as autoridades civis legítimas, estão sujeitos à excomunhão”.

No referido Código, por ter incorrido na excomunhão, dentre outras proibições, todo maçom deveria ser afastado dos sacramentos (confirmação, confissão, comunhão, unção dos enfermos), ainda que os pedisse de boa fé (cân. 2138, § 1); não poderia ser padrinho de batismo (cân. 765, n. 2), nem de crisma (cân. 795, n. 1). Para contornar esses constrangimentos e proporcionar um alento aos membros católicos, foram introduzidas na maçonaria as cerimônias de apadrinhamento, como a adoção de Lowtons, o reconhecimento conjugal e as pompas fúnebres.

Ainda em 1968, o padre jesuíta espanhol, José Antônio Ferrer Benimeli, no Livro “A Maçonaria depois do Concílio Vaticano II”, defendeu a tese de que a Maçonaria regular não deveria ser condenada. No seu ponto de vista, somente a Maçonaria irregular, ateia e anticlerical, seria passível de condenação.

O Código de 1917 foi revogado com a promulgação de um novo Código Canônico por João Paulo II, em 25 de janeiro de 1983, passando a constar do Cânone 1734 a seguinte redação: “Aquele que se entra para uma associação que conspira contra a Igreja deve ser punido com justa pena; aquele que promove ou dirige tal associação, no entanto, deve ser punido com interdito”.

Em virtude de várias interpretações e questionamentos, em especial no entendimento de que estaria implícita a aceitação de filiações na maçonaria regular, em novembro daquele ano, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu um comunicado declarando que os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de “pecado grave” e não poderiam receber a “Santa Comunhão”.

Segundo Lutffala Salomão (1998),

A publicação da Declaração foi mais uma acomodação política dos minoritários insatisfeitos, feita nos últimos instantes, e pode-se até dizer a contragosto do Papa. Afinal ela afrontava uma decisão já tomada e aprovada, logicamente pela maioria de toda a Congregação reunida com a finalidade específica de renovação do Código”.

Comentando sobre a “Igreja e a Maçonaria Hoje”, o jesuíta D. Martins Terra (1996) ressalta que, no Brasil, o jesuíta Padre Alberton “publicou uma obra bastante apologética intitulada ‘A Maçonaria e a Igreja Católica, Ontem, Hoje e Amanhã’ (Edições Paulinas, S. Paulo, 1981)”. Resume dizendo que “a obra foi escrita antes da última declaração oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, que veio esclarecer autoritariamente a questão e por um ponto final às dúvidas e controvérsias hodiernas” e que hoje certamente o referido Padre teria feito comentários menos utópicos e mais realistas (p.82/83). Ocorre que a obra citada é em coautoria com o Padre Benimeli, considerado um dos melhores historiadores contemporâneos da Maçonaria, para muitos o maior maçonólogo do mundo, na qual os jesuítas Valério Alberton e Giovani Caprille fizeram as versões e adaptações para o português e o italiano, respectivamente[8].

O também jesuíta, Padre Jesús Hortal Sánchez, doutor em Direito Canônico, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, em artigo publicado na revista Direito e Pastoral, ano VI, nºs. 23-24, janeiro-abril de 1992. pp. 58-81, afirma:

Duzentos e cinquenta anos após aquela primeira condenação, a posição da Igreja Católica parece não ter mudado muito. Como veremos, a razão básica da última condenação (23/11/83) continua a ser a mesma: a inconciliabilidade entre a afirmação sincera e plena da fé católica e o relativismo que parece ocultar-se atrás do universo simbólico maçônico”.

Não obstante o Cânon 2335, do Código de 1917, não ter sido introduzido no Código de Direito Canônico de 1983, a posição minoritária vencida tem seus argumentos constantemente alardeados por uma corrente eclesiástica que acredita que para a maioria dos fiéis “é impossível formar um juízo exato sobre este assunto” e que a Igreja deve “indicar aos fiéis onde se escondem os perigos para a sua fé e para a sua vida cristã”. Registra o artigo que a Maçonaria constitui “um perigo extraordinário” e muito “mais sutil” que o comunismo[9], “porque este é um inimigo declarado da Igreja, e a Maçonaria é mais hipócrita” (Infovaticana, 2017).

Frei Boaventura Kloppenburg (1992), afirmou que:

Igreja e Maçonaria são dois senhores bem diferentes”….duas entidades inconciliáveis”, mas isso não significa que “não haja possibilidade de conciliação entre o pastor da Igreja e o cidadão católico afiliado a uma loja maçônica” e que “sempre encontrarão nos pastores da Igreja muita compreensão e pronta disponibilidade para ajudá-los, no que for possível, a fim de sair do estado de pecado grave”. Para ele, somente dessa forma “a conciliação é possível”.

Reforçando o argumento sobre a possibilidade de reconciliação, Frei Kloppenburg (1992, p.259/263), consignou que “Continuar na Maçonaria, conhecendo a Declaração de 1983, embora de fato nela tenha entrado de boa-fé, seria formalizar conscientemente o ato de desobediência em matéria grave”. Esse católico que se faz maçom é excluído, segundo ele, da comunhão eucarística, mas não é denunciado nem perseguido, estando a Igreja “sempre de braços abertos, pronta a receber o filho pródigo que retorna arrependido à casa paterna”.

Confundindo ainda maçonaria com religião, Frei Kloppenburg (1992) deduziu que “A Igreja não rejeitou a Maçonaria porque defende os princípios fundamentais do espiritualismo (ainda nisso, diz o religioso de forma surpreendente, ‘ela é digna de louvor’), mas porque fez questão de ignorar sistematicamente os princípios básicos do cristianismo”.

No entendimento daquele religioso, Roma tem o direito de “desaprovar e considerar irregular e infiel a Maçonaria como tal, pelo fato de ter riscado de seus rituais, orações e princípios toda e qualquer alusão à Augusta e Santíssima Trindade, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, o princípio fundamental de qualquer Cristianismo”. Faltou alguém confidenciar ao Frei sobre certo Rito Escocês Retificado, praticado desde 1778, que é fundamentado nos pressupostos da religião cristã, baseado na fé na Santíssima Trindade, o que poderia ter amenizado as críticas[10]. Ainda segundo ele, a maçonaria se refere a Deus como um “… abstrato, vago e indeterminado Grande Arquiteto do Universo”.

Retorquindo à obra de Frei Kloppenburg de 1956, intitulada “A Maçonaria no Brasil”, o escritor maçônico A. Campos Porto publicou, em 1957, o livro “A Igreja Católica e a Maçonaria”, onde analisa os argumentos desabonadores desenvolvidos naquela obra, ratificando que:

A Maçonaria não combate o catolicismo, como não combate nenhuma religião, pois na sua organização fraternal ela abriga indistintamente irmãos que professam cultos diferentes…”. Enfim, que maçonaria não é “contra nenhuma outra religião que tenha por finalidade a grandeza, a felicidade e o respeito do homem concorrendo numa permanente colaboração para a Evolução, tudo sob a égide da Divindade”.

Por vezes subindo os tons do contraponto para o contexto da época, numa verdadeira troca de chumbo, Campos Porto (1957) aborda aspectos históricos para mostrar contradições no seio da própria Igreja Católica, bem como levanta questionamentos sobre as posições mais acolhedoras das demais religiões em relação à maçonaria e da sua contribuição ao longo dos tempos.

Dissidências de ambas as partes são uma realidade e os testemunhos de ex-padres e ex-maçons pululam nas redes sociais, conforme as experiências vivenciadas e de acordo com o público a que se destinam, sendo que em situações como essas, a primeira vítima é sempre a Verdade. Argumentos para reforçar decisões adotadas proliferam e, nesta seara, todos têm suas razões, por culpa ou não das instituições que não souberam dar as respostas adequadas, e que isso sirva-nos de escarmento, aproveitando o termo utilizado por Dom João Evangelista Martins Terra (1996), acima citado.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Notas

[7] Bento XIV, Providas Romanorum, 18 de maio de 1751; Pio VII, Ecclesiam A Jesu Christo, 13 de setembro de 1821; Leão XII, Quo Gravioria Mala, 13 de março de 1825; Pio VIII, Traditi Humilitati, 24 de maio de 1829; Litteris Altero, 25 de março de 1830; Gregório XVI, Mirari Vos, 15 de agosto de 1832; Pio IX, Qui Pluribus, 9 de novembro de 1846; Quibus Quantisque Malis, 20 de abril de 1849; Quanta Cura, 8 de dezembro de 1864; Multiplices Inter, 25 de setembro de 1865; Apostolicae Sedis Moderatoni, 12 de Outubro de 1869; Etsi Multa, 21 de novembro de 1873; Leão XIII, Etsi Nos, 15 de fevereiro de 1882; Humanum Genus, 20 de abril de 1884; Officio Sanctissimo, 22 de dezembro de 1887; Dall’Alto Dell’Apostolico Seggio, 15 de outubro de 1890; Inimica Vis, 18 de dezembro de 1892; Custodi di Qualla Fede, 18 de dezembro de 1892; Praeclara, 20 de junho de 1894; e Annum Ingressi, 18 março de 1902.

[8] Entre os dias 7 e 9 de setembro de 2017, Padre Benimeli participou do I Congresso Internacional de Ciência & Maçonaria, realizado em Brasília. Ver palestras em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2017/12/08/elevacao-e-declinio-da-maconaria-no-mundo/

[9] A Igreja Católica assinou, em 24.09.2018, um acordo dando ao Partido Comunista Chinês poder de decisão na nomeação de bispos que controlarão a instituição naquele país. A Igreja disse que “vai perseverar em seguir um caminho adequado a uma sociedade socialista, sob a liderança do Partido Comunista Chinês”.

[10] Registre-se ainda o Rito Sueco, mais praticado nos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia, além da Islândia), e em muita menor escala nos Países Baixos e na Alemanha, com origem a partir de 1759 e sentido profundamente cristão. Ver também: “A Influência da Bíblia na Maçonaria”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/08/28/a-influencia-da-biblia-na-maconaria/

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Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte II

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A maioria esmagadora das lojas maçônicas europeias dos séculos XVII e XVIII foi fundada por ingleses, irlandeses e escoceses, das mais variadas áreas profissionais, considerados hereges pela origem, dado que a religião anglicana era caracterizada como uma seita pelos inquisidores.

O Tribunal do Santo Ofício, o braço jurídico da Igreja na Europa Ocidental, como também era chamado a Inquisição, tinha como objetivo investigar e punir sumariamente os crimes contra a fé católica, assim considerados aqueles que pusessem em dúvida os princípios e dogmas da Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana, bem como quem exercesse culto que lhe fosse contrário. Num segundo momento, funcionou também como instrumento de coação, de forma a manipular autoridades e obter vantagens políticas.

Apesar disso, não havia algo sólido para que a maçonaria fosse de plano acusada de ‘heresia’, face à sua origem eminentemente Cristã. As citadas Constituições jamais foram colocadas no Index[5] pelo Santo Ofício, nem uma tendência propriamente doutrinária era imputada pela Bula à maçonaria. Quando os inquisidores foram à procura dos membros, muitas lojas já não se reuniam, com o receio da excomunhão. Outras permaneceram na clandestinidade. Ainda assim, onde a Bula foi aplicada, a Inquisição julgou e puniu inúmeros maçons, bem como aqueles assim equiparados.

