Lilith. Um Texto Fundador da Mulher na Maçonaria

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A maçonaria, como todos sabem, procura suas origens em mitos fundadores de origens longínquas na corte de Salomão. São contribuições lendárias que estão ligadas aos grandes mitos da criação.

O nome “Lilith” tem uma filiação semítica e indo-europeia. A palavra suméria “lil” significa “vento”, “ar” e “tempestade”. Lilith foi inicialmente associada às forças hostis da natureza, parte de um grupo de três demônios, um masculino e duas femininas: Lilu, Lilithu e Ardat Lili, esta última sendo a companheira do portador da luz.[1]

Lilith também está sempre associada a uma mulher lasciva, sedutora e de rara beleza. Com seus longos cabelos negros mostra-se altamente sensual e destrutiva. Muito provavelmente os judeus a conheceram no cativeiro da Babilônia.

Lilith é mencionada no Antigo Testamento, Livro dos Profetas, Isaías 34/14:

“Lá também descansará Lilith, achará um pouso para si em companhia dos gatos selvagens, das hienas, dos sátiros da víbora e dos abutres.”

Para transportar Lilith para a modernidade, entendida como estilo, costume de vida ou organização social que emergiu na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência[2], vou chamar a atenção para os dois relatos da criação do homem e da mulher nos capítulos I e II do Gênesis de onde foi extraído o mito reatualizado de Lilith.

Modernamente ela é considerada a primeira mulher que ousou pronunciar o nome inefável que lhe deu as asas por meio das quais fugiu do Éden, abandonando o seu companheiro, com quem não se entendia.

Apesar de perseguida por três anjos – Sinou, Sinsinoi e Samengelof – recusou-se a deixar sua nova morada no mar vermelho e a sua fuga transformou-se em expulsão. Tornou-se, posteriormente à criação da segunda mulher – Eva – , não mais criada do barro, mas de uma costela, uma rival vingativa para fazer o mal aos descendentes de Adão e Eva. Esta a razão de diversos textos judaicos associarem Lilith aos demônios com asas e formas humanas, inclusive na Cabala, onde vemos Lilith unir-se a Sammael.

Interessa neste estudo mostrar a Lilith transformada na mulher libertada e revoltada na afirmação dos seus direitos, na busca da igualdade em relação ao homem. Uma mulher rejeitada pela sociedade dos homens e que está sempre buscando o seu reconhecimento, ainda que para isso tenha que fazer “mal” aos homens.

Em diversas formas de sociabilidades, e entre elas, fundamentalmente, a maçonaria, ela, a “mulher”, está excluída sob o argumento de que, por sua própria essência, arrastaria os homens para o infortúnio.

É o próprio Pierre Brunel[3] que nos lembra certas associações de Lilith com a Rainha de Sabá na aparência falsamente luminosa. Cumulando com seus dons, o homem, se deixa prender por seus atrativos, ela o orienta para uma procura que o isola dos outros e o arrasta para um caminho que segue em sentido contrário à vida.

Portanto, o mito de Lilith, assim como a mulher moderna na maçonaria, tem por objetivo afastá-la dos homens, por ser perigosa e destrutiva, apesar de certos homens estarem dispostos a visitá-lo no seu exílio.

Assim, Lilith pode vir a representar possíveis respostas para a mulher excluída em determinadas sociabilidades centradas simbolicamente nos mitos fundadores de origens longínquas que não têm nada a ver com o racional. Trata-se do arrebatamento do Ser em contraposição ao Não Ser. O único caminho que pode ser transitado.

É possível que surjam aporias[4] a este ensaio. Entretanto, já ensinava Aristóteles que existe uma interessante ligação entre a lógica e a metafísica. O que procurei fazer foi convidar os meus leitores para verem as coisas de um outro modo, mas sempre cauteloso com os conceitos e com a linguagem. Lilith é o desejo libertado: a contestadora. Ela representa a mãe das excluídas.

Ela é o prazer, o desejo, logo, o perigo, a transgressão, a culpa e o medo. Ela não pode participar do centro, da Ágora. Ela deve ser excluída do espaço da produtividade. Enfim, ela deve viver no exílio que escolheu porque corrompeu os valores da dominação masculina e ousou dizer que foi feita do mesmo pó e não admitir a submissão. Esta é Lilith!

Autor: Frederico Guilherme Costa

Notas

[1] – Remeto o interessado ao excelente trabalho de Pierre Brunel (organização), Dicionário de Mitos Literários, Brasília: Editora UNB/José Olympio Editora, 1997, pp. 582/85.

[2] – Anthony Giddens, As Consequências da Modernidade, São Paulo: Edusp, 1991, p11.

[3] – Pierre Brunel, op. , cit., p. 584.

[4] – . Estou me referindo a eventuais conflitos entre opiniões, contrárias e igualmente concludentes, em atenção às questões aqui expostas.

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Liberdade de Pensamento

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Quando dizemos que a Maçonaria é uma Escola do filosofar, fazemo-lo porque entre nós se exige estudo, pesquisa, meditação.

No entanto, não tememos afirmar que nossa Ordem é fundamentalmente filosófica, uma vez que ela tem por mira alcançar um ideal superior. A beleza do filosofar maçônico está
no estudo comparativo dos sistemas filosóficos que a história nos proporciona.

A Maçonaria não se prende a uma escola ou a um determinado sistema, porque se tal o fizesse estaria tirando a liberdade de pensamento de seus membros, obrigando-os a seguir um único e mesmo caminho.

Haveria, então, é de supor-se, uma verdadeira lavagem cerebral; se tal ocorresse mais cedo ou mais tarde, nossa Ordem ou se desvirtuaria ou desapareceria.

O Maçom tem inteira liberdade de interpretação, pois o símbolo permite exegese variada e, muitas vezes, desigual.

Se houvera uma uniformidade obrigatória de interpretação, isto seria um verdadeiro atentado contra um dos sagrados postulados que ela prega: liberdade.

Portanto, é impossível, maçonicamente, alguém pretender fixar determinada corrente ideológica.

A preocupação maçônica pelo ser, pelo conhecer, pelo alcançar a verdade, exige análises, debates, troca de idéias e, sobretudo, respeito ao pensamento alheio.

O esoterismo se sobrepõe ao exoterismo, porque os problemas interiores merecem maior atenção que os exteriores.

O Maçom deve conscientizar-se de que tem um compromisso consigo mesmo, com o seu pensar, com o que fazer de sua vida maçônica.

Ele não pode prescindir de si próprio, não pode prescindir de seus direitos e, sobretudo, de seus deveres, porque se o fizera estaria negando-se como ser, como homem, como Maçom.

Não podemos escapar da grande verdade de que o saber humano, mormente o saber filosófico – vem do homem, pelo homem e para o homem.

Devemos ter sempre diante dos olhos esta verdade: a Maçonaria proporciona aos seus membros os meios necessários para que adquiram o saber. Infeliz do Maçom que disto não se aperceber. É necessário, no entanto, que tenhamos a melhor boa vontade em assimilarmos tudo aquilo que ela põe ao nosso dispor não só para adquirirmos o saber, mas também para alcançarmos aquele Grau de educação maçônica que nos projetará como verdadeiros e autênticos Maçons.

Autor:  Raimundo Rodrigues

Do livro A Filosofia da Maçonaria Simbólica – Vol. 1,Londrina : A Trolha, 1999,

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Jesus, maçom?

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A Imaginação

“Emanuel foi o nome dado a Jesus ao vir ao mundo. Era um menino possuidor de alta inteligência, Q.I. bastante alto. Na ordem maçônica dos essênios só era permitido iniciar candidatos com idade mínima de dezessete anos: Emanuel, com doze anos de idade, procurou ingressar na Ordem Maçônica, mas como não era permitida Iniciação com aquela idade, os padres essênios levaram-no para educa-lo numa escola na Alexandria. Quando completou dezessete anos, Emanuel foi iniciado na Ordem Maçônica dos essênios. Os Maçons receberam nomes simbólicos em suas Iniciações, Elevações e Exaltações a depender do Ritual utilizado pela Loja. Emanuel, em sua Iniciação, recebeu o nome simbólico de Jesus que quer dizer JUSTO, e na Exaltação recebeu o nome simbólico de CRISTO, que significa PERFEITO. Até a idade de dezessete anos só era conhecido pelo seu nome profano, Emanuel. A Exaltação de Jesus ou seu ingresso no terceiro Grau, da Ordem Maçônica dos essênios ocorreu no dia vinte e cinco de dezembro do ano trinta. Os Reis Magos também eram maçons. Os seus nomes simbólicos eram: Gaspar, Melchior e Baltazar. Gaspar era Rei da Índia, Melchior, Rei do Egito, Baltazar, Rei da Babilônia. Eles estiveram presentes às solenidades de Exaltação de Emanuel. Emanuel nasceu em vinte e três de dezembro do ano um. Os Reis Magos não estiveram presentes no nascimento de Emanuel e sim em sua Exaltação na Ordem Maçônica. Jesus foi um grande maçom. Tudo foi tão JUSTO E PERFEITO com Jesus Cristo, que tornou-se muito mais conhecido na história da humanidade pelos seus nomes simbólicos – Jesus, Cristo – do que pelo seu nome profano, Emanuel. A Iniciação na Maçonaria dá-se no primeiro Grau, a Elevação no segundo Grau e a Exaltação no terceiro Grau. Já sabemos que no primeiro Grau, Emanuel recebeu o nome simbólico de Jesus e de Cristo no terceiro. O segundo Grau era também conhecido como o Grau de profeta. Nesse Grau Jesus recebeu o nome simbólico de Issa”. 

Jesus foi nosso Irmão, iniciado numa Loja essênia”.

O primeiro texto está inserido no certificado de presença de uma Loja brasileira, sem que conste o nome de qualquer autor, ou bibliografia. O segundo fez parte de uma palestra feita por um antigo maçom. Asas à imaginação!

A Realidade Histórica

Dificilmente são vistas tantas informações sem qualquer compromisso com a verdade histórica, que vive apenas de fatos e não de especulações. Alguns tópicos merecem uma análise mais profunda:

  • “Emanuel foi o nome dado a Jesus ao vir ao mundo. Era um menino possuidor de alta inteligência. Q.I. bastante alto”.

Comentário:

Inicialmente, cabe perguntar como é que se media o Q.I. há 2000 anos, já que essa prática é recente, do século XX. Em segundo lugar, é necessário esclarecer que Emanuel – que, realmente, significa Deus conosco – foi o título pelo qual o profeta Isaías chamou o Messias que viria, como se pode constatar em Isaías, 7 – 14 e em 8-8 e em Mateus 1 – 23;

O nome do Messias, na realidade, era mesmo Jesus, forma latina da palavra hebraica Ieshua, que significa Salvador. E existiram, na História hebraica, outros homens com esse nome: um Jesus, sumo sacerdote, depois do exílio na Babilônia (538 a.C.); um Jesus, chamado o Justo, louvado por Saulo (S. Paulo) como auxiliar no reino de Deus: e um Jesus, filho de Sirac, autor do Eclesiastes.

  • “Na ordem maçônica dos essênios só era permitido iniciar candidatos com idade mínima de dezessete anos; Emanuel, com doze anos, procurou ingressar na Ordem Maçônica, mas como não era permitida iniciação naquela idade, os padres essênios levaram-no para educá-lo numa escola de Alexandria: quando completou dezessete anos, Emanuel foi iniciado na Ordem Maçônica dos essênios”.

Comentário:

A maçonaria, mesmo que os místicos fantasistas e sem base histórica desejem o contrário, é uma ordem que surgiu na Idade Média. Não havia, portanto, maçonaria no início do Universo, na Pré-História, no Parque dos Dinossauros, no Paraíso, ou no início da era atual. Falar, portanto, em “ordem maçônica dos essênios” é absoluta heresia histórica. Além de tudo, os essênios foram bem conhecidos, historicamente, graças a Flávio Josefo e Filón, historiadores contemporâneos de Jesus, os quais nos dão conta de que eles – que nem são citados no Evangelho – formavam uma comunidade de homens e mulheres, que levavam uma vida austera, praticavam o celibato e tinham os seus bens em comum. Nada, historicamente, autoriza a afirmação de que eles possuíam ritos iniciáticos para a sua seita, simplesmente contemplativa, e muito menos de que havia uma idade mínima – 17 anos – para a “iniciação”. De onde foi tirado isso? Existe, sim, a iniciação religiosa do menino e da menina judia – o bar-mitsvá e o bat-mitsvá, respectivamente – aos 13 anos de idade.

Os hebreus e – a partir do exílio na Babilônia – judeus, tinham de maneira geral, os seus sacerdotes, da tribo dos Levitas, os quais oficiavam os serviços do templo de Jerusalém. Mas os essênios, que não participavam dos serviços litúrgicos do templo, não possuíam sacerdotes (muito menos “padres”, que são sacerdotes católicos), segundo os historiadores, já citados, da época.

A afirmação de que Jesus foi levado, para ser educado numa escola de Alexandria, é altamente temerária, por incidir em improbabilidades. Em primeiro lugar, Alexandria foi fundada pelo macedônio Alexandre Magno, em 332 a.C., no Mediterrâneo, a 206 quilômetros do Cairo, e disputava, com Roma, o título de maior cidade do mundo, sendo um grande centro da cultura grega. Mas a Judeia era província romana, o que tornava, portanto, muito mais lógico e racional que alguém, de lá saindo, fosse estudar em Roma e não na Alexandria grega.

Em segundo lugar, muitos levantam dúvidas sobre a existência real de Jesus, que teria nascido no ano 749 de Roma, ou ano 4 antes da era atual. Porém, a sua existência histórica é amplamente aceita pela comunidade científica, por comparação do contexto político, religioso e social de sua vida com os documentos e as informações arqueológicas. Embora Flávio Josefo e os historiadores romanos Tácito e Suetônio não o mencionem, suas descrições dos locais, dos costumes e das pessoas da época confirmam os dados dos evangelhos escritos por contemporâneos de Jesus. Existe, todavia, uma fase oculta em sua vida, a qual não é abordada nem por esses contemporâneos, por ser absolutamente desconhecida. Seu nascimento e infância são descritos nos evangelhos, principalmente no de Lucas, terminando no regresso da família a Nazaré, depois da fuga para o Egito. O período da vida oculta de Jesus compreende os anos passados em Nazaré, após o retorno do Egito, e, dele, os evangelistas apenas abordam o episódio da peregrinação a Jerusalém – ao templo – quando ele tinha doze anos de idade. Depois disso, só há registro de sua vida pública, cerca de vinte anos depois, quando ele iniciou a sua pregação e a divulgação de suas ideias, como se pode ver no Evangelho segundo Mateus.

É exatamente esse período, por não ter nenhum relato – por isso é chamado de “vida oculta” – que é altamente explorado pelos fantasistas, cujas elucubrações não têm nenhum compromisso com a realidade. Assim, segundo alguns, Jesus teria estado no Tibete; ou, segundo outros, na Índia, onde, entre budistas, teria o nome de Jessé; ou, ainda, no Egito, ou……, ou……… . e até numa escola em Alexandria e na “ordem maçônica dos essênios”!!!

  • “Emanuel, em sua iniciação, recebeu o nome simbólico de Jesus, que quer dizer Justo, e, na Exaltação, recebeu o nome simbólico de Cristo, que quer dizer Perfeito”.

Comentário:

Como já foi visto, Ieshua (Jesus) significa “Salvador”, ou “Deus é o seu auxílio”. Existiu um outro Jesus, que foi cognominado “o Justo” – não que o nome significasse “Justo” – mas não se devem misturar alhos com bugalhos. Já a palavra Cristo é originária do grego “Khristos”, que é a tradução do termo hebraico “Meshiakh”, que significa “Messias”, ou “Ungido”. Não tem nada de “Justo e Perfeito”. Parece que o texto do certificado quer ligar Jesus a essa expressão, que era típica dos canteiros – operários que esquadrejavam a pedra de cantaria – medievais e que chegou à moderna maçonaria. Entre os canteiros, um Zelador, ou Vigilante, media a horizontalidade da pedra, com o nível, enquanto o outro media a sua verticalidade com o prumo, anunciando, depois, ao proprietário (ou o master): “tudo está justo e perfeito”; isso era feito no início e no fim dos trabalhos, para surpreender possíveis sabotagens do trabalho, coisa comum diante da rivalidade das organizações profissionais de canteiros, que eram muito requisitados e considerados, já que, da perfeita forma cúbica das pedras, dependia a estabilidade das construções.

  • “A exaltação de Jesus, ou seu ingresso no terceiro grau, da Ordem maçônica dos essênios ocorreu no dia 25 de dezembro do ano trinta”.

Comentário:

Alguém deve ter visto a ata dessa sessão de Exaltação!

E por que falar de ano trinta, se o calendário atual estava longe de ser inventado? Por que não 3791 da era hebraica, já que os essênios eram judeus, como Jesus?

Fantasia, imaginação e mistificação! Seria bom que o desconhecido redator do texto conhecesse um pouco da História maçônica, para saber que o terceiro grau só foi introduzido no século XVIII e o segundo, no século XVII. E para saber que só se afirma alguma coisa à luz de documentos, ou de bibliografia fidedigna e não “sonhando”. Seria interessante conhecer, também, a situação político-religiosa da época de Jesus.

Desde a reconstrução do templo de Jerusalém, após o exílio na Babilônia – 586 a 538 a.C. – por Zorobabel, a vida religiosa em torno dele sempre foi muito intensa e vibrante, com a finalidade de preservar a pureza e a autenticidade das tradições hebraicas, constantemente ameaçadas pelos invasores. Existiam, todavia divergências teológicas e rivalidades políticas, que iriam originar três seitas, ou, na realidade, verdadeiros partidos de política religiosa: a dos saduceus, a dos fariseus e a dos essênios.

Os saduceus compunham o partido sacerdotal e dos poderosos, baseando toda a sua atividade na fidelidade intransigente aos texto da Torá – os cinco primeiros livros bíblicos : Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – e lutando pela supremacia do povo eleito e pela grandeza espiritual do templo. Para os saduceus, somente as disposições legais e as crenças explícitas na Torá é que determinavam o rumo da fé de Israel. Daí a sua extrema severidade nas leis penais e o fato de não aceitarem interpretações e especulações sobre o texto da lei, que teria sido recebida por Moisés, no monte Horeb, no Sinai. Por isso, eram adversários dos fariseus, que defendiam princípios não formulados, explicitamente, na Torá. Aferrados ao templo, os saduceus desapareceriam junto com ele, quando da destruição de Jerusalém, no ano 70 da era atual (3830 da era hebraica), pelas tropas romanas do imperador Tito, no dia 9 do mês av.

Os fariseus (do hebraico: perushin = separados), cuja importância havia crescido a partir do século II a.C., admitiam, além da tradição escrita da Torá, uma extensa tradição oral, que, segundo eles, autorizava, aos doutores da Lei, a interpretação do texto e a adaptação dele às diversas circunstâncias concretas da História. Compondo uma ordem religiosa, contemplativa e docente, os fariseus definiram as estruturas básicas do judaísmo, as quais iriam ser, em larga escala, absorvidas pelo cristianismo: a justiça de Deus e a liberdade do homem; a imortalidade pessoal: o julgamento após a morte; o paraíso, o purgatório e o inferno; a ressurreição dos mortos; o reinado de glória. Tais conceitos doutrinários seriam levados, ao cristianismo, por Saulo – canonizado como São Paulo – que se proclamava “fariseu, filho de fariseus”.

No primeiro século antes da era cristã, o movimento farisaico dividia-se em duas facções rivais: a de Shamai, rigorosa e intransigente na interpretação da Torá – a ala extremista dos zelotes, que inspirou a revolta contra Roma era dessa facção – e a de Hilel, o Velho, mais moderada. Quando o templo foi definitivamente destruído, foi a corrente de Hilel que manteve a unidade doutrinária do farisaísmo e que, por meio dele, proporcionou a sobrevivência do judaísmo. Com o conhecimento, que se possui, sobre a doutrina farisaica e sobre o aproveitamento desta pela Igreja, não se compreende o grosseiro conceito que se faz dos fariseus, o juízo pejorativo, geralmente injusto e que não considera a função fundamental que eles exerceram na vida religiosa judaica e, por extensão, na de toda a humanidade, através do aproveitamento de sua doutrina por outras religiões. O conceito pejorativo, que deles se faz, deve-se, fundamentalmente, à interpretação clerical dos Evangelhos, a qual os rotula como fanáticos e hipócritas, em geral, embora fanáticos e hipócritas existam em qualquer grupo religioso, ou seita.

