Deseducar Para Controlar

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Nestes dias tão conturbados em que presenciamos e vivemos cataclismos políticos e sociais tão evidentes, a figura do autômato descrita pelo Filósofo e Historiador Alemão Walter Benjamin me veem a cabeça. Em seu texto Conceitos Sobre História, assim ele descreve este ser: “Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contra lance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche.”

O que de certa forma exprime a ideia contida no detalhamento da figura de um autômato fantoche, deixa mais do que claro as nuances da situação brasileira atual. Vivemos como uma população robotizada, passando por falsas transformações que ocultam uma continuidade de engrenagens de poder que se perpetuam desde a formação do país enquanto nação. Tal qual o jogo de xadrez evidenciada pelo pensador alemão, nossas jogadas são de cartas marcadas. Embora as peças sejam diferentes ao longo dos anos, nossa política, graças aos mecanismos de continuísmos, garante a perpetuação de uma série de privilégios, meandros e costumes arraigados no seu cerne.

Passando pelo período colonial, ao grito do Ipiranga dado por um nobre português com disenteria proclamando a independência; da pompa do Período Imperial, vicejando a república velha e seu voto de cabresto; do (velho) Estado Novo de Getúlio Vargas; da ditadura de uma noite sombria que durou 21 anos; até estes dias de tresloucada de uma incongruente democracia republicana empedernida: mudaram-se sistemas de governo, pessoas, políticos, economia e os pormenores do tempo, mas algo conseguiu manter-se como permanência em todas estas épocas.

Hábitos, costumes e uma certa cultura política e educacional calcada no uso do estado, da nação e de todos os seus dispositivos para perpetuação de um Modus Operandi voltada para o ego individualista, onde poucos se beneficiam com as mazelas da maioria, onde se deveria existir ações e pensamentos voltados para o bem-estar de todos, há o movimento contrário. Pelo sucesso individual, baseado na desgraça geral.

Instituições, empresas, órgãos públicos e privados, e a própria população são imbuídas de uma crença onde apenas o seu interesse deve ser o primordial para que seus objetivos, metas e satisfação enquanto cidadão sejam supridos. Indo por este caminho, ocorre a cegueira geral de que o bem-estar e a empatia pelo outro é desnecessária. Onde todos têm o mínimo de suas necessidades de vida, consumo, lazer, segurança, saúde e educação, a existência da sociedade e seu desenvolvimento atinge todas as expectativas e estabilidade para que aqueles pertencentes a ela se sintam aplacados e satisfeitos em sua condição existencial.

E então fica a pergunta de por que aqueles que detêm o poder não fazem as mudanças preconizando e dando prioridade a estas questões? Oras, pelo mesmo motivo que muitos tentam fraldar a bolsa de valores, enganar o arbitro em alguma competição esportiva, praticar bullying, e por aí vai; a resposta final é o ganho individual em detrimento do interesse coletivo.

É nisto que reside a realidade concreta do Brasil, uma população a mercê de ilusões criadas por uma política que mesmo mudando suas jogadas e modelo, consegue perpetuar processos e atingir os mesmíssimos resultados, não importando se a partida e o sistema forem diferentes. O resultado sempre será o mesmo, ludibriando e dando a falsa ilusão daqueles que estão envolvidos no jogo, que podem conseguir uma vitória quando uma nova partida se inicia.

Ardilosa armadilha criada pelo Estabilishment desde os primórdios da nação brasileira, ele é tão eficiente por não depender de modelo político, econômico ou social: ele se mantém entranhado nos hábitos culturais bem como nos mecanismos da indução de pensamento e influência dos costumes. É a arma perfeita nas mãos do status quo, pois venceu e vence suas batalhas sem dar sequer um tiro.

Para que as mudanças que não mudem tenham sua continuidade, ocorre então a necessidade de ferramentas visando manter toda esta penúria, e o meio de alcançar estas metas é o sucateamento da educação brasileira. Vamos sendo criados de modo que a imensa maioria não perceba que está sendo iludida nos joguetes do poder, e aqueles que sabem como funciona isso tudo entram num processo de conformismo com a situação.

Não existiu até hoje um verdadeiro plano de reforma educacional esclarecedora, primando pelo efetivo ensino que consiga quebrar com estas correntes de um nocivo controle das vontades do inconsciente e subconsciente brasileiro, não precisando aqui descrever o tenebroso projeto do “Escola sem partido”. Hábitos e costumes tão profundamente incrustados no consciente nacional só são passíveis de mudança através da educação. Por isto, a educação brasileira permanece arcaica, pois vai de encontro aos interesses daqueles que, como o corcunda anão mestre no xadrez relatado por Walter Benjamin, tem nos políticos os fantoches de suas vontades.

Sendo assim, cada vez mais dou razão a afirmativa de Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”.

Autor: Guilherme Lima

Fonte: Genialmente Louco 

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E é certo que os homens se convencem mais pela experiência do que pela teoria: cultura política e sociabilidade maçônica na mundo luso-brasileiro (1790-1822)

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Introdução

Em 1802, mais precisamente no final do mês de julho, Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça[1] foi preso em Lisboa pelo crime de pertencimento à maçonaria. Ele acabava de retornar de uma viagem que fizera a Londres, onde fora tratar do reconhecimento do Grande Oriente Lusitano junto à Grande Loja de Londres. Sua amizade e proximidade com o ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho[2] não impediu que ele fosse remetido inicialmente para a Intendência Geral da Polícia e por lá permanecesse em segredo por aproximadamente seis meses. Posteriormente, em janeiro de 1803, foi transferido para os cárceres da Inquisição de Lisboa conforme determinação do príncipe regente D. João[3].

Em 1805, Hipólito José da Costa conseguiu fugir dos cárceres da Inquisição de Lisboa e se estabelecer em Londres sob a proteção do Duque de Sussex[4]. Nesse mesmo ano publicou Cartas sobre a Framaçonaria, onde procurou através de um conjunto de cartas supostamente remetidas de Londres, entre os meses de abril a maio de 1802, esclarecer a um amigo, cujo nome não é revelado, que viveria em Lisboa, as questões mais importantes sobre a maçonaria: sua origem, sua organização interna, as razões da perseguição movida, sobretudo pelo Tribunal da Inquisição.

Como um típico representante do reformismo ilustrado, para Hipólito José da Costa, a função da maçonaria não era mais polir a pedra bruta como os antigos pedreiros medievais faziam, mas sim construir um novo homem que fosse o sustentáculo de uma sociedade mais “próspera” e mais “civilizada”.

Estas associações particulares [a maçonaria é um exemplo] não só são úteis às nações incultas, porque as trazem pouco a pouco ao estado de civilização; mas são também mui interessantes às nações já mais provectas, porque, nestas sociedades particulares, necessariamente se habituam os homens à virtude da condescendência, que tanto contribui para manter a tranquilidade entre os homens. O uso destas sociedades ensina também forçosamente a necessidade de leis, e estatutos; e mostra que, sem a existência, e observância de leis, não podem os homens viver em comum. Esta verdade aprende-se praticamente nas sociedades particulares; e é certo que os homens se convencem mais pela experiência do que pela teoria. Os membros destas sociedades passam alternativamente de superiores a súditos, e de súditos a superiores; e portanto, hão de necessariamente adquirir conhecimento prático efetivo da utilidade das leis civis, e da necessidade que há, de manter a ordem e o sossego público, para se gozar a tranquilidade, e felicidade de que o Mundo é susceptível[5].

A citação acima, da qual também foi retirado o título desse artigo, expressa a relação entre sociabilidade e civilização que marcou grande parte da elite letrada setecentista e oitocentista. Período marcado, como sublinha Pilar Bernaldo, pela expansão do campo semântico do social, no qual termos como “sociedade”, “social”, “sociável” e “sociabilidade” se impunham como categorias a partir das quais os atores pensavam o mundo interrelacional como um conjunto dotada de certo sentido[6]. Para Hipólito da Costa, como para tantos outros, a vida associativa favorecia a interiorização de certos códigos e regras de conduta, o que a transformava em fundamento da vida em comum.

Ao tomar como ponto-de-partida essa identificação (sociabilidade-civilização), busca-se analisar o papel desempenhado pelas lojas maçônicas, sobretudo aquelas criadas na cidade do Rio de Janeiro no início do século XIX, como “escolas de formação e prática políticas”, nas quais os fundamentos da vida em sociedade eram aprendidos, divulgados e, sobretudo, vivenciados.

A Inserção da Sociabilidade Maçônica na América Portuguesa

Apesar das controvérsias sobre o início do funcionamento regular de lojas maçônicas na América Portuguesa e das dificuldades de mensuração dessa atividade, grande parte da historiografia concorda que o processo de maior institucionalização da maçonaria deu-se a partir de 1801 com o funcionamento da loja Reunião no Rio de Janeiro[7]. Consta que esta loja acabou por se filiar, dois anos depois, ao Grande Oriente da Île de France (Ilhas Maurícias, pertencente então à França), tendo sido escolhido como seu representante junto àquela Obediência um francês chamado Laurent. Com base nas pesquisas de José Capela, pode-se aventar que os membros dessa loja maçônica possuíam fortes conexões com os negócios do tráfico de escravos africanos, particularmente aqueles realizados nas costas de Moçambique[8]. Um personagem importante para apreender um pouco dessas conexões foi Vicente Guedes da Silva, filho de João da Silva Guedes que era um dos maiores negociantes de escravos da Praça de Moçambique. Em 1799, Vicente Guedes da Silva foi preso no Rio de Janeiro, juntamente com o negociante Francisco Álvaro da Silva Freire, quando retornava para Moçambique depois de estudar por sete anos no Reino. Com ele foram encontrados alguns catecismos maçônicos e alguns livros que o Vice-Rei Conde de Resende presumia conterem “os errados princípios dos novos Republicanos”[9]. A família Silva Guedes possuía estreitas relações comerciais com os franceses da Ilhas Maurícias.

Os vínculos da loja Reunião com uma Obediência maçônica francesa despertaram nos maçons ligados ao Grande Oriente Lusitano, recém-formado, algumas desconfianças, que culminaram com o envio de representantes ao Rio de Janeiro com o objetivo de subordinar a referida loja maçônica. Tentativa fracassada, mas que acabou por resultar na fundação de duas outras lojas. Chamavam-se Constância e Filantropia[10].

Após 1808, com a transformação do Rio de Janeiro em sede da monarquia portuguesa, tem-se notícia do funcionamento, das lojas Emancipação, São João de Bragança, Beneficência, Comércio e Artes[11]. José Anselmo Correia Henriques, em 1816, em carta dirigida a D. João VI, utilizando-se de retórica exagerada, denunciou o grande número de maçons na Corte do Rio de Janeiro. “Vossa Alteza Real está cercado de Franco-maçons, e o partido é já tão poderoso, e grande, que só uma medida de força adequada a sua potência a pode desarraigar pela raiz; (…)”[12].

Bahia e Pernambuco eram também centros maçônicos importantes no início do século XIX. Em 1808, por exemplo, o Capitão José Carlos Paes Barreto, proprietário do engenho Saltinho, em Pernambuco, denunciou ao Santo Ofício que o Padre José Felício o havia convidado para ser Pedreiro Livre. Por essa denúncia, o Santo Ofício tomou conhecimento que o número de maçons havia progredido na capitania de Pernambuco, tanto no interior quanto na cidade do Recife. Motivo pelo qual, solicitou aos Inquisidores de Lisboa que medidas fossem tomadas, pois se nada fosse feito, “em poucos anos, ficará este vasto Brasil todo herege”[13].