Na França, o parlamento não aprovou a Bula In Eminenti e por isso ela não entrou em vigor naquele país. O Cardeal de Fleury, Primeiro Ministro de Luiz XV, “que era acima de tudo um diplomata experiente e um estadista, considerou que a vida política francesa já estava bastante complicada para fazer da maçonaria um grande problema, e principalmente depois de Roma ter falado.” (Benimeli, 2007).

O governante preferiu desobedecer ao soberano pontífice a descontentar a nobreza e perturbar a serenidade daquele país, onde se verificava acentuada participação do clero católico nas lojas e dos maçons nas atividades paroquiais, tendo a maçonaria ajudado a promover a aproximação social e até política da nobreza dominante e da burguesia ascendente, pois os elementos mais brilhantes e mais ativos da aristocracia, de uma forma subliminar, faziam parte dela.

A influência do Iluminismo da segunda metade do século XVIII, com destaque para os adversários do catolicismo, como os franceses Rousseau, Voltaire, D’Alembert e Diderot e que levou à deflagração da Revolução de 1789, marcou o divórcio entre a Igreja e a maçonaria, que estava entranhada em todas as classes sociais. A partir daí, não somente as reuniões, mas a instituição maçônica, por adiantar-se a seu tempo, é que tem seu funcionamento impedido, pela sua identificação com as ideias de liberdade e de democracia, que se opunham ao absolutismo reinante.

Nos anos de 1880, Leo Taxil, escritor e jornalista escroque francês, iniciado na maçonaria aos 27 anos, e logo em seguida expulso por condenação em processo de plágio, divulgou uma série de panfletos contra a Maçonaria (as fake news da época), sendo inclusive recebido em audiência privada com Leão XII. Posteriormente, desmentiu tudo o que havia escrito, confessando que queria apenas ganhar dinheiro à custa da Igreja. Porém, o estrago persiste e o lixo literário antimaçônico produzido continua sendo reciclado e utilizado como referência, com vários autores recopiando-se uns aos outros, lançando mão de informações de segunda ou terceira mão, sem uma avaliação mais criteriosa e isenta.

Quase todos os argumentos em desfavor de um arrefecimento dos ânimos, no que tange a uma posição mais acolhedora por parte da Igreja, tem como destaque o Grande Oriente da França que, em 14 de setembro 1877, suprimiu as referências religiosas de seus regulamentos, além de ações provocativas que acirraram as posições. Tudo isso tem reflexos ainda hoje em nosso país, tendo em vista que o Grande Oriente do Brasil é reconhecido simultaneamente e mantém relações com a Grande Loja Unida da Inglaterra e com o Grande Oriente da França.

No período jacobino (1792/1794), a maior parte das lojas francesas foi fechada, com fugas e execução de inúmeros maçons que não compactuaram com a nova ordem estabelecida.  Apesar da sua influência decisiva na Revolução, esta também orientou fortemente os rumos da maçonaria, que funcionou também como veículo para expansão das ideias iluministas, atuando como um partido político camuflado.

Em Portugal, as duas primeiras lojas maçônicas modernas foram fundadas em 1733, sendo uma composta de protestantes e outra de católicos (Grainha, 1976). Segundo Clavel, citado por Benimeli (2007), as primeiras lojas foram erguidas em 1727, por delegados de Paris. Em 1738, ao ser promulgada a Bula condenatória de Clemente XII, a loja católica dissolveu-se, mas alguns dos obreiros não acataram a decisão papal, ingressando em outras clandestinas. A terceira loja estabelecida em Lisboa foi fundada em 1741, com maioria de franceses, pelo calvinista suíço naturalizado inglês John Coustos, e que se tornou um caso emblemático de atuação da Inquisição. Os estrangeiros que a fundaram acreditavam não estar abrangidos pela proibição.

John Coustos e o católico parisiense Alexandre Motton foram denunciados perante o Santo Tribunal em 1742, como maçons, em decorrência de comentários da mulher de um rival no ofício da joalharia. As autoridades eclesiásticas estimulavam as delações e os advogados de defesa sempre atuavam no sentido de exortar o acusado a que confessasse o crime que lhe era atribuído. A prisão deles e de seus companheiros foi determinada em março de 1743. Tal prisão ocorreu tão logo D. João V, tomado de loucura religiosa, promulgou um édito, sem a anuência das Cortes, segundo o qual se condenaria à morte, sem apelo, a qualquer que se comprovasse ser maçom.

Motton foi o primeiro a ser julgado e ficou nas prisões da inquisição durante um ano e três meses, sendo condenado a penas espirituais e a pagar pesadas custas. Simultaneamente, idêntico procedimento fora aplicado a Thomas Bruslé e João Bauptista Richart.

O processo de Coustos teve maior destaque, pois era o Venerável da Loja de Lisboa e não professava a religião católica. Por ser “considerado perturbador e causador de escândalos e de ruína espiritual das almas dos fiéis católicos romanos”, foi pedido que “ele fosse castigado com as penas mais graves, de acordo com o direito e as Bulas pontifícias”. Por ser “herege protestante” e de ter “introduzido e exercido na cidade de Lisboa a seita dos Pedreiros Livres, condenada pela Sé Apostólica”, sua sentença final foi de cumprir quatro anos nas galés (Benimeli, 2007).

Por interferência diplomática, Coustos conseguiu ser enviado para Londres, onde publicou em 1746 um relatório autobiográfico sobre a sua prisão e torturas em Lisboa, descrevendo a si mesmo como um herói que enfrentara os juízes da Inquisição. Referida publicação obteve grande repercussão e foi traduzida em várias línguas. Ainda segundo Benimeli (2007), documentos atualmente disponíveis “permitem corrigir um pouco a sua versão”.

Depois da morte de D. João V, em 1750, sucedeu-lhe no trono o seu filho D. José I, que reinou entre 1750 e 1777. Nesse período, em Portugal, lojas funcionaram com o favorecimento do primeiro-ministro, o Marquês de Pombal. Várias foram abertas em todas as cidades do Reino como filiais da de Lisboa e a maçonaria tivera então o seu prestígio, com forte influência francesa.

Consta que Pombal, maçom e iluminista, teria sido iniciado em Londres ou Viena, em 1745. Entre as ações modernizadoras, Pombal adotou uma Constituição liberal baseada na Inglesa, aboliu a Inquisição, expulsou os jesuítas de Portugal e das colônias (1759), além de afastar a igreja da administração do Estado.

Especula-se que a primeira Grande Loja fundada em Lisboa, foi instalada no convento de São Vicente e teve por Grão-Mestre um irmão do Marquês de Pombal. Estavam, portanto, a coberto dos privilégios e das imunidades de que gozavam os mosteiros e conventos, com grande pesar dos dominicanos, que rondavam as portas, mas não podiam entrar.

Gustavo Barroso, pensador católico, antissemita e antimaçom, no livro “História Secreta do Brasil” (2009), afirma que o Marquês de Pombal principiou “no reino lusitano a era dos maçons, que não passavam de cristãos novos, tanto que as duas palavras eram sinônimos e, no campo, pedreiro-livre era sinônimo de judeus”.

Com a morte de D. José I, em fevereiro de 1777, sucedeu-lhe no trono sua filha mais velha D. Maria I, que depôs Pombal, e as perseguições contra os maçons foram deflagradas pelo Intendente-Geral da Polícia Diogo Inácio de Pina Manique, que acumulava vários cargos, tornando-se o grande senhor do governo de D. Maria I.

A rainha, por sua vez, reintroduziu a lei do seu avô contra os ‘pedreiros-livres’, iniciando um novo e triste período para a maçonaria portuguesa. Os homens mais eminentes do país tiveram de fugir para livrar-se das garras da Inquisição então reativada. Devido às perseguições, os maçons não faziam registros em documentos, que poderiam cair em mãos de denunciantes ou de um “Santo Inquisidor”. A Inquisição foi finalmente extinta em Portugal em 1821 e na Espanha em 1834.

Na Itália, as lutas de unificação tiveram com protagonismo uma minoria militante mobilizada e organizada por associações como a maçonaria e a Carbonária, esta também chamada maçonaria florestal, porém de caráter político independente, eminentemente secreto e revolucionária, com valores patrióticos e liberais, fundada em Nápoles em 1810 e tendo como finalidade principal a unificação da Itália. A condição de maçons dos principais líderes carbonários, como Cavour, Mazzini e Garibaldi gerou reflexos na imagem da maçonaria.

Em junho de 1871, o novo governo da Itália instalou-se em Roma, completando oficialmente a unificação e, logo depois, reconhecendo o poder temporal de Pio IX sobre o Vaticano e o pequeno território vizinho, representando uma grande perda, já que o poder de Roma abrangera uma extensa região da península itálica[6]. A implicação no processo de unificação da Itália pode ser considerada o marco decisivo para aprofundamento das animosidades em relação à maçonaria.

O Grande Oriente Lusitano, considerado a primeira grande loja regular portuguesa surgiu em 1804, aprovando-se sua Constituição em 1806. Ainda naquele ano foi decretado o Bloqueio Continental, que impediu o acesso dos navios ingleses a portos dos países então submetidos ao domínio do Império Francês de Napoleão Bonaparte, que em 1808 provocou a fuga da Coroa Portuguesa para o Brasil. Naquele momento, Inglaterra e França disputavam a liderança no continente europeu. Em 16 de dezembro de 1815, o Brasil foi elevado à categoria de reino: Reino Unido a Portugal e Algarves.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Notas

[5]   Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos): lista que continha a relação das publicações e teorias que iam contra os dogmas da Igreja Católica Romana, cujo conteúdo era considerado impróprio. Inicialmente foi uma reação contra o avanço do protestantismo e teria como objetivo prevenir a corrupção dos fiéis. A primeira versão foi promulgada pelo Papa Paulo IV em 1559. Uma revisão foi autorizada pelo Concílio de Trento (1545-1563). A última edição foi publicada em 1948 e o Index só foi abolido pela Igreja Católica em 1966, pelo Papa Paulo VI (Wikipédia).

[6] Os Estados Pontifícios eram formados por um aglomerado de territórios, basicamente no centro da península Itálica, que se mantiveram como um estado independente entre os anos de 756 e 1870, sob a direta autoridade civil dos papas, e cuja capital era Roma (Wikipédia).

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Maçonaria Operativa: um estudo sobre as possíveis origens da Maçonaria

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Este trabalho apresenta uma investigação sobre as possíveis origens da Maçonaria, tema este que causa bastante polêmica e discussões, tanto nos meios acadêmicos como no público em geral. A falta de documentação científica dificultou a pesquisa, mas não impossibilitou sua realização. A temática do trabalho consiste em ponderar a hipótese mais plausível para as origens da Maçonaria, especificamente a Maçonaria Operativa, que construiu diversos monumentos em estilo Gótico na Europa Medieval. O trabalho faz uma distinção entre a Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa, tal qual temos hoje, com o objetivo de demonstrar a necessidade de maiores estudos da temática que está enraizada nas Ciências Humanas.

Introdução

O interesse pelo estudo da Maçonaria, tal como se apresenta aqui, surgiu com estudos prévios sobre simbologia. O intrincado universo simbólico de cunho oculto, o fascínio e o não entendimento do público, de modo geral e ainda a falta de estudos científicos na área foram elementos incentivadores para a consecução de um projeto de pesquisa[1].

