A Simbologia da Purificação pelos Elementos e as Origens da sua Introdução nos Rituais Maçônicos

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A simbologia da purificação pelos quatro elementos encontra-se presente na maior parte dos rituais de iniciação, dos ritos maçônicos continentais, e ausente na globalidade dos ritos de origem anglo-saxônica. Este procedimento litúrgico, que integra as provas sucessivas da terra, água, ar, e fogo,baseia-se numa concepção simbólica da constituição da matéria, profundamente enraizada na cultura clássica ocidental.

O estudo do Cosmos foi um dos temas recorrentes entre os filósofos gregos pré-socráticos. Segundo Actius “Foi Pitágoras o primeiro que deu o nome de Cosmos à envolvente do universo, em razão da organização que aí se vê”.

O mesmo filósofo refere, ainda, que “Thales, Pitágoras e os da sua escola tinham dividido a totalidade da esfera celeste em cinco círculos, que eles chamavam zonas”. Estes consistiam no equador, nos trópicos, no circulo ártico, e no circulo antártico.

Tião de Esmirna nos conta dos ensinamentos de Filolaos (Filolau de Crotona), que estabelece uma correspondência simbólica entre as cinco zonas da esfera celeste e cinco elementos: “Os corpos da esfera são cinco: o fogo, a água, a terra e o ar, que se encontram contidos na esfera, aos quais se acrescenta um quinto, a casca da esfera”.

Resulta, pois, evidente a correspondência dos quatro elementos atrás referidos às cinco zonas da esfera celeste, e a crença na existência de um quinto elemento representativo da unidade de todo o Cosmos. Esta correspondência identificava a água com a região antártica, os trópicos com o ar, o ártico com o fogo e, a terra com a zona equinocial.

Para além deste arquétipo cosmológico, os quatro elementos tradicionais tiveram, também, interpretação metafísica, simbolizando Zeus o fogo, Hera a terra, Nestes (Hefesto) a água e Adônis o ar.

Tendo em conta a sua proveniência e essência, estes quatro elementos da física pré-socrática não podem ser considerados literalmente, mas apenas simbolicamente, seja no seu contexto de origem, seja no âmbito dos domínios que, posteriormente, os importaram por sincretismo, tais como a filosofia hermética, a alquimia, ou a maçonaria.

É neste último caso, que importa aprofundar a sua gênese e disseminação.

Muito embora a temática das viagens tenha estado presente, nas cerimônias de iniciação, desde os primórdios da maçonaria especulativa, o mesmo não se passa relativamente às purificações pelos quatro elementos. Assim:

  • Em 1730, Samuel Prichard na sua “Masonry Dissected” (Maçonaria Dissecada) refere, somente, que o candidato efetuava uma volta à Loja, para se apresentar à assistência;
  • Em 1737, no mais antigo Ritual Francês conhecido, o recipiendário fazia três viagens, antes de ser conduzido ao Venerável Mestre. Não existem, neste ritual, nem elementos, nem provas, nem purificações, apenas no decurso das viagens era vertida resina em pó sobre os candelabros justapostos ao Quadro de Loja, para causar maior impressão no recipiendário;
  • Em 1767, os “Rituais do Marquês de Gages” descrevem o recipiendário conduzido à volta da Loja pelo 1º Vigilante, sem que intervenham nas viagens nem elementos, nem purificações, se bem que a prova do fogo figure na iniciação;
  • Todavia, um catecismo de 1749, de uma Loja de Lille, comporta a resposta “Fui purificado pela água e pelo fogo”. Trata-se da mais antiga menção desta inovação, a qual já existia em altos graus praticados na época, podendo ter migrado daí para a maçonaria azul. Estas duas purificações não têm, aliás, origem hermética, mas sim bíblica, correspondendo aos batismos da Antiga e da Nova Aliança. Recorde-se as palavras de S. João Batista, em Mateus 3.11 “Em verdade vos batizo com água… mas aquele que vem após mim… vos batizará com o Espírito Santo e com fogo”;
  • Em 1786, no “Régulateur du Maçon” (Regulador do Maçom), documento fundador do Rito Francês, o Grande Oriente de França fixa a purificação pela água após a segunda viagem, e a purificação pelo fogo após a terceira, sem haver qualquer referência a outros elementos;
  • Os três elementos constituintes da matéria, na perspectiva Martinista (fogo, água, terra) só aparecem tardiamente na maçonaria retificada, em 1786-1787, apenas e somente com a interpretação especifica do RER, sem qualquer relação com a que se encontra nos restantes ritos;
  • O “Guide des Maçons Écossais” (Guia dos Maçons Escoceses), de 1804, mais antigo documento regulador dos graus simbólicos do REAA, faz passar o recipiendário pelas chamas purificadoras na terceira viagem, sendo as duas anteriores isentas de purificações;
  • Enfim, em 1820, o Ritual do Rito de Misraïm explicitamente prevê a purificação pelos quatro elementos, sendo a prova da terra objetivamente associada à passagem pela Câmara de Reflexões, e as purificações pela água, fogo, e ar, realizadas sucessivamente por esta ordem, associadas a três viagens realizadas fora do Templo, nos Passos Perdidos. Tratou-se, pois, de uma completa inovação, relativamente a um século de pratica maçônica anterior, neste país.

Este modelo repetiu-se no Ritual do 1º Grau do Rito de Memphis, de 1838, no qual apenas foi alterada a ordem dos elementos, para terra-ar-água-fogo. A migração desta simbologia foi quase imediata, dos Ritos Egípcios para os demais ritos praticados à época na França, passando, contudo, as purificações a serem realizadas no interior do Templo.

Muito embora nas revisões do Rito Francês efetuadas até à versão Murat, de 1858, tenha sido mantido, formalmente, o protocolo inicial das duas purificações, a identificação das viagens com os quatro elementos foi, correntemente assumida pelos autores maçônicos da época ligados a este Rito, nomeadamente por Clavel e, por Ragon.

A partir de 1877, as purificações foram retiradas dos rituais do Grande Oriente de França, na sequência de uma revisão laicizante do Rito, tendo sido reintroduzidas, já com referência aos quatro elementos, no decurso dos últimos decênios. Tanto no Rito Francês Groussier, como no Rito Francês Moderno Restabelecido, a ordem dos elementos considerada é terra-água-ar-fogo.

Tal foi, também, a ordem elegida por Robert Ambelain, na sua revisão dos rituais dos Ritos Egípcios, que deu origem ao Ritual do Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraïm, atualmente praticado.

No REAA, a importação também se deu imediatamente, estando a mesma presente em todos os Rituais da Grande Loja de França, desde a sua fundação em 1896, com a ordem terra-ar-água-fogo, que é hoje característica deste Rito. Se o REAA influenciou, na sua gênese, os Ritos Egípcios, também podemos considerar que estes vieram, reciprocamente, a inspirar, de algum modo, a sua matriz original.

Perante toda esta sequência cronológica, duas perguntas surgem naturalmente:

– Porque é que estas purificações apareceram em 1820?

– E porquê num Rito Egípcio?

A resposta para elas poderá estar em… Mozart!

No libreto da ópera “A Flauta Mágica”, de 1791, no seu segundo ato, cena 7, consta a seguinte referência:

“Aquele que avançará por esta estrada plena de obstáculos
Será purificado pelo fogo, a água, o ar e a terra
Se ele pode superar os receios da morte
Se elevará da terra até ao céu”

Sendo esta ópera da autoria de dois Maçons, Mozart e Shikaneder, e reproduzindo a mesma uma iniciação, será que esta simbologia já existia na maçonaria austríaca trinta anos antes de ter surgido em França?

Mozart foi iniciado em 14 de dezembro de 1784, em Viena, na Loja “Zur Wohltätigkeit”, sob os auspícios da Grande Loja Nacional Austríaca. Antes dessa data, praticavam-se, em Viena, quatro ritos: a Estrita Observância, o Rito de Zinnendorf, o RER e o Rito de Adoção.

Muito embora a Loja-Mãe de Mozart tenha sido constituída para praticar o RER, à data da sua iniciação, a oficina utilizava já outro ritual, do qual se encontra depositada, em Copenhague, uma cópia manuscrita.

Trata-se de um ritual claramente de influencia francesa, todavia com alguns pontos comuns ao Ritual do 1º Grau do Rito de Zinnendorf. Nesta cerimônia, o recipiendário, depois de passar pela Câmara de Reflexões, faz três viagens. Segundo o texto deste ritual, o Venerável Mestre ordena ao Segundo Vigilante que faça o recipiendário realizar a primeira viagem “pelo ar e pela terra”, a segunda “pela água”, e a terceira “pelo fogo”, sem haver, contudo, qualquer referência a purificações.

Se este conceito migrou da maçonaria para a ópera, tal não pode ser objetivamente confirmado. Constitui, contudo, um facto, que Mozart foi iniciado através de um ritual que mencionava os elementos, não assumindo, todavia, no mesmo a forma presente no libreto de “A Flauta Mágica”, que se parece reproduzir no Rito de Misraïm.

No final do séc. XVIII a maçonaria austríaca irá cair na penumbra, e praticamente desaparecer, em virtude dos éditos restritivos de José II, o mesmo não sucedendo, contudo, à “A Flauta Mágica”, que conhecerá uma notoriedade assinalável por toda a Europa.

Subsistem, todavia, as perguntas: porquê 1820, e porquê num Rito Egípcio. Poderá, no entanto, ter sido recentemente descoberto o elo da cadeia, que faltava para lhes dar resposta.

Em 1801, Ludwig Wenzel Lachnit, natural de Praga, apresentou ao público parisiense uma “nova ópera de Mozart” denominada “Os Mistérios de Ísis”. Esta obra, com libreto em Francês, da autoria de Étienne de Chédeville, e música reciclada a partir da partitura da “A Flauta Mágica”, e de importações de outras óperas de Mozart, conheceu um assinalável sucesso, atingindo um total de 130 representações até 1810, com reposições em 1816, e 1827.

Terá sido a ópera mais representada durante o Império, não sendo estranho ao seu êxito o facto de a sua estreia ter coincidido com o final da Campanha do Egito, e de ter beneficiado de uma quinzena de anos nos quais os temas egípcios estiveram na moda.

No livreto desta obra, publicado em Paris, em 1806, as personagens são precipitadas “num sombrio subterrâneo”, passando posteriormente para um outro “sombrio e profundo subterrâneo destinado às provas do fogo, da água, e do ar” antes de, finalmente, acenderem ao “Templo da Luz”.

Será que, numa altura em que a informação existente sobre o Antigo Egito era escassa e mítica, o livreto de “Os Mistérios de Ísis” não poderá ter servido de inspiração aos irmãos Bédarride para escreverem o Ritual do seu Rito de Misraïm?

Trata-se, contudo, de uma pergunta que só eles poderiam responder, sendo, todavia, comprovado, que nos meios maçônicos da época, lhes foram, merecida ou imerecidamente, atribuídos propósitos idênticos aos que teria tido o promotor desta ópera, e que teriam mais a ver com metais, do que com valores maçônicos.

A ter-se verificado, este “transfer” constituiria mais um exemplo de que nem a sociedade é impermeável a ideias veiculadas na maçonaria, nem esta última o é a ideias, ou modas, provenientes da sociedade.

Este sincretismo pode, ainda, ser indiciado pelo fato de Alexandre Lenoir ter publicado, em 1814, o livro “La Franche-Maçonnerie rendue à sa véritable origine”, o qual marca a origem da Egiptologia Maçônica e, onde se descrevem as iniciações no Antigo Egito (mítico), referindo-se as purificações pelos quatro elementos e, a necessidade das cerimônias maçônicas se ajustarem aos procedimentos dos Antigos Mistérios.

Ainda no que concerne à ópera de Lachnit, apesar do enorme sucesso comercial obtido, não se eximiu de ser severamente criticada nos meios musicais mais eruditos, nomeadamente por Berlioz, ou por Otto Jahn, que lhe alterou o titulo de “Les Mystères d’Isis” para “Les Misères d’ici”.

Em conclusão, as purificações pelos elementos, introduzidas em força e vigor na maçonaria, no primeiro quarto do séc XIX, ganharam plena profundidade simbólica já no séc. XX, através da contribuição de vários simbolistas notáveis, dos quais destaco Oswald Wirth, que incorporou muitas interpretações herméticas à simbólica tradicional maçônica do REAA. Termino, pois, com palavras suas, bem elucidativas do sentido iniciático que podemos dar a este procedimento ritual:

“Esta vida de ordem superior proporciona-se através do desenvolvimento do princípio da personalidade, dado que o ser inferior não é mais do que um autômato que reage mecanicamente sobre a ação das forças das quais é o joguete. A sua vida permanece material ou elementar porque ela resulta unicamente do conflito dos Elementos… Mas as forças exteriores, tão potentes sejam elas, devem ser dominadas pela energia que acha a sua origem na personalidade. É porque o homem é chamado a desenvolver em si um princípio mais forte que os Elementos, que ele entra em luta com eles no decurso das provas iniciáticas”

Pessoalmente, penso que este princípio reside no Conhecimento, principal impulsionador da elevação da Condição Humana, entendendo-se o mesmo não só como sapiência, mas também e, fundamentalmente, como consciência. Cada um, contudo, dentro do seu livre-pensamento deverá encontrar a sua interpretação pessoal para o mesmo.

Só assim estaremos, realmente, a fazer Maçonaria.

Autor: Joaquim G dos Santos
Loja de S. João Fiat Lux nº 537, Oriente de Lisboa, filiada ao G.’.O.’.L.’.

Fonte: Ritos & Rituais

Publicado inicialmente em https://independent.academia.edu/joaquimSantos4

Referências Bibliográficas

– Ambelain Robert “Freemasonry in olden times – Ceremonies and Rituals from the Rites of Mizraïm and Memphis”, Robert Laffont, 2006;

– Dachez Roger ”Les Rites Maçonniques Égyptiens”, PUF, Paris, 2012;

– Dachez Roger e Pétillot Jean-Marc ”Le Rite Écossais Rectifié”, PUF, Paris, 2012;

– Dachez Roger ”Quatre elements: Epreuves élementaires ou baptêmes successifs?”, Paris, 2013;

– Giambello Sylvain ”Les Mystères d’Isis (Lachnit, Paris, 1801)”, Paris, 2013;

– Guérillot Claude ”Les trois premiers degrés du Rite Écossais Ancien et Accepté”, Guy Trédaniel Éditeur, Paris, 2003;

– Mainguy Iréne ”La Symbolique maçonnique du troisième millénaire”, Éditions Dervy, Paris, 2006;

– Marcos Ludvic ”Histoire Illustrée du Rite Français”, Éditions Dervy, Paris, 2012;

– Négrier Patrick ”Les Symboles Maçonniques d’après leurs sources”, Éditions Télètes, Paris, 1990;

– Nöel Pierre ”Les Grades Bleus du Rite Écossais Ancien et Accepté”, Éditions Télètes, Paris, 2003;

– Ragon Jean-Marie ”Cours Philosophique et Interprétatif des Initiations Anciennes et Modernes”, Berlandier Libraire-Éditeur, Paris, 1841;

– Ragon Jean-Marie ”Tuileur Général de la FrancMaçonnerie”, Collignon Libraire-Éditeur, Paris, 1861;

– Win Jean van ”Le rituel de récepcion au grade d’apprenti de Mozart et ses épreuves purificatrices”, Bruxelles, 2013;

– Wirth Oswald ”La Franc-Maçonnerie rendue intelligible à ses adeptes”, Éditions Dervy, Paris, 2007.

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Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte II

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 Adormecimento, Reinstalação e um Oriente Concorrente

No período compreendido entre a suspensão dos trabalhos do Grande Oriente, em outubro de 1822, e a abdicação de D. Pedro I, a atividade maçônica foi bastante atenuada, embora não tenha parado totalmente, nem nos trabalhos de Loja nem na política. Antes de abdicar, D. Pedro I, nomeou José Bonifácio tutor de seu filho. Turbulências políticas não faltaram neste reinado de D. Pedro I, sendo que o principal fato foi o movimento revolucionário de 1824, que visava congregar sob regime republicano – na chamada Confederação do Equador – as províncias do Nordeste, que se haviam rebelado contra os atos de D. Pedro.

Movimento de nítida inspiração maçônica, a Revolução de 1824 teve, como um de seus principais líderes, o frei Caneca – Joaquim do Amor Divino Rabelo e Caneca –, frade carmelita, maçom e republicano, que já havia sido um dos expoentes da Revolução Pernambucana de 1817 e que, entre dezembro de 1823 e agosto de 1824, fez intensa pregação republicana em 29 números do Typhis Pernambucano, jornal que publicou no Recife, desferindo campanha contra o imperador, desde a dissolução da Constituinte e a imposição da Constituição de 24 de fevereiro de 1824.