Os essênios, embora sua atividade fosse descrita por Flávio Josefo e Filon, tornaram-se mais conhecidos a partir da descoberta dos manuscritos de Cumrán, ou manuscritos do Mar Morto. Eles formavam comunidades que praticavam um monaquismo, através do qual homens e mulheres, provindos de diversas regiões de Israel, agrupavam-se, para uma vida consagrada ao ideal de uma vida religiosa de isolamento, contemplação e silêncio. O ingresso na comunidade implicava o voto de viver, de acordo com os preceitos da Torá, uma existência de oração, pobreza, obediência e pureza, através da submissão à vontade de Deus. Isolados e quase enquistados, não participavam das atividades do templo, tendo pouca influência na vida religiosa judaica, embora alguns de seus hábitos, exclusivamente religiosos, tivessem sido aproveitados, chegando até à Igreja: preces e estudos em comum, preparando a alma para a eternidade; ressurreição dos mortos; purificação pela água; e a comunhão da confraria no vinho e no pão consagrados, origem da eucaristia. A comunidade dos essênios também iria desaparecer com a derrocada nacional, após a destruição de Jerusalém e do terceiro templo.

  • “Emanuel nasceu a 23 de dezembro do ano um.”

Comentário:

Eureka! Fez-se a luz! Ninguém, até hoje, sabia a data exata do nascimento de Jesus, nem mesmo os mais profundos estudiosos da História e da Arqueologia. Agora já se sabe, graças à sábia informação contida nesse folheto!

Sabe-se – ou seria melhor dizer “sabia-se”? – que a data de 25 de dezembro, para o nascimento de Jesus, é completamente fictícia e foi baseada no mitraísmo persa, adotado pelos romanos. Como a noite de 24 para 25 de dezembro é a mais longa – e, geralmente, a mais fria – do ano, no hemisfério Norte, os adoradores do deus Mitra (o Sol), realizavam uma cerimônia, “Natalis Invicti Solis” (Nascimento do Sol Vitorioso), onde, durante a longa e fria noite, eram realizados cultos propiciatórios, pela volta da luz do Sol e do calor. O cristianismo, aproveitando essa cerimônia mitraica e assimilando Jesus à luz do mundo, fixou essa data, como se fosse a do nascimento de Jesus, já que não se sabe nem o dia e nem o ano em que isso ocorreu. Ou melhor, não se sabia!!!!

  • “Gaspar era rei da Índia; Melchior, rei do Egito; Baltazar, rei da Babilônia”

Comentário:

Nada prova que os três personagens eram, realmente, reis, embora sejam tidos, popularmente, como tal. As Escrituras, em momento algum, fornecem informações suficientes para que se possa estabelecer qual é o país de cada um, destacando, apenas, que eram do Oriente. Até o número dos “reis magos” é motivo de controvérsia, pois já se falou em 3, 4, 5, 6 e até 12! O número de três se deveu à tradição, segundo a qual eles se apresentavam como representantes das três raças: branca, negra e amarela.

Os nomes pelos quais ficaram conhecidos também são duvidosos, pois resultam de uma tradição tardia e não da época em que os fatos teriam acontecido. E é mais provável que tais personagens fossem meros viajantes, com conhecimentos de ciências naturais e de astrologia. Quem disse que eles eram, respectivamente, reis da Índia, do Egito e da Babilônia? Da Babilônia, seria impossível! Depois do domínio persa, iniciado com Ciro, o Grande, em 539 a.C., a Babilônia conheceu o período helenístico, quando entrou em decadência, desaparecendo antes do início da era cristã. O termo “babilônia” surge, no Novo Testamento, apenas de forma metafórica, para designar a Roma pagã, ou o próprio mundo. Como Baltazar poderia ser rei de um Estado desaparecido? E como Melchior poderia ser rei do Egito, se o Egito, desde 30 a.C., era província romana? E nem se fale da Índia, que, na época, estava tão dividida, que nem se poderia falar em um governo único. Conclusão: “invenção”!

  • “O segundo grau era também conhecido como o grau de profeta. Nesse grau, Jesus recebeu o nome simbólico de Issa”.

Comentário:

Abstraindo essa história fantástica de segundo grau, sem qualquer comprovação – o segundo grau, na maçonaria, surgiria no final do século XVII – a própria explicação sobre
esse nome, a mais aceita, é, também, mera especulação: “Issa” teria sido o nome de Jesus, quando de sua permanência nos claustros do Tibete. Isso, obviamente, é mera suposição, embora Raul Silva, um místico sem bagagem histórica, em seu antigo livro “Maçonaria Simbólica” – da editora ocultista Pensamento – diga que “um nosso irmão russo, de nome Nicktowysk, compulsando esses documentos da antiguidade, neles encontrou a permanência de Jesus, durante anos, no convento do Tibete, sendo ali conhecido com o nome de profeta Issa”. Só que ninguém sabe quem é Nicktowysk e tais “documentos” nunca foram exibidos, o que leva à conclusão de que se trata de mais uma farsa. Mais uma!

Acrescente-se, porém, que, para o Islã – a religião fundada por Mohammed ibn Abdallah (Maomé), no século VI da era atual – Adão foi o primeiro profeta e Jesus, um dos profetas mais perfeitos. Daí a origem desse título, que nada tem a ver com o Tibete e nem com uma eventual e fantástica “maçonaria dos essênios”.

  • “Os Reis Magos também eram maçons”.

Comentário:

SEM COMENTÁRIOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Autor: José Castellani

*Do livro Mania e Crendices em nome da maçonaria.

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Porque a vaidade é um vício

post

Procurando algo na internet dia desses, deparei-me com postagens sobre contos de Machado de Assis e comecei a lê-los, um seguido do outro. Escrevi certa vez que um livro é clássico quando pode ser lido em qualquer época e continua absolutamente atual. Bem, não preciso nem dizer que Machado de Assis é um dos mais clássicos dos clássicos.

O conto O Espelho me levou a pensar na questão da aparência versus mundo interno, ou seja, o “eu” que os outros veem e o “eu verdadeiro”, aquele que está dentro de mim. O conto é curto e genial. Assim, minha sugestão é: leia. Leia logo, o quanto antes. Ele é de Domínio Público, podendo ser lido gratuitamente.

O conto fala sobre um homem que acreditava que somos feitos de duas almas, “uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…”. A alma que olha de dentro para fora seria nosso “eu interior” e a que olha de fora para dentro seria a forma como os outros nos veem, o personagem que criamos, a imagem – o perfil nas redes sociais, talvez…

No conto, o homem era pobre e quando foi nomeado alferes da Guarda Nacional, muita coisa mudou para ele. O posto militar lhe trouxe um reconhecimento externo, um status, que ele não tinha antes. Ele passou a ser visto pelos outros como alferes. E eis que as duas almas que ele considerava como duas metades da mesma laranja tornam-se apenas uma.

“O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado”.

Fico imaginando que “a cortesia e os rapapés da casa” hoje em dia se traduzem em curtidas, compartilhamentos, comentários e visualizações nos nossos perfis em redes sociais; ou em reconhecimentos públicos, entrevistas, alguma aparição na mídia ou momentos de fama instantânea; ou ainda privilégios que essa carcaça externa que vestimos muitas vezes nos proporciona, como tratamento diferenciado por se apresentar como médico, por exemplo.

E a “parte mínima de humanidade” acaba absolutamente sombreada e raquítica por trás dessa nossa “patente”, dessa nossa máscara, dessa nossa imagem, dessa nossa “alma exterior” que depende totalmente dos olhos dos outros.

No entanto, o conto continua. Devido justamente a esse novo status alcançado, foi convidado por uma tia a passar uns dias em sua fazenda e foi presenteado com um espelho por ela. Por motivos que não vou contar aqui, para não estragar a leitura do conto, ele se vê totalmente sozinho na fazenda por uns dias e perde completamente sua identidade. Ao se olhar no tal espelho, não consegue mais ver sua imagem nítida. Ele via apenas um borrão. O problema somente se resolve quando ele decide vestir a farda novamente. Com a farda, ele volta a se reconhecer no espelho; voltara a ser o alferes.

O conto termina assim e nós ficamos com aquela sensação incômoda no estômago.

O psiquiatra Flávio Gikovate chamaria essa tal alma exterior de Machado de Assis de vaidade, e a alma interior de autoestima. Ele escreveu certa vez um livro que classificava a vaidade como “o vício dos vícios”. Segundo comentário feito por ele mesmo certa vez, o livro foi um dos que teve pior resultado em vendas. Tanto que está disponível para download gratuito em seu site (mais um livro gratuito recomendado).

As pessoas não se interessaram em ler sobre vaidade, provavelmente porque esse é, realmente, um dos vícios mais humanos, demasiado humanos, de todos. A vaidade é mãe da inveja. Gikovate classificava a vaidade como um prazer erótico que sentimos ao perceber que nos destacamos de alguma maneira do restante do grupo, seja por questões materiais, intelectuais, físicas.

Gikovate dizia que todos nós sentimos um certo incômodo, um certo vazio, uma angústia, que está relacionado a inúmeras dúvidas que temos a respeito de nós mesmos, bem como à constatação de nossa insignificância. “A sensação de abandono e de insignificância que resta é, em certo sentido, insuportável”.

Assim, usamos diversos subterfúgios para amenizar esses vazios que sentimos diante da crueza da vida humana e de suas inúmeras tragédias e a vaidade é um deles. Sabemos que somos insignificantes no Universo e, dessa forma, a busca por um destaque individual dentro do grupo social nos gera esse prazer.

No entanto, ele classificou a vaidade como vício porque “o prazer que sentimos é sempre de natureza efêmera; precisamos de novas coisas para que a sensação se repita. Precisamos de cada vez mais coisas para sentirmos a mesma emoção; é como se fosse um vício no qual vamos nos afundando cada vez mais.”

Dessa forma, quando perdemos o “status” – que, no caso do livro, era o de alferes, mas pode ser status de médico, advogado ou ator, muito dinheiro, muita beleza, muita inteligência, uma família perfeita, ou até mesmo uma aparente ausência de vaidade, que também é uma maneira de se destacar, já que o ‘despojado’ quer parecer assim e isso lhe causa igual prazer – “perdemos ‘importância’ e isto nos remete à insignificância”, que ele diz que evitamos a todo momento de pensar;

Podemos dizer que se o atenuador do desconforto psíquico for apenas um paliativo e de duração temporária, nossa dor voltará a surgir de uma hora para outra e de forma cada vez mais intensa”, disse o Gikovate.

Ele, no entanto, afirma que não há como nos livrarmos da vaidade, que é uma condição humana. O que temos que fazer é nos esforçar para nos livrar da vaidade como vício, percebendo como ela funciona e tentando sempre atuar no caminho do bom senso, o que “não é nada fácil, especialmente para nós que não fomos treinados para esta tarefa; fomos educados para valorizarmos os exageros, os extremos, confundidos com a noção de destaques, de sucesso.”

Não é fácil, mas é o caminho. Exige esforço e um certo desapego de nossa parte, mas traz como recompensa um espelho nítido, mais fiel à nossa “alma interna”e bem menos dependente dos olhos, aplausos e curtidas dos outros.

Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.” (Eclesiastes)

Autora: Juliana Santin

Fonte: Genialmente Louco

Notas

[1] – A imagem que ilustra o texto é uma cena de O Espelho de Machado de Assis em HQ. Editora Mercuryo, 2012. Arte: João Pinheiro.

[2] – Para ler o conto O Espelho clique AQUI

[3] – Para ler o livro de Flávio Gikovate vá até a página da biblioteca do blog clicando AQUI

 

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Maçonaria, anticlericalismo e livre pensamento no Brasil (1901-1909)

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Introdução

Componente inseparável da História das Ideias desde o início do século XIX aos dias atuais, a história da Maçonaria, do anticlericalismo e do livre pensamento é também a da cultura, da religião, da educação e do poder na sociedade contemporânea. Sistemas característicos de ideias e teorias, o anticlericalismo e o livre pensamento organizaram-se, em diferentes períodos, como movimentos específicos de feições particulares, sobretudo no final do século XIX e inícios do XX, articulando-se em primeiro lugar com tendências políticas liberais e radicais tais como o anarquismo e o socialismo e em seguida, com a Maçonaria e com correntes espiritualistas[1].

Desde meados do século XIX, os movimentos de livre pensamento e anticlericalismo marcaram profundamente a sociedade contemporânea. A crise das religiões cristãs tradicionais, os avanços do pensamento materialista, racionalista e científico, o surgimento de novas formas políticas de pensar o poder, fizeram parte da difusão das ideias anticlericais e de livre pensamento.

Mas, apesar da importância desta corrente de pensamento, poucos estudos históricos vêm sendo realizados sobre este tema. Pierre Lévêque ao estudar as relações entre livre pensamento e socialismo entre 1889 e 1939, a difusão de tais ideias entre a classe operária, afirma:

“Un désert bibliographique: telle aparait l’Histoire de Libre Pensée française, vieille pourtant de plus de trois quarts de siécle.” (“ Libre Pensée et Socialisme (1889/1939): Quelques points de repère” in Cristianisme et Monde Ouvrier, Cahiers du Mouvement Social, n. 1, Paris, Les Editions Ouvrières, pp. 117-153, 1989.).

Como exceção que confirma a regra, está o trabalho já clássico de René Rémond, L’Anticlericalisme en France de 1815 à nos jours. (Paris, Fayard, 1976). Para este autor, o anticlericalismo raramente é estudado por ele mesmo, assim como acontece com o livre pensamento, apontando alguns poucos trabalhos sobre o assunto especificamente, entre eles o de Alec Mellor, Histoire de l’Anticlericalisme français (Tours, 1966, 496 pp.) e o de George Weil, Histoire de l’Idée laique en France au XIX siécle (Paris, 1929).

Segundo Remond, o anticlericalismo como movimento só teria surgido no século XIX. No campo das ideias, o anticlericalismo não foi uma mera ideologia negativa porém um campo fértil de proposições, uma matriz de movimentos, de ideias políticas que manifestavam-se na organização de grupos e ligas, na literatura e na imprensa. Seria, portanto, um campo de ação política, dotado de uma positividade atuante ao denunciar a hipocrisia clerical, construindo um sentido moral/ético laico ao atacar os focos de corrupção da Igreja e depois da política. Surgindo como reação organizada ao ultramontanismo do século XIX, era ao mesmo tempo, movimento e ideologia. Sem um corpo teórico fechado, o anticlericalismo e livre pensamento podem ser vistos como um vasto campo de sínteses de ideias e escritos circunstanciais, numa dinâmica viva enraizada nas mentalidades e sensibilidades.

Assim sendo, para Rémond, o historiador tem que partir da análise acurada das fontes, frequentemente diversas e ambivalentes, para reconstruir o universo cultural do anticlericalismo e do livre pensamento. O que une tanta diversidade teórica e conceitual são temas clássicos: a Igreja vista como um corpo singular separado da sociedade; a Igreja como uma ameaça ao Estado, a Nação, ao indivíduo e a família. Poderia-se, portanto, falar em uma grande gama de formas de anticlericalismos. Temos vertentes que  não contestam a moral cristã mas a posição incoerente da Igreja face a esta moral. Em outros casos, afirmam-se os ensinamentos evangélicos mas vai contra os princípios anti-naturais propostos pela Igreja (ex. o celibato). Há também uma postura libertária que recusa a imposição de qualquer forma de coerção moral exterior, valorizando as relações e a busca individual do conhecimento e do comportamento perfeito, correto e adequado. Fica marcada a antinomia entre a sociedade moderna e o clericalismo. A modernidade deveria combater as pretensões clericais de ascendência através da irreligião, do poder político laico forte, de uma legislação concisa, através da liberdade de cultos, do ensino científico não religioso. O papel do poder político e constitucional seria o de garantir a liberdade de consciência. É desta forma que o autor fala das diferentes filiações dos tipos de anticlericalismo (jansenismo, radical democrático, direita liberal, anticlericalismo cristão e protestante, etc.).

A historiografia portuguesa tem trabalhos clássicos sobre o tema. O de Fernando José de Almeida Catroga, A Militância e a Descristianização da Morte em Portugal: 1865-1911 (2 vols., Coimbra, Univ. de Coimbra, 1988) estuda a penetração do positivismo e do cientificismo em Portugal destacando a importância de movimentos que definiram as estratégias culturais para que tal processo fosse possível: secularismo, laicismo, anticlericalismo, livre pensamento e Maçonaria. Destaca como as elites intelectuais portuguesas influenciadas pelo positivismo e cientificismo oriundos destas tendências diferentes, porém convergentes, fomentaram uma nova moral social e mesmo cívica.

No 6° volume da História de Portugal: A Segunda Fundação (1890-1926) (Lisboa, Ed. Estampa, 1994), Rui Ramos destaca o papel dos intelectuais, sobretudo escritores anticlericais como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, entre outros, na formação de uma nova mentalidade cultural e política que procurava construir um republicanismo ideal apoiado no positivismo científico, liberalismo, civismo. Aponta o papel de fundamental importância que as organizações maçônicas portuguesas tiveram no acolhimento, discussão, e difusão destes novos ideais bem como a sua estreita associação com movimentos e idéias secularizantes.

No caso do Brasil, destacam-se alguns trabalhos. O de Carlos Alberto de Freitas Balhana, Ideias em Confronto (Grafipar, Curitiba, 1981) tornou-se referência obrigatória. Para este autor, a organização e difusão de novas ideias políticas, religiosas e filosóficas esteve profundamente ligada ao surgimento do movimento de anticlericais e livre pensadores que se incorporaram aos discursos modernizadores dos projetos de reorganização da sociedade brasileira, associados com a expansão da Maçonaria por ser esta o abrigo natural para as diferentes correntes de ideias e movimentos sociais, filosóficos e espiritualistas, tentando contudo ela própria, por preceito básico, enquanto instituição, respeitar a liberdade e o direito às crenças individuais, evitando tomar partido político ou religioso de forma sectária e radical, o que lhe é, ademais, expressamente vedado através das suas leis, códigos, regulamentos, regimentos e estatutos. Porém, dentro do conjunto das grandes linhas do pensamento nacional do final do século XIX e inícios do XX, a mentalidade “conservadora” x “liberal” fizeram parte da história cultural da Maçonaria brasileira e traduziram-se dentro das facções deste movimento nas vertentes anticlericais e livre pensadoras.

Segundo Balhana, o livre pensamento não resumiu-se em uma simples proposta de retomada da consciência individual mas abrangia propostas libertárias em todas as campos e níveis, sendo o anticlericalismo uma derivada. O anticlericalismo combatia principalmente o poder papal e da Igreja, tanto no plano religioso como temporal, sobretudo no seu caráter ideológico e religioso observando neles um forte caráter e instrumento de dominação, consolidação de poder e enriquecimento. Pode-se observar, desta forma, ser o livre pensamento uma posição mais abrangente que o anticlericalismo.

Em A Guerra aos Párocos: Episódios Anticlericais na Bahia (Salvador, EGBA, 1991), o antropólogo Thales de Azevedo define o anticlericalismo como uma manifestação pública e hostil de oposição a uma instituição eclesial, que se articula com o laicismo social, liberalismo, positivismo, cientificismo e maçonaria. No caso preciso do anticlericalismo do século XIX, o autor destaca como marco inicial no qual questões políticas entre monarquistas e republicanos são destacadas, o brado do deputado francês Leon Gambetta em 4 de maio de 1877: “Le Clericalisme, voilé l´ennemi!”. Tal questão desdobra-se, em surtos, na Itália, Espanha, Portugal, Bélgica, Áustria, por inspiração liberal, maçônica ou socialista, e atingindo protestantes e judeus. Expandiu-se, inclusive no Brasil, através de uma pluralidade de formas e motivações básicas: a Igreja como uma ameaça ao Estado, à Nação, aos Indivíduos, à Família; o contraste entre a moral ensinada preconizada e a conduta corrompida do clero; os resultados desastrosos do ensino religioso, etc. Para Thales de Azevedo o anticlericalismo é uma ideologia negativa e um fenômeno coletivo que contamina grupos de perceptível extensão e continuidade, traduzido por líderes, intérpretes e manifestações públicas. Destaca a importância para a difusão destas tendências, da atuação da maçonaria brasileira, sobretudo após o episódio da Questão Religiosa e a consequente expulsão dos maçons das irmandades e cargos pelos Bispos do Pará, D. Antônio Macedo Costa, e de Olinda, D. Vital Maria da Conceição, que evidenciaram e agravaram as tensões e a situação favorecendo o acirramento de posições. Aponta para importância de maçons como Saldanha Marinho, o Visconde do Rio Branco, entre outros, na difusão do anticlericalismo no Brasil, com especial destaque para a obra de Saldanha Marinho A Igreja e o Estado (1874-1875).