O artigo não discorrerá sobre a Maçonaria moderna, mas sobre as possíveis origens de tal fraternidade, num mergulho no universo das Catedrais medievais e de seu simbolismo, percorrendo aquilo que, empiricamente, podemos atestar como sendo a essência da moderna Maçonaria.

Cenário científico para execução da presente pesquisa

Sabemos que a simbologia está atrelada ao fenômeno religioso, ainda que existam religiões que não possuem motivos simbólicos nos seus meios (RODRIGUES, 2013). Com o avanço do estudo entre simbologia e religião, sobretudo no cenário do Catolicismo, e do aprofundamento nos estudos em Psicologia da Religião, começamos a entrar no cenário do misticismo e do esoterismo que está imbuído de simbologia religiosa das mais diversas culturas.

Entretanto, uma dificuldade se mostrava pelo caminho: como estudar um tema tão controverso, como a Maçonaria, através de meios científicos? Outra questão permeava a dificuldade em se estudar sobre aspectos místicos e esotéricos com um viés científico. Ora, tal dificuldade já tinha sido apresentada no início dos estudos sobre simbologia religiosa. Entretanto, tratando-se de Cristianismo, a quantidade e a qualidade dos materiais científicos não são de difícil pesquisa, visto os bons cursos de Teologia e de Ciência da Religião existentes no Brasil e que produzem extensos trabalhos. O estudo do simbolismo esotérico e da própria fraternidade maçônica tomou um rumo difícil, já na própria formação do projeto de pesquisa, devido à falta de investigações existentes.

A investigação, de modo geral, tinha como objetivo entender o preconceito existente em torno da Maçonaria que, muitas vezes, fora julgada como satânica. Como já tínhamos um material, mesmo que prévio, sobre o estudo da simbologia religiosa e sendo a Maçonaria uma fraternidade permeada de símbolos, ocorreu a ideia de que algumas respostas poderiam ser obtidas através do estudo dos símbolos, o que de fato foi feito.

Como metodologia, utilizamos referências bibliográficas, além de visitas técnicas em diversas igrejas espalhadas pelo continente europeu. Tais referências foram buscadas com cuidado analítico, priorizando autores consagrados na área de estudos simbólicos. A problemática do preconceito em relação à Maçonaria será explorada no seu aspecto histórico, no seu enraizamento na cultura, através do estudo da chamada Maçonaria Operativa.

O início deste artigo, em que expomos dificuldades para o encontro de material científico sobre a temática, já ilustra a necessidade de maiores estudos nesta área, que abrange uma das constituições mais significativas do universo cultural da humanidade: os símbolos religiosos e místicos.

A simbólica e a construção da catedrais medievais

São bastante conhecidas e referenciadas as catedrais medievais espalhadas, sobretudo na Europa. Como afirma Campbell (2010), o homem medieval era dotado de uma profunda espiritualidade religiosa, sendo este um elemento muito fecundo e importante para a construção das mais belas e decoradas igrejas por toda a Europa. Muitas destas magníficas obras estão em países como França, Espanha, Inglaterra e Itália. As mais famosas remetem, por exemplo, a Notre Dame de Paris, ilustrada na Figura 1. A citada catedral talvez seja o exemplo máximo do estilo Gótico na Europa, a sua estrutura revela que a sua simbólica evoca uma profunda religiosidade, assim como a catedral de Chartres, ambas localizadas na França. Diversos estudos têm sido realizados nas catedrais góticas para uma maior compreensão da sua simbólica.

Figura 1: A Catedral de Notre Dame de Paris. (acervo do autor)

O Gótico foi o estilo arquitetônico que imperou durante este período. Lurker (2003) admite que este se tornou o melhor estilo para traduzir a espiritualidade do homem medieval. O autor reporta tal estilo no seu sentido simbólico:

“O símbolo central de qualquer catedral consiste em que Jerusalém celeste desce à terra, como descrito em Ap 21,1-3. Durante o ritual de consagração de todas as catedrais e igrejas, esta passagem era sempre lida. Desde a destruição de Jerusalém por Tito e as suas legiões, cada igreja simbolizava uma nova Jerusalém espiritual, o monte Sião e o centro sagrado em torno do qual se desenrola a vida religiosa dos fiéis. A peculiaridade visual do exterior das catedrais góticas manifesta-se na medida irregular das suas torres, pequenas torres e decorações, sem falar da sua imponência que se sobrepunha a tudo que existia nas cidades medievais, comparável à montanha numa planície. A fachada oeste é sempre um símbolo da morte, e por isto encontram-se muitas vezes cenas que representam o Juízo Final sobre o portal de entrada (e.g., Chartres). A roseta da fachada ocidental é um símbolo do pôr-do-sol (Lc 23,44-45), enquanto o santuário do lado oriental da catedral significa a vida. Os vitrais atrás do altar simbolizam o nascer do sol ou a estrela da manhã, Jesus (Ap 22,16). Nas calhas encontram-se gárgulas grotescas, das quais as horizontais têm função prática de um cano d’água; em contrapartida, as verticais só podem lembrar os fiéis de uma tentação do diabo.” (1Pd 5,8; 1Jo 5,19) (LURKER, 2003, p. 295¬296)

A explanação do autor é fundamental para compreender o estilo arquitetônico Gótico, além de mencionar o espírito religioso do homem medieval. Campbell (2009) lembra que o pensamento teocêntrico imperou na cultura europeia medieval, sendo que este pensamento é explicito na construção de uma catedral gótica. Toda a sua simbólica deseja revestir-se da evocação de um plano superior, da “imitação” do Reino dos Céus na terra. Este estilo arquitetônico deseja representar o macrocósmico no microcósmico.

Com efeito, estes dois termos são estudados por autores que se dedicaram ao estudo da cultura medieval e renascentista. Cassirer (2004) é um destes estudiosos. O autor discute a ideia de macrocósmico e microcósmico, mostrando-nos que a ideia central reside no fato da crença de que nós, seres humanos, somos o microcósmico, ou seja, um pequeno reflexo do macrocósmico que corresponde ao plano superior, o universo de modo geral. Um exemplo reside na própria crença astrológica de que os astros regem nossas vidas, vindo até ao arquiteto gótico que projetava as catedrais com a perspectiva do Reino dos Céus, conhecido como Jerusalém Celeste.

É válido lembrar, como apontei em estudo anterior (RODRIGUES, 2014), que a compreensão exata da simbólica das catedrais góticas está longe de ser totalmente solucionada. A dificuldade não reside, em si, na compreensão da estrutura de tais monumentos, visto que há um consenso geral de que a proporção de tais catedrais estava incutida dentro de perspectivas da simbólica da chamada “Geometria Sagrada”, que analisaremos logo mais. A dificuldade reside em compreender as imagens e símbolos que ornam a grande maioria das catedrais góticas. Tais símbolos, muitas vezes, não são frutos da simbólica comunal do Catolicismo, pelo contrário, evocam outras místicas como a pagã, por exemplo.

É neste cenário que surge a figura dos pedreiros medievais. Butler e Ritchie (2006) mencionam que estes pedreiros eram conhecidos como mason, em inglês e maçon em francês, e em português: maçom, que significa pedreiro, aquele que trabalha com a pedra. Jacq (1980) menciona que os grupos de maçons formavam uma forte confraria por toda a Europa, sendo eles especialistas na construção e decoração das catedrais e outros monumentos medievais em estilo Gótico.

Estes pedreiros, assim como o modelo de homem medieval, eram comprometidos com a religião Católica. E a religiosidade está explícita na arquitetura dos monumentos que construíam. Os pedreiros eram profundos conhecedores do que hoje é conhecida como “Geometria Sagrada”. Pennick (1980) discorre sobre este conceito de Geometria Sagrada, explicando que a Geometria, que significa o ato de medir a terra, fora considerada como sagrada, pelo fato de que com a matemática era possível medir elementos da natureza, ou seja, elementos da própria criação divina. A Geometria passou a ser considerada uma “arte divina”, e foi amplamente utilizada na geometrização das catedrais medievais, com o intuito de, como mencionou Cassirer (2004), representar o plano macrocósmico no microcósmico.

A figura 2 pode bem ilustrar o que temos argumentado aqui, a imagem é uma representação da Geometria da Catedral de Milão. A Geometria é aqui conhecida como ad triangulum. Os pedreiros utilizavam de formas geométricas bastante específicas para formarem harmoniosas disposições arquitetônicas.

Pennick (1980) perpassa toda a História da Geometria Sagrada desde os mesopotâmicos aos pedreiros medievais. Ele aponta que um dos nomes mais famosos, que se utilizou da Geometria, tornando-a como elemento sagrado, foi o famoso arquiteto Vitrúvio. Quanto às catedrais medievais, ele pondera:

“As catedrais medievais são a mais fina flor da arte da geometria que se desenvolveu na Europa. As manifestações físicas da summa theologiae, a incorporação microcósmica do universo criado, as catedrais na sua forma completa perfeita, unidas nas suas posições, orientações, geometria, proporção e simbolismo, tentam criar a Grande Obra – a unificação do homem com Deus. Tem-se observado que muitas catedrais, como as de Canterbury, Gloucester e Chartres, foram construídas no sítio de antigos megalíticos, incorporando nos seus desenhos o posicionamento e a geometria dos círculos.” (PENNICK, 1980, p. 86).

Figura 2: Xilogravura do plano geométrico da Catedral de Milão (http://www.emis.de/journals/NNJ/RHF-fig07.html)

Todo este complexo esquema arquitetônico deveria, com toda a certeza, ser produzido por sujeitos com grande habilidade matemática. No entanto, é surpreendente saber que grande parte dos pedreiros e arquitetos medievais eram pessoas simples, geralmente iletrados, mas que tinham um profundo conhecimento matemático, transmitido, segundo Stavish (2011), por outros pedreiros através de um ato de segredo-sagrado, como se a arte da Geometria fosse uma espécie de arte divina que deveria ser transmitida somente para sujeitos capacitados para compreendê-la. Surgia assim, o possível início da fraternidade maçônica, conhecida como Maçonaria Operativa.

A Maçonaria Operativa entre Símbolos e Segredos

Jacq (1980) admite no seu livro “A Mensagem dos Construtores de Catedrais” que as mencionadas catedrais góticas permanecem um mistério arquitetônico, sobretudo pelas suas precisões matemáticas exatas, e as proporções que equilibram o edifício. O autor não tem dúvida de que os construtores dessas catedrais, embora muitas vezes iletrados, possuíssem conhecimento da matemática dos antigos egípcios, gregos e mesopotâmicos. O mesmo autor julga que estes pedreiros, ou maçons operativos, tinham profundos conhecimentos em Astrologia e Astronomia. Esta afirmação é proposta, sobretudo por Heath (2010), ao mencionar que muitas catedrais medievais da Europa estão alinhadas com constelações planetárias, sendo estes alinhamentos típicos da chamada Geometria Sagrada.

Um exemplo da possibilidade de que esses pedreiros, de fato, possuíam conhecimento em Astrologia/Astronomia, está na construção da Capela Rosslyn, em Edimburgo, Escócia. Butler e Ritchie (2006), que estudaram por anos esta Capela, afirmam que o monumento está todo construído seguindo leis astronômicas, que seguem a movimentação do Sol. Segundo os autores, essa comprovação pode ser feita mediante a análise de como o Sol ilumina a capela durante os solstícios e os equinócios.