Na Bahia, a loja maçônica mais antiga Virtude e Razão (1802), depois de um breve período de interrupção de suas atividades, foi reerguida passando a se intitular Virtude e Razão Restaurada. Além desta, foram fundadas as lojas Humanidade e União[14]. Quando passaram por Salvador, em 1818, os naturalistas Spix e Martius constataram essa efervescência da maçonaria baiana. Em tom negativo, comentaram:

Como veículos e favorecendo tais idéias, devemos citar certos grêmios, criados sob o nome de lojas maçônicas, os quais, longe de conservarem a feição humanitária e inofensiva das sociedades congêneres da Europa, se aproveitam da inexperiência e ociosidade, para espalhar o gosto pelas inovações e despertar extravagantes esperanças e desejos de melhores condições políticas.[15]

A constatação desse crescimento nos coloca algumas questões. Quais as representações criadas pela sociedade luso-brasileira em torno do pertencimento à maçonaria? Como as autoridades portuguesas civis ou eclesiásticas viam a expansão do fenômeno maçônico, especialmente no Brasil, na virada do século XVIII para o século XIX?

Representações em Torno do Pertencimento Maçônico

Os anos que se seguiram à Revolução Francesa, foram vividos pelas autoridades portuguesas como um período de extrema instabilidade ou, como argumenta Valentim Alexandre, de vulnerabilidade, uma “vulnerabilidade permanente, estrutural, que já vem da origem do sistema, no século XVII, revelando-se mais claramente em todas as épocas de conflito internacional aberto à escala européia, e que se acentua no início do século XIX, levando ao colapso de 1807”[16].

Do ponto de vista da sua política externa, Portugal viu-se cada vez mais pressionado a adotar uma nova posição em função do novo mapa europeu provocado pela política expansionista napoleônica. Se oficialmente, a política portuguesa era de neutralidade, na prática ainda era muito forte a estreita aliança entre portugueses e ingleses, a qual remontava à época da Restauração portuguesa de 1640 e que era fundamental para a defesa do próprio Reino e das diversas regiões que compunham o imenso Império Português[17].

A dificuldade de Portugal em manter-se neutro no conflito acabou por revelar, do ponto de vista interno, as lutas e divisões no interior da elite dirigente portuguesa entre o que ficou conhecido como “partido inglês” e “partido francês”. Isto é, entre aqueles que defendiam a manutenção da aliança com a Inglaterra e aqueles que defendiam que Portugal deveria romper com sua política de “neutralidade” e aliar-se aos franceses, evitando-se a invasão dos exércitos napoleônicos e a manutenção da soberania do príncipe regente D. João[18].

Também do ponto de vista interno, o movimento revolucionário francês de 1789, e sobretudo o experimento jacobino, provocou a crescente preocupação das autoridades portuguesas quanto à expansão e “contaminação” da sociedade portuguesa, nas diferentes partes de seu Império, pelas idéias e práticas provenientes da França revolucionária. Contaminação em grande parte atribuída ao expansionismo maçônico verificado naqueles anos.

Em agosto de 1799, Diogo Ignácio de Pina Manique, Intendente Geral da Polícia de Lisboa, em correspondência enviada ao Marquês Mordomo Mor, defendeu uma atitude fortemente repressiva em relação aos maçons, na medida em que eles formavam uma ampla rede que ultrapassava as fronteiras nacionais e que objetivava a derrubada da monarquia. A maçonaria, na visão de Pina Manique, era um foco de “imoralidade e de revolução”. Ela deveria ser condenada, tanto pela maldade que lhe era intrínseca em função do seu caráter secreto, quanto por ser fonte de sedição contra o Rei e contra a Igreja[19].

E, portanto, não era suficiente que os maçons, reiteradas vezes, rebatessem tal crítica dizendo que nada tinham contra os tronos e os altares, até porque vários príncipes e reis europeus eram também maçons ou toleravam publicamente a maçonaria. Argumentação que podemos encontrar nas Cartas sobre a Framaçonaria de autoria do já citado Hipólito José da Costa:

Como é possível que todos os Monarcas das mais ilustradas Nações da Europa consentissem, e até aprovassem, nas suas Monarquias respectivas, esta sociedade, se os princípios fossem antimonárquicos? De nenhuma maneira se faz crível, que todos os Monarcas da Europa consentissem a conservação destes homens nos seus Estados, se o fim desta sociedade fosse diretamente a destruição da Realeza.[20]

Essa argumentação dos maçons não foi bastante para demover a política repressiva em relação à maçonaria. Predominava um sentimento de que a maçonaria não deveria ser tolerada. Em agosto de 1802, por ocasião da prisão do mesmo Hipólito José da Costa, o Intendente Geral da Polícia Pina Manique, em correspondência que subiu à Real presença do Príncipe Regente D. João, reforçou a sua opinião de que as lojas maçônicas eram sementeiras da “revolução”: “É certo, que todas as sublevações que nestes últimos tempos tem havido na Europa, na América Setentrional, e em Marrocos, foram traçadas na grande Loja da mesma América, e nas de Paris, e Londres”[21].

E finalizou sua correspondência dando um parecer favorável a que os acusados de pertencimento à maçonaria fossem processados pelo Tribunal do Santo Ofício que deveria proceder “com severidade, sem contemplar hierarquia, nem caráter contra os cabeças, ou chefes, e alunos das duas Lojas, que há em Portugal, cujos sócios se tem recentemente aumentado a um ponto temível, e digno de uma séria atenção, para de uma vez os destruir, e aniquilar”[22].

A mesma linha de ação foi adotada por Paulo Fernandes Viana, Intendente Geral da Polícia da Corte do Rio de Janeiro, a partir de 1808 com a transferência da Família Real Portuguesa para o Brasil. Com um leque extremamente diversificado de atribuições, a Intendência Geral da Polícia mostrou-se extremamente atenta no sentido de conter e prevenir que a nova sede da monarquia portuguesa fosse atingida pelos ventos revolucionários franceses[23].

Em 9 de fevereiro de 1821, por exemplo, Paulo Fernandes Viana emitiu parecer contrário ao pedido de retorno de degredo de Luiz Prates de Almeida e Albuquerque. Em seu ofício ao Ministro de Estado dos Negócios do Reino, justificou sua posição informando ao ministro:

Este é o da Loja de Pedreiros Livres cuja prisão deu tanto cuidado na ocasião da revolta de Pernambuco, e sobre quem denodadamente supliquei a sua prisão. A vista disso é o meu parecer, que se lhe negue tal licença, que se deixe por lá ficar, e que não torne aqui, principalmente em tais tempos, em que toda esta Irmandade anda tão atrevida, e afoita com o que em Portugal fizeram.[24]

Por força do inegável crescimento da atividade maçônica no início do século XIX – com o funcionamento de lojas maçônicas em Lisboa, Funchal, Salvador, Rio de Janeiro -, foi-se fortalecendo uma visão da maçonaria no interior da sociedade luso-brasileira que a identificava como “traidora”, suspeita de tramar a derrubada da monarquia. Imagem que se fortaleceu, sobretudo, após a invasão das tropas napoleônicas sobre o Reino de Portugal em 1807. A forma amistosa com que alguns maçons se relacionaram com os invasores franceses implicou na identificação deles como “colaboracionistas” e no desencadeamento de forte perseguição depois da expulsão das tropas de Junot de Lisboa. A primeira onda persecutória ocorreu entre 27 e 30 de março de 1809 resultando na prisão de 17 maçons. A segunda grande perseguição desencadeada pela Intendência Geral da Polícia ocorreu entre 10 e 13 de setembro de 1810, episódio que ficou conhecido como “setembrizada”. Foram presas mais de cinqüenta pessoas, sendo remetidas, sem processo judicial, para a ilha Terceira, no arquipélago dos Açores[25].

Além de punir os acusados de adesão ao invasor, as autoridades também se mostraram extremamente temerosas com as suspeições de que se tramava uma conspiração para tornar o Brasil independente de Portugal com a participação dos maçons. Os últimos acontecimentos na América Espanhola muito contribuíam para essa atitude.

Em 1810, a Intendência Geral da Polícia da Corte do Rio de Janeiro abriu uma devassa contra Manoel Luis da Veiga e Francisco Xavier de Noronha Torrezão por serem suspeitos de terem conhecimento ou de participarem de um motim projetado por quarenta negociantes da praça do Rio de Janeiro, descontentes com o governo do Príncipe Regente D. João[26]. Embora nada tenha sido provado, as conexões de Francisco Xavier Noronha Torrezão com a maçonaria não deixaram de chamar a atenção do intendente Paulo Fernandes Viana: “quem foi maçom é capaz de tudo, por isso que quanto a mim nunca deixou de o ser, e por este mesmo princípio o julgo capaz de conversa revolucionária”[27].

Foi nesse mesmo contexto, mais precisamente em agosto de 1811, que D. Domingos Antônio de Souza Coutinho[28] enviou ao seu irmão D. Rodrigo de Souza Coutinho, os papéis que se encontravam arquivados na Representação portuguesa em Londres relativos à descoberta de um suposto plano de insurreição do Brasil, concebido desde 1797, com a participação dos maçons. Pela correspondência de D. Domingos fica-se sabendo que essa descoberta já havia sido comunicada a D. Antônio de Araújo e Azevedo, o Conde da Barca, em 1806 e 1807, que ocupava então o cargo de Ministro do Reino. Entre os papéis novamente encaminhados, D. Domingos anexou uma cópia do despacho dirigido ao Conde da Barca, datado de 05 de outubro de 1806, no qual fazia as seguintes considerações:

Persuado-me, que quanto mais imperfeita pareça a informação obtida, visto não se poderem saber ainda os nomes dos principais chefes do Brasil, e quanto mais fortemente se conclua desta circunstância, que o projeto está muito verde e na sua infância, tanto maior julgará V. Exa. a felicidade de ter notícia dele para o cortar facilmente pela raiz. Repare V. Exa. que a Bahia ou S. Salvador, é o lugar onde os Conjurados se propõem de dar o próximo golpe. É a cidade do Brasil aonde D. Campbell me segurava que havia mais espíritos rebeldes. É o lugar onde segurava que a Irmandade de Pedreiros Livres era mais estendida com de sinais de rebelião a ponto de intimidar os Governadores.[29]

Essa crescente preocupação das autoridades portuguesas quanto à possibilidade de uma conspiração intentada pelos maçons, fez com que D. Domingos Antônio de Souza Coutinho se mostrasse preocupado com sua expansão no Brasil e suas conexões em Londres com a comunidade de luso-brasileiros emigrados. Particularmente, o incomodava o grupo formado por Simon Bolívar, San Martin, Bernardo O’Higgins, Hipólito José da Costa, dentre outros, que se reunia em torno do general Francisco Miranda e habitualmente frequentavam sua casa situada na Grafton Street.

As perseguições aos maçons ocorridas no rescaldo das invasões francesas denotam uma mudança essencial: mais do que “hereges”, os maçons passaram a ser vistos como “conspiradores contra o estado português”, como “traidores”, como “inimigos internos”. E foi em nome do “bem do Estado” que as autoridades portuguesas justificaram as diversas ações repressivas ocorridas no período.

Apesar das perseguições verificadas, sobretudo, após o Alvará Régio de 1818 que considerava o pertencimento a qualquer tipo de sociedade secreta como crime de lesa-majestade, a atividade maçônica no Rio de Janeiro acabou por se reorganizar no início da década de 1820 em meio ao clima de efervescência constitucionalista após os sucessos da Revolução do Porto. Sinais desse novo momento do maçonismo foram a reinstalação da loja maçônica Comércio e Artes em 24 de junho de 1821, e a fundação, um ano depois, de uma obediência maçônica independente, o Grande Oriente Brasílico ou do Brasil, que passaria a concorrer e dirigir as ações dos maçons[30].

O Grande Oriente Brasílico ou do Brasil foi criado em 17 de junho de 1822, a partir da divisão da loja Comércio e Artes, que havia sido reinstalada em 1821, em três novas lojas maçônicas: a Comércio e Artes na Idade de Ouro, a União e Tranqüilidade e a Esperança de Niterói. Essa divisão deu-se em função do número elevado de membros que compunham a loja maçônica Comércio e Artes e para atender o que definia as regras da maçonaria internacional, ou seja, para se criar uma Obediência maçônica era necessário a existência de pelos menos três lojas maçônicas[31].