De 1824 a 1829, pouco se sabe sobre a atividade maçônica. Após a abdicação de D.Pedro I, a 7 de abril de 1831, os maçons começaram a se reagrupar. Os remanescentes do primeiro reconhecido Grande Oriente Brasileiro, vendo que, após a renúncia, havia um clima mais liberal, que seria propício aos trabalhos maçônicos, reuniram-se em outubro de 1831, reinstalando os três primeiros quadros. E, para que esse ato fosse legal, os primeiros oficiais da Obediência instalada em 1822 juntaram-se em assembleia, juntamente com o primeiro Grão-Mestre José Bonifácio, sob a determinação de que todos só serviriam provisoriamente, até que fosse concluída a Constituição do Grande Oriente do Brasil, sucessor do Grande Oriente Brasiliano. Logo depois que foi reinstalado, o Grande Oriente publicou um manifesto, assinado por José Bonifácio, dirigido a todos os maçons brasileiros e às Obediências estrangeiras, anunciando que seus trabalhos retomavam força e vigor.

Antes, todavia, da reinstalação do Grande Oriente do Brasil, já havia surgido outro, denominado Grande Oriente Nacional Brasileiro, ou simplesmente Grande Oriente do Passeio, em alusão à rua onde funcionava. O Grande Oriente do Brasil, que se considerava sucessor do Grande Oriente Brasílico (ou Brasiliano), de 1822, seria reinstalado a 23 de novembro de 1831. No manifesto do Grande Oriente do Brasil, entre uma visão do desenvolvimento na Maçonaria no Brasil até aquela data, havia o convite, para que os membros do Grande Oriente do Passeio se reunissem em um só círculo maçônico, o qual, todavia, foi rejeitado.

Assistir-se-á um conflito permanente entre os dois Orientes na busca de representar a Maçonaria brasileira. Os problemas aumentariam no fim de 1832 com a introdução, por Francisco Gê Acayaba de Montezuma, filiado a ambas as Obediências, de um Consistório e um Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito, já que o Grande Oriente do Passeio iria fazer com que suas oficinas adotassem o rito. E o Grande Oriente do Brasil assumia o Rito Moderno, ou Francês.

Apesar desses percalços, o Grande Oriente do Brasil continuava trabalhando no terreno social, começando sua luta pela libertação dos escravos, com autorização de despesas para cartas de alforrias, até desembocar, na metade do século, em franca e decidida campanha abolicionista. Após a renúncia de D. Pedro, o país passou a ser governado por Regência – trina ou unas – ocupadas por maçons de tendências liberais, gerando neste período uma série de convulsões políticas e sociais. A fragilidade da regência fazia com que setores conservadores trabalhassem pela restauração do primeiro imperador brasileiro, enquanto os setores liberais queriam impedir qualquer tentativa de retorno do Imperador deposto.

Em 1835, o GOB instalava, a 6 de agosto, o Soberano Capitulo do Rito Francês, ou Moderno. A 26 de março de 1836, era fundado, no Rio de Janeiro, o Ilustre Conselho Kadosh Nº 1. Em 1836, José Bonifácio era reeleito Grão-Mestre. Em 1837, constituía-se, em lugar dos Capítulos, um Grande Colégio de Ritos, ficando, com isso, regulamentado o REAA, embora o rito oficial da Obediência continuasse a ser o Francês. No final do mesmo ano, a 3 de dezembro, José Bonifácio, com a saúde bastante abalada – viria a falecer a 6 de abril de 1838 – entregava o Grão-Mestrado ao futuro Visconde de Albuquerque, Holanda Cavalcanti de Albuquerque, que havia sido eleito para o cargo. O novo Grão-Mestre tenta uma reaproximação com o Passeio. No mesmo ano ainda era reinstalada uma loja no Rito Adonhiramita, que não era mais praticado no Brasil. O Rito Adonhiramita, até pouco tempo atrás, era praticado somente no Brasil, perecendo no resto do mundo.

No início da década de 40, o Passeio começa a entrar em decadência, perdendo diversas lojas para o GOB. No terreno político, membros das duas Obediências participavam ativamente dos acontecimentos do período da Regência, em que quase todos foram maçons, e iriam ter atuação marcante no movimento pela maioridade do herdeiro do trono. Neste período regencial, as correntes políticas organizavam-se em diversos grupos, trazendo instabilidade ao regime: o grupo dos exaltados queria chegar, logo, à república e ao federalismo; temendo esses excessos, os reacionários (chamados de restauradores, ou “caramurus”) desejavam a volta do imperador, enquanto se formava a corrente preponderante, a dos moderados, liderada pelo maçom e jornalista Evaristo Ferreira da Veiga.

Quando foi tomada a decisão de substituir a Regência Trina pela Regência Una, o Ir. Feijó foi eleito, a 7 de abril de 1835, Regente do Império, com 2.828 votos, ante 2.251 dados a Holanda Cavalcanti, futuro Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. Assistia-se, mais uma vez, o eterno embate entre maçons liberais e conservadores.

Com o acirramento das lutas entre os restauradores, os exaltados e os moderados, os regentes, não mais podendo suportar a pressão, retiraram, por decreto de 1833, José Bonifácio da tutoria, após o que ele foi preso e posto em sua casa, onde ficaria confinado, sendo Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, cargo para o qual fora eleito a 6 de novembro de 1832. Embora confinado – já ostentando o 33º grau, recebido a 5 de março de 1833, do Supremo Conselho criado por Montezuma –, ele continuaria com a autoridade do cargo.

Ainda durante esse período, teria início, em 1835, a Revolução Farroupilha, movimento autonomista que se estenderia até 1845 e que, tendo sido liderado pelo maçom Bento Gonçalves da Silva, teve entre os seus expoentes outros dois maçons: David Canabarro e Giuseppe Garibaldi, que iria posteriormente lutar pela unificação italiana.

A 1º de janeiro de 1842 era dissolvida a Câmara dos Deputados, ainda durante as sessões preparatórias, o que enfureceu os liberais, ocasionando as revoluções armadas de Minas Gerais e de São Paulo, esta última chefiada, pelos maçons padre Feijó e senador Vergueiro.

A 9 de setembro de 1850, sucedendo a Holanda Cavalcanti, tomava posse, como Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, o então Visconde – depois Marquês – de Abrantes, Miguel Calmon du Pin e Almeida.

O Ocaso do Passeio e a Criação dos Beneditinos

Enquanto isso, o Grande Oriente do Passeio conhecia um processo de franca deterioração. No início de 1861, o Grande Oriente do Passeio estava quase liquidado, com a passagem do Visconde do Uruguai, ex-Grão-Mestre do Passeio, para o Grande Oriente do Brasil, acompanhado por cerca de 20 Lojas.

Em 1863, quando o Grande Oriente do Brasil, que funcionava agora na Rua do Lavradio e era conhecido daí por diante como Grande Oriente do Lavradio, livre das divisões, depois de absorver o Grande Oriente do Passeio, preparava-se para um período de pujança interna e externa, eis que surge uma grave cisão, com o afastamento de cerca de 1.500 maçons, que, sob a liderança do Ir. Joaquim Saldanha Marinho fundou uma nova Obediência, a qual tomou o nome do local onde funcionava: Grande Oriente do Vale dos Beneditinos ou, simplesmente, Grande Oriente dos Beneditinos.

A 25 de novembro de 1863, em uma sessão tumultuada por elementos da oposição, o Barão de Cayru era aclamado – dadas às circunstâncias – novo Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. Com o falecimento de Cayru, a 26 de dezembro de 1864 era eleito Joaquim Marcelino de Brito para o Grão-Mestrado. Mesmo perdendo algumas Lojas para a agremiação de Saldanha Marinho, o Grande Oriente aumentou seu número de Oficinas, por meio da dinamização que a ele foi imposta, como reflexo da própria emulação provocada pela dissidência.

Em 1869, começavam gestões para reunificar as duas Obediências, por interferência da Maçonaria portuguesa, que, em outubro daquele ano, realizara a fusão do Grande Oriente Lusitano com o Grande Oriente Português, daí resultando o Grande Oriente Lusitano Unido.

Ocorre que o antigo Grande Oriente Lusitano havia assinado tratado de amizade e reconhecimento com o Grande Oriente dos Beneditinos, enquanto o Português possuía o mesmo tratado com o Grande Oriente do Lavradio, o que, depois da fusão, criou uma situação de mal-estar, fazendo com que os maçons portugueses pressionassem os brasileiros, para que estes imitassem as Obediências portuguesas.

Em decorrência disso, Saldanha Marinho propõe a Marcelino de Brito, no final de 1869, o início de um diálogo para a união das duas Obediências, o que foi aceito pelo Lavradio, formando, cada um dos grêmios, em 1870, comissão destinada a estudar a questão e cujos trabalhos se estenderiam até 1871. No plano político-social, a atuação dos maçons e da Maçonaria foi, nessa década, bastante evidente e produtiva, em torno do abolicionismo, já bastante amadurecido, e do nascente movimento republicano.

Em relação ao abolicionismo, embora só nessa década tivesse se tornado mais marcante, o fato é que diversos atos isolados, inclusive de maçons, já marcavam o movimento, como é o caso da atitude pioneira da República Rio-grandense, originária da eclosão da Revolução Farroupilha, liderada pelos maçons Bento Gonçalves e David Canabarro, fazendo libertar os escravos.

Depois da lei do maçom Eusébio de Queirós, de 1850, que extinguia o tráfico, a escravatura, no Brasil, continuou a ser mantida pela reprodução. Isso levou o Comitê Francês de Emancipação, entidade organizada pelo Grande Oriente da França, a solicitar, ao governo brasileiro, em 1867, a libertação total dos escravos no País; o governo imperial, por meio de Zacarias de Góes, chefe do Gabinete, responderia atenciosamente ao pedido, esclarecendo que, após a Guerra do Paraguai, em que o Brasil se empenhava, a questão seria tratada com carinho.

A essa altura dos acontecimentos, muitas Lojas já se encontravam em plena efervescência abolicionista, além de republicana, já que, na realidade, a campanha pela abolição ocorreu, nos meios maçônicos, com a campanha republicana, sendo ambas baseadas na radicalização de posições assumidas por uma ala jovem da Maçonaria brasileira, representada no governo central, no Parlamento, nos quartéis, nas letras e nas ciências.

No tocante ao movimento republicano, não foi menor a atuação no período, já que, como fruto desse trabalho, era lançado, a 3 de dezembro de 1870, o Manifesto Republicano, de inspiração maçônica, liderado por Saldanha Marinho e redigido pelo também maçom Quintino Bocayuva, futuro Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. Ficava, assim, criado o Partido Republicano, que iria crescer extraordinariamente nos anos seguintes.

Os estudos para a fusão do Grande Oriente do Brasil com o Grande Oriente do Vale dos Beneditinos, encerrando a dissidência de 1863, acabariam dando em nada, diante das posições que seriam assumidas por ambas as Obediências, a partir de abril de 1871.

Uma comissão de notáveis havia sido designada para encontrar um nome aglutinador e experiente, para dirigir o Grande Oriente naqueles agitados dias. Indicado inicialmente, o conselheiro José Tomaz Nabuco de Araújo acabou por não aceitar, o que fez com que a comissão se fixasse no nome de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco. Essa escolha suscitou muitas objeções, já que a oposição alegava que o visconde, não sendo membro efetivo do Supremo Conselho, não poderia se candidatar ao cargo de Soberano Grande Comendador Grão-Mestre. A objeção acabaria sendo superada, quando o Grande Oriente do Brasil resolveu considerar elegíveis todos os portadores do 33º grau do Rito Escocês, para os cargos de Grão-Mestre e de Grão-Mestre Adjunto.

Em 1870, como ministro dos Estrangeiros, no gabinete, do Marquês de Itaboraí (Joaquim José Rodrigues Torres, que havia sido Grande Orador do Grande Oriente do Passeio), Paranhos havia assinado o tratado de paz com Assunção (Paraguai), o que lhe valeu a nomeação para o Conselho de Estado e o título de visconde do Rio Branco. Alguns dias antes de assumir o Grão-Mestrado do Grande Oriente do Brasil, ele se tornaria presidente do Conselho de Ministros, tendo seu Gabinete, sido o de mais longa duração de toda a história do Império, de 7 de março de 1871 a 25 de julho de 1875.

O mandato do Visconde do Rio Branco no GOB representa um dos pontos altos da Maçonaria brasileira. A gestão de Rio Branco, à frente do Gabinete, foi das mais profícuas do Segundo Império. Do ponto de vista maçônico, entretanto, sua contribuição mais notável foi a apresentação da lei aprovada a 28 de setembro de 1871, a qual declarava livres, daí em diante, as crianças nascidas de escravas e que passou à história com o nome vulgar de Lei do Ventre Livre (embora tenha, legislativamente, sido denominada “Lei Visconde do Rio Branco”). Sob pressão não só maçônica, mas também política, por parte dos que viam, nessa lei, uma alternativa ao caos que representaria uma imediata e extemporânea extinção total da escravatura, Rio Branco, aproveitando a viagem do imperador e da imperatriz Tereza Cristina à Europa, com a consequente regência entregue à princesa Isabel, apresentou a lei, que levou seu nome.

Como chefe do Gabinete, ele viria a enfrentar, também, a agitada Questão Religiosa, a qual, embora tenha sido uma pendência entre o alto clero e o governo imperial, acabou envolvendo ambas as Obediências maçônicas brasileiras da época. O pretexto para o desencadeamento das hostilidades foi uma festa maçônica realizada a 2 de março de 1872, para comemorar a aprovação da lei Visconde do Rio Branco. Durante essa solenidade, pronunciou-se um discurso em que enaltecia a atuação da Maçonaria na libertação dos escravos, abordando os fatos, desde a lei Euzébio de Queirós. Mas o estopim da crise foi aceso, na solenidade, quando o Grande Orador Interino, padre José Luiz de Almeida Martins, destacado maçom, pronunciou um veemente discurso, no qual enaltecia a Maçonaria e o Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, pela obra realizada em torno da abolição gradual da escravatura. O discurso foi publicado, no dia seguinte, pelos jornais diários, causando a reação do bispo do Rio de Janeiro, que, advertindo o padre, exigiu que ele abandonasse a Maçonaria. Diante da recusa deste, o bispo o suspendeu. Isso acabaria desencadeando a querela.

Diante da reação do bispo do Rio de Janeiro, as duas Obediências, do Lavradio e dos Beneditinos, apressaram-se a defender o Irmão atingido. Após o entrevero com os bispos, os dois Orientes tentaram se reunir, mas tudo foi em vão. No cenário político, no ano de 1873, ocorreria um fato de extraordinária importância para o movimento republicano: a Convenção de Itu, de inspiração maçônica e que tivera seus perídromos a 10 de novembro de 1871, quando 78 partidários da república federativa haviam se reunido, em Itu, na Província de São Paulo, com a finalidade de organizar o partido republicano local, criando um clube republicano, que pudesse servir de núcleo e centro do partido. Como corolário desse movimento, a 18 de abril de 1873, com a presença das principais lideranças políticas, era realizado a primeira Convenção Republicana no Brasil, a qual ficou conhecida como Convenção de Itu.

A par da campanha republicana, encetada por várias dessas Lojas, prosseguia a luta abolicionista, que contava com maçons de peso, como Luís Gama, Joaquim Nabuco e José do Patrocínio. Em 1880, nas eleições realizadas a 15 de março, Rio Branco era reeleito para o cargo de Grão-Mestre. O GOB, todavia, seria na prática, dirigido pelo Adjunto, pois Rio Branco, cada vez mais doente, não tinha mais condições físicas para o exercício do cargo, vindo a falecer a 1º de novembro do mesmo ano.

Em 1882 e sob o Grão-Mestrado de Cardoso Júnior, chegava ao fim a cisão na Maçonaria brasileira, com a fusão das duas Obediências. Saldanha Marinho, já doente e cansado, sem poder comandar, convenientemente, seu Grande Oriente “Unido”, pedira demissão de seu cargo, a 30 de março de 1882, incentivando, inclusive, a fusão, cujas negociações foram mais incrementadas a partir do momento em que o Supremo Conselho dos Estados Unidos, jurisdição Norte, reconhecia o Grande Oriente do Brasil, em junho do mesmo ano, ocasião em que foram expedidas as patentes de reconhecimento mútuo. Assim, a 18 de dezembro de 1882, era considerado extinto o Grande Oriente Unido, antigo dos Beneditinos, oficializando-se a união 30 dias depois, a 18 de janeiro de 1883, permanecendo uma Obediência única, sob o título original: Grande Oriente do Brasil.

No plano político-social, prosseguia a luta abolicionista e recrudescia a campanha republicana, com participação ativa de muitas Lojas. A lei dos sexagenários que libertava os escravos que se encontravam nessa faixa etária, ou acima dela, e a lei Áurea de 13 de maio de 1888, que extinguia totalmente a escravidão, completariam a luta abolicionista e ajudariam a precipitar o fim do império, já que a abrupta abolição causara grande descontentamento entre os proprietários de terras, pois não houvera tempo suficiente para que eles substituíssem, em suas lavouras, o braço escravo.