A tradição da Geometria Sagrada e a construção de edifícios segundo a ordenação dos astros não se limitou à Idade Média, mas se expandiu por muitos séculos. Um exemplo desta tradição pode ser encontrado na construção da capital americana Washington como afirma Ovason (2009). Grande parte da capital americana fora construída segundo ordenações astrológicas; as datas da fundação dos maiores monumentos como a Casa Branca e o Capitólio ocorreram em significativos dias para a Astrologia, sobretudo nos dias representativos do signo da constelação zodiacal de Virgo ou Virgem.

Importa-nos, agora, voltar à atenção para a expressão “Maçonaria Operativa”. Como mencionado, o termo “maçom” significa pedreiro e, portanto, passou a ser um termo comumente utilizado na época das referidas construções. Jacq (1980) comenta que as evidências remetem que, por um senso lógico, esses pedreiros eram altamente versados na arte de construção e em conhecimentos esotéricos. Como afirma Fulcanelli (2007), todo o conhecimento das agremiações dos maçons operativos eram passados de forma sigilosa.

Estas ponderações, de fato, podem surtir um sentido lógico. É fato que durante a Idade Média, todo o conhecimento estava nas mãos da Igreja Católica, os indivíduos letrados eram poucos. O desemprego estava em alta e a construção de catedrais, e outros monumentos, se tornava uma boa opção para muitos homens. No entanto, não havia, logicamente, trabalho para todos. Como afirma Musquera (2010), e como mencionado durante este estudo, os pedreiros tinham profundo zelo por sua profissão, na tentativa de construírem a catedral mais harmônica possível. Para protegerem a nobre profissão de talhar em pedra e dos ensinamentos em Geometria que eles possuíam, acharam por bem manter a arte da construção em segredo, segredo este partilhado somente entre os pedreiros das ditas corporações.

Estudiosos como Musquera (2010), Fulcanelli (2007) e Jacq (1980) acreditam que esses clubes de pedreiros formaram uma verdadeira sociedade iniciática, ou seja, para se tornar um indivíduo versado na arte de Geometria seria necessário passar pelo processo de iniciação ritualística que marcava, simbolicamente, a entrada de um novo membro para a guilda. O iniciado que recebia o título de aprendiz, jurava manter segredo sobre tudo o que aprenderia, jamais revelando para os que não fossem pedreiros iniciados.

Karg e Young (2008) exploram a existência de manuscritos históricos que atestam a existência da sociedade dos pedreiros (maçons) operativos. Um destes documentos é conhecido como Manuscrito Cooke e outro, como Estatutos de Schaw. Sobre estes documentos podemos alegar que, de fato, as mencionadas guildas de pedreiros existiram e que, para se tornar um membro, era necessário demonstrar conhecimentos em Geometria, além de passarem por uma iniciação.

Karg e Young (2008) estão convictos, assim como outros estudiosos, de que as agremiações dos pedreiros medievais, que se formaram em boa parte da Europa, além de possuírem o conhecimento em Geometria, também conheciam profundamente aspectos de simbolismo místico e esotérico, sendo que tal conhecimento era amplamente difundido na ornamentação de monumentos, sobretudo, em catedrais.

Sabemos que durante a Idade Média todo o saber que não estivesse ligado aos dogmas do Catolicismo era rapidamente suprimido. O Paganismo fora suprimido pelo Cristianismo; qualquer prática ou estudo de práticas pagãs eram proibidos. Os pedreiros, além de possuírem antigos conhecimentos em Geometria, oriundos do mundo pagão, podem, de fato, terem tido contato com a mística e com o simbolismo pagão.

A suposição de que tais pedreiros tinham conhecimento esotérico pode ser atestada pelo próprio conhecimento astrológico que os mesmos utilizavam durante a edificação, como exploramos anteriormente, e a utilização da mencionada Geometria Sagrada. Não é possível atestar com rigor científico de que estes pedreiros, de fato, tinham conhecimentos esotéricos (RODRIGUES, 2014). Muitas das evidências nos mostram que a probabilidade é muito grande, visto a simbologia que orna diversas catedrais góticas. Tal simbologia se distancia dos ensinamentos cristãos, embora, muitos símbolos pagãos foram adaptados para o contexto cristão.

A ideia é fortemente defendida por Murphy (S/D) que estudou uma das mais enigmáticas capelas da Europa, a Capela Rosslyn. Para o autor, é certo que os pedreiros medievais, além de formarem uma forte agremiação de construtores, eram fortemente versados em “artes” como a Astrologia, Cabala e Alquimia, sendo que todo este conhecimento era difundido, de certa forma, na simbologia das mencionadas construções, sendo a Capela Rosslyn, o exemplo mais notável. A figura 3 faz conexão com as ponderações de Murphy, quando analisamos os símbolos da Capela Rosslyn. Os símbolos da Capela estão longe da “típica” teologia do Cristianismo. Um exemplo é o “Homem Verde”, registrado na foto. Segundo especialistas, tal símbolo pode ser uma influência da antiga religiosidade céltica.

A figura 4 também é um exemplo curioso da simbólica da Capela Rosslyn. Aqui encontramos três distintas colunas que são denominadas de colunas do Aprendiz, Companheiro e Mestre, correspondendo aos três graus entre as classes dos pedreiros. Estes três graus se encontram, atualmente, dentro da ritualística maçônica, o que fornece margem para mais especulações e teorias. A ideia também é desenvolvida por Musquera (2010).

“Com o passar dos séculos, ermidas, igrejas e catedrais, estas últimas na época do apogeu máximo da Idade Média, conservaram na sua iconografia aqueles conceitos considerados secretos, ocultos, procedentes de cerimônias, rituais e iniciações ancestrais que tinham ficado na memória do acervo popular e que as novas imposições eclesiásticas não conseguiram apagar com seus dogmas e credos. Os templos passaram a ter o mesmo significado ancestral. O solo ladrilhado era a Terra e as nervuras, contrafortes e outros elementos arquitetônicos que sustentavam a abóboda representam o Céu. É precisamente na Idade Média, com o surgimento do Românico e, posteriormente, do Gótico, que se produz uma eclosão iconográfica, herança dos mestres construtores que nos permitirá descobrir como tais representações esculpidas na pedra guardam conhecimentos que possuem distintas interpretações e leituras.” (MUSQUERA, 2010, p. 14-15).

Figura 3: “Homem Verde”, Catedral Rosslyn (acervo do autor)
Figura 4: Três colunas, no interior da Capela Rosslyn

Ao se tratar destes “estranhos” símbolos, surgem muitas especulações e teorias. Por isso, do ponto de vista acadêmico, é difícil defender a tese de que os pedreiros medievais guardavam, além da arte de construção, supostos segredos que versavam sobre conhecimentos místicos e esotéricos, embora os símbolos de dezenas de diversos monumentos da cristandade medieval forneçam embasamento para tal tese.

“Para a maioria de acadêmicos, estudiosos da História da Arte e pesquisadores em geral, os conhecimentos que os grêmios medievais possuíam correspondiam simplesmente ao domínio de seus ofícios ou profissão e pouco mais. A simbologia e o possível esoterismo de rituais e cerimônias a eles atribuídos não são mais do que conjecturas, hipóteses sem fundamento ou inclusive fantasias que foram surgindo com o tempo, principalmente por causa dos autores Românicos e, sobretudo, da Franco-Maçonaria, que tem buscado neles argumentos para embasar a sua antiguidade e autenticidade.” (MUSQUERA, 2010, p. 33).

Embora o citado autor, juntamente com Murphy (S/D), Fulcanelli (2007) e Butler e Ritchie (2006) sejam partidários da tese de que os mencionados pedreiros tinham conhecimentos esotéricos, o argumento acadêmico também tem seu fundamento, devido à falta de documentos que atestem estes conhecimentos. Os acadêmicos também estão certos ao concluírem que muitos dos símbolos pagãos foram incorporados na tradição cristã, o que poderia justificar o surgimento destas “estranhas” figuras em ambientes totalmente cristãos. No entanto, os debates ainda permanecem e um consenso está longe de ser estabelecido.

Os teóricos defensores da tese de que os símbolos são, de fato, característicos de um conhecimento esotérico entre os pedreiros medievais admitem que a falta de documentação sobre os significados dos símbolos reside no próprio fato de que estes sujeitos guardavam segredo do que conheciam e eram inaptos para escreverem algo, já que a sua grande maioria consistia de analfabetos.

Marcas na pedra:evidências da Maçonaria Operativa

Discutimos, até o presente momento, a existência da respeitada confraria de pedreiros medievais que, de certa forma, podem ser classificados como maçons operativos, levando em conta a etimologia da palavra maçom. Portanto, a existência da Maçonaria Operativa é um fato na História. No entanto, deve-se haver cuidado ao mencionar a Maçonaria Operativa, a antiga confraria de construtores de catedrais, da atual Maçonaria Simbólica. O cuidado reside na confusão em que o estudioso possa fazer destas duas Ordens[2]. Para que tal engano não ocorra, é importante esclarecer as diferenças entre dois “tipos de Maçonarias”.

A Maçonaria Operativa, como temos estudado, consistiu-se nas confrarias de pedreiros (maçons) que trabalhavam na pedra, no planejamento e execução de diversos monumentos em estilo gótico, durante a Idade Média, principalmente nas catedrais. (JACQ 1980). Por sua vez, a Maçonaria Simbólica ou Especulativa, tal como temos hoje, reveste-se do simbolismo dos maçons construtores. O mito maçônico prega sobre as suas origens nas confrarias dos maçons operativos. No entanto, a Maçonaria atual nada mais constrói fisicamente como outrora, mas prega a construção do próprio maçom, simbolizando no seu aperfeiçoamento intelectual, espiritual e moral. Como aponta Roberts (2012), quando mencionamos sobre o mito maçônico não acreditamos que seja uma mentira. Muito pelo contrário, a Maçonaria atual pode mencionar as suas origens nas confrarias dos pedreiros medievais, visto que é uma hipótese bastante plausível. Porém, deve-se ater às diferenças entre essas duas Ordens ainda que se admita a possibilidade de herança de uma em relação à outra.

De fato, existem documentos que atestam grande possibilidade da herança entre Maçonaria Operativa e a Maçonaria Especulativa. Nosso foco, entretanto, é ater-se na comprovação da existência das confrarias dos pedreiros medievais, que formavam um clube iniciático e de profundo estudo/aprendizado nas artes da Geometria e da Arquitetura.

Embora muitos autores se voltem para os complexos símbolos esotéricos encontrados nessas catedrais e tentem, de todas as formas, provar que as agremiações possuíam conhecimentos religiosos milenares, Prescott et al. (2011) chama-nos a atenção para singelas marcas encontradas, geralmente, nas pedras sem ornamentação das estudadas construções.

Essas marcas existem, porém, como indicam Gandra et al. (2001), não são símbolos, são meros sinais indicativos. Em todo o caso, os mesmos especialistas estão convictos de que os pedreiros medievais formavam um forte grupo na sociedade, caracterizado por profundos conhecimentos em matéria de Arquitetura e simbolismo.

