O Visitante Desaforado

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“Quem bate esquece, quem apanha, lembra.” (Popular)

O desaforo enseja várias interpretações, mas a que ocorre de imediato é a imprudência na prática de um ato desrespeitoso, indelicado e que cause constrangimentos. E tal situação torna-se mais sutil quando o comportamento parte de um visitante ilustre que é acolhido com consideração e entusiasmo.

Não é incomum recebermos em nossas Lojas, Clubes de Serviços ou entidades vinculadas a trabalhos voluntários, convidados para trazer mensagens, apresentar uma palestra ou ministrar instruções que venham ampliar o conhecimento e promover debates tendentes a contribuir para revisão de modos de agir e incentivar o incremento de atividades.

O cenário tende a se alterar quando o procedimento desse convidado agride a cultura local e a conotação farisaica de sua mensagem se acentue e a abordagem dos temas ganhe contornos de críticas ácidas, com atitudes raivosas e uso de linguagem imprópria, em flagrante desrespeito a um legado construído com grandes sacrifícios e paixão por parte de valorosas pessoas (valorosas, sim!) que plantaram as sementes e dedicaram uma vida para manter de pé as colunas que sustentam a boa obra.

A crônica é repleta de narrativas envolvendo autoridades debutantes que se julgam os doutores da lei e se arvoram no conhecimento de todos os mistérios, de todas as ciências e na titularidade do dom da profecia, e desconhecem a famosa carta de Paulo aos Coríntios sobre o amor (1Cor, 13), evidenciando pouco brilho interior, quase nada acrescentam ou perdem uma rica oportunidade de guardar silêncio. Inevitável não vir logo à mente uma frase que foi destaque no final de 2007, em Santiago do Chile, durante a XVII Conferência Ibero-Americana: “¿Por qué no te callas?”.

Boa parte dos que carregam essas características julga-se acima do bem e do mal, como se certas regras comportamentais não dissessem respeito a eles e agem como os fariseus na disputa por posições de proeminência nas mesas principais, com posturas preconceituosas e linguajar destoante, pelo simples prazer em impressionar e de serem tratados pelos títulos, notados e admirados pelas conquistas, mormente em busca de holofotes, homenagens, distintivos e diplomas para exposição nas redes sociais. Olvidam que tudo isso passa e o caráter e o exemplo são para sempre.

É discurso comum que críticas e sugestões são bem-vindas e que as equipes estão abertas para rediscutir formalidades e reavaliar projetos e ações. Até aí tudo bem, há espaço para todos. Mas o que deve ser observada é mais a forma como a mensagem é entregue do que propriamente o seu conteúdo, que por melhor e mais verdadeira que possa se insinuar, venha a desaguar e fazer o bolo solar e não se mostrar apetitoso aos comensais.

Quando essa conduta vem de um ocupante de posição relevante na entidade, que se atribui conhecimento e autoridade para falar o que melhor lhe aprouver, somente por portar currículo lustroso, o ambiente fica nebuloso e o clima tenso. Muitos desses “eruditos” se admiram quando alguém “ousa” questioná-los para maior compreensão de determinado assunto, mesmo de maneira cortês e educada, e por isso estes desavisados manifestantes são por vezes qualificados como atrevidos e resistentes a mudanças.

Como fora profetizado em uma recente reunião por um desses distintos convidados desaforados, não muito jovem, dinâmico e sem travas na língua, considerando-se inoxidável e revestido de teflon, com ar triunfante, coração de granito e invocando o manto da franqueza: “que contribuição pode dar uma pessoa de 70 anos ao nosso movimento?”. Perplexos, os presentes com idade média de 65 anos entreolharam-se constrangidos. Os que já tinham ultrapassado essa marca esboçaram um sorriso amarelo. Ressalte-se apenas esse exemplo, para não delongarmos sobre outras barbaridades proferidas.

É evidente que cada indivíduo tem seus limites, sendo alguns mais aquinhoados com doses de extrema boa vontade, compreensão, maturidade e resistência para aceitar grosserias e ataques, relevando toda a sorte de impropérios, com capacidade imensa de resiliência e de perdão e a consciência de que no voluntariado “é importante ser comedido na crítica e generoso nos elogios: sempre construir e não destruir”. Estes, portanto, já apararam as arestas da pedra bruta da personalidade.

Outros por sua vez, para não dizer um ou dois em cada grupo, ainda em fase de lapidação, porém certos de que paciência tem limites e não se obrigando a suportar tudo com passividade apenas para demonstrar gentileza ou agradar a quem quer que seja, acreditando que toda ação produz uma reação, tomam as dores e partem em defesa do seu time de coração, no mais das vezes sem descurar das formalidades e das normas de etiqueta, para também não constranger o convidado por colocações indevidas. Mas, como sói acontecer, culpando as vítimas pelo ataque, os cascas grossas não se tocam nem se redimem “e la nave va”.

Desnecessário aprofundarmos no detalhamento quanto aos quesitos relativos a cortesia e boas maneiras, exercício do tato e da habilidade nas relações interpessoais tão decantados pela  bibliografia disponível em milhares de livros e artigos de autoajuda. E se considerarmos a vigilância que deve ser mantida em nossos pensamentos e nas atitudes que possam criar situações e ambientes indesejáveis em nossa comunidade, no sentido de aprendermos a controlar sentimentos e impulsos, ainda é pouco se olharmos para os lados com olhos bem atentos e percebermos quem são os fariseus de hoje e como se multiplicam.

Por sua vez, não se pode descurar em qualquer planejamento, quando se imponha a necessidade de receber um convidado, que se avalie de antemão o conceito do mesmo e os tópicos a serem tratados, bem como eventuais providências preparatórias, sutilezas protocolares, objetivos e duração da apresentação, minimizando, assim, possíveis impactos que possam incentivar dissidências e baixas em nossas já desfalcadas fileiras de voluntários que amam servir ao próximo.

Enfim, quando a situação se impuser, vislumbra-se imprescindível saber lidar com a arrogância do poder ao exigirem-se processos transparentes em qualquer contexto em que dirigentes exerçam um mandato em nome de uma coletividade, e que tenham uma liturgia moral do cargo ou função a observar, ou se situem em patamar de “Notáveis”, de modo a não prevalecer um sentimento que possa gerar a sensação de que estão invisíveis e inacessíveis a qualquer forma de punição e não sejamos por derradeiro desafiados ou afrontados com a vetusta carteirada: “Você sabe com quem está falando?” ou a quase socrática: “Quem você pensa que é?” e o não menos conhecido enquadramento temporal: “Ainda não chegou sua hora de saber e/ou de se manifestar!“.

Quase todos podemos suportar a adversidade, mas se quereis provar o caráter de um homem, dai-lhe poder “(Abraham Lincoln)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Maçonaria: História e Historiografia – Parte II

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Varnhagen: maçonaria e constitucionalismo

Dois temas interligados constroem o nexo explicativo das páginas de Francisco Adolfo de Varnhagen, visconde de Porto Seguro (1816-78), sobre o processo de emancipação política do Brasil:

  • maçonaria e conspiração revolucionária;
  • maçonaria e constitucionalismo.

Concluído três anos antes da morte de seu autor, porém publicado apenas em 1916, História da Independência do Brasil introduz o relato das ações conspirativas maçônicas logo à página 2 do primeiro capítulo dedicado à Revolução Constitucional do Porto e à questão do regresso de d. João VI a Portugal. Esta primeira menção à maçonaria aparece com uma naturalidade de estilo bastante reveladora de uma época em que o tema da maçonaria e da conspiração revolucionária já vinha há muito impregnando o imaginário social. “Intentou a Maçonaria em Portugal, no ano de 1817, uma primeira conspiração, para o aclamar rei constitucional…”[12].

O segundo tema, maçonaria e constitucionalismo, já se evidencia nesta menção introdutória à organização maçônica, em que fica clara a utopia de uma monarquia constitucionalista em lugar do antigo regime monárquico absolutista. De fato é esse tema que ganha relevo ao longo do livro de Varnhagen.

Segundo este autor, a Revolução Constitucionalista triunfante de 1820 marcava uma nova era para o Brasil. Havia duas opções políticas para esta colônia portuguesa: não apoiar os revolucionários portugueses, e desse modo tornar-se um Estado independente; ou então aderir a eles, e libertar-se duplamente do antigo regime absolutista e do “jugo humilhante do Estado colonial”, o que de resto já era um fato desde a vinda da corte para o Rio de Janeiro[13]. Ou seja, as duas opções que se abriam para o Brasil a partir de um acontecimento revolucionário d’além-mar – impulsionado desde os seus primórdios pelas ações maçônicas – marcavam a abertura da era da constitucionalidade. Fosse como país independente, ou como parte de um Reino Unido constitucional, o Brasil teria o caminho aberto para construir novas instituições políticas[14].

Como mostra Varnhagen, as novas instituições políticas do Brasil germinaram a partir dos planos constitucionalistas de líderes maçons congregados no Grande Oriente. De um lado, formulou-se a estratégia da conquista política do príncipe d. Pedro I, o qual após muitos apelos, queixas, pressões, conversações e homenagens acaba se assumindo duplamente como brasileiro e como irmão maçom. De outro lado, tratou-se de se organizar no Brasil um governo perpetuamente livre, o que significava não só obter a sua independência em relação a Portugal, como também fundar “uma Assembleia Geral de Representantes das Províncias do Brasil”[15].

É interessante notar como Varnhagen constrói a identidade maçônica dos personagens atuantes no processo de independência. Esses personagens, congregados em seus “clubes maçônicos”, por um lado pensam e agem imbuídos de sentimentos liberais e constitucionais e, por outro, expressam um profundo sentimento de brasilidade. A maçonaria aqui aparece como essencialmente brasileira, com impulsos nacionais próprios. Seus laços efetivos com irmãos maçons do outro lado do Atlântico parecem tênues e mesmo inexistentes a não ser pelo impulso revolucionário que lhes vem inicialmente de Portugal e pelo significado que aquelas mesmas ideias constitucionalistas adquirirão em solo brasileiro. Os desviantes desses sentimentos liberais e nacionais, como é o caso de José Bonifácio de Andrada e Silva, na visão de Varnhagen, agem movidos por objetivos privados, egocêntricos e despóticos. José Bonifácio, grão-mestre do Grande Oriente, desliga-se da maçonaria e, em meados de 1822, funda o Apostolado, sociedade rival “que veio a ocasionar tantos desgostos e chegou quase até já a pôr em risco a paz interna do Brasil, nos momentos solenes da proclamação da Independência”[16]. José Bonifácio é o único revolucionário brasileiro a ser despojado de sua identidade maçônica nas páginas de Varnhagen.

Oliveira Lima: maçonaria, republicanismo e “democracia coroada”

Ao tratar de um longo período da história do Brasil, que se estende desde as vésperas da Independência até o fim do regime monárquico, Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) distingue duas fases da história do Império brasileiro. A maçonaria que também aparece com relevo em sua abordagem atravessa igualmente essas duas fases. Ou seja, de 1824 a 1848, temos uma história de instabilidade política, sobressaltada constantemente por lutas civis. Nessa fase os maçons são revolucionários, anti-religiosos e republicanos. Abre-se em seguida um longo período de paz e ordem interna que se estende até 1889. Nessa fase os maçons já não são revolucionários e nem contrários à religião. Pelo contrário, eles se incorporam às instituições de Estado, desempenhando papéis de relevo no cenário político e tornando-se tão-somente “irreligiosos”. Quanto ao seu republicanismo, ele foi sacrificado diante da ameaça de anarquia visualizada nos bandos de negros e mulatos armados e nos “ódios de nacionalidades”. Em seu lugar pretenderam “republicanizar a Constituição Imperial, conservando muito embora a forma de governo”. Era o regime de “democracia coroada”[17].

É interessante notar aqui dois aspectos distintivos da abordagem de Oliveira Lima em relação à de Varnhagen. Em primeiro lugar, Oliveira Lima associa a maçonaria com a presença estrangeira no Brasil. Segundo ele, após a dissolução da Constituinte em 1823, o republicanismo que havia sido abafado à época da Independência alastrou-se rapidamente por várias províncias, sobretudo no nordeste. Neste movimento revolucionário a presença de “elementos de outras nacionalidades” era um atestado da atuação de sociedades secretas, isto é, de lojas maçônicas, cujas “ideias subversivas dos tronos” transmitiam-se rapidamente de um país a outro, de um continente a outro[18]. Em Varnhagen, como vimos, essas conexões internacionais não são tão evidentes, embora sejam reconhecidas implicitamente a partir da menção inicial à primeira tentativa de uma revolução constitucional durante a conspiração maçônica de 1817[19].

Em segundo lugar, Oliveira Lima estabelece uma equivalência nítida entre maçonaria e republicanismo. Como vimos acima, maçons estrangeiros espalhavam rapidamente ideias subversivas aos tronos, isto é, o ideal republicano, em vários países do mundo, o Brasil inclusive. Havia, além disso, um empenho dos “revolucionários de fora” em assegurar que o continente americano fosse inteiramente republicano[20]. Varnhagen, por seu turno, estabelece uma equivalência entre maçonaria e constitucionalismo. Embora ele faça menção “a alguns que se inclinavam à democracia e republicanismo”, sem esclarecer, porém, quem seria essa minoria, ele deixa claro que os maçons brasileiros defenderam a Independência combinada com a instituição da monarquia constitucional. Para isso o Grande Oriente tratou de conquistar o príncipe d. Pedro, instilando-lhe um sentimento de brasilidade e recebendo-o como irmão maçom[21].

Apesar de enfatizar as conexões internacionais da maçonaria, o conteúdo republicano de seus ideais e sua atuação revolucionária em várias províncias em meados da década de 1820, Oliveira Lima deixa claro que os fatores internos foram decisivos para as mudanças subsequentes do cenário político brasileiro. Para ele, mais do que “por quaisquer conluios locais, com revolucionários de fora em prol da integridade republicana do continente”, a continuidade da monarquia esteve ameaçada devido à rivalidade que se instaurou entre o Executivo, sustentado pelo soberano, e o Legislativo, sustentado pelo eleitorado. Os “excessos de autoridade”, de um lado, e “repúdios da vontade popular”, de outro, fizeram temer a muitos que, como Teófilo Ottoni, preferiram sacrificar seus ideais democráticos antes que o despotismo militar ou a anarquia se instaurassem. A opção final pela “democracia coroada”, isto é, a Constituição imperial republicanizada, assegurou portanto a união das províncias e a permanência do regime constitucional.

A despeito das diferenças de abordagem com relação à maçonaria e sua presença na vida política nacional, Oliveira Lima e Varnhagen convergem para ressaltar o empenho dos maçons brasileiros em defender a nação emergente, assegurando-lhe um regime de governo pautado prioritariamente pela Lei. Por isso podemos concluir afirmando que também em Oliveira Lima a identidade maçônica é preenchida com dois atributos básicos: nacionalismo e constitucionalismo.

Caio Prado Jr.: da maçonaria à brasilidade

Na comparação entre os primeiros historiadores brasileiros e os historiadores do presente podemos perceber, nos estudos destes últimos, a perda da identidade maçônica por vários personagens de destaque na história política do Brasil do século XIX. Como evidenciam as narrativas de dois ilustres historiadores do passado, analisados acima, muito do que se passava no campo da política era compreendido à luz daquilo que poderíamos denominar de cultura da maçonaria. Refiro-me com isso aos valores, simbologia, ideais e ao cotidiano das lojas, com seus rituais, banquetes, debates, cismas, enfim, o conjunto das utopias e redes de sociabilidade formadoras de uma identidade maçônica.

Nos estudos do presente, os mesmos personagens aparecem sem que por vezes sequer se mencione a sua filiação maçônica. Mas o mais comum é que este aspecto de sua vivência seja relegado ao campo dos detalhes obrigatórios da redação informada historiograficamente, porém sem significado em termos de conteúdo compreensivo. Assim, é frequente encontrarmos apostos do tipo: “congregados nas lojas maçônicas”, “Grão-Mestre do Grande Oriente”, “apoiado pela loja América”, etc. Embora pretendam acrescentar um dado a mais na explicação de determinados personagens, tais apostos são pouco elucidativos se não se fazem acompanhar da compreensão da cultura maçônica vivenciada por eles na época.

Podemos acompanhar o início dessa tendência de negação da identidade maçônica, presente atualmente nos estudos históricos produzidos no âmbito da universidade, na abordagem de Caio Prado Jr. É possível que nenhum outro autor contemporâneo tenha enfrentado mais diretamente a questão da maçonaria e seu significado no conjunto da história política e social do Brasil do século XIX[22].

As reflexões de Caio Prado Jr. sobre a presença maçônica em meio à chamada crise do sistema colonial expressam uma certa tensão entre o reconhecimento do papel político decisivo da maçonaria e a negação deste, visto que as transformações econômicas seguiriam o seu curso histórico inevitável. Segundo este autor, passados três séculos de existência e de ganhos significativos, o sistema de colonização adotado no Brasil pela metrópole portuguesa chegara ao seu ponto de “consumação”. As contradições do sistema colonial, tais como os conflitos interclasses (cisões entre proprietários), conflitos de classe (entre senhores e escravos) e conflitos étnicos, eram tão profundas que vários “reformadores” acenaram com projetos para a sua salvação em fins do século XVIII. Entretanto, as possibilidades do sistema colonial haviam se esgotado, sendo necessário substituí-lo por outro[23].

Em meio à crise geral do sistema colonial, a única organização que se orientava e se conduzia “com mais precisão e segurança” era a maçonaria. Caio Prado Jr. distancia-se das abordagens tradicionais que restringiam o seu enfoque de visão à atuação do Grande Oriente do Rio de Janeiro e ao Apostolado dos irmãos Andradas. Para ele, o papel da maçonaria era “muito mais amplo e profundo”, e sobretudo “orgânico, articulado dentro e fora da colônia, sistemático e consciente”. Isso significa chamar a atenção para o fato de que a política brasileira emergia, já em suas origens, articulada a “um movimento internacional de proporções muito mais vastas”[24].

Caio Prado Jr. não deixa dúvidas até aqui sobre o significado político da maçonaria no Brasil em fins do século XVIII e início do XIX. Os personagens de relevo no cenário político brasileiro, em sua maioria, são maçons e atuam a partir de lojas espalhadas pelos principais centros da colônia, articuladas entre si e também com as da Europa, dos Estados Unidos e demais colônias americanas. Mais do que qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos é a ação da maçonaria que controla, nos bastidores, os acontecimentos da história brasileira[25].

Entretanto, neste momento Prado Jr. inicia um ponto de inflexão distinto em sua análise sobre o papel da maçonaria na solução da crise do sistema colonial. A despeito de sua importância em termos organizativos, a maçonaria não acrescentará e nem tirará nada de substancial dos acontecimentos brasileiros, “como aliás seria absurdo imaginar”. À maçonaria interessava apenas atingir mais um reduto do absolutismo europeu, isto é, a monarquia portuguesa. Já aos maçons que agiam dentro do Brasil interessava a solução das questões internas colocadas pela crise do sistema colonial. A maçonaria servia-lhes tão somente como “estimulante” na medida em que lhes proporcionava uma organização, isto é, “a possibilidade de uma maior unidade de vistas e de ação conjunta”. Na verdade os maçons brasileiros agiam antes como brasileiros do que como maçons; na falta da maçonaria, teriam agido do mesmo modo, porém de forma mais desorientada; ou teriam “recorrido a outra organização semelhante, feita sob encomenda e que a teria substituído”[26)].

Podemos inferir desta abordagem de Prado Jr. dois tipos de dissociação analítica. Primeiramente temos a valorização da ação política em nível nacional – o brasileiro estimulado pela maçonaria internacional, perseguindo porém objetivos estritamente nacionais – em detrimento da ação política articulada internacionalmente.