A campanha republicana, por seu lado, era incrementada pela Questão Militar, que, na verdade, consistiu em uma série de atritos, acontecidos entre 1883 e 1889, entre políticos e militares, causados pelo brio destes e pela inabilidade de políticos e ministros. Esses atritos iriam criar uma atmosfera propícia para o levante militar final, em 1889, que resultaria na implantação do regime republicano, sob a liderança de maçons militares como Manuel Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Apesar da intensa movimentação, os velhos militares, com patente de major para cima, tinham grande respeito pelo imperador, que, durante a guerra do Paraguai, se mantivera firme ao lado dos alvos nacionais da campanha sustentada pelas forças armadas. Os postos inferiores, entretanto, estavam preenchidos por jovens alunos das escolas militares, os quais, além de não experimentar sentimentos semelhantes aos dos oficiais mais antigos, estavam altamente doutrinados pelo professor de maior prestígio da Escola militar, aquele que viria, por sua atuação, a ser cognominado “o pai da República”: o maçom e positivista tenente-coronel Benjamin Constant, que fazia aberta apologia do movimento republicano e era um dos mais categorizados críticos do governo imperial.

A par das atividades militares, com a atuação de muitos maçons, era grande a efervescência nas Lojas e nos clubes republicanos de inspiração maçônica, destacando-se, nesse período, muitos maçons civis, que seriam chamados de “republicanos históricos”: Quintino Bocayuva (fundador do jornal A República e futuro Grão-Mestre do GOB), Campos Sales (futuro Presidente da República), Prudente de Moraes (primeiro presidente civil da República), Silva Jardim, Rangel Pestana, Francisco Glicério, Américo de Campos, Pedro de Toledo, Américo Brasiliense, Ubaldino do Amaral, Aristides Lobo, Bernardino de Campos e outros.

O levante para a Proclamação da República ocorreu em 15 de novembro de 1889. Deposto todo o Conselho de Ministros, presidido pelo Visconde de Ouro Preto, Deodoro, todavia, em um rasgo de sua antiga fidelidade a D. Pedro II, não se dispunha a tomar providências para implantar a república, tendo declarado, a Ouro Preto, que iria mandar procurar o imperador, em Petrópolis, para propor-lhe um novo gabinete. Foi aí que, mais uma vez, entrou em cena Benjamin Constant, que fez ver, a Deodoro, o perigo que eles correriam daí em diante, por sua rebeldia, com a sobrevivência do governo imperial. E, assim, se fez a república no Brasil.

Implantada a república, Deodoro assumiria o poder, como chefe do Governo Provisório, com um ministério totalmente constituído por maçons: Quintino Bocayuva, na Pasta dos Transportes; Aristides Lobo, na do Interior; Benjamin Constant, na da Guerra; Rui Barbosa, na da Fazenda; Campos Salles, na da Justiça; Eduardo Wandenkolk, na da Marinha; e Demétrio Ribeiro, na da Agricultura. Esses homens foram escolhidos pelo fato de representarem – com exceção de Rui Barbosa -, a nata dos “republicanos históricos”, que, por feliz coincidência, pertencia ao Grande Oriente do Brasil, em uma época em que a Maçonaria abrigava os melhores homens do país e a elite intelectual da nação.

A 19 de dezembro do mesmo ano de 1889, pouco mais de um mês após a implantação da república, Deodoro, sendo chefe do Governo Provisório, era eleito Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil. A partir desta data, a “matriz Benjamim Constant” positivista toma o poder no GOB.

Continua…

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

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Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte I

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Introdução

O presente artigo visa dar uma ideia panorâmica da Maçonaria Brasileira através da história do Grande Oriente do Brasil GOB, o tronco básico, e de suas posteriores cisões, principalmente a de 1927 e a de 1973. Para uma visão mais completa e aprofundada sobre o assunto pode ser consultado o livro História do Grande Oriente do Brasil de José Castellani e William Carvalho da Editora Madras de 2009. Até a primeira cisão de 1927, a história da Maçonaria brasileira se confundia com a história do Brasil. A partir de então, ou seja, no momento em que a Maçonaria deixa de ser um grupo estratégico, a história se bifurca, seguem rumos paralelos, com alguns contatos ocasionais. A partir da gestão de Jair Assis Ribeiro (1983-1993) no GOB assistiu-se a um ponto de inflexão do desenrolar da Maçonaria brasileira. Atualmente cresce a taxas chinesas, mas ainda não voltou a ser um interlocutor estratégico do país, como fora no passado.

A Maçonaria brasileira, pelo menos, está entrando num patamar de efervescência cultural e educacional com a criação de lojas de pesquisas, universitárias, academias etc. que dentro em breve, inevitavelmente terá desdobramentos significativos. Assim como no passado, a Maçonaria emprestou a sua organização para um país que não possuía partidos políticos, ele poderá, neste limiar do século XXI, ajudar o país, que ainda possui instituições políticas com ranço de desempenho pré-iluministas, a criar valores e instituições verdadeiramente republicanos. O Brasil proclamou a República, mas seus valores ainda são patrimonialistas. Este é o grande desafio que a Maçonaria poderá ajudar o Brasil adequar sua escala de valores e desempenho neste século.

Deu-se particular ênfase às duas cisões no século XX por sua importância estratégica. Compõem ainda o presente trabalho dois anexos: i) a relação dos Grão-Mestres do GOB e ii) um quadro estatístico sobre as Obediências e os maçons brasileiros, considerados regulares, tais como o GOB, as Grandes Lojas e a COMAB (Confederação Maçônica do Brasil). Convém ainda salientar que todas as cisões no Brasil se devem à perda de eleições e não a divergências doutrinárias. Pelos dados apresentados pode-se afirmar que o Brasil possui mais de 6.000 lojas maçônicas e quase 200.000 maçons. Essas são as potências ditas regulares.

Primórdios

Com os dados hoje disponíveis, a primeira referência a uma Loja maçônica brasileira que se tem notícia teria sido em águas territoriais da Bahia, em 1797, em uma fragata francesa La Preneuse, denominada Cavaleiros da Luz, sendo pouco tempo depois transferida para a Barra, um bairro de Salvador. Contudo, a primeira Loja regular do Brasil foi a Reunião, fundada em 1801, no Rio de Janeiro, filiada ao Oriente da Ilha de França (Ille de France), antigo nome da Ilha Maurício, à época possessão francesa e hoje britânica.

Dois anos depois o Grande Oriente Lusitano, desejando propagar, no Brasil, a “verdadeira doutrina maçônica”, nomeou para esse fim três delegados, com plenos poderes para criar lojas regulares no Rio de Janeiro, filiadas àquele Grande Oriente. Criaram, então, as Lojas Constância e Filantropia, as quais, junto com a Reunião, serviram de centro comum para todos os maçons existentes no Rio de Janeiro, regulares e irregulares, tratando de iniciar outros, até ao grau de Mestre. Apesar de controvérsias a exigir maiores pesquisas nesta área, essas foram as primeiras Lojas oficiais e consideradas regulares, pois já existiam, anteriormente, agrupamentos secretos, em moldes mais ou menos maçônicos, funcionando mais como clubes, ou academias, mas que não eram Lojas na acepção da palavra.

Depois da fundação daquelas três primeiras Lojas “oficiais”, espalharam-se, nos primeiros anos do século XIX, Lojas nas províncias da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, livres, ou sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano e do da França. Convém salientar que os governos coloniais da época tinham instruções precisas para impedir o funcionamento de Lojas no Brasil. Tanto assim que aquelas Lojas – Constância e Filantropia – foram fechadas em 1806 no Rio de Janeiro, cessando as atividades maçônicas nesta cidade, mas continuando e se expandindo, principalmente na Bahia e em Pernambuco. O Rio de Janeiro, contudo, não podia ficar sem uma Loja, e apesar desta proibição os trabalhos prosseguiam com as Lojas São João de Bragança e Beneficência.

Um fato importante para a história do futuro Grande Oriente do Brasil foi que a Loja Comércio e Artes, fundada em 1815, conservaram-se independente, adiando sua filiação ao Grande Oriente Lusitano, porque os seus membros pretendiam criar uma Obediência brasileira. Convém ainda salientar que no ano de 1817 ocorreram dois fatos de suma gravidade em termos de crime de lesa-majestade. Estouraram duas revoluções:

  • a Revolução Pernambucana de 1817, um movimento revolucionário, de caráter fortemente nacionalista, feito no sentido de implantar a República em Pernambuco; e
  • a Conspiração Liberal de Lisboa de 1817 liderada pelo nosso Ir. General Gomes Freire de Andrade, ex-Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano.

Dado esse clima de sedição, tanto em Portugal como no Brasil, houve a expedição do draconiano alvará de 30 de março de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas. As Lojas resolveram então cessar seus trabalhos, até que pudessem ser reabertas sem perigo. Os maçons, todavia, continuaram a trabalhar secretamente como no Clube da Resistência, fundado no Rio de Janeiro.

Estoura a Revolução Liberal do Porto em 1820, liderada pelos maçons portugueses, exigindo a volta de D. João VI para Portugal. A partir de então os acontecimentos começam a se precipitar. Também é desencadeada na Espanha a Revolução de 1820. A vaga liberal (maçônica) começava contestar os Estados Absolutistas da Península Ibérica. No Brasil, o ano de 1821 começou com uma série de acontecimentos político-militares que culminariam na Independência do Brasil. Como naquela época inexistiam os partidos políticos, foi necessária uma organização que coordenasse e mobilizasse o descontentamento político e a Maçonaria brasileira emprestou sua organização para tal fim. Voltava, então, à plena atividade.

O primeiro fato foi à sedição das tropas a 26 de fevereiro que impunham ao rei D. João VI o juramento à Constituição portuguesa, o que provocou o início de intensa conspiração, entre os quais muitos maçons, visando à independência do Brasil. Os acontecimentos seguintes foram os de 20 e 21 de abril, quando houve a sedição dos eleitores, exigindo a permanência do rei no País, o que provocou a pronta reação das tropas portuguesas, que garantiram o embarque da família real. Todos esses fatos atraíram a atenção policial contra os maçons, o que não impediu, todavia, que a Loja Comércio e Artes voltassem a trabalhar secretamente, reerguendo suas colunas a 24 de junho de 1821. Agora com o nome de Loja Comércio e Artes na Idade do Ouro, sob os auspícios do Grande Oriente de Portugal, Brasil e Algarves.

A afluência de adesões foi tão grande nos meses seguintes que logo se pensou em criar uma Obediência nacional, o que aconteceria a 17 de junho de 1822, com a subsequente divisão do “Comércio e Artes”, formando o trio de Lojas fundadoras do Grande Oriente. A partir deste momento, a Maçonaria brasileira deixava de ser um grupo heterogêneo de Lojas esparsas ou ligadas a algumas Obediências Estrangeiras para se transformar em mais uma célula do sistema obediência mundial.

Apresenta-se um breve resumo dos primórdios até a fundação do Grande Oriente do Brasil, a mais antiga, a maior e a mais tradicional Obediência brasileira. Apesar da precariedade documental, pode-se apresentar a seguinte cronologia:

  • 1796 – Fundação, em Pernambuco, do Areópago de Itambé, que não era uma verdadeira Loja, pois, embora criado sob inspirações maçônicas não fosse totalmente composto por maçons;
  • 1797 – Fundação da Loja Cavaleiros da Luz, na povoação da Barra, Bahia;
  • 1800 – Criação, em Niterói, da Loja União;
  • 1801 – Instalação da Loja Reunião, sucessora da União;
  • 1802 – Criação, na Bahia, da Loja Virtude e Razão;
  • 1804 – Fundação das Lojas Constância e Filantropia;
  • 1806 – Fechamento, pela ação do conde dos Arcos, das Lojas Constância e Filantropia;
  • 1807 – Criação da Loja Virtude e Razão Restaurada, sucessora da Virtude e Razão;
  • 1809 – Fundação, em Pernambuco, da Loja Regeneração;
  • 1812 – Fundação da Loja Distintiva, em S. Gonçalo da Praia Grande (Niterói);
  • 1813 – Instalação, na Bahia, da Loja União;
  • 1813 – Fundações de uma Obediência efêmera e sem suporte legal – que alguns consideram como o primeiro Grande Oriente Brasileiro – constituída por três Lojas da Bahia e uma do Rio de Janeiro;
  • 1815 – Fundação, no Rio de Janeiro, da Loja Comércio e Artes;
  • 1818 – Expedições do Alvará de 30 de março, proibindo o funcionamento das sociedades secretas, o que provocou a suspensão – pelo menos aparentemente – dos trabalhos maçônicos;
  • 1821 – Reinstalação da Loja Comércio e Artes, no Rio de Janeiro;
  • 1822 – 17 de junho: fundação do Grande Oriente.

 A Luta pela Independência

O objetivo principal dos fundadores do Grande Oriente era a independência do país no momento em que a Família Real era forçada a voltar a Portugal, pela Revolução Constitucionalista do Porto de 1820. Os maçons brasileiros irão aos poucos perceber que, além da solidariedade e da fraternidade internacionais, a geopolítica portuguesa, manejada pelos maçons do Porto, buscaria levar o Brasil ao status quo ante de colônia, depois de ser elevado a Reino Unido de Portugal e Algarves no final de 1815 por D. João VI, então Príncipe Regente no Reinado de D. Maria I, sua mãe.

O primeiro passo oficial dos maçons, nesse sentido, foi o Fico, de 9 de janeiro, o qual representou uma desobediência aos decretos, emanados das Cortes Gerais portuguesas, e que exigiam o imediato retorno do príncipe a Portugal e, praticamente, a reversão do Brasil à sua condição colonial, com a dissolução da união brasílico-lusa, elaborada por influência do Congresso de Viena.

Assiste-se então ao embate de duas forças econômicas nos dois países: os comerciantes do Porto, que sempre foram o entreposto entre a Colônia e a Metrópole e a Base Escravocrata do Brasil, representada pelas grandes famílias do Tráfico de Escravos e os grandes fazendeiros, que a partir da vinda da Família Real em 1808, já operava com os interesses britânicos. Os maçons brasileiros que, no início estavam embalados pelas ideias do Reino Unido ou implantação de uma República, vão aos poucos se desligando das Cortes Gerais portuguesas.[1]

O episódio do “Fico” 9 de janeiro de 1822 foi feito, no Rio de Janeiro, sob a liderança dos maçons José Joaquim da Rocha e José Clemente Pereira e com a representação de diversas províncias ao príncipe, principalmente a Província de São Paulo, cujo motor principal era o Ir. José Bonifácio de Andrada e Silva, o futuro Patriarca da Independência, no sentido de que desobedecesse aos decretos, permanecendo no País.

Começava, neste momento, o processo de aliciamento do Príncipe Regente – D. Pedro que começava a perceber a força do Grande Oriente, o qual continuaria, logo depois, quando os maçons fluminenses, resolviam, a 13 de maio de 1822, outorgarem-lhe o título de Defensor Perpétuo do Brasil, numa cartada política a qual não faltavam, porém, interesses das lideranças, que pretendiam melhorar seu prestígio político junto ao regente e até suplantar o respeito de que José Bonifácio, já então o ministro todo-poderoso das pastas do Reino e de Estrangeiros, desfrutava junto a ele. As escaramuças entre os grupos de Gonçalves Ledo, de tendência mais republicana e de José Bonifácio, de tendência mais monárquica constitucional, já começavam a se propagar.

Com o grande número de adesões à Loja líder do movimento emancipador, a Comércio e Artes, Primaz do Brasil, dividiu-se em três – Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança de Nichtheroy para então formar o Grande Oriente Brasílico ou Brasiliano, o primeiro nome do Grande Oriente do Brasil – GOB, a 17 de junho de 1822. Já existia uma instituição paramaçônica chamada Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz, ou simplesmente Apostolado fundada por José Bonifácio a 2 de junho de 1822. Era uma organização nos moldes da Carbonária europeia cuja atuação Bonifácio bem conhecera, durante os anos em que permanecera na Europa.

O Apostolado e o Grande Oriente viriam a representar facções diferentes da Maçonaria brasileira, a primeira, sob a liderança de José Bonifácio, que teve papel importante na História do Brasil, e a segunda, sob a de Gonçalves Ledo, com papel considerável na História da Maçonaria, ambas defendendo a emancipação política do País, mas sob formas diferentes de governo e maneiras diversas de encarar a questão. O grupo filo republicano de Ledo, Clemente Pereira, Francisco Nóbrega e cônego Januário Barbosa defendia o rompimento total dos laços com a metrópole monárquica portuguesa e um regime que o aproximasse mais daquele dos demais países latino-americanos, que, paulatinamente, iam conseguindo sua independência da Coroa espanhola. O grupo de Bonifácio, presente no Grande Oriente, mas encastelado principalmente no Apostolado, pregava a união brasílico-lusa, ou seja, uma comunidade luso-brasileira de países autônomos, que englobasse as colônias e não admitisse a escravização dos negros e, mais tarde, a união do Brasil em torno da figura imperial de D. Pedro I. Crucial para entender o Zeitgeist da época são as Anotações à Biografia de Vasconcelos de Drummond, escritas pelo próprio. José Bonifácio foi o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente, sendo, pouco depois, sucedido pelo próprio Imperador no grão-mestrado.