“[Estas marcas] têm sido consideradas como siglas simbólicas, visto que, naquele tempo, os canteiros e pedreiros se encontravam associados e iniciados secretamente nos segredos difíceis dos seus ofícios. Deste modo, eram os únicos capazes de construir estes ousados edifícios, estes monumentos extraordinários que, ainda hoje, suscitam a nossa maior admiração, conquanto já não seja um mistério conhecer as regras da estereotomia, nem a maneira de dar a estabilidade necessária à solidez destes edifícios grandiosos, deixados pelas gerações extintas, do séc. XI ao séc. XIV, merecedoras do nosso elogioso tributo.” (GANDRA et al., 2001, p.5).

Tudo aponta que estes sinais indicavam cada maçom (pedreiro) que trabalhava na obra, ou seja, cada um deles possuía a sua marca própria. Os trabalhadores marcavam as pedras que tinham talhado/trabalhado, auxiliando a conferencia do mestre de obra. Tal prática também facilitava o pagamento pelos serviços prestados. A figura 5 é um exemplo destes sinais. A presente imagem apresenta uma singela e pequena marca, na estrutura do Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa. Todo o Mosteiro está adornado com estes sinais em pedra. Os sinais variam entre números romanos, signos do zodíaco entre outros. Simbolicamente, o presente sinal aparenta ser um esquadro e um compasso.

Em uma verificação empírica, comprovamos a existência destes sinais estenografados nas mais diversas catedrais espalhadas pela Europa. Em Portugal, por exemplo, encontramos em diversos monumentos religiosos, como em Lisboa, Faro, Coimbra e Porto.

Figura 5: Sinais encontrados na estrutura do Mosteiro dos Jerónimos (acervo do autor)

Estes sinais são fortes indicadores da organização dos pedreiros medievais. Todos os autores estudados neste artigo indicam que tais pedreiros formavam um ramo de atividade, uma classe de trabalhadores, muito forte na época. Também concordam que mantinham segredos sobre questões relativas ao trabalho em pedra, sobre medição arquitetônica e que para ser admitido ao clube de trabalhadores era necessário, além de demonstrar habilidade em construção, passar por uma iniciação que, para muitos estudiosos, tinha um carácter sacro-esotérico.

Stavish (2011) está convencido que a própria estrutura arquitetônica das catedrais, com as suas imensas rosáceas e simétricos vitrais, são uma prova consubstancial de que estes pedreiros tinham conhecimento esotérico, pois, todas essas proporções, como vimos, são hoje mencionadas como Geometria Sagrada. Para exemplificar, o que chamamos de Geometria Sagrada, podemos mencionar a ampla utilização do Pi e do chamado “número de ouro”, amplamente estudado pelo matemático italiano Fibonacci.

O autor acredita que seja com essas sequências numéricas que os construtores acreditavam que podiam glorificar a Deus, através da representação do macrocósmico em números e medidas caracterizando a Geometria Sagrada. As proporções sagradas, por assim dizer, estariam representando proporções da própria natureza e do próprio cosmos. Não seria fácil um estudioso, versado na área de humanas, explicar com exatidão o “funcionamento” destas sequências numéricas que estão embutidas nestas construções. Este complicado entrelaçamento entre Geometria e sacralidade pode ser bem ilustrado quando se estuda, por exemplo, a Sequência Fibonacci. No entanto, encontramos diversos autores que estão convencidos de que os construtores medievais possuíam conhecimento esotérico, formando um verdadeiro clube filosófico.

Arola (1986), eminente professor da Universidade de Barcelona, é um destes convictos estudiosos que acredita na existência de conhecimentos místicos entre as agremiações. Argumenta-se que a falta de documentação é prova de que eles guardavam segredo sobre o ofício, sendo que todas as instruções eram passadas por via oral.

Arola (1986), após estudar diversas catedrais medievais, concluiu que elas são um espelho que reflete o desejo do pedreiro em espelhar a obra do Criador num monumental e bem simbólico edifício de pedra. O mesmo autor está convencido que os canteiros de obras, além do trabalho braçal, formavam um clube filosófico. Além do trabalho em pedra, o pedreiro era convidado para trabalhar a sua própria interioridade, lapidando a sua pedra, ou seja, a sua própria conduta existencial.

A imagem 6 pode ser um complemento com a tese de Arola (1986). Jung (2008), discutindo os símbolos das catedrais, concluiu que a rosácea é o símbolo máximo da perfeição, da totalidade sendo o símbolo da própria divindade. A simbólica da rosácea, de facto, revela a plenitude, o todo, e pode indicar as etapas de desenvolvimento psíquico do homem, segundo a teoria junguiana.

Sobre este aspecto, mantemo-nos neutros perante o enigma da suposta existência de sabedoria mística entre os maçons medievais. Mesmo sabendo que tal teoria tem ganhado espaço no meio acadêmico, e com um pouco de inclinação em aderir à ideia, ainda permanecemos com uma “postura freudiana”, com o receio de “construir uma estátua de ferro com bases de barro” (FREUD, 2006). Por fim, o mistério sobre a existência de conhecimento esotérico entre os pedreiros medievais, ou maçons operativos, permanece ainda um enigma histórico, que precisa ser ainda investigado, como afirma Musquera (2010), ao refletir sobre o mundo dos símbolos e a mensagem deixada pelos antigos construtores:

“Alheio ao mundo dos símbolos e em consequência ao seu significado, o mundo moderno não nos permite dilucidar o mistério que pode envolver essas formas que possivelmente estão transmitindo chaves que desconhecemos. As fraternidades medievais legaram mensagens pétreas que representam uma linguagem própria que não sabemos interpretar. Geralmente, essas marcas de cantaria são de escassa profundidade, e a sua dimensão oscila em torno de dez centímetros. Essa escassa profundidade tem feito com que, com o passar do tempo, muitas delas sejam quase irreconhecíveis, sendo que outras já desapareceram diante da ânsia de algumas administrações de “limpar” o patrimônio local, executando autênticas barbaridades.
De tudo isso, temos apenas uma vaga lembrança, uma ligeira intuição, talvez impressa no nosso chamado inconsciente coletivo, que nos faz suspeitar que a alma da pedra, na sua mudez de séculos, guarda uma lição ou uma mensagem. Resta muito caminho por percorrer e muita pesquisa de campo por realizar, para tentar saber um pouco mais sobre os signos lapidários. Sempre teremos a suspeita de que aqueles grêmios medievais artesanais deixaram para trás indícios, pistas e sinais, que contêm conhecimentos que merecem ser descobertos e analisados de todos os pontos de vista possíveis. Na atualidade, sabemos como e quando, mas talvez, um dia não muito distante, também descubramos o porquê de tudo isso.”(MUSQUERA, 2010, p. 115).

Figura 6: uma das rosáceas da Catedral de Notre Dame de Paris (acervo do autor)

Considerações Finais

Os resultados de nosso estudo sobre as possíveis origens da maçonaria foram sendo tecidos durante o desenvolvimento do trabalho. De modo geral, não é possível atestar, com rigor científico que os pedreiros medievais possuíam, de fato, conhecimento esotérico, servindo-se dele para infundir, ocultamente, doutrinas místicas na ornamentação das catedrais góticas. Quando realizamos uma visita a uma destas catedrais, tomados por sua beleza e seus símbolos, somos instigados a admitir que seus construtores tiveram uma forte espiritualidade e que tal edifício representava, para os medievais, o eixo do mundo, ou o axís mundi. Essa espiritualidade pode, sim, ser comprovada pela própria precisão matemática que estas agremiações tinham e pelo cuidado em admitir um novo membro para a consecução de um monumento.

Mesmo quando olhamos para as abóbodas do Mosteiro dos Jerônimos e supomos facilmente que lá se encontram desenhados simetricamente os Sephiroth da Cabala judaica, nossas convicções se perdem com a falta de documentação que corrobore a analogia. Muitos estudiosos estão convencidos que as estruturas em estilo Gótico são uma prova cabal da existência destes conhecimentos místicos. Porém, o cientista, que se vale de comprovações escritas, abstém-se ante a falta de tal documentação.

Por fim, vale lembrar que explorar as guildas dos pedreiros medievais é explorar parte da História da atual Maçonaria Especulativa. Como já mencionado, ainda que as duas Ordens sejam distintas, é possível encontrar elementos plausíveis para a origem da maçonaria, no meio dos trabalhos dos maçons operativos. Há ainda muito material para ser analisado com o intuito de que mais luz possa ser lançada sobre o tema, cuja investigação tem, na interdisciplinaridade das ciências humanas, as melhores chaves para esta jornada.

Autor: Marcel Henrique Rodrigues

Fonte: Revista Contemplação

Notas

[1] – O presente artigo é parte dos resultados de pesquisas realizadas com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP

[2] – Em estudo anterior (RODRIGUES, 2014), foi mencionada a possibilidade de que o Mosteiro dos Jerônimos em Portugal, que data do final da Idade Média, tenha sido construído pelos maçons operativos. Logo, advieram críticas constando que se entregava, sem nenhuma prova documental, a tutela deste importante patrimônio português aos maçons. De imediato foi esclarecido que o Mosteiro dos Jerônimos em nada tem a ver com a atual Maçonaria, e que mal entendidos levaram à concepção de que a antiga Maçonaria Operativa se identifica com a Maçonaria Especulativa.

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http://revistas.pucsp.br/index.php/ultimoandar/article/view/13987/10293 Acesso em: 20/09/2014

STAVISH, M. As Origens Ocultas da Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 2011.

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Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável – Parte I

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“… Do templo de Javé brotará uma fonte que irrigará o Vale das Acácias” (Joel, 4:18)[1]

A Maçonaria Operativa ou de Ofício[2], que dominava a arte de construir, nasceu e floresceu na Europa, sob o manto da Igreja Católica, por volta dos séculos XI ou XII, por intermédio das corporações ou confrarias dos mestres construtores de catedrais e mosteiros, que recebiam instrução e evangelização dos frades e protegiam os ensinamentos secretos da arquitetura e os interesses corporativos da classe.

A Igreja representava a maior instituição da época e o único poder capaz de assegurar o financiamento das construções, influenciando de forma marcante a vida cultural da Idade Média, constituindo-se a arquitetura religiosa a manifestação artística mais expressiva daquele período. Nesse sentido, o conhecimento, o saber, era monopólio da Igreja. A educação do povo estava aos seus cuidados.  Os governos só educavam os nobres.

Regulamentos na forma de cartas e constituições, descrevendo os compromissos dos membros, bem assim os conhecimentos e instruções morais e religiosas, de conteúdo explicitamente cristão, formavam os “Antigos Deveres”, “Antigas Constituições” ou “Manuscritos”, delineando um sentido espiritual e material aplicáveis aos obreiros construtores, precursores da maçonaria moderna. O Museu Britânico e a biblioteca maçônica de West Yorkshire guardam vários desses documentos, que formam a base das constituições maçônicas.

Como não existia um organismo central que tomasse decisões para a totalidade das guildas de ofício, cada uma conservava sua autonomia e usava um manuscrito dos “Antigos Deveres” que melhor lhes aprouvesse e sobre os quais os juramentos eram prestados. Os mais famosos são o “Poema Regius” ou “Manuscrito Halliwell”, provavelmente de 1390, e o “Manuscrito de Cook”, estimado de 1450.

Alguns autores advogam a precedência da Carta de Bolonha, de 1248, como o primeiro documento maçônico conhecido. Esses documentos já denotavam que os membros originais especulavam sobre o uso emblemático e simbólico de seus instrumentos e ferramentas no contexto das práticas de construção.