É, desta forma, evidente em diversos autores, a profunda articulação entre a maçonaria e o anticlericalismo, bem como todas as outras formas laicistas do século XIX. As lojas maçônicas eram centros de difusão de tendências laicistas europeias, de positivismo, de formas alternativas de expressão religiosa tais como o espiritualismo em geral e do espiritismo em particular, bem como do protestantismo. Era o direito à voz e onde se abrigavam minorias e grupos intelectuais.

No livro Protestantes, Liberales y Francomasones; Sociedades de Ideas y Modernidad en America Latina (Ed. Siglo XXI, México/CEHILA, 1990) organizado por Jean Pierre Bastian, há uma contextualização da importância das “sociedades de ideias” que teriam servido como espaços para a elaboração de alternativas sociais e políticas, de novas visões de sociedade onde a igualdade e a autonomia do indivíduo como autor democrático eram o centro das proposições. Tratava-se de uma ampla frente anticatólica romana integrada  por maçons, espíritas, protestantes, liberais radicais, socialistas e anarquistas, organizados em grupos, associações, centros, lojas maçônicas, grupos literários que manifestavam-se em palestras, conferências, literatura e, principalmente, na imprensa. Eram redes de oposição que se consideravam portadoras da modernidade combatendo os conservadores, a Igreja Católica e os próprio liberalismo quando este tornou-se autoritário e começou a aliar-se com os conservadores, inclusive a Igreja. Para Bastian, as minorias liberais agrupadas em trono de lojas maçônicas e sociedades de ideias, tais como grupos anticlericais e de livre pensadores, radicalizaram-se à partir da segunda metade do século XIX e tornaram-se decadentes com a consolidação dos ideais republicanos. Da mesma forma, é possível pensar que dentro do ecletismo que caracterizava o universo cultural das sociedades de ideias do período (que ia da leitura de Lamartine, Comte a Allan Kardec), as diferentes tendências eram um reflexo das lutas e confrontos de ideias internas aos grupos e tendências liberais que iam de um liberalismo conservador, autoritário e antidemocrático em franca conciliação com a Igreja Católica a grupos minoritários sempre mobilizados que denunciavam e propunham transformações mais radicais através da educação, de um crítico civismo liberal que, com freqüência, levou ao socialismo e ao anarquismo, bem como a projetos de transformação espiritual da sociedade.

Também neste livro destacam-se os artigos de David Gueiros Vieira, “Liberalismo, Masoneria y Protestantismo en Brasil – siglo XIX”, e outro de Antônio Gouveia de Mendonça, “La Cuestion religiosa y la incursion del Protestantismo en Brasil durante el siglo XIX”, onde as referências ao relacionamento da maçonaria com outras tendências e movimentos de época passam por liberalismo, ideais de progresso, liberdade de crenças e cultos, separação Igreja-estado, a modernidade, o ensino leigo e científico, etc.

Um outro autor, Alexandre Barata, em seu artigo “A Maçonaria e a Ilustração Brasileira” (in Manguinhos, vol. I (1), jul-out., 1994) redimensiona a atuação da instituição maçônica brasileira no século XIX, mostrando-a engajada (ou pelo menos setores importantes e atuantes dela) com a construção de uma nova identidade nacional, batendo-se contra a Igreja católica, ampliando os investimentos em beneficência e instrução como forma de influenciar a reorganização da sociedade e contrapor-se a Igreja, destacando a atuação dos maçons na imprensa, na administração pública, no ensino.

Anticlericalismo e Maçonaria vistos através do A Lanterna e O Livre Pensador (1901-1909)

No caso do trabalho aqui apresentado serão destacadas as análises particulares da articulação de idéias anticlericais e de livre pensamento com grupos maçônicos a partir de dois periódicos específicos, A Lanterna  e O Livre Pensador.

A Lanterna começou a ser publicado em 1901, parou em 1902, sendo sua publicação retomada entre 1903 até 1904. Após um período de interrupção que vai até 1909, passou por um período de auge que se estendeu até 1916. Neste ano foi transformado no jornal anarquista A Plebe, reaparecendo como A Lanterna entre 1933-5.

Sua periodicidade foi variada nestes anos devido, sobretudo, a problemas financeiros, dificuldade de distribuição, interferência clerical, proibição de venda e outras formas de repressão mais ou menos sutis aos seus membros e leitores. No ano de 1903, houve uma fusão com dois outros periódicos anticlericais, O Livre Pensador e o L´Asino, e passou a ser publicado com o subtítulo de “diário da noite anticlerical e independente”. No seu cabeçalho encontramos junto com a data normal uma data segundo o calendário revolucionário francês. Em 1904 acontece a dissolução da sociedade entre A Lanterna editada por Benjamim Mota e O Livre Pensador de Everardo Dias e Antônio Garcia de Oliveira, devido a problemas pessoais e profissionais. O Livre Pensador reenceta sua publicação sob a direção de Everardo Dias, mas A Lanterna com a saída de Benjamim Mota, não sobrevive muito tempo, só reaparecendo em 1909 sob a direção de um grupo de anticlericais com o apoio de Mota e tendo como subtítulo “folha anticlerical de combate”. O jornal teve onze anos de publicação e um dos seus diretores foi Edgard Leuenroth.

Os dois jornais tem grande quantidade de artigos de propaganda do livre pensamento e do anticlericalismo, seções para correspondentes de outras localidades, temas que saem durante longos períodos voltados para a discussão de religião, ciência, ensino laico x religioso, a situação da mulher na sociedade, bem como notícias nacionais e internacionais do movimento livre pensador e anticlerical, de Congressos e Ligas, etc. Há espaço também para folhetins de natureza anticlerical, anúncios variados, indicações e comentários sobre jornais, revistas e obras literárias de caráter anticlerical, de livre pensamento e maçônicas.

O que se percebe, pela análise dos artigos e da correspondência que chegava aos dois jornais, era a difusão das propaganda anticlerical e do livre pensamento em diversas regiões e localidades brasileiras. Porém, não podemos dizer que esta tendência tenha sido disseminada em amplos setores sociais. Uma corrente de simpatizantes que se encarregava de fortalecer e disseminar, de forma articulada, idéias anticlericais e de livre pensamento. O movimento estava restrito a um grupo de intelectuais, profissionais liberais, pequenos comerciantes, funcionários públicos e algumas esferas da política.

Temas, tendências e imagens de A Lanterna e O Livre Pensador

Neste dois jornais, as tendências não são iguais embora apresentem as características básicas do movimento anticlerical de período,. No que se refere a relação com a maçonaria apresentavam aspectos singulares que refletem com clareza as tensões entre diferentes grupos e ideias características desta época da história do Brasil republicano.

O jornal A Lanterna  definiu-se, quando surgiu, como um órgão de propaganda anticlerical que deveria denunciar e julgar a Igreja Católica Apostólica Romana e seus membros, vistos como causadores da ignorância e miséria de populações inteiras pelo mundo. Defendia projetos de constituição de uma sociedade laica, do progresso e da civilização em oposição às concepções clericais. Em 1909, quando reaparece, pretende ser “(..) uma tribuna de livre discussão, para uma investigação sincera da verdade, eco às aspirações do nosso tempo.”(A Lanterna, ano IV, n.1).

Os ataques eram dirigidos aos dogmas e crendices da Igreja, às incoerências existentes entre o cristianismo primitivo, puro e seu desdobramento nas explorações do Vaticano, assim como às relações de poder que garantiam aos sacerdotes desta instituição livre trânsito na sociedade brasileira, intervindo em círculos que iam da política até a intimidade familiar. Atacava-se o papado, o clero em geral, a vinda de ordens religiosas para o Brasil, os desmandos da República que se dobrava à Igreja, a violência da polícia defendendo o clero. O jesuitismo, associado a Inquisição, foi a imagem de tudo o que era atrasado, mal e imoral, representando a corrupção e o passado, sendo o oposto dos ideais de progresso e civilização moderna. A moralidade dos padres é colocada em dúvida: os seminários são locais de perversão e devassidão. Denunciam, entre outros, casos de abuso sexual de menores e mulheres, pederastia, concubinato, abortos, filhos ilegítimos, alcoolismo, exploração da fé, vadiagem, impunidade, desvio de doações, riqueza do clero, etc.

A propaganda anticlerical do A Lanterna procurava desacreditar a Igreja católica como instituição e o caráter nocivo e pernicioso de seus sacerdotes. Os rituais da Igreja são criticados por serem pura hipocrisia e exploração da ignorância. A confissão aparece como um grande mal, sendo considerada absurda, imoral e perigosa para crianças inocentes sem a possibilidade de maiores transgressões além de manter informados os seus “confessores” acerca do que ocorria no âmbito familiar,  e mulheres que expondo seus segredos, suas intimidades e sua vida particular, poriam-se à mercê e sob a tutela direta de padres de comportamento duvidoso.

Na propaganda anticlerical o projeto de laicização da sociedade passava pelo necessário desmantelamento da Igreja Católica vista como uma instituição incoerente, imoral e propagadoras de formas de dominação que mantinham os homens no conformismo, na ignorância e na miséria, calando anseios de rebeldia, liberação e progresso. Contra a Igreja, devia-se investir forte na educação laica feminina e infantil, valorizando a racionalidade, a cultura, o trabalho, a igualdade, a moralidade pública, a ética pessoal e social, as artes, a sensibilidade, e uma espiritualidade desvinculadas dos cabrestos de dogmas e instituições, etc. Era fundamental a completa separação de Igreja e estado, da política e religião.

O ensino tornou-se um ponto fundamental. Reafirmava-se a necessidade do governo coibir a atuação dos clérigos na educação através do incentivo e promoção de um ensino laico moral e sadio, público e científico.

Cabe destacar o caráter maniqueísta da propaganda anticlerical: de um lado, livre pensadores e anticlericais, representando a razão, o progresso, a civilização, a ciência, a liberdade, a sociedade, a aspiração justa; de outro, a Igreja e seus membros, representando a hipocrisia, a ignorância, o atraso e a miséria, tudo que era nocivo. Algo assim como um verdadeiro cancro que deveria ser extirpado o quanto antes, ainda que por métodos enérgicos, conforme defendiam algumas alas. A decadência de alguns países, como Portugal e Espanha, era intimamente associada a influência da Igreja Católica. Se o Brasil quisesse progredir devia livrar-se do clericalismo, do jesuitismo, do domínio católico, sob pena de se condenar ao imobilismo, ao atraso, ao definhamento e a asfixia. A ciência, essencial para este progresso, seria sempre perseguida pelas forças clericais lançando mão, para isso, de todos os meios ao seu dispor.

Aliás, o caráter internacional do movimento era destacado de forma constante: tanto perseguições como os avanços do movimento no mundo eram noticiados. Artigos traduzidos e ficava muito claro o contato com o movimento anticlerical e de livre pensamento internacional, principalmente em Portugal.

No A Lanterna aparecem muitas críticas às influencias clericais no governo de Rodrigues Alves e ao protecionismo que ele dá ao clero. Afirmava que a presença da maçonaria e de maçons na política deveria representar uma arma contra este tipo de aliança. Tempos depois alguns maçons no governo como Campos Sales, Prudente de Morais, Bernardino de Campos, Rio Branco, foram citados como traidores, fracos e omissos, diante dos avanços políticos dos aliados do clericalismo no poder. Defendiam o papel da maçonaria no combate ao jesuitismo. Em setembro de 1903 esta questão ganhou destaque no artigo intitulado “O jesuitismo e a Maçonaria” onde foi apresentada a moção aprovada na Assembleia Geral do Grande Oriente de São Paulo e dirigida ao Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, Quintino Bocaiúva, que “(..) resolveu em sessão de 21 corrente votar uma moção de confiança ao Gr∴ Or∴ do Brasil certo de que ele saberá manter as tradições gloriosas de Saldanha Marinho e Rio Branco, opondo barreira forte à invasão perigosa que ameaça tudo avassalar, desde as mais altas regiões da vida nacional até as mais ínfimas camadas das classes sociais.” (19-27 de setembro de 1903, ano II, nº 16-7).

A Lanterna sempre esteve ligado a maçonaria, ou, pelo menos a certos grupos de maçons fortes e influentes. Surgiu de um esforço de Benjamim Mota (advogado) e de um grupo de maçons da Loja Luso Brasileira (cf. A Lanterna, ano III, n.16). Maçons aparecem nas listas de subscrição que sustentavam o jornal, como articulistas, anunciantes. Há notas e artigos referentes a Lojas Maçônicas – tanto nacionais como internacionais – a associações maçônicas beneficentes, políticos relacionados com a Maçonaria e críticas aos setores da maçonaria que não defendiam o anticlericalismo.

Existem informações sobre auxílio financeiro que lojas maçônicas fizeram para garantir a existência do jornal. O noticiário dava conta da vida das lojas maçônicas. Por exemplo, no A Lanterna de 14-15 de novembro de 1901 (ano 1, nº 9) existe uma referência a instalação do Grande Oriente de São Paulo como integrante do Grande Oriente do Brazil. A articulação do movimento livre pensador e anticlerical revelam aspectos sociais amplos. Em junho de 1903, o A Lanterna noticia o falecimento da livre pensadora D. Antonietta Algaya de Almeida, fundadora da Associação Beneficente de Senhoras do Rio Grande do Sul e filha de José Domingues de Almeida, Gr∴ Sec∴ do Grande Oriente de Rio Grande do Sul.

O Livre Pensador dirigido por Everardo Dias, maçom, socialista e espiritualista, tem uma faceta característica: embora esteja dentro das tendências gerais do movimento anticlerical e de livre pensamento revela algumas nuances distintas. Quando o assunto era desmoralizar a Igreja surgiam os artigos contra o papismo, o dogmatismo, a exploração da fé, a teologia, a canonização, etc. Apareciam muitas críticas contra os padres que atacavam protestantes, maçons, espíritas, livre pensadores, socialistas, etc., em suas prédicas. (p.ex. O Livre Pensador, ano II, n. 73).

Procurava-se “dessacralizar” a verdade absoluta da religião católica amparando-a com cultos pagãos, desmistificando relatos bíblicos. A ciência, o conhecimento histórico de outras religiões e da própria história da Igreja eram elementos fundamentais para determinar novos parâmetros da religião. A investigação, as explicações científicas baseadas em fenômenos físico-químicos ou em dados empíricos, o método científico-experimental, seriam os crivos pelos quais a religião seria analisada e julgada.

No O Livre Pensador apareciam, claramente colocadas, duas tendências no que se referia a religião: uma detração completa ao pensamento religioso em geral e ao da Igreja em particular; ou então, uma comparação entre o cristianismo primitivo puro e autêntico e o catolicismo caracterizado como corrompido, nocivo e retrógrado. Havia também defesa do que eram chamadas seitas mais humanas, mais científicas, como o espiritualismo e o espiritismo, defendidas dos ataques dos clericais e dos protestantes.

Os temas eram os tradicionais: a mulher na sociedade, igualdade, ensino laico. Surgiam críticas aos maçons, espíritas e republicanos que, na vida política e pública, cediam às pressões da Igreja e não defendiam ideais anticlericais. A República era cobrada por permitir que o clero interferisse em decisões importantes como as propriedades de ordens religiosas e na educação.

Destacavam os projetos que estavam no Congresso referentes à liberdade de cultos e de associações religiosas, a intransigente defesa da função de uma imprensa livre pensadora e anticlerical. Citavam viagens de propaganda pelo interior de São Paulo, no meio operário. Estas “Conferências Livre Pensadoras e Maçônicas-Liberais” eram feitas ao longo das ferrovias Mogiana e Paulista (cf. O Livre Pensador, ano VI, n.193). São constantes as notícias do exterior, bem como a tradução de artigos, editoriais. A natureza dos assuntos era eclética: espiritualismo, medicina preventiva, homeopatia, combate ao alcoolismo, tuberculose, doenças sexualmente transmissíveis e tabagismo, etc.

No O Livre Pensador é possível perceber uma convivência do materialismo e do cientificismo com a defesa dos espíritas e de sua doutrina contra os argumentos clericais: tratava-se da defesa da liberdade de culto. Também instrumentalizavam o passado através de análises sobre a Inquisição e de figuras como Galileu, Giordano Bruno, colocados como mártires do livre pensamento.

As diferentes características dos dois periódicos refletiam tendências do movimento em sua época, encarnadas nas figuras de seus editores: O Livre Pensador dirigido por Everardo Dias, maçom, anarquista e espiritualista, revela um contexto intelectualizado, de discussão e defesa do espiritualismo e doutrinas afins; A Lanterna de Benjamim Mota, maçom e anarquista, revela uma tendência de discussão de temas relacionados à política e ao anticlericalismo mais ferrenho.

Evidentemente que este artigo levanta questões que devem ser aprofundadas através de pesquisas. Não estamos diante de um movimento representativo para amplos setores da população, de uma mentalidade popular, mas não devemos subestimar a existência e propagação de alguns destes ideais e sentimentos em setores da sociedade e outros movimentos tais como a própria maçonaria. Não devemos entendê-los como cópias de movimentos similares estrangeiros. As similaridades existem mas as especificidades brasileiras devem ser mais estudadas, assim como a instrumentalização ou adaptação de uma determinada linha de argumentação usada contra os clericais.

A queixa frequente da falta de coerência de maçons, espíritas, republicanos, socialistas brasileiros que não eram ostensivamente anticlericais é, por exemplo, um dado que nos coloca em confronto com outros movimentos internacionais. Pusilanimidade? Este era o argumento dos articulistas ferozes. Os jogos de poder, a sobrevivência, a ascensão social, as mentalidades de uma época são elementos que não podem ser desqualificados ou esquecidos: devem ser investigados, interpretados e reinterpretados, revelando tendências, movimentos e debates que desfazem o manto homogeneizador sob o qual abrigam-se denominações genéricas, como maçonaria que sabemos ser hoje também, dividida em “Potências” de várias obediências. Assim também revelam-se múltiplas as denominações de anticlericalismo e livre pensamento.

O que surge até agora, é um tecido cultural riquíssimo para a elucidação e melhor compreensão de diversos aspectos não muito claros porém repleto de espaços para jogos políticos os mais sedutores, curiosos e interessantes, embates de vontades, poderes e influências, de dissimulação, de interesses escusos em posturas, atos e discursos, de ideários febris,  sonhadores, utópicos e delirantes, de utopias transformadoras em nome de interesses comunitários locais, nacionais ou, até mesmo, mundiais, através das quais determinada concepção de sociedade deveria ser colocada em prática. Porém, o elemento de união foi a crença, por vezes contraditória, na existência de verdades e ideais que apontavam o “verdadeiro Destino Natural do Gênero Humano”, definindo e justificando todas as suas ações e argumentações, expressando-se não somente através da imprensa, mas também em manifestações  e ações políticas – nem sempre bem sucedidas.

Autora: Eliane Moura Silva

Nota

[1] – Este artigo faz parte de um projeto mais amplo de pesquisa intitulado O Espiritualismo no século XIX: Correntes culturais e religiosidade, financiado pelo CNPq desde 1995. A observação destas ligações no campo de uma história cultural das idéias do século XIX e XX surgiram durante o trabalho de doutorado que levou a tese Vida e Morte: O Homem no Labirinto da Eternidade (Unicamp, 1993). Ao estudar as crenças e atitudes diante da morte e do após a morte no século XIX ficou claro que o pensamento racionalista e materialista tivera, neste período, opositores no campo da própria ciência, com destaque para  certas construções teóricas ecléticas que produziram discursos sobre Ciência e Fé, Religião e Razão. Espíritas, Esoteristas, Ocultistas, maçonaria mística, espiritualistas em geral, aliaram-se ao livre pensamento e ao anticlericalismo.