Em segundo lugar, podemos perceber a dissociação operada entre política e economia. A ação política da maçonaria era fundamental para desestabilizar a tirania dentro e fora da colônia; porém o sentido desta mesma ação política já estava dado pelos fatos objetivos da economia colonial. Com ou sem maçonaria, na falta de qualquer organização, ou contando com outra qualquer, os revolucionários brasileiros agiam movidos pela necessidade de reformas na infra-estrutura econômica, o verdadeiro “fio condutor” da análise deste autor, nas suas próprias palavras[27]. Os brasileiros e todos aqueles com interesses diretos na colônia sabiam da necessidade de reformas e “encontraram na maçonaria um instrumento ideal”.

Em conclusão, podemos identificar em Prado Jr. o início da tendência de negação de uma identidade maçônica aos personagens atuantes no processo de emancipação política do Brasil. Há mais uma troca de favores entre maçonaria e brasileiros do que uma simbiose entre eles. Os brasileiros tomaram a maçonaria apenas como um instrumento para facilitar as reformas necessárias. Já a maçonaria servia-se dos brasileiros para derrubar o absolutismo português. Nas palavras de Prado Jr., “[…] a maçonaria não poderia torcer os fatos da nossa história. Limitou-se a tirar partido deles para os seus fins, como os primeiros [os brasileiros] tirariam dela para os próprios”[28].

A história da maçonaria no Brasil não teria passado, portanto, na visão de Prado Jr., de uma relação instrumental, de importância momentânea e – por que não explicitar? – secundária. Nossos maçons não foram na sua essência maçons, mas sim brasileiros, e ao final das contas a importância da sua ação política parece residir precisamente neste fato[29].

Margaret C. Jacob: novos rumos da historiografia ocidental

O desinteresse no âmbito da universidade com respeito à história da maçonaria não é um fato a ser assinalado somente para a historiografia brasileira. Nos países de língua inglesa, e mesmo na França, onde os historiadores da chamada Escola dos “Annales” têm se destacado pela descoberta de novos temas e objetos, pouco se pesquisou e escreveu sobre a maçonaria[30].

As razões para um tal descaso foram assinaladas por Margaret C. Jacob, cujas pesquisas contribuem para a redescoberta do tema da maçonaria. Primeiramente é preciso lembrar o impacto do mito da conspiração maçônico-judaica que perpassou o imaginário europeu desde o início da década de 1930. Outra razão é que o tópico da maçonaria tem sido dominado pelos próprios maçons e seus oponentes, nenhum deles muito cuidadosos em seu uso das evidências históricas. O caráter secreto da maçonaria também tem contribuído para um certo preconceito em relação a ela, na medida em que muitos a consideram por isso como irracional e, em decorrência, como “coisa de lunáticos”. Além disso, em países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, as lojas maçônicas deixaram há muito de ser enclaves de liberais e progressistas como acontecia no século XIX[31].

Este silêncio em torno da história da maçonaria, imperante no mundo acadêmico desde meados dos anos 1940, ficou evidente durante o Congresso Internacional do Bicentenário  da Revolução Francesa, realizado em julho de 1989 na Universidade de Sorbonne. Entre as mais de duzentas comunicações apresentadas durante o evento, não houve uma sequer sobre a maçonaria francesa[32].

Entretanto tem sido grande o interesse pela história social do Iluminismo, o que se revela em tentativas recentes de transpor os limites tradicionais da história intelectual com enfoque preferencial nos grandes filósofos e seus escritos. Como resultado do impacto das proposições inovadoras da Escola dos “Annales”, temos atualmente a visão de dois Iluminismos se desenrolando ao longo do século XVIII. De um lado o Iluminismo intelectual dos grandes filósofos, até o momento o mais trabalhado pela historiografia, e, de outro, o Iluminismo popular, não-intelectual, ainda pouco pesquisado, mas de veio muito promissor[33].

Para Jacob, o problema que se coloca agora para a historiografia é encontrar a ponte entre estes dois Iluminismos, o Iluminismo dos filósofos e o Iluminismo popular. Em busca destas ligações, historiadores da Escola dos “Annales” têm se voltado para a pesquisa das academias provinciais da França e nelas encontrado redutos importantes de debate e difusão da racionalização iluminista.

Mas Jacob acredita que as lojas maçônicas representaram um papel muito mais abrangente na construção de pontes entre os dois Iluminismos. Primeiramente é preciso lembrar que, ao contrário das academias provinciais da França, as lojas maçônicas não foram uma criação do Estado e nem mantiveram ligações íntimas com ele. Podiam identificar-se eventualmente com reis e aristocratas, mas ocupavam sempre um espaço intermediário entre o oficial e o oficialmente suspeito.

Além disso as lojas maçônicas não se restringiam a nenhum limite regional ou nacional, mantendo ligações organizativas e culturais permanentes com lojas-irmãs de outros países. As lojas maçônicas significavam, portanto, não só a possibilidade cotidianamente renovada de construção de pontes entre os dois Iluminismos, como também de transmissão cultural da ideologia da Razão em nível internacional[34].

Desse modo, para Jacob, redescobrir o tema da maçonaria significa sobretudo contribuir para a história social do Iluminismo. Isso porque ao mesmo tempo que as lojas refletiam as tensões sociais do Antigo Regime, com seu apreço aos símbolos tradicionais de status e hierarquia, elas ofereciam a alternativa inerente à nova cultura política e secular iluminista: um foro público em que os indivíduos disputavam o poder, votavam, elegiam representantes e encontravam identidade em um organismo separado da identidade comunitária proporcionada pelo parentesco Igreja e Estado[35].

Além de servirem como escolas práticas de governo, nas quais se aprendia a debater e competir dentro de regras constitucionais e representativas, as lojas maçônicas construíam uma rede de caridade sistemática, prevendo auxílios diretos aos irmãos necessitados, abrigo aos viajantes maçons de outras paragens, escolas para crianças pobres e orfanatos para filhos e viúvas desamparadas. Buscava-se desse modo concretizar a utopia da fraternidade maçônica universal[36].

A vontade de agir fraternalmente não excluía porém o reconhecimento das distinções sociais dentro das lojas. Entre os tipos de auxílio aos irmãos pobres, havia em lojas holandesas do século XVIII a prática de se distribuir dinheiro na passagem de ano entre os maçons-servos, isto é, servos em lares de filiados, admitidos nas lojas como irmãos, porém com a atribuição de servir aos outros irmãos durante os seus rituais[37].

Este último aspecto evidencia com nitidez o encontro entre os dois mundos – o Antigo Regime e o mundo moderno emergente – tal como enfatizado por Jacob. No cotidiano das lojas maçônicas misturavam-se as culturas desses dois mundos: valores tradicionais patriarcalistas associavam-se à nova linguagem do constitucionalismo; e antigas tradições de caridade e amizade, herdadas das guildas medievais, permeavam organizações voluntárias de apoio mútuo.

Mas a percepção do encontro desses dois mundos no interior das lojas não nos deve levar a imaginar que se houvesse alcançado um ponto estático de convivência entre eles. A prática do constitucionalismo significava a possibilidade de novas mediações a cada nova decisão tomada pelos filiados reunidos nas lojas. Essas novas mediações, porém, nem sempre eram alcançadas harmoniosamente, como se pode  perceber ao longo da história de conflitos e cisões em lojas maçônicas. Nesse sentido a maçonaria pode ser visualizada como uma espécie de microcosmo da sociedade moderna emergente, em que leis e sociedades são entendidas como instituições humanas, sempre sujeitas a alterações por vontade da maioria[38].

Maçonaria e Nova História

Os novos rumos da história da maçonaria assinalados acima nos convidam a repensar a história da sociedade brasileira em seu primeiro século de independência política. A história da maçonaria em sua dimensão social e cultural, tanto no plano interno quanto no seu entrelaçamento com lojas maçônicas de diversos países, traz a possibilidade de ultrapassarmos os esquemas empobrecedores que ora enfatizam os movimentos reflexos da sociedade brasileira em relação à economia internacional e às ideias políticas e filosóficas “importadas”, e ora realçam de tal modo a vida interna do país a ponto de sua história perder qualquer vínculo com movimentos históricos internacionais.

Se quisermos alcançar uma melhor compreensão da sociedade brasileira no século XIX, será preciso começar resgatando a maçonaria do seu atual estágio de invisibilidade. Como ponto de partida para compreendermos o significado histórico da maçonaria no Brasil, devemos formular novas questões às fontes de pesquisa, a começar pelas razões por que tantos dos nossos mais conhecidos personagens filiavam-se a lojas maçônicas. O que significava ser maçom? O que se almejava com isso? Que espécie de utopias se projetavam em seus rituais? O que se alcançava através dos laços de sociabilidade maçônica? Enfim, por que ser maçom tornou-se uma espécie de lugar-comum de quase todos aqueles que se empenhavam em fazer parte de uma elite ilustrada, fossem eles nascidos em famílias abastadas, como o visconde do Rio Branco, ou de origem humilde, como o ex-escravo Luís Gama? A busca de respostas para essas questões aponta, portanto, para a necessidade de se pesquisar a história social e cultural da maçonaria. Ao mesmo tempo, ao expandirmos o campo de visibilidade da maçonaria a partir da sua compreensão dentro de uma história abrangente da sociedade, tanto na sua vida interna quanto nas suas conexões internacionais, estaremos também contribuindo para se repensar a história política do Brasil.

Autora: Celia M. Marinho de Azevedo

Fonte: Revista USP

Célia é é graduada em jornalismo (1974) e em ciências sociais (1983), ambos pela Universidade de São Paulo; mestre em história (1985) pela Universidade Estadual de Campinas; M. Phil. (1991) e PhD em história (1993), ambos pela Columbia University, New York, Estados Unidos. É professora doutora aposentada da UNICAMP.

Para ler a primeira parte do artigo, clique AQUI

Notas

[12] – Francisco Adolfo de Varnhagen, História da Independência do Brasil (publicado conjuntamente com História Geral do Brasil, 3 vols.), vol. 3, tomo 5, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1981.

[13] – Idem, ibidem, p. 23.

[14] – iVarnhagen acreditava que esse caminho seria de resto facilitado pelo fato de que d. João VI era “talhado de molde para um bom rei constitucional” (idem, ibidem, p. 18).

[15] – Idem, ibidem, pp. 85-6, 118- 9, 127, 129. As palavras entre aspas são de Joaquim Gonçalves Ledo, membro do Grande Oriente, em requerimento ao príncipe d. Pedro. Ledo havia sido eleito dois dias antes para o Conselho de Procuradores, cujo caráter consultivo e aristocrático desagradava aos políticos liberais, entre eles os filiados ao Grande Oriente do Brasil.

[16] – Idem, ibidem, pp. 123-4, 158-60.

[17] – Manuel de Oliveira Lima, O Império Brasileiro (1821-1889), Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1989; a primeira edição é de 1927; pp. 15, 19-20, 123-4.

[18] – Idem, ibidem, p. 19.

[19] – Varnhagen, op. cit., p. 18

[20] – Oliveira Lima, op. cit., p. 19.

[21] – Varnhagen, op. cit., pp. 77, 129. D. Pedro recebeu o nome de Guatimozin, e logo em seguida tornou-se grão-mestre do Grande Oriente.

[22] –  É interessante observar aqui que outro importante historiador contemporâneo, Sérgio Buarque de Holanda, limitou-se a registrar em algumas linhas o declínio da maçonaria numa suposta substituição desta pelo movimento positivista. Não oferece, no entanto, explicações e evidências para esta tese apenas acenada no início de um capítulo significativamente intitulado “Da Maçonaria ao Positivismo”. Haveria aqui implicitamente uma vontade de encerrar definitivamente o assunto maçonaria na história do Brasil? Ver: O Brasil Monárquico – Do Império à República, tomo 2, vol. 5, São Paulo, Difel, 1985, pp. 289-305.

[23] – Caio Prado Jr., Formação do Brasil Contemporâneo, São Paulo, Brasiliense, 1973; a primeira edição é de 1942; pp. 358-69.

[24] – Idem, ibidem, pp. 370-1.

[25] – Idem, ibidem, pp. 372-3.

[26] – Idem, ibidem, pp. 373-4.

[27] – Idem, ibidem, pp. 358-9.

[28] – Idem, ibidem, pp. 372-3.

[29] – De um modo geral a historiografia tem incorporado esta tese de Prado Jr. através de breves menções à maçonaria, ou mesmo permitindo-se silenciar totalmente em relação a ela. Prado Jr. também está presente na análise de Barreto (op. cit.), em seu capítulo sobre as sociedades secretas. Há porém três teses acadêmicas sobre a maçonaria no Brasil que levam em consideração a identidade maçônica de seus personagens e sua participação na história do Brasil: David Gueiros Vieira, O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil, Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1980; Jamil Almansur Haddad, O Romantismo Brasileiro e as Sociedades Secretas do Tempo, tese para a Cadeira de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 1945; e Sister Mary Crescentia Thornton, The Church and Freemansory in Brazil, 1872-1875: a Study in Regalism, Washington, D. C., The Catholic University of America Press, 1948. A tese de Thornton, embora amparada em vasta pesquisa, poderia entretanto ser classificada entre a literatura de cunho partidário, tal a defesa que ela faz da Igreja Católica na luta contra a maçonaria. Mais recentemente percebe-se uma renovação de interesse em compreender a história da maçonaria em termos de sua cultura e redes de sociabilidade, bem como suas contribuições para a constituição de uma identidade política nacional. Importante contribuição nesse sentido é a de Alexandre Mansur Barata, “Luzes e Sombras: a Ação dos Pedreiros Livres Brasileiros (1870-1910)” (dissertação de mestrado, Universidade Federal Fluminense, 1992). Partes desta dissertação podem ser conhecidas em dois artigos: “A Maçonaria e a Ilustração Brasileira”, in História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 1, n. 1, Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz, julho/outubro 1994, pp. 78-99; “Os Maçons e o Movimento Republicano (1879-1910)”, in Locus, Revista de História, vol. 1, n. 1, Juiz de Fora, NHR/EDUFJF, 1995, pp. 125-41.

[30] – É preciso, entretanto, mencionar um importante estudo sobre a sociabilidade meridional francesa – incluindo-se aqui um capítulo sobre a maçonaria – publicado na França em 1968: Maurice Agulhon, Pénitents et Francs-Maçons de l’Ancienne Provence – Essai sur la Sociabilité Méridionale, Fayard, 1984. A noção de sociabilidade, introduzida por ele no vocabulário dos historiadores dos “Annales”, tem adquirido crescente relevo na história social e cultural dos últimos anos. Sem essa noção dificilmente compreenderíamos a história da maçonaria. Entretanto, conforme sugere Jacob, Agulhon não teve muitos seguidores na França no tocante à pesquisa da história da maçonaria propriamente dita.

[31] – Jacob, op. cit., pp. 221-2.

[32] – Idem, ibidem, p. 17; Jacob chama a atenção para o fato de este congresso ter sido organizado por marxistas franceses.

[33] – Idem, ibidem, p. 222.

[34] – Idem, ibidem, p. 222-4.

[35] – Idem, ibidem, p. 179, 204.

[36] – Idem, ibidem, pp. 48, 165-7, 210-1.

[37] – Idem, ibidem, p. 165.

[38] – Idem, ibidem, p. 47.

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Maçonaria: História e Historiografia – Parte I

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Durante todo o século XIX são inúmeras as referências à atuação da maçonaria no Brasil. A julgar pelos testemunhos históricos de contemporâneos e pelas narrativas deixadas pelos primeiros historiadores do Brasil seria difícil encontrar um político do primeiro e do segundo Reinado, ou mesmo dos anos iniciais da República, que não tivesse em algum momento de sua vida se filiado a uma loja maçônica. Entretanto, com exceção de alguns estudos a esse respeito, a história da maçonaria é ainda pouco conhecida no nosso presente, não tendo chegado a se constituir em tema corrente de pesquisas acadêmicas [1].

O desinteresse, ou melhor, o silêncio atual em torno da história da maçonaria é particularmente intrigante ao atentarmos, por um lado, para a visibilidade dos maçons nos escritos de diversos matizes produzidos ao longo do século XIX e, por outro, para o modo como aqueles mesmos personagens históricos foram destituídos de sua identidade maçônica nos estudos acadêmicos das últimas décadas. Embora as referências à filiação maçônica de tal ou qual personagem continuem a constar dos estudos históricos produzidos no âmbito da universidade, o seu registro se assemelha a um daqueles adjetivos inseridos casualmente em uma frase e cuja retirada não faria a menor falta na medida em que pouco contribui para estabelecer o nexo explicativo de uma questão.

O ponto de partida deste artigo, portanto, é o problema da perda de visibilidade da maçonaria na história do Brasil. Para começar a elucidar este problema, percorreremos, em primeiro lugar, alguns dados da maçonaria e sua história geral e, especialmente, sua história no Brasil; em segundo lugar, vamos examinar os modos de abordagem da maçonaria por parte de três historiadores cujos trabalhos imprimiram tendências duradouras na historiografia do Brasil monárquico. São eles: Francisco Adolfo de Varnhagen, Manuel de Oliveira Lima e Caio Prado Jr.; e em terceiro lugar, veremos os novos rumos da historiografia ocidental sobre a maçonaria, assinalados em particular pelas contribuições recentes de Margaret C. Jacob, historiadora dos Estados Unidos[2].

A Maçonaria e sua História

Seria uma tarefa vã querer precisar o momento de fundação da maçonaria, uma vez que suas origens se perdem em um passado povoado de mitos e lendas, remontando ao rei Salomão e outros personagens do Velho Testamento, a começar de Adão, apontado em algumas versões como o primeiro maçom. Segundo Paul Naudon, há entretanto um ponto de concordância entre seus estudiosos quanto à filiação direta da franco-maçonaria moderna (a maçonaria especulativa) à antiga maçonaria de ofício (a maçonaria operativa)[3].

A franco-maçonaria pode ser considerada como a continuação por um lado, e a transformação por outro, da organização de ofício da Idade Medieval e da Renascença quando o elemento especulativo se sobreleva ao elemento operativo. Isto não significa, porém, dizer que as organizações de ofício da Antiguidade tenham sido puramente operativas ou profissionais. Como enfatiza Naudon, a tendência à especulação no sentido da investigação teórica, da reflexão, já se fazia presente nas finalidades das antigas corporações, uma vez que entre os povos antigos todos os atos da vida se confundiam com a religião. O trabalho mesmo se revestia de um caráter sagrado, constituindo-se na própria imagem renovada da criação dos seres e das coisas pela divindade[4].

Entretanto é preciso esclarecer as raízes etimológicas do termo franco-maçonaria, o que nos permitirá uma melhor compreensão a peculiaridade das sociedades de franco-maçons em relação a outras guildas existentes durante a época medieval. Segundo Naudon, paralelamente aos artesãos reunidos em ofícios regulares ou jurados, isto é, ofícios que se organizaram a partir do século XIII sob a égide de um feudo ou de uma cidade, havia outros artesãos que escapavam a todas as obrigações e sujeições
locais, usufruindo da liberdade de circulação. O único poder então existente capaz de conceder tais privilégios, ou seja, as franquias, era a Igreja. E foi sob a sua tutela que se desenvolveram essas confrarias laicas de artesãos privilegiados conhecidos na época como os francs-mestiers. Os textos mais antigos nos quais se faz menção a esses artesãos itinerantes, devotados às mais diversas atividades de construção, foram encontrados na Inglaterra ao tempo em que o francês era a língua oficial, e também a língua dos ofícios. Assim, além do termo francs-mestiers, consta em documento de 1376 o termo ffremason; em 1381, masonfree; em 1396, ffremaceons[5].