A partir do século XV, com o declínio da construção de catedrais medievais, do nascimento da burguesia e do comércio, sem as tutelas eclesiástica e feudal, e enfrentando a diminuição de seus membros oficiais, a situação das lojas começou a mudar, com a entrada dos ditos “especulativos”, que não eram necessariamente homens ligados à arte de construir, mas cidadãos burgueses em geral, militares e comerciantes. Importa ressaltar que aquelas entidades já contavam em seus quadros com empregados para cuidar do acervo e solucionar problemas técnicos e administrativos.

A mudança significativa se deu no final do século XVI quando, em número cada vez maior, os denominados Maçons Livres e Aceitos, substituíram os trabalhadores, transformando-se em sociedade de auxílio mútuo e num espaço para a livre manifestação do pensamento, com seleção dos membros “entre os homens conhecidos pelos seus dotes culturais, pelo seu talento e pela sua condição aristocrática, que poderiam dar projeção a elas, submetendo-se, todavia, aos seus regulamentos” (Castellani, 2007).

Ainda em períodos anteriores, começando a reinar a intolerância em muitos Estados europeus, as corporações de ofício não conseguiram impedir a evolução representada pela aceitação de homens não operativos nas lojas (os adotados), não se tratando ainda de intelectuais e filósofos, mas de diversos sectários, hermetistas e daqueles que desejavam entregar-se às pesquisas espirituais fora do dogmatismo e atraídos pela calorosa fraternidade, segurança e liberdade que tinham para fazer reuniões, face às proibições impostas pelas autoridades por receio de conspirações.

Como, à época, não havia templos maçônicos – o primeiro só seria inaugurado na Inglaterra em 1776 – as reuniões aconteciam no interior de tabernas ou nos adros das igrejas, que tinham um papel social muito importante. O grande atrativo eram os jantares e confraternizações que permitiam formar uma rede de networkingavant la lettre”, além de ser uma distração, com o atrativo do mistério. Nos templos religiosos havia bibliotecas e escolas de música, funcionando também como centros de cultura e educação e como locais de reunião e difusão e de troca de ideias.

Em 1709, o reverendo Jean Theofhile Désaguliers, pastor presbiteriano, filósofo francês, foi iniciado na Loja São Paulo em Londres, também conhecida como “A Loja da Cervejaria” ou “O Ganso e a Grelha”, no adro da Catedral de São Paulo, o que iria apressar o processo de transformação do arcabouço para a moderna maçonaria (Castellani, 2007).

Assim, em 24 de junho de 1717[3], atendendo à convocação de Désaguliers, a essa altura membro da Real Sociedade de Londres (Royal Society) e amigo de Sir Isaac Newton, quatro Lojas reuniram-se em assembleia e a Inglaterra deu o primeiro passo em direção à organização nacional por meio das Grandes Lojas, fundando a Grande Loja de Londres, sob a direção de um Grão-Mestre, permitindo à maçonaria ampliar o seu escopo ao criar um sistema obediencial, concentrando por decisão própria o poder legislativo total.

Na fase operativa dos pedreiros trabalhadores, as lojas maçônicas não estavam submetidas a nenhuma jurisdição ou a um poder central que as aglutinassem, a não ser os vínculos fraternais e profissionais. A criação da primeira Obediência Maçônica do mundo, formada pelos Aceitos, é considerada o marco da moderna maçonaria, com o enfoque de sociedade de pensamento ou de construtora social, visando ao aperfeiçoamento moral e intelectual de seus membros, de caráter cosmopolita e secreto. Ainda hoje, a Grande Loja Unida da Inglaterra é a instituição central que “reconhece” ou “não reconhece” as obediências ou associações nacionais.

Especula-se sobre a influência que teria tido a Royal Society, fundada em 1660, pelo elevado nível intelectual de seus membros, no nascimento da maçonaria moderna, com o registro de vários nomes de prestígio em comum e a marca do Iluminismo. As premissas básicas da religião e da teologia eram questionadas pelos seus fundadores, evitando-se, contudo, os problemas de fé.

Na sequência da fundação da Grande Loja de Londres, a maçonaria conquista toda a Inglaterra, o continente europeu e, seguidamente, todas as partes do mundo. De 1721 a 1736, estabelece-se na França; de 1733 a 1741, na Alemanha; de 1723 a 1735, nos Países Baixos; em 1731, na Rússia; de 1735 a 1754, na Suécia; de 1743 a 1749, na Dinamarca; de 1727 a 1728, na Espanha; em 1733, na Itália; de 1733 a 1743, em Portugal; em 1737, na Suíça; em 1738, na Turquia (Grainha, 1976).

Evidências históricas do Século XVII demonstram que na Escócia a maçonaria era bem mais forte do que a Inglesa. O historiador David Stevenson (2009) defende a tese de que a maçonaria tal como se conhece foi uma invenção escocesa, inclusive quanto ao uso da palavra “Lodge”, no sentido maçônico, enterrando um antigo paradigma e lançando luzes sobre o estudo das suas origens.

O jesuíta José Antônio Ferrer Benimeli, (2007), no prefácio à 5ª edição de seu livro “Arquivos Secretos do Vaticano e a Franco-Maçonaria”, esclarece que deliberadamente ignora as polêmicas mais recentes a respeito das origens da Franco-Maçonaria: Stevenson versus Hamill, ou da Escócia contra a Inglaterra, “no âmbito de uma nova disputa pelos poderes e as influências maçônicas internacionais onde a França toma partido em favor da Escócia, de preferência à Inglaterra...”.

O Grande Oriente da França foi fundado em 1728[4]. “A mais antiga Loja de Paris, e provavelmente da França, havia sido fundada, em 1725, pelos partidários dos Stuart, que, por seus complôs contra os soberanos legais da Inglaterra, haviam sido obrigados a se refugiar na França” (Benimeli, 2007).

Entre 1727-1728 criaram-se lojas na Espanha, que se chocaram imediatamente com a Inquisição. A Inglaterra abriu oficinas nas possessões coloniais e, em 1730, fundou-se uma loja em Calcutá. Nos anos de 1732-1733, lojas foram criadas na América; Florença, em 1732; Milão e Genebra, em 1736; e Alemanha, em 1737. Essa expansão passou, assim, a incomodar os poderes dominantes (Jacq, 1977).

Os ataques então sofridos pela Maçonaria se deviam em especial ao seu caráter iniciático e pelo “sigilo” decorrente das modificações dos rituais introduzidos pela nova base legal escrita por James Anderson, escocês e pastor da Igreja Presbiteriana em Londres, conhecida como Constituição de Anderson ou Constituição dos Maçons Livres, divulgada em 1723 (vide Nota 2 acima). O trabalho contou com o auxílio de Jean Theophile Désaguliers, sob a influência de intelectuais, aristocratas e dissidentes religiosos.

Como a Constituição de Anderson não considerou no “Parágrafo Relativo a Deus e à Religião” o aspecto “Cristão Trinitário” das “Old Charges”, onde um maçom era obrigado a ser apenas daquela religião “na qual todos os homens de bem estão de acordo”, inaugurou-se então o conflito com a Igreja, em face da retirada do catolicismo como a religião tradicional da maçonaria.

É bom lembrar que a Inglaterra ignorava a autoridade do Sumo Pontífice desde o rompimento com a Igreja Católica, em 1534, com a criação da Igreja Anglicana pelo rei Henrique VIII, por este não ter obtido o divórcio para casar-se com a sua amante. Com isso, o rei se autoproclamara único protetor e chefe supremo da Igreja e do clero da Inglaterra, confiscando os bens e abolindo o celibato dos padres.

As lojas maçônicas eram consideradas como centro de influência protestante inglesa e, portanto, contrárias aos interesses das famílias dinásticas europeias, de orientação católica. Passou também a incomodar os poderes dominantes de cada país, despertando o receio de conspirações para derrubada e tomada do poder pelo grande afluxo de nobres e aristocratas aos seus quadros.

Ao assumir um caráter liberal e libertário, ainda que clandestina, criou-se, então, um fosso entre a maçonaria e a Igreja Católica, “uma vez que esta, conservadora, apoiava os regimes monárquicos absolutistas, deles participando ou até comandando-os” (Castellani, 2007). “O desenvolvimento da burguesia, de relações de produção capitalista, e do Estado Nacional Absolutista eram mudanças que representavam novas forças, cuja evolução se fazia em detrimento da sociedade feudal que tinha na Igreja Católica seu principal sustentáculo ideológico” (Aquino, 1993).

Em função das reuniões de caráter secreto, que julgavam prestar obediência a um poder central de Londres, muitos governantes pediam providências ou soluções ao Papa. Assim, por pressão dos inquisidores, Clemente XII, aos 86 anos, cego e preso ao leito quase que constantemente, assinou, em 28 de abril de 1738, a Bula “In Eminenti Apostolatus Specula”, que atribuía o castigo da excomunhão a quem frequentasse ordens iniciáticas secretas, incluindo-se a maçonaria, que ficou então na mira da Igreja.

Esse foi o primeiro documento oficial do Vaticano condenando a maçonaria, embora já existissem éditos de Estados temporais proibindo reuniões de maçons, considerados suspeitos de ir contra a ordem pública. Tal medida se deu muito mais por motivos temporais, diante do incômodo provocado pelo clima de segredo e de juramento de que era cercada a maçonaria, do que por temores de distúrbios espirituais e religiosos.

O Vaticano além do poder temporal representava também o poder espiritual e ao condenar a maçonaria perpetuou uma reação própria de uma determinada época e projetou-a para o futuro “até os dias atuais, quando isso parece um grande e insustentável anacronismo” (Castellani, 1996).

Benimeli (2007), afirma:

Da documentação vaticana conhecida até o momento e que nós comentamos em capítulos anteriores se destaca um fato evidente: em Roma, não se sabia ao certo o que era a Maçonaria, nem o que ela pretendia; e isso apesar das informações pedidas a Haia e a Bolonha, apesar das denúncias recebidas de Florença”.

As proibições da Bula In Eminenti, por sua divulgação e proclamação, foram logo aplicadas nos países católicos, produzindo efeitos diversos, passando a maçonaria a ser considerada uma seita e uma congregação por aceitar simultaneamente pessoas de várias religiões e exigir um juramento solene de discrição e segredo absoluto aos seus membros sobre os assuntos tratados nas reuniões e do simbolismo envolvido.

Pesava ainda o fato de que, em época em que a liberdade de reunião era das mais restritas, a maçonaria apresentava-se como um espaço em que o intercâmbio de ideias era mais seguro. A Bula não conseguiu erradicar ou impedir a disseminação da maçonaria. Na Inglaterra os maçons católicos praticamente não foram afetados pelas proibições de Roma, dada a condição da maçonaria como instituição inclusiva e não sectária.

Os membros do clero que influenciaram a decisão do Papa tinham uma preocupação com as lojas maçônicas de algumas cidades Italianas, como Florença, Veneza e Pisa, onde teve curso uma verdadeira caçada à maçonaria e aos seus membros. Havia a desconfiança de que em todas as cidades da Itália estaria se espalhando “esse veneno”, e que eles se esforçariam para ganhar adeptos com o argumento de que todos os associados formariam um só corpo com a “Congregação” constituída na Inglaterra, antipapista e anticatólica. A punição acabou sendo estendida para toda a Europa continental.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Notas

[1] Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. Good News Bible, American Bible Society – Joel, 3:18

[2] As denominações variam conforme a fonte, considerando-se as principais (1) os “Collegia” romanos, já existentes na época pré-cristã; (2) as Associações monásticas, surgidas na século VII; (3) as Confrarias, surgidas no século XI; (4) as Guildas, a partir do século XII; (5) os Ofícios Francos ou Franco-Maçonaria, após o século XII (Castellani, 1987).