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Um breve panorama da historiografia maçônica: de sua criação à atuação na Proclamação da República

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O presente artigo tem como finalidade principal abordar um breve panorama da historiografia maçônica, isto é, a contribuição dos principais trabalhos não apenas pelos historiadores do meio acadêmico mas também pelos pesquisadores e historiadores maçons acerca dessa importante sociedade secreta. Além disso, mais do que fazer um esboço das principais obras sobre a história da maçonaria brasileira, apresentamos também de maneira breve os primeiros trabalhos sobre a maçonaria mundial, isto é, suas origens, mitos, lendas desde a sua chegada ao Brasil. Por conseguinte, temos como recorte principal a sua atuação na proclamação da república no Brasil, em 1889.

O estudo da história da maçonaria inicialmente era restrito principalmente apenas aos historiadores maçons. A mística do segredo não se dava somente dentro das cerimônias e rituais dentro das lojas mas também era um mistério a ser descoberto no campo acadêmico. Por isso, via-se uma necessidade cada vez mais ampla de desvendar os caminhos da pesquisa maçônica não apenas aos maçons, mas sim de uma maneira geral aos historiadores que não pertencem a essa instituição, passando-se assim a se difundir no meio universitário.

Os primeiros estudos sobre maçonaria se deram na Europa especialmente na França durante a década de 1960 pelos maçons Pierre Chevalier e Daniel Ligou. Posteriormente, Augustin Ligou e François Furet aprofundaram os estudos sobre a pesquisa maçônica. Estes dois últimos historiadores influenciaram muito a recente historiografia francesa sobre a maçonaria. Durante a década de 1980, ressalta-se a importância dos trabalhos de Maurice Agulhon na qual ele desenvolve o conceito de sociabilidade. Para esse autor, a maçonaria é vista como espaços de sociabilidade, isto é, grupos sociais na qual os homens expressam e vivem suas relações interpessoais e se inserem nos mais diversos meios. A pesquisa de Maurice Agulhon foi fundamental e influenciou nos estudos da história da maçonaria brasileira, servindo como referencial teórico a ser utilizado por diversos autores. A discussão de sociabilidade será discutida neste presente trabalho mais adiante.

Para Célia Marinho de Azevedo, as origens da maçonaria remontam os personagens do Velho Testamento, começando pelos reis Salomão e Adão[1]. Porém, ela cita um autor chamado Paul Naudon que por sua vez afirma que há um ponto de discordância sobre a fundação da maçonaria, afirmando que a mesma teria surgido no período medieval e na Renascença com a chamada Franco maçonaria ou maçonaria especulativa e a maçonaria de ofício ou operativa[2]. Esses tipos de maçonaria consistiam em organizações de ofício onde os indivíduos, mais do que desenvolverem as atividades, desenvolviam laços de solidariedade e fraternidade. Marinho afirma que a maçonaria durante a Idade Média, era o único ofício não localizado e mantinha laços organizativos entre cidades[3].

O processo de transformação em antiga maçonaria na conhecida “ moderna maçonaria”, desenvolveu-se durante o século XVII na Grã- Bretanha, inicialmente nas lojas escocesas e depois nas inglesas. Segundo a historiadora Margaret Jacob, a nova maçonaria representava o surgimento de uma nova cultura secular, novos espaços de sociabilidade entre as elites[4]. Mais do que isso, ela era o local na qual ocorria a eleição dos representantes e garantia liberdade de expressão em meio a um período de Antigo Regime. Koselleck também compartilha dessa visão, defendendo a ideia de que as lojas maçônicas, além de terem a marca da solidariedade entre os irmãos, eram típicas de um poder indireto, exercido pela burguesia, e pregavam a defesa da liberdade, sendo esta última, um ideal totalmente oposto à tirania e ao despotismo do Antigo regime[5].

A maçonaria, dessa forma, era um tipo de sociabilidade que se desenvolveu durante o absolutismo europeu, sendo também, uma nova forma de organização e instituição encontrado pelas elites, principalmente por parte da burguesia, na qual eles discutiam projetos políticos, funcionando assim como verdadeiros “clubes”. Tal realidade não se deu só entre as lojas maçônicas do cenário europeu, também se fez presente nas lojas maçônicas brasileiras sobre os principais acontecimentos políticos do país.

O século XVIII não foi marcado apenas pela eclosão dos ideias iluministas, enfraquecimento da doutrina absolutista e a explosão da revolução francesa. Além desses fatos, é consenso em grande parte da historiografia atrelarem o surgimento da maçonaria durante esse período. Foi a partir de meados do século XVIII e inícios do XIX que houve uma maior disseminação da maçonaria, com a criação de lojas maçônicas por todo o mundo. Dentre as diversas regiões, a instituição maçônica chegou ao Brasil no início do século XIX com a criação em 1801 da primeira loja maçônica: a loja Reunião, localizada no Rio de Janeiro, vinculada ao Grande Oriente da França. Célia Marinho, entretanto, afirma que havia indícios da existência de maçons anterior a esse período, envolvidos nos episódios da Inconfidência Mineira (1789) e Conjuração Baiana (1798)[6].

O historiador Marco Morel, outro estudioso do tema, ressalta a importância da maçonaria não apenas na história política brasileira, mas em toda a América Latina[7]. De acordo com ele, a maçonaria foi muito influente nos processos de independência das colônias da América Espanhola sob a égide dos maçons Bolívar, San Martin e ainda na emancipação das treze colônias, sob a liderança dos maçons George Washington e Thomas Jefferson. Para esse autor, ressaltar a importância da instituição maçônica na política brasileira e nas mais diversas regiões é repensar a história social e política dessas áreas.

Morel também aborda de maneira inerente o caráter da maçonaria através de suas dimensões social e cultural, a sua essência cosmopolita, a utopia da fraternidade, o ideal da liberdade e igualdade não obstante as diferenças sociais e também as rivalidades políticas internas dentro da instituição maçônica, sendo estas últimas, reflexo dos constantes lutas, acontecimentos políticos que repercutiam de forma intensa nas lojas[8]. É notório em toda a história política brasileira, objeto principal de estudo deste presente trabalho, a participação de líderes políticos maçons ocupando altos cargos dentro da maçonaria sendo na maioria das vezes Grão mestres.

Pode-se afirmar que desde a chegada da maçonaria no Brasil até o final do período da Primeira República, principalmente, grande parte dos políticos, desde o imperador, ministros, conselheiros de estado até os deputados, senadores e presidentes, eram iniciados ou eram membros totalmente ativos na maçonaria. Ser maçom era sinônimo de status, poder e prestígio político no período imperial e em início da República. A mística do segredo é ainda uma grande marca e característica principal da maçonaria. Como nos diz Célia Marinho: procurar compreender e saber o porquê de uma instituição atrair tantos indivíduos, o que se almejava com isso, saber suas utopias e o que se alcançava com os laços de sociabilidade, ajudará cada vez mais a descobrir o papel da maçonaria na sociedade, tanto na dimensão cultural, social, política e até econômica[9].

Quando se fala sobre a história da maçonaria no Brasil, não podemos deixar de esquecer da principal obediência existente no país: o Grande Oriente do Brasil (GOB), fundada em junho de 1822 por José Bonifácio através da união das lojas maçônicas: União e Tranquilidade, Esperança de Niterói e Reunião. William Almeida de Carvalho afirma que bem antes da criação do GOB, já se tinha a existência de diversas lojas maçônicas no Rio de Janeiro, como: Comércio e Artes, Virtude e Razão; na Bahia, a loja União, fundada em 1813 e, em Pernambuco, a instalação da loja Regeneração em 1809[10]. Entretanto, tais lojas não eram filiadas ao GOB, uma vez que o mesmo não fora criado ainda, mas sim eram filiadas e submetidas ao Grande Oriente da ilha de França, da Inglaterra e da Lusitânia.

Uma observação importante é que quando se teve a instalação da primeira loja maçônica, no Brasil, a loja Reunião, a mesma era submetida ao Grande Oriente da França. Todavia, houve divergências e até disputas entre essa última obediência e o Grande Oriente de Portugal para ter a submissão da recém-criada loja Reunião. O Grande Oriente lusitano, em contrapartida, passou a propagar na colônia brasileira a doutrina maçônica portuguesa através da criação de diversas lojas maçônicas submissas à sua ordem.

O Grande Oriente do Brasil durante a sua história passou por diversas instabilidades, dificuldades e cisões motivadas não apenas pelas disputas internas na obediência, mas, principalmente, pelas lutas e acontecimentos políticos no Brasil, repercutindo de maneira intensa nas lojas através das discussões realizadas pelos pedreiros acerca dos projetos políticos para o Brasil.

Dentre os rompimentos no GOB, um dos mais marcantes foi aquele ocorrido em 1863 no qual tal obediência se dividiu em Grande Oriente dos Beneditinos e do Lavradio. O primeiro tinha como Grão-Mestre o republicano Joaquim Saldanha Marinho e o segundo o Visconde do Rio Branco. Essa cisão, segundo Carvalho, se deu em torno das eleições para o novo Grão-Mestre do GOB[11]. Além disso, o historiador Alexandre Barata afirma também que um dos motivos para a cisão foi as disputas políticas entre os maçons republicanos e monarquistas acerca do regime de governo no Brasil, uma vez que a partir de 1870 os republicanos começaram a ganhar força em seus projetos políticos, teve-se a criação do Partido Republicano, a Convenção de Itu, conhecido como o Manifesto Republicano e os primeiros anos do enfraquecimento da monarquia aliado a outros fatores, dentre eles: a chamada questão militar[12].

Segundo Barata, as lojas maçônicas funcionaram como verdadeiros clubes republicanos, espaços de difusão do ideal da república[13]. Os maçons, além de discutirem os assuntos internos da organização, comentavam a situação política do país e geravam até embates entre os pedreiros adeptos da monarquia e da república.

Os estudos sobre a história da maçonaria no Brasil começaram a se intensificar a partir dos anos 1990. Inicialmente tais estudos, como mencionado anteriormente, foram produzidos por maçons e, posteriormente, passaram a se pulverizar no meio acadêmico. Motivado pelo centenário da proclamação da República e pelo bicentenário da Inconfidência Mineira, o maçom José Castellani lançou a obra Maçonaria e o Movimento Republicano em 1989, com objetivo principal de enaltecer a atuação dos personagens políticos maçons na transição da monarquia ao novo regime. Além disso, ele procura resgatar a atuação por ele denominada heroica dos maçons nesse acontecimento histórico e realiza um estudo da biografia de cada político maçom, suas trajetórias políticas e iniciação nas lojas maçônicas.

Dentre as diversas obras sobre história da maçonaria brasileira produzida por José Castellani, uma de grande importância é A Maçonaria brasileira na década da Abolição. Nessa obra, a sua contribuição é de procurar relacionar e explicar a atuação e influência de alguns maçons no processo de abolição da escravatura em 1888.

A década de 1990 foi marcada também pelo início do crescimento de pesquisas maçônicas até mesmo em função dos anos de silêncio e perseguição às sociedades secretas durante o período da ditadura militar. Mais do que uma abertura política gradual e lenta da ditadura e o seu posterior fim, em meados da década de 1980, o final dessa última foi caracterizada pela inovação das pesquisas sobre maçonaria.

A partir da década de 1990, começam a emergir também os trabalhos sobre maçonaria feitos por historiadores não maçons, como é o caso de Alexandre Mansur Barata e Marco Morel, principalmente. Tais historiadores são caracterizados por promoverem em suas obras uma renovação nos estudos sobre a historiografia maçônica brasileira.

Ambos têm como um dos referenciais teóricos em seus respectivos trabalhos o conceito de sociabilidade de Maurice Agulhon. Barata vê a maçonaria como espaços de discussão do projeto político republicano, funcionando como “clubes” e defende a ideia de que a instituição maçônica foi um dos aspectos importantes no processo de construção da identidade nacional do Brasil[14]. Além disso, ele analisa a maçonaria em sua dissertação de mestrado tendo como recorte cronológico, 1870 -1910, período de grande efervescência nas lojas maçônicas, tanto no aspecto interno de sua organização como no fator externo em que a campanha republicana refletia cada vez mais nas lojas e as divergências políticas entre os pedreiros tornavam-se evidentes.

Marco Morel, outro historiador que aborda o tema sobre maçonaria, contribui muito também com a história de tal instituição no Brasil. Ele, juntamente com Françoise Jean de Oliveira Souza, produziu uma obra chamada O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Nesse trabalho eles procuram fazer uma abordagem geral acerca da maçonaria, discutindo sua chegada no território brasileiro, seu envolvimento em possíveis revoltas (como a Inconfidência Mineira), a criação das primeiras lojas, a fundação da mais importante obediência, o Grande Oriente do Brasil (GOB) até os dias de hoje e, sobretudo, ressaltam a importância das mais diversas lojas maçônicas no processo de Independência em 1822 e na proclamação da república, em 1889. Além disso, ressaltam a participação da maçonaria não apenas no Brasil, mas nos países latinos americanos em seus processos de independência, nos EUA, nos conflitos mundiais (1° e 2° guerras) na figura dos seus líderes políticos.

Um outro trabalho de Marco Morel, fundamental para compreendermos a maçonaria como uma rede sociabilidades, é Sociabilidades entre Luzes e sombras: apontamentos para estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX (clique Aqui para ler o artigo), extraído dos capítulos 8 e 9 de sua tese de doutorado: “La formation de l´espace public moderne à Rio de Janeiro (1820-1840): opinion, aclerus es sociabilités”. Nesse artigo, Morel já começa afirmando a maçonaria como uma forma de sociabilidade do período da independência e construção do Estado Nacional[15]. Posteriormente ele defende a ideia da instituição maçônica não ser apenas uma organização ideológica, mas sim um dos meios que contribuíram para a transformação dos espaços públicos no Rio de Janeiro[16]. Esse historiador compartilha também com a visão de Koseleck, ao afirmar que as lojas maçônicas eram espaços políticos modernos e do pensamento crítico frente ao Estado Absolutista[17].

Por conseguinte, com base em Agulhon, ele define sociabilidade como uma tipologia de movimentos associativos com distintas funções sociais e dimensões, tais delas: filantrópica, pedagógica, corporativa, política, cultural e econômica. Morel faz esse estudo pois tem como finalidade estudar os movimentos associativos na cidade imperial. Além disso, diante desse quadro, ele vê a maçonaria como uma forma de organização política[18].

Outro autor que aborda a questão da maçonaria é David Gueiros Vieira em uma de suas principais obras O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil. Nesse livro, Vieira procura retratar de maneira genérica a atuação da maçonaria principalmente durante os anos finais do Império, a partir de 1870, e mostrar suas divergências com a igreja católica[19]. Esta última, nesse período, tinha como doutrina a ser pregada o ultramontanismo, que tinha como base a infalibilidade papal, concentração cada vez maior do poder eclesiástico nas mãos do pontífice e o combate aos discursos que fossem contra as pretensões da igreja, isto é, medidas que eram consideradas erradas e perigosas para tal instituição. Dentre essas correntes ideológicas, segundo Vieira, figuravam o protestantismo, o racionalismo, jansenismo, galicanismo, deísmo, todos os tipos de liberalismo, o socialismo e a maçonaria[20]. Aqui no Brasil, esse episódio ficou conhecido como a Questão Religiosa. Esse acontecimento consistiu principalmente no combate, por parte de algumas lideranças religiosas, dentre elas os bispos adeptos às ideias ultramontanas, ao discurso maçônico e a proibição dos maçons frequentarem a igreja, além da ordem de fechar as irmandades religiosas compostas por pedreiros. Porém, tal inciativa esbarrou na autoridade do imperador, D. Pedro II, uma vez que no Brasil, segundo a constituição de 1824, além da religião oficial no Império brasileiro ser o catolicismo, o imperador também era o chefe dessa religião e qualquer documento papal no Brasil deveria ter a autorização dele, além do regime entre a igreja eu Estado ser baseado no padroado. Entretanto, para David Gueiros, o ultramontanismo cresceu de maneira vagarosa no Brasil[21]. Isto se deu uma vez que, segundo ele, a influência dessa corrente cristã ocorreu através da influência de estrangeiros e por serem ideias trazidas por clérigos importados da Europa.

Esse autor também aborda um pouco da formação e consolidação do Grande Oriente do Brasil, uma de suas principais cisões, em 1863, ficando dividida ente Beneditinos e Lavradio até 1883 e sua posterior unificação, a mudanças dos ritos, além de ressaltar a importância da instituição maçônica na história política brasileira[22]. Segundo ele:

É por demais óbvio que a historiografia brasileira aproveitaria muito com um estudo erudito da maçonaria nacional, que desapaixonadamente pesquisasse todos os aspectos daquela organização e no que, tanto de bom como de mau, se tem constituído a sua contribuição para a história brasileira.[23]

A partir dessa passagem do professor David Gueiros, podemos inferir uma necessidade maior de se pesquisar cada vez mais a experiência da maçonaria, embora se tenha ainda uma grande dificuldade de ter acesso aos arquivos maçônicos. Porém, temos que nos ater pois esse autor escreve esta obra em finais dos anos 1970 e mostra que, ainda naquele período, os arquivos maçônicos eram muito restritos. Entretanto, a partir da década de 1990 assiste-se a uma abertura gradual dos arquivos, documentos das lojas maçônicas e, simultaneamente, ao começo de uma produção historiográfica sobre a maçonaria feita por historiadores não maçons, sendo antes desse período, predominantemente produzida por maçons.

O historiador maçom William Almeida de Carvalho atesta também esse início de uma nova perspectiva do crescimento de trabalhos universitários feito por não maçons[24]. Ele menciona em seu artigo alguns nomes dessa historiografia. Além de Alexandre Barata, Marco Morel e David Gueiros Vieira, ambos mencionados neste texto, ele destaca também algumas pesquisas da atuação da maçonaria em alguns estados brasileiros em diversos períodos da história do Brasil.

Dentre esses, ele destaca o trabalho da dissertação de Alex Moreira Andrade cujo tema é: Maçonaria no Brasil (1863-1901): Poder , Cultura e Ideias, defendido na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no ano de 2004[25]. Nessa obra, segundo Carvalho, Alex Moreira procura analisar a maçonaria especificamente no período da segunda metade do século XIX, o seu pensamento político, suas memórias, histórias e tradições. Além disso, este trabalho apresenta como dados muito interessantes o voto dos maçons no Congresso e os seus dados biográficos dos principais líderes políticos[26].

Outro trabalho citado por William Almeida é o de Frederico Guilherme Costa, A Maçonaria e a Emancipação do Escravo, de 1999[27]. Nesse estudo, umas das principais contribuições do autor é abordar e discutir a influência da instituição maçônica no processo da abolição da escravatura no Brasil. Para isso, ele se utiliza de uma análise de documentos primários colhidos em arquivos e as atas de sessões das lojas maçônicas através do auxílio de pesquisadores maçons. Por conseguinte, em seu trabalho, tem como um dos principais referenciais teóricos o historiador francês Maurice Agulhon e seu conceito de sociabilidade[28].

Quando pensamos em maçonaria, não podemos deixar apenas de ressaltar a sua importância na história brasileira como também na região latino-americana. É baseada nessa perspectiva que Ricardo Mário Gonçalves em seu trabalho A influência da Maçonaria nas Independências Latino-Americanas, presente no livro A Revolução Francesa e seu impacto na América Latina[29], estuda a influência da instituição maçônica no processo de independência das colônias da América Espanhola. Foi durante essas revoluções liberais na América que surgiram as figuras de líderes políticos maçons nesses processos, dentre eles: San Martín e Bolívar. Além dessa obra de Ricardo Mário Gonçalves, existe uma vasta produção bibliográfica sobre maçonaria hispano-americana.

Outro trabalho citado por Carvalho é o de Eliane Moura Silva, cujo tema é: Maçonaria, Anticlericalismo e Livre Pensamento no Brasil (1901-1909), apresentado no XIX Simpósio Nacional de História, em Belo Horizonte, em 1997. Sua principal contribuição é debater a atuação da maçonaria e a influência de suas ideias durante os primeiros anos conturbados da República no Brasil e os movimentos de livre pensamento e anticlericalismo que, segundo Eliane, desde meados do século XIX, marcaram profundamente a sociedade contemporânea[30].