Além de reconhecido por outras obediências maçônicas estrangeiras, o Grande Oriente do Brasil, a partir do Rio de Janeiro, procurou assumir-se como centro do poder maçônico no Brasil, procurando ao mesmo tempo dinamizar e subordinar as atividades maçônicas existentes nas diversas províncias[32].

Sociabilidade Maçônica e Prática Política

No início da década de 1820, a capacidade da maçonaria atrair novos membros impressiona. Em apenas três meses, aproximadamente, as lojas maçônicas do Rio de Janeiro ligadas ao Grande Oriente do Brasil filiaram ou iniciaram 152 novos membros. Grande parte deles recrutados entre empregados públicos, militares, negociantes, religiosos, profissionais liberais. Se tomarmos como referência inicial os 96 maçons que assinaram a ata de fundação do Grande Oriente, temos um crescimento aproximado de 158%. Como ressalta Marco Morel, no espectro das chamadas sociabilidades modernas que se desenvolveram no Brasil, a maçonaria foi a mais dinâmica e numerosa. Na primeira metade do século XIX, 42% do total de associações em funcionamento no Rio de Janeiro eram de tipo maçônico[33].

Em certo sentido, essa capacidade de atração estava relacionada a sua identificação como um espaço no qual os valores que se atribuía à “sociabilidade” eram experimentados. Assim um olhar para dentro da dinâmica associativa maçônica faz-se necessário.

Embora o fenômeno maçônico não seja monolítico, – alguns autores chegam até mesmo a utilizar a expressão “maçonarias” – isso não quer dizer que ele não possuísse um conjunto de preceitos (teóricos e simbólicos) e práticas comuns que pouco variaram no tempo e no espaço. Como salienta Margaret Jacob:

Universalmente, a identidade maçônica era inexoravelmente secular; o discurso maçônico, embora permitindo a expressão de interesses e circunstâncias locais, fez-se dentro do arcabouço de uma retórica cívica. Central para a identidade maçônica era a convicção de que o mérito e não o nascimento constitui a base para ordem social e política.[34]

No manuscrito Explicação da Maçonaria aos recém recebidos, provavelmente escrito entre 1791 e 1792, por D. André de Morais Sarmento, a maçonaria é definida como uma sociedade “de honra e de virtude”, sendo a prática da igualdade entre os seus membros sua característica distintiva:

Entre nós o que há mais agradável, além de contar com tantos Irmãos, quantos Maçons, é a igualdade que se observa, e que se simboliza no Nível. Luiz XIV, Frederico, e Ganganelli tinham entre nós o mesmo lugar que qualquer outro. À mesa tinham a mesma obediência. Cantavam, se os mandavam, e bebiam a saúde que se lhes propunha com a mesma alegria, sem soberania, nem distinção.[35]

O Régulateur du Maçon definia que para ser admitido na maçonaria era necessário ter a idade de 21 anos, ser de condição livre e ser “senhor” de sua pessoa. Caberia ao Venerável anunciar aos demais maçons reunidos em assembléia a proposta de admissão de um novo membro. Após ser proposto, iniciava-se a fase de investigação ou sindicância sobre as “qualidades do profano”, ou seja, procurava-se verificar se o candidato atendia aos requisitos necessários para ser iniciado na maçonaria. O intervalo entre a proposição e a iniciação do novo membro não deveria ultrapassar a três meses ou o correspondente a três reuniões da loja maçônica. Feita a sindicância, os maçons reunidos em assembleia deveriam decidir, por escrutínio secreto, sobre a admissão ou não do membro proposto[36].

Segundo as sindicâncias encontradas no Arquivo Histórico do Museu Imperial, uma das principais características do maçom era a sua capacidade de guardar segredos, de educar os seus sentidos. Manter o segredo não era fundamental apenas para garantir a sobrevivência da sociedade maçônica, mas era na verdade um meio de educação moral.

O segredo é a primeira virtude do Maçom e do homem de bem. Aquele que não é capaz de guardar um segredo que lhe é comunicado por seus Irmãos e a cuja guarda está obrigado por juramentos terríveis é indigno da Sociedade e a Sociedade deve enfurecer-se contra ele.[37]

Além de guardar segredos, aquele que desejava tornar-se maçom também deveria ser um homem honrado e cultor das virtudes morais. Deveria, portanto, ser um homem respeitado pelos seus concidadãos, respeitado e amado pelos seus familiares e ter reputação de bom profissional. Para o sindicante Francisco Júlio Xavier, o “profano” Patrício Antônio Sepúlveda cumpria tais requisitos:

…como militar merece a estima e elogios de todos os da sua Corporação por cumprir com todas as obrigações do seu emprego, e ser muito honrado militar; como cidadão, informaram-me de que é homem virtuoso, que trata com a maior estima e respeito de sua mãe, a quem com prazer alimenta e ama com ternura, que é muito adicto ao sistema constitucional brasílico.[38]

Como já referido, após a realização das sindicâncias, a aprovação ou não de um novo membro era objeto de intensa discussão pela assembléia maçônica. Os votos eram colhidos por esferas brancas e pretas. Apesar da possibilidade de um segundo escrutínio, a presença de duas esferas pretas praticamente reprovava o candidato. Durante o período estudado, 29 pretendentes tiveram seus pedidos de iniciação ou filiação recusados pelas lojas fluminenses. A conduta irregular tanto na vida privada como pública foi a justificativa mais utilizada pelos sindicantes. Assim, o caráter orgulhoso, o mau trato da família, a venalidade, a pouca educação, eram características que muito contribuíam para que uma proposta de iniciação fosse reprovada. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Luís Bandeira de Gouveia que teve sua iniciação reprovada por que segundo o sindicante era “venal no cargo público que ocupava”[39]. O mesmo motivo também impediu que Luís de Menezes de Vasconcellos fosse iniciado. Segundo o sindicante: “O profano (…) na qualidade de administrador da Alfândega nada mais tem por [feitio], que o vil interesse que lhe resulta em continuadas denúncias, faltando aos seus mais sagrados deveres, uma vez que possa colher alguma soma daqueles com quem trata naquela repartição”[40].

Entretanto, havia outros momentos deliberativos, nos quais as práticas da opinião, do voto cruzavam o espaço maçônico. Refiro-me, por exemplo, à apreciação das moções, normalmente, apresentadas por escrito e depositadas no chamado “saco de proposições”; a nomeação de representações, comissões ou deputações; a escolha dos dirigentes das lojas, realizada de forma direta, por escrutínio secreto, de periodicidade anual, normalmente, realizadas nos dias de solstício (verão e inverno).

Fazia parte também desta prática deliberativa a avaliação dos pedidos para elevação de graus na ritualística maçônica, os quais, no período estudado, eram apreciados pelo Grande Oriente. Em 12 de julho de 1822, por exemplo, o pedido de José Rodrigues Gonçalves Valle foi aprovado “por constar, na Grande Loja, que havia assegurado pela sua cabeça, em algumas ocasiões, que os nossos trabalhos se dirigiam ao fim augusto da Reunião, Conciliação e Independência do Brasil, sob os auspícios de seu Augusto Defensor”. Por sua vez, o pedido de José de Almeida Saldanha, membro da loja maçônica Comércio e Artes na Idade de Ouro, foi recusado com a justificativa de que o solicitante era “pensionário da Loj∴ e não deveria, por isso, receber aquelas gratificações honoríficas que ela reservava para galardoar os outros IIr∴”[41]. Se a maçonaria, dentre os novos espaços de sociabilidade se mostrava como um dos mais “constitucionais e cívicos”, é necessário não ignorar que ela também foi um espaço de afirmação das hierarquias.

Todavia, uma dimensão pouco conhecida da sociabilidade maçônica é a sua prática constitucional, tanto no sentido antigo quanto moderno. Desde o início do século XVIII, em meio às transformações que moldaram a chamada maçonaria especulativa, inicialmente na Grã-Bretanha, os maçons adotaram um conjunto de regulamentos e normas de conduta que foram sistematizados por James Anderson. Espécie de estatuto orgânico da instituição, de regimento interno, esse texto fundamental foi publicado pela primeira vez em 1723. Esforço de sistematização que acabou por provocar significativa cisão, iniciada em 1740 e formalizada em 1751, dos maçons ingleses entre “modernos” e “antigos”. Estava em jogo a fundação de lojas sem o reconhecimento da Grande Loja da Inglaterra e a reivindicação, por aqueles que se autodenominaram “antigos”, de fidelidade ao passado da ordem e aos velhos rituais[42].

Por sua vez, em fins do século XVIII ou princípios do XIX, na medida em que a sociabilidade maçônica se expandia, constata-se que algumas obediências maçônicas nacionais passaram a adotar textos constitucionais, agora num sentido moderno, organizadores dos poderes maçônicos. Por exemplo, em 1806, o Grande Oriente Lusitano, aprovou sua Constituição Maçônica com 199 artigos, divididos em 14 capítulos. Por este ordenamento ficava estabelecido que todos os maçons regulares participariam da administração da Ordem por meio de representantes (art. 3º.); que cada loja de Lisboa tinha três representantes, dos quais o venerável seria nato e outros dois seriam eleitos dentre os demais membros (art. 4º.); que as lojas das províncias, das Ilhas e dos domínios ultramarinos ou seriam representadas cada uma por uma das lojas de Lisboa ou teriam junto ao Grande Oriente Lusitano um plenipotenciário para esse fim nomeado por elas (art. 5º.); que o Congresso Geral da Maçonaria Portuguesa seria composto pela união dos veneráveis, plenipotenciários e representantes das lojas (art 6º.); que todas deliberações seriam tomadas à pluralidade de sufrágios dos membros presentes, cujo número não será menor de duas terças partes da sua totalidade absoluta para a decisão ser legal (art. 14o.)[43].

Esse Congresso Geral, espécie de poder legislativo maçônico, se apresentava subdividido em duas câmaras: a Câmara dos Veneráveis e a Câmara dos Representantes. Caberia a Câmera dos Veneráveis (Câmara Alta) aprovar as Leis e Constituições gerais da Maçonaria Portuguesa, depois de discutidas na Câmara dos Representantes. Por sua vez, caberia à Câmara dos Representantes (Câmara Baixa) tomar a iniciativa e discutir todos os projetos de leis; vigiar pelo cumprimento das leis; administrar as receitas e despesas.

Por sua vez, o poder executivo estava nas mãos dos Grandes Dignitários: o Grão-Mestre, o Grande Administrador, dois Grande-Vigilantes, o Grande Orador, o Grande Secretário e o Grande Tesoureiro. Todos eles eleitos pelo Congresso Geral por um período de três anos. Todavia era facultado ao Congresso Eleitoral escolher os Grandes Dignitários, ou dentre os seus membros, ou da massa geral dos Maçons Portugueses.

Por sua vez, quando da fundação do Grande Oriente do Brasil, em junho de 1822, é possível encontrar diversas referências a uma “Constituição Maçônica Brasílica” que se encontrava em elaboração e aprovação. Na sessão de 31 de julho de 1822 do Grande Oriente, constata-se, por exemplo, o envio da “primeira parte da Constituição, já sancionada e jurada” aos maçons da Loja Mineiros Reunidos da cidade de Ouro Preto (Minas Gerais). Já na sessão de 04 de outubro de 1822, a direção do Grande Oriente deu conhecimento aos demais maçons que a Loja Capitular de Pernambuco “reconhecia e saudava o Grande Oriente do Brasil, pedindo, contudo, a faculdade de fazer algumas reflexões sobre a cópia da primeira parte da Constituição que lhe fora apresentada pelo Irmão Felipe Neri”[44].

Esse texto constitucional teria sido escrito por uma comissão encarregada pelo Grande Oriente do Brasil composta por dois membros de cada uma das três lojas fluminenses. Só conhecemos os nomes indicados pela loja Esperança de Niterói: João José Vahia (professor de retórica e poética na Corte e advogado) e Francisco Júlio Xavier (Doutor em Medicina pela Universidade de Paris). Infelizmente, não consegui identificar nos arquivos e bibliotecas nenhum exemplar dessa constituição ou mesmo algum dos seus rascunhos[45].