Após a Proclamação da Independência por D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, o mesmo resolveu fechar o Grande Oriente em 25 de outubro do mesmo ano, permanecendo adormecido até 1831. Trabalhos maçônicos continuaram, contudo, a ser executados em lojas individuais. O próprio Imperador chegou a montar uma Loja no palácio.

Os maçons deputados na Assembleia Nacional Constituinte continuaram atuando em forte oposição ao Imperador que resolveu fechá-la e outorgar uma Constituição em 24 de março de 1824 que durou todo o período imperial. Depois disso, os maçons do Grande Oriente e os do Apostolado, que tinham visto suas entidades serem fechadas pelo imperador, uniram-se contra ele, em um processo de solapamento do trono, o qual viria a culminar na abdicação de 7 de abril de 1831, após a qual foi reinstalado o Grande Oriente.

Continua…

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Nota

[1] – CARVALHO, William Almeida de, Maçonaria, Tráfico de Escravos e o Banco do Brasil (São Paulo: Ed. Madras, 2010).

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A Grande Viagem: Conhece-te a ti mesmo

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A temática da viagem tem uma importância fundamental na maçonaria. O compromisso maçônico é visto como um percurso. E sem grande exceção, não de grau, de lendas aferentes, sem ideia de encaminhamento, de viagem em stricto sensu, de busca … O maçom, especialmente a partir do segundo grau é convidado a ir ao encontro do outro, que muitas vezes é apenas ele mesmo. Mas é toda a vida que passa por uma grande jornada desde o nascimento até a morte … e talvez além. Uma grande viagem com suas provas, seus objetivos, suas alegrias, suas dores, respondendo a esquemas narrativos constantes cuja consideração assegurará o sucesso do percurso: o confronto consigo mesmo provavelmente passando por uma – ou várias – transformação).

Alguns puderam fazer da viagem do primeiro – se não único – modelo do mito. Este é notavelmente o caso conhecido do mitógrafo Joseph Campbell e seu conceito de monomito[1], que ele desenvolveu em seu best-seller “O herói de mil faces”[2]. E mesmo que seu esquema possa às vezes ser contestado, ele não deixa de ser uma referência e sua estrutura será um bom ponto de partida para abordar o lado iniciático-transformador da viagem.

Sobre a ideia da viagem em maçonaria … e em outros lugares

Essa dimensão transformadora da viagem é, logicamente, um elemento importante da maçonaria, em cada acesso a um novo grau, como ela o são quase todas as mitologias ou lendas fundadoras do mundo. Vale a pena mencionar, entre muitas outras histórias de jornadas iniciáticas, o livro bíblico de Êxodo, a Odisseia de Homero – cujos nomes são agora sinônimos de grandes viagens – mas ainda a viagem de Bran / Saint Brendan, as sagas escandinavas, o épico de Gilgamesh, as grandes viagens ao mundo dos mortos (Osíris, Orfeu, Enéas, Balder …), o asno de ouro de Apuleio, as histórias do Caminho de Santiago (o “Campo da Estrela”), as gestas Arturianas com sua busca pelo Graal, até o Mapa de Tendre do século XVII, de Gulliver e Pinóquio, bem como os contos de fada, a Viagem ao centro da Terra de Verne, ao Senhor dos Anéis de Tolkien, à Viagem profundamente iniciático-transformadora ao Oriente de Herman Hesse, até mesmo ao Alquimista de Paulo Coelho e mesmo Tintin[3].

Se encontramos em algumas dessas histórias, um eco das grandes migrações originais de povos nômades, de caçadores-coletores, elas são principalmente evocações de metamorfoses de personagens em busca de algo para finalmente encontrarem a si mesmos. Será que nos surpreenderá que a maioria dos maiores “iniciados” – alguns dos quais são exaltados na maçonaria – sejam também caminhantes: Jesus, Buda, Maomé, Aristóteles? Esse processo de transformação não é sem paralelo com a abordagem hermético-alquímica, que subjaz a certos ritos maçônicos.

Escreve J.E. Bianchi:

“Sobre a tradição hermética, reteremos o significado que nossos ancestrais nos deram desde a Antiguidade até a Renascença incluída. Trata-se de um ensinamento secreto, iniciático, conhecido até na China, já praticado pelos gregos e os árabes. Esse ensinamento veio até nós sob a forma de uma “técnica”: a Alquimia, onde o Aprendiz Maçom encontra os símbolos pela primeira vez na Câmara de Reflexão (pelo menos no Rito Escocês Antigo e Aceito).”[4]

“A alquimia não pode ser classificada como ciência física, mas (…) deve ser entendida antes como um conhecimento estético da matéria, situado entre a poesia e a matemática. Ela empresta seus princípios da metafísica e, tradicionalmente, também encontra seu lugar entre o universo dos símbolos e o mundo dos números sagrados. Simbolicamente, pode-se dizer que os materiais reais teriam se transformado em ouro se tivessem permissão para “crescer”, à medida que o iniciado crescesse espiritualmente através do trabalho sobre si mesmo.”[5]

Seguramente, com a alquimia, é uma questão de ciência, mas também, conforme observa Bianchi, de “poesia”. E alegorias de viagem não faltam, seja em formas literais ou sob o véu de algumas imagens subliminares, às vezes transmitidas por aquilo que muitos – a começar pelos alquimistas – chamavam de “linguagem dos pássaros” – a linguagem do céu na terra ou da terra ao céu (não podemos deixar de ver aqui uma correspondência direta com a sentença fundamental da Tábua de Esmeraldas de Hermes Trismegistus, “O que está em baixo assim como o que esta em cima”). Esta linguagem “hermética” joga com as palavras. Há exemplos bem conhecidos, como o famoso “O Mercúrio é um Sal” de Fulcanelli, que, por trás dessa evidência química, pode ocultar uma fórmula espagírica “Mercúrio-estanho-sal” ou um igualmente explícito e inspirador “O Mercúrio brilha”. Quanto a peregrinação à Compostela, como objetivo de viagem sagrada, se transforma em “componst-asa”: o composto de matéria-prima se transforma em volátil (pela alquimia da estrela). E já que estávamos falando sobre a Tábua de Esmeralda, essa linguagem volátil facilmente nos impressionará – e, com relação a nosso assunto – um “aime – (la) rode”, um apetite por rondar, navegar, buscar … (os jogos de palavra somente têm sentido em francês).

Para esta “linguagem secreta” os trovadores occitanos tinham um termo: trobar clus, a arte de trovar – sua arte poética – “fechada”. Mas se para os linguistas, o termo trovar – que deu “trovador” – pode ter significado, a partir do século XII, “compor [em verso]”, “inventar”, originalmente, e como seus equivalentes do Norte, os “Trouvères”, esse nome veio da raiz latino-occitana de “encontrar”, “descobrir”…

É aqui que, na nossa peregrinação poética e hermética, voltamos ao nosso tema da viagem. Porque a origem mítica desta sociedade de trovadores – que quase nos sentiríamos tentados a chamar de “alquímico-especulativa”, mas isso é ainda outra história – nos remete a uma das grandes narrativas de viagem: a de Jasão e os Argonautas partindo em busca do Velocino de Ouro. Segundo sua lenda, o primeiro trovador da história teria se chamado “Salvador”, que não é nada mais que o significado do nome grego, Jasão (ou ainda “Curandeiroc).

O Velocino de Ouro teria sido o supremo segredo iniciático que os trovadores, os “buscadores de ouro” da Occitânia, iam buscar e cujos mistérios eles ocultavam sob a alegoria de sua linguagem secreta. “A fábula do Velocino de Ouro”, escreveu Fulcanelli, “é um completo enigma do trabalho hermético que deve terminar na Pedra Filosofal. Na linguagem dos Adeptos, chama-se Velocino de Ouro o material preparado para a obra, assim como o resultado final.”[6] Em O Asno de Ouro de Apuleio (século II), já mencionado acima, nessa verdadeira viagem iniciática mascarada sob um passeio libertino, Psique é ordenada por Vênus a se apossar do Velocino de Ouro de ovelhas assassinas. Quanto a Newton, ele considerava em A Cronologia dos antigos reinos corrigida que muitas das constelações refletiam uma evocação da epopeia dos Argonautas. O que está acima é como o que está abaixo…

A viagem como elemento transformador

A lenda de Jasão, em seu aspecto particularmente arquetípico, fornece uma boa oportunidade para retornar a Campbell e seu monomito. Se seus trabalhos “narratológicos”, baseados no estudo de diferentes mitologias, inspiraram muitos autores, contadores de histórias e cineastas, de Georges Lucas para sua série Star Wars a Spielberg, passando por Coppola ou Georges Miller e muitos outros, ele mesmo se inscreve na esteira de Carl-Gustav Jung e sua psicanálise dos arquétipos.

De acordo com Campbell, é através do monomito da viagem que a transformação – até poderíamos dizer transmutação – do herói deve vai se manifestar. É um verdadeiro processo alquímico que ele define: “A aventura mitológica do herói segue um itinerário típico que é uma ampliação da fórmula expressa nos ritos de passagem: separação-iniciação-retorno, uma fórmula que poderia ser definida como a unidade nuclear do mito.[7] Separação(ou partida)–iniciação-retorno … Tem-se aí quase o ternário alquímico da Grande Obra entre Putrificação / Dissolução-Purificação-Rubificação / Sublimação. Mas, de uma maneira quase prática, também se pode imaginar a viagem através de um modelo simples pela busca arturiana:

  • Identificar o objetivo da busca;
  • Armar-se bem [encontrar um ou mais guias e adquirir qualidades físicas ou psíquicas usadas como armas ou armaduras];
  • Partir [esperar o momento certo];
  • A busca em si [associada às viagens e provas em geral triplas, visando o autocontrole, frequentemente apresentada em forma alegórica do domínio de um dragão [e claramente seu dragão interior]];
  • Encontrar.

A viagem do herói (+ imagem de Ulisses)

Campbell decorticou a “viagem do herói” em 17 etapas (que, mais ou menos, ecoam os mitemas de Claude Lévi-Strauss), divididas entre essas três fases ou “atos” antropo-alquímicos:

Fase Partida

O herói recebe o chamado; ele está relutante, mas receberá ajuda, particularmente de um mentor, para cruzar o primeiro limiar e permanecer na matriz fundadora.

  1. O chamado da aventura (problema ou desafio a revelar);
  2. A recusa da aventura (medo do desconhecido);
  3. A ajuda sobrenatural (geralmente um sábio mentor, suprimento de armas mágicas);
  4. A transição do primeiro limiar (ponto de não retorno até o sucesso);
  5. O ventre da baleia (pausa matricial antes da prova)[8].

Fase Iniciação

Depois de cruzar o limiar, ele entra em outro “mundo”, onde enfrentará provas, com ou sem ajuda, até a última prova, a Apoteose, na caverna central, para alcançar seu propósito, sua transformação, seu “Elixir”, seu Graal.

  1. O caminho das provas;
  2. O encontro com a deusa (uma ajuda);
  3. A mulher tentadora (ameaça);
  4. O encontro com o pai (outra imagem do mentor no “outro lado”);
  5. Apoteose (a prova final, enfrentando a morte);
  6. O dom supremo (a recompensa, o objeto da busca, o elixir ou uma resposta).

Fase Retorno

  1. A recusa do retorno (hesitação em retornar a um mundo imperfeito);
  2. A fuga mágica (perseguida pelos guardiões do tesouro);
  3. A libertação vinda de fora (ajuda externa);
  4. A passagem do limiar no retorno;
  5. Mestre dos dois mundos (herói realizado em duas dimensões, “o que está acima e o que está abaixo”;
  6. Livre frente à vida (o herói transformado é capaz de melhorar a vida de seu mundo original).

Para ter sucesso na busca, é preciso ter-se transformado, corrigido, “curado”. Ao curar o rei mutilado [“ferido”], graças às boas perguntas que ele lhe faz, Percival deve se curar por um efeito de espelho.

O Fim do Caminho?

“Visite o interior da terra e, por retificação, encontrarás a pedra oculta”, diziam então os alquimistas [e agora os maçons], que eles sintetizaram na sigla VITRIOL. Muitas buscas ou viagens alegóricas partem do reino da morte, chegam lá ou pelo menos passam por ele. No curso transformador da jornada, existe, em todos os sentidos, uma ideia de morte e renascimento, sob uma forma ou de outra, que é também uma das fontes do percurso maçônico, em diferentes estágios de progresso – da partida até os cruzamentos de limite.

No paradoxal Atanor estático de transformação do ser que é a loja, o maçom parte como o herói viajante, passa por crises, provas que ele deve vencer para se transformar… Mas de onde ele retorna depois seu percurso? A viagem é uma jornada? Um retorno ao ponto de partida, o que sugeriria uma abordagem alquímica?

“O grande princípio do ensino hermético é a Unidade: “Um e Todo”, que contém em si o começo e o fim, que se opõe a qualquer divisão como a de eu e não-eu ou o ser interior e o ser exterior. O símbolo que a representa é o círculo, ou a cobra que morde a cauda: o “Ouroboros”, que ao mesmo tempo representa a Grande Obra, em outras palavras, a realização total do homem por meio da alquimia espiritual.[9] Essa singularidade alquímico-espiritual está no coração da viagem, e em particular da grande jornada vida-morte, que o mito de Er [narrado por Platão na República, Livro X] traduz: “A história da Er nos diz que o cosmos é uma unidade e que somos parte de um grande Todo que evolui de acordo com leis ordenadas e harmoniosas neste vasto sistema organizado. A morte é apenas uma etapa no continuum do grande Um “.[10]

Em muitas narrativas, o verdadeiro termo da busca não é o sucesso da busca em si, a realização do objetivo, a aquisição do tesouro visado [ou sua destruição, se é o propósito redentor invertido, como em O Senhor dos Anéis], mas a capacidade de retornar ao ponto de partida. O indivíduo deve ser transformado para voltar a transformar o aqui e agora de seu mundo de origem. O mito de Er, precisamente, ilustra até que ponto, escalar e ascendente ou descendente conforme possa ser o caminho, sempre se chega a um momento em que o ser deve operar o caminho oposto.

Alegórica e literalmente, o significado da viagem mudou hoje em dia. Agora em diante “ignora-se o que estamos almejando. Ignora-se porque somos movidos.”[11] Isto é explicado pelo fato de que “toda a comunicação entre a zona consciente e a zona inconsciente da psique humana foi quebrada e estamos cortados em dois”. Mas se o “sentido” da viagem mudou, sua razão de ser fundamental permanece: “O ato a ser executado pelo atual herói não é mais o mesmo que nos dias de Galileu. Lá onde reinava a escuridão encontra-se hoje a luz; mas também lá onde a luz estava hoje se encontram as trevas. A proeza do herói moderno é tentar trazer de volta à luz esta Atlântida perdida que é a nossa alma reunida.”[12]

Autor: Francis Moray
Tradução: José Filardo

Fonte: REVISTA BIBLIOT3CA

Publicado inicialmente na Revista FM-Franc-Maçonnerie Magazine

Notas

[1] – Um termo emprestado de James Joyce, que ele usa em Finnegans Wake.

[2] – Robert Laffont, 1977 (ed original: O Herói com Mil Faces, 1949).

[3] – A misteriosa estrela, para citar apenas uma, supostamente reproduz a lenda de Jasão e os Argonautas. Sobre esoterismo – em particular alquímico – de Hergé, ver em particular Bertrand Portevin, O mundo desconhecido de Hergé, Dervy, 2001, e O demônio desconhecido de Hergé, Dervy, 2004, e Étienne Badot A chave alquímica do trabalho de Hergé, The Philosopher’s Stone, 2016.

[4] – Jean-Émile Bianchi, Simbolismo Tradicional e Busca Espiritual, Edições PF, 2017, p. 92

[5] – Ibid, p. 92-93

[6] – O Mistério das Catedrais, Pauvert [ed. original, 1926] p. 194.

[7] – Op. Cit., P. 50 [paginações são levadas aqui da edição de bolso J’ai Lu, 2014]

[8] – “A ideia de que a passagem do limiar mágico permite o acesso a uma esfera de renascimento é representada pela imagem simbólica do ventre, vasto como o mundo, da baleia” Campbell, p. 128.

[9] – Bianchi, op. cit., p. 93.

[10] – Liz Greene & Juliet Sharman-Burke, Viagem ao coração dos mitos: mitos como guias da nossa vida, Dervy, Paris, 2013, p. 291

[11] – Campbell, p. 515

[12] – Ibid.

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Palestra “A Desinformação na Rede e a Era da Pós Verdade”

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Em evento promovido pela Loja de Pesquisas ‘Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda-GLMMG, foi proferida a palestra sobre um mal que atinge todos nós, sem distinção de classe social, religião ou grau de instrução: as fake news.