Mencionado acima neste presente trabalho, Alexandre Barata, tem uma outra grande obra, a sua tese de doutorado cujo tema é Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência ( Brasil, 1790-1822). A sua grande contribuição nesse trabalho é analisar cada vez mais a inserção da sociabilidade da maçonaria no Rio de Janeiro no período em questão, as conexões entre os maçons brasileiros e portugueses e as articulações políticas entre os maçons na política durante o processo de independência do Brasil, em 1822, em que, segundo Barata, a emancipação brasileira sobre o império português foi o marco do início da construção do Estado Nacional Brasileiro[31]. Mais do que retratar esse panorama da atuação maçônica, o historiador Alexandre Barata quer aprofundar cada vez mais nessa tese de doutorado algumas questões que ficaram no ar em sua dissertação de mestrado, sendo uma delas tentar buscar e explicar a relação direta entre a maçonaria e a construção de um Estado e também de uma identidade nacional brasileira.

Tentando explicar também a relação entre a maçonaria e a independência do Brasil, Maria Elisabete Vieira em sua dissertação de mestrado O envolvimento da Maçonaria Fluminense do Reino do Brasil (1820-1822)[32], dá a sua contribuição para a historiografia universitária maçônica, defendendo a ideia de que as lojas maçônicas fluminenses eram espaços de discussões do poder, da política e de elaborações de diversas ideias, dentre elas, a ordem, acerca da autonomia política do Brasil em relação a Portugal. Nesse trabalho, ela utiliza fontes e bibliografia de origem maçônica.

Por conseguinte, mais do que retratar a história, a trajetória e a influência da maçonaria na história política brasileira, podemos também repensá-la a sua atuação também em sua própria organização, composição, pregação e defesa de princípios, valores tradicionais e modernos nos quais foram disseminados no meio social. Os ideais da filantropia, solidariedade, fraternidade, estrutura e criação das lojas maçônicas e o funcionamento de tal instituição são questões a serem explicadas e suscitadas por José Rodorval Ramalho em sua tese de doutorado, pela PUC, em 2004: Novae sed Antiquae: Tradição e Modernidade na Maçonaria Brasileira[33]. Rodorval busca analisar esses valores pregados pela instituição maçônica, suas origens, como se deu a sua transição à Modernidade e afirmando que combinação dos valores universais modernos e tradicionais torna possível a atitude reflexiva dos indivíduos maçons[34].

Em meio a essa discussão historiográfica sobre a maçonaria, podemos verificar a diversidade de trabalhos e pesquisas que tem crescido acerca da instituição maçônica, seja em sua atuação nos grandes acontecimentos políticos na história do Brasil como no mundo inteiro e também em histórias regionais, como por exemplo, a sua atuação em algumas províncias brasileiras no período imperial e colonial. Além disso, destacam-se estudos entre a instituição maçônica e a igreja, na chamada Questão Religiosa sendo objeto de pesquisa inerente a quem se interessa no estudo da igreja católica na história do Brasil e no auxílio a entender a grande rivalidade que se estende entre essas duas instituições.

Importante também ressaltar a grande influência das lojas maçônicas paulistas no processo de proclamação da república. Como exemplo disso, destaca-se a grande atuação da Loja América. Quem se debruça no estudo dessa loja e de outras da província paulista é Luaê Carregari Carneiro Ribeiro, em sua dissertação de mestrado Uma América em São Paulo: a Maçonaria e o Partido Republicano Paulista (1868-1889). Nesse estudo, o autor procura esboçar a relação do partido republicano paulista com a instituição maçônica[35]. Grande parte dos membros desse último eram iniciados ou ocupavam altos cargos nas lojas maçônicas. Dentre elas, destacava-se a atuação da loja América, além de outras como a loja Amizade, vistas como “palcos” das discussões do governo e debates acerca do projeto político republicano entre os líderes políticos maçons.

Além disso, Carneiro procura fazer uma análise geral da atuação da maçonaria na cidade de São Paulo no século XIX, bem como ressaltar o ideal republicano defendido por muitos maçons na propaganda, aborda o seu conflito com a igreja católica e enfatiza a expansão das lojas maçônicas pela província paulista[36]. Entretanto, isso não era algo que estava ocorrendo apenas em São Paulo, mas também em todo o Brasil nesse período, a partir, principalmente da segunda metade do século XIX.

Um outro aspecto em que explica a grande atuação dos maçons paulistas na política brasileira pode ser evidenciada em quase durante todo o período da 1° República brasileira (1889-1930): alguns presidentes nesse período eram iniciados em lojas maçônicas, dentre eles: Prudente de Moraes e Campos Sales. Segundo José Castellani, o primeiro era iniciado na Loja “7 de setembro”, um dos fundadores da loja “Piracicaba” e teria sido candidato ao Grão-mestrado do Grande Oriente. Já o segundo, fora iniciado na Loja “A Independência” e também um dos fundadores da loja “7 de setembro”[37]. Alguns outros personagens maçons paulistas atuaram na política brasileira em finais dos anos do Império e início da República, tais como: Américo Brasiliense e Américo Campos. Ambos, segundo Castellani, foram fundadores da Loja América, uma das maiores lojas maçônicas que foi um vibrante centro republicano e abolicionista[38].

Eis um fragmento da obra desse historiador maçom acerca da relação direta entre maçonaria e o movimento republicano:

A maçonaria brasileira, filha espiritual da maçonaria francesa e imbuída, portanto, de todo o liberalismo que marcou as atividades desta, a partir de meados do século XVIII, sempre teve atuação política e, até, revolucionária marcante, nos episódios fundamentais da história do Brasil colonial, imperial e republicano. … Assim, a ideia de república, nos meios maçônicos, estava plenamente madura a partir de 1870, não tendo sido uma resolução repentina, impensada ou extemporânea. Para extravasar em ações decisivas, já que, na propaganda, a acção maçônica foi fundamental, esperava-se, apenas, uma real oportunidade e , principalmente, com amplas possibilidades de sucesso. E essa oportunidade surgiu com o movimento dos militares. A muitos dos quais não era estranho o pensamento maçônico, já que maçons também eles eram.[39]

Nesse trabalho, foi apresentado um breve panorama da historiografia maçônica. Evidencia-se dois tipos de vertente dentro de tais estudos: uma produção tradicional, de caráter clássico, elaborada pelos próprios maçons principalmente, antes da década de 1990, abordando especificamente um caráter épico e monumental dos políticos maçons na participação dos grandes acontecimentos políticos da história brasileira, abordando também uma síntese biográfica de tais personagens, seu início nas lojas maçônicas e suas respectivas trajetórias políticas.

Já a outra corrente, composta por historiadores de formação e não maçons, produzida no meio acadêmico, começou a ganhar força a partir da década de 1990, através da produção de novos trabalhos e pesquisas no ambiente universitário, caracterizando assim uma historiografia renovada, não apenas exaltando os grandes feitos dos maçons na história política brasileira. Mais do que isso, tal corrente transcende a essa concepção, ao discutir minúcias da maçonaria, sua cultura política, concentrando-se numa análise interdisciplinar e micro da atuação das distintas lojas maçônicas em suas respectivas províncias e da sua atuação nos processos políticos do Brasil. São nesses estudos que a maçonaria vai ser abordada a partir de diferentes temas e setores da sociedade, dentre eles: a igreja católica, os partidos políticos, a questão religiosa, a abolição. Embora tais temas já fossem pesquisados pelos estudiosos maçons, essas obras começam a ganhar força a serem pesquisadas não pela superioridade dos pesquisadores não-maçons sobre os maçons mas sim pelo ganho da historiografia de um novo olhar, olhar esse, externo à instituição maçônica, e pela abertura gradual dos registros, documentos e arquivos maçônicos fornecidos para estudo por parte dos maçons, onde nessas fontes, é possível identificar e analisar nas atas de sessões, as discussões nas reuniões, quem eram os membros políticos que frequentavam as respectivas lojas maçônicas pesquisadas.

Esse crescimento das pesquisas sobre a história da maçonaria no Brasil foi incrementado pela criação de vários projetos de pesquisa e científicos nos âmbitos universitários em cooperação com a instituição maçônica, viabilizando assim o estudo sobre a maçonaria e a necessidade de se debruçar cada vez mais sobre essa histórica, importante e mística sociedade secreta.

No que tange ao envolvimento e os desdobramentos da maçonaria na instauração da república, podemos perceber uma forte atuação e influência da instituição maçônica na propaganda republicana mas que às vésperas da transição do golpe, isto é, durante o golpe, a sua atuação é reduzida ou fica apenas nos bastidores na historiografia acadêmica. Em toda a sua história, a maçonaria, como afirma marco Morel, é marcada por glórias, traições, descompassos, cisões e no seu forte envolvimento na história política brasileira[40]. Por outro lado, como já é imaginado, se tem ainda uma produção historiográfica feita pelos próprios maçons que coloca em seus trabalhos como marca principal, a exaltação dos grandes feitos e acontecimentos proporcionados pelos líderes maçons na história política e social do Brasil. Nesse presente trabalho, tentou-se também diante desse grande desafio em falar um pouco da história da maçonaria brasileira, proporcionar a visão de ambas as correntes a respeito da instituição maçônica. Entretanto, é preciso relativizar e ter um equilíbrio ao utilizar as pesquisas acadêmicas e maçônicas. Mais do que isso, é necessário uma interação entre as mesmas a fim de que se possa ter uma verídica produção sobre a história dessa importante sociedade secreta, não apenas nos grandes marcos históricos brasileiros como também a sua atuação nas diversas regiões e províncias do Brasil, a sua cultura política, propostas no meio social e ter um olhar de sua contribuição à história da nação brasileira. Como ressalta Alexandre Barata, a maçonaria foi um forte fator no processo de construção da identidade nacional brasileira, a partir da segunda metade do século XIX[41]. Por conseguinte, é fundamental nos debruçarmos acerca de suas atuações no meio politico, não ficando preso somente a uma história monumental e tradicional, mas sim mergulharmos em uma nova história e nesse renascimento da história política, proposto por René Rémond, campo ao qual a sociedade maçônica está intrinsecamente ligada.

Sobre a importância da pesquisa da relação entre maçonaria e a sua participação na proclamação da República brasileira, deve-se ressaltar que tal assunto é muito pouco estudado, apesar do conhecido envolvimento dessa sociedade secreta não apenas no movimento republicano, como também em outros acontecimentos políticos da história brasileira e até mesmo no contexto internacional. Porém, o recorte que se faz nesse presente projeto é durante os anos finais do Império, retratando e abordando o envolvimento da instituição maçônica na transição ao novo regime no Brasil, em 1889, na qual a instituição maçônica desempenhou um grande papel durante e após a consolidação do regime republicano. Mais do que espaços de sociabilidade e “clubes republicanos” defendidos por Morel, Barata e Castellani, a maçonaria brasileira esteve fortemente ligada ao processo de construção da identidade nacional brasileira em finais do século XIX.

O interesse e a maneira como cheguei a esse tema se deu a partir da pesquisa de iniciação científica cujo tema é: Maçonaria, política e sociedade em fins do Império e na Primeira República: as atas capitulares da loja Visconde do Rio Branco[42]. Nessa pesquisa, pude perceber a grande importância histórica da instituição maçônica na transição para o novo regime, que se instaurava no Brasil, pelo fato dessas lojas serem consideradas espaços de sociabilidade política e em função dos diversos personagens políticos que delas faziam parte. Além disso, uma das motivações também foi procurar compreender a dinâmica da organização, a mística do segredo, hierarquia, funcionamento, ideais da sociedade secreta maçônica, como era sua atuação no período. Cabe ressaltar, a maçonaria, uma organização tão importante e imiscuída em quase grande parte da história política brasileira, é ainda um objeto de estudo pouco abordado na historiografia.

Estudar a maçonaria não é apenas desvendar os seus mistérios acerca do funcionamento de sua organização, mas sim entender tal sociedade secreta como instituição fortemente política influente em grande parte da história do Brasil e do mundo. Seus desdobramentos, propostas e ideais defendidos são grandes reflexos de suas atuações no cenário social, político e até cultural.

Autor: Luan Mendes de Medeiros Siqueira

Notas

[1] – AZEVEDO, Célia M. Marinho de. Maçonaria: história e historiografia. Revista USP, n.°32, p. 180., dez. de 1997.

[2] – NAUDON Apud AZEVEDO, p. 178.

[3] – AZEVEDO, Op. cit., p. 179.

[4] – MARGARET C, Jacob. Living the Englightenment Free Masonry and Politics in Eighteenth- Century Europe, New York, Oxford University Press, 1991, p. 31.-

[5] – KOSELLECK. Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: Eduerj / Contraponto, 1999, p. 62-63.

[6] – AZEVEDO, Op. cit., p. 181.

[7] – MOREL, Marco; SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O Poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 43.

[8] – MOREL, Op. cit., p. 181.

[9] – AZEVEDO, Op. cit., p. 189.

[10] – CARVALHO, William Almeida de. História do Grande Oriente do Brasil: a maçonaria na história do Brasil. São Paulo: Madras, 2009, p. 31.

[11] – CARVALHO, Op. cit., p. 118.

[12] – BARATA, Alexandre Mansur. Os maçons e o movimento republicano (1870-1910). In: Revista de História Locus. Juiz de Fora, v.1, n.1, p. 130, 1995.

[13] – BARATA, Op. cit., p. 126.

[14] – BARATA, Op. cit., p. 125.

[15] – MOREL, Marco. Sociabilidades entre Luzes e sombras: apontamentos para o estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. , n° 28, p. 3, 2001.

[16] – Ibidem, p.4.

[17] – Ibidem, p. 7 e Op. cit., KOSELLECK, pág. 61.

[18] – Sociabilidades entre Luzes e sombras: apontamentos para o estudo histórico das maçonarias da primeira metade do século XIX, p. 5-6.

[19] – VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1980.

[20] – VIEIRA, Op. cit., p. 27-59.

[21] – Ibidem,VIEIRA, p. 33.

[22] – Ibidem, VIEIRA, p. 42- 47.

[23] – Ibidem, VIEIRA, p. 41

[24] – CARVALHO, William Almeida de. Maçonaria no Brasil: análise da produção científica universitária. IN: Pietres-stones review of freemasonry. 2007. Disponivel em http://www.freemasonsfreemasonry.com/22carvalho.html.

[25] – MOREIRA, Apud Ibidem, p. 4.

[26] -ANDRADE, Alex Moreira. Maçonaria no Brasil (1863- 1901): Poder, Cultura e Ideias. Março de 2004. 359 páginas. Dissertação ( Mestrado em História) – Departamento de História, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, 2004.

[27] -COSTA Apud CARVALHO, p. 6.

[28] – COSTA, Frederico Guilherme. A Maçonaria e a Emancipação do Escravo. Ed. Trolha, Londrina, 1999.

[29] – GONÇALVES Apud CARVALHO, p. 8.

[30] – SILVA, Eliane Moura. Maçonaria, Anticlericalismo e Livre Pensamento no Brasil (1901-1909). Comunicação apresentada no XIX Simpósio Nacional de História – ANPUH, Belo Horizonte, 1997.

[31] – BARATA, Alexandre Mansur. Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência (Brasil, 1790-1822) – 2002. 338 páginas. Tese (Doutorado em História). Departamento Unicamp, Campinas, 2002.

[32] – VIEIRA, Maria Elisabete. O Envolvimento da Maçonaria Fluminense no Processo de Emancipação do Reino do Brasil (1820-1822). Dissertação (Mestrado em História) – Maio de 2001. 108 páginas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas- Departamento de História -Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), Porto Alegre, 2001.

[33] – RAMALHO, José Rodorval. Novae sed Antiquae: Tradição e Modernidade na Maçonaria Brasileira. 2004. 200 páginas. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Departamento de História- PUC, São Paulo, 2004.

[34] – RAMALHO, Op. cit., p. 32-35.

[35] – RIBEIRO, Luaê Carregari Carneiro. Uma América em São Paulo: a Maçonaria e o Partido Republicano Paulista (1868-1889). Dissertação (Mestrado em História) 2011. 179 páginas – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas- Departamento de História- USP, São Paulo, 2011.

[36] – Ibidem, p. 10-24.

[37] – CASTELLANI, José. A Maçonaria e o Movimento Republicano Brasileiro. São Paulo: Contraponto, 1989, p.63 e 105.

[38] – Ibidem, p. 49-52.

[39] – Ibidem, p. 45-46

[40] – MOREL, p. 93-101.

[41] – BARATA, Op. cit., p. 125.

[42] – Este projeto, contemplado com o edital n° 32/2013 do programa: “Auxílio às Instituições de Pesquisae Ensino sediadas no Estado do Rio de Janeiro – 2013” – FAPERJ, conta na sua equipe de pesquisadores os professores Ítalo Domingos Santirocchi, Marcello Otávio Neri de Campos Basile, Roberto Guedes Ferreira, Ronald Apolinário e Surama Conde Sá Pinto.

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Segredos e Mentiras

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“Cumpre, antes de mais nada, rasgar as falsas vestiduras com que se adornam os maçons e mostrar o que eles são”.

A frase do papa Leão XIII (1879-1903) reflete bem o antagonismo que se estabeleceu entre a Igreja Católica e a maçonaria mundial ao longo do século XIX e no início do XX. Repudiados pelo catolicismo, os maçons foram duramente acusados de crimes como transgressão das leis, conspiração e satanismo. Diante do crescimento das ideias liberais, a Igreja via ameaçada a sua presença no mundo ocidental. O pensamento conservador católico lançou-se então, violentamente, contra seus principais inimigos, numa tentativa de “barrar o carro da revolução”, como se dizia na época.

As transformações políticas ocorridas depois da Revolução Francesa, que puseram à prova as bases do absolutismo em fins do século XVIII, levaram a Igreja a combater ferozmente movimentos considerados revolucionários, como os liberais, comunistas, anarquistas, progressistas e outras tendências políticas. A maçonaria foi uma das práticas consideradas ameaçadoras pela Igreja. Mas por que os maçons estavam na lista de inimigos da Igreja?

A maçonaria tem origem em corporações de ofício medievais, compostas por trabalhadores especializados na arte da construção. Devido à natureza itinerante de sua atividade, eles não se prendiam a nenhum feudo, tendo o privilégio da livre circulação. Com isso, surge a expressão “pedreiros-livres”, ou “francos-maçons”. Só a partir do século XVI a maçonaria passa a admitir membros de outras classes de trabalhadores.

Os setores mais conservadores da Igreja eram contrários às ideias liberais difundidas pela maçonaria. Insistindo na defesa de valores tradicionais absolutistas, o conservadorismo católico rejeitava a liberdade de pensamento e de culto, a igualdade de direitos, o individualismo e o racionalismo.

A ordem maçônica se desenvolveu em harmonia com os novos espaços e valores modernos, nos quais os indivíduos tinham liberdade para expor suas ideias e debatê-las dentro das novas regras constitucionais. O caráter fechado dessas sociedades, que cultivavam em estrito sigilo as práticas e os rituais realizados dentro dos templos, fez da maçonaria um dos primeiros espaços privados sobre os quais a jurisdição da Igreja Católica não podia atuar, o que certamente representava uma afronta ao poder do papa. A Igreja Católica via na ordem maçônica uma ameaça à salvação das almas daqueles que conviviam com a promiscuidade das seitas pagãs e um perigo para os Estados monarquistas absolutistas.

Durante o século XIX, a preocupação com os maçons se torna mais visível. Nessa época, aumenta a quantidade de documentos oficiais da Igreja que condenavam essa sociedade: de 1738 a 1840 foram publicados 14 documentos papais; entre 1846 e 1903, esse número subiu para 201. Mas o momento máximo de radicalização do conservadorismo católico ocorreu em 1864, quando o papa Pio IX redigiu a encíclica Quanta Cura. Nesta espécie de carta circular da Igreja, ele condena os “erros modernos”, entre os quais destaca a maçonaria. Diante da reestruturação da sociedade em moldes liberais, a Igreja insiste numa postura inflexível e procura defender sua doutrina a todo custo.