De qualquer forma, a percepção de que a transformação do Grande Oriente do Brasil em centro soberano dos maçons “brasileiros”, desligado portanto do Grande Oriente Lusitano, estava diretamente ligada a elaboração e juramento de uma “constituição maçônica brasílica”, reforça a progressiva falência do projeto reformista-ilustrado de construção de um império luso-brasileiro e a solução pela independência com base na construção de um império brasílico.

Considerações Finais

Ao descrever essas práticas que marcavam o interior da sociabilidade maçônica, uma última questão se impõe. Em que medida o pertencimento maçônico foi nesse período um instrumento definidor de campos identitários na arena política? Antes de responder, é preciso não cair na armadilha de supor que o comportamento dos atores pode ser deduzido apenas da filiação a uma associação, o que nublaria a percepção das divisões, intrigas e conflitos que atravessavam a sociabilidade maçônica no período. Além disso, as lojas maçônicas não foram os únicos espaços associativos frequentados por esses homens naquele período.

Ter em conta esse tipo de dificuldade não quer dizer que os maçons não tenham tentado, a partir dos vínculos gerados tanto de natureza simbólica (iniciação, segredo) quanto prática, produzir consensos, garantir algum grau de fidelidade política. É o que se pode perceber, por exemplo, na decisão do Grande Oriente do Brasil, aprovada em 12 de julho de 1822, de que em todas as lojas maçônicas sob sua jurisdição fosse instituído um livro de juramentos no qual assinassem todos os atuais maçons, todos os filiados e iniciados, fazendo-se expressa menção da “Defesa do Brasil e da sua Independência sob os auspícios de Seu Aug∴ Defensor”[46]. Ou quando o mesmo Grande Oriente do Brasil definiu com mais clareza os critérios que deveriam orientar as sindicâncias sobre a iniciação e filiação de novos membros, a saber:

Estado – se é casado, que tratamento dá a sua esposa e família, que educação a seus filhos; se é solteiro, que decência de costumes. Emprego – que crédito tem no desempenho de seus deveres civis e morais. Política – quais são os sentimentos pela causa do Brasil e da sua Independência. Costumes em geral – que amor à beneficência e adesão à amizade.[47]

No mesmo sentido pode ser compreendida a proposição e a repreensão do Frei Francisco Sampaio[48], redator do periódico O Regulador Brasileiro, em assembleia geral do Grande Oriente datada de 14 de setembro de 1822, por veicular em seu jornal:

…doutrina política que era subversiva dos princípios constitucionais e jurados nesta Aug∴ Ord∴, enquanto pretendia fazer persuadir aos povos do Brasil princípios aristocráticos, que não se compadecem com a liberdade constitucional que os Brasileiros anelam e que só pode fazer a sua felicidade política e muito mais quando tal doutrina é diametralmente oposta ao sistema constitucional, abraçado, proclamado, jurado e seguido pelo Aug∴ e Perpétuo Defensor do Reino do Brasil e portanto só própria para nascer a seus interesses, provando as asserções insidiosas do Congresso de Lisboa, de que os áulicos do Rio de Janeiro pretendem restabelecer o despotismo.[49]

Joaquim Gonçalves Ledo[50], na qualidade de presidente da sessão, acusou-o de afastar-se dos “deveres de um bom Maç∴ e de um Brasileiro amante da verdade, enquanto, por considerações e respeitos humanos, marchava fora dos traços da esquadria e do compasso, abrigando, debaixo do seu bom renome, alheias opiniões contrárias aos verdadeiros interesses da Nação Brasílica”[51]. Apesar da retórica contundente, o que se queria era a constituição de vínculos fortes que pudessem gerar relações de confiança entre os atores envolvidos.

Desta forma, em meio aos debates que mobilizaram o início da década de 1820 em torno do projeto de independência em relação a Portugal com base na construção de um império constitucional brasílico, sem romper com o princípio da legitimidade dinástica, o pertencimento maçônico desempenhou papel significativo ao contribuir para o aprendizado e vivência das práticas representativas e constitucionais, para o fortalecimento de vínculos identitários, bem como para o forjar de uma cultura política que tinha como um dos seus pilares a crença de que o mérito constituía o fundamento da nova ordem social e política.

Autor: Alexandre Mansur Barata

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Notas

[1] –  Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça (1774-1823). Natural da Colônia do Sacramento, então sob domínio da Coroa Portuguesa. Formou-se bacharel em Leis e Filosofia pela Universidade de Coimbra, acabando-se por se tornar um dos membros do grupo de jovens intelectuais que se reunia em torno da figura do ministro da Marinha e Domínios Ultramarinos D. Rodrigo de Souza Coutinho, o conde de Linhares. Ingressou na maçonaria durante sua viagem a Filadélfia em 1799. Foi o editor do Correio Brasiliense ou Armazém Literário, periódico que circulou entre 1808-1823.

[2] – D. Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), primeiro Conde de Linhares. Iniciou sua carreira diplomática em 1779 como ministro plenipotenciário na corte da Sardenha. Em 1796, retornou a Portugal para ocupar o cargo de ministro e secretário de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos. Presidiu o Erário Régio entre 1801 e 1803. Em função da sua discordância com a política portuguesa em relação à França Napoleônica, deixou o cargo de ministro em 1803. No final de 1807 acompanhou a viagem da Família Real Portuguesa para o Rio de Janeiro, reassumindo o cargo de ministro. Morreu no Rio de Janeiro em 1812.

[3] – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa, Portugal). Inquisição de Lisboa, processo 16809; Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Rio de Janeiro, Brasil). Notas, documentos e Relação dos Pedreiros Livres ou Franco maçons, em Portugal. Documentos sobre o Réu José Hipólito da Costa. Lisboa, 1802-03. Lata 21, documento 02.

[4] – Príncipe Augusto Frederico (1773-1843), Duque de Sussex. Filho do Rei Jorge III da Inglaterra. Viveu em Portugal entre 1801 e 1805. Foi Grão-Mestre da Grande Loja da Inglaterra entre 1813 e 1843.

[5] – Hipólito José da Costa Furtado de Mendonça, Cartas sobre a Framaçonaria (Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de Seignot-Plancher e Ca., 1833) 113-114.

[6] – Pilar González Bernaldo de Quirós, “La sociabilidad y la historia política”, In Actores, Representaciones e imaginarios: homenaje a François-Xavier Guerra, ed. Jaime Peire (Caseros, Argentina: Eduntref, 2007).

[7] – Manifesto do Gr∴ Or∴ do Brasil a todos os GGr∴ OOr∴, GG∴ LL∴, LL∴ RR∴ e MM∴ de todo o mundo (Rio de Janeiro: Typ. Austral, 1837).

[8] – José Capela, O escravismo colonial em Moçambique (Lisboa: Afrontamento, 1997), 197.

[9] – Foram encontrados entre os pertences de Vicente Guedes da Silva e Souza 25 livros e 06 cadernos. Entre os cadernos, três eram relativos à maçonaria. Entre os livros, podia-se encontrar: Rousseau, Voltaire, Helvetius, Condillac, Cervantes, Molière, entre outros. Ver: Arquivo Nacional (Rio de Janeiro, Brasil). Vice Reinado, caixa 491, pacotilha 1.

[10] – Nos meses de outubro e novembro de 1804, como consta de um passaporte maçônico emitido pelo Grande Oriente Lusitano, Ignácio Alberto de Oliveira, membro da Loja Amizade No. 5, de Lisboa, visitou essas duas lojas do Rio de Janeiro. Ver: A. H. de Oliveira Marques, A história da maçonaria em Portugal (Lisboa: Presença, 1990) v.1, 85-86.

[11] – Oliveira Marques, 106; Carlos Rizzini, “Dos clubes secretos às lojas maçônicas”, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Rio de Janeiro, Brasil) 190, jan-mar (1946): 29-44.

[12] – Biblioteca Nacional (Lisboa, Portugal). Carta de José Anselmo Correia Henriques dirigida ao Rei Dom João VI, datada do Rio de Janeiro, 1816, na qual se pede que o Rei dissolva as lojas maçônicas. Reservados, COD 10793.

[13] – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa, Portugal). Inquisição de Lisboa, processo 17338.

[14] – Mário C. do Rego Mello, “A maçonaria no Brasil”, In Livro maçônico do centenário, ed. Octaviano Bastos et alii (Rio de Janeiro: Grande Oriente do Brasil, 1922) 193; Rizzini, 29-44; Celso Jaloto Ávila Júnior, A maçonaria baiana e sua história (Salvador: P & A Editora, 2000), 17-38.

[15] – Johann Baptiste von Spix & Carl Friedrich Phillipp von Martius, Viagem pelo Brasil, 1817 – 1820 (Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1981), v.2, 149-150.

[16] – Valentim Alexandre, Os sentidos do império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime português (Porto: Afrontamento, 1993), 93.

[17] – Ana Cristina Bartolomeu de Araújo, “As invasões francesas e a afirmação das ideias liberais”, In História de Portugal: o liberalismo, 1807-1890, ed. Luís Reis Torgal & João Lourenço Roque (Lisboa: Estampa, 1998), 21-40.

[18] – Ibíd., 24.

[19] – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa, Portugal). Intendência Geral da Polícia. Número de Ordem 5, 320v325v, 08/08/1799.

[20] – Furtado de Mendonça, 136-7.

[21] – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Rio de Janeiro, Brasil). Notas, documentos e relação dos Pedreiros Livres ou Franco-maçons em Portugal. Documentos sobre o Réu Hipólito José da Costa. Lisboa, 1802-03. Lata 21, documento 02.

[22] – Ibíd.

[23] – Maria Beatriz Nizza da Silva, “A Intendência Geral da Polícia: 1808-1821”, Acervo (Rio de Janeiro, Brasil) 1, n.2 (1986): 137-251.

[24] – Arquivo Nacional (Rio de Janeiro, Brasil). Polícia da Corte: Registro da Correspondência da Polícia (ofícios da Polícia aos Ministros de Estado, Juízes do Crime, Câmaras, etc). Códice 323, v. 06, 63.

[25] – Oliveira Marques, 99.

[26] – Andréa Slemian, A vida política em tempo de crise: Rio de Janeiro, 1808-1824 (São Paulo: Hucitec, 2006).

[27] – Arquivo Nacional (Rio de Janeiro, Brasil). Devassa de 1810 – Auto de perguntas feitas a Manoel Luis da Veiga, e a Francisco Xavier de Noronha Torrezão, oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos. Rio de Janeiro, Caixa 2754, Coleção Devassas.

[28] – Domingos Antônio de Souza Coutinho (1760-1833), Conde de Funchal. Formado em Leis pela Universidade de Coimbra, iniciou carreira diplomática na Dinamarca em 1788. Era irmão de D. Rodrigo de Souza Coutinho. Entre 1803 e 1814 ocupou o cargo de Ministro Plenipotenciário de Portugal junto a Corte de Londres.

[29] – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa, Portugal). Ministério dos Negócios Estrangeiros, Legação de Portugal na Inglaterra, Caixa 730.

[30] – Segundo Lúcia Maria B. Pereira das Neves, no início da década de 1820, o termo “Brasílico” era utilizado para se referir ao que era “específico do Brasil”, ao que não dependia de Portugal. Ver: Lúcia Maria B. Pereira das Neves, Corcundas e constitucionais: a cultura política da Independência, 1820-1822 (Rio de Janeiro: Revan-Faperj, 2003) 218.

[31] – Arquivo Histórico do Museu Imperial (Petrópolis, Brasil). Casa Imperial do Brasil. Atas (minutas) de sessões maçônicas, 1822. (com anexos).

[32] – Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, ano 48, 1923, 584-6.

[33] – Marco Morel, As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial, 1820-1840 (São Paulo: Hucitec, 2005).

[34] – Margaret C. Jacob, Living the Enlightnment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe (New York: Oxford University Press, 1991), 9.

[35] – Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa, Portugal). Inquisição de Lisboa, processo 8614.

[36] – Arquivo Histórico do Museu Imperial (Petrópolis, Brasil). Casa Imperial do Brasil. Atas (minutas) de sessões maçônicas, 1822. (com anexos). II – POB – 1822 – Mac. at 1-10.

[37] – Ibíd.

[38] – Ibíd.

[39] – Ibíd.

[40] – Ibíd.

[41] – Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, ano 48, 1923, 578-9.

[42] – Steven C. Bullock, Revolutionary brotherhood: Freemasonry and the transformation  of the American Social Order, 1730-1840 (North Carolina: The University of North Carolina Press, 1996), 88-9; Jacob, 60-62.

[43] – Constituição da Maçonaria em Portugal: primeira parte (Lisboa: Impressão Liberal, 1822).

[44] – Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, ano 48, 1923, 585.

[45] – Arquivo Histórico do Museu Imperial (Petrópolis, Brasil). Casa Imperial do Brasil. Atas (minutas) de sessões maçônicas, 1822 (com anexos). II – POB 1822 Maç. at 1-10; Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Rio de Janeiro, Brasil). Livro de Atas da Loja Maçônica “Esperança de Niterói”, ARQ. 1.5.33; Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, ano 48, 1923.

[46] – Naquele período, ainda de grande incerteza, muitas ações foram tomadas em nome da “Causa do Brasil e da sua Independência”, da “Defesa do Brasil e da sua Independência”. Mas é preciso levar em consideração que elas não necessariamente implicavam na defesa da separação política do Brasil. Muitas vezes, falava-se em “independência”, mas no sentido da preservação da “autonomia e dos direitos econômicos” conquistados, sobretudo, a partir de 1808. Foi com o transcorrer dos embates políticos que “independência” assumirá o sentido de separação política do Brasil. Ver: Gladys Sabina Ribeiro, A liberdade em construção: identidade nacional e conflitos antilusitanos no Primeiro Reinado (Rio de Janeiro: Relume-Dumará-Faperj, 2002) 45-50; Andréa Slemian & João Paulo G. Pimenta, O “nascimento político” do Brasil: as origens do Estado e da nação, 1808-1825 (Rio de Janeiro: DP&A, 2003) 78; Arquivo Histórico do Museu Imperial (Petrópolis, Brasil). Casa Imperial do Brasil. Atas (minutas) de sessões maçônicas, 1822. (com anexos). II – POB – 1822 – Mac.at 1-10; Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, ano 48, 1923, 580.

[47] – Arquivo Histórico do Museu Imperial (Petrópolis, Brasil). Casa Imperial do Brasil. Atas (minutas) de sessões maçônicas, 1822. (com anexos). II – POB – 1822 – Mac.at 1-10; Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, ano 48, 1923, 578.

[48] – Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio (1778-1830), franciscano do Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, orador sacro e um dos redatores do periódico “Regulador Luso-Brasileiro”, que após a Independência em 1822 passou a ser chamado de “Regulador Brasileiro”. Foi iniciado maçom por volta de 1805. Em 1822, era membro da loja maçônica Comércio e Artes na Idade de Ouro, uma das lojas filiadas ao Grande Oriente do Brasil.

[49] – Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, ano 48, 1923, 791-793.

[50] – Joaquim Gonçalves Ledo (1781-1847) era natural do Rio de Janeiro. Em 1811, assumiu um cargo na Contadoria do Arsenal Real do Exército. Era também proprietário de uma fazenda no distrito de Santo Antônio de Sá (Rio de Janeiro) e de uma loja de comércio que herdara do pai. Foi editor, juntamente com Januário da Cunha Barbosa, do periódico Revérbero Constitucional Fluminense (1821-1822). Atuou decisivamente nos principais acontecimentos que tiveram lugar no Rio de Janeiro na conjuntura da Independência do Brasil. Em 1822, era membro da loja maçônica União e Tranqüilidade e 1º. Grande Vigilante do Grande Oriente do Brasil.

[51] – Boletim do Grande Oriente do Brasil. Rio de Janeiro, ano 48, 1923, 791-793.

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Carta de Londrina

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Ao finalizar duas Sessões de Pesquisas e Estudos, realizadas pela Loja de Pesquisas Maçônicas “Brasil”, de Londrina, ocorridas, respectivamente, nos dias 14/03/02 e, continuadas, no dia 11/04/02, dada a importância dos debates sobre o tema CARIDADE MAÇÔNICA, proferido pelo Irmão Francisco de Assis Carvalho (Xico Trolha), solicitaram os presentes que fosse redigida uma Carta de Intenções, tendo os presentes solicitado que a mesma fosse publicada nas revistas e periódicos maçônicos de todo o País, onde fossem referidos os pontos básicos destas duas palestras, alertando Maçons e, especialmente, os Veneráveis e Hospitaleiros, sobre o uso correto do Tronco de Beneficência, bem como o teor da palestra, que foi específica em esclarecer o que vem a ser a Caridade Maçônica, enfocada pelo ilustre palestrante.

Em resumo, após a palestra e debates, os Irmãos presentes chegaram a algumas conclusões:

  • A Maçonaria atual está, em muitos aspectos, afastada dos seus valores antigos e tradicionais e, em especial, em certos usos e costumes, os quais foram, paulatinamente, sendo, através dos anos, totalmente distorcidos;
  • Sabe-se que a Maçonaria, desde que apareceu, conseguiu sobreviver, no mundo, sempre em condições adversas, sofrendo perseguições e que seus primeiros componentes se protegiam como Irmãos, quer física, quer financeiramente. Qualquer membro da confraria era defendido em todos os sentidos e, em caso de sua morte a família, viúva e filhos, eram assistidos, financeiramente, nos mesmos moldes das confrarias de pedreiros, das guildas e outras entidades afins. Em algumas destas organizações havia até auxílio funeral, além de outros atendimentos;
  • A Maçonaria não auxiliava profanos de forma alguma, somente os Maçons, seus verdadeiros confrades, seus Irmãos e suas famílias, através de caixas ou fundos arrecadados especialmente para este fim;
  • No início do século XX a Maçonaria brasileira, alguns anos após a Proclamação da República, já sem outras metas maiores naquele momento, começou a competir com a Igreja Católica, Espírita e, posteriormente, com as Igrejas Evangélicas, em matéria de caridade a profanos;
  • A maioria das Lojas, atualmente cerca de 95%, desenvolve uma forma amadorística de filantropia, onerando seus obreiros pagantes e eliminando, através das famosas Sessões de finanças, aqueles que estão em atraso, a maioria das vezes por dificuldades ocasionais. Temos perdido muitos Irmãos nestas circunstâncias. Se a Loja tivesse um Fundo de Reserva, estes Irmãos poderiam ser socorridos;
  • É uma situação até certo ponto cultural, um erro de avaliação, pois acabamos, no afã de ajudar o próximo, esquecendo de nós próprios;
  • É nossa intenção levantar este problema para que a Maçonaria Brasileira reflita, e que quem queira ser filantropo, ou que queira ajudar profanos, que o faça em seu nome. Deixe sua Loja de lado. Não faça caridade envolvendo a Loja, ou Irmãos.

A Loja é mais uma Escola, onde se aprende as grandes lições de vida que ela nos ensina e, dentre elas, justamente a caridade, a fraternidade, o amor e o auto-aprimoramento. Mas, como nossos recursos são poucos e a maioria dos Maçons brasileiros é de classe média baixa, não podemos fugir às nossas tradições de autoproteção. Temos que investir nisso. Temos que acordar e fazer uso da Carta de Londrina, como faziam os primeiros Maçons. Não são as ajudas mútuas que salvam situações. Toda Loja deve ter um fundo de auxílio.

Às vezes, um membro da família de um Irmão falecido (nosso Sobrinho, por exemplo) necessita estudar e não tem condições. Ficará o jovem entregue a sua própria sorte?

O tronco de beneficência não poderá, jamais, ser usado para reforma de templos, ou para orfanatos, ou creches profanas. É uma tradição que não está sendo respeitada. Estamos tentando este tipo de apelo para sensibilizar Irmãos e Lojas e até Potências para que reflitam sobre as exposições aqui feitas, no intuito de nos tornarmos fortes, criando fundos, com estatutos bem definidos, organizados de forma bastante transparente, com assistência jurídica bem orientada, registrados em cartório, etc., para que possamos atender a família enlutada de muitos Irmãos, com dignidade, amor e fraternidade que elas merecem.

Autor: Hercule Spoladore

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Mensagem de fim de ano do Grão-Mestrado da GLMMG

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O ano de 2017 termina assolado por uma crise política, econômica, social, moral e ética. Será que essa crise e clima de desesperança que vem afligindo o povo brasileiro, vem influenciando, também, os espíritos de nossos irmãos? É chegada a hora de refletir, rever as etapas vivenciadas nos últimos doze meses e avaliar: Fizemos o certo? Demos o máximo de nós mesmos? Poderíamos ter feito melhor? Lutamos por aquilo que realmente acreditamos e queríamos? Nos desculpamos pelos nossos erros? Somos, hoje, melhores do éramos há um ano? O que fizemos para mudar a nós mesmos?

Esses são questionamentos que devem ser feitos regularmente, mas que ganham força nessa época do ano tão especial, em que enxergamos a possibilidade de transformação; em que prometemos a nós mesmos que realizaremos nossos sonhos; que buscamos melhorar as nossas vidas e as vidas das pessoas que queridas; em que afirmamos que, desta vez, faremos o máximo para progredir como seres humanos. Mas, mais importante do que prometer é sair do campo do discurso e agir! Colocar em prática tudo que desejamos para que, daqui a um ano, possamos avaliar nossa trajetória com satisfação maior do que a que sentimos hoje.

Desejamos que toda essa vontade de transformação também seja direcionada para o campo espiritual e profissional de todos os irmãos e familiares. E que possamos canalizar cada vez mais nossa energia na luta por melhor qualidade de vida e, como maçons, assumir o verdadeiro papel na defesa do bem estar da coletividade.

Tanto na Ordem Maçônica, como na vida, não podemos agir como se fôssemos meros expectadores que aguardam algum salvador para nos ajudar. Devemos, nós mesmos, definir os rumos de nossa história. E que a história seja cada vez mais, e sempre, um legado de muita transformação. Não esperemos que a vida ofereça oportunidades sagradas de servir. Devemos buscá-las, no dia a dia, com nossas ações e atitudes, não esquecendo que maçonaria não é aventura, e sim uma reunião de homens livres e de bons costumes perseguindo os objetivos colimados pela Sublime Ordem, tais como: o aprimoramento espiritual e moral da Humanidade, a luta pelos direitos dos homens e pela Justiça, a busca por unir forças para uma maior e mais perfeita compreensão entre os homens, sem distinção de raças nem de crenças.

Feliz Natal e um 2018 cheio de conquistas!

Geraldo Eustáquio Coelho de Freitas
Grão-Mestre

Edilson de Oliveira                                                                                 Sérgio Quirino Guimarães
Grande 1º Vigilante                                                                                       Grande 2º Vigilante

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Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?”

Resultado de imagem para o iluminismoFilósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-Charles Lemonnier, 1812

Apresentação

O opúsculo de I. Kant Resposta à pergunta: “Que é o iluminismo?” (1784) é, como se sabe, um texto clássico. Por razões várias.

– É um dos manifestos mais ‘interessantes’ da Ilustração europeia. Como tal, figura não só como um dos mais contundentes apelos ao exercício autônomo da razão, à liberdade de pensamento, mas constitui ainda uma expressão sintomática de um momento fundamental na estruturação da consciência moderna, com o seu afã de novidade, de expansão e conquista do mundo e da natureza, de destruição da ordem estática das sociedades, mas também com o seu desprezo da tradição, com a vertigem do solipsismo.

– É, por outro lado, um texto-alvo no recente debate sobre o projeto da modernidade e a reação pós-moderna (assim na obra de M. Foucault e de J. Habermas, entre outros).

– Propõe ainda, de certo modo, um ideal imperativo e inatingível – precisamente a consecução da genuína e plena ilustração intelectual – e disso Kant parece dar-se conta no final do ensaio, embora permaneça, contra o que promove, enredado nos preconceitos da sua época, a saber, uma versão algo abstrata da razão arrancada ao húmus da história, encarada sem os nexos relacionais que ligam os seres humanos no seu destino; a inatenção ao papel quase transcendental da linguagem na estruturação do pensamento; a falta de consideração do vínculo entre razão e autoridade (nas suas múltiplas formas), além da pedante convicção de que as idades anteriores aos tempos modernos mergulhavam na ‘menoridade culpada’.

Estas observações, e muitas outras que se poderiam aduzir, não serão um obstáculo para apreciar a luminosidade deste opúsculo, merecidamente famoso; mesmo apesar dos seus limites, encerra ainda uma exigência moral de auto-iluminação, que nunca é bastante.

Artur Morão

Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?”

Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.

A preguiça e a covardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes), continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cômodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores.

É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua. Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso, porque não está habituado ao movimento livre. São, pois, muito poucos apenas os que conseguiram mediante a transformação do seu espírito arrancar-se à menoridade e encetar então um andamento seguro.

Mas é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. Sempre haverá, de facto, alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabelecidos da grande massa que, após terem arrojado de si o jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma estimativa racional do próprio valor e da vocação de cada homem para pensar por si mesmo. Importante aqui é que o público, antes por eles sujeito a este jugo, os obriga doravante a permanecer sob ele quando por alguns dos seus tutores, pessoalmente incapazes de qualquer ilustração, é a isso incitado. Semear preconceitos é muito danoso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente, ou os seus predecessores, foram os seus autores. Por conseguinte, um público só muito lentamente consegue chegar à ilustração. Por meio de uma revolução talvez se possa levar a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento.

Mas, para esta ilustração, nada mais se exige do que a liberdade; e, claro está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a de fazer um uso público da sua razão em todos os elementos. Agora, porém, de todos os lados ouço gritar: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines, mas faz exercícios! Diz o funcionário de Finanças: não raciocines, paga! E o clérigo: não raciocines, acredita! (Apenas um único senhor no mundo diz: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes, mas obedecei!) Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade. Mas qual é a restrição que se opõe ao Iluminismo? Qual a restrição que o não impede, antes o fomenta? Respondo: o uso público da própria razão deve sempre ser livre e só ele pode, entre os homens, levar a cabo a ilustração; mas o uso privado da razão pode, muitas vezes, coarctar-se fortemente sem que, no entanto, se entrave assim notavelmente o progresso da ilustração. Por uso público da própria razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado. Chamo uso privado àquele que alguém pode fazer da sua razão num certo cargo público ou função a ele confiado. Ora, em muitos assuntos que têm a ver com o interesse da comunidade, é necessário um certo mecanismo em virtude do qual alguns membros da comunidade se comportarão de um modo puramente passivo com o propósito de, mediante uma unanimidade artificial, serem orientados pelo governo para fins públicos ou de, pelo menos, serem impedidos de destruir tais fins. Neste caso, não é decerto permitido raciocinar, mas tem de se obedecer. Na medida, porém, em que esta parte da máquina se considera também como elemento de uma comunidade total, e até da sociedade civil mundial, portanto, na qualidade de um erudito que se dirige por escrito a um público em entendimento genuíno, pode certamente raciocinar sem que assim sofram qualquer dano os negócios a que, em parte, como membro passivo, se encontra sujeito. Seria, pois, muito pernicioso se um oficial, a quem o seu superior ordenou algo, quisesse em serviço sofismar em voz alta acerca da inconveniência ou utilidade dessa ordem; tem de obedecer, mas não se lhe pode impedir de um modo justo, enquanto perito, fazer observações sobre os erros do serviço militar e expô-las ao seu público para que as julgue. O cidadão não pode recusar-se a pagar os impostos que lhe são exigidos; e uma censura impertinente de tais obrigações, se por ele devem ser cumpridas, pode mesmo punir-se como um escândalo (que poderia causar uma insubordinação geral). Mas, apesar disso, não age contra o dever de um cidadão se, como erudito, ele expuser as suas ideias contra a inconveniência ou também a injustiça de tais prescrições. Do mesmo modo, um clérigo está obrigado a ensinar os instruendos de catecismo e a sua comunidade em conformidade com o símbolo da Igreja, a cujo serviço se encontra, pois ele foi admitido com esta condição. Mas, como erudito, tem plena liberdade e até a missão de participar ao público todos os seus pensamentos cuidadosamente examinados e bem-intencionados sobre o que de errôneo há naquele símbolo, e as propostas para uma melhor regulamentação das matérias que respeitam à religião e à Igreja. Nada aqui existe que possa constituir um peso na consciência. Com efeito, o que ele ensina em virtude da sua função, como ministro da Igreja, expõe-no como algo em relação ao qual não tem o livre poder de ensinar segundo a sua opinião própria, mas está obrigado a expor segundo a prescrição e em nome de outrem. Dirá: a nossa Igreja ensina isto ou aquilo; são estes os argumentos comprovativos de que ela se serve. Em seguida, ele extrai toda a utilidade prática para a sua comunidade de preceitos que ele próprio não subscreveria com plena convicção, mas a cuja exposição se pode, no entanto, comprometer, porque não é de todo impossível que neles resida alguma verdade oculta. De qualquer modo, porém, não deve neles haver coisa alguma que se oponha à religião interior, pois se julgasse encontrar aí semelhante contradição, então não poderia em consciência desempenhar o seu ministério; teria de renunciar. Por conseguinte, o uso que um professor contratado faz da sua razão perante a sua comunidade é apenas um uso privado, porque ela, por maior que seja, é sempre apenas uma assembleia doméstica; e no tocante a tal uso, ele como sacerdote não é livre e também o não pode ser, porque exerce uma incumbência alheia. Em contrapartida, como erudito que, mediante escritos, fala a um público genuíno, a saber, ao mundo, por conseguinte, o clérigo, no uso público da sua razão, goza de uma liberdade ilimitada de se servir da própria razão e de falar em seu nome próprio. É, de facto, um absurdo, que leva à perpetuação dos absurdos, que os tutores do povo (em coisas espirituais) tenham de ser, por sua vez, menores.

Mas não deveria uma sociedade de clérigos, por exemplo, uma assembleia eclesiástica ou uma venerável classis (como a si mesma se denomina entre os Holandeses) estar autorizada sob juramento a comprometer-se entre si com um certo símbolo imutável para assim se instituir uma interminável super tutela sobre cada um dos seus membros e, por meio deles, sobre o povo, e deste modo a eternizar? Digo: isso é de todo impossível. Semelhante contrato, que decidiria excluir para sempre toda a ulterior ilustração do gênero humano, é absolutamente nulo e sem validade, mesmo que fosse confirmado pela autoridade suprema por parlamentos e pelos mais solenes tratados de paz. Uma época não se pode coligar e conjurar para colocar a seguinte num estado em que se tornará impossível a ampliação dos seus conhecimentos (sobretudo os mais urgentes), a purificação dos erros e, em geral, o avanço progressivo na ilustração. Isso seria um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste justamente neste avanço. E os vindouros têm toda a legitimidade para recusar essas resoluções decretadas de um modo incompetente e criminoso. A pedra de toque de tudo o que se pode decretar como lei sobre um povo reside na pergunta: poderia um povo impor a si próprio essa lei? Seria decerto possível, na expectativa, por assim dizer, de uma lei melhor, por um determinado e curto prazo, para introduzir uma certa ordem. Ao mesmo tempo, facultar-se-ia a cada cidadão, em especial ao clérigo, na qualidade de erudito, fazer publicamente, isto é, por escritos, as suas observações sobre o que há de errôneo nas instituições anteriores; entretanto, a ordem introduzida continuaria em vigência até que o discernimento da natureza de tais coisas se tivesse de tal modo difundido e testado publicamente que os cidadãos, unindo as suas vozes (embora não todas), poderiam apresentar a sua proposta diante do trono a fim de protegerem as comunidades que, de acordo com o seu conceito do melhor discernimento, se teriam coadunado numa organização religiosa modificada, sem todavia impedir os que quisessem ater-se à antiga. Mas é de todo interdito coadunar-se numa constituição religiosa pertinaz, por ninguém posta publicamente em dúvida, mesmo só durante o tempo de vida de um homem e deste modo aniquilar, por assim dizer, um período de tempo no progresso da humanidade para o melhor e torná-lo infecundo e prejudicial para a posteridade. Um homem, para a sua pessoa, e mesmo então só por algum tempo, pode, no que lhe incumbe saber, adiar a ilustração; mas renunciar a ela, quer seja para si, quer ainda mais para a descendência, significa lesar e calcar aos pés o sagrado direito da humanidade. O que não é lícito a um povo decidir em relação a si mesmo menos o pode ainda um monarca decidir sobre o povo, pois a sua autoridade legislativa assenta precisamente no facto de na sua vontade unificar a vontade conjunta do povo. Quando ele vê que toda a melhoria verdadeira ou presumida coincide com a ordem civil, pode então permitir que em tudo o mais os seus súbditos façam por si mesmos o que julguem necessário fazer para a salvação da sua alma. Não é isso que lhe importa, mas compete-lhe obstar a que alguém impeça à força outrem de trabalhar segundo toda a sua capacidade na determinação e fomento da mesma. Constitui até um dano para a sua majestade imiscuir-se em tais assuntos,ao honrar com a inspeção do seu governo os escritos em que os seus súbditos procuram clarificar as suas ideias, quer quando ele faz isso a partir do seu discernimento superior, pelo que se sujeita à censura ‘Caesar non est supra grammaticos[1] quer também, e ainda mais, quando rebaixa o seu poder supremo a ponto de, no seu Estado, apoiar o despotismo espiritual de alguns tiranos contra os demais súditos.

Se, pois, se fizer a pergunta – Vivemos nós agora numa época esclarecida? – a resposta é: não. Mas vivemos numa época do Iluminismo. Falta ainda muito para que os homens tomados em conjunto, da maneira como as coisas agora estão, se encontrem já numa situação ou nela se possam apenas vir a pôr de, em matéria de religião, se servirem bem e com segurança do seu próprio entendimento, sem a orientação de outrem. Temos apenas claros indícios de que se lhes abre agora o campo em que podem actuar livremente, e diminuem pouco a pouco os obstáculos à ilustração geral ou à saída dos homens da menoridade de que são culpados. Assim considerada, esta época é a época do Iluminismo, ou o século de Frederico.

Um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada prescrever aos homens em matéria de religião, mas deixar-lhes aí a plena liberdade, que, por conseguinte, recusa o arrogante nome de tolerância, é efetivamente esclarecido e merece ser encomiado pelo mundo grato e pela posteridade como aquele que, pela primeira vez, libertou o gênero humano da menoridade, pelo menos por parte do governo, e concedeu a cada qual a liberdade de se servir da própria razão em tudo o que é assunto da consciência. Sob o seu auspício, clérigos veneráveis podem, sem prejuízo do seu dever ministerial e na qualidade de eruditos, expor livre e publicamente ao mundo para que este examine os seus juízos e as suas ideias que, aqui ou além, se afastam do símbolo admitido; mas, mais permitido é ainda a quem não está limitado por nenhum dever de ofício. Este espírito de liberdade difunde-se também no exterior, mesmo onde entra em conflito com obstáculos externos de um governo que a si mesmo se compreende mal. Com efeito, perante tal governo brilha um exemplo de que, no seio da liberdade, não há o mínimo a recear pela ordem pública e pela unidade da comunidade. Os homens libertam-se pouco a pouco da brutalidade, quando de nenhum modo se procura, de propósito, conservá-los nela.

Apresentei o ponto central do Iluminismo, a saída do homem da sua menoridade culpada, sobretudo nas coisas de religião, porque em relação às artes e às ciências os nossos governantes não têm interesse algum em exercer a tutela sobre os seus súbditos; por outro lado, a tutela religiosa, além de ser mais prejudicial, é também a mais desonrosa de todas. Mas o modo de pensar de um chefe de Estado, que favorece a primeira, vai ainda mais além e discerne que mesmo no tocante à sua legislação não há perigo em permitir aos seus súbditos fazer uso público da sua própria razão e expor publicamente ao mundo as suas ideias sobre a sua melhor formulação, inclusive por meio de uma ousada crítica da legislação que já existe; um exemplo brilhante que temos é que nenhum monarca superou aquele que admiramos.