Veja a palestra através dos vídeos abaixo:

Primeira parte:

Segunda parte:

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Juramento e Compromisso Maçônicos

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Quando se segue uma Via Espiritual ou se é admitido numa Ordem de tipo esotérico-iniciática tal como a Maçonaria se define, é habitual o novo membro efetuar um juramento no momento da sua admissão ou durante a execução de uma cerimónia de cariz iniciático, no qual se assume um determinado compromisso. E somente após a realização desse juramento é que o neófito é recebido e integrado no seio da respetiva Ordem.

No caso que irei abordar e que será sobre a Maçonaria, é natural quando se fala em compromisso maçónico também se abordar simbióticamente o juramento maçónico. Tanto um como o outro são indissociáveis, porque um obriga ao outro e o mesmo, reciprocamente.

Durante o desenrolar de uma Iniciação Maçónica, no seu “ponto alto”, o neófito concorda em submeter-se a um juramento onde assume como compromisso de honra, aceitar e respeitar as Regras, Usos e Costumes da Maçonaria bem como as regras e leis do país onde se encontra sediada a Obediência Maçónica e a respetiva Loja da qual irá fazer parte. Nomeadamente e de entre os vários princípios maçónicos que se aceitam cumprir, os mais conhecidos pelo mundo profano são a Fraternidade entre todos os Irmãos, a prossecução do espírito da  Liberdade na Sociedade Civil e o sentimento de Igualdade entre todos.

Assim, assumir-se um compromisso com a Ordem Maçónica é assumir-se um compromisso pela Ordem e a bem da Ordem. Isto é que é o tão propalado estar à Ordem.

E estar-se é mais do que o ser-se! E digo isto porque qualquer um pode “o ser”, mas “estar” apenas se encontra ao alcance de poucos…

Estar implica sacrifício, comprometimento, trabalho, prática e estudo, e isto de forma incansável e perene.

Por isto é que assumir um compromisso deste género e com a relevância que este tem, nunca deverá ser feito de forma leviana; o mesmo se passa com os outros compromissos que se assumem durante a nossa vida profana e que também não devem ser assumidos se não estivermos capacitados para os cumprir.

Há que se ter a noção daquilo a que nos propomos a fazer.

Por isso é que o compromisso maçónico é feito com a nossa Palavra e sobre a nossa Honra. Desvirtuar estas duas qualidades, é desvirtuar a própria Maçonaria.

Da mesma forma que, se não respeitarmos a nossa palavra e não mantivermos a nossa dignidade na sociedade civil, também não somos dignos de nela estarmos integrados e sofreremos as consequências ou punições que forem legitimadas pelas leis do país.

De certa maneira, a Maçonaria atua e se assemelha com a sociedade profana, com as suas leis e os seus costumes, competindo aos maçons respeitar a sua aplicação e observar o seu cumprimento. É mais que um dever ou obrigação tal. É a assumpção que assim o deve ser e nada mais!

Porque assim tem funcionado há quase três séculos e o deverá continuar a ser noutros tantos…

Aliás, ainda na Maçonaria contemporânea se encontra algo que dificilmente se encontra na profanidade atualmente, ou seja, o valor da palavra sobre a escrita. O que não deixa de ser curioso dados os tempos que correm.

Nesta Augusta Ordem, ainda hoje aquilo que um maçom afirma tem um valor tal, que se poderá assumir que não necessitará de ser escrito para que o seja considerado; basta se dizer, que assim o será.

O tal “contrato verbal” na Maçonaria ainda hoje tem lugar. E somente pessoas de bons costumes o usam fazer, pois a sua honra e a sua conduta serão sempre os seus melhores avalistas.

Não obstante, o compromisso maçónico ao ser albergado por um juramento, obriga a que quem se submete a ele, o faça de forma permanente. Não se jura somente aquilo que gostamos ou somente aquilo que nos dá jeito cumprir.

Quando entramos para a Maçonaria sabemos que, tal como noutra associação ou organização qualquer, existem regras e deveres para cumprir; pelo que o cooptado compromete-se em respeitar integralmente todas as regras e deveres que existem na sua Obediência. E quem age assim, fá-lo porque decidiu livremente que o quer fazer e não porque alguém a tal o obriga.

E uma vez que a adesão à Maçonaria se faz por vontade própria, aborrece-me bastante (para não ser mais acutilante ainda…) assistir ou ter conhecimento de casos em que este juramento foi atraiçoado e em que os compromissos assumidos perante todos, foram deliberadamente e conscientemente esquecidos.

Será que quem age desta forma, poderá ser reconhecido como um verdadeiro maçom?

Ou será apenas gente que simplesmente enverga um avental e um par de luvas brancas nas sessões da sua Loja?

Em alguns casos destes, creio que foram pessoas que entraram na Maçonaria, mas que por sua vez, a Maçonaria certamente não entrou neles…

Algumas vezes, infelizmente, isto pode acontecer porque quem vem para a Maçonaria vem “desavisado”, isto é, pouco conhece ou percebe o que é a Maçonaria e o que ela representa, “vem ao escuro” por assim dizer, e caberá a quem apadrinha uma candidatura maçónica, informar ou retirar algumas dúvidas que se ponham ao seu futuro afilhado e consequente irmão. Em última instância, devem os responsáveis pelas inquirições que decorrem no âmbito de um processo de candidatura maçónica, no momento das entrevistas aos candidatos, terem a sensibilidade para se aperceberem do desconhecimento do entrevistado sobre os princípios e causas que movem os maçons e sobre a Ordem da qual este manifesta a vontade de vir a fazer parte, e nesse caso, serem os próprios inquiridores nessas alturas em concreto, a efetuar o trabalho que deveria ter sido feito anteriormente pelo proponente da referida candidatura, no que toca a esclarecer o profano e a fornecer-lhe as informações que lhe sejam necessárias para que esta (possível) adesão possa decorrer sem sobressaltos, nem que esta admissão venha a causar problemas (previsíveis!) no futuro, seja para a respetiva Loja ou até mesmo para a Obediência que porventura o vier a acolher.

Todavia, normalmente no momento do juramento maçónico, o neófito fá-lo sem saber/compreender o que estará a jurar e para o que estará a jurar, pois o véu que o cobre na sua Iniciação é de tal densidade que muitas vezes somente passado algum tempo é possível se perceber o juramento que se fez e o compromisso que se tomou, e que por vezes pode ser diferente daquilo que são as crenças pessoais e respetiva forma de estar de cada um ou até mesmo porque se acreditava que se “vinha para uma coisa e afinal se encontrou outra”…

E o trabalho que um padrinho deve desenvolver com o seu afilhado durante a formação deste tanto como a responsabilidade que assumiu perante o afilhado e a Ordem ao subscrever a candidatura dele, serão fulcrais neste tipo de situação concreta. O padrinho (pelo dever moral) e a Loja em si (porque é um dever da loja acompanhar e tentar integrar corretamente os Irmãos nos valores maçónicos) devem tentar perceber o motivo pelo qual alguém se “distancia” da Maçonaria. E apenas ulteriormente, se for caso disso, devem aconselhar a um possível adormecimento desse irmão por não ser do seu intento continuar a pertencer a algo com o qual não se identifique mais.

Pelo que desta forma se prevenirão certos casos e eventuais “lavagens de roupa suja” ou fugas de informação que poderão surgir, as quais na sua maioria nem sequer são informações plausíveis nem verídicas sequer, pelo que apenas posso especular que estas ocorrências se devem a paixões e vícios mal combatidos e nem sequer evitados… E como se costuma dizer, “o mal corta-se pela raiz”, pelo que “as desculpas devem evitar-se”…

E quem entra na Maçonaria deve ter a noção que as suas atitudes já não lhe dirão respeito apenas a si, mas a todos os integrantes desta Augusta Ordem, a conduta de um maçom estará sempre sob um fino crivo pela sociedade e sempre debaixo do escrutínio de todos, seja de fora ou internamente. – Porque um, pode sempre e a qualquer momento, “por em xeque” os demais -. E ter esta noção e assumir esta responsabilidade é algo que deve ser intrínseco desde os primeiros momentos de vida maçónicos.

Já não é o Nuno, o X ou o Y que fazem isto ou aquilo, serão os maçons Nuno, X ou Y que o fazem… Logo é a Maçonaria na sua generalidade que será atentada com a má conduta que os seus membros possam ter, para além da Ordem poder vir a ser acusada de cumplicidade pelos atos efetuados pelos seus membros.

Assumir que a nossa forma de estar e agir condiciona e se reflete na Maçonaria é um dos maiores compromissos que os maçons poderão tomar. Tanto que o dever de honrar a nossa Obediência, a nossa Loja e a Maçonaria em geral, deve permanentemente se encontrar na mente de todos os maçons.

Um juramento implica obrigações, e jurar ser-se maçom, mas fundamentalmente ser-se reconhecido maçom pelos nossos iguais, implica que sejamos maçons a “tempo inteiro” e não apenas às segundas-feiras ou quintas-feiras de manhã ou à noite, ou quando nos dará mais jeito, é sempre!

Sermos maçons, não é quando visitamos a loja e usamos os respetivos paramentos. Não basta envergarmos um avental, calçar umas luvas brancas e fazer uns “gestos estranhos”, é muito mais que isso! É cumprir preceitos, rituais e trabalhar em prol da Ordem.

E se não estivermos prontos para tal, de nada valerão os juramentos que fizermos, porque nunca nos iremos comprometer com nada na realidade e em último caso, nem sequer reconhecidos como tal seremos.

E a palavra persistirá perdida

Autor: Nuno Raimundo

Fonte: Blog A Partir da Pedra

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Que tempo é este

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Este é um tempo de carinhos privados e indiferença pública. Amigos que a vida uniu, separam-se ou fingem a separação que de fato não há. Camuflam sentimentos por exigência dos grupos aos quais passaram a pertencer. Este é um tempo em que o elogio ao amigo só pode ser feito pelo inbox do Face, por mensagem direta do Twitter ou por um texto rabiscado às pressas no bilhete que se perderá. Carinhos sussurrados e furtivos. Clandestinos. Publicamente as relações precisam ser negadas ou sonegadas.

Não há mais terra do meio, como se o mundo fosse formado apenas de pontas. Muitas pontas, pontiagudas. Pior para quem gosta do território interno, onde se sabe que há muitas verdades espalhadas ao redor e que o mundo é mistura de luz e sombra, dias e noites, verso e reverso. E o melhor são os versos.

Eles, os versos, contam de outros tempos sem mãos dadas. Hoje há punhos cerrados. Eles ferem sem ver os que o afeto deveria preservar, porque toda esta dor passará, toda esta angústia cessará, e cada um terá que reunir, ao fim das batalhas, os tesouros perdidos. E então será tarde demais.

Hoje é um tempo em que o brinde pela vida pode ser visto como ofensa, em que o amigo avisa que, por estar triste, não pode desejar alegrias a ninguém, mesmo que seja justo o motivo da celebração. Como se o mundo fosse música de uma única nota repetida e não a sequência harmoniosa de sons. Como se a vida fosse ponto fixo e não a sucessão de inebriantes fractais.

Chegaram flores e eu queria palavras, recebi uma mensagem vaga e esperava um abraço, enviaram o silêncio e eu preferia música. Desencontros. Tem sido assim este tempo. Vi o olhar desviante e lembrei-me dos olhos nos olhos de uma época mais calma e com fronteiras mais nítidas. Soube de rancores que não entendi. Aquela turma já não se encontra para rir do nada, como sempre fazia desde o início. Hoje, crispados, os amigos escolheram a distância.

Ouvi os elogios públicos feitos por uma amiga aos seus novos amigos e entendi, nas omissões, que ela escolhera o gueto, onde se sente protegida de contraditas. Naveguei pelos mares virtuais e vi que as pessoas estão se afastando, como barcos à deriva, e acreditam que o real é o imediato e não a imensidão toda do tempo. Assim, com desentendidos vamos construindo muros que talvez não sejamos capazes de derrubar.

Autora: Miriam Leitão

Fonte: Blog do Matheus Leitão

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Aprendizes e Companheiros: espelhos da hierarquia social?

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Atualmente a maçonaria tupiniquim, infelizmente, tem um pensamento corrente de que duas de suas três classes de maçons não tem direito a fala e muito menos a escrita (no caso Aprendizes e Companheiros). Acredito que este pensamento tenha raiz em um modelo antiquado de hierarquia, e para tratar o assunto traremos hoje um texto “num” formato nunca visto antes por essa área desolada da internet. Para tanto eu contei com a ajuda de um Grande Irmão que trabalha e vive na terra da Rainha.

No famoso grupo de estudos sobre “ciências maçônicas” (me superei aqui) Ritos e Rituais eu levantei uma pergunta direcionada ao Irmão Felipe Côrte Real de como os ingleses tratam os trabalhos (textos, monografias, artigos, peças de arquitetura e etc) que são confeccionados por irmãos aprendizes e companheiros, confira agora a pergunta e a resposta na íntegra.

Cloves Gregorio – do blog Maçonaria Tupiniquim

Pergunta

Algo interessante a perguntar para você sobre a maçonaria na Inglaterra.

Aqui no Brasil infelizmente há uma cultura de não se levar a sério o estudo e artigos de Irmãos aprendizes e companheiros. O que na opinião de todo mundo aqui (acredito) é uma grande idiotice.

Enquanto peças extraídas do livro de Rizzardo são altamente elogiadas, peças com pesquisas dignas de cunho acadêmico são sumariamente descartadas e ainda ganham a alcunha de “você pesquisou na internet, basta o seu ritual”.

Quando você confeccionou o artigo “Protect the integrity”: regularidade no discurso das relações maçônicas internacionais entre Brasil e Inglaterra (1880-2000)[1], o mano era companheiro, porém o mano é doutorando em História e como o tal sabe fazer pesquisa e escrever sobre com maestria. Como é essa percepção na Inglaterra?

Resposta

Meu irmão Cloves, a tua pergunta me é tão cara e possui tantas camadas que merece uma resposta de igual complexidade, por isso escolho esta carta aberta ao nosso grupo para respondê-la.

Sou DeMolay desde 2000 e maçom desde 2012. Escolhi entrar tardiamente na maçonaria, não sendo, felizmente, por falta de convite. Então, como os irmãos DeMolays podem confirmar, tenho conhecimento dos maçons brasileiros não somente a partir de 2012. Logo, eu sabia muito bem no que estava me metendo.

A cultura de desmerecer aprendizes e companheiros, a meu ver, está ligada ao pernicioso “classismo” que podemos testemunhar no dia a dia. O irmão sabe bem que a cultura escravocrata e patriarcal está incrustada em nossa sociedade. Como a maçonaria brasileira não recruta seus membros em Marte, ou na Suíça, acabamos por ter nas lojas, e nas obediências, um microcosmo que retrata o Brasil.

Ser “superior” e destratar ou desmerecer “quem está abaixo” é tão natural para a nossa cultura quanto falar sobre o tempo aqui na Inglaterra. Em muitas lojas, a relação entre aprendizes, companheiros e mestres reflete isso. Então, claro, como o irmão bem ressaltou, a maioria dos maçons que merecem essa alcunha irá concordar que isso é, no mínimo, uma subversão do espírito que anima a maçonaria.

O Rizzardo da Camino, entre outros escritores “maçônicos”, merece um artigo crítico (e me refiro aqui ao sentido acadêmico da palavra) sobre suas obras. Acho que tais escritores possuem grande importância, porém trazem uma interpretação demasiado mística da maçonaria. Tal interpretação não me agrada como maçom e tampouco como acadêmico.

Essa mistificação, ou “beatificação”, promovida por parte dos maçons brasileiros pode ser vista na postura sectária com a qual as potências e os ritos são vistos e comparados. A prova de que isso é estrutural e estruturante da nossa sociedade é que nas universidades brasileiras a mesma coisa acontece: se você é da linha de pesquisa X, deve se opor sistematicamente aos fulaninhos da linha de pesquisa Y. Claro que isso é suavizado pelo nosso “deixa disso” ou como escreveu Sérgio Buarque de Holanda, pela cultura do homem cordial. Porém, no fim do dia, os ritos e as potências continuam sendo “igrejinhas”, com seus teólogos, padres e devotos.

É normal que muitos maçons brasileiros enalteçam tais interpretações mitificadoras pois estas vão ao encontro da nossa interpretação religiosa do mundo. Basta observarmos quais assuntos são “tabu” ou “polêmicos” no Brasil, todos eles são assim vistos por causarem desconforto em relação a valores que são, noves fora, religiosos. É daí também que vem parte da desconfiança quanto ao conhecimento acadêmico, pois este sempre terá por missão fazer uma leitura crítica, ou a contrapô-lo, da realidade, seja esta leitura partindo da Física, da Sociologia, da Química ou da História.