Assim como em outras organizações de ofício, os traços especulativos das sociedades de franco-maçons mesclavam-se às suas bases operativas. As preocupações de ordem teórica e cultural como a solidariedade de culto, os deveres religiosos e filantrópicos, o papel educativo ou de transmissão de vastos saberes como a geometria, a arte, a filosofia e a teologia aos seus filiados estiveram sempre presentes entre as metas profissionais. Mas, gozando de privilégios desconhecidos em outras confrarias de ofício, os franco-maçons aprofundaram rapidamente o caráter especulativo de suas organizações. Isto se deu sobretudo a partir do ingresso de membros “aceitos”, ou seja, estranhos porém agregados à profissão, entre eles filósofos hermetistas e alquimistas.

Como explica Naudon, a franco-maçonaria, com suas franquias, seus mestres ilustrados e contando ainda com a proteção de poderosos, exercia especial atração sobre os espíritos estudiosos, desejosos de aprofundar seu saber e de revelar livremente suas próprias reflexões sem incorrer em suspeitas. Além disso, a franco-maçonaria atraía intelectuais pelo próprio caráter itinerante de seus trabalhos. Durante a Idade Média e início da Renascença, a maçonaria era o único ofício não localizado, mantendo laços organizativos entre cidades e mesmo entre países, o que garantia a proteção e a acolhida de irmãos em trânsito[6].

Este processo de transformação da antiga maçonaria operativa em moderna maçonaria especulativa se completa na Grã-Bretanha no início do século XVIII, primeiramente em lojas escocesas e em seguida em lojas inglesas. Nesse momento o número de membros “aceitos”, isto é, estranhos ao ofício, passa a ser tão considerável que os antigos critérios operativos de ingresso nas lojas perdem a sua razão de ser. Segundo Margaret C. Jacob, a nova maçonaria expressava o surgimento de uma nova cultura secular. As pessoas ganhavam ingresso nas lojas maçônicas da Escócia e Inglaterra não devido às suas ocupações ou status per se, mas devido à sua maneira de ser. Requeria-se apenas que os irmãos fossem alfabetizados, de bom caráter e capazes de arcar com cotizações substanciais[7].

Para Jacob não foi por acaso que essa nova forma de sociabilidade emergiu na Grã-Bretanha. Nesse país os ofícios e guildas entraram em declínio já a partir do século XVII, bem antes de que o mesmo ocorresse no continente europeu. Ao mesmo tempo desenvolvia-se a economia de mercado muito mais rapidamente na Grã-Bretanha do que no resto da Europa. Isso se refletia inclusive no modo de relacionamento social, mais aberto e menos formal, entre aristocracia, pequena nobreza e comuns[8].

Apesar das suspeitas que esta nova forma de sociabilidade despertava, sobretudo em países católicos, a maçonaria de “irmãos livres e aceitos” se expandiu rapidamente pelo continente europeu. Em meados do século XVIII havia lojas maçônicas na maioria dos países da Europa ocidental, sobretudo na França. Estima-se que havia cerca de dez mil maçons vivendo em Paris na década de 1770. Em fins do século XVIII esta “migração cultural” maçônica – nas palavras de Jacob – já se espalhava pelos Estados Unidos, colônias da América espanhola e portuguesa e Rússia[9].

No Brasil há notícias da existência de maçons desde fins do século XVIII, com envolvimento na Inconfidência Mineira e depois na Conjuração Baiana de 1798[10]. Mas o que se tem por certo é que a primeira loja brasileira, Reunião, foi criada em 1801 no Rio de Janeiro vinculada ao Oriente da Ilha de França. No ano seguinte fundou-se uma segunda loja na Bahia, Virtude e Razão. Em 1804 foi a vez do ingresso da maçonaria portuguesa no Rio de Janeiro, constituindo-se duas lojas, Constância e Filantropia, sob a égide do Grande Oriente da Lusitânia.

Os anos que se seguiram revelam uma história de relacionamento ambíguo e inconstante entre os organismos maçônicos e as altas esferas do governo. Durante os últimos anos da colônia portuguesa, e depois já como país independente, alternaram-se fases de perseguições policiais e proibições oficiais à maçonaria e fases de tolerância, permissão e mesmo participação ativa de altas autoridades políticas em suas lojas, como foi o caso de d. Pedro I, José Bonifácio de Andrada e Silva e o visconde do Rio Branco. Ao mesmo tempo percebe-se uma história de rivalidades internas na presença concomitante de lojas de obediência distinta, quer no plano internacional, quer no plano nacional.

Em 1835 a maçonaria no Brasil dividia-se em quatro Supremos Conselhos e dois Grandes Orientes, a saber: o Grande Oriente do Brasil, criado em 1822 e depois reconstituído em 1831 sob a direção do grão-mestre José Bonifácio de Andrada e Silva; o Grande Oriente Brasileiro, instituído também em 1831, de obediência ao rito francês moderno; o Supremo Conselho Brasileiro, fundado em 1832 por Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, visconde de Jequitinhonha, sob a autoridade do Supremo Conselho da Bélgica e mediante a introdução dos Altos Graus do rito escocês; em reação a esse último, cada um dos dois Grandes Orientes mencionados constituíram os seus Supremos Conselhos; e, por fim, um quarto Supremo Conselho surge de uma cisão de um dos Grandes Orientes.

Ao longo dos anos 1830, 1840 e 1850 as primeiras lojas filiadas à maçonaria inglesa são instituídas em Pernambuco e Rio de Janeiro, vindo portanto se somar às lojas existentes que, como vimos, tinham vínculos com as maçonarias francesa, belga e portuguesa.

Em 1860 uma nova fase de intervenção governamental impõe novos desenvolvimentos às rivalidades maçônicas. D. Pedro II decreta a dissolução do Grande Oriente Brasileiro e seu Supremo Conselho, deixando o campo livre para o primeiro Grande Oriente. Entretanto, em 1863 uma nova cisão divide o Grande Oriente do Brasil. As duas novas Obediências foram designadas de acordo com as localizações de suas sedes no Rio de Janeiro. Por um lado, constituiu-se o Grande Oriente do Lavradio sob a direção do grão-mestre Bento da Silva Lisboa, segundo barão de Cairu. Nos anos de 1870 a direção desta Obediência coube a José Maria da Silva Paranhos, visconde de Rio Branco. Por outro lado, fundou-se o Grande Oriente dos Beneditinos sob a direção do grão-mestre Joaquim Saldanha Marinho.

A Questão Religiosa da década de 1870, quando a Igreja Católica põe em causa o direito de existência da maçonaria, determina uma reaproximação entre os dois Grandes Orientes rivais. Eles voltam a se fundir em 1883 sob a denominação de Grande Oriente Supremo Conselho do Brasil[11].

A história das rivalidades e cisões da maçonaria brasileira, pautada por diferentes vínculos nacionais e internacionais, não termina aqui e muito menos se esgota na exposição destes dados de superfície. Entretanto, mesmo superficiais e pouco elucidativos, eles nos permitiram traçar o pano de fundo necessário para que comecemos a perceber a dimensão dos interesses e aspirações em jogo no cotidiano das lojas maçônicas e seus organismos superiores.

Em conclusão a este item, podemos destacar três pontos relevantes que nos conduzem a uma percepção de um aspecto fundamental da história maçônica, porém ainda muito pouco reconhecido: a dimensão social e cultural da maçonaria. São eles:

  • o caráter cosmopolita da maçonaria, com suas conexões organizativas e migrações culturais entre cidades, países e continentes;
  • a utopia da fraternidade como impulso à organização entrelaçada de lojas maçônicas em níveis nacional e internacional; e como base de convivência intelectual entre pessoas, não obstante diferenças sociais de origem;
  • as rivalidades internas e disputas em torno do apoio de governantes a romper constantemente a sociabilidade maçônica.

Percursos Historiográficos

De um modo geral, os historiadores brasileiros do passado e do presente reconhecem o envolvimento de maçons em diversos movimentos políticos ocorridos ao longo do século XIX. Entretanto o papel da maçonaria, isto é, o seu significado histórico, é avaliado de modo distinto por uns e outros.

Há muito que a maçonaria deixou de ser tema corrente de estudos históricos, tornando-se tão-somente um assunto de maçons, ou quando muito o tema obrigatório de autores maçons interessados em construir uma história maçônica do Brasil. Entretanto, os estudos históricos acadêmicos do presente nunca deixam de mencionar a maçonaria, uma vez que determinados episódios, como a Questão Religiosa do início da década de 1870, seriam incompreensíveis se não houvesse referências aos conflitos entre maçons e Igreja Católica. Para romper com essa postura ambígua da historiografia do presente, que reconhece a presença da maçonaria na nossa história, sem porém se aprofundar ao nível de pesquisas e estudos acadêmicos a respeito, é preciso inquirir sobre o significado da maçonaria ao longo do processo de constituição da nação brasileira. Para isso será necessário tentar recuperar a história da maçonaria no século XIX, alargando-se porém o olhar instituído pelos nossos primeiros historiadores, cujos horizontes não iam muito além da participação da maçonaria nos grandes eventos políticos e seus bastidores.

Ao contrário dos historiadores do presente, os historiadores nascidos no século XIX reconhecem a maçonaria como uma instituição organicamente ligada aos movimentos políticos de seu tempo. Com isso quero dizer que esses historiadores antigos conferem à maioria das lideranças políticas uma identidade maçônica, sem o que
não se poderia compreender a essência das suas ações e pensamento.

Começaremos, portanto, por historiadores nascidos no século XIX, e cujos estudos assinalam a presença constante, e marcante, de maçons no mundo da política. Em seguida vamos buscar o enfoque historiográfico mais recente nos escritos de Caio Prado Jr., o qual assinala a passagem da história da maçonaria para a sua condição atual de invisibilidade.

Continua…

Autora: Celia M. Marinho de Azevedo

Fonte: Revista USP

Célia é é graduada em jornalismo (1974) e em ciências sociais (1983), ambos pela Universidade de São Paulo; mestre em história (1985) pela Universidade Estadual de Campinas; M. Phil. (1991) e PhD em história (1993), ambos pela Columbia University, New York, Estados Unidos. É professora doutora aposentada da UNICAMP.

Para ler a segunda parte do artigo, clique AQUI

Notas

[1] – Quando a autora escreveu este artigo ela estava desenvolvendo dois projetos de pesquisa nesse sentido: “Identidade, Cultura e Sociabilidade: uma História Social da Maçonaria no Brasil (Século XIX)”, com apoio da Unicamp e do CNPq; e “O Negro e a Maçonaria no Brasil (Século XIX)”, com apoio da Unicamp, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos e da Fundação Ford.

[2] – Há uma vasta bibliografia específica sobre a história da maçonaria com enfoque partidário, isto é, a favor ou contra a maçonaria. Escritos deste teor têm sido uma tendência constante desde as origens da maçonaria chamada especulativa em diversos países, o Brasil inclusive. Neste artigo, porém, eu tratarei somente de estudos históricos produzidos no âmbito acadêmico.

[3] – Paul Naudon, La FrancMaçonnerie, Paris, Presses Universitaires de France, 1963, pp. 9-13.

[4] – iIdem, ibidem, pp. 14-7.

[5] – iIdem, ibidem, pp. 20-2.

[6] – Idem, ibidem, pp. 24-7.

[7] – Margaret C. Jacob, Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth Century Europe, New York, Oxford University Press, 1991, p. 31; e também Naudon, op. cit., pp. 27-30.

[8] – Jacob, op. cit., p. 31.

[9] – Idem, ibidem, p. 73; a população de Paris em 1770 oscilava entre 500 e 600 mil habitantes segundo Jacob. Ver também a respeito desta migração cultural: P. Naudon, op. cit., pp. 35-43, 64-8; e R. R. Palmer, The Age of the Democratic Revolution: a Political History of Europe and America, 1760-1800, 2 vols., Princeton, NJ, Princeton University Press, 1959 e 1964, especialmente o segundo volume. A primeira bula papal desautorizando a maçonaria data de 1738.

[10] – Joaquim Felício dos Santos, Memórias do Distrito Diamantino, Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1976; Affonso Ruy, A Primeira Revolução Social Brasileira, Rio de Janeiro, Laemmert, 1970; Célia de Barros Barreto, “Ação das Sociedades Secretas”, in História Geral da Civilização Brasileira: o Brasil Monárquico, tomo II, vol. I, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1993; Emília Viotti da Costa, “Introdução ao Estudo da Emancipação Política do Brasil”, in Da Monarquia à República: Momentos Decisivos, São Paulo, Ciências Humanas, 1979.

[11] –  Esses dados foram compilados com base no verbete “Brésil” de André Combes (in Daniel Ligou, Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie, Paris, Presses Universitaires de Frances, 1987). Para uma lista de maçons brasileiros, segundo publicação maçônica recente, ver: Nicola Aslan, Pequenas Biografias de Grandes Maçons Brasileiros, Rio de Janeiro, Ed. Maçônica, 1973; o autor pertence à Academia Maçônica de Letras.

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Alquimia e Maçonaria

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Podemos afirmar que o maçom tem contato com a Alquimia nos primeiros momentos em que, como candidato, tem contato com a Ordem. A Câmara de Reflexões indiscutivelmente é um legado alquimista, a sua “decoração” com os elementos água, enxofre e sal, que acrescida do mercúrio são substâncias que constituem a Prima Matéria da Alquimia. A Alquimia é estudada sob três aspectos diversos, suscetíveis de interpretações distintas, e que são: o cósmico, o humano e o terrestre. Elas são representadas pelas três propriedades alquímicas: enxofre, mercúrio e sal. Muitos autores afirmam que há três, sete, dez e doze procedimentos respectivamente, porém, todos concordam em que há apenas um único objetivo na Alquimia, que é a transmutação em ouro dos metais mais grosseiros. Porém, este é apenas um dos aspectos da Alquimia, o terrestre ou puramente material, pois, compreendemos logicamente que o mesmo processo seja executado nas entranhas da Terra. Contudo além desta interpretação, há na Alquimia um significado simbólico, psíquico e espiritual.

Como vimos, o alquimista procura simbolicamente ouro. Isto nada mais é do que o maçom procura, através da sua opus, transformar a pedra bruta em pedra polida, e que é o aprimoramento moral e espiritual do maçom. Enquanto o alquimista cabalista muitas vezes procura a realização do ouro material, o alquimista ocultista, desdenhando o ouro das minas, volta toda a sua atenção e concentra todos os seus esforços na Divina Trindade do homem que, quando finalmente se fundem, formam apenas um.

Os planos espiritual, mental, psíquico e físico da existência humana são comparados, em Alquimia, aos quatro elementos: fogo, ar, água e terra, e cada um deles é suscetível de uma constituição tripla, a saber: fixa, variável e volúvel. Aqui temos também um outro elo entre a Maçonaria e a Alquimia, mais precisamente nas três viagens que o recipiendário é obrigado a fazer acrescido da prova da terra que, simbolicamente, é a Câmara de Reflexões, a que nos referimos anteriormente.

A Maçonaria vê na prova do ar (primeira viagem com seus ruídos e trovões) a representação do segundo elemento primordial que com seus meteoros e contínuas flutuações é o emblema da vida, sujeito as contraditórias variações. Na Alquimia o ar é trabalhado através da operação sublimatio. Ela transforma o material em ar por meio de sua elevação e volatilização. O termo “sublimatio” vem do latim Sublimis, que significa elevado. Isso indica que o aspecto essencial do Sublimatio é um processo de elevação por intermédio do qual uma substância inferior se traduz numa forma superior mediante um movimento ascendente.

Na Maçonaria a água é o oceano e este é um símbolo do povo, a cujos serviços dedicam-se os verdadeiros maçons. Os homens são as gotas do vasto oceano da humanidade, de que as nações são partes.

Na Alquimia a água é a Prima Matéria, ideia que os alquimistas herdaram dos pré-socráticos. Pensam os alquimistas que uma substância não poderia ser transformada sem antes ter sido reduzida à Prima Matéria. A água é trabalhada através da operação Solutio, esta provoca o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma nova forma regenerada. No poema abaixo, escrito por Lao Tse, a Maçonaria fala a mesma linguagem que a Alquimia, quando tratam de água:

“O menor dos homens é como a água.
A água a todas as coisas beneficia
E com elas não compete. Ocupa os (humildes) locais visto por todos com desdém
Nos quais se assemelha ao Tao
Em sua morada (o Sábio) ama a (humilde) terra
Em seu coração ama a profundidade
Em suas relações com os outros, ama a gentileza
Em suas palavras, ama a sinceridade
No governo ama a paz
No trabalho, ama a habilidade
Em suas ações ama a oportunidade
Porquanto não querê-la
Vê-se livre de reparos.”

O quarto elemento, o fogo, também une os propósitos dos dois colégios. Para a Maçonaria o fogo, cujas chamas sempre simbolizam aspiração, fervor e zelo, deve lembrar ao iniciado que este deve aspirar a excelência e a verdadeira glória e trabalhar com dedicação nas causas empenhadas, principalmente as do povo, da pátria e da ordem.

Para o alquimista o fogo é tratado na operação calcinatio. Eis porque toda imagem que contém o fogo Livre queimando ou afetando substâncias se relaciona com a calcinatio. O fogo da calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor. Atua sobre a matéria negra, a nigredo, tomando-a branca. Diz Basil Valentine: “Deves saber que isso (a calcinatio) é o único meio correto e legítimo de purificar nossa substância.” Isso a vincula ao simbolismo do purgatório. A doutrina do purgatório é a versão teológica da calcinatio projetada na vida depois da morte.

Morte, um tema muito caro para os maçons e alquimistas. Na Maçonaria a morte é tratada de forma muito especial, na Lenda de Hiram que perpassa vários graus da Escada de Jacó. O maçom conhece muito bem estas palavras:… o pó volte a Terra e o espírito volte a Deus que o deu…

Para o alquimista a morte também é um processo, uma continuação que faz parte do trabalho da coagulatio. Esta pertence ao elemento Terra, e costuma ser seguida por outros processos, em geral pela mortificatio e pela putrefactio. Aquilo que se concretizou plenamente ora se acha sujeito à transformação. Tornou-se uma tribulação, que chama à transcendência. Eis como podemos entender as palavras do apóstolo Paulo ao vincular o corpo e a carne à morte:

“Quem me libertará do corpo desta morte?… Porque, se vivemos na carne, morreremos; mas se por meio do espírito, mortificarmos os feitos do corpo, viveremos… Porque aquele que vive segundo a carne inclina-se para as coisas da carne. A inclinação da carne é a morte; mas a inclinação do espírito é a vida e paz”.

A identificação do corpo e da carne com a morte deve-se ao fato de que tudo aquilo que nasce no plano espaço-temporal deve submeter-se às limitações dessa existência, que incluem um fim a morte. Esse é o preço do ser real. Uma vez plenamente coagulado ou encarnado, o conteúdo torna-se sem vida, sem maiores possibilidades de crescimento.

Emerson exprime essa ideia:

“Somente a vida é beneficio, e não a ter vivido. A força cessa no instante do repouso; ela reside no momento da transição de um estado passado para um novo, na voragem do abismo, no arremesso contra o alvo. Eis um fato que o mundo abomina. O fato de a alma vir a ser porquanto isso degrada o passado, tornando todos os bens em pobreza, toda reputação em vergonha, confundindo o santo com o velhaco, varrendo Jesus e Judas para longe, sem distinção.”

Realizada a plena coagulatio, vem a putrefactio. Porque o que semeia na sua carne da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no espírito do espírito ceifará a vida eterna. Um texto alquímico trata do mesmo tema: o leão, o sol inferior pela carne se corrompe… Assim, o leão tem corrompida a natureza por meio da sua carne, que segue os ritmos da Lua, e é eclipsada. Porque a Lua é a sombra do Sol, e com o corpo corruptíveis é consumida; e, por meio da destruição da Lua, o leão é eclipsado com auxílio da umidade de mercúrio; o eclipse não obstante, é transmutado tomando-se útil e de melhor natureza, e ainda mais perfeito do que o primeiro.

Em vários graus da Maçonaria o crânio é uma peça importante tanto na representação do grau como na ornamentação do templo para o ritual do grau. Pois bem, na alquimia o crânio como momento mori é um emblema da operação da mortificatio. Ele produz reflexões a respeito da mortalidade pessoal de cada um e serve como pedra de toque para os valores falsos e verdadeiros. Refletir sobre a morte pode nos levar a encarar a vida sob perspectiva da eternidade e, desse modo, a negra cabeça da morte pode transformar-se em ouro. Com efeito, a origem e o crescimento da consciência parecem estar vinculados de maneira peculiar à experiência da morte. Talvez o primeiro par de opostos a penetrar na consciência em vias de despertar dos seres humanos primitivos tenha sido o contraste entre o vivo e o morto. E provável que somente a criatura mortal seja capaz de ter consciência. Nossa mortalidade é nossa fraqueza mais importante e derradeira. E essa fraqueza, segundo C. G. Jung, foi o elemento que colocou Jó em vantagem diante de IAHWEH.

Esta palavra é muito significativa em alguns graus da Escola Filosófica da Maçonaria (REAA). IAHWEH é o nome da Divindade expressa no Antigo Testamento do Livro Sagrado. Para o alquimista IAHWEH redime e purifica pelo fogo sagrado, daqueles que passaram pela calcinatio:

“Não temas, porque eu te resgatei, eu te chamei pelo teu nome, és meu. Quando passares pelo mar, estarei contigo; quando passares pelos rios eles não te submergirão. Quando passares pelo fogo, a chama não te atingirá e não te queimarás. Pois eu sou IAHWEH, teu Deus, o Santo de Israel, teu Salvador.”

O Juízo final pelo fogo corresponde à provação pelo que testa a pureza dos metais e lhes retira todas as impurezas. Há inúmeras passagens do Antigo Testamento que usam metáforas para descrever os testes que IAHWEH submete seu povo eleito. Por exemplo, IAHWEH diz:

“Voltarei minha mão contra ti, purificarei as tuas escórias no cadinho, removerei todas as impurezas.” (Isa., 1:24,25)

“E eis que te pus na fogueira como a prata, testando-te no cadinho da aflição. Por causa de mim mesmo e só por mim mesmo, agi – deveria meu nome ser profanado? Jamais darei minha glória a outro.” (Isa.,48;10,11)

“Eu os levarei ao fogo, e os purificarei como se purifica a prata, e os testarei como se testa o ouro. Eles invocarão meu nome e eu escutarei, respondendo: Eis o meu povo; e todos dirão IAHWEH é meu Deus.” (Zacarias 13:9)

O fogo purifica e santifica a matéria bruta e corrompida, os maçons e alquimistas sabem disso, no entanto, o fogo da Senda Sinistra mata e regride a evolução que o ser procura na sua existência. Este fogo nada mais é do que a luxúria, a inveja e ira. Nesta categoria temos a ira que moveu Nabucodonosor, ao destruir o Templo de Salomão. Ele personifica o motivo do poder, a autoridade arbitrária do ego inflamado, que passa pela calcinatio quando suas pretensões irresistíveis são frustradas pela presença da autoridade transpessoal. Nabucodonosor corresponde ao rei alquímico, que serve de alimento ao lobo e depois é calcinado.

Conclusão

A Maçonaria e os maçons com as suas alegorias de construção, como ferramentas: trolha, esquadro, compasso, régua, maço, cinzel; materiais como tríplice argamassa, de forma alguma querem dar a entender que queiram construir algum prédio material – quando assim o querem contratam uma firma especializada – mas sim a construção de um Templo Espiritual à Divindade Maior, o Grande Arquiteto do Universo. É a procura do auto-conhecimento para purificar o ente de cada obreiro, e a partir daí construir a morada do Espírito Santo como falam os cristãos. Essa construção maçônica percorre vários patamares (Escada de Jacó) e à medida que o maçom vai galgando os seus degraus (os graus maçônicos) ele tem um compromisso com a Lei do Karma de estar mais santificado que no patamar anterior. Da mesma forma, o alquimista no seu trabalho de manipulação das substâncias não quer dizer que ele queira conseguir ouro material. Alquimia é a ciência pela qual as coisas podem não ser decompostas e recompostas (como se faz em química), mas também sua natureza essencial pode ser transformada e elevada ao mais alto grau ou ser transmutada em outra.

A química trata apenas da matéria morta, enquanto a Alquimia emprega a vida como fator. Todas as coisas têm natureza tríplice, da qual sua forma material e objetiva é sua manifestação inferior. Assim é que, por exemplo, há ouro espiritual, imaterial; ouro astral etéreo, fluído e invisível, e ouro terrestre, sólido, material e visível. Os dois primeiros são, digamos assim, o espírito e a alma do último e, empregando os poderes espirituais da alma, podemos produzir mudanças nele, a fim de que se, tornem visíveis no estado objetivo.

Certas manifestações exteriores podem ajudar aos poderes da alma em sua operação. Porém, sem os segundos, as manipulações serão totalmente inúteis. Portanto, os procedimentos alquímicos podem ser utilizados com êxito unicamente por aquele que é o alquimista nato ou por educação. Sendo todas as coisas de natureza tríplice, a Alquimia também apresenta um aspecto triplo. No aspecto superior, ensina a regeneração do homem espiritual, a purificação da mente e da vontade, o enobrecimento de todas as faculdades anímicas. No aspecto mais inferior trata das substâncias físicas e, abandonando o reino da alma viva e desvenda matéria morta. Termina na química de nossos dias. A Alquimia é um exercício do poder mágico da livre vontade espiritual do homem e, por esta razão, pode ser praticada apenas por aqueles que renascem espiritualmente.

Por último, passarei a palavra final aos alquimistas, ao citar, in toto, seu texto mais sagrado. A Tábua da Esmeralda de Hermes. Via-se esse texto “como uma espécie de revelação sobrenatural aos filhos de Hermes, feita pelo patrono e sua Divina Arte”. De acordo com a lenda, a Tábua da Esmeralda foi encontrada, no túmulo de Hermes Trismegistus, por Alexandre o Grande, ou, em outra versão, por Sara, a esposa de Abraão. A princípio, só se conhecia o texto em latim, mas, em 1923, Holmyard descobriu uma versão árabe. É provável que um texto anterior tenha sido escrito em grego e, segundo Jung tinha origem alexandrina. Os alquimistas o tratavam com veneração ímpar, gravando suas afirmativas nas paredes do laboratório e citando-o constantemente em seus trabalhos. Trata-se do epítome críptico da opus alquímica, uma receita para segunda criação do mundo, o unus mundus.

  • Verdadeiro, sem enganos, certo e digníssimo de crédito.
  • Aquilo que está embaixo é igual àquilo que está em cima, e àquilo que está em cima é igual àquilo que está em baixo, para realizar os milagres de uma só coisa.
  • E, assim como todas as coisas se originam de uma só, pela mediação dessa coisa, assim também todas as coisas vieram dessa coisa, por meio da adaptação.
  • Seu pai é o sol; sua mãe, a lua; o vento a carregou em seu ventre; sua ama é a terra.
  • Eis o pai de tudo, a complementação de todo o mundo.
  • Sua força é completa se for voltada para dentro (ou na direção) da terra.
  • Separa a terra do fogo, o sutil do denso, com delicadeza e com grande ingenuidade.
  • Ela ascendeu da terra para o céu, e desce outra vez para a terra, e recebe o poder do que está em cima e do que está embaixo. E, assim, terás a glória de todo o mundo. Desse modo, toda a treva fugirá de ti.
  • Eis o forte poder da força absoluta; porque ela vence toda coisa sutil e penetra todo sólido.
  • E assim o mundo foi criado.
  • Daqui as prodigiosas adaptações, à feição das quais ela é.
  • E assim sou chamado HERMES TRISMEGISTUS, tendo as três partes da filosofia de todo o mundo.
  • Aquilo que eu disse acerca da operação do sol está terminado.

Autor: Lucas Francisco Galdeano

Fonte: Pietre-Stones – Review of Freemasonry

Galdeano tem Pós-graduação Lato Sensu em História da Maçonaria pela Universidade Cruzeiro do Sul / UDF. Foi Grande Secretário Adjunto de Educação e Cultura do Grande Oriente do Brasil (1993-2001) e é Grão-Mestre Distrital Adjunto do Grande Oriente do Distrito Federal – GODF/GOB.

Referências Bibliográficas

1) Blavatsky, Helena P. Glossário Teosófico. São Paulo: Global Editora e Distribuidora
2) Edinger, Edward F. Anatomia da Psique: O Simbolismo Alquímico da Psicoterapia
3) Figueiredo, Joaquim Gervásio de Dicionário de Maçonaria. São paulo: Pensamento/1987
4) Rituais do Grande Oriente do Brasil e do Supremo Conselho do Brasil para o Rito Escocês Antigo e Aceito (R.·.E.·.A.·.A.·.).

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A influência da Bíblia na Maçonaria

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“Vejam como é bom, como é agradável os irmãos viverem unidos….”(Sl 133).

Os trabalhos da Maçonaria Moderna[1] ocidental referenciada nos Ritos mais praticados têm início com uma exortação, invocando o auxílio do Grande Arquiteto do Universo, o Deus que criou tudo o que existe, estando a Bíblia presente durante as reuniões, com foco na fraternidade, evocando espiritualidade e harmonia, assim como na valorização dos esforços e como fonte de ensinamentos de regras de conduta.

A Constituição da GLMMG, em seu artigo 22, dispõe: § 3º A Grande Loja adota, em sua ação filosófica, ritualística e social, os Landmarks de Machey e a Constituição de Anderson. O 21º Landmark exige “que um Livro da Lei seja parte indispensável dos utensílios de uma Loja”. Os 25 Landmarks compilados pelo médico e historiador maçônico americano Albert Gallatin Machey em 1858 são adotados pelas Potências[2] Maçônicas latino-americanas e por algumas Grandes Lojas da América do Norte.

O número de Landmarks pode variar de acordo com o Rito e o País. São conhecidos ainda Landmarks de Findel, de Lecerff, de Pound, de Grant e outros. A Grande Loja Unida da Inglaterra reduziu a oito o número de Landmarks, constando do sexto a exigência da presença do “Livro da Lei Sagrada” durante os trabalhos.

Em maçonaria Landmark corresponde ao termo apropriado pela primeira vez na “Constituição de Anderson”, no ano de 1723, com o sentido de marcos, limites ou regras de conduta. Se uma só dessas regras não for observada, a Potência rebelde é declarada “Irregular”.

James Anderson, escocês e pastor da Igreja Presbiteriana em Londres, escreveu a Constituição que leva seu nome ou Constituição dos Maçons Livres, que foi reformada e republicada em 1738. Muitos autores atribuem a Anderson a criação da maçonaria simbólica, em função desse trabalho, mas há controvérsias. Segundo crítica de Castellani, “o imaginoso Anderson” tomou a Bíblia como modelo, considerando maçons todos os que nela apareciam, contribuindo para criação de patranhas e desencontros que ainda repercutem.

Tema recorrente na maçonaria, a Bíblia ou Livro da Lei[3] ou ainda Volume da Lei Sagrada (VLS) ou Livro das Sagradas Escrituras, representa a fé pessoal e alude a um código de moral e ética sobre o qual se presta um compromisso solene, não ensejando um ritual religioso. De seus membros a maçonaria exige a crença em Deus, na condição de que cada um livremente encontre conforto espiritual na sua crença. Já a questão envolvendo religiões é objeto de estudos históricos, filosóficos e de reflexão.

A revolucionária invenção de Gutenberg possibilitou que a Bíblia fosse o primeiro dos livros inteiros publicados pela técnica da imprensa, processo esse que se iniciou cerca de 1450 e foi concluído em 1455[4]. A tradução para o alemão em 1522 (Novo Testamento) e a edição completa em 1534, baseada em trabalho coordenado pelo ex-frade agostiniano Martinho Lutero[5] (excomungado pelo Papa Leão X, em 1521), tornou-se um forte instrumento posteriormente usado pelos reformadores (João Calvino, na França, e Ulrico Zuínglio, na Suiça), permitindo a massificação das traduções sem a necessidade de aprovação eclesiástica

Em 1534, no Ato de Supremacia em que Henrique VIII consolidou a Reforma Anglicana, com o rompimento entre a Inglaterra e o Papa Clemente VII, autoproclamando-se o chefe da Igreja de seu país, dentre outras medidas, pregou-se a popularização da leitura da Bíblia[6].

A primeira versão bíblica autorizada na Inglaterra, traduzida do original hebraico e grego para o inglês, a pedido do rei James I da Inglaterra, foi publicada em 1611, conhecida como a Bíblia do Rei James. Até então era utilizada a versão em inglês da Bíblia de Genebra de 1560.

A introdução da Bíblia nas reuniões maçônicas foi sugerida por George Payne, em 1740, como bajulação à Igreja Anglicana, e não a Católica, pois naquela época era a primeira que predominava na Inglaterra, conforme ensina Castellani. Embora citada em vários documentos, não se tem notícias da Bíblia permanecendo sobre o Altar dos Juramentos durante as sessões de trabalho. Há autores que registram seu uso em 1670. Nos rituais de cerca de 1760 é referenciada como uma das três grandes luzes, com lugar de honra nas Lojas.

Os “Antigos Deveres” ou “Old Charges”[7] não permitem comprovar que a Bíblia fosse empregada nas lojas operativas inglesas antes da Reforma. O banimento dos judeus de toda a Grã-Bretanha – e com eles, todos os seus costumes, suas leis, suas tradições – pelo Édito do rei Eduardo I, em 1290, foi motivo para o sumiço do Velho Testamento. A anulação se deu por ato de Oliver Cromwell mais de 350 anos depois em 1656.

O que se sabe é que os novatos juravam ser fieis às confrarias estendendo a mão direita sobre o Livro dos Evangelhos, sendo o preferido o de São João, festejado por ocasião das colheitas. Consta que no manuscrito “Harleian”, de cerca de 1600, a Obrigação de um iniciado fecha com as palavras: “Me ajude Deus e o conteúdo deste livro sagrado”.

Segundo Assis Carvalho (1997), não se tem notícias do uso da Bíblia antes de 1600. Aduz que os Estatutos de Schaw, datados de 1598, não a mencionam, mas fazem referência a contos bíblicos e lendas contadas aos obreiros. O documento de William Schaw estabelecia os deveres de todos os Mestres Maçons dentro do reino da Escócia, de onde se especula tenha a moderna maçonaria sido criada, de acordo com argumentação defendida por David Stevenson, no livro “As Origens da Maçonaria – O Século da Escócia – 1590-1710”.

O juramento sobre a Bíblia é uma tradição da herança cristã inglesa e não tem valor a não ser que ele tenha um significado sagrado, sendo visto por muitos como resultado da forte influência eclesiástica no ocidente, ratificando o poder da religião nos usos e costumes. É praxe nos tribunais ou nas solenidades de posse de presidentes americanos. George Washington ao ser empossado como primeiro Presidente da República, em 30 de abril de 1789, prestou seu juramento sobre uma Bíblia pertencente à Loja St John, n° 1, filiada à Grande Loja de Nova York.

O Livro da Lei ou o Livro Sagrado utilizado em determinadas sessões é aquele representativo da orientação religiosa do obreiro, podendo optar-se, nos casos de juramentos iniciáticos, quando o candidato faz a promessa de sua Obrigação, pelo uso do Alcorão ou da Torá, quando se tratar de muçulmanos ou judeus, respectivamente, dentre outros livros básicos de natureza religiosa. Não oferecer esta alternativa seria negar a universalidade da Maçonaria.

Existem ainda ritos ditos racionalistas ou adogmáticos que dispensam esse procedimento, sob o argumento de que as concepções metafísicas dos maçons são consideradas de foro íntimo e ainda como sinal de respeito à liberdade de consciência e sem imposição de padrão religioso, com os compromissos de honra sendo assumidos sobre a Constituição de Anderson ou sobre a Constituição das Potências às quais pertença a Loja, como é o caso do Rito Moderno ou Francês.

No Rito Moderno “não se pergunta aos candidatos qual a religião que professam por ser, isso, da consciência individual de cada um, e não caber, a quem quer que seja, o direito de devassá-la” (Castellani, 1987). Citando Oswald Wirth, Boucher (2015) afirma: “Os anglo-saxões, ao exigir a Bíblia, e somente a Bíblia, negam a universalidade da Maçonaria e, se encararmos o problema desse ponto de vista, a “irregularidade” está do lado deles, e não do nosso”.

Os ritos representam um conjunto de regras e preceitos com os quais se desenvolvem os trabalhos, e entre os mais praticados se sobressaem os de orientação latina e os anglo-saxões. O Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA)[8], de inspiração católica e teísta, é o mais praticado e tem sua origem na França, em 1756, sendo posteriormente alterado nos Estados Unidos, em 1801, com o aumento de seus graus de 25 para 33[9], por norte-americanos de origem judaica. Em 1855, o advogado, militar, escritor e maçom norte-americano Albert Pike iniciou revisão do REAA, que culminou com a publicação em 1872 da obra “Moral e Dogma”, considerada um clássico da maçonaria moderna.

Os três primeiros graus, de Aprendiz, Companheiro e Mestre, chamados Simbólicos, são comuns em todos os ritos, com pequenas diferenças. Foram reorganizados entre os anos de 1700 e 1725[10]. Novos elementos, sob a forma de alegorias e lendas foram inseridos entre 1730 e 1745. Os superiores ao 3º compõem os chamados Altos Graus, conhecidos genericamente como Graus Filosóficos.

Em todos esses graus os trabalhos são realizados com a Bíblia Sagrada aberta e lida em passagens diferenciadas, variando do Genesis ao Apocalipse, não como um culto religioso, “mas como ensinamentos práticos e uma das formas de se estabelecer sempre uma boa fraternidade e uma maior solidariedade.” (Vasconcellos, 1999). Há ritos que regulamentam apenas sua presença sem o procedimento de abertura e/ou leitura[11].

O local das atividades maçônicas comumente denominado Oficina, Loja ou Templo tem como modelo o Parlamento britânico e as Catedrais, de onde foram copiadas a orientação e a divisão. As lendas que ilustram a maçonaria não têm nenhum compromisso com verdades históricas, mas compõem as bases de seus ensinos. Já os símbolos da arte de construir representam ideias e mensagens que são restritos aos iniciados e funcionam como veículos para que cada um descubra suas próprias verdades por meio de pesquisas e estudos.

A influência da Bíblia se reflete em várias situações e tem inspiração por analogia simbólica no Tabernáculo Hebreu e no Templo de Jerusalém, mesmo que indiretamente, conforme assinala José Castellani. E essa associação de imagens tem reflexos das raízes operativas da maçonaria agrupadas na visão dos construtores de catedrais da Idade Média, cuja corporação era uma das mais organizadas e fechadas da época.

É grande o número de nomes e símbolos tomados da Bíblia pela maçonaria, que adaptadas e aplicadas em alguns graus e à cultura maçônica, têm como objetivo transmitir didaticamente uma lição simbólica ou moral, como já assinalado. Importa ressaltar que a maçonaria não é de origem judaica e não faz nenhum vínculo de continuidade com a construção liderada pelo Rei Salomão, a ponto de dizer que àquela época haveria uma instituição maçônica. Alegoricamente, sob o simbolismo da arquitetura, a obra que se deve edificar é o Templo Interior, no sentido esotérico representado pela moral, caráter e personalidade, com inspiração na narrativa bíblica contida em 1Cor 3,16[12].

Como suporte lendário, na concepção da Loja é marcante a figura emblemática do arquiteto que dirigiu as obras da construção do Templo de Jerusalém, o Mestre Hiram de Tiro (1Rs 7,13 – 2Cr 2,13), que personifica a Virtude. Destacam-se, inicialmente, as duas colunas ornamentais situadas à entrada, citadas em 1Rs 7,21 e em 2Cr 3,17[13], significando força e beleza. Nesse contexto, aceito que o templo maçônico pode ainda simular a terra, essas colunas representam os solstícios de inverno, presidido por João Batista, e o de verão, por João Evangelista, ambos os patronos da Maçonaria.

Da mesma fonte, quase todos os ornamentos e nomenclatura foram copiados, como o altar para os juramentos (Altar dos Sacrifícios), a mesa para queimar incensos (Altar dos Perfumes), a pia para as abluções (Mar de Bronze), o candelabro de sete braços (Menorá), a Estrela de Davi (Selo de Salomão), dentre outros suportes relativos à tradição judaico-cristã ou acontecimentos históricos e míticos.

Apropriou-se também do valor significativo da Acácia[14], árvore mencionada em Ex 35,24 e sagrada entre os hebreus, cuja madeira foi utilizada na construção do Tabernáculo, pela sua resistência e reputação de incorruptível, devido às suas resinas. Da mesma forma foi também incorporado o simbolismo do trigo, cereal nobre, que na Bíblia representa o alimento espiritual, o pão da vida, a comunhão entre irmãos, etc.

Do 28º Capitulo do Livro do Gênesis, foi introduzida a alegoria da visão da Escada de Jacob, fazendo alusão ao ciclo evolutivo da vida, representado pelo progresso moral e intelectual, vez que a maçonaria vislumbra na escada um símbolo de progresso que cada maçom deverá galgar para atingir um estado de consciência plena, com Fé (determinação), alimentado pela Esperança e no exercício da Caridade para com seus semelhantes. O número de degraus é indeterminado conforme as virtudes necessárias ao aperfeiçoamento do maçom.

Os ritos maçônicos seguem um calendário onde se adiciona o número simbólico 4.000 à era vulgar, baseado na história bíblica da criação do mundo. A maçonaria moderna buscou ainda na Bíblia os mistérios relativos às “Palavras de Passe“ e às “Palavras Sagradas”, além de acontecimentos históricos e nomes sagrados emprestados aos Graus Filosóficos, de forma que o maçom possa inspirar-se, juntamente com cada objeto, utensílio e adorno, transferindo a filosofia desses elementos para o terreno espiritual, a fim de erigir dentro de si mesmo um Templo da Virtude, um local de comunhão íntima dedicado ao culto ao Criador.

Enfim, como observa Jules Boucher: “Os Maçons não tentam reconstruir materialmente o Templo de Jerusalém; é um símbolo, nada mais – é o ideal jamais terminado, onde cada Maçom é uma Pedra, preparada sem machado nem martelo no silêncio da meditação”.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Notas

[1] – Conhecida também como Maçonaria Especulativa, organizada a partir de 1717, teve como precursora a Maçonaria Operativa à qual pertenceram os profissionais ligados à arte de construir na Idade Média.

[2] – Chama-se Obediência, ou Potência Maçônica, uma aliança de Lojas subordinadas à mesma orientação superior. São Obediências: as Grandes Lojas e os Grandes Orientes (Castellani, 1987).

[3] – Simbolismo apropriado de 2Rs 22,8.

[4] – Até então, a Bíblia era um livro raro e manuscrita, contando com o trabalho dos monges copistas, de difícil acesso e com o predomínio do Latim, sendo um privilégio do alto clero. Há fontes que afirmam que aos católicos comuns era proibida a sua leitura, porque eles não dispunham de capacidade para entendê-la.

[5] – O privilégio atribuído a Lutero de ter traduzido, pela primeira vez, a Bíblia para uma língua moderna, é contestado por vários autores.

[6] – O estudo sobre a Bíblia pelos protestantes vem de longa data, ao passo que entre os católicos tal prática somente se manifestou a partir dos anos de 1960, em decorrência do Concílio Vaticano II.

[7] – O “Poema Regius” ou “Manuscrito Halliwell”, provavelmente de 1390, e o “Manuscrito de Cook”, estimado de 1450, são silenciosos a respeito.

[8] – Embora nascido na França, o título “Escocês” é vinculado aos Stuarts ingleses, destituídos do trono da Inglaterra e refugiados na França, em duas oportunidades, durante os anos de 1649 e 1688. Epíteto aplicado aos partidários da dinastia Stuart (jacobitas), originários da Escócia, com quem começou a surgir e de onde o rito adquiriu o título.

[9] – Segundo Castellani (1987), os irmãos Drake, que moravam em Charleston, por onde passa o paralelo 33, elevaram os graus para 33, em homenagem ao paralelo. Outras hipóteses sobre esse número abundam.

[10] – A Maçonaria só passou a ser iniciática a partir da criação do 3º Grau (1725). Até então não havia “Iniciação” e sim uma “Recepção de um novo membro ou sócio” que consistia de um compromisso prestado sobre o Livro de Registro da Confraria e, tempos mais tarde, sobre o Evangelho de São João (Carvalho, 1997). Outras fontes registram a criação deste grau em 1723 e efetiva implantação em 1738.

[11] – No Rito de York e no Ritual de Emulação é aberta para os trabalhos, mas não é lida. No Rito de Schroeder permanece fechada. No Rito Adoniramita é aberta e lida uma passagem.

[12] – “Vocês não sabem que são templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês?”

[13] – “À coluna da direita deu o nome de Firme, e à da esquerda o nome de Forte” (Edição Pastoral). Na tradução de João Ferreira de Almeida, Sociedade Bíblica do Brasil (1994), consta: “… e chamou o nome da que estava à direita de Jaquim, e o nome da que estava à esquerda Boaz”.

[14] – De algumas espécies extrai-se a goma arábica. Para a maçonaria, cujo significado de um simples ramo faz a diferença, é símbolo da imortalidade, da vida eterna e da pureza.

Bibliografia

A BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral: São Paulo: Paulus, 1990;

______________. Tradução de João Ferreira de Almeida, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004;

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BOUCHER, Jules. A Simbólica Maçônica. São Paulo: Pensamento, 2015;

CARVALHO, Assis. A Descristianização da Maçonaria. Londrina: Ed. “A Trolha”, 1997;

CASTELLANI, José. A Maçonaria e sua Herança Hebraica. Maringá: Ed. “A Trolha”, 1993;

CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática. Londrina: Ed. “A Trolha”, 1996;

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SALOMÃO, Lutfala. Igreja Católica e Maçonaria: as causas do conflito. Londrina, Ed. “A Trolha”, 1998;

VASCONCELLOS, Jairo Boy. A Fantástica História da Maçonaria. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1999.

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Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte VI

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O Movimento Militar de 1964

Diante dos protestos emanados de diversos setores da sociedade brasileira, encontrou-se, depois de dez dias de incertezas, uma solução política para a crise: o Congresso resolvia convocar o vice-presidente, mas tirava-lhe os poderes, aprovando, sob a forma de Ato Adicional à Constituição, a instituição do sistema parlamentarista. A 7 de setembro de 1961, Goulart assumia o cargo, indicando para a presidência do Conselho de Ministros o político mineiro Tancredo Neves, do PSD.

No Grande Oriente do Brasil, nesse ano de 1963, ocorriam novas eleições para os cargos de Grandes Dignidades, sendo eleito Grão-Mestre Álvaro Palmeira, empossado a 24 de junho. Enquanto o Grande Oriente entrava em fase de relativa calmaria, o ambiente político do País prosseguia em crescente agitação, pois Goulart, fortalecido pelo plebiscito de 1963, propunha, ao Congresso, várias reformas de base (agrária, fiscal, política e universitária), que, embora reconhecidas como necessárias pela maioria oposicionista no Congresso, suscitavam discordâncias pela maneira como seriam feitas, principalmente a reforma agrária.

Na madrugada de 31 de março, irrompia o movimento político-militar, que iria depor Goulart, ocasionando sua fuga para o exterior. Em seguida, era emitido um ato institucional, que suspendia as garantias constitucionais e iniciava um expurgo na vida pública do País.

A 15 de abril, eleito pelo Congresso, assumia a Presidência da República o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Nesses agitados dias, embora houvesse uma divisão de opiniões na Maçonaria brasileira, a maioria dos maçons apoiou, inicialmente, o movimento, diante da situação caótica para a qual caminhava o País. Em nenhum momento, no período do regime militar, o Grande Oriente do Brasil, como instituição, foi molestado, embora a repressão que se seguiu à queda de Goulart tenha atingido a intimidade dos templos maçônicos, não diretamente pelo governo, mas por meio da corrente que apoiara o movimento e que iniciava, no seio da instituição, uma verdadeira caça às bruxas, a qual iria ser incrementada a partir de 1968, quando foi fechado o Congresso Nacional e editado o Ato Institucional Nº 5 AI-5. Era a “revolução na revolução”.

A Cisão de 1972-1973

Em 1973 aconteceu a última cisão, também por questões eleitorais, em 27 de maio, quando vários Grão-Mestres estaduais abandonaram o GOB. Tal movimento, sob a liderança do Grão-Mestre de São Paulo Ir. Danilo, eliminado anteriormente do GOB, assinaram uma proclamação onde se declaravam autônomos, surgindo ali o Colégio de Grão-Mestres, que resultou atualmente na COMAB Confederação da Maçonaria Brasileira.

Sérias dissensões no Grande Oriente do Brasil iriam ser uma das causas remotas da crise institucional que a Obediência enfrentaria, a partir de 1970, resultando na cisão de 1973, produto do acirramento ideológico. No governo federal, sucedendo ao presidente Castelo Branco, assumia o governo, a 15 de março de 1967, o marechal Arthur da Costa e Silva. No dia da posse de Costa e Silva, entrava em vigor a nova Constituição brasileira, que fora promulgada pelo Congresso Nacional a 24 de janeiro.

Durante todo esse período o GOB não se notabilizou por alguma ação de vulto, mantendo um perfil baixo, dentro daquele padrão de declínio desde a grande cisão de 1927. No âmbito governamental, nova crise iria acontecer com a doença do presidente Costa e Silva e seu consequente afastamento do governo. Constitucionalmente, deveria assumir o vice-presidente Pedro Aleixo, o qual, todavia, por ter se pronunciado contra o AI-5, foi impedido de tomar posse, a 31 de agosto de 1969, pela junta militar que assumiria, provisoriamente, o poder. Logo depois, a junta declararia extinto o mandato de Pedro Aleixo e providenciaria uma nova eleição indireta pelo Congresso Nacional.

Seria, então, eleito, a 25 de outubro, o general Emílio Garrastazu Médici, que tomaria posse a 30 de outubro, implantando profunda censura a todos os órgãos da mídia nacional. No Grande Oriente do Brasil, por essa época, já circulava, pelas Lojas e Corpos Maçônicos, uma publicação, denominada Prancha Informativa, que, sob a responsabilidade do Ir. Felix Cotaet, deputado à Soberana Assembleia Federal Legislativa – com o apoio e a assessoria de outros deputados da bancada paulista –, trazia notícias daquele corpo legislativo do Grande Oriente do Brasil. Apesar de constar como de “Circulação restrita aos maçons do Grande Oriente do Brasil”, a publicação, como o próprio autor divulgou, era enviada a autoridades civis e militares e não poucas vezes continhas criticam contundentes ao então Grão-Mestre do GOB, Ir. Moacyr Arbex Dinamarco, a quem fazia, notoriamente, oposição. Aproveitando o clima da época e sob a alegação de que, como oficial da reserva do Exército, cabia-lhe uma parcela da defesa da democracia, o autor inseria, em sua Prancha Informativa, mal velada insinuações de “infiltração comunista no Grande Oriente do Brasil”, a qual aconteceria, segundo ele, sob as vistas grossas do Grão-Mestre.

Quando empossado no Grão-Mestrado do Grande Oriente de S. Paulo, a 17 de junho de 1969, o Ir. Danilo José Fernandes, havendo derrotado o candidato oposicionista, apoiado por Cotaet, Nery Guimarães e outros, passou a sofrer, na Prancha Informativa, o mesmo tipo de críticas que Dinamarco. Diante das críticas, Danilo, depois de grandes altercações com Cotaet, proibia a circulação da Prancha Informativa, a 25 de fevereiro de 1970. A 13 de agosto, seis meses após a edição da circular – que não havia suscitado reação quando publicada –, Cotaet apresentava denúncia à Secretaria de Segurança Pública, contra o Grande Oriente do Brasil e o Grande Oriente de S. Paulo, tentando envolver o Grão-Mestre Geral, Moacyr Arbex Dinamarco, e comprometer o Grão-Mestre de S. Paulo com as autoridades da área da Segurança Nacional. Foi, então, instaurado um inquérito policial-militar, o qual teria um desfecho, em outubro de 1971, quando o Juiz Auditor determinou o arquivamento dos autos, considerando infundada a denúncia.

Apesar do tumulto no Poder Central, o Grão-Mestre continuava tentando manter a normalidade administrativa e social e comemorar os festejos do sesquicentenário do Grande Oriente do Brasil, os quais seriam realizados em junho de 1972.

O ano de 1971 começava, para o GOB, com a grande agitação provocada pelas pressões, sobre o Grão-Mestre Dinamarco, dos integrantes do grupo já referido, em torno de uma suposta “infiltração comunista” na Obediência, a partir de S. Paulo e de seu Grão-Mestrado estadual. Pouco tempo depois Felix Cotaet era suspenso de todos os seus direitos maçônicos no Grande Oriente de São Paulo. Um novo conflito surgiria quando da escolha do candidato à sucessão de Dinamarco, que soou, para alguns como um jogo de cartas marcadas, pois, como o Grão-mestre podia deter a maioria de votos da Soberana Congregação, já que muitos de seus componentes eram nomeados pelo próprio Executivo, venceria aquele que, por este, fosse indicado. Pelos cálculos desses, que se opunham à política do Poder Central e a um eventual continuísmo, só poderiam ser contrários ao candidato indicado pelo Grão-Mestrado, alguns dos 15 Grão-Mestres estaduais e o antecessor de Dinamarco, Álvaro Palmeira. Surgiam, então, como eventuais candidatos de oposição, os Grão-Mestres estaduais Athos Vieira de Andrade (Minas Gerais), Enoch Vieira dos Santos (Paraná), Frederico Renato Mótola (Rio Grande do Sul), Miguel Christakis (Santa Catarina) e Danilo José Fernandes (São Paulo).

No início de 1972, a posição do Grão-Mestre de S. Paulo era de frontal oposição ao Grão-Mestre Geral. Enquanto isso, a 19 de abril de 1972, acontecia, em São Paulo, uma reunião, da qual resultaria a “Proclamação de São Paulo”, com o lançamento das candidaturas de Athos Vieira de Andrade (Minas) e Raphael Rocha (Rio de Janeiro), para os cargos de Grão-Mestre e Adjunto, respectivamente, nas eleições que seriam realizadas em 1973.

A 9 de maio, processado e julgado pelo Tribunal de Justiça Maçônico, Danilo tinha suspensos seus direitos maçônicos, sob a alegação de que a dívida de São Paulo para com o Poder Central não fora paga. Iniciou-se uma querela jurídica entre o Grão-Mestre do GOB e o Grão-Mestre de São Paulo sobre despesas não pagas.

Diante do impasse, a situação agravou-se. Danilo enviou petição ao Tribunal de Justiça Maçônica, propondo a formação de uma Comissão de Verificação, destinada a proceder ao levantamento e acerto das contas; declarou, também, que aceitaria como definitivo o relatório dessa Comissão. O Tribunal decidiu não tomar conhecimento da petição, por entender que Danilo estava com seus direitos suspensos e não poderia solicitar em nome próprio nem requerer como Grão-Mestre de S. Paulo. Diante disso, Danilo ingressava em Juízo, em uma das Varas Cíveis do Rio de Janeiro, ou seja, na Justiça profana.

Deveria assumir o grão-mestrado estadual o adjunto que não conseguiu o seu intento. A oposição lança então as candidaturas Athos Vieira de Minas Gerais e Raphael Rocha do Rio de Janeiro e era assinado pelos seguintes grão-mestres estaduais: Danylo José Fernandes, Grão-Mestre do Grande Oriente de São Paulo; Enoch Vieira dos Santos, Grão-Mestre do Grande Oriente do Paraná; Miguel Christakis, Grão-Mestre do Grande Oriente de Santa Catarina; Frederico Renato Móttola, Grão-Mestre do Grande Oriente do Rio Grande do Sul; Gumercindo Inácio Ferreira, Grão-Mestre do Grande Oriente de Goiás; Manuel Paes de Lima, Grão-Mestre do Grande Oriente de Pernambuco. Posteriormente, essa proclamação recebeu o apoio de Salatiel de Vasconcellos Silva, Grão-Mestre do Grande Oriente do Rio Grande do Norte; Celso Fonseca, Grão-Mestre do Grande Oriente de Brasília; e Cyro Werneck de Souza e Silva, ex-Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil.

O Grão-Mestre Geral, então, nomeia a 26 de maio de 1972, o general reformado Luiz Braga Mury, como interventor no Grande Oriente de São Paulo. Danilo obtinha liminar ao mandado de segurança impetrado junto ao Tribunal de Justiça do Estado de S. Paulo e era reintegrado no cargo, retomando a posse do prédio.

Um longo conflito iria perdurar em São Paulo, ao mesmo tempo, lançam-se como candidatos oficiais ao Grão-Mestrado: Osmane Vieira de Resende (que era Adjunto), para Grão-Mestre, e Osiris Teixeira, de Goiás, senador da República e obscuro maçom, para Adjunto.

Realizadas as eleições, o resultado oficial mostrava a vitória de Osmane, com 2129 votos, ante 1107 dados a Athos, enquanto Osiris Teixeira também vencia, com 2046 votos, diante de 1180 de Raphael Rocha. Segundo a oposição, entretanto, o resultado “extraoficial” consignava 7175 votos para Athos, contra 3820 para Osmane; e 7195 para Raphael, contra 3794 para Osiris. Ocorre que, no Tribunal, mais de 6 mil votos de Athos foram anulados, enquanto Osmane perdeu menos de 2 mil, tendo, isso, acontecido sob a alegação de débitos com o Poder Central e preenchimento irregular das atas das eleições. Todo o processo ocorreu num ambiente bastante agitado, já que os representantes da chapa oposicionista, na apuração alegavam fraudes na anulação de atas eleitorais, com parcialidade do tribunal, em favor dos candidatos oficiais.

A partir daí estava deflagrada nova cisão no GOB com a perda de inúmeros Irmãos de escol de diversos estados brasileiros tais como: São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Ceará, Paraná, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e Estado do Rio de Janeiro. O Estado de Goiás que permaneceu coeso em torno do GOB iria jogar um papel importante no desenrolar dos acontecimentos, além do mais a Capital da República tinha se mudado do Rio de Janeiro para Brasília. O fato lamentável, contudo, era que se tornou ainda mais fraca a Maçonaria brasileira.

A 24 de junho de 1973, tomava posse, como Grão-Mestre do GOB Osmane Vieira de Resende que realizou uma gestão opaca. A 15 de março de 1974, o Brasil tinha novo presidente, com a posse do general Ernesto Geisel, também eleito pelo Congresso Nacional, a 15 de janeiro. Pouco depois, a 16 de maio, o presidente da República recebia, em audiência, o Grão-Mestre Geral e seu Adjunto, quando este, como senador do partido situacionista, leu um ofício em que o Grande Oriente reafirmava seu apoio ao governo que havia se instalado após o movimento de 1964.

Da Redemocratização ao Dias Atuais

Dos governos dos Presidentes Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo até a redemocratização as gestões do GOB foram opacas para não dizer lamentáveis, até a eleição de Jair Assis Ribeiro de Goiás. Digno de nota foi que o Senador Osíris Teixeira empossado no cargo, a 24 de junho de 1978, já a 13 de julho, providenciava a mudança da sede do Grande Oriente do Brasil para a capital federal, Brasília, que já tinha a estrutura suficiente para abrigar a Obediência.

Em março de 1983, era eleito, para o cargo de Grão-Mestre Jair Assis Ribeiro, que representou um marco de ressurreição da Maçonaria brasileira. Não só responsável pela construção do Palácio Maçônico de Brasília como também por ser um pacificador do GOB. A gestão de Jair Ribeiro iria assistir à redemocratização do Brasil com as primeiras eleições diretas para presidente da república desde 1964. Com a eleição do Presidente Tancredo Neves, que não tomaria posse, por vir a falecer poucos dias depois de eleito, assumiu a Presidência, o vice José Sarney.

Se Jair Assis Ribeiro representou um ponto de inflexão no declínio da Maçonaria brasileira e eleição de Murilo Pinto pode ser vista como a consolidação, a abertura para o exterior depois de décadas de isolamento de administrações provincianas desde Cyro Werneck – e um robusto programa de educação maçônica. A gestão de Laelson Rodrigues pode ser vista como de saneamento financeiro do GOB e de consolidação de abertura para o exterior. A de Marcos José da Silva, ainda é muito nova para algum tipo de comentário mais profundo.

Atualmente a Maçonaria do GOB atravessa uma fase de criação de Lojas de Pesquisa, Lojas universitárias e Academias Maçônicas, Ação Paramaçônica Juvenil, Fraternidade Feminina, etc.

Finis

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro do Círculo de Correspondentes da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

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A Verdade do Conjurado Cláudio Manuel da Costa – Parte II

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A Devassa montada em Minas em 12 de junho de 1789 era composta pelos Desembargadores Araújo Saldanha e José Caetano César Manitti, ouvidores de Vila Rica e de Sabará, respectivamente. Segundo Castellani (1992), Manitti era descrito como arbitrário e amoral (p.51). Ainda segundo o autor, “Ambos serviam, perfeitamente, aos desígnios de Barbacena, pois Saldanha era fraco e dominável, enquanto que Manitti era influenciado pela fortuna – embora comprometido pelas dívidas – dos grandes contratantes envolvidos no movimento e que mantinham negócios com o governador, como era o caso de [João Rodrigues] Macedo, principalmente”.

O Contratador “João Rodrigues Macedo foi tido como o grande financiador da Inconfidência, sendo um dos que, devido ao tráfico de influência e uma teia de corrupção, benesses e proteções, conseguiram escapar dos processos das devassas. Seu nome apareceu poucas vezes nas inquirições e isso graças à amizade com Manitti”. Nas reuniões subversivas ocorridas em sua casa[5], em dezembro de 1788, com a presença dos conjurados, foram entabuladas conversas sobre o lançamento da derrama (Rodrigues, 2010).

Quando ao envolvimento do Desembargador Manitti, Castellani (1992, p. 136) destaca um acontecimento bastante emblemático representado por uma visita que aquele magistrado teria feito ao também conjurado Francisco Antônio de Oliveira Lopes, na prisão, antes do seu interrogatório oficial, propondo-lhe um “tratamento especial e mais brando, se ele não mencionasse, em seu depoimento, o envolvimento de Macedo [João Rodrigues] e Inácio Pamplona na conjura”. Acrescenta Castellani, “como se sabe, Macedo jamais foi incomodado durante o processo”.

Outra “Cortina de Fumaça” produzida por Barbacena foi o impedimento dos magistrados enviados pelo vice-rei que, ao chegarem a Vila, não tiveram acesso ao processo da devassa mineira e não puderam agir. Somente em 23 de julho é que “Barbacena concordou, embora contra a vontade, em suspender a devassa de Minas, ao mesmo tempo em que comprometia a fornecer, aos magistrados do Rio de Janeiro, uma cópia do relatório original – que jamais foi fornecido – e concordava com o novo depoimento das testemunhas já ouvidas. E, embora Torres e Pereira Cleto houvessem começado a interrogar, pessoalmente, réus e testemunhas, o processo já estava irremediavelmente viciado e as cartas embaralhadas.” (Castellani, 1992, p. 136/137).

Na obra do escritor Carlos Guilherme Mota (1986) é relatada uma passagem envolvendo articulações suspeitas do Visconde de Barbacena ainda na fase de produção do inquérito, quando foram blindados alguns figurões: “Em Vila Rica, o governador torceu e retorceu o inquérito, com a finalidade de fazer ‘desaparecer’ dos autos alguns magnatas que conseguiram comprar sua proteção. Por isso, antes da chegada dos magistrados enviados pelo vice-rei, o governador Barbacena e seus aliados trataram de apresentar uma devassa capaz de omitir nomes e simplificar as coisas. Foi nesse contexto, no qual não faltaram torturas e violências físicas, que morreu o velho poeta Cláudio Manuel da Costa”.

Considerando-se que Cláudio Manuel tinha destaque no cenário político, pois fora secretário de governo, Procurador da Coroa e da Ordem Terceira de São Francisco, Desembargador, além de advogado dos principais negociantes da capitania, já citado anteriormente, comprovadamente um jurista culto, renomado e chamado de “doutor”, seus detratores não se contentaram somente em desacreditá-lo e por isso procuraram atacar sua memória. Foi-lhe também maldosamente atribuída suspeita de covardia e traição aos amigos.

Na realidade, os depoimentos e informações contidos nos documentos produzidos pelas autoridades portuguesas de plantão tinham o único objetivo de concluir pela condenação dos envolvidos, não podendo ser descartada a possibilidade de estarem eivadas de vícios, omissões e tendenciosidades. E o interessante é que muitas análises abalizadas são feitas com base nesses relatos imprecisos, resultante da farsa judicial montada pelo Visconde de Barbacena.

Mesmo atualmente, muitos tentam minimizar a participação de Cláudio Manuel na conjuração, sob o argumento de que teria se aproximado de Tomaz Antônio Gonzaga e de Inácio José de Alvarenga Peixoto por interesses sociais e afinidades intelectuais, convidando-os frequentemente para os saraus e tertúlias que promovia. Porém, era indiscutível a sua influência intelectual, e os conhecimentos jurídicos que detinha dariam respaldo no sentido de construir a base legal para o novo modelo de governo então sonhado pelos conjurados.

A participação efetiva de Cláudio no movimento foi reconhecida pelos entendidos da Conjuração Mineira. Na documentação constante dos Anais da Biblioteca Nacional, o Juiz nomeado para a Devassa em 1789, José Pedro Machado Coelho Torres, afirmou que “O dr. Cláudio Manuel da Costa era o sujeito em casa de quem se tratou de algumas coisas respeitantes à sublevação, uma das quais foi a respeito da bandeira e algumas determinações do modo de se reger a República…”. Cláudio Manuel, juntamente com cônego Vieira e Tomaz Antônio Gonzaga, compunha o grupo dos ideólogos. Eram homens bem informados e estavam encarregados de elaborar as leis e a Constituição da república e de justificar ideologicamente o rompimento com Portugal.

De fato, foi ele quem concebeu a bandeira dos conjurados, para simbolizar a sonhada república, que mais tarde serviu de inspiração para a confecção da bandeira oficial de Minas Gerais. O lema “Libertas quae  sera  tamen”, entendido por “Liberdade ainda que tardia“, foi cunhado por Claudio e Alvarenga Peixoto, a partir de um texto em latim retirado da primeira Écloga de Virgílio, que faz parte do diálogo entre Meliboeus e Tityrus – “Libertas quae  sera  tamen  respexit  inertem“, que pode ser traduzido por “A Liberdade, que embora tardia, contudo, olhou favoravelmente para mim, inerte”.

Por seu turno, a sua alegada tentativa de minimizar a própria importância no movimento seria uma estratégia de defesa frente ao juiz da devassa, conhecedor que era das reduzidas chances de sucesso do movimento e sabedor das consequências da acusação de crime de lesa-majestade, isto é, de traição ao Reino de Portugal.  É sabido que todos negaram participação no movimento, exceto Tiradentes, que afinal assumiu toda a responsabilidade de chefia, demostrando um grandioso gesto de fraternidade.

É oportuno que se destaque a colocação de Florival Cáceres (1995), no livro “História do Brasil”, acerca da documentação que envolve a conjuração: “Um dos maiores problemas no estudo da Inconfidência Mineira é a falta de documentos. Com medo da repressão, os inconfidentes não deixaram documento escrito, nenhum plano militar ou de governo. As investigações históricas baseiam-se nos interrogatórios feitos pela justiça portuguesa e em depoimentos dos acusados. Os riscos quanto a sua interpretação são grandes”.

Prossegue o historiador: “Os acusados podem ter sido pressionados a falar o que as autoridades queriam ouvir; para se inocentar, muitos acusados imputaram a sua culpa a outros. Como se tratava de homens importantes, nomes e detalhes podem ter sido omitidos através de suborno ou atendendo aos interesses das autoridades, na ânsia de proteger alguém; corre-se o risco de tomar a versão das autoridades pelos acontecimentos em si. Esse é o grande risco. A metrópole estava interessada em esconder a verdade relacionada aos movimentos anticoloniais para não incentivar outras tentativas, e pode ter tentado manipular os fatos”.

Sobre o destino dos planos dos conjurados, relata Kenneth Maxwell (1977) que em 17 de maio de 1789, sabendo-se em Minas que o alferes Tiradentes estava sendo seguido, “Cláudio Manuel viu gente à sua porta, em Vila Rica, sendo abordado por um tipo misterioso que lhe contou que houvera prisões no Rio de Janeiro e recomendou-lhe a queima dos papéis incriminadores” (p. 179).

Quanto ao alerta recebido por Cláudio Manuel, o escritor A. Tenório D’Albuquerque, no livro “A Maçonaria e a Inconfidência Mineira”, comenta no capítulo “O Misterioso Embuçado” que esse é um episódio inexplicável e que consta dos Autos da Devassa. Questiona o citado autor: “Quem seria capaz de disfarçar-se, correndo grave risco, para ir avisar aos inconfidentes que se precatassem?”. O que se sabe pelos documentos é que o Visconde quando se inteirou do aparecimento do tal personagem determinou novas inquirições, mas nada conseguiu esclarecer.

Alguns críticos comentam que a participação de Cláudio Manuel no movimento da Conjuração Mineira é cercada de “uma dúbia aura de infortúnio e fraqueza humana”, o que pode ter contribuído para o “relativo descaso com que sua obra foi tratada há até não muito tempo”.  Cláudio Manuel era uma espécie de oráculo, em Vila Rica. Todos lhe ouviam os conselhos e liam suas obras. Foi uma das figuras centrais da capitania e também mecenas de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Levando-se em conta que entre as montanhas de Minas produziram-se e ainda se produzem muitas especulações e “causos”, acredita-se que a obra dos doze profetas em pedra-sabão feita por Aleijadinho (1730-1814), em Congonhas (MG), teria uma ligação com os conjurados. Em virtude da relação de amizade com Cláudio Manuel e Tomas Antônio Gonzaga, acredita-se que o escultor teria homenageado vários deles retratando-os nos profetas, cabendo a Cláudio Manuel a inspiração do rosto do profeta Jeremias.

A carreira literária de Cláudio Manuel iniciou-se em 1768, com a publicação de “Obras Poéticas“, livro que marca o início do arcadismo no Brasil. Na poesia lírica o tema é a desilusão amorosa, na épica sua poesia é inspirada na descoberta das minas, na saga dos bandeirantes e nas revoltas locais.

Segundo Laura de Mello e Souza (2011), “as Obras de Cláudio não mereciam, em Lisboa, que se gastasse a vista com elas. Em Vila Rica e em toda a capitania de Minas, contudo, o poeta foi ganhando fama e prestígio, chefe de orquestra da plêiade dos bardos locais, como o qualificou Sérgio Buarque de Holanda”, salienta a historiadora.

Foi um poeta de transição, pois como ele próprio afirma no prólogo das “Obras”, sofreu influência do Barroco, mas abraçou a causa árcade. Em Minas Gerais, ajudou a fundar a Arcádia Ultramarina com os poetas Manuel Inácio da Silva e Tomás Antônio Gonzaga, entre outros, sobre os quais exerceu forte influência.  Esses intelectuais começaram a criar poemas que trabalhavam com o tema da liberdade, da fuga do entorno burguês, que estava em embate com o poder despótico, para um ambiente idealizado e bucólico onde somente a mitologia grega poderia imaginar: a Arcádia, locus amoenus (um lugar ameno), um campo sublime, refúgio ameno em oposição aos centros urbanos.

O Arcadismo foi um estilo literário que perdurou pela maioria do século XVIII, tendo no bucolismo a principal característica, destacando a vida despreocupada e idealizada nos campos.  Cláudio adotou, no ano de 1773, o pseudônimo árcade de Glauceste Satúrnio, um personagem pastor que se inspirava em sua musa denominada Nise, revelando-se frustrado com sua própria obra, conforme citado na abertura deste trabalho: “vejo e aprovo o melhor, mas sigo contrário na execução“.

Sua obra envolve poemas épicos como “Memória histórica e geográfica da descoberta das Minas”, poesias que envolvem a problemática política, social e moral e inúmeros sonetos, distinguindo-se entre seus principais trabalhos as “Obras Poéticas” (1768), os versos “Munúsculo métrico” (1751), “Epicédio em memória de Frei Gaspar da Encarnação” (1753), “Labirinto de amor” (1753) e a épica “Vila Rica”, publicada postumamente em 1839.

Uma particularidade que envolve Cláudio Manuel são as famosas Cartas Chilenas, poemas satíricos que circularam em Vila Rica pouco antes da Conjuração Mineira. Foram escritas sob o manto do anonimato e são atribuídas a Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), com a colaboração de Cláudio, mais tarde identificados como “Critilo” (o emissor) e “Doroteu” (o destinatário), respectivamente.  O “Fanfarrão Minésio” era o governador Luís Cunha Meneses, que antecedera o Visconde de Barbacena no governo de Vila Rica.

O filólogo português e historiador da literatura Manuel Rodrigues Lapa, que em 1957 exilou-se no Brasil, onde leccionou em várias universidades, assegura ser Cláudio Manuel o autor da “Epístola a Critilo” que abre as Cartas Chilenas.

As 13 Cartas contavam a história de “Fanfarrão Minésio”, governador de uma hipotética cidade cognominada “Chile” (no caso, a comarca de Vila Rica), reconhecido como um administrador arbitrário, imoral e narcisista. Nas Cartas eram relatadas maracutaias em geral, como desmandos, atos corruptos, nepotismo, abusos de poder, falta de conhecimento e tantos outros erros administrativos, jurídicos e morais quanto pudessem ser relatados em versos decassílabos, funcionando como panfleto político e veículo de desmoralização do governo. Lembramos que era proibido imprimir textos na colônia.

Tais “Cartas” poderiam muito bem representar o embrião de uma futura mídia conservadora acusada de denegrir imagem de governantes ou de uma incômoda imprensa acusada de marronzista, virulenta e reacionária pelos que se locupletam quando assumem o poder político. O que não poderiam imaginar ainda, e talvez jamais acreditar, é que aquelas práticas condenáveis do “Fanfarrão” seriam características de governos vindouros, uma marca de nascença dos herdeiros do patrimonialismo implantado pelo Estado colonial português, em conluio e com respaldo do voto popular estrategicamente manipulado.

A historiadora Laura de Mello e Souza (2011) comenta que Cláudio era considerado um poeta obsessivo, um cultor da forma perfeita, mas um dado instigante é o fato de que sua poesia conquistou pouco espaço na lírica brasileira e, embora seus sonetos sejam belíssimos, não têm uma característica de universalidade e, pelo contrário, apresentam uma linguagem muito marcada por sua época. Acrescenta que os extraordinários poemas que ele compôs e reescreveu obsessivamente anos a fio e que foram referência obrigatória para Manuel Bandeira, Vinícius de Morais e Carlos Drummond de Andrade, são poucos conhecidos ainda hoje.

Em outra passagem, cometa a historiadora que a obra de Cláudio não dá margem a dúvidas: “lia compulsivamente, de tudo, e a cultura abrangente aparece nos vasto leque de interesses que manifestou. Além de poeta, reconhecido ainda em vida, foi cartógrafo, tradutor, historiador, dramaturgo e, dizem alguns, compositor musical”.

Cláudio Manuel da Costa é Patrono da cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras.

Enfim, as várias biografias existentes têm pontos controversos, com interpretações conflitantes, porém, frente a todas as contradições envolvendo a vida dos conjurados e, em especial a do mártir Cláudio Manuel da Costa, o consenso entre os historiadores se resume no grande legado da Conjuração Mineira, que foi o primeiro movimento a criticar a exploração do sistema colonial e a propor o rompimento do pacto colonial, de forma a criar uma nação independente e ver nessa independência um futuro de progresso.

Nesse contexto, Cláudio Manuel, conjurado, poeta e patriota, tem o seu lugar glorificado na história, pois ousou pensar em fazer uma república livre e independente, articulando junto aos demais conjurados a oposição ao domínio português e assentando as bases para a construção de um projeto de nacionalismo e dos ideais de liberdade dos quais somos beneficiários e herdeiros.

Nessas condições, o tema da “Inconfidência Mineira”, melhor dizendo, “Conjuração Mineira” – termo esse que melhor representa a perspectiva de uma conspiração contra o governo então estabelecido e não à ideia de falta de fidelidade – continua a desafiar-nos e, nesse particular, a Academia Mineira Maçônica de Letras tem o mérito de manter o compromisso de estudá-la, de defender sua memória histórica, a verdade dos conjurados, de seus ideais e de exaltar seus efetivos e reconhecidos partícipes, refutando, no campo do debate e das pesquisas, análises tendenciosas ou que desqualifiquem esse legado e enfrentando, também de forma corajosa, os detratores de sempre.

Finis

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

(*) Defesa do Patrono da Cadeira nº 2, da Academia Mineira Maçônica de Letras, apresentada na reunião de 03.03.2015

*Para ler a primeira parte do artigo, clique AQUI

Notas

[5] – Como devedor da Fazenda Real e para saldar suas dívidas, dom Rodrigo de Sousa Coutinho, responsável pelo Erário Régio, ordenou, em 1802, que se procedesse ao confisco dos bens de Macedo, incluindo-se o mais valioso deles, a Casa dos Contos (Rodrigues, 2010).

Fontes de Pesquisa

Academia Mineira Maçônica de Letras – A Casa de Tiradentes. A Verdade dos Inconfidentes. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 2013;

Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, 2ª Edição. Brasília: Câmara dos Deputados; Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1978;

CÁCERES, Florival. História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1995;

CASTELLANI, José; COSTA, Frederico Guilherme. A Conjuração Mineira e a Maçonaria que não Houve. Londrina: Editora A Gazeta Maçônica, 1992

D’ALBUQUERQUE, A. Tenório. A Maçonaria e a Inconfidência Mineira.  Rio de Janeiro:  Aurora, 1960;

FURTADO, João Pinto. O Manto de Penélope – História, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. São Paulo: Companhia das Letras, 2002;

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http://apm.org.br/imagens/Pdfs/suplementocultural/Suplemento_Novembro2009.pdf

Sites de História da Internet.

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A Verdade do Conjurado Cláudio Manuel da Costa – Parte I

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“É infelicidade que haja de confessar que vejo e aprovo o melhor, mas sigo o contrário na execução.” (Cláudio)

O poeta e advogado Cláudio Manuel da Costa viveu entre 1729 e 1789, a maior parte do tempo na antiga comarca de Vila Rica, hoje Ouro Preto, à época a capital da capitania de Minas Gerais. Nascido em Minas, próximo a Mariana, filho de pai português e mãe paulista, estudou no colégio jesuíta do Rio de Janeiro e graduou-se na Universidade de Coimbra, em 1753. Regressou a Mariana, fixando-se, posteriormente, em Vila Rica.

Na sua educação europeia, Cláudio foi influenciado pelos filósofos iluministas e pelas teorias econômicas inglesas. Era simpatizante da política reformista do Marquês de Pombal, déspota Português, porém tinha discurso liberal.  Dominava o latim, o francês, o espanhol e cogita-se que lia em inglês. Deixou, ainda, dezenas de poemas escritos em italiano.

Especula-se que ele tenha traduzido a “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, obra esta publicada pela primeira vez em Londres em março de 1776, e que teria ligações com os Illuminati, sociedade secreta de cunho iluminista criada na Baviera e que influenciou inúmeras revoluções, fraternidades, arcádias literárias e associações com os mais diversos propósitos. Outra influência de época foi a Independência dos Estados Unidos da América (1776).

A historiadora Laura de Mello e Souza no seu livro “Cláudio Manuel da Costa – O Letrado Dividido” (2011) comenta que o conjurado morreu solteiro, mas viveu por trinta anos com Francisca Arcângela de Sousa (Francisca Cardoso ou Cardosa), nascida escrava e alforriada quando deu à luz o primeiro filho de Cláudio.  Ressalta que ela foi companheira de sua vida toda e mãe de seus cinco filhos, “um indelével indicativo de que o costume suplantou a legislação, mas não na íntegra, porque segundo a letra da lei, os bacharéis a serviço do Império não podiam casar-se com mulheres ‘da terra’. Cláudio Manuel da Costa não era português, mas sim luso-brasileiro, e não conseguiu superar sua formação jesuítica e escolástica, que de certo modo o aprisionava às leis, para de fato desenvolver coragem suficiente e assumir publicamente sua relação com uma negra”.

Em outra passagem do livro, a historiadora cita um comentário de João Caetano Soares Barreto, então Provedor da Fazenda, onde afirmava que “a capacidade e literatura do dr. Cláudio Manuel da Costa era bem conhecida de todos, e não só nos ‘estudos de direito’, mas igualmente no de outras ciências, seguindo sempre  o ensinamento dos melhores autores, ‘e mais modernos’. ‘Creio que nesta capitania não há quem o exceda’, prosseguia o provedor: só aceitava causas justas, consoante às leis do Reino, rejeitando todas as que só se poderiam defender com sutilezas e artimanhas”. Esse é, pois, um bom testemunho do caráter do nosso Patrono.

Os registros históricos demonstram que Cláudio Manuel da Costa teve relativo sucesso profissional e projetou-se no campo político e literário de seu tempo, além de acumular significativo patrimônio material, sendo reputado como fazendeiro abastado, fatos que o colocavam na condição de membro da elite da então comarca de Vila Rica.

Em um tempo em que não existiam bancos, os negócios funcionavam à base do “fiado”, e a prática de solicitar empréstimo era usual entre as pessoas, o enriquecimento de Claudio Manuel também é atribuído à sua condição de banqueiro privado, um financista, como revelado no número de operações financeiras registrada no sequestro de seus bens. Levantamentos realizados demonstram que ele foi um dos profissionais do Direito mais requisitados nas Câmaras de Mariana e Vila Rica, havendo, ainda hoje, a confirmação de sua atuação em 68 ações judiciais.

O conjurado era um dos anfitriões constantes de poetas, militares, bacharéis e homens de negócio que, movidos pelas mais diversas razões, acorriam à capital. Oferecia chás, jantares, reuniões para conversas, declamações de poesias, recitais de músicas.  De acordo com a narrativa de Augusto de Lima Júnior (2010), em casa de Cláudio Manuel reuniam-se os homens mais eminentes que se divertiam em zombar de Luís da Cunha Meneses (o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas), ridicularizado nas sátiras que nesses encontros literários se compunham contra ele.

Em “Nota Biográfica” contida na 2ª edição dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira (1978), volume II (p. 124/125), novos detalhes da vida de Cláudio Manuel foram agregados. Destacamos a informação sobre a sua saúde e o fato de ter sobrevivido à tuberculose, “que lhe roubou todos, ou quase todos, os irmãos homens, na juventude. Ao tempo da Inconfidência, andava achacado de reumatismo – razão de sua menor participação, não fosse ele também de formação conservadora”. No volume VIII (p. 148), consta a nota dizendo que “o estado de saúde de Cláudio não lhe permitia sair à noite”. Como a terceira idade naqueles tempos chegava mais cedo, Cláudio Manuel foi considerado um dos membros mais idosos do grupo dos conjurados.

Era fato que o Visconde de Barbacena, Luís Antônio Furtado de Mendonça, como governador e Capitão-General da capitania de Minas Gerais, que assumira o cargo em 11 de julho 1788, sucedendo ao desastrado Luiz da Cunha Meneses, recebera instrução da Corte Portuguesa para superar a herança maldita do momento, representada pela queda da arrecadação dos impostos resultante da decadência da mineração, e a viabilizar a urgente necessidade de cobrança dos atrasados.

Conhecendo os planos dos conjurados, o Visconde decidira anunciar a suspenção em 14 de março de 1789 do pacote de medidas tributárias, conhecida como “derrama” [1], que esteve na origem da revolta, cuja cobrança estava anteriormente prevista para fevereiro daquele ano.

O clima na comarca era de desconsolo, provocado pelo regime opressivo e por fatores relacionados à espoliação pela Coroa, à proibição de instalação de indústrias e outras restrições econômicas, além da carestia, do atraso dos soldos, do desvio de recursos não contabilizados para a Fazenda Real, do contrabando que corria solto e da roubalheira generalizada, como nunca antes na história da Província[2].

O projeto político dos revoltosos era separatista e previa a instalação de uma república em Minas. A ideia da liberdade deixava muita gente entusiasmada, especialmente outra elite golpista de antanho. A data escolhida para deflagração da revolta seria estratégica, o dia da “derrama”, pelo apoio popular com o povo na rua como se esperava em função do descontentamento geral que a cobrança forçada dos impostos atrasados geraria.

Por outro lado, o resultado previsto da arrecadação dos “quintos” daria fôlego em decorrência de estar a Fazenda Real revigorada, o que permitiria o pagamento das tropas de apoio.

A conjura havia sido denunciada ao Visconde pelo Coronel Joaquim Silvério dos Reis, que almejava um tipo de delação premiada com perdão de suas dívidas para com a Coroa. No rastro da traição deixaram suas pegadas os aloprados Tenente-Coronel Basílio de Brito Malheiro e o Capitão-do-campo Inácio Correia Pamplona.

Em 12 de junho de 1789, visando a neutralizar depoimentos comprometedores diante dos magistrados do vice-rei, o Visconde mandou instaurar açodadamente em Vila Rica uma “Devassa”, que era o nome dado às investigações oficiais sumárias de caráter inquisitorial. Tal decisão ocorreu assim que tomou conhecimento de processo semelhante que já havia sido aberto no Rio de Janeiro em 7 de maio, com a prisão de Tiradentes logo três dias depois.

O Visconde, resguardando-se para que também os seus negócios não viessem à tona, nutria até então a esperança de que todo o assunto fosse tratado, sigilosamente, mediante acordo com o vice-rei, com o banimento dos cabeças da conspiração, sem que houvesse a necessidade de instaurar um inquérito judicial (Castellani, 1992).

No Volume VIII dos Autos da Devassa (p. 282), consta informação de que o Sargento-Mor da Cavalaria José de Vasconcelos Parada e Souza (o ‘Padela’ das Cartas Chilenas), em junho de 1789, no Quartel de seu Regimento, criticara o Visconde de Barbacena por ainda não ter mandado prender Cláudio, “notório amigo do Ouvidor Gonzaga”. Sabendo disso por intermédio de seus “olheiros”, o Visconde incumbiu-o de efetuar a prisão, que ocorreu em 25 de junho de 1789.

Cláudio Manuel se encontrava acamado, doente de reumatismo, quando arrancado do leito e conduzido para a Casa dos Contratos[3], sendo metido em um dos segredos preparados pelo Visconde de Barbacena. O local era considerado uma “cela especial”, já lançando as sementes para o futuro tratamento diferenciado para os indigitados portadores de diploma de curso superior. A expressão “preso em segredo” tinha o entendimento de preso incomunicável na linguagem moderna.

Para alguns críticos, pesa sobre Claudio Manuel a condição de ter se envolvido de forma colateral naquele movimento, já aos 60 anos, sendo ele interrogado uma só vez pelos juízes da Alçada, em 2 de julho de 1789, o que o teria deixado apavorado com as consequências da acusação, ocorrendo em seguida a sua morte em circunstâncias obscuras, oficialmente por suicídio na prisão, dois dias depois, no dia 4 de julho, em Vila Rica.

Não se tem notícias quanto ao local do enterro de seu corpo, prevalecendo a hipótese de que sua companheira Francisca teria se empenhado em conseguir-lhe sepultura, enterrando-o em fazenda de sua propriedade. Também na supracitada 2ª edição dos Autos da Devassa, em Nota contida na página 139 do Volume II, segue o seguinte comentário: ”E corre a lenda que foi ocultamente sepultado na Matriz do Pilar, terceira sepultura ao pé do altar esquerdo, junto ao arco do cruzeiro”.

Outros historiadores afirmam que o vigário Vidal, íntimo amigo do finado, não querendo ou tendo razões para não acreditar no apregoado suicídio, ajudado pelo sacristão, foi ao lugar onde o corpo teria sido enterrado anteriormente, exumaram-no e o trasladaram para a Matriz de Vila Rica, dando-lhe uma das sepulturas abaixo do presbitério do lado esquerdo.

Não obstante a proibição de cultos para os suicidas, constam anotações de que a alma do poeta teria recebido dezenas de missas, tendo em vista sua reconhecida religiosidade e do título da “Ordem de Cristo” recebida do Rei de Portugal. O mesmo registro citado anteriormente acrescenta que “As modestas Irmandades a que pertencia pagaram-lhe o seguro do além: as trinta missas de praxe”.  Na realidade, a Fazenda Real arcou com as despesas dos ditos sufrágios, o que leva à dedução de que as coisas não ocorreram nos termos dos escritos oficiais.

A 2ª edição dos Autos da Devassa, Volume II, Apenso IV (p. 123/139), registra o teor da Inquirição e o auto do Corpo de Delito. Na Nota comentada que se segue na página 135, a respeito do depoimento do conjurado, consta que “A assinatura de Cláudio no documento original é trêmula, cansada pela idade e pela emoção. Mas é legítima, não tendo qualquer valor a alegação grafológica de que teria falsificado a própria assinatura…”. Prossegue a Nota acrescentando: “Ocorre que, no formalismo processual da época, a inquirição se tornou nula, pois faltava-lhe a formalidade do juramento aos Santos Evangelhos, assim como faltou, a seguir, a ratificação e segundo juramento em presença de um tabelião”.

Em certo aspecto, é de todo coerente assegurar que a morte de Claudio foi consequência de seu interrogatório, pois era conveniente aos seus algozes afastá-lo para dar consequência ao depoimento consignado, que, provavelmente, não seria ratificado por ele.  Laura de Mello e Souza (2011) destaca que havia “interesses importantes em jogo, sendo melhor que o poeta linguarudo se calasse de vez”, restando indagações que se respondem por si próprias, quais sejam:  “Por que o aprisionaram em Vila Rica e não o conduziram para o Rio de Janeiro como os demais? Barbacena o queria por perto para controlar-lhe a fala perigosa quanto a seu governo e à sua simpatia pelo movimento?”

Para Castellani (1992), “Cláudio, por seu próprio temperamento, poderia, encarcerado, ter perdido o controle de suas emoções. Mas por que não nos oito dias que precederam o interrogatório, mas, sim, apenas dois dias depois dele?”.  Em outra passagem da mesma obra afirma: “Foi um suicídio conveniente demais e no momento mais oportuno, para que deixe de suscitar dúvidas sobre sua veracidade”.

No que se refere ao falar sem atentar para possíveis consequências, vale destacar a observação do historiador Márcio Jardim, citado por vários autores, quanto a “acreditar que a morte de Cláudio tenha sido (junto com toda repressão que se abateu sobre a Capitania) um dos fatores que ajudaram na formação de uma das características dos mineiros: a prudência em falar de política”.

Algumas avaliações asseguram que Cláudio teria sofrido um duro golpe para o seu temperamento brando e para a sua idade, sobretudo pelo desgaste da inquirição a que fora submetido. Ademais, a sua especial sensibilidade de poeta e os conhecimentos jurídicos que detinha permitiam-lhe vislumbrar o cenário que se descortinava em função dos desdobramentos dos fatos. Torna-se importante realçar que contra os réus da conjuração todas as pressões eram permitidas, todas as ações justificáveis e era imperativo que os algozes mostrassem dedicação ao Reino de Portugal, daí o empenho em levar os conjurados à forca.

Uma passagem curiosa relatada no livro de Carlos Guilherme Mota (Tiradentes e a Inconfidência Mineira, 1986) demonstra a perspicácia e a preocupação de Cláudio Manuel naquela conjuntura.  Diz o texto: “Certa vez, falando com amigos, Cláudio Manuel havia dito: Nas Minas Gerais não há gente. Os americanos ingleses foram bem sucedidos porque acharam três homens capazes para a campanha de sua independência [Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e George Washington], mas nas Minas Gerais não há nenhum. Só o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha Tiradentes, anda feito corta-vento. Mas ainda lhe hão de cortar a cabeça”. Segundo o autor, foi o que aconteceu, mas Cláudio morreu primeiro.

Outra preocupação de Cláudio Manuel, citada pelo brasilianista e controvertido historiador britânico Kenneth Maxwell (1977), diz respeito à loquacidade de Tiradentes que levou o poeta a criticá-lo “por estar pondo em perigo o sigilo dos planos com sua falta de cautela…”. Mas a admiração do poeta ao alferes também é refletida na frase “tomara que existissem mais homens desta têmpera!”.

A corrente que defende a linha do suicídio de Claudio Manuel se apoia nas alegações de que ele estaria em profundo estado de depressão às vésperas da sua morte, o que teria sido confirmado pelo frade confessor, conforme depoimento apensado aos Autos da Devassa. Muitos argumentam que foi uma reação de dignidade pela recuperação da lucidez e reconhecimento de que teria fraquejado diante dos juízes que sempre amoleciam o caráter dos conjurados antes de submetê-los a interrogatório. E, por estar velho, doente, alquebrado, decidira pelo suicídio. Outros, que advogam a tese do assassinato, contestam a autenticidade do documento e a declaração do frade.

Surpreendentemente, Laura de Mello e Souza (2011) assim se manifesta com relação à morte do conjurado: “se entendi o homem que foi Cláudio Manuel da Costa, sou levada a afirmar que decidiu pôr um termo a sua vida”. A injusta conclusão da renomada historiadora se baseia em análise de “vestígios deixados pela ficção e pela história”. Em outra parte de seu trabalho ela afirma ter vislumbrado traços de melancolia no poeta. Se assim o fora, os autores que escrevem romances trágicos deveriam ser cautelarmente vigiados pelos familiares ou autoridades por representarem uma ameaça a si e à sociedade.

A propósito da melancolia da qual estaria acometido nosso poeta é bom que se diga que esse e inúmeros outros traços culturais, como a discrição, prudência, desconfiança, introspecção e outros modos de ser dos mineiros, como o jeito ”pacífico e malicioso”, descrito por Amoroso Lima, formam um conjunto de valores largamente decantados pelos estudiosos desse emaranhado simbólico da mineiridade.  Hipócrates (460-370 a.C) definia a melancolia como uma doença sagrada. Aristóteles (384-322 a.C.) se perguntava: “Por que razão todos aqueles que foram homens de exceção no que concerne à Filosofia, à Ciência de Estado, à Poesia ou às Artes foram manifestamente melancólicos?”. Sem esse excesso, segundo ele, a genialidade não manifestaria sua criatividade.

Contudo, referências à religiosidade e ao bom humor do conjurado não faltam. Augusto de Lima Júnior (2010) relata: “Cláudio se constituíra uma grande e respeitada figura na vida social da Capitania das Minas Gerais, sendo ainda muito querido por seu gênio folgazão, sempre bem humorado, conforme ele próprio declarou aos seus inquiridores nas Devassas de Vila Rica”. Afirma ainda que Cláudio era um homem rico, com grandes rendas em vista da grande quantidade de ouro que detinha. Esses valores desapareceram de sua casa depois de sua prisão, tendo sido a causa de seu assassinato, que muito interessava aos ladrões que o foram prender, sendo o principal suspeito o Sargento-Mor da Cavalaria José de Vasconcelos Parada e Souza.  Na condenação, o restante de seus bens foi confiscado para o Fisco e Câmara Real.

Aos que defendiam a tese do assassinato, o próprio laudo pericial era motivo de suspeita, em face da conclusão simplória de que o poeta teria se enforcado usando os cadarços do calção, amarrados em uma prateleira, em condição julgada impossível para que alguém pudesse lograr êxito em tais circunstâncias. A convicção era de que Cláudio Manuel fora assassinado premeditadamente e seu corpo posteriormente suspenso a fim de simular um enforcamento voluntário.

Retornando ao locus horribilis onde o nosso Poeta Árcade enfrentou o seu fim, e para uma melhor avaliação do discutível “Auto de Corpo de Delito”, transcrevemos a conclusão constante do Volume II dos Autos da Devassa, item IV. 2.3 (p.137): “E examinado mais todo o corpo pelos referidos cirurgiões, em todo ele não se acha ferida, nódoa, ou contusão alguma, assentando, uniformemente, que a morte do referido Dr. Cláudio Manuel da Costa só fora procedida daquele mesmo laço e sufocação, enforcando-se voluntariamente por suas mãos – como denotava a figura e posição em que o dito cadáver se achava”, conclui o documento[4].

O Suplemento Cultural integrante da Revista da Associação Paulista de Medicina nº 208, de novembro de 2009, ao apresentar artigo de Arnaldo Amado Ferreira intitulado “A morte do inconfidente Cláudio Manuel da Costa”, apresenta a seguinte análise: “O auto de exame de corpo de delito do ilustre inconfidente poderia ter melhor esclarecido a causa da morte, não fosse ele falho e incompleto, sem obedecer às regras e a técnica médico-legal para esses documentos. A sua insuficiência, entretanto, pode ser creditada não só à falta de qualificação dos profissionais que o elaboraram, bem como aos modestos conhecimentos médico-legais daquela época”.

Em relação às circunstâncias da morte do conjurado, o Mestre em Sociologia e Doutor em História, João Pinto Furtado, sob outro discutível enfoque, comenta em seu livro “O Manto de Penélope” (2002, p. 67): “Também a morte de Cláudio Manuel da Costa, em julho de 1789, é muito ilustrativa. Um dos mais seriamente envolvidos nas atividades ilícitas de contrabando, ele poderia ter ameaçado expandir o raio de ação da devassa incluindo informações sobre a rede que, supostamente, articulava os membros do movimento e, por isso, sua morte seria uma espécie de ‘queima de arquivo’ avant la  lettre”. Continua o autor: “De fato, os temas do contrabando e da proeminência de algumas das principais lideranças do levante, em especial Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, embora pujantemente citados na formação de culpa, desapareceram por completo ao longo das demais inquirições. É verossímil que possam ter ocorrido acertos nesse sentido…”, conclui.

Dentro da linha das “conspirações” João Pinto Furtado (2002) teoriza: “é lícito afirmar que homens como Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, o cônego Vieira e Alvarenga Peixoto provavelmente pretendiam a reforma no sistema de poder nas Minas, mas antes no que se refere à troca de alguns nomes e funções do que em seus pilares e fundamentos. Assim, o foco da luta seria muito mais interno ao mundo luso-brasileiro do que aos grandes e mais revolucionários temas iluministas”.

Em parágrafo anterior o referido autor já havia concluído que “o volume total do sequestro dos inconfidentes praticamente correspondeu à arrecadação do quinto real sobre o ouro no ano de 1789. Além disso, o processo, do qual não se pode dizer que Barbacena atuou como observador distante afastou de uma vez por todas da estrutura de poder das Minas aqueles que seriam os únicos, talvez, em condições de rivalizar com o visconde em prestígio, luzes e talento para a gestão dos negócios coloniais, quais sejam Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa” (p. 206 e 223/224).

No sequestro dos bens dos conjurados, a casa de Cláudio, localizada em Vila Rica, teria passado por três processos de sequestro: em 25 de junho e 31 de julho de 1789 e 21 de março de 1791. Os Autos de Inventário foram coordenados pelo ouvidor José Caetano César Manitti (Rodrigues, 2010).

Ainda com relação aos desdobramentos da morte, no ensaio denominado “Inconfidência Mineira – As Várias faces“, Júlio José Chiavenato desmonta a tese do autoextermínio ao relatar que na tarde do mesmo dia em que Cláudio foi preso, foram mortos sua filha, o genro e outros familiares, bem assim alguns escravos, além de terem sido roubados todos os seus bens.

Augusto de Lima Júnior (2010) relata que na mesma tarde da prisão do conjurado, o Sargento-Mor Vasconcelos Parada e Souza despachou emissários para o Sítio da Vargem onde residia o genro e a filha de Cláudio, quando todos foram assassinados, incluindo os escravos, e se apossaram de barras de ouro consideradas o tesouro da revolução. Posteriormente, quando a casa foi demolida, foram encontrados sete esqueletos debaixo do assoalho da sala de jantar.

Consta, ainda, que o governador da capitania, Visconde de Barbacena, somente reportou a Lisboa sobre a morte de Cláudio em 15 de julho, onze dias depois de o fato ter ocorrido. A leitura do episódio é a de que, se a morte do Alferes Tiradentes não causaria embaraços em Lisboa, a de Cláudio e da sua família poderia causar, daí a necessidade de a farsa ser montada.

Outra referência quanto aos acontecimentos daqueles dias, Kenneth Maxwell (1977) aduz que “Em correspondência para Lisboa, a 11 de julho, o governador não se referiu à morte de Cláudio Manuel da Costa, embora comentasse o depoimento do prisioneiro. O governador falou no ‘suicídio’ em outra correspondência, datada de 15 de julho que incluía o relatório dos médicos. Muito mais tarde um destes médicos veio a declarar que em seu primeiro relatório não atestara a causa da morte como sendo suicídio – e sim assassinato. No dia seguinte ao do exame, afirmou ele, o ajudante de campo do governador, Antônio Xavier de Resende, disse-lhe que seu relatório fora inadvertidamente destruído, aconselhando-o a elaborar outro que dissesse ter o prisioneiro se matado” (p. 182).

Muitos entendidos especulam que o conjurado estaria disposto a revelar nomes de importantes autoridades envolvidas no movimento. Intrigas de ocasião sugeriam que Cláudio teria sido assassinado por ordem do Visconde de Barbacena, que supostamente teria relações com os envolvidos e nutria alguma simpatia pelo movimento e temia ser denunciado.  Contribuíam para isso insinuações feitas por Tiradentes a companheiros mais próximos de que teria “pessoa muito grande” a apoiá-lo. Não obstante tal afirmativa não parecer verossímil é certo que o poeta Tomaz Antônio Gonzaga gozava da intimidade com o Visconde, tendo escrito dois sonetos para celebrar o nascimento de seu filho. Acredita-se que Gonzaga contaria com o Visconde de Barbacena nos planos de uma nova ordem.

Sabia-se também que o conjurado José Álvares Maciel era amigo e por vezes hóspede do Visconde.  Corriam notícias de que o Visconde de Barbacena devia muito dinheiro a Cláudio Manuel, que era credor de extraordinária clientela.  De acordo com Kenneth Maxwell (1977), o Visconde de Barbacena teria sido no mínimo conivente com os planos de conjuração. Essa suspeita tem fundamento, vez que a atuação do governador durante o processo judicial enseja muitas contradições.

Mas, o fato é que o Visconde pôs a viola no saco e saiu gritando “pega ladrão”, iniciando a repressão e agindo com presteza e muita disposição contra o movimento, pois havia uma preocupação das autoridades portuguesas com a possibilidade de o levante atingir as vizinhas capitanias do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Em relação às suspeitas que recaíam sobre o Visconde quanto à morte de Cláudio Manuel, relata Kenneth Maxwell (1977): “Certamente o poeta não poderia ser assassinado sem a conivência ou, ao menos a concordância do governador. Em seu depoimento, além do mais, Cláudio afirmou recordar-se de ter ouvido de Gonzaga, certa vez, que o General… o Visconde (de Barbacena) sempre dizia que estaria na primeira linha, no caso de uma revolta…” (p. 184). Ainda segundo o autor, o mistério que cercava o falecimento de Cláudio e a farsa crescente do processo em Vila Rica são exemplos muito ilustrativos do pantanal em que afundava todo o caso. Sendo a morte um ato premeditado (não descartando tal possibilidade), serviu de advertência aos demais até que ponto certos interessados estariam dispostos a ir para se protegerem da incriminação.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Notas

[1] – A “derrama” foi uma medida fiscal cogitada em 1788, para complementar os débitos que os mineradores acumulavam junto à Coroa Portuguesa, que estipulava a cobrança de um imposto adicional aos vinte por cento de praxe, então alardeada como uma escorchante alíquota chamada de “quintos”, de forma a se atingir a cota anual de 150 arrobas (1.500 quilos) de ouro, que seria completada com o confisco de bens e objetos de ouro.

[2] – O Brasil era Província da Monarquia Portuguesa (Estado do Brasil). A capitania de Minas Gerais, no período de 1720 a 1815, era dividida em quatro comarcas: Vila Rica, Rio das Mortes, Rio das Velhas e Serro Frio.

[3] – A Casa dos Contratos era propriedade de João Rodrigues Macedo, um rico contratador e amigo muito próximo do Visconde, prédio hoje conhecido por Casa dos Contos. Os contratadores naquele tempo eram os “empreiteiros” de negócios que arrematavam os contratos para arrecadação dos direitos reais e exploração de atividades comerciais.

[4] – A propósito, tal criatividade pode ter inspirado as autoridades envolvidas em caso semelhante ocorrido 183 anos mais tarde, em 25 de outubro de 1975, com o jornalista Vladmir Herzog, cujo “Laudo de Encontro de Cadáver”, expedido pela Polícia Técnica de São Paulo, registrava que ele se enforcara com uma tira de pano – a “cinta do macacão que o preso usava” – amarrada a uma grade a 1,63 metros de altura. Na condição de judeu, Herzog foi enterrado no centro do Cemitério Israelita do Butantã, o que significava desmentir publicamente a versão oficial de suicídio

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Especulações a Respeito das Iniciações no Futuro

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Se projetarmos nossa mente para daqui a cem anos, e através da especulação, da imaginação, utilizando os conhecimentos que temos no presente com relação a evolução da ciência e do avanço do pensamento humano quando houver profundas alterações de valores éticos e morais, dos costumes, reavaliações de princípios, quando o homem conseguir vencer os monstros do seu subconsciente e se tornar bom, enfim, quando souber gozar todo o maravilhoso progresso alcançado nos últimos dois séculos, muitas perguntas nos vêm à cabeça.

Existirão igrejas? Sobreviverão tantas denominações religiosas quanto as que temos no presente? Haverá a necessidade de templos? Qual será a moderna concepção do GADU? A Maçonaria sobreviverá se não mudar e se não se adaptar? As mulheres farão parte da Maçonaria Tradicional? Quando? Existirão doenças incuráveis? E as guerras?Continuarão a ser um dos flagelos da humanidade? E a mente humana como se comportará? Haverá mais Amor, mais Perdão, mais Tolerância nos corações dos Homens? E o paranormal? Conseguirá transpor facilmente a barreira dos cinco sentidos?

Se a civilização nos últimos cem anos, à mercê do avanço tecnológico incrível e fantástico, das invenções que mudaram a história da humanidade, através de uma maior liberdade de expressão e do pensamento, teve um progresso chegando a atual posição, houve pelo menos uma pálida coerência, entre a ciência e a humanidade ainda aceitando os princípios cartesianos que valorizam o racionalismo e o dualismo metafísico. Não estuda um fenômeno como um todo, estuda-o simplesmente em si, em separado. Hoje já se fala na Teoria Holística, onde tudo faz parte do todo.

Entretanto, com o advento da Informática, Internet, Realidade Virtual e outras tantas invenções maravilhosas que estão aparecendo a cada dia, o futuro parece que escapou de vez das previsões dos homens, porque pelo cartesianismo eles não conseguem mais explicar os fatos. No caso, estamos usando a imaginação.

Se analisarmos a revolução que o mundo digital em rede mundial, está provocando, não se tem condições de explicar o que acontecerá daqui há dez anos, o que dirá daqui há cem anos!

Atualmente, já é realidade a projeção através de chips de holografias em qualquer superfície.

Já existe um grupo de cientistas que fazem parte de um movimento chamado Terceira Cultura (The Third Culture) que se dedica a refletir e estudar modelos coerentes com relação à sociedade do futuro. Deveria ter um grupo de maçons fazendo a mesma coisa com relação à Ordem. Como será o seu porvir?

Parece que atualmente, depois da moderna concepção da Teoria da Relatividade e da Física Quântica, a qual já está tendo seus princípios, por analogia, aplicados a outros segmentos da humanidade e não tão somente à Física subatômica ou corpuscular, nos traz no momento maior confusão. Estes princípios são aplicados a fenômenos não visíveis, e onde se coloca tudo como sendo um todo, como uma rede onde o Homem faz parte desta malha. Uma das características dos princípios da mecânica quântica é que temos que primeiro esperar acontecer o fenômeno para depois explicá-lo. É muito importante a maneira como o observador vê e sente o fenômeno. Parece que a realidade virtual se enquadra nesta semelhança.

Como será a parceria do maçom com a Informática já que, ele acostumado a aceitar ensinamentos que há mais de um século não sofreram uma atualização adequada, e agora sem que ele queira ou não, terá à sua disposição um volume inimaginável de informações que receberá, e o que fazer com elas? Como diferenciá-las e usá-las para o seu próprio bem? Esta situação nunca foi cogitada ou imaginada no passado. E ainda considerando-se que a maioria dos maçons do momento atual não está muito interessada na Informática?

Como serão as Iniciações neste futuro que já está entre nós?

Sabemos que já existem recintos cibernéticos onde o indivíduo é introduzido, podendo mover-se livremente sem capacete ou mesmo luvas, usando apenas óculos polarizados num angulo de 360 graus com vários projetores colocados em vários locais. Ele terá uma experiência tridimensional totalmente virtual frente ao programa que está conectado. No caso, digamos que seria esta programação de uma Iniciação. Os maçons atuais já pensaram nisso? Ressalte-se que o cada dia surge mais novidades no mundo digital e que ainda descobertas mais incríveis e espantosas estão por vir.

Imaginem a integração com os elementos da natureza, com os mundos e com o infinito. O neófito viverá uma experiência tão grande que se identificará com tudo isso. A sua aproximação com Deus, ou uma Força Criadora será muito maior.

Teremos Templos ou Centros Cibernéticos de Iniciações? A aproximação com o Uno não será muito maior e mais rápida? Será que o tempo para se chegar mais perto Iniciação real ou virtual (?) será mais breve? Será que a Iniciação virtual não se tornará muito mais real que a Iniciação que hoje temos como tal? A Iniciação virtual não será quase que instantânea? Ficam estas indagações no mente de cada um.

Dizem os enólogos que o vinho fabricado ritualisticamente pelos europeus há milênios, com segredos de fabricação passados de pais para filhos, sendo conservado em tonéis especiais de madeira durante anos para ficar no ponto exato de ser ingerido, sofreu por parte das vinícolas americanas um avanço tecnológico extraordinário. Os americanos fabricam atualmente tonéis de alumínio adaptados pela tecnologia moderna, que conseguem envelhecer a bebida em poucas horas. Ressalte-se que a qualidade dos vinhos americanos é boa e aceitável. Imaginem um velho vinicultor europeu que aprendeu através de muitas gerações de seus antepassados a fabricar vinho daquela maneira artesanal, aceitando tal fato. Ele jamais aceitará. É cultural para ele aquela forma de produzir vinhos. No entanto o moderno processo de rápido envelhecimento de vinho existe e, é uma realidade que não se pode contestar.

Usamos esta analogia para tentar explicar como os maçons que insistem em não tomar conhecimento da Internet, ficarão para trás. Ela veio para ficar. Trouxe um avanço inesperado de vários séculos a frente, para a nossa atual civilização. Estamos perdidos no momento, pois ela está fora do nosso controle, pois não sabemos o que irá acontecer. Teremos que esperar e ver o que acontece.

Já existem Lojas virtuais. A Inglaterra foi o primeiro país a fundar uma Loja virtual, a Internet Lodge nº 9659, em 29/01/1998. Lembrem-se, também foi na Inglaterra em 1884 que foi fundada a primeira Loja de Pesquisas, a “Quatuor Coronati Lodge” n.º 2076 tão combatida no seu tempo, por causa da ousadia daqueles cientistas maçônicos em desfazer mitos, aberrações, invenções, erros, crendices etc. Os ingleses estarão errados?

No Brasil existem duas Lojas que temos conhecimento. A Loja “Futura” fundada em 20/09/1999 em Recife, Pernambuco. Reúne-se a cada dois meses em loja normal e quinzenalmente via Internet. Pertence ao Grande Oriente Independente de Pernambuco.

A outra Loja ‘Cavaleiros da Luz” fundada pelo pranteado Irmão José Castellani, em 13/05/2000 esteve parada um certo tempo e agora ressurge em Florianópolis e as reuniões são realizadas na sala “Loja Virtual” e nela somente ingressam Irmãos pré-cadastrados. A titulo de informação esta Loja “não inicia ninguém” e dela só fazem parte Irmãos da Obediência consideradas regulares. Participam Irmãos de várias partes do mundo.

Será que as lojas virtuais são completamente virtuais, ou terão que ter um suporte não virtual? Serão híbridas?

Atualmente já estão sendo planejados e construídos aparelhos capazes de projetar hologramas e enviá-los para qualquer lugar inclusive em qualquer superfície.

Imaginemos hologramas de Irmãos projetados para um espaço virtual (loja) onde todos os cargos estariam ocupados, todos se enxergariam tal qual uma loja real que estão acostumados a assistir. Impossível? Porque não sonhar?

Por outro lado, se existem Irmãos internautas sérios, será que a maioria dos maçons internautas está usando corretamente a Ética e a Moral que acreditamos que tenham aprendido em suas Lojas-Mãe?

Muitos Irmãos não perceberam que a Internet é um verdadeiro santuário do Saber, da Informação, um verdadeiro Inconsciente Coletivo Cibernético da Humanidade e, no entanto, nos enviam apenas mensagens pornográficas, piadas indecorosas, ao invés de trocarem mensagens inteligentes ou informações à respeito da Ordem?

Sonhando, imaginemos uma Iniciação daqui há cem anos, raciocinando dentro da nossa concepção atual, que a Maçonaria existirá como a imaginamos no momento. Acreditamos em princípio que a Ordem sobreviverá. Por quê? Porque ela sempre foi um corredor iluminado de toda a essência filosófica de todos os tempos. Ela sempre soube selecionar o que houve de melhor de toda sabedoria da humana, enfim, sempre teve uma ala progressista muito grande, que fez com ela continuasse a existir não contando com os retrógrados que se dizem tradicionalistas e que não sabem muito bem o que é Tradição, porque justamente não entenderam a ESSÊNCIA da Ordem.

A Ordem por todas as crises imagináveis e sobreviveu. Não irá sucumbir agora no século XXI.

Bem, joguemos nossa mente no futuro. Ninguém nos poderá impedir de sonhar, de especular, de imaginar, pois ainda não aconteceram os fatos, mas suponhamos que neste tempo vindouro, quinhentos candidatos que responderam a um anuncio na Internet resolvam ser maçons. Porque resolveram serem maçons? Ora, ainda deverá haver resquícios de religiões, e por certo, muitos homens Livres-Pensadores do futuro queiram pertencer a uma sociedade onde não haja o sentimento religioso como meio de desenvolvimento espiritual, mas sim a razão e o estudo para se chegar ao mesmo fim, ou seja, ao GADU. Acreditamos que não haverá mais necessidade de sindicância, pois ao responder ao anúncio da loja (?) ou Centro Cibernético Maçônico se terá imediatamente o perfil do candidato cadastrado. O qual será instantaneamente aprovado ou rejeitado. Todo cidadão será um número.

Como imaginaríamos então esta Iniciação? É claro que não será nos mesmos moldes hoje considerados tradicionais. Ela possivelmente demorará apenas alguns minutos, talvez segundos ou será quase que instantânea. Vamos imaginar que os candidatos se dirijam para tal Centro em horário previamente marcado para serem iniciados. Talvez nesta época, nem existirá mais a palavra Iniciação. O termo poderá ser “A expansão maçônica mente”, ou outro termo adequado para aquele tempo.

O candidato receberá um medicamento, uma pílula, uma psico droga a qual não causará qualquer tipo de efeito secundário, cuja ação medicamentosa terminará assim que o candidato vivencie o programa instalado. Este medicamento ajudará a causar uma expansão da mente, mais precisamente através das ondas “alpha”, seguidas das ondas “beta”. Dentro do recinto, onde tudo será virtual, a fantástica experiência impregnará de tal forma a mente do Iniciando que ele viverá uma integração total com a natureza e com o próprio GADU. Ele sentirá como se a natureza fosse ele próprio. Lá ele será fogo, será ar, será água será terra, será plasma chamado por alguns, como o quinto estado da metéria. E nessa aventura, nas profundezas da mente ele se sentirá uma partícula consciente do GADU. Andará por todo o Universo; caminhará por entre e as estrelas; visitará galáxias distantes; entrará no átomo; se sentirá no âmago de uma folha verde; será uma formiga; uma bactéria; aprenderá com os Sábios e encontrará o Conhecimento. Tudo isso acontecerá dentro de poucos minutos ou segundos. Ele será o dono, o senhor da ESSÊNCIA da própria vida e da própria alma, criação inequívoca do GADU. Será o maçom triunfante do futuro. Pena que eu não esteja lá. Nasci antes desse tempo, resta-me apenas o direito de imaginar. Mas gostaria de estar lá quando acontecer algo semelhante ao que eu estou vislumbrando. Coisas da imaginação.

Resta-me, pois, apenas o tímido consolo, ainda que ousado, de sonhar com a Maçonaria do futuro. Não quer dizer que ela será exatamente como eu estou imaginando, mas que continuará grandiosa, não tenho dúvidas. Teremos outros paradigmas.

Autor: Hercule Spoladore

Fonte: JB News

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