A partir da segunda metade do século XIX, os planos conservadores também ganharam força no clero brasileiro, quando se inicia um processo de reorganização interna da Igreja no Brasil conhecido por “romanização”. Este procedimento buscava excluir da Igreja os elementos influenciados pelas ideias modernas e defendia a supremacia do poder do papa. Além disso, os planos conservadores visavam proteger a estrutura familiar patriarcal, a cidadania associada ao catolicismo, e combater tentativas de implantação de uma educação laica.

Além da fragilidade, da ingenuidade e do exagero dos argumentos apresentados pelas ideias conservadoras, havia ainda aspectos históricos e culturais da sociedade brasileira, fortemente marcada pelo sincretismo religioso. A Igreja Católica, por exemplo, também não conseguiu manter afastados outros oponentes, como as religiões afro-brasileiras, o espiritismo e o protestantismo. Neste sentido, pode-se dizer que esse discurso conservador fracassou.

Mas, em compensação, o argumento católico foi vitorioso na construção de um conjunto de representações simbólicas referentes à instituição maçônica. Grande parte da população brasileira não teria receio de definir a maçonaria como uma sociedade marcada pelas práticas ocultistas, realizadora de rituais macabros, e que a todo o momento está conspirando contra algo.

Para firmar negativamente a maçonaria na imaginação coletiva, o mito do complô maçônico foi o principal instrumento dos pensadores católicos pertencentes à ala conservadora. Foi comum, por exemplo, a aproximação da maçonaria ao judaísmo. A maçonaria foi associada ao estereótipo do judeu traidor e obcecado pelo desejo de dominar o mundo. Dessa associação surgiu a crença de que a maçonaria era um instrumento dos judeus para se infiltrarem em vários países, segmentos sociais, instituições e até mesmo no interior da Igreja, onde “o chefe israelita da “franco-maçonaria” seria conduzido ao papado.

Elaborada na Europa no fim do século XIX, a ideia do complô maçônico influenciou vários autores brasileiros, sendo que cada um montou, à sua maneira, diferentes versões para esse mito. Dom Vital, bispo de Olinda entre 1872 e 1878, escreveu em uma de suas instruções pastorais que previa uma conspiração maçônica com a intenção de aniquilar a religião católica e o cristianismo para, num segundo momento, eliminar todas as monarquias e implantar a república universal.

Segundo o bispo, os maçons penetrariam no meio católico, aproveitando-se do clero mais jovem para difundir as ideias liberais, até conseguirem a cooptação do papa. Da mesma forma, ao pregar no Brasil o ensino laico, sem influência de qualquer religião, a maçonaria visava atingir a juventude para formar uma geração materialista e que apoiaria a segunda etapa do plano: o fim da monarquia.

No século XX, é possível perceber a permanência do mito do complô entre os intelectuais católicos brasileiros. Gustavo Barroso foi um dos seus maiores divulgadores ao traduzir para o português “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, obra de autoria desconhecida que denunciava um plano judaico-maçônico de dominação mundial. Dizia Barroso que a maçonaria teria se colocado a serviço do judaísmo para que este, por meio de seus membros, articulasse a Revolução Francesa, considerada a etapa inicial da ascensão dos judeus ao poder. E completava dizendo que o passo seguinte seria a revolução socialista, também articulada pela maçonaria, que assim ganharia a confiança das massas proletárias. O último passo seria o domínio universal de Israel.

Gustavo Barroso também via um plano maçônico específico para o Brasil. Segundo ele, os principais acontecimentos da história brasileira podiam ser explicados como resultado das ações conspiratórias maçônicas. Utilizando-se da filantropia, por exemplo, a maçonaria teria apoiado o movimento de libertação dos escravos, não com intenções nobres, mas visando provocar a queda da monarquia. Aliás, dos primeiros movimentos de libertação até a proclamação da República, a maçonaria teria agido sempre de maneira oculta.

A Igreja encontrou na maçonaria características que permitiram transformá-la em um verdadeiro “bode expiatório”, responsabilizando-a por todos os males. Na verdade, o medo da maçonaria significava insegurança frente ao estabelecimento da sociedade burguesa, que trazia consigo novas estruturas sociais, valores e formas de organização política aos quais a Igreja já não conseguia impor sua influência com a mesma intensidade de antes.

Outro ponto forte do discurso antimaçônico se refere à associação direta da instituição ao satanismo. Sustentar esta acusação não foi tarefa difícil, já que a simbologia maçônica, com sua influência egípcia e cabalística, além de seus incompreensíveis rituais e cerimônias de iniciação, alimentavam essas associações. Muitas versões foram desenvolvidas pelos católicos para explicar a origem satânica dos maçons.

Na primeira das versões, conta-se que, após o surgimento das corporações dos pedreiros-livres, o diabo teria delas se apoderado. Em seguida, misturou à maçonaria todos os pecados que havia feito brotar na Terra e a transformou na “seita tenebrosa”, uma verdadeira síntese de todas as heresias.

Numa segunda versão elaborada pelos ideólogos católicos, a maçonaria descenderia dos templários, da cabala, do protestantismo ou do gnosticismo, uma espécie de método que procura conciliar todas as religiões por meio do conhecimento. Independentemente da versão que narra as suas origens, a maçonaria estava sempre associada à ideia de pecado e erro.

A terceira associação frequentemente feita à maçonaria refere-se ao seu caráter revolucionário. Para Dom Vital, a maçonaria seria a “revolução em permanência”, e de seus “antros” teriam saído os principais líderes da “nefasta” Revolução Francesa. Os católicos conservadores, já preocupados com o crescimento do movimento operário, também associaram o discurso maçônico de igualdade e fraternidade universal às ideias anarquistas e comunistas, acusando a maçonaria de querer formar uma sociedade sem distinção de classes e de pátria. Tal situação seria desejada pelos maçons, porque desta maneira o povo ficaria completamente sem governo, permanecendo na anarquia e em situação ideal para que satanás criasse seu “trono imperial”.

Autora: Françoise Jean de Oliveira Souza

 

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O Discurso Ultramontano Antimaçônico

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Uma série de condenações por parte da Igreja Católica garantiram a consolidação do imaginário coletivo da Maçonaria que ficaria identificada com o perigo e a subversão. A primeira data de 1738, na carta apostólica In eminenti, de Clemente XII. Em 1751, se repetiria na constituição apostólica Providas, e desde então sucederam-se ininterruptamente: Pio VII – Ecclesiam a Jesu Christo (1821); Leão XII – Quo graviora (1825); Pio IX – Qui pluribus (1846), e entre outras a encíclica Quanta cura (1864); e depois Leão XI11 – Humanutn Genus (1884)[1].

O auge das condenações ocorreram entre os papados de Pio IX e Leão XIII, em um momento histórico adverso para o Papado, quando acontecia a unificação da Itália e o fim dos Estados Pontifícios. Durante os 25 anos do Papado de Leão XIII saíram cerca de 226 documentos para condenar e pôr em guarda o mundo a respeito da Maçonaria[2]. Trazendo embutido na Humanun Genus a crítica ao socialismo e ao naturalismo, nenhum outro Papa manifestou tanto a crença no complô quanto ele, e em como o segredo concorria para fazer com que ideias e instituições se equiparassem em um mesmo patamar de ameaça a sociedade.

Com efeito, há nelas espécies de mistérios que a sua constituição proíbe com o maior cuidado serem divulgados não somente às pessoas de fora, porém mesmo a bom número de seus adeptos. A esta categoria pertencem os Conselhos íntimos e supremos, os nomes dos chefes principais, certas reuniões mais ocultas e interiores, bem como as decisões tomadas, com os meios e os agentes de execução. Para esta lei do segredo concorrem maravilhosamente: a divisão, feita entre os associados, dos direitos, ofícios e cargos; a distinção hierárquica, sabiamente organizada, das ordens e graus; e a disciplina severa a  que todos estão sujeitos. [3]

Em 1917, foi promulgado o primeiro Código de Direito Canónico. Nele, mantém-se a proibição da filiação de católicos à Maçonaria, com a mesma motivação tradicional que remontava a Leão XIII, advinda do cânone 2335 “os que dão seu nome à seita maçônica ou a outras associações, que maquinam contra a Igreja ou contra os legítimos poderes civis, incorrem, pelo próprio Jato, em excomunhão simplesmente reservada à Sé Apostólica”, o Código estabelecia uma presunção de direito: a ação conspiratória (machinatio) contra a Igreja e o Estado seria algo intrínseco à Maçonaria e que não precisaria ser comprovado na prática[4].

No Brasil, a concepção de uma Maçonaria conspiradora dá-se no discurso oficial da Igreja, nas Constituições para as Províncias Eclesiásticas Meridionaes do Brasil, age no sentido de uma determinação aos párocos das leis da Igreja e suas aplicações. Publicada durante o período da Primeira Guerra, em 1915, incorpora em seu espirito a lógica já traçada na Humanun Genus e prescreve as condutas aplicáveis aos maçons individualmente[5].

Os perigos aos quais está sujeita a fé na modernidade reservam para a Maçonaria e para as sociedades secretas um lugar particular na lei eclesiástica; se a pena é inevitavelmente a excomunhão, é significativo observar as outras categorias de pecadores que acompanhariam o maçom em sua expiação, veja-se: “…das sociedades secretas, perversas e proibidas pela Egreja, das más companhias, das familiaridades com os ímpios e hereges,…”[6]

Para a não realização do casamento: “Quando os nubentes forem dados á embriaguez, quando for um impio, maçon, ou por outro vicio incapaz de cumprir as obrigações conjugaes…”[7]. Tratando-se de casamentos de impios e maçons, observe-se…”[8].

E, em se tratando da educação: ” …nos tempos modernos, os impios e as seitas nefandas apregoem…”[9].

Os ímpios, portanto não possuidores de quaisquer freios morais e blasfemos, os hereges, que trabalhariam para corromper a sagrada doutrina cristã de sua pureza e aqueles que como os viciados em álcool, não possuem controle sobre suas próprias ações, estão ininterruptamente condenados à exclusão ou à dissuasão para os caminhos da Igreja. Ajusta-se aos maçons à imagem da maquinação e a ausência de entendimento sobre as razões de sua própria conduta que a hierarquia e o segredo alimentavam.

As interdições sacramentais aos maçons, se explicam facilmente, já que, por princípio, o maçom estaria colocado à margem da lei da Igreja, pela excomunhão. A explicitação de condutas quanto ao batismo, à confissão e ao casamento se destinariam a uma forma de controle social e põe restrições, no caso do batismo, ao padrinho, quando esse for reconhecido como maçom. Na confissão espera-se a rendição:

“Tratando-se de maçons e outros filiados a seitas e sociedades secretas, os confessores auctorizados, antes de absolve-los, deverão exigir que os mesmos tenham abandonado absoluta e positivamente, para sempre, a seita condemnada.” [10]

E quanto ao casamento a exortação vai no sentido da não realização:

“Procurem os Rvds. Parochos, quanto possível, impedir casamentos que prevêm terão mau resultado. Quando os nubentes forem dados á embriaguez, quando for um impio, maçon, ou por outro vicio incapaz de cumprir as obrigações conjugaes, é por obra de caridade abrir os olhos da outra parte; pois está na consciência de todos os males que resultam de taes casamentos, são quasi sempre sem remédio.” [11]

Essas restrições vão ao encontro do rastreamento social, à medida em que estas recomendações atinjam não somente de forma individual o maçom, mas nas possibilidades de trocas sociais em que ele se envolveria, como: o batismo, o casamento e os apadrinhamentos. Envolvendo mais pessoas o controle não ficaria somente a cargo dos párocos, mas de toda a sociedade. Nesse aspecto as preocupações com a educação transformam-na em lugar estratégico, que exige uma ação enérgica, já que abarca uma parcela considerável da sociedade que estaria aberta a penetração dos maçons. As palavras do Papa Leão XIII, transcritas literalmente na pastoral, traduzem uma visão dos combatidos:

A educação única que agrada os maçons, e que elles pretendem se deve dar a mocidade, é a que chamam civica, desenvolta e livre, isto é, aquella em que não se diga nenhuma palavra da religião. … Onde essa educação começou a se desenvolver e campear mais livremente, excluindo todo ensino christão, ahi bem depressa foram desaparecendo a probidade e integridade dos costumes, cresceram os erros mais abominaveis, e pulularam os crimes mais audaciosos e horrendos. [12]

Onde a imagem do complô secreto e seus participantes faria mais dano a Igreja senão na educação? Veiculando a noção de um perigo iminente para a sociedade que acabaria sucumbindo sob o signo daquilo que pulula e é horrendo, que se projeta da sombra com seus vícios contra a fé cristã. Segundo a Igreja, a educação laica inevitavelmente arrastaria consigo todo aquele que não delatasse tais crimes secretos à autoridade eclesiástica.

Saibam emfim todos os fiéis que incorrem em excomunhão latae sententiae, reservada ao Summo Pontífice, os que dão seu nome á seita maçônica ou carbonária, ou á outra do mesmo genero, que aberta ou clandestinamente machinam contra Egreja e os legitimos poderes, assim como os que prestam ás mesmas qualquer favor, os que não denunciam seus corrypheus e chefes occultos, até que tenham cumprido o dever da denunciação. CPLA n 169 – Const. Apostolicae Sedis, 12 Oct. 1869. [13]

Individualmente e na coletividade, o maçom nas falas oficiais da Igreja estará sempre em pecado e a sociedade haverá sempre que redimi-lo ou combatê-lo.

No início do século XX, segundo Marchette, Curitiba foi palco de um movimento anticlerical que seria denotado pela estratégia ultramontana e romanizadora da Igreja. A autora alerta para a metáfora da luz e das trevas, na reatualização dessa batalha durante a clericalização da sociedade brasileira. A maçonaria, na ótica do clero de então, se relacionava intimamente ao movimento anticlerical e a ela se referia com termos como ‘antros tenebrosos’, ‘ritos grotescos’ e ‘práticas ridículas’. Isso porque Euclides Bandeira, Dario Vellozo, Nilo Cairo, Sebastião Paraná e outros livre pensadores e anticlericais pertenciam à ordem maçônica[14].

A atuação dos maçons no Brasil até 1910, orientou-se no combate às ‘trevas’, que metaforicamente seriam o jesuitismo na Igreja, por meio da divulgação das ‘luzes’ advindas do iluminismo e da ilustração. Ao contrário da Igreja que iniciou um processo de alianças com os setores oligárquicos, a maçonaria orientou sua ação no sentido da instalação de escolas, voltadas para a alfabetização dos setores populares. Tal estratégia visava a ampliar seus quadros e romper com o senso comum que associava sua atuação com a noção da conspiração, tão difundida pela Igreja Católica[15].

A diabolização caricatural da maçonaria pela Igreja Católica, jamais ultrapassara a Humanuni Genus, embora houvesse associações em que o Grão-Mestre seria o próprio satanás, a maioria dos católicos modera a tese satanista[16].

O Vaticano apesar do desdobramentos do século XX, mantém a sua posição dos primeiros tempos, apóia-se nas posições expressas pelo Papa Leão XIII, e vê na maçonaria um instrumento privilegiado de Satanás e poderoso fator de heresia e de paganismo[17]. Os anticlericais no Paraná, até 1940, funcionaram para a Igreja como a ponta visível de um campo oposto. Segundo Balhana, os bens de salvação estavam sendo disputados na sociedade por meio da imprensa curitibana da época[18].

A paróquia de União da Vitória durante as décadas de 1930 e 40, pertencia à diocese de Ponta Grossa, tendo por Bispo D. Antonio Mazaroto, que escassamente à visitava. Do lado Catarinense a visita dos Bispos também é deficiente[19], e normalmente os ofícios religiosos ficam a cargo dos párocos. Frequentemente se vê entre a documentação, falas realizadas no sermão da missa alertando os fiéis para a ação maçônica, e ainda ocorriam troca de farpas por ocasião dos enterros de maçons.

União da Vitória, 5 de outubro de 1945.
Excelentíssimo senhor Presidente e demais membros da Loja Maçônica de Porto União – União da Vitória.
Na qualidade de principal representante, nesta cidade, da familia do extinto engenheiro EZEQUIEL PRIETO, sinto-me na obrigação de esclarecer a Vossas Excelencias que as considerações feitas pelo senhor vigário da Matriz desta localidade sobre a maçonaria, tomando, como oportunidade, a presença, na Igreja em apreço, dos restos mortais daquele senhor, não decorrem, diretamente ou indiretamente, da iniciativa da família de que se trata ou mesmo de pessoas de suas relações, mas sim daquele sacerdote que, em meu entender, conduziu a prática religiosa, à sua vontade.
A vista do que ora informo a Vossas Excelencias e do que já conhecem do caráter e convicção do falecido meu sogro, poderão, em verdade, concluir sobre as versões relacionadas ao presente assunto.
Pela atenção dispensada, sou mui grato a Vossas Excelencias e aproveito a oportunidade para reiterar os protestos de elevada estima e distinta consideração.
João Paes Filho [20]

Essa correspondência fora lida em Loja, segundo a ata da página 130, e não somente tida também fora transcrita na íntegra e comentada por Antonio Domit, que falou sobre o caso do falecimento desse maçom, recomendando conversarem com o padre. Cita ele o caso de uma parente, a qual o padre se negou a permitir a ida do corpo a Igreja, relaciona também várias casas em que os padres atrapalham e atacam os maçons, “Falou sobre o fanatismo das mulheres em favor dos padres, citando várias outras casas. Falou sobre os irmãos que se acham doentes e que deviam ou …, para evitar dissabores futuros, pois esteve doente e ninguém o visitou[21].

Este trecho mostra vivamente como a rede de solidariedade maçônica poderia ser requisitada e conferia ao cotidiano uma densidade incrivelmente real, ainda que não houvesse qualquer traço de anticlericalismo nas condutas desta Loja. O imaginário social coletivo parecia apontar como um todo para a mesma direção.

Ecos do anticlericalismo literário puderam ser percebidos na Loja União III, mas não uma proposta de ação efetiva, que se delineasse a partir daí, nem na imprensa, nem social. Se a força do movimento não arrebanhou adeptos, a força do estereótipo do maçom como o homem do segredo, ao que se viu proliferou.

Ainda que o discurso de ataque da Igreja não chegasse uniformemente a todas as paróquias, não se pode negar sua existência, mais das vezes é provável que atitudes antimaçônicas se deram devido muito mais às leituras que o integralismo proporcionava, do que ao conteúdo da pastoral propriamente dito.

Autor: Jefferson William Gohl

Nota do Blog

O texto acima é parte da dissertação apresentada como requisito à obtenção o grau de Mestre em História, Curso Pós – Graduação em História, setor de Ciências Humanas, Universidade Federal do Paraná, intitulada O Real e o Imaginário: A Experiência da Maçonaria na Loja União III em Porto União da Vitória – 1936 a 1950.

Notas

[1] – BENIMELI, José F. Maçonaria e Igreja Católica.2 ed. São Paulo: Paulinas, 1983. p. 23

[2] – Ibidem, p. 40

[3] – LEÃO XIII. Sôbre a Maçonaria. In: Encíclica Humanuni Genus. Documentos Pontifiícios. Petrópolis, RJ: Editora Vozes. 1960. p. 08

[4] – HORTAl, Jesus. Maçonaria e Igreja: conciliáveis ou inconciliáveis. São Paulo: Edições Paulinas, 1993 (Estudos da CNBB,66). p. 42

[5] – Pastoral Conectiva dos Senhores Accrbispos e Bispos das PROVINCIAS ECCLESISAT1CAS de S. Sebastião do Rio de Janeiro, Marianna, S. Paulo, Cuyabá e Porto Alegre. Rio de Janeiro: Typ. Martins de Araújo, 1915.

[6] – Ibidem p. 14

[7] – Ibidem p. 94

[8] – Ibidem p. 117

[9] – Ibidem p. 377

[10] – Ibidem p. 73

[11] – Ibidem p. 94

[12] – Ibidem p. 377

[13] – Ibidem p. 22

[14] – MARCHETTE, Tatiana Dantas. Corvos nos Galhos das Acácias. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999. p. 40

[15] – BARATA, Alexandre Mansur. Luzes e Sombras. A Ação da Maçonaria Brasileira. Campinas: Editora da Unicamp, 1999. p. 149

[16] – LACORDAIRE, Jérôme Rousse. Antimaçonismo. Lisboa: Hugin, 1999. p.44

[17] – Ibidem p. 48

[18] – BALHANA, Carlos A. de Freitas. Ideias em confronto. Curitiba: Grafipar, 1981.