[3] Referida data é aceita por convenção. A fundação da Primeira Grande Loja, no dia de São João, em 1717, consta da narrativa contida na Constituição de Anderson que foi reformada e republicada em 1738. Muitos autores atribuem a Anderson a criação da maçonaria simbólica, em função desse trabalho, mas há controvérsias. Para outros, Jean Theophilus Désaguliers é considerado o pai da Maçonaria Especulativa Moderna.

[4] Consta do site a fundação em 1728, como Primeira Grande Loja da França, que tomou a sua forma e seu atual nome em 1773. Pratica a maçonaria liberal e define-se adogmática, não exigindo a crença em um ser supremo para iniciar novos membros. A Grande Loja Nacional Francesa foi fundada em 1913, a partir da loja do Grande Oriente de França. Há divergências entre essas datas, conforme a fonte de pesquisa.

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Ética e Política

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Diante da vastidão do tema assumi uma tarefa muito modesta. Pensei que pudesse ser de alguma utilidade apresentar, à guisa de introdução, um “mapa” das diversas soluções opostas que historicamente têm sido dadas ao problema da relação entre ética e política.

Trata-se certamente de um mapa incompleto e imperfeito, pois está sujeito a um duplo erro: quanto à classificação dos tipos de solução e quanto ao enquadramento das diversas soluções nesse ou naquele tipo. O primeiro erro é de natureza conceitual, o segundo de interpretação histórica. Trata-se portanto de um mapa a ser revisto por observações ulteriores. Mas por ora creio estar em condições de oferecer pelo menos uma primeira orientação a quem, antes de se aventurar num terreno pouco conhecido, queira saber de todos os caminhos que o percorrem.

Divido as teorias que trataram do problema da relação entre ética e política em monistas e dualistas. Por sua vez divido as monistas em rígidas e flexíveis, as dualistas em dualismo aparente e dualismo real. Trata-se de quatro grandes subdivisões onde se encaixam, ou ao menos procuro encaixar, todas as doutrinas que conheço. De cada uma darei um exemplo.

Todos os exemplos são tirados da filosofia política moderna a partir de Maquiavel. É verdade que a grande filosofia política nasce na Grécia, mas a discussão do problema das relações entre ética e política fica particularmente aguda com a formação do Estado moderno, e recebe pela primeira vez um nome que não a abandona mais, “razão de Estado”.

Mas por qual motivo? Sugiro uma razão, ainda que com muita cautela. O dualismo entre ética e política é um dos aspectos do grande contraste entre Igreja e Estado, um dualismo que só podia nascer com a contraposição entre uma instituição cuja missão é a de ensinar, pregar, indicar leis universais de conduta reveladas por Deus, e uma instituição terrena cuja tarefa é assegurar a ordem temporal nas relações dos homens entre si. Na realidade o contraste entre ética e política na época moderna é, desde o princípio, o da moral cristã com a praxis daqueles que desenvolvem ação política. Num estado pré-cristão, em que não existia uma moral institucionalizada, o contraste é menos evidente. O que não quer dizer que não exista no pensamento grego: basta pensar na oposição a que se refere Antígona, entre as leis não escritas e as do tirano. No mundo grego não há uma moral, mas várias morais. Cada escola filosófica tem a sua moral. Onde existem diversas morais com as quais a ação política possa se confrontar, o problema da relação entre moral e política não tem sentido preciso algum. O que suscitou o interesse do pensamento grego não foi tanto o problema da relação entre ética e política, mas o problema da relação entre bom governo e mau governo, de onde nasce a distinção entre rei e tirano. Mas é uma distinção no interior do sistema político, que não diz respeito à relação entre um sistema normativo, como a política, e um outro sistema normativo, como a moral. O contrário disso ocorre no mundo cristão e pós-cristão.

A segunda razão da minha escolha é que, sobretudo com a formação dos grandes Estados territoriais, a política se revela sempre mais como lugar no qual se explicita a vontade de poder em um teatro bem mais vasto, e portanto bem mais visível, que aquele das vinganças privadas ou dos conflitos da sociedade feudal; sobretudo quando essa vontade de poder põe-se a serviço de uma confissão religiosa. O debate sobre a razão de Estado explode no período das guerras de religião. O contraste entre moral e política revela-se em toda sua dramaticidade quando ações moralmente condenáveis (lembre-se, para dar um grande exemplo, da noite de São Bartolomeu, louvada entre outros por um dos maquiavélicos, Gabriel Naudé) são cumpridas em nome da própria fonte, originária, única, exclusiva, da ordem moral do mundo, que é Deus.

Pode-se acrescentar ainda uma terceira razão: somente no século XVI esse contraste foi assumido também como problema prático para o qual se procura dar alguma explicação. Ainda uma vez o texto canônico é O Príncipe de Maquiavel, particularmente o capítulo XVIII, que começa com estas palavras fatais: “Quanto seja louvável num príncipe manter a fé, e viver com integridade e não com astúcia todos entendem: não é sem mais que se vê pela experiência, nos nossos tempos, aqueles príncipes que da fé tiveram pouca conta terem feito grandes coisas.” A chave de tudo é a expressão “grandes coisas”. Quando se começa a tratar o problema da ação humana não do ponto de vista dos princípios mas do ponto de vista das “grandes coisas”, isto é, do resultado, então o problema moral muda completamente de aspecto e se desloca radicalmente. O longo debate sobre a razão de Estado é um comentário, que dura séculos, desta afirmação peremptória e inconfundivelmente verídica: na ação política não contam os princípios, mas as grandes coisas.

Voltando à nossa tipologia, depois desta premissa, faço ainda uma segunda. Das doutrinas sobre ética e política que enumerarei algumas têm valor basicamente prescritivo, já que não pretendem dar uma explicação para o contraste e sim tendem a dar a ele uma solução prática. Outras têm um valor basicamente analítico, já que não buscam sugerir como deveria ser a relação entre ética e política, mas a indicar a razão pela qual existe o contraste. Ainda que a divisão entre os dois aspectos nunca seja muito nítida, pode-se dizer genericamente que as doutrinas do monismo rígido e do dualismo aparente tem mais um valor prescritivo que analítico. Pelo contrário, as doutrinas do monismo flexível e do dualismo verdadeiro têm um valor mais analítico que prescritivo. Acredito que a desconsideração das diferentes funções das teorias tenham produzido grandes confusões. Por exemplo, não tem sentido refutar uma doutrina prescritiva com observações de tipo realístico, assim como não tem sentido contrapor-se a uma teoria analítica propondo uma melhor ou a melhor solução para o contraste.

Começo, então, com o monismo rígido. Incluo no monismo rígido todas as teorias que afirmam não haver contraste entre dois sistemas normativos, o moral e o político, porque só há um sistema. Naturalmente, existem duas versões possíveis dessa variante: a redução da política à moral e a redução da moral à política. Exemplo da primeira é a ideia, ou melhor o ideal, típico do século XVI, do príncipe cristão, tão bem representado por Erasmo, cujo livro A educação do príncipe cristão é de 1515, portanto mais ou menos contemporâneo de O Príncipe de Maquiavel, do qual é a mais radical antítese. O príncipe cristão de Erasmo é o outro lado da face demoníaca do poder. Algumas citações. Erasmo se dirige ao príncipe dizendo: “Se, queres mostrar-te ótimo príncipe, estai bem atento a não te deixar superar por outro alguém naqueles bens que são verdadeiramente teus próprios, a magnificência,, a temperança e a honestidade.” Estas virtudes unicamente morais não tem nada a ver com a virtude no sentido maquiavélico da palavra. Ou então: “Se desejais competir com outros príncipes, não julgue havê-los vencido por lhes haver tirado parte do domínio. Os vencerá verdadeiramente se fores menos corrupto que eles, menos avaro, arrogante, iracundo.” E ainda, “Qual é a minha cruz” pergunta o príncipe; e responde: “é seguir o que é honesto, não fazer mal a ninguém, não espoliar ninguém, não deixar-se corromper por donativos.” A satisfação do príncipe consiste em ser justo, não em fazer “grandes coisas.

Como exemplo da segunda versão do monismo, da redução da moral à política, escolhi Hobbes. Claro que também aqui com toda a cautela, sobretudo depois que alguns críticos recentes chamaram a atenção para o que foi chamado de clareza plena de confusão do autor do Leviatã e deixam o leitor, vencido e fascinado pela força lógica da argumentação hobbesiana, desconfiado no que se refere a interpretações demasiadamente unilaterais. Ainda assim parece-me que, por certos aspectos, seja difícil encontrar um autor no qual o monismo normativo seja mais rigoroso, e o sistema normativo, diversamente de todos os outros,, seja o sistema político ou o sistema de normas que derivam da vontade do soberano legitimado pelo contrato social. Podem-se aduzir muitos argumentos:; para Hobbes, os súditos não têm o direito de julgar o que é justo e injusto porque isso cabe somente ao soberano, e sustentar que o súdito tenha o direito de julgar o que é justo e injusto é considerado uma teoria sediciosa. Mas o argumento fundamental é que Hobbes é um dos poucos autores, talvez o único, que não distingue o príncipe do tirano: e não há esta distinção porque não existe a possibilidade de distinguir o bom governo do mau governo. Enfim, como me referi ao contraste entre Igreja e Estado como determinante para entender o problema da razão de Estado nos séculos XVI e XVII, recordo que Hobbes reduz a Igreja ao Estado: as leis da Igreja são leis somente enquanto aceitas, desejadas e reforçadas pelo Estado Hobbes, negando a distinção entre Igreja e Estado, reduzindo a Igreja ao Estado, elimina a própria razão do contraste.

Por monismo flexível, entendo a teoria que também reconhece um só sistema normativo, mas admite como legítimas, justificáveis com argumentos pertencentes à esfera do racional, exceções em determinadas circunstâncias de tempo, de lugar, de pessoa ou de natureza da ação. Basta ter uma certa familiaridade com o Direito (ou tratamento legalista da ética, que dá na mesma), para saber a importância da instituição que os juristas denominam lex specialis. Pois bem, quando há um contraste entre a lex specialis lex generalis, prevalece a lex specialis. Ou então a análoga instituição da dispensa, que é característica do direito canônico (a dispensa é definida como abrandamento da lei para um caso especial, relaxio legis in casu speciali). Ou ainda o princípio da equidade, a justiça do caso concreto, invocada para temperar o rigor da lei abstrata. A importância da exceção é capital, já que nenhuma lei é tão forte que valha em todos os casos. Não há lei bastante forte para dispensar exceções em determinados casos específicos.