Essa resistência ao uso de trabalhos acadêmicos também está ligada a um receio de subversão da ordem social. Há uma certa cota para self-made ma no Brasil. A trajetória deste prosélito deve ser balizada por uma série de pontos de vista específicos para que este se ajuste perfeitamente entre seus novos pares, de modo a não causar nenhuma “desordem” ou “desconforto”. Não é a toa que a hierarquização dos saberes funciona em nosso país com em nenhum outro, respeitamos as profissões que estavam disponíveis durante o Império (Direito, Medicina e Engenharia), sendo as outras vistas com desdém e/ou suspeição. Algumas dessas profissões fora do eixo ascendem a uma categoria melhor por serem bem pagas. O “tu és o quanto tu ganhas ou o “teu contracheque designa o quanto sabes” são dois exemplos de regras veladas da nossa sociedade que no âmbito das lojas, muitas vezes, podem ser percebidas.

Se somente o ritual basta para fazer uma peça de arquitetura, significa que está sendo pedida uma eisegese do que ali está escrito. Isso implica, na prática, supor que o ritual é “ahistórico”, que ninguém o escreveu e se o fez, o fez em tempos “imemoriais”. Creio que nenhum maçom sério crê nisso. Se crê, está transformando a maçonaria em religião ao exigir um credo ut intelligam (eu creio para que possa entender).

A minha pesquisa sobre a maçonaria é feita como acadêmico, sempre. Tenho peças de arquitetura escritas para a minha loja no Brasil e somente essas são feitas com um cunho maçônico. Então o fato de ser aprendiz, companheiro, mestre ou “past GADU” não faz a mínima diferença quando se estuda a maçonaria academicamente. Inclusive, alguns dos melhores acadêmicos na área não são maçons. Isso porque o segredo da maçonaria (a meu ver e na visão de outros acadêmicos mais afamados) está na performance do ritual e na experiência subjetiva de cada maçom. Fora isso, tudo está publicado e acessível, principalmente se você for um pesquisador profissional.

Na Inglaterra a maçonaria é uma fraternidade com um caráter muito semelhante aos clubs, claro, com suas trezentas especificidades. A maçonaria é vista aqui, por grande parte da população, como algo secreto, oculto e etc. Porém, a própria UGLE está se encarregando de desmistificar esta visão, como o irmão já deve ter percebido através de séries para a televisão como Inside the Freemasons. Claro que o meu “eu” adolescente, DeMolay empolgado e candidato à candidato à maçom, não gosta muito dessa ideia, pois ele começou a gostar disso pelo caráter de mistério. Porém o adulto, maçom e acadêmico, vê com bons olhos essa iniciativa, pois não há como a maçonaria continuar relevante no século XXI sem que haja a promoção de mudanças substanciais. Do contrário, viraremos, em questão de anos, um grupo folclórico. Alguns diriam que já somos.

Pessoalmente, a grande diferença aqui nessa relação entre maçonaria e academia é o fato de ser respeitado por ser um doutorando (PhD Candidate). E não digo somente entre os maçons, mas socialmente. A questão de as pessoas entenderem que você está abdicando, sim, de uma série de coisas para colocar mais um tijolinho na grande obra que é a construção do conhecimento e que esta é a sua profissão, é algo inenarrável. Nada de perguntas com “Você SÓ estuda?”, a qual eu sempre quero responder “Não, eu também consigo dar um mortal para trás enquanto canto o Hino da Bulgária”.

A UGLE me trata com a maior deferência, já que estou me especializando em uma de suas coleções. O respeito dos funcionários e das diretorias é ímpar. Me identifiquei como maçom para dois dos irmãos que lá trabalham, mas depois de meses e totalmente por acaso. Grande parte dos funcionários da Library and Museum of Freemasonry não são maçons e podes ter certeza mano Cloves, eles colocam qualquer “sabão” (aquele que sabe tudo, segundo grande Maurício de Sousa) no bolso quando o assunto é maçonaria.

O que me enche de esperança é essa geração nova, que em certa medida também é a nossa, que está vindo cheia de perguntas e curiosidade. Embora tenhamos de reconhecer os vários irmãos que por muito tempo lutaram e lutam para que a maçonaria seja algo mais que aventais e medalhinhas. “Porque sim”, ou “porque sempre foi assim” ou “porque fulano disse”, nunca serão respostas para nada, muito menos para a maçonaria. Na minha opinião, como maçom, o que falta em parte da maçonaria brasileira é autocrítica, o famoso “se enxergar”. Falamos tanto em perfeição, temos nomes tão pomposos para tudo que, eventualmente, acreditamos que estamos num grupo mega especial que em nada reflete ou promove a situação extra-loja. Poderia falar num tom hierático que o que falta é humildade e blá blá blá, porém creio que só falta bom senso e coerência, mesmo. A maioria das discussões que leio ou ouço são incoerentes ao ponto da esquizofrenia, sem nenhuma definição conceitual clara e principalmente, com modelos de pesquisa ou de formulação de problema dignas do século XIX (ou nem isso).

Eu sei que me alonguei mano Cloves, mas as suas perguntas são sempre inteligentes e cheias de nuances, então resolvi tomar um tempo para responder adequadamente ao menos uma.

Um tríplice e fraterno abraço do seu irmão,

Felipe Côrte Real de Camargo

Fonte: Maçonaria Tupiniquim

Nota

[1] – Para ler o artigo clique AQUI

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O Encanto do Iluminismo

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Depois das mudanças na cultura do homem, promovidas pelo desenvolvimento intelectual do Renascimento (século XIV), marcando a transição da Idade Média para a Idade Moderna, que sucedeu à Idade Média (fim da Idade Antiga até o início da Idade Moderna – 1453), a decadência do pensamento barroco, deu lugar ao arcadismo, em 1700.

O termo Barroco significa “bizarro” e é de origem francesa. Mas o “estilo barroco”, um estilo arquitetônico que se desenvolveu desde o fim do século XVI e perdurou até meados do século XVIII, surgiu na Itália.

O Barroco foi uma reação ao estilo Clássico que, no final do Renascimento, perdia seu vigor como beleza artística. Com a decadência do Barroco, surgiu o Rococó, não como estilo arquitetônico, mas, ornamental, que os críticos da arte consideram de mau gosto, devido a seus ornamentos espalhafatosos e à profusão de curvas caprichosas. A glória maior do Rococó foi na França de Luiz XV (1710-1774).

Quando aportou em Portugal, o Barroco recebeu o nome de “Estilo D. João V ou Jesuíta”. No Brasil ficou conhecido como “Colonial”. No entremeio do Barroco e do Rococó, reinou o Arcadismo.

O Arcadismo (de Arcádia, região central do Peloponeso – península da Grécia), deu origem às academias literárias, existentes ainda hoje, e cultivava, principalmente, a poesia bucólica, como os poetas de Vila Rica, em Minas Gerais, Brasil.

O Arcadismo veio acompanhado do Iluminismo, período no qual a visão teocêntrica girava em torno da religião Católica somente. Com a chegada do Iluminismo, os ventos da Europa mudaram de rumo, anunciando uma profunda renovação social, política, científica e religiosa.

Como movimento intelectual, o Iluminismo trazia o sentido de liberdade e progresso para o homem. E seus ideólogos pregavam a substituição das “trevas” da ignorância, pela “luz” (conhecimento) do poder da razão (ciência), para iluminar os aspectos “escuros” da Idade Média e da intermediação da igreja entre o homem e Deus, pela ida, direta, do homem a Deus. O Iluminismo, cujos ideólogos pregavam a existência de uma sociedade, para proporcionar felicidade, justiça e igualdade entre os homens, condenavam, também, o absolutismo, o mercantilismo e a imposição da Igreja.

Esse movimento de renovação cultural, uma corrente de pensamento, um conceito que sintetizou diversas tradições filosóficas, correntes intelectuais e atitudes religiosas, com ênfase no progresso, na liberdade de pensamento, na emancipação política, no poder da razão, o “Primado da Razão” (a razão – ciência – sobre a ignorância, a superstição e a aceitação crítica da autoridade, comuns, durante a Idade Média), que abominava a ignorância, ocorreu entre a Revolução Inglesa de 1688, chamada “Revolução Gloriosa”, e a Francesa de 1789, devido à intransigência da monarquia, que não cedia às reformas.

Os iluministas assumiram integralmente as ideias do filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), barão de Verulam, que foi chanceler da Inglaterra, e que pregava abertamente que “conhecimento é poder”.

O feudalismo dava seus últimos suspiros na Europa e as monarquias absolutistas estavam no apogeu. A burguesia, dominadora, que ganhava força nas cidades, detestava a autoridade do rei, o poder da Igreja e os privilégios do clero, aliados às petulâncias da nobreza.

O apogeu do Iluminismo se deu com a ascensão e consolidação da burguesia na Grã-bretanha, nos Países Baixos e na França, graças à influência dos escritos de Voltaire, Denis Diderot, Jean Le Rond d’Alembert, o suíço Jean-Jacques Rousseau, René Descartes e outros. Tinha, como principal característica, “creditar à razão a capacidade de explicar racionalmente os fenômenos naturais e sociais e a própria crença religiosa”. E, embora pregasse a igualdade dos homens, como conceito social, na literatura o Iluminismo apoiava o neoclassicismo, inspirado em frases latinas do poeta romano Quintus Horatius Flaccus, mais conhecido como Horácio (65-8 a.C.), que dizia: “Fugere Urben” (fugir da cidade) e “Carpe Diem” (aproveite o dia).

No Ancien Régime (Antigo Regime), principalmente na França, a sociedade era dividida na seguinte ordem de importância e poder: clero, nobreza, burguesia e trabalhadores da cidade e do campo. E o objetivo do Iluminismo foi mudar tudo isso.

O termo “Iluminismo”, pois “iluminava” os aspectos “escuros” da idade Média, com a “luz” da razão da Idade Contemporânea, significa Esclarecimento, Ilustração.

Na França, ficou conhecido como o Siècle des Lumières (Século das Luzes); na Alemanha, Aufklärung (Filosofia das Luzes, Iluminação) e, em uma melhor conceituação, “o homem iluminado pela própria razão”; na Grã-Bretanha, Enlightenment (Esclarecimento); na Espanha, Ilustración (Ilustração); e na Itália, onde sua influência maior foi nas cidades de Nápoles e Milão, Illuminismo mesmo (com dois eles). Esses termos designavam uma época da história ocidental essencialmente rica e intelectual, e sua síntese estava nas diversas tradições filosóficas, correntes intelectuais e atitudes religiosas incoerentes, cuja aceitação era contestada pela elite intelectual, que ansiava por transformações.

A inspiração para o Iluminismo francês foi a liberalidade política inglesa, que muitos filósofos franceses, em visita à Inglaterra, encontraram, com mais intensidade lá, do que na França. Eles ficaram encantados, por exemplo, com a ciência natural daquele país. De volta à França, começaram a se rebelar contra o autoritarismo real e, logo depois, o poder da Igreja Católica e da aristocracia. Mas, o início, como movimento, foi mesmo na França, de onde se espalhou por toda Europa, principalmente pela Alemanha, no final do século XVII, no apagar das luzes da Idade Média. Os ideais iluministas ajudaram a promover a Independência dos Estados Unidos da América (1775-1783), libertando-se do domínio inglês e, no Brasil, a Inconfidência Mineira (1789).

Em Portugal, o Iluminismo encontrou apoio em Sebastião José de Carvalho e Mello, o Marquês de Pombal (1699-1782), ministro do D. José I e ex-embaixador na Inglaterra, de 1738 a 1745. Em sua tarefa de renovação cultural, em 1759, expulsou os jesuítas, fundou escolas e tirou o ensino da tutela da Igreja.

Foi o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), quem sintetizou de maneira brilhante, o lema do Iluminismo. Ele disse: “O Iluminismo representa a saída dos humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem, quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento, mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da sua própria razão! – esse é o lema do Iluminismo”. [NB]

No Brasil, o Iluminismo possibilitou importantes mudanças no conceito social de então. Em primeiro lugar, a cultura dos jesuítas, com base no autoritarismo da Igreja Católica da Idade Média, deu lugar aos ventos do neoclassicismo, surgido na Itália, no fim do século XVIII, espalhando-se aos países vizinhos, perdurando por cem longos anos (de 1750 a 1850). Seu objetivo foi restituir a beleza e as formas clássicas à arquitetura e à pintura, e à harmonia das formas plásticas do corpo humano. Em segundo lugar, Minas Gerais e Rio de Janeiro se destacam no cenário político nacional como centros de relevância política, econômica, social e cultural. Estudantes brasileiros descobrem a Europa para sua formação acadêmica.

Se olhada para outra direção, a arte emergente do Iluminismo foi o retorno à simplicidade clássica.

Originado na Inglaterra, Holanda e França, o Iluminismo inseriu-se no contexto histórico das outras nações, tendo como ponto de referência o período da Renascença (século XIV), com a descoberta da razão, como a chave para compreender o mundo. Desses países, chegou aos demais, como Escócia, Estados Unidos, Rússia, Polônia, Áustria, Grécia e Bálcãs. Seu apogeu se deu no começo do século XVIII, que ficou conhecido, também, como a Era dos Cafés, da palavra ágil e contestadora (o século XVII foi chamado a Era da Taberna, do álcool e da embriaguez). O século XVIII, veio a ser conhecido como o “Século das Luzes”, uma época de grandes transformações tecnológicas, como a invenção da máquina a vapor e do tear mecânico, principalmente, caracterizando, assim, o fim entre o feudalismo e o capitalismo, o que possibilitou a formação do lema iluminista da Revolução Francesa: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Os principais precursores do movimento foram o matemático e filósofo francês, René Descartes (1596-1650), considerado o pai do racionalismo, e o cientista inglês Isaac Newton (1642-1727). Mas, tudo começou com a determinação do físico e matemático italiano Galileu Galilei (1564-1642), fundador da ciência experimental na Itália, que devolveu à ciência, sua importância primordial: a pesquisa experimental. E, de Martinho Lutero (1483-1546), monge agostiniano alemão que, em 31 de outubro de 1517, reagindo às pretensões de Roma, prega suas 95 teses ou proposições, relativas à doutrina e aos abusos da Igreja Católica, na porta da igreja do castelo ducal de Wittenberg, onde eram afixados os avisos da Universidade. Nelas, ele renegava o absolutismo papal, em matéria de fé, principalmente, diante do escândalo da venda das Indulgências (venda de perdão dos pecados e faltas menores), a “Questão da Indulgência”, cuja finalidade era arrecadar dinheiro para a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, e pagar dívidas que Alberto, arcebispo de Brundenburg, tinha com o papa. Com a venda das Indulgências, metade do dinheiro ia para Alberto e metade para o papa, como pagamento da dívida de Alberto.

Em 15 de junho de 1520, em sua bula Exsurge Domine (Erguei-vos, Senhor), carta-patente dos papas para assuntos de grande importância, o papa Leão X (1513-1521), declara Lutero herege, por ter-se afastado dos princípios fundamentais e recusado os dogmas de fé da Igreja Católica, dando-lhe um prazo de 60 dias para retratar-se de 41 das 95 teses por ele defendidas.

Mas, em 10 de dezembro de 1520, Lutero, que dizia que o papa era “o demônio que estava sentado na cátedra de Pedro” queimou, em praça pública, uma cópia da bula, juntamente com alguns volumes do Código do Direito Canônico.

Em 1521, perante a Dieta (assembleia dos príncipes e bispos alemães), convocada por Carlos V (1500-1558), Imperador do Sacro (Santo) Império Romano e rei da Espanha, a pedido do papa, na cidadezinha alemã de Worms (Weimar), Lutero confirma, oficialmente, sua posição de insurgente e se desliga da Igreja Católica, o que deu início ao luteranismo.

Devido à sua intransigência, foi excomungado dois meses depois e desterrado do império. Fugiu e encontrou apoio em Frederico da Saxônia, hospedando-se no Castelo de Wartburg, onde, entre outros escritos, traduziu a Bíblia para o alemão.

Lutero abandonou o sacerdócio em 1524 e, em 13 de julho de 1525, casou-se com a ex-freira Catarina von Bora, com a qual teve seis filhos. Morreu aos 63 anos de idade, em Eisleben, Saxônia, pequeno povoado onde havia nascido. É considerado o “Pai da Reforma” protestante.

Além deles, temos os chamados “filósofos do Iluminismo”: o médico e filósofo inglês, John Locke (1632-1704), considerado o “pai do Iluminismo”, que participou da Revolução Inglesa de 1688; os franceses Voltaire, pseudônimo literário de François Marie Arouet (1694-1778), o crítico da igreja e da intolerância religiosa, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Charles Louis de Secondat, Barão de La Brède e de Montesquieu (1689-1755), o mais radical do movimento (contestou a propriedade privada), e Denis Diderot (1713-1784). No entanto, o pai do movimento foi mesmo John Locke, embora o mais notável dentre eles, tenha sido o filósofo e sacerdote Etienne (Estêvão) Bannot de Condillac (1715-1780), o francês que foi preceptor na corte de Fernando (Ferdinando) de Bourbon, herdeiro do trono e filho de Carlos III (1716-1788), rei da Espanha, filho de Filipe V (1683-1746), duque de Parma, Itália. Os Traité des Sensations, Traité dês Systèmes, Traité de Raisonner, entre outros, são de autoria de Condillac. Mas, todos eles pregavam ideias que, juntas, deram ao Iluminismo a consistência de uma verdadeira revolução intelectual na França.