[19] – CLETO DA SILVA, José Julio. Apontamentos históricos de União da Vitória (1768-1933) Curitiba: IHGEP, s/d. p. 169 e 206

[20] – Arquivo Particular Loja União III. Arquivo de correspondências. Pasta 1945, fl. 50

[21] – Arquivo Particular da Loja União III – Livro de Atas, p 130 A recusa em se aceitar a entrada do corpo na Igreja foi confirmada através do Livro Tombo da Igreja Matriz de Porto União.

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Maçonaria no Brasil (século XIX ): história e sociabilidade

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Introdução

Este artigo tem por objetivo apresentar algumas questões importantes que marcaram a atividade maçônica no Brasil ao longo do século XIX e estará dividido em três grandes partes: discute a inserção da sociabilidade maçônica no Brasil no final do século XVIII e início do século XIX, quando o Brasil ainda fazia parte do Império Português; analisa a participação dos maçons nos episódios que culminaram com a declaração de Independência em setembro de 1822; e, por último, analisa a atuação da maçonaria brasileira na segunda metade do século XIX, durante o reinado de D. Pedro II, período no qual o Brasil vivenciou algumas transformações sociais, sendo a mais importante delas o fim do trabalho escravo em 1888.

A inserção da sociabilidade maçônica na América Portuguesa

Apesar das controvérsias historiográficas, há evidências da presença de maçons no Brasil desde o final do século XVIII. Não obstante a perseguição das autoridades civis e eclesiásticas portuguesas, o pertencimento maçônico atingiu nesse período determinados setores da sociedade colonial articulado à emergência também de outras formas associativas.

Para parte da historiografia, os filhos das elites agrárias e dos grandes negociantes que foram estudar nas universidades europeias, particularmente em Coimbra (Portugal) e Montpellier (França), no final do século XVIII, teriam sido os principais responsáveis pela fundação das primeiras lojas maçônicas no Brasil. Durante suas estadias na Europa, muitos deles foram iniciados na maçonaria e ao regressarem ao Brasil acabaram por iniciar novos membros, a fundarem algumas lojas especialmente no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco.

Entretanto, além dos estudantes, é preciso também reconhecer a importância e a participação de outros setores sociais nessa fase inicial da maçonaria no Brasil. Refiro-me, por exemplo, ao papel exercido pelos negociantes, militares, religiosos e empregados públicos. Ao ampliarmos a abrangência e a capacidade do recrutamento maçônico pode-se compreender por que uma das primeiras lojas regulares fundadas na cidade do Rio de Janeiro era formada por negociantes, muitos deles com fortes conexões com os negócios do tráfico de escravos africanos, particularmente aqueles realizados nas costas de Moçambique[1]. Essa loja maçônica chamava-se Reunião e foi fundada no Rio de Janeiro em 1801[2]. Consta que esta loja acabou por se filiar, dois anos depois, a uma Obediência maçônica francesa.

Os vínculos da loja Reunião com uma Obediência francesa despertaram nos maçons portugueses, ligados ao Grande Oriente Lusitano, fundado em 1802, algumas desconfianças, que culminaram com o envio de representantes ao Rio de Janeiro com o objetivo de subordinar a referida loja maçônica.Tentativa fracassada, mas que acabou por resultar na instalação de duas outras lojas. Chamavam-se Constância e Filantropia[3].

Após 1808, com a transferência da Família Real Portuguesa para o Brasil e, consequente, estabelecimento da administração do Império Português no Rio de Janeiro, tem-se notícia do funcionamento, com certa tolerância de altos funcionários públicos, muitos deles iniciados em lojas maçônicas de Lisboa, das lojas Emancipação, São João de Bragança, Beneficência, Comércio e Artes[4]. Além de lojas vinculadas às obediências maçônicas francesa e portuguesa, existiu também no Brasil lojas maçônicas sob forte influência da maçonaria inglesa. Segundo Evaldo Cabral de Mello, foi o que aconteceu em Pernambuco, a partir de 1813, através da atuação do negociante Domingos José Martins, uma das principais lideranças da insurreição de caráter republicano que eclodiu em Recife no ano de 1817[5].

Embora seja muito difícil mensurar exatamente o número de pessoas que foram iniciadas no Brasil e, de certo modo, em todo Império Português nesse período, pode-se constatar relativo crescimento da atividade maçônica, de forma indireta, a partir da análise da documentação produzida pelas instituições portuguesas responsáveis por sua repressão. Refiro-me ao Tribunal do Santo Ofício (Inquisição) e à Intendência Geral de Polícia (Lisboa e Rio de Janeiro). Apesar das diferenças existentes entre essas duas instituições, Inquisição e Polícia agiram de forma articulada na virada do século XVIII para o século XIX, o que possibilitou uma ação repressiva mais sistemática. Entre 1790 e 1821, consegui identificar, além de centenas de denúncias, um conjunto de 38 processos referentes ao crime de maçonaria nos arquivos da Inquisição de Lisboa, assim distribuídos: 1791 (11 processos); 1792 (08 processos); 1793 (01 processo); 1794 (01 processo); 1796 (02 processos); 1799 (08 processos); 1800 (01 processo); 1802 (01 processo) 1803 (04 processos); 1807 (01 processo). Dos 38 processados, onze eram militares, sete eram membros do clero, cinco eram negociantes, dois eram funcionários públicos e doze possuíam outras profissões. Quanto à naturalidade, 26 eram originários do Reino de Portugal; 04 eram naturais do Brasil e 08 eram estrangeiros[6].

Outra forma de inferir esse crescimento pode ser conseguida através da análise das atas e sindicâncias de três lojas maçônicas da cidade do Rio de Janeiro para o ano de 1822. A capacidade da maçonaria atrair novos membros impressiona. Em apenas três meses, aproximadamente, as lojas maçônicas do Rio de Janeiro filiaram ou iniciaram 152 novos membros. Grande parte deles recrutados entre empregados públicos, militares, negociantes, religiosos, profissionais liberais[7]. Como ressalta Marco Morel, no espectro das chamadas sociabilidades modernas que se desenvolveram no Brasil, a maçonaria foi a mais dinâmica e numerosa. Na primeira metade do século XIX, 42% do total de associações em funcionamento no Rio de Janeiro eram de tipo maçônico[8].

Esse maior dinamismo da atividade maçônica no Brasil no período anterior a Independência nos coloca diante de uma questão importante. Por que a sociabilidade maçônica mobilizou tantas pessoas na virada do século XVIII para o século XIX?

Não é tarefa fácil responder essa questão. Todavia, em primeiro lugar, é preciso ultrapassar dada interpretação historiográfica que privilegia uma leitura conspirativa do fenômeno maçônico ou como prefere a professora Margaret Jacob, uma leitura “jacobina” do fenômeno maçônico, a qual acaba por dificultar uma compreensão mais ampla do pertencimento à maçonaria[9].

Nesse sentido, chamo a atenção para o fato de que é preciso pensar que muitas vezes o pertencimento maçônico estava associado a adoção por determinadas parcelas da população de comportamentos críticos aos valores típicos de uma sociedade do Antigo Regime. Comportamentos críticos que evidenciavam as tensões e o desconforto que se adensava socialmente, embora não necessariamente transformados em projetos políticos contra o Estado ou a Igreja Católica. Procurar ser iniciado na maçonaria, ler livros considerados proibidos, não guardar determinados sacramentos católicos são expressões dessa mudança cultural que atingia setores da sociedade luso-brasileira na virada do século XVIII para o século XIX.

A documentação consultada revela que, a princípio, um fator motivador para se tornarem maçons é a mera curiosidade de fazer parte de uma sociedade considerada como secreta. O caráter secreto alimentava a fantasia de muitos sobre os objetivos da instituição. Mas se a curiosidade era o impulso inicial, ela por si só era insuficiente.

Outra motivação muito citada era que o pertencimento à maçonaria facultava ao iniciado uma ampla rede de auxílios mútuos. No caso dos homens de negócio, por exemplo, era comum naquele período justificar a filiação maçônica com base nos benefícios, nos ganhos que se poderiam alcançar pertencendo a uma rede sólida de contatos e de solidariedade transnacional.

Para outros, a maçonaria era percebida como um espaço de convívio, como uma escola e virtudes, de aprendizado do viver em coletividade, de espaço de circulação e debate de idéias. Hipólito José da Costa (1774-1823), por exemplo, brasileiro e editor do periódico Correio Braziliense, justificava sua iniciação maçônica na Filadélfia, quando entre 1798 e 1800 esteve nos Estados Unidos, com os seguintes argumentos:

A utilidade da sociedade dos Framaçons, ou se pode considerar relativamente à nação, ou relativamente aos indivíduos, membros da sociedade. Se considerarmos pela utilidade que dela pode resultar à nação; (…) fica provado que todas as sociedades particulares, (…) são úteis; porque aumentam a sociabilidade entre os homens, pulem os costumes, e fomentam as virtudes patrióticas, e ainda algumas morais; (…)[10].

Nenhuma dessas motivações aparecia de forma isolada. A maçonaria era vista, ao mesmo tempo, como canal de mobilidade social, rede de proteção e solidariedade, espaço de aprimoramento moral e aperfeiçoamento intelectual de seus membros. Em certo sentido, essa capacidade de atração estava relacionada a sua identificação como espaço de construção de uma cultura política marcada pela prática do debate, da representação, da elaboração de leis, da substituição do nascimento pelo mérito como fundamento da ordem social e política.

Maçonaria e a Independência do Brasil

Se a atividade maçônica no Brasil em sua fase inicial não pode ser reduzida, como já mencionado, em espaço preparatório de revoluções, é inegável que no início da década de 1820, em meio aos triunfos dos movimentos constitucionalistas que colocaram um fim ao absolutismo da monarquia portuguesa, algumas lideranças maçônicas assumiram certo protagonismo político naqueles acontecimentos. De fato, o que se verificou no início da década de 1820 foi um processo de mão dupla: tanto as questões externas, sobretudo de ordem política, passariam a mobilizar os debates que se travavam nas reuniões maçônicas, a princípio protegidas pelo seu caráter fechado e secreto; quanto o transbordamento para o mundo exterior dos debates e projetos que mobilizavam os maçons.

Marco desse novo momento do maçonismo foi a fundação, em junho de 1822, no Rio de Janeiro de uma obediência maçônica independente, o Grande Oriente do Brasil. A intenção era transformar o Grande Oriente do Brasil em um centro do poder maçônico independente do Grande Oriente Lusitano, procurando ao mesmo tempo dinamizar e subordinar as atividades maçônicas existentes nas diversas províncias do Brasil.

Entretanto, os maçons no Brasil nesse período não formavam um conjunto homogêneo, uniforme. Ao contrário, o espaço maçônico era cruzado por diferentes disputas, projetos e idéias. Daí a sua riqueza, mas também a sua principal fragilidade, pois as dificuldades de formação de um consenso normalmente geravam cisões, divisões que irão marcar a história da maçonaria no decorrer dos séculos XIX e XX. A maçonaria era assim  um espaço privilegiado de discussão e de articulação política, mas também um espaço do confronto entre os diferentes projetos políticos que mobilizavam aqueles homens.

As sessões iniciais de funcionamento do Grande Oriente do Brasil foram tumultuadas e revelam as dificuldades de formação de consensos no interior da sociabilidade maçônica. Discutia-se, sobretudo, até que ponto os maçons deveriam apoiar aqueles que eram favoráveis à ruptura com Portugal. Não havia consenso sobre essa questão. José Bonifácio de Andrada e Silva, por exemplo, uma das principais lideranças maçônicas do período, defendia em julho de 1822, dois meses antes da declaração oficial da Independência do Brasil, seu apego à ideia de unidade e de construção de um Império Luso-Brasileiro. Em discurso dirigido aos maçons afirmou: “(…) eu vos agradeço cordialmente a escolha que de mim fizestes, e procurarei, quanto em mim cabe, proteger os direitos e privilégios da Ordem; e pelo menos lavrar sequer alguma pedra bruta que sirva também para com ela edificardes o majestoso Palácio do vasto Império Luso-Brasileiro[11].”

Porém, gradativamente, ganharam espaço no interior do Grande Oriente do Brasil aqueles que defendiam um projeto político que não abria mão de pensar a independência em relação a Portugal, a partir da construção de um novo “pacto político” baseado na união das províncias, tendo o Rio de Janeiro como centro político-administrativo, e na opção pela monarquia constitucional, sem romper com a legitimidade dinástica. Neste sentido, o Grande Oriente do Brasil definiu como condição para o ser maçom, além das qualidades morais tradicionalmente exigidas, o ser defensor da “causa do Brasil e da sua Independência”, o que deveria ser entendido, em função do juramento que se prestava ao ser iniciado, como a “defesa do Brasil e da sua Independência sob os auspícios de seu Augusto Defensor”, D. Pedro I[12].

No início de setembro de 1822, em sessão do Grande Oriente do Brasil, esse projeto político foi explicitado por Joaquim Gonçalves Ledo:

(…) as atuais políticas circunstâncias de nossa pátria, o rico, fértil e poderoso Brasil, demandavam e exigiam imperiosamente que a sua categoria fosse inabalavelmente firmada com a proclamação da nossa Independência e da Realeza Constitucional na pessoa do Aug:. Príncipe Perpétuo Defensor Constitucional do Reino do Brasil[13]. 

Por sua vez, a aclamação do príncipe-regente D. Pedro, filho do rei português D. João VI, como “rei constitucional” deveria estar condicionada ao juramento prévio da Constituição que seria elaborada por uma assembleia constituinte. A tentativa dos maçons do Grande Oriente do Brasil de impor esse juramento prévio ao futuro monarca D. Pedro I acabou por desencadear violenta repressão contra os maçons. Vários deles foram presos e acusados de conspirarem “contra o governo estabelecido” e de fomentarem uma “guerra civil”[14].

Os maçons brasileiros na segunda metade do século XIX

Depois do protagonismo político dos tempos da Independência, a maçonaria se reorganizaria no início da década de 1830. Em 1831, depois de grave crise política, o imperador D. Pedro I abdicou ao trono brasileiro e retornou a Portugal. Tinha início o chamado período das Regências em função da menoridade do herdeiro do trono. Os maçons e a maçonaria passaram a vivenciar uma situação de quase total visibilidade. Muitos maçons passaram a ocupar importantes cargos públicos. As perseguições que marcaram o início da década de 1820 haviam cessado. Os locais das reuniões maçônicas eram conhecidos e importantes figuras políticas assumiam publicamente fazer parte da maçonaria.

Todavia, essa maior visibilidade da sociabilidade maçônica foi acompanhada, do ponto de vista organizacional, por uma miríade de divisões e disputas de poder. Divisões que muitas vezes estavam vinculadas às lutas políticas conjunturais, mas também expressavam a existência de culturas políticas distintas que mobilizavam a ação dos maçons. Entendendo-se por cultura política o conjunto de referências, ideias, memórias e histórias que conformam a coesão ou a identidade de um grupo.

Rivalizaram-se ao longo das décadas de 1830 e 1840 três principais obediências maçônicas: o Grande Oriente do Brasil, fundado em 1822, foi reinstalado em 1831 sob a liderança de José Bonifácio de Andrada e Silva, recém nomeado tutor do imperador D. Pedro II. Por sua vez, na mesma época foi fundado o Grande Oriente Nacional Brasileiro. Essa nova Obediência possuía no Senador Nicolau Vergueiro sua principal liderança e de acordo com manifesto publicado em 1834, o grande problema que impedia a união dos dois grandes orientes era a liderança de José Bonifácio, visto como autoritário e responsável, juntamente com o imperador D. Pedro I, pela repressão e conseqüente desmantelamento do movimento maçônico em 182215. Segundo Marco Morel e Françoise Jean de O. Souza, esse Grande Oriente chegou a possuir uma rede com mais de cinquenta lojas maçônicas em diversas províncias[16].

Além desses dois Grandes Orientes, foi fundado em 1832 o Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito por Francisco Montezuma, futuro Visconde de Jequitinhonha, o que contribuiu para a expansão da adoção deste rito entre os maçons brasileiros. Muitas lojas que até então adotavam o Rito Francês passaram a adotar o Rito Escocês. Entre as décadas de 1830 e 1860, de um total de 143 lojas maçônicas, 95 utilizavam o Rito Escocês, 46 utilizavam o Rito Francês e 02 utilizavam o Rito Adoniramita[17]. Segundo Celia M. M. Azevedo, esse sucesso do Rito Escocês pode ser explicado levando-se em conta os:

(…) anseios democratizantes de muitos maçons de segmentos sociais mais humildes que veriam num sistema ritualístico de muitos graus a possibilidade de alcançar os graus superiores por mérito (e não por nascimento), além de ter esta ascensão bem demarcada simbolicamente. Também a preocupação com o apoio mútuo assistencial que caracterizava a maçonaria escocesa pode ter colaborado para atrair grande número de homens que não contavam com apoios materiais e financeiros de família, Igreja e Estado[18].

As divergências entre essas Obediências maçônicas nas décadas de 1830 e 1840 ainda é um campo muito pouco conhecido pela historiografia[19]. Entretanto, é inegável que a partir da segunda metade do século XIX, além da expansão do escocismo entre os maçons brasileiros, a maçonaria assumiu dimensões nacionais, com lojas maçônicas funcionando em todas as províncias do Brasil e com uma capacidade de recrutamento de novos filiados expressiva. Características que diferenciavam a sociabilidade maçônica das demais formas associativas existentes.

Do ponto de vista da composição social, houve pouca variação em relação aos segmentos sociais predominantes no início do século XIX. Levantamento realizado na década de 1870 aponta que, de um total de 4707 maçons, 55% eram comerciantes, 11% eram empregados públicos, 10% eram profissionais liberais, 7% eram proprietários urbanos e capitalistas, 5% eram fazendeiros, 3% eram militares[20].

Mas, como já mencionado, as rivalidades e disputas persistiam. Em 1863, já ia longe o império de D. Pedro II e nova divisão atingiu a sociabilidade maçônica brasileira. Nesse ano, o Grande Oriente do Brasil dividiu-se em duas novas Obediências: o Grande Oriente do Brasil ao vale do Lavradio e o Grande Oriente Unido do Brasil ao vale dos Beneditinos. Divisão que duraria até 1883 com a criação do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil sob a direção de Francisco José Cardoso Júnior.

A existência de duas Obediências no seio da comunidade maçônica, mesmo diante de uma conjuntura de conflito explícito com a Igreja Católica, evidenciava as diferentes concepções quanto à forma de atuação da instituição. Enquanto os maçons do Grande Oriente do Lavradio eram monarquistas e defendiam que as lojas maçônicas se ocupassem essencialmente do aperfeiçoamento moral e intelectual do homem e de atos de beneficência; os maçons do Grande Oriente dos Beneditinos eram republicanos e sustentavam que a maçonaria deveria se envolver de forma mais ativa nas questões políticas externas ao mundo fechado das lojas maçônicas. A Maçonaria, escrevia Joaquim Saldanha Marinho, principal liderança dos maçons do Grande Oriente dos Beneditinos não podia permanecer indiferente aos interesses que contribuiriam para o “bem estar geral da humanidade”. Obedecendo ao bom senso e à razão, deveria seu programa disseminar a educação livre e racional; promover a instituição do casamento e do registro civil; defender a secularização dos cemitérios; promover a absoluta liberdade de culto[21].

Outra questão reveladora das diferenças entre esses dois grupos maçônicos foi o posicionamento distinto em relação ao debate maçônico transnacional sobre o racismo iniciado em 1868. Segundo Celia M. M. de Azevedo, os maçons do Grande Oriente do Lavradio posicionaram contrariamente ao apoio dado pelo Grande Oriente da França ao Supremo Conselho da Louisiana em sua decisão de admitir o ingresso de homens negros como maçons em suas lojas. Por sua vez, os maçons do Grande Oriente dos Beneditinos foram os primeiros no continente americano a declarar apoio à Obediência francesa, o que torna possível inferir sua maior adesão à causa do abolicionismo e da integração de maçons negros e brancos em suas lojas. Pelo menos desde 1864, lojas maçônicas ligadas ao Grande Oriente dos Beneditinos recolhiam fundos entre os maçons para a promoção de alforrias individuais de escravos[22]. Em 1882, através do periódico Aurora Escosseza, esse grupo explicitou seu programa abolicionista baseado em: disseminar a educação livre e racional; incentivar a vinda para o Brasil de trabalhadores imigrantes; desenvolver a navegação de cabotagem; desenvolver o comércio e a indústria; promover a liberdade de culto e abolir a escravidão, considerada, como “infâmia que imprime no rosto do brasileiro estigma vergonhoso”[23].