A explicação e a justificação do contraste entre moral e política com base na relação entre regra e exceção, e portanto do princípio da excepcional idade por justa causa, estão entre as mais comuns em meio aos teóricos da razão de Estado. Rodolfo De Mattei, que foi o mais assíduo e aplicado estudioso de tratados relativos à razão de Estado, italiana sobretudo, demarca a teoria da excepcionalidade ou, como se dizia, da “contravenção lícita”, de Scipione Ammirato, cujos discursos sobre Cornelio Tacito são de 1594. Mas pode-se citar ainda muitos outros textos de autores menores. Destes, talvez o mais interessante seja Canonieri, que diz: “Razão de Estado é o necessário excesso da jurisprudência (giure comune) para fins de utilidade pública.” Como se pode entrever pelo adjetivo “necessário”, o primeiro grande argumento em favor da excepcionalidade é o estado de necessidade, estado aquele em que não se pode deixar de fazer aquilo que se faz. As leis se referem somente às ações possíveis, às ações que podem ou não ser realizadas. Mas quando uma ação ou é necessária ou é impossível, as leis são absolutamente impotentes. A necessidade não tem lei: é a própria lei. O estado de necessidade, como causa de justificação, vale tanto para o privado, no direito penal por exemplo, quanto no direito público, na forma do estado de emergência.

A própria máxima “o fim justifica os meios” pode ser incluída na noção de exceção por necessidade. De fato, uma vez deslocado do fim para o meio, o juízo sobre a bondade ou maldade da ação torna-se puramente técnico; um juízo em que a ação é considerada exclusivamente como o “meio” para alcançar o fim. Em outras palavras, a consideração da relação meio – fim transforma o imperativo categórico em imperativo hipotético do tipo “se queres, deves”, no qual a relação meio-fim é pura e simples derivação da relação causa-efeito (ou de uma relação necessária, como é aquela de causa-efeito).

Além do estado de necessidade, para justificar a exceção são adotados argumentos referentes tanto à qualidade específica de uma determinada pessoa quanto à natureza específica de uma dada ação. Aqui emerge o tema das éticas especiais ou profissionais, isto é, dos sistemas normativos que se referem a pessoas específicas na especificidade de sua ação: comerciantes, médicos, sacerdotes, e também, (por que não?) os políticos. Levando em conta essa relação entre o geral e o particular, poder-se-ia incluir o contraste entre ética e política na distinção mais conhecida entre moral geral e morais profissionais, considerando a política como atividade específica que tem suas regras práticas ou técnicas, como qualquer outra atividade. É bem sabido, de resto, que no início das reflexões sobre a política, entendida como arte ou ciência do governo, as sugestões tiradas da analogia entre a arte política e outras artes são muito frequentes: o político é o mestre da ginástica, o piloto, o tecelão, e assim por diante.

Mas, com essa abertura para as éticas profissionais, o monismo tende a converter-se em dualismo, se bem que uma forma atenuada de dualismo, no qual a relação entre os dois sistemas normativos se resolve numa relação entre um sistema geral e um sistema especial.

Como se percebe, estou procurando aplicar às relações entre sistemas normativos alguns critérios que os juristas aplicam à análise das relações entre normas no interior de um sistema. Além do critério lex specialis derogat generali, os juristas conhecem um outro critério para resolver antinomias normativas: lex superior derogat inferiori. Trata-se do assim chamado critério hierárquico. Pois bem, aplicando este critério à análise da relação entre dois sistemas normativos abre-se o caminho para as doutrinas que, diferentemente das monistas, sustentam que ética e política são distintas mas ao mesmo tempo relacionam-se entre si, numa relação na qual um dos dois sistemas é considerado superior e o outro inferior. Se há uma relação hierárquica, no caso de conflito entre os dois sistemas prevalece o superior.

Também aqui, como no caso do monismo rígido, são dois os casos: a moral é superior à política ou então a política é superior a moral. O exemplo que ocorre da primeira solução é a filosofia de Croce. No sistema de Croce, economia e ética são distintas (a política é parte do mundo da economia), mas não são colocadas no mesmo plano: uma é superior à outra, no sentido que uma sobrepuja a outra. Entenda-se que não se está dizendo que “sobrepujar” implique ser superior no sentido axiológico, e sim que quando Croce se põe o problema maquiavélico da relação entre ética e política jamais deixa de admitir que o momento logicamente sucessivo é também axiologicamente superior, mesmo que nunca seja muito claro quais sejam as consequências desta superioridade: uma ação política imoral é condenável? O que significa isso de que é lícita na sua esfera particular, se depois se admite uma esfera superior? São questões muito difíceis de responder e, repito, não é fácil encontrar uma resposta clara em Croce, que retornou a este tema infinitas vezes. Aqui escolho uma passagem que encontra-se num volume intitulado, não por acaso, Ética e Política.

Croce diz: a esfera da política é a da utilidade, das transações, dos acordos, das lutas, e nessa guerra contínua, indivíduos, povos e Estados estão em guarda contra indivíduos, povos e Estados, buscando manter e promover a própria existência e respeitando outras só na medida em que beneficiem a sua própria. Mas – continua – mesmo nunca perdendo de vista esta realidade da política convém resguardar-se de um erro comum, que é o de separar as formas da vida. Que se recusem as tolas moralizações da política, que se celebre Nicolò Machiavelli como gênio e como o verdadeiro fundador da ciência política, mas que nunca se esqueça que a própria política não existiria se não existisse de todo o outro homem, se não existisse o homem moral. E, – conclui – tenha-se por falso a priori qualquer dissensão que se crê divisar entre a política e a moral, já que a vida política ou prepara a vida moral ou é ao mesmo tempo instrumento e forma de vida moral.

O outro lado da moeda, isto é, a política vista como superior à moral, sendo esta entendida como moral individual, pode ser representada por Hegel. Em Croce a moral vem depois da política e a “supera”, enquanto que em Hegel o momento da moralidade subjetiva precede o momento da moralidade desenvolvida, que se realiza na esfera pública e culmina no Estado. A moralidade subjetiva prepara a política mas é forçada a calar-se junto com a palavrório dos predicantes, quando entram em campo a cavalaria com suas armas cintilantes. A bem conhecida passagem em que Hegel enfrenta o tema da razão de Estado está no parágrafo 337 da Filosofia do Direito, onde afirma: “Já muito se discutiu o contraste entre moral e política e a pretensão a conformar a segunda à primeira. Nesse ponto importa somente notar que justificação do bem do Estado é completamente diferente da do bem do indivíduo e que a substância ética, o Estado, está imediatamente presente, com o seu direito, em uma existência não abstraía mas concreta, e que só essa existência concreta, e não algum dos tantos pensamentos gerais tomados por imperativos morais, pode ser o princípio do seu agir e da sua conduta. A suposição de que, nesse suposto contraste, a política deve sempre estar em erro repousa ainda mais na superficialidade das representações da moralidade, da natureza do Estado e de suas relações com o ponto de vista moral.”

Encerro com o dualismo real. A distinção entre moral e política, nesse caso, corresponde à distinção entre duas éticas, que são irredutivelmente diferentes, já que propõem dois critérios diferentes como juízo positivo e negativo das ações. As ações podem ser julgadas segundo os princípios, isto é, segundo algo que antecede a ação, ou segundo as consequências, isto é, segundo alguma coisa que está depois da ação. Essa distinção, mesmo que um pouco simplificada, corresponde à famosa distinção weberiana entre ética da convicção e ética da responsabilidade. É fato que, aplicando um ou outro desses critérios, podemos chegar a juízos completamente diferentes ou mesmo opostos sobre qualquer ação. Tomemos um tema de grande valor, a pena de morte. Se a julgo baseado no princípio “não matarás”, não posso senão condená-la. Mas se a julgo com base nas consequências, e se por exemplo acredito que a pena de morte seja mais intimidadora que a prisão, não posso aprovar sua abolição.

Uma ação moralmente boa é aquela realizada de acordo com certos princípios universais, ou assim supostos por quem os cumpre. Uma ação politicamente boa é uma ação que teve sucesso, que atingiu a finalidade que os agentes se propunham. Quem age segundo princípios não se preocupa com o resultado de suas ações: faz aquilo que deve e que disso advenha o que for possível. Quem se preocupa exclusivamente com o resultado não se move tanto pelo sutil respeito à conformidade aos princípios mas faz aquilo que é necessário para que ocorra o que deseja. O juiz que pergunta ao terrorista “arrependido” se havia cogitado do problema do “não matarás” representa a ética dos princípios. O terrorista que responde que o grupo só havia cogitado do problema de ser ou não bem sucedido representa a ética do resultado. Se se arrepende não é porque sinta remorso por haver violado a lei moral mas por considerar que afinal a ação política praticada havia falhado em relação ao escopo proposto. Nesse sentido não pode dizer-se propriamente “arrependido”, mas antes alguém que se convenceu de ter errado. Não reconheceu tanto a culpa quanto o erro.

Pode-se tanto não atingir o resultado como alcançar um resultado diferente daquele que estava proposto. O assassino do arquiduque Ferdinando durante o interrogatório do processo disse: “Não previa que após o atentado teria vindo a guerra. Acreditava que o atentado teria agido sobre a juventude, incitando-a às ideias nacionalistas.” E um dos cúmplices, que errou o tiro, disse: “Este atentado teve consequências que não podiam ser previstas. Se tivesse podido prever o que teria sucedido, teria eu mesmo sentado naquela bomba para fazer-me em pedaços.”

Concluo. Afirmei que das quatro concepções da relação entre ética e política, duas têm um valor mais prescritivo e as outras um valor analítico. Acrescento por fim que a concepção do monismo flexível não somente explica porque há o dissídio como também procura justificá-lo. A única doutrina verdadeiramente analítica, que não pretende prescrever nem justificar nada, limitando-se a constatar o contraste procurando dar-lhe uma explicação – digo explicação e não justificação – é a última, o dualismo real. Posto nesses termos, como contraste entre dois sistemas de juízo não coincidentes sobre o bem e o mal, o problema é realmente insolúvel. Haveria uma solução se se pudesse demonstrar que sempre, digo sempre, o melhor resultado é aquele que se obtém respeitando princípios. Uma demonstração desse gênero é possível somente no âmbito de uma ética extra-mundana, para o qual o único fim bom que conta é a salvação da própria alma, obtido pelo respeito às leis morais sustentadas por quem está em posição de dar um juízo definitivo, de premiar o justo e de punir o injusto. Neste mundo, porém, a glória do justo e a condenação do injusto não estão de modo algum asseguradas. O justo deve fazer-se injusto para fazer justiça, o pacífico deve fazer-se violento para estabelecer a paz, o amante da verdade deve mentir para não se deixar enganar pela mentira de outros, o honesto deve violar os pactos impostos pela força, o bom deve manchar-se das mesmas culpas do malvado para fazer triunfar o bem.

A história da vida moral e a história da vida dos Estados são duas histórias paralelas que até agora raramente se encontraram. Olhando ao redor tenho a impressão de que não estejam destinadas a encontrar-se num futuro próximo. O herói da vida moral é o santo que vai ao encontro do martírio para salvar o princípio do bem, o herói político é o homem da história universal de Hegel, o líder carismático ou somente o governante responsável, que salva ou crê salvar o próprio povo, mesmo que ao preço de inaudita crueldade.

Permitam-me fechar uma exposição deliberadamente fria, compassada e impassível, com essa lembrança da dramática realidade de nossos dias. Não só a história dos justos e a história dos poderosos são paralelas que não se encontram, mas até agora a história que se celebrou e cujos triunfos continuam se celebrando não é a primeira mas a segunda.

Autor: Norberto Bobbio
Tradução de Marcos Tadeu del Roio

Fonte: Scielo

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