Os Bourbons da Itália e Espanha eram da mesma família real francesa, cuja ascendência remonta ao conde Robert de Clermnont, sexto filho do rei São Luiz IX (1215-1270), senhor do castelo feudal de Bourbon-l’Archambault. Eles formaram importantes dinastias na França, Espanha e Nápoles.

Locke dizia que o homem nasce sem ideia e que o conhecimento é adquirido por meio dos sentidos. Rousseau pregava a formação de um Estado, governado pela vontade do povo. Ele dizia que “o homem nasce bom” e sem vícios e, depois, corrompido, torna-se pervertido pela sociedade civilizada, “devendo, portanto, retornar para a natureza”. Defensor da pequena burguesia, Rousseau inspira a Revolução Francesa.

Montesquieu era mais radical: pregava a separação dos três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) do Estado. E Diderot, ao lado do físico e filósofo, Jean Le Rond d’Alembert (1717-1783), organiza uma enciclopédia, na qual reuniu os conhecimentos científico e filosófico até então.

Diderot e d’Alembert planejaram a L’Encyclopédie (Enciclopédia) em 1750, obra magna do pensamento iluminista. Tanto Diderot quanto d’Alembert, eram filósofos e matemáticos franceses. O título era Dictionaire Raisonné des Sciences, des Arts, et des Métiers, Enciclopédia ou Dicionário Racional das Ciências, das Artes e dos Ofícios, dirigida, de 1751 a 1754, por d’Alembert e, a seguir, por Diderot. Após sua publicação, a L’Encyclopédie sofreu violenta reação da Igreja Católica, que os iluministas criticavam e, também, de grupos ligados à ela, que a classificaram como racionalista e materialista, visto ser a Enciclopédia uma “obra de referência que exprimia concepções políticas revolucionárias”. Mesmo assim, durante vinte anos, entre 1751 (ano da publicação do primeiro volume) e 1772, foram publicados 17 dos 35 volumes concebidos de textos e 11 de pranchas de ilustração, encerrando a obra inteira.

Diderot selecionou 139 colaboradores, o melhor da elite intelectual da França, para a vitoriosa tarefa. Os mais importantes colaboradores foram Montesquieu (leis), Voltaire (literatura, elegância, história, espírito e imaginação), Lamarck (botânica), Helvetius (matemática), Condillac e Condorcet (filosofia), Rousseau (música), Buffon (ciências naturais), Quesnay e Turgot (economia), Holbach (química) Diderot (história da Filosofia) e D’Alembert (matemática).

É por isso que os iluministas também são chamados de “enciclopedistas”. Mas, além da Enciclopédia, muitos livros e panfletos foram publicados nesse período. Quando eram censurados ou queimados na França, por ordem judicial, os iluministas faziam edições clandestinas na Holanda, que depois eram contrabandeadas para a França.

Os enciclopedistas propunham a imediata separação da Igreja do Estado, combate às superstições e aos pensamentos mágicos, como as instituições religiosas. E, mesmo com a censura e condenação papal, o Iluminismo influenciou o mundo intelectual e inspirou o movimento social que originou a Revolução Francesa de 1789.

A grande contribuição da Enciclopédia foi que ela buscou definir, no homem interior, as rupturas necessárias, com base na autoridade intelectual. Sua finalidade foi “reunir os conhecimentos esparsos sobre a terra, expor seu sistema geral aos homens de seu tempo e transmiti-lo às gerações futuras, a fim de que aquilo que foi realizado no passado não caia no esquecimento. Assim, tornando-se mais instruídos, os homens serão certamente mais virtuosos e felizes”.

A maior parte dos iluministas era constituída de deístas. Como tal, eles acreditavam que Deus, depois de criar o Universo, deixou-o sozinho, à sua própria sorte. Seu maior expoente francês foi Voltaire. Na Inglaterra, Cherbury (não confundir com Cherbuliez -1829-1899 – escritor suíço) e Cudworth, Locke e Tindal. Na Alemanha, Reimarus, que não admitia atributos intelectuais e morais em Deus.

Anticlerical, o Iluminismo criou uma encrenca danada com a Igreja Católica, ao condenar a intermediação desta entre o homem e Deus, além de pregar a separação entre a Igreja e o Estado. Mesmo assim, eles criam piamente em Deus.

Há quem veja o Iluminismo sob dois aspectos distintos:

Primeiro: como doutrina de natureza místico-religiosa, onde se aninharam os chamados “iluminados” da inspiração sobrenatural, com o apoio de diversas seitas. Essa corrente surgiu no século XV, na cidade de Toledo, Espanha, mas, com raízes no misticismo francês da época medieval, cujo elemento essencial da civilização ficou conhecido como Cristandade. Da Espanha passou para a França, Alemanha e Bélgica, onde seus adeptos viviam em permanente estado passivo de, segundo eles, aproximação à divindade. Acredita-se que essa corrente tenha se ligado ao luteranismo alemão. Mas, depois de 1570, nada mais se soube deles.

Segundo: como movimento cultural-filosófico. Mas, não há uma unidade isolada que justifique seu surgimento, visto fatores diversos terem contribuído para sua formação, como países e pensadores diferentes, correntes humanistas, naturalistas, criticistas e expoentes como John Locke, Pierre Bayle (1647-1706), considerado o fundador da crítica histórica, Gotthold Ehpraim Lessing (1729-1781), Johann Gottfried von Herder (1744-1803), Voltaire, caracterizando o fim entre o feudalismo e o capitalismo, Claude Adrien Helvetius (1715-1771), Denis Diderot, Charles Louis de Condorcet, Barão de La Brède e de Montesquieu, Paul Heirich Dietrich, barão de Holbach (1723-1789) e Kant.

A característica do Iluminismo é a fé “nas luzes” da chamada razão humana, livre das idiotices das pesquisas dos problemas metafísicos, conhecidos até então. Surgia, daí, a teorização da liberdade humana. E, destacando-se, as político-econômicas e sócio-religiosas, contrapondo-se aos obsoletos limites das superstições, da tradição e autoridade, do progresso dos mais fortes e poderosos e, principalmente, intelectuais.

O ponto de partida foi a liberdade de pensamento e a emancipação política, que pôs fim à supremacia da burguesia feudal e criou uma nova visão da vida e desenvolvimento social. Todavia, a maior façanha do Iluminismo, no campo do conhecimento intelectual, foi a publicação e difusão da Enciclopédia, obra de referência, que exprimia a síntese do pensamento revolucionário dos “iluminados”. Os iluministas davam valor absoluto à razão, em detrimento a toda e qualquer forma de crença. Salvou, no entanto, sua definição religiosa, na qual o Iluminismo se baseia “num contato imediato com a divindade, fonte da luz intelectual”.

Mas, é bom lembrar que, durante o século XVIII, efetuou-se certa dessacralização da história, que passa a ser compreendida como uma trajetória vitoriosa e puramente humana, ou seja, destituída da ação divina. Em outras palavras, pelo conhecimento humano somente, pela luz da RAZÃO – ciência (daí, Iluminismo), com capacidade de esclarecer qualquer fenômeno.

Esse mesmo Iluminismo foi subdividido em diversos micro-iluminismos, diferentes no tempo, nas regiões e nos ideários religiosos, chamados de “iluminismo tardio”, “iluminismo francês” e “iluminismo espanhol”, etc.

O Iluminismo defendia o domínio da razão, sobre a visão teocêntrica (Deus, como centro de tudo), posição defendida pela Igreja desde a Idade Média, cuja humanidade havia encontrado refúgio na fé (elemento da civilização conhecido como Cristandade), com o propósito de “iluminar as trevas” em que se encontrava a sociedade, presentes no antigo regime, no absolutismo político, no mercantilismo, na sociedade rural, no homem, como súdito do rei e na sociedade estamental (dividida em estados com funções sociais definidas), como a aristocracia e o clero, que mantinham seus privilégios através das tradições medievais. O fim das trevas veio com o início da Idade Contemporânea, com a Modernidade.

O Iluminismo possibilitou as revoluções burguesa e industrial que, com suas luzes, primado da razão, dúvida metódica, crença nos direitos naturais, liberalismo político e econômico, antimonárquico, anticlerical e antimercantil, igualdade de todos perante a lei, crítica aos dogmas, criou um novo mundo de ideias e pensamentos. A luz da “Razão” tornou-se o centro dos debates do século XVIII, como uma “luz natural”, em oposição à fé, tida como uma “luz sobrenatural”. Embora, tal qual a ciência, a razão e o chamado “otimismo pedagógico”, tornaram-se marcas visionárias do Iluminismo.

Voltaire, crítico da Igreja, do clero, da servidão feudal e da censura, disse que “a função da luz é dissipar as trevas”. E Kant, exaltando a presença dos dissipadores de luz no Iluminismo, disse que “o Iluminismo é o ato do homem sair da menoridade” de pensamento. Mas, essas mesmas luzes, que tanto Voltaire e seus colegas acenderam, para brilhar muito no século XVIII, chegaram ao século XIX sem brilho, sem intensidade, “iluminando menos do que prometeram”, diminuídas pela contestação do marxismo (crítico do liberalismo), nietzscheanismo (crítico do cristianismo) e freudismo (crítico do racionalismo).

Os iluministas defendiam que a razão deveria substituir as crenças religiosas. E, devido a esse posicionamento, buscaram respostas que, até então, eram encontradas e justificadas, apenas, pela supremacia da fé (Igreja Católica).

O triunfo do Iluminismo foi libertar-se da tutela dos reis e dos pontífices de Roma e a “consolidação do liberalismo político em grande parte do Ocidente a partir do séc. XIX. O antigo regime ruiu, o poder da aristocracia desapareceu e a burguesia assumiu o controle do Estado liberal”.

O movimento foi o mais duro golpe à ideologia do poder eclesiástico, no intuito de anular, nos cristãos europeus, o domínio da Igreja Católica sobre eles. Além do mais, o encanto do Iluminismo foi a colocação de Deus no coração do homem, sem a intermediação da igreja.

E esse é o Encanto do Iluminismo.

Autor: Fernando de Almeida Silva

Fonte: Blog do Bianchi

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O Contributo da Maçonaria para a Abolição da Escravatura – Parte IV

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Filantropia para libertação (continuação)

Abrahim Sena Baze, historiador e diretor do Instituto Cultural Fundação Rede Amazônica, conta, como outro exemplo, a atuação da maçonaria no Amazonas:

Na alforria cearense, aquele Estado possuía cerca de 35 mil escravos, enquanto que no Amazonas só existiam 1501 pessoas na escravidão. Aí é necessário contextualizar a presença da maçonaria nesse processo, pois os maçons trabalhavam para que a escravidão fosse extinta, inclusive comprando e dando liberdade a escravos. O interessante é que o governo amazonense daquele período dava dinheiro para que a maçonaria pudesse comprar escravos e libertá-los, tema, inclusive, de um livro que escrevi denominado Escravidão – Amazonas e Maçonaria escreveram sua história.[35]

Confirmando a atuação maçônica no Amazonas escreve Tenório D’Albuquerque[36]:

O Palácio do Governo foi o ponto da reunião dos abolicionistas, que, constituídos em assembleias, tinham os seus trabalhos dirigidos pelo próprio Presidente da Província. Foi nesta época que a Maçonaria Amazonense mais desenvolveu sua atuação. Promoveu diversos meetings e passeatas por ocasião de entregar as cartas de alforrias que obtinha pela propaganda e à custa dos seus cofres.
Nesse período que vai de 24 de abril a 10 de julho de 1884, ou sejam 77 dias de porfiadas conquistas contra o obscurantismo, a Loja Amazonas, fazendo público que abria os seus cofres para alforriar quantos escravos dos que existissem na província, e pondo a dedicação dos seus obreiros ao serviço da Liberdade, bem mereceu o título que lhe outorgara a distinção de Benemérita conferida pelo saudoso Grão-Mestre da Ordem, Generalíssimo Manoel Deodoro da Fonseca.

Páginas à frente Tenório D’Albuquerque informa mais sobre o Amazonas:

A Maçonaria dispôs-se a lançar na luta impetuosamente. Comprou (o jornal) O Abolicionista Amazonense, assumiu a direção com destemor e inseriu a seguinte declaração no jornal:
“A Loja Maçônica Amazonas e a Sociedade Libertadora 25 de Março assumem de mãos dadas a propriedade, gerência e direção desta folha, para disputar palmo a palmo o campo que ainda, infelizmente, ocupam os poucos que têm a crueldade de supor-se com direito de possuir um homem, que teve a desventura de ser vítima de uma injúria do destino. A “Libertadora” e a “Amazonas” tendem para os mesmos intuitos: realizar a grande aspiração do povo amazonense, restituir o direito roubado aos cidadãos escravizados pela prepotência do obscurantismo violento e brutal dos séculos idos”.

O Amazonas aboliu a escravidão em 24 de maio de 1884. O presidente do Conselho de Ministros, Lafayette Rodrigues Pereira, notável jurista, à exemplo de Sátiro Dias, também demitiu o maçom e governador da província, Dr. Theodureto Souto, por ter se colocado à frente da campanha abolicionista, colocando no lugar o Cel. Joaquim Sarmento.

Portanto, o que se pretende mostrar é como esse movimento filantrópico à favor do escravo abrangeu os quatro cantos do país e seguiu uma dinâmica parecida nesses locais, ora num movimento articulado e meticuloso.

Outro movimento importante que deve ser citado é o dos Caifazes, organizado pelo maçom Antonio Bento. Sobre esse movimento a Emília Viotti informa:

Os caifazes foram organizados por Antônio Bento(…). Organizou uma sociedade secreta com sede na confraria dos homens negros da Igreja Nossa Senhora dos Remédios, em São Paulo. (…)
Os caifazes denunciavam ela imprensa os horrores da escravidão, defendiam na Justiça a causa dos escravos, faziam atos públicos em favor da sua emancipação, coletavam dinheiro ara alforrias e rotegiam escravos fugidos. Suas atividades não aravam por aí.

Antonio Bento de Souza e Castro (1843-1898), filho de um farmacêutico paulistano, era visto como excêntrico por seus modos e sua aparência. Formado em Direito em 1868, Antonio Bento se tornou promotor público da comarca de Botucatu. Anos depois foi juiz municipal em Atibaia. Aos 29 anos já acumulava as funções de juiz e delegado de polícia, tornou-se figura controversa na cidade, especialmente por seus despachos favoráveis aos escravos, sustentando que era ilegal manter nessa condição os africanos introduzidos no país após as leis de 1831 e 1850. Desencadeava a fúria das elites locais quando costumava nomear abolicionistas para arbitrar o preço das cartas de alforria. Antonio Bento chegou a sofrer tentativas de assassinato, e em 1875 acabou demitido, por pressão dos desafetos.

Radicado em São Paulo desde 1877, dedicando-se à advocacia e ao jornalismo – vale citar aqui que, entre outros, do jornal A Redenção –, e nesse jornal conhece o abolicionista Luiz Gama em 1880. Dois anos depois juraria, diante do túmulo do amigo, ocupar seu lugar à frente da luta contra a escravidão. Mas estava disposto a agir por métodos distintos da batalha jurídica travada por Gama. Longe de suas funções oficiais, passaria de juiz a justiceiro, caindo nos braços da militância abolicionista mais aguerrida. Nascia ali a ideia de organizar os Caifazes.

E como enviavam os “libertados” para fora da cidade e outros procedimentos dos Caifazes, nos informa Maria Lucia Montes:

Negando o instrumento legal da alforria como única via de emancipação, o grupo valia-se da força e da astúcia para atacar diretamente a propriedade escrava. Para isso, contava com centenas de colaboradores anônimos. Organizados em pequenos grupos de ação nas cidades ou disfarçados de caixeiros-viajantes no interior – os chamados “cometas” –, promoviam fugas em massa das fazendas, roubavam escravos em casas de família e realizavam mirabolantes resgates em estações ferroviárias. Depois ajudavam os fugitivos a chegar a refúgios seguros, como o Quilombo do Jabaquara, organizado e mantido por abolicionistas santistas a partir de 1882, e por onde se calcula que passaram cerca de 10 mil escravos fugidos.
Um dos segredos de Antonio Bento para costurar sua vasta rede de solidariedade era circular por diferentes setores sociais. Se por um lado era integrante da Maçonaria, filiado à loja Piratininga, e provedor da poderosa Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios, convivendo de perto com membros da elite, também participava ativamente das confrarias religiosas negras de Nossa Senhora do Rosário, Santa Ifigênia e Santo Elesbão. O movimento dos Caifazes contava assim com a ação de magistrados, advogados, chefes de polícia, parlamentares, jornalistas, comerciantes, donos de armazéns, controladores da Alfândega, empregados em serviços de navegação costeira e de longo curso e até mesmo membros de famílias de fazendeiros e corretores de café, mantendo também, ao mesmo tempo, uma vigorosa rede de apoio popular.[38]

Por fim, configurarão numa ação filantrópica as sociedades e confederações abolicionistas, onde as mais notáveis não passaram livres de ter, entre seus membros, maçons. Assim como a já citada Loja Simbólica Acácia Riograndense, que formou a primeira Sociedade de Emancipação de Escravos do Brasil, houve outras proeminentes.