Apesar dos desafios institucionais e do conflito com a Igreja Católica, verificou-se um crescimento expressivo do número de lojas maçônicas nas diferentes regiões do país. Se, entre 1861 e 1865, funcionavam aproximadamente 180 lojas maçônicas, este número cresceu para 244 de 1885 a 1890 e alcançou um total de 615 entre os anos de 1901 e 1905. Esse crescimento quantitativo do número de lojas maçônicas foi acompanhado por uma ampliação da atuação dessas lojas nos campos da beneficência e do auxílio-mútuo, bem como da criação de uma rede de escolas dirigidas tanto às crianças quanto aos adultos. Como muitos historiadores tem demonstrado, a sociabilidade maçônica não estava restrita ao espaço fechado das lojas maçônicas[24].

A solidariedade entre os maçons variava do auxílio financeiro aos Irmãos mais necessitados, às viúvas e aos órfãos de irmãos-maçons. Constata-se também, sobretudo a partir de 1870, maior envolvimento das lojas com atividades beneficentes voltadas para os não-maçons. Muitas lojas maçônicas acabaram por construir e financiar asilos, orfanatos e hospitais.

Todavia, o instrumento mais sólido utilizado pela Maçonaria para a divulgação de suas ideias foi o investimento na construção de uma rede de escolas e na criação de “aulas noturnas” e bibliotecas. Como afirmava o editorial do jornal Aurora Escosseza, em 1881, a Maçonaria deveria “atuar sobre a educação que dá a primeira forma aos corações humanos, sobre as sociedades que agrupam os indivíduos e, assim, influindo sobre os governos que caminham à frente das sociedades[25].”

No Brasil, esse engajamento da Maçonaria com a educação começou a partir de meados da década de 1860, atingindo o seu apogeu nos anos iniciais do século XX. Para os maçons, a universalização do ensino laico era o principal remédio para combater os adversários do progresso, os partidários da ignorância, do fanatismo e da intolerância.

Considerações Finais

No decorrer do século XIX, a Maçonaria brasileira se mostrou estreitamente ligada à vida política, social e cultural do país. Ao interagir, interferir e trazer para o seu interior os debates que mobilizavam o espaço público, a Maçonaria revela-se um instrumento significativo para a compreensão da sociedade brasileira do período com suas contradições e particularidades.

Desta forma, é perceptível, a partir dos anos 1990, o crescimento da estudos historiográficos que procuram compreender a atuação dos maçons e da maçonaria no Brasil. Apesar da persistência de algumas interpretações simplificadoras, um conjunto de pesquisas produzidas no âmbito dos programas de pós-graduação das universidades brasileiras, muitas delas ainda não publicadas, estão buscando renovar a compreensão da história da maçonaria no Brasil[26].

Entretanto, é necessário ainda ultrapassar alguns obstáculos: Em primeiro lugar gostaria de destacar a necessidade da abertura dos arquivos maçônicos aos pesquisadores não-maçons, bem como a necessidade de preservação e organização das fontes produzidas pelas lojas maçônicas. Em segundo lugar, é preciso ampliar os estudos sobre a atividade maçônica ao longo do século XX, período no qual a maçonaria perdeu o protagonismo experimentado no século XIX, passando a se defrontar com novos atores sociais e com limites a sua atuação em função dos dois períodos ditatoriais (1937-1945; 1964-1985) que o Brasil viveu nesse período. Por último, tendo em vista o caráter transnacional da sociabilidade maçônica, é preciso ampliar os estudos que privilegiam as conexões internacionais dos maçons e da maçonaria brasileira.

Autor: Alexandre Mansur Barata

*Alexandre é professor de História da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. Pesquisador do Núcleo de Estudos em História Social da Política (NEHSP) e do CEO/PRONEX/CNPQ-Faperj “Dimensões e fronteiras do Estado brasileiro no século XIX”. Pos-doutorado (2012/2013) na Universidad Pablo de Olavide (Spain) com apoio financeiro da CAPES (Ministério da Educaçao – Brasil). Livros publicados: Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência do Brasil (1790-1822), publicado pela Editora Annablume (São Paulo-Brasil); Luzes e Sombras: a ação da maçonaria brasileira (1870-1910), publicado pela Editora da Unicamp (Campinas-Brasil).

Notas

[1] – José Capela, O escravismo colonial em Moçambique (Lisboa: Afrotamento, 1997), 197

[2] – Ver Manifesto do Gr∴ Or∴ do Brasil a todos os GGr:. OOr∴ , GG∴ LL∴ , LL∴ RR∴ e MM∴ de todo o mundo (Rio de Janeiro: Typ. Austral, 1837).

[3] – A. H. de Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal (Lisboa: Presença, 1990), v.1, p. 85-86. William Almeida de Carvalho, “Pequena História da Maçonaria no Brasil”, in: REHMLAC 2, no. 1 (mayonoviembre2010 [Citado em 7 de maio de 2011]): disponível em:
http://rehmlac.com/recursos/vols/v2/n1/rehmlac.vol2.n1-walmeida.pdf

[4] – Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal, 106. Carlos Rizzini, “Dos clubes secretos às lojas maçônicas”, em: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro 190 (1946): 29-44.

[5] – Evaldo Cabral de Mello, “Dezessete, a maçonaria dividida”, em: Tópoi 4 (2002): 9-37

[6] – Alexandre Mansur Barata, Maçonaria, sociabilidade ilustrada e Independência do Brasil (1790-1822) (São Paulo-Juiz de Fora: Annablume-Ed.UFJF, 2006), cap. 3.

[7] – Ver IHGB. Livro de atas da Loja Maçônica Esperança de Niterói. (ARQ. 1.5.33); IHGB. Livro de Cópias dos Ofícios dirigidos da G∴ L∴ a esta R∴ L∴ Esperança de Nicteroy, 3 de junho (ARQ. 1.5.32); AHMI. Arquivo da Casa Imperial do Brasil. Atas (minutas) de sessões maçônicas, 1822. (II-POB-1822-Maç.at 1-10); Barata, Maçonaria, sociabilidade ilustrada e Independência do Brasil, cap. 2 and 4.

[8] – Marco Morel, As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial, 1820-1840 (São Paulo: Hucitec, 2005).

[9] – Margaret Jacob, Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe (New York: Oxford University Press, 1991), 3-22.

[10]– Ver Correio Braziliense ou Armazém Literário (Londres) 16 (1809): 270.

[11] – APUD. João de Scantimburgo, O Brasil e a Revolução Francesa (São Paulo: Pioneira, 1989), p. 191-193.

[12] – Ver AHMI. Arquivo da Casa Imperial do Brasil. Atas (minutas) de sessões maçônicas, 1822. (com anexos). II

[13] – Ver Boletim do Grande Oriente do Brasil (Rio de Janeiro, 1923): 791-793.

[14] – Ver Processo dos cidadãos Domingos Alves Branco M. Barreto, João da Rocha Pinto e outros pronunciados na devassa a que mandou proceder José Bonifácio de Andrada e Silva, para justificar os acontecimentos do famoso dia 30 de outubro de 1822 (Rio de Janeiro: Typographia de Silva Porto, 1824).

[15] – Ver Manifesto que a todos os sap∴ GG∴ OO∴ , AA∴ LL∴ e Resp∴ MM∴ dos dois mundos dirige o Gr∴ Or∴ Brasileiro ao Vale do Passeio no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1835), p.02.

[16] – Marco Morel & Françoise Jean de Oliveira Souza, O poder da Maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008), 139-140.

[17] – Alex Moreira Andrade, “A Maçonaria no Brasil (1863-1901): poder, cultura e ideias” (Dissertaçao de Mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2004), 17.

[18] – Celia Maria Marinho Azevedo, Maçonaria, antirracismo e cidadania: uma história de lutas e debates transnacionais (São Paulo: Annablume, 2010), 94

[19] – Azevedo, Maçonaria, antirracismo e cidadania, 144

[20] – Andrade, A Maçonaria no Brasil, 91-93.

[21] – Ver Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil 2, no. 4-6 (abr-jun/1873): 251.

[22] – Azevedo, Maçonaria, antirracismo e cidadania, 244-5.

[23] – Ver “Aurora Escoceza” (Rio de Janeiro, 1882), 2

[24] – Barata, Luzes e sombras: a ação da maçonaria brasileira (1870-1910) (Campinas: Ed. Unicamp-CMU, 1999). Azevedo, Maçonaria, antirracismo e cidadania, 155.

[25] – Ver “Aurora Escosseza” (Rio de Janeiro, 1/11/1881): 1.

[26] – Ver Alex Moreira Andrade, “Maçonaria no Brasil (1863-1901): Poder, Cultura e Ideias” (Master diss., Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2004). T. H. dos S. Buvalovas, “O “Diário da minha Viagem para Filadélfia”: impressões de um ilustrado luso-brasileiro na América (1798-1799)” (Master diss., Universidade de São Paulo, 2007). G. D. S. Castro, “A cruz e o compasso: o conflito entre igreja católica e maçonaria no contexto da reforma católica ultramontana em Juiz de Fora” (Master diss., Universidade Federal de Juiz de Fora, 2008). A. C. Galdino, “Campinas, uma cidade republicana: política e eleições no oeste paulista (1870-1889)” (PhD diss., Universidade Estadual de Campinas, 2006); J. W. Gohl, “O real e o imaginário: a experiência da maçonaria na Loja União III e Porto União da Vitoria, 1936-1950” (Master diss., Universidade Federal do Paraná, 2003). José Rodorval Ramalho, “Novae sed Antiquae: Tradição e Modernidade na Maçonaria Brasileira” (PhD diss., Pontifícia Universidade Católica-São Paulo, 2004). L. C. C. Ribeiro, “Uma América em São Paulo: a Maçonaria e o Partido Republicano Paulista (1868-1889)” (Master diss., Universidade de São Paulo, 2011). A. C. de S. Santos, “O que revelar? O que esconder? Imprensa & Maçonaria no findar do Dezenove (Pará, 1872-1892)” (Master diss., Universidade Federal do Pará, 2011). Marcos José Diniz Silva, “Lapidando a Pedra Bruta: a Maçonaria na Organização de Artistas e Proletários Cearenses” (Master diss., Universidade Federal do Ceará, 2000). L. F. Siqueira, “Hipólito da Costa e a Maçonaria: A formação da esfera pública moderna brasileira e o vocabulário político maçônico no Correio Braziliense” (Master diss., Universidade Federal de Ouro Preto, 2011). Souza, “Vozes Maçônicas na Província Mineira (1869-1889)” (Master diss., Universidade Federal de Minas Gerais, 2004). Patrícia Inês Garcia Souza, “Buscadores do Sagrado: As Transformações da Maçonaria em Belém do Pará” (PhD diss., Universidade Estadual de Campinas, 2006). Luiz Mário Ferreira Costa, “Maçonaria e Antimaçonaria: uma análise da História Secreta do Brasil de Gustavo Barroso” (Master diss., Universidade Federal de Juiz de Fora, 2009). Milena Aparecida Almeida Candiá, “Projetos e realizações culturais e pedagógicas maçônicas: o associativismo como terceira via para (re) pensar a educação popular no Brasil Império (1870-1889)” (PhD diss., Universidade Federal Fluminense, 2013. Tiago Wolfgang Dopke, “Nosce te ipsum: sociabilidade maçônica na Revista Consciência” (Master diss., Universidade Federal da Grande Doutorados, 2011). Bruna Melo dos Santos, “Correio Braziliense: um olhar sobre a sociabilidade maçônica (1808-1822)” (Master diss., Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012). Thiago W. Gonçalves, “Periodismo maçônico e cultura política na Corte imperial brasileira (1871-1874)” (Master diss., Universidade Federal Fluminense, 2012).

Bibliografia

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As Lojas Universitárias e a Modernização da Maçonaria

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A criação e desenvolvimento de Lojas Universitárias é algo ainda pouco estudado na literatura maçônica. Por este aspecto ainda existem muitas dúvidas sobre o funcionamento e a finalidade desse tipo de Loja. O presente artigo tem por objetivo classificar e analisar o panorama das Lojas Universitárias no Brasil e a sua contribuição para a modernização da Maçonaria na primeira década do Século XXI. O estudo foi amparado por uma pesquisa de cunho histórico e bibliográfico, além da experiência recente do autor na qualidade de fundador da Loja Maçônica “Universitária-Verdade e Evolução” nº. 3492 em Brasília – DF

Introdução

As Lojas Maçônicas Universitárias e Acadêmicas fazem parte de um intenso programa de modernização da Ordem e de rejuvenescimento de seus quadros e funcionam em todo o Brasil, independentemente de Obediência Maçônica.

Identificado como uma antiga aspiração de maçons brasileiros, esse movimento foi iniciado na segunda metade da década de 90, ganhou força e vigor a partir do ano de 2000 e, num emaranhado de crenças e preconceitos, as Lojas Universitárias conquistaram legitimidade no meio maçônico brasileiro.

O objetivo deste trabalho é analisar em perspectiva histórica a evolução das Lojas Universitárias e Acadêmicas no Brasil, verificando as suas principais características e o cumprimento do seu papel como promotora da modernização da Maçonaria no Brasil. As Lojas Acadêmicas e as Lojas Universitárias propriamente ditas são muito semelhantes umas das outras. Verificamos que a única diferença está no título distintivo que adotam, não existindo diferença consistente entre Maçonaria Acadêmica e Maçonaria Universitária.

O trabalho justifica-se pelo fato de haver uma grande lacuna no debate acerca do papel das Lojas Universitárias na Maçonaria moderna. Ademais, após a etapa de levantamento bibliográfico, verificamos uma grande escassez de literatura, razão pela qual entendemos ser importante o desenvolvimento deste trabalho.

Para construção deste trabalho a pesquisa teve como premissa o método hipotético dedutivo, com dados coletados por observação participativa. Isso foi possível a partir da experiência maçônica do autor, na qual conta em seu currículo o fato de ter sido um dos fundadores da Loja Maçônica “Universitária – Verdade e Evolução” nº. 3.492 do Grande Oriente do Brasil – GOB, situada na cidade de Brasília – DF, da qual foi o primeiro Venerável Mestre eleito, exercendo o cargo por dois mandatos consecutivos: 2003/2005 – 2005/2007.

Da observação do autor construiu-se um arcabouço conceitual de referência a fim de abordar a questão central deste trabalho: “Qual o papel da Loja Maçônica Universitária na Modernização da Maçonaria no Brasil?”. Assim, utilizamos  um conjunto de artigos e livros sobre a história da Maçonaria no contexto das Lojas específicas que compõem a Maçonaria Universitária. Também foi elaborado um conjunto de indicadores estatísticos amparados nas informações coletadas pela Secretaria Geral da Guarda dos Selos do Grande Oriente do Brasil (GOB) e do Grande Oriente do Distrito Federal (GODF).

O presente trabalho possui sete capítulos. No primeiro capítulo – a presente introdução – são apresentados os objetivos, justificativa, metodologia e divisão dos capítulos. No segundo capítulo são apresentadas características das Lojas Maçônicas Acadêmicas; no capítulo de número três apresentamos uma evolução histórica das Lojas Universitárias na Europa e nos Estados Unidos, onde se encontra de forma mais representativa; no quarto capítulo apresentamos a situação histórica das Lojas Universitárias no Brasil. No capítulo de número cinco analisamos a constituição das Lojas Universitárias no Distrito Federal e apresentamos as perspectivas futuras a partir do estabelecimento de marcos legais para a constituição de Lojas Acadêmicas. No capítulo de número seis, são apresentadas as conclusões. E o capítulo final expõe as referências bibliográficas.

A Loja Maçônica Universitária: Semelhanças e Diferenças perante as Lojas Tradicionais

A priori, devemos estabelecer um rigor conceitual acerca do conceito de Maçonaria Universitária. Na verdade, não existe uma Maçonaria “diferente” da tradicionalmente conhecida. O que existe são Lojas Maçônicas chamadas de Acadêmicas e Universitárias.

No contexto nacional, as leis que as regem são as mesmas que regem qualquer outra Loja Maçônica, o que não poderia ser diferente. Ressaltando que o propósito era agregar numa mesma Loja, Irmãos com características comuns.

Não obstante, devemos também ressaltar que o movimento de criação de Lojas Universitárias encontrava também conexão com a conjuntura nacional da segunda metade dos anos noventa. Neste período, podemos identificar um crescimento do ensino superior no país. Na verdade, a expansão das Instituições de Ensino Superior -IES foi um dos primeiros sintomas do processo de crescimento da economia advindos do Plano Real, a partir de 1994. Segundo dados do MEC/INEP, o número de IES cresceu em 82% no período 1997/2002, sendo que grande parte da oferta se apresentou através de IES privadas. (INEP, 2008)

No mesmo período, a reboque do aumento do número de IES, observamos o aumento do número de matrículas na educação superior. Os dados do MEC/INEP comprovam que o acesso ao ensino superior aumentou em 54% nas IES públicas e 135% nas IES privadas. Estes números por si só já atestam o crescimento de um grande contingente de jovens universitários e potenciais candidatos a frequentarem as Lojas Universitárias.

Assim, estaríamos reforçando a que, talvez, seja a única diferença entre as Lojas Acadêmicas e Universitárias e as Lojas tradicionais. Essas agremiações privilegiam a iniciação de universitários, de professores e demais candidatos ligados à área acadêmica. Sobre o processo de seleção de maçons, destacamos o que aponta o sitio eletrônico da Loja Maçônica “Fraternidade Acadêmica Ciência e Artes” N° 3685, que estabelece:

O objetivo dessas Lojas [Universitárias e Acadêmicas] é o de iniciar em seus quadros jovens universitários que possam, com sua força e vigor, além de aprender os postulados da Maçonaria, pô-los em prática com maior empenho e o mais cedo possível, unindo disposição, determinação e atributos dos jovens. Quando se aprende mais cedo, coloca -se em prática mais cedo esse aprendizado[1] (grifo nosso).

O sitio eletrônico da Loja ainda complementa que:

Não dispensamos com isso a iniciação de homens mais maduros, mas sabemos conscientemente, que é mais difícil tornar a teoria uma prática com o passar do tempo. Quanto aos mais jovens e elucidados, intelectualmente falando, fica muito mais fácil este processo de assimilar determinada filosofia e por em prática esses ensinamentos[2] (grifo nosso).

Fica evidente para a referida Loja que o maçom universitário trará benefícios à mesma e à doutrina maçônica, reunindo condições de buscar um conhecimento metodologicamente mais aprofundado e com a vertente científica necessária para a consolidação do ensino maçônico.

Ademais, as Lojas Acadêmicas / Universitárias buscam a adequação das atividades em Loja com a vida acadêmica do iniciado. Dessa forma, buscam reunir-se em condições de hora, local e frequência que possibilitem a conciliação das atividades da Ordem Maçônicas com as de estudante ou professor.

Também por esse motivo, não raro ocorre a iniciação de jovens a partir dos 18 anos, idade onde normalmente se iniciam os estudos universitários. Nas demais Lojas, a iniciação normalmente ocorre apenas após os 21 anos, em razão da possibilidade de ingresso nas instituições paramaçônicas (Ação Paramaçônica Juvenil – APJ e Ordem DeMolay), que são mais apropriadas para um candidato nessa idade.

Segundo Maia (2004) os principais argumentos para a difusão das Lojas Universitárias são:

  • a necessidade de se reduzir a faixa etária média dos maçons;
  • a implantação e a instituição da Ação Paramaçônica Juvenil e da Ordem DeMolay criaram ambientes favoráveis à Maçonaria por parte dos jovens, com um excedente de candidatos oriundos dessas entidades, que atendem os moços até os 21 anos;
  • de outra parte, também, o fenômeno da informatização, na última