Mas também só aquele que, já esclarecido, não receia as sombras e que, ao mesmo tempo, dispõe de um exército bem disciplinado e numeroso para garantir a ordem pública – pode dizer o que a um Estado livre não é permitido ousar: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes; mas obedecei! Revela-se aqui um estranho e não esperado curso das coisas humanas; como, aliás, quando ele se considera em conjunto, quase tudo nele é paradoxal. Um grau maior da liberdade civil afigura-se vantajosa para a liberdade do espírito do povo e, no entanto, estabelece-lhe limites intransponíveis; um grau menor cria-lhe, pelo contrário, o espaço para ela se alargar segundo toda a sua capacidade. Se a natureza, sob este duro invólucro, desenvolveu o germe de que delicadamente cuida, a saber, a tendência e a vocação para o pensamento livre, então ela atua também gradualmente sobre o modo do sentir do povo (pelo que este se tornará cada vez mais capaz de agir segundo a liberdade) e, por fim, até mesmo sobre os princípios do governo que acha salutar para si próprio tratar o homem, que agora é mais do que uma máquina, segundo a sua dignidade.

Königsberg na Prússia, 30 de Setembro de 1784.

Autor: Immanuel Kant
Tradução: Artur Morão

Nota

[1] – “César não está acima dos gramáticos.”

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O Solstício de Verão

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Como as questões práticas referentes ao solstício de verão, e suas interpretações pelos povos da antiguidade, já foram muito bem abordadas em artigos anteriores, sendo o último de autoria de nosso querido irmão Márcio Gomes por ocasião das comemorações de 2016, neste texto iremos tratar de como nós, maçons, podemos ver e comemorar esse acontecimento tão especial.

Lembremo-nos que, certa vez, cada um de nós foi apresentado como “aquele que estava desejoso de ver a Luz”. Alguém então pediu a Luz em nosso favor. E a Luz foi feita. E a Luz nos foi dada.

Mas compreendemos todos o significado dessa Luz? Aprendemos a enxergar com essa Luz? Permitimos que a Luz ilumine nossos caminhos?

A Luz que nos foi dada é o símbolo do conhecimento e da busca pela realização criadora. Iluminados pela quintessência que nos foi presenteada pelo Divino somos construtores no microcosmos. Como construtores, homens-deuses que trabalham para que seu templo interior esteja sempre iluminado, devemos lutar para que a sociedade em que estamos inseridos não mergulhe nas trevas da ignorância.

O irmão Anatoli Oliynik, em palestra ministrada em 2002, disse que é preciso que tenhamos “capacidade de pensar sistematicamente, de ver o todo, de abstrair, de criar e inovar, de chegar à essência das coisas, de fazer acontecer, de se comunicar, de se relacionar, de iniciar mudanças, de energizar pessoas, de observar, de ler, entender e extrair.”

Vivemos tempos difíceis, queridos irmãos. Como também difíceis já foram em outras oportunidades. Mas a Luz prevaleceu. E para que ela prevaleça novamente temos como obrigação, moral e ética, compartilhar conhecimento, inspiração e sabedoria, com nossos pares e com toda a sociedade.

Voltemos nossa atenção para o que nos cerca, olhemos ao nosso redor! Como disse Willyan Johnes, “um povo sem cultura não se levanta. Se ajoelha.”

Recorrendo novamente ao nosso irmão Anatoli, ele diz que “a maçonaria se debate no seu culto às realizações do passado e não tem encontrado caminhos para realizações atuais e nem mecanismos para se relacionar, efetivamente, com a sociedade. ”

Nós temos um compromisso com a sociedade, meus irmãos. Podemos, e devemos, nos relacionar com ela. Nossas lojas não são bolhas onde nos encontramos imunes aos efeitos dos males que afligem o planeta. Não é possível nos contentarmos com o status quo, aceitando-o passivamente.

João Anatalino, em seu texto intitulado A Maçonaria e o Mito Solar, escreve que “a função da mente do homem é justamente dar ordem ao caos da materialidade, identificando e catalogando todas as realidades que saem do útero cósmico. Por esse motivo nos foi dada a capacidade de pensar para conhecer. E essa, precisamente, é a razão pela qual a sabedoria nos aparece como sendo um fenômeno luminoso produzido pela ação da nossa consciência sobre o objeto que ela se propõe conhecer. Por isso a metáfora ‘lançar luz sobre as coisas’ designa exatamente essa propriedade da mente humana de revelar o que está oculto nas sombras da ignorância, nas trevas da obscuridade, na impenetrabilidade do quarto escuro, onde os mistérios do universo aguardam o foco de luz que a lanterna da inteligência humana projetará sobre eles para serem revelados. Isso é o que, na Maçonaria, significa pôr Ordem no Caos (Ordo ab Chaos).”

Que, tendo em mente o Solstício de Verão, em que a luz do dia suplanta as trevas da noite, trabalhemos, todos, para que a Luz que recebemos em nossa iniciação possa iluminar não apenas os nossos passos, mas sim os de toda a Humanidade, em um caminho justo e perfeito.

Autor: Luiz Marcelo Viegas
ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG
Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida – GLMMG

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A Arte da Memória e a Maçonaria

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Quando um candidato entra no caminho iniciático da Maçonaria, uma das primeiras coisas que ele descobre é que há uma grande quantidade de memorização envolvida. Os oficiais executam o ritual de memória, e longas palestras memorizadas lhe são apresentadas. Finalmente, talvez para sua consternação, ele descobre que deve memorizar um diálogo antes que possa avançar para o próximo grau.

Por que a memorização é tão importante em Maçonaria? Como a prática de decorar o ritual entra na Maçonaria? A memorização ainda tem valor nos tempos modernos? Considerando a importância tradicionalmente dada à memória na Maçonaria, surpreendentemente pouco foi escrito sobre isso. Uma busca em enciclopédias maçônicas e livros de referência revela praticamente nada.

Um dos poucos livros a lidar com as origens da memorização na Maçonaria é As Origens da Maçonaria, o século da Escócia 1590-1710, de David Stevenson[1]. Stevenson ressalta que as primeiras referências à memória na Maçonaria ocorrem nos Estatutos Schaw.

William Schaw foi nomeado Mestre de Obras do Rei para James VI da Escócia (mais tarde James I da Inglaterra) em 1583. Como Mestre das Obras, Schaw era membro da corte real e era responsável pela manutenção de todos os edifícios reais. Em 1598 e 1599, Schaw emitiu regulamentos para os serviços de construção na Escócia. Eles continham basicamente os regulamentos de saúde e segurança, mas também tratavam de regras para a organização dos pedreiros trabalhadores[2].

Os Primeiros Estatutos Schaw, de 1598, exigiam a seleção de Aintenders (instrutores) para cada novo companheiro em sua admissão. As atas iniciais das lojas de Edimburgo e Haven de Atchison mostram que geralmente eram os companheiros mais recentemente admitidos que eram selecionados como instrutores. Como os candidatos teriam que provar sua proficiência técnica antes de serem admitidos, parece razoável supor que a função de intendente era instruir o novo companheiro em trabalho secreto. Isto é confirmado pelo Manuscrito Dumfries no. 3 do século XVII, que diz:

“Então, deixe a pessoa que, então, é feita um maçom, escolher da loja um maçom que deve instruí-lo naqueles segredos que nunca devem ser escritos, e ele o deve chamará Tutor. Então seu tutor o levará para o lado e lhe mostrará todo o mistério, e, em seu retorno, ele pode exercitar com o restantes de seus colegas pedreiros.”[3]

A primeira referência explícita ao uso da memória na Maçonaria está nos Segundos Estatutos Schaw de 1599:

“[O] Vigilante da Loja…testará a arte da memória e ciência dela de cada companheiro e cada aprendiz de acordo com a sua vocação e, caso tenham perdido algum ponto dela…pagará a penalidade como segue por sua preguiça…”

Aqui, Schaw está criando uma regra especial em que todos os membros da Loja devem ser testados anualmente quanto à capacidade de memorizar algo. Infelizmente, não está claro o que é, mas parece ter algo a ver com o ritual e as cerimônias da loja[4].

Nós sabemos pouco sobre o ritual na Escócia no período em torno de 1600. Os primeiros materiais escritos datam de cerca de um século depois. Quaisquer que sejam os detalhes do ritual, isso era visto de alguma forma ligado ao esotérico. Este pode ter sido um dos fatores que atraíam homens que não eram pedreiros para se juntarem à organização. Uma prova que mostra como a Maçonaria era considerada no início do século XVII é um poema de George Adamson, The Muses Threnodie, publicado em 1638, após a morte de Adamson, mas provavelmente escrito por volta de 1630. Contém as seguintes linhas:

Porque o que pressagiamos não está em bruto,
Porque nós irmãos da Rosa Cruz;
Temos a Palavra do Maçom e segunda vista,
Coisas por vir podemos contar certo.
[5]

Aqui, a Maçonaria é retratada como de alguma forma dando aos seus praticantes o poder de prever o futuro, e a Maçonaria está ligada ao Rosacrucianismo. Essa ligação se tornará importante, ao considerarmos a arte da memória.

Stevenson aponta que quando Schaw se referia à Arte da Memória, ele não estava apenas usando um termo extravagante para a capacidade de memorizar[6]. A Arte da Memória, ou Ars Memorativa, era uma técnica específica para memorizar coisas, bem conhecida na época em que Schaw estava escrevendo seus estatutos, e que tinha suas origens nos tempos Clássicos[7]. Originalmente, a intenção da Arte da Memória era aumentar grandemente a capacidade natural da memória humana. Os praticantes da Arte da Memória tentaram encontrar maneiras de manter, recuperar e usar uma grande quantidade de informações. Nos tempos medievais e renascentes tardios, a Arte da Memória gradualmente tornou-se altamente simbólica. Os neoplatonistas e hermetistas gradualmente a adaptaram para desenvolvê-la em uma forma especial de conhecimento, uma maneira especial de se relacionar com o universo. É nesta tradição que Stevenson encontra as origens do uso maçônico da memória.

A história tradicional é que a Arte da Memória se originou com o poeta grego Simônides de Ceos, cerca de 500 a.C.. De acordo com a lenda, um nobre da Tessália contratou Simônides para compor uma ode, a ser recitada em um banquete celebrando as vitórias atléticas do nobre. O nobre concordou em pagar um certo preço pela ode. Simônides incluiu algumas linhas na ode em homenagem a Castor e Pollux, deuses gregos do boxe e da equitação. O nobre reclamou que a ode deveria ter se dedicado inteiramente a ele, e disse que pagaria apenas metade do preço acordado. Ele disse a Simônides que cobrasse a outra metade de sua taxa de Castor e Pollux. Pouco tempo depois, um mensageiro disse a Simônides que dois jovens estavam esperando fora do salão do banquete para vê-lo. Quando Simônides saiu, ninguém estava lá, mas, assim que ele deixou o prédio, o telhado desmoronou, matando todos lá dentro. Naturalmente, a lenda é que os dois jovens eram Castor e Pollux, que tinham vindo pagar a metade dos honorários. A história conta que os corpos dos convidados estavam tão mutilados que não podiam ser identificados. Simônides, no entanto, conseguiu lembrar-se de onde cada convidado estava sentado e, por isso, os corpos foram identificados. Pensando nisso, Simônides percebeu que esse método de lembrar coisas poderia ser usado para outros fins. Ele desenvolveu um sistema de memorização e o ensinou com grande sucesso[8].

As características essenciais da arte tradicional da memória são que um edifício é retratado na mente, as partes do edifício são visualizadas em uma determinada ordem, e várias imagens são associadas às partes do edifício. As imagens lembrariam ao praticante o que ele estava tentando lembrar. Quando estava tentando lembrar algo, o praticante caminharia mentalmente pelo prédio. Quando ele chegasse, por exemplo, a uma certa estátua, ele se lembraria da imagem que ele havia associado a ela, por exemplo, uma espada e um escudo, e isso lembraria o que desejava falar, que o próximo ponto de seu discurso envolvia guerra. Idealmente, as imagens deveriam ser impressionantes e memoráveis. Os oradores e políticos romanos usavam a Arte da Memória para que pudessem pronunciar longos discursos com precisão. Pode-se imaginar um antigo orador passeando pela cidade, procurando um edifício adequado com muitos locais distintivos, onde ele poderia ancorar suas associações mnemônicas, e em seguida, passando lentamente por ele enquanto ensaiava seu discurso. O elemento-chave deste sistema é o uso de imagens mentais em configurações ordenadas, muitas vezes arquitetônicas, e tornou-se a base para desenvolvimentos posteriores.

Nos tempos medievais e renascentistas, juntamente com as configurações arquitetônicas usadas na arte clássica da memória, os praticantes faziam uso de todo o cosmo ptolemaico de esferas concêntricas como cenário para suas imagens de memória. Hermetistas do Renascimento levaram isso um passo adiante. Eles argumentavam que, se a memória humana podia ser reorganizada à imagem do universo, ela se tornou-se um reflexo de todo o reino das Ideias platônicas e, portanto, a chave para o conhecimento universal. O microcosmo da memória refletiria o macrocosmo do universo[9]. As imagens colocadas em um edifício não precisam ser usadas para associar e lembrar ideias externas arbitrárias. As próprias imagens podem ser usadas para lembrar o observador de certas ideias. A ênfase muda de expansão da memória para a busca de uma linguagem universal de símbolos. O templo da memória pode se tornar não apenas um método para lembrar discursos, mas uma ferramenta para ensinar.

Frances Yates escreveu:

“Não é fácil para nós reconquistar o espírito em que os príncipes do Renascimento planejaram e mobilizaram seus palácios e terrenos, como uma espécie de sistema de memória viva, através do qual em elaborados arranjos de lugares e imagens, todo o conhecimento, toda a enciclopédia, poderia ser armazenado em uma memória… e também, talvez, induzir uma atmosfera através da qual relações ocultas pudessem ser percebidas e harmonias ocultas do universo pudessem ser ouvidas.”[10]

O próximo passo lógico seria construir um edifício utilizado especificamente para a arte da memória, para incorporar todo o conhecimento humano. Existe pelo menos um exemplo conhecido. Giulio Camillo (1480-1544) construiu um teatro portátil de madeira no qual apenas duas pessoas podiam entrar. Segundo Camillo, a estrutura continha lugares de memória e imagens que poderiam conter todo o conhecimento humano[11].

Talvez o sistema mnemônico mais desenvolvido e complexo na época fosse o de Giordano Bruno[12]. Um dos estudantes de Bruno, Alexander Dicson (ou Dickson) era um cortesão de James VI da Escócia. É altamente provável que ele conhecesse William Schaw, e possa ter sido a fonte do interesse de Schaw pela arte da memória[13].

Stevenson sugere que a tentativa de construir um teatro de memória físico é a origem da Loja maçônica simbólica. Ou seja, nossos edifícios de lojas e painéis de loja, em maior ou menor grau, são uma encarnação de uma loja ideal, que existe em sua forma máxima somente em nossas mentes. Os maçons do século XVII provavelmente usavam giz ou carvão para marcar um diagrama dessa loja ideal em qualquer sala em que eles se reunissem. Os mais antigos catecismos maçônicos preservados são do final do século XVII e mostram que os maçons desta época tinham uma imagem mental da Loja essencialmente a mesma que é dada na palestra moderna do grau de Aprendiz[14]. Comparado aos sistemas de memória de Giordano Bruno ou Giulio Camillo, uma loja maçônica é um templo de memória muito simples. Em vez de tentar apresentar todo o conhecimento humano, uma loja apenas sugere caminhos que o iniciado pode querer explorar. É talvez por esta mesma razão que a Maçonaria continua a ser uma força vital, enquanto os sistemas elaborados de memória do passado estão quase esquecidos.

Os edifícios imaginários utilizados para a Arte da Memória às vezes são chamados de teatros de memória. Robert Fludd, escritor do século XVII sobre o Rosacrucianismo, escreveu extensivamente sobre a Arte da Memória e sugeriu o uso de um prédio de teatro real para ancorar as imagens da memória. A.T. Mann, em seu livro Arquitetura sagrada, sugere que locais específicos em um teatro isabelino ou jacobita tenham significados simbólicos específicos, de modo que o lugar onde um personagem entrou, saiu e atuou dava indícios quanto ao estado de espírito[15]. Pode valer a pena investigar se essa ideia poderia ser aplicada às Lojas Maçônicas. Outra possível relação entre o teatro isabelino e jacobino e as Lojas maçônicas é que a frente do teatro tinha uma cobertura, chamada Aheavens, retratando o zodíaco e outros corpos celestes[16]. Isso lembra o céu coberto de Astar que nos é dito simbolicamente cobre a loja, e que às vezes é representado no teto da Loja.

Na vida moderna, livros e computadores são fontes fáceis de informação. Conferencistas podem usar notas ou teleprompters. Mesmo assim, a Arte da Memória ainda tem valor. Um dos objetivos da prática tradicional é maximizar as capacidades humanas como ferramentas para a transformação interior.  A Arte da Memória é valiosa para nós hoje, não só porque ela desenvolve a memória, e nos permite reter uma grande quantidade de informações, mas também porque exige de nós que usemos outras capacidades, tais como atenção, imaginação e imagens mentais, que são úteis para o nosso desenvolvimento geral[17].

Cada Loja é, de fato, um Templo da Memória, projetado para provocar efeitos específicos através da lembrança de suas imagens e símbolos, e nossos movimentos físicos à medida que avançamos através da loja. Cada grau enfatiza um aspecto deste Templo. A palestra do grau de Aprendiz nos lembra o nosso lugar no esquema cósmico das coisas, o macrocosmo. O grau de Companheiro nos traz de volta à terra, enquanto nos movemos através do mundo material. O grau de Mestre Maçom traz a espiral ainda mais para dentro, para dentro de nós, para o microcosmo da psique humana. Assim, a Arte da Memória continua a ser uma parte essencial da iniciação maçônica. O método da iniciação maçônica é ensinar-nos a construir, e a viver, um templo da memória, um templo repleto de símbolos que nos lembrem daquele edifício espiritual, daquela casa não feita com as mãos, eterna nos céus.

Autor: Clarence A. Anderson
Tradução: José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

Notas

[1] – David As Origens da Maçonaria: o século da Escócia 1590 – 1710, Cambridge University Press, 1988.

[2] – Cooper, Robert L. D., A Maçonaria de Schaw, The Short Talk Bulletin, Vol 89, No. 7, July 2002, The Masonic Service Association of America, Silver a Spring MD, pp. 3-4.

[3] – Carr, Harry, ed., Os primeiros catecismos maçônicos, 1943, reimpresso pela Kessinger Publishing Co., Kila MT (reimpressão sem data).

[4] – Cooper, p. 5

[5] – Stevenson, p. 126

[6] – Stevenson, p. 49

[7] – Yates, Frances, A arte da memória, University of Chicago Press, Chicago, 1966.

[8] – Fuller, Henry H., A arte da memória, National Publishing Co., St. Paul MN, 1898.

[9] – Greer, John Michael, Ars Memorativa: Uma Introdução à Arte Hermética da Memória.

[10] – Yates, Frances, O Iluminismo Rosacruz Barnes and Noble, Nova Iorque, 1996, p. 68.

[11] – Mann, AT, Arquitetura sagrada, Element, Rockport MA, 1993, pp. 158-163.

[12] – Yates, Frances, Giordano Bruno e a tradição hermética, University of Chicago Press, Chicago, 1991.

[13] – Stevenson, pp. 87-96

[14] – Carr, supra.

[15] – Mann, supra, pp. 168 ff.

[16] – Yates, Frances, Teatro do Mundo, University of Chicago Press, Chicago, 1966.

[17] – Greer, supra.

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Elevação e Declínio da Maçonaria no Mundo

Um dos palestrantes do I Congresso Internacional de Ciência & Maçonaria, realizado entre os dias 7 e 9 de setembro em Brasília, foi o mestre William Almeida de Carvalho, que, seguindo a máxima de que o conhecimento deve ser compartilhado, disponibilizou o vídeo com a íntegra de sua brilhante exposição.

A apresentação de Dom William, com o título Elevação e Declínio da Maçonaria no Mundo, pode ser conferida através do link abaixo:

Elevação e declínio da maçonaria no mundo

Além de Dom William, tivemos também como palestrantes o professor J. F. Benimeli, S.J. e o professor Guilhermo de Los Reys-Heredia. Essas duas palestras já foram disponibilizadas em nossa página do Facebook, e podem ser vistas através dos seguintes links:

Palestra J. F. Benimeli – 1ª Parte

Palestra J. F. Benimeli – 2ª Parte

Palestra Guilhermo de Los Reyes

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A ignorância é o princípio da sabedoria

Imagem relacionadaAlcibiade recevant les leçons de Socrate – François-André Vincent (1746-1816)

Nietzsche disse que “a sabedoria é um paradoxo”, já que “o homem que mais sabe é aquele que mais reconhece a vastidão de sua ignorância”. O pensamento do filósofo alemão corrobora com a máxima socrática do “só sei que nada sei”, isto é, com a ideia de que a ignorância é o princípio do conhecimento e que, portanto, é necessário estar aberto à reflexão constante para que se possa atingir o mínimo de conhecimento e sabedoria.

Em um contexto como o nosso, em que há uma grande carga de informações, sobre os mais diversos temas, disponível, a ideia que correlaciona ignorância e sabedoria parece não fazer tanto sentido. O que se observa é a formação de um conjunto enorme de pessoas que se coloca como possuidor das verdades últimas sobre as coisas, ainda que essas verdades possam mudar constantemente e rapidamente de acordo com a melhor conveniência de quem as define.

Dessa forma, cria-se um ambiente inóspito para que o conhecimento possa se desenvolver, haja vista a sacralização feita pelos indivíduos das coisas que eles julgam como sendo verdadeiras e, por conseguinte, a impossibilidade de questionamento e de debate sobre certas coisas, dogmatizadas. Isso não significa que as pessoas não possam acreditar em algo com veemência ou que não exista uma verdade sobre as coisas, mas até mesmo quando acreditamos em algo, precisamos estar abertos ao novo, o que só é possível se estivermos abertos à reflexão e ao diálogo.

Em outras palavras, é preciso estar aberto a outras formas de pensar, para que problematizações possam surgir, a fim de ratificar aquilo que acreditamos (com mais embasamento e mais espaço discursivo) e/ou para que possamos observar, analisar e seguir novas perspectivas, até então desconhecidas. Nesse sentido, percebe-se que o outro, que pensa de forma antagônica à nossa, passa a ser considerado, o que estimula a interação entre situações contraditórias a partir de uma perspectiva dialética, ou seja, de abertura para o novo que possa surgir por meio do encontro estabelecido.

Essa relação dialética que se instaura com gênese no reconhecimento da ignorância, isto é, da compreensão da não completude sobre o conhecimento de todas as coisas, permite que o sujeito possa crescer intelectualmente, já que passa a possuir um horizonte com maior amplitude de alcance, além de evitar o enrijecimento dos conhecimentos e convicções, bem como, o desenvolvimento do individualismo, impeditivo para a compreensão, o respeito e o diálogo com cosmovisões e crenças diferentes das que possuímos.

Fechar-se em si mesmo e acreditar que não há nada a ser aprendido não denota convicção do que se acredita, mas antes, ignorância, pois – como falava Paulo Freire – “Onde quer que haja mulheres e homens, há sempre o que fazer, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender”. Assim, para que consigamos atingir o mínimo de sabedoria é imprescindível que consideremos e busquemos a sabedoria que está no mundo, do qual não somos todo, mas apenas, parte.

Autor: Erick Morais

Fonte: Genialmente Louco

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