Em 1880, políticos importantes, como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio, maçons, criam, no Rio de Janeiro, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, inspirada na British and Foreign Society for the Abolition of Slavery, essa sociedade brasileira estimulou a formação de dezenas de agremiações semelhantes pelo Brasil. Essas sociedades estavam ligadas à periódicos, como o Abolicionista, criado em 1880 pela Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, e na redação da Gazeta da Tarde, do maçom José do Patrocínio, na rua Uruguaiana, no centro da cidade, organizou-se, em 1883, a Confederação Abolicionista, associação que patrocinou inúmeros eventos contra a escravidão no Rio de Janeiro e congregava importantes associações emancipacionistas. Curiosamente, essa Sociedade e essa Confederação tiveram André Rebouças, mais um maçom, como tesoureiro. No Recife, os alunos da Faculdade de Direito mobilizam-se, sendo fundada uma associação abolicionista por alunos como Plínio de Lima, Castro Alves, Rui Barbosa, Aristides Spínola, Regueira Costa, dentre outros. No Rio Grande do Sul foi fundada a Sociedade Abolicionista Nabuco e no Ceará, a já citada, Sociedade Libertador Cearense.

A Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e a Confederação Abolicionista, tinham também um papel de fomentadoras para novas sociedades abolicionistas em outras cidades e estados, serviam de modelos para outras, mantendo estreitas relações entre elas. Como nos informa Mariana de Almeira Pícoli[39].

Influenciados pelo Clube Radical do Rio de Janeiro, em 1868, os liberais paulistas fundaram seu próprio clube, o Clube Radical Paulistano e assim a exemplo do carioca, um ano depois criaram o jornal Radical Paulistano. As reformas políticas e sociais que defendiam eram praticamente idênticas às formuladas pelo Clube Radical do Rio de Janeiro. Entre elas, a substituição do trabalho escravo pelo livre.
Luiz Gama [maçom], um de seus mais respeitados redatores, exaltava nas páginas do jornal as iniciativas emancipacionistas do Imperador. As lojas maçônicas constituíram-se em importantes frentes de combate à escravidão. Desempenharam papel significativo no movimento emancipacionista paulista. Notadamente, a Loja América, cujos esforços filantrópicos eram reconhecidos pelos jornalistas do Radical Paulistano, teve suas ações antiescravistas propagadas nas duas décadas que antecederam à promulgação da Lei Áurea.
A loja constituiu-se em poderoso espaço de discussões favoráveis à reforma nas relações escravistas. Compareciam em suas reuniões figuras importantes do cenário emancipacionista em São Paulo, estudantes e professores da faculdade de Direito simpáticos à causa. Nomes como Rui Barbosa, José Bonifácio, o moço, Luiz Gama e Saldanha Marinho apareciam com frequência publicamente divulgando as ações da organização.
Da Loja América partiam atividades variadas em prol da emancipação, pode-se destacar entre elas o financiamento de ações de liberdade para escravos contra seus senhores; a concessão de alforrias, compradas com verbas do fundo de emancipação que mantinha através de doações de seus sócios e membros; e ainda, possuía uma associação libertadora de escravos onde promoviam diversos eventos públicos a fim de arrecadar dinheiro para manumissões e divulgar ideias antiescravistas. Consoante Elciene Azevedo, a organização estabelecia vínculos com outras associações libertadoras independentes que existiam em São Paulo, como é o caso da Sociedade Emancipadora Fraternização Primeira e a Sociedade Redentora. As medidas empreendidas pela Loja América e suas filiadas eram de caráter fundamentalmente emancipacionista, pois havia uma preocupação em não radicalizar o processo de transição do trabalho escravo para o livre. O que corrobora com o pensamento político dominante neste período e com as discussões realizadas no parlamento imperial. A concessão de liberdade através do fundo de emancipação e das ações de liberdade reforça tal concepção.

Ronaldo Ribeiro Jacobina também cita o papel fomentador dessas Sociedades Abolicionista na Bahia, em um artigo para a Faculdade de Medicina da Bahia (FMB)-UFBA[40]:

A Sociedade Libertadora Baiana era uma organização da sociedade civil, fundada em 8 de março de 1883, que congregava os abolicionistas baianos. É possível que outros professores e estudantes abolicionistas da Faculdade também fossem membros. Em novembro de 1882, José do Patrocínio em viagem ao Ceará, um grande reduto abolicionista do país, esteve em Salvador e fomentou a criação dessa associação libertária.
Patrocínio foi recebido como herói, sendo carregado do cais ao Hotel Bonneau, onde ficou hospedado. No Liceu de Artes e Ofício fez uma conferência que terminou com um apelo aos participantes para contribuírem pela libertação de uma escrava, cujo filho tinha sido beneficiado com a Lei do Ventre Livre, de 1871.
Logo depois de criada a Sociedade Libertadora Bahiana, foi fundada no Rio de Janeiro, a Confederação Abolicionista, em 10 de maio de 1883, que buscava reunir as associações abolicionistas de todo o país, tendo João Clapp como presidente.

Além de fomentar outras sociedades, outro papel dessas Sociedades, era a de representar os interesses dos abolicionistas e trocar experiências com sociedades internacionais, entre elas a British and Foreign Society for the Abolition of Slavery e o Comitê de Emancipação da França, entidade que, segundo Castellani[41], “a maçonaria francesa participava através do Grande Oriente da França”.

Como presidente da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, Joaquim Nabuco enviou cartas, ao ministro norte-americano H. W. Hilliard, interessado em saber como estava a relação dos ex-escravos com seus antigos senhores, o estado da agricultura sob o regime de contratos de trabalho, enfim, sobre a economia daquele país após a abolição da escravidão.

Nabuco enviava ao ministro Hilliard também o Manifesto Abolicionista, e as informações recebidas dele davam conta do sucesso em todos os âmbitos da abolição nos EUA. Mr. Hilliard exaltava os benefícios trazido pela abolição e como lá, ao contrário do que todos aqui temiam, a abolição não faliu o país. Essas boas-novas Nabuco publicava em 1880, para o bem da campanha abolicionista, desmistificando os argumentos escravagistas.

Nabuco também enviava cartas para a British and Foreign Society for the Abolition of Slavery, mantendo contato com Charles Harris Allen, secretário da Sociedade, e outros abolicionistas britânicos, ao longo da década de 1880 e posteriormente, como informa Leslie Bethell e José Murilo de Carvalho[42]:

Um dos aspectos menos estudados da luta de Joaquim Nabuco contra a escravidão é sua relação com os abolicionistas britânicos. Essa relação aparece em geral como algo secundário, como um recurso para cobrir os intervalos em que ele era excluído da Câmara. As 110 cartas incluídas neste livro, trocadas entre ele e os abolicionistas britânicos, indicam coisa diferente. O contato entre eles significou uma parceria buscada conscientemente por Nabuco com a finalidade de expandir a arena da luta para o cenário internacional. Melhor dito, para o centro da economia e do poder mundial na época. Como mostram as cartas, a tática foi plenamente exitosa.

A primeira Sociedade abolicionista britânica foi fundada por George Fox, a Sociedade dos Amigos, também conhecida como “Quakers”. Essa sociedade evoluiu, em 1823, para Society for the Migration and Gradual Abolition of Slavery throughout the British Dominios, ou somente Anti-Slavery Society e a British and Foreign Society for the Abolition of Slavery, criada em 17 de abril de 1839, era um braço da Anti-Slavery Society.

A Anti-Slavery Society existe até hoje, e no site oficial dessa Society encontra-se um artigo sobre a fundação da British and Foreign Society for the Abolition of Slavery:

The organisation was founded in 1839. The following year a large international conference was organised that attracted delegates from around the world to the Freemasons’ Hall43, London on June 12 1840. Many of the delegates were notable abolitionists and the image of the meeting was captured in a remarkable painting that still hangs in the National Portrait Gallery in London.
Delegates included: George William Alexander (Treasurer), William Allen, Saxe Bannister (Australian), Rev. Thomas Binney, James G. Birney U.S. delegate, Samuel Bowly, Sir John Bowring, George Bradburn, Rev. William Brock, Sir Thomas Buxton, Anne Isabella Byron, Baroness Byron, Thomas Clarkson (key speaker), Josiah Conder, Daniel O’Connell (Irish), John Ellis, Josiah Forster, Robert Kaye Greville, William Forster, Elizabeth Fry, Samuel Gurney, John Howard Hinton, John Angell James, Rev. Joseph Ketley (Guyana), William Knibb, Dr. Stephen Lushington M.P., Dr. Richard Robert Madden, James Mott (American), Lucretia Mott (American), Amelia Opie, Wendell Phillips, Samuel J. Prescod (Barbados), John Scoble (Canada), Joseph Sturge (founder), George Thompson and Sir John Eardley-Wilmot M.P..[44]

O Freemason’s Hall era o local ideal para realizar a convenção de 1840, pois poderia congregar diversas delegações vindas de todo mundo, onde ali, quakers, católicos, batistas, muçulmanos estariam num território neutro, pois a maçonaria prega a crença apenas num único Deus, os maçons se referem a Ele apenas como O Grande Arquiteto do Universo, ou GADU.

Desde a menção feita por Nabuco na Câmara, sobre a questão da St. John del Rey Mining Company em 1879 (empresa inglesa que mantinha escravos nas minas do Brasil), que repercutiu na Europa provocando a reação da Anti-Slavery Society, Nabuco e outros abolicionistas passaram a ter prestígio nessa Society e despertaram para a importância da opinião pública internacional em favor da abolição. Mesmo com a pressão Inglesa nos portos e o “Bill Aberdeen”, no Brasil, a opinião pública ainda não estava mobilizada nessa campanha. Claro que a pressão internacional, principalmente a inglesa, tinha seu peso para as decisões do Império, o apelo da Junta Francesa de Emancipação de 1866 e a mensagem ao povo brasileiro da Associação Abolicionista Internacional de Paris de 1869 contribuíram para reforçar a decisão imperial de levar adiante a aprovação da Lei do Ventre Livre. Era o período final da Guerra do Paraguai, Zacarias de Góes, chefe do Gabinete de Ministros, respondia, então, em nome do governo, atenciosamente, esclarecendo que, após a Guerra, a questão dos escravos seria tratada com carinho.

Apesar da presença de um escravista na presidência do Conselho, a maré abolicionista subia rapidamente e o movimento atingia seu ponto mais alto. O imperador, doente, achava-se em tratamento na Europa e a regente Isabel manifestava clara simpatia pela abolição. Multiplicavam-se as fugas de escravos. O Clube Militar pedia a Isabel que não utilizasse o Exército na captura de escravos fugidos. Sentindo próxima a vitória, Nabuco viajou em novembro para a Europa. Mas dessa vez mirava mais alto, seu principal objetivo era ir à Itália para solicitar ao papa Leão XIII que publicasse uma bula condenando a escravidão. Calculava que, diante da conhecida religiosidade de Isabel, se o papa falasse, ela obedeceria. Seus amigos da Anti-Slavery Society lhe conseguiram uma carta de apresentação do cardeal Manning, arcebispo de Westminster, chefe da Igreja Católica na Grã-Bretanha (21.12.1887 e 4.1.1888). A audiência aconteceu em 10 de fevereiro. Leão XIII recebeu-o com simpatia e prometeu uma encíclica condenando a escravidão para antes da abertura das câmaras, tradicionalmente feita no início de maio. A diplomacia de Cotegipe conseguiu, no entanto, adiar sua publicação. Mas o relato da entrevista, com a promessa do papa, escrito pelo próprio Nabuco, tinha sido publicado em O País, e tornara-se de conhecimento geral.
(…)
Uma das primeiras medidas tomadas pela Sociedade Brasileira contra a Escravidão foi fazer traduzir seu manifesto para o inglês e o francês, e enviá-los, junto com o anúncio de sua fundação, às congêneres no exterior, aí incluída a Anti-Slavery Society. A escolha da Anti-Slavery Society como principal interlocutora era lógica. Ela era a mais conhecida sociedade abolicionista do mundo, localizava-se no centro do grande império britânico e na cidade amada por Nabuco, e tomara a iniciativa de entrar em contato com os brasileiros. Como vimos, a resposta da associação britânica, pela voz de seu secretário, não se fez esperar. Além de se congratular com a coirmã brasileira, a Anti-Slavery aprovou plenamente o manifesto e prometeu intercâmbio de informações e cooperação. Não se esqueceu de mencionar que a troca de informações contribuiria para o melhor conhecimento da situação brasileira na América e na Grã-Bretanha.
Em Londres, Nabuco e a Anti-Slavery Society montaram um esquema eficiente de propaganda da luta abolicionista. O brasileiro passava as informações a Allen que se encarregava de as colocar na imprensa, sobretudo no influente The Times. Quando não conseguia, publicava-as em sua própria revista, o Anti-Slavery Reporter. O Times era o veículo ideal pela influência que exercia dentro e fora da Grã-Bretanha. O próprio Nabuco disse em uma das cartas: “no Brasil, o Times é considerado a voz da civilização” (17.7.1883). Em carta de 11 de junho de 1885 ao editor do jornal, publicada no dia 12, Allen repetiu essa opinião, observando que a publicidade no Times representava grande ajuda aos esforços dos abolicionistas brasileiros porque “os fazendeiros [planters] são particularmente sensíveis às críticas do povo inglês” (22.6.1885). O jornal tinha clara postura abolicionista e raramente se recusava a publicar as matérias enviadas por Allen que as extraía das cartas de Nabuco. Quando o jornal publicava alguma matéria desfavorável, Nabuco inquietava-se e insistia em responder. É um tanto duvidoso que os fazendeiros em geral fossem de fato tão sensíveis às criticas do jornal, mas a elite política brasileira certamente o era.
A Anti-Slavery Society ajudava também levando Nabuco a participar de congressos internacionais. Em 1883, ela financiou a participação dele na 11ª Conferência da International Law Association, dedicada à reforma dos direitos das gentes, realizada em Milão (28.7.1883; 4.8.1883 e 24.8.1883). Nova reunião dessa Associação realizou-se em Londres em 1887, com sua participação (19.7.[1887]). Os dois congressos aprovaram moções de Nabuco contra a escravidão. Tais arenas ampliavam muito o alcance da campanha. Em outra frente, Allen conseguiu um convite para uma recepção na casa do influente William Gladstone, várias vezes primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Às vésperas da abolição, os quakers da Anti-Slavery Society ainda lhe arranjaram uma carta de apresentação escrita pelo cardeal Manning para lhe facilitar conseguir audiência com Leão XIII.[45]

E foi em 1883, numa dessas viagens à Londres, que Nabuco escreve O Abolicionismo, onde critica a classe dominante por sua atitude diante da grave situação social que a escravidão trazia.

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[35] – BASE, Abrahim Sena. Resgate da história dos portugueses na região. Amazon View, Amazonas. Entrevista concedida a Amazon View.

[36] – D’ALBUQUERQUE, A. Tenório. A maçonaria e a libertação dos escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970

[37] – COSTA, Emília Viotti da. A ABOLIÇÃO. São Paulo: UNESP, 2008.

[38] – MONTES, Maria Lucia. Quando o crime compensa. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2009

[39] – PÍCOLI, Mariana de Almeida. Ideias de liberdade na cena política capixaba: o movimento abolicionista em Vitória (1869/1888). 2009. 142 fls. Dissertação (Mestrado Centro de Ciências Humanas e Naturais). Universidade Federal do Espírito Santo, Espírito Santo.

[40] – JACOBINA, Ronaldo Ribeiro. Sérgio Cardoso (1858-1933): um acadêmico de medicina abolicionista e republicano. Gazeta Médica da Bahia. Bahia, UFBA, 94-103, 2008.

[41] – CASTELLANI, José. Os maçons e a abolição da escravatura. Londrina: A Trolha, 1998.

[42] – BETHELL, Leslie; CARVALHO, José Murilo de, Org. Joaquim Nabuco e os abolicionistas britânicos (Correspondência, 1880-1905). Rio de Janeiro: Topbooks, 2008.

[43] – Quartel General da Grande Loja de Londres.

[44] – Anti-Slavery Org.

[45] – BETHELL, Leslie; CARVALHO, José Murilo de, Org. Joaquim Nabuco e os abolicionistas britânicos (Correspondência, 1880-1905). Rio de Janeiro: Topbooks, 2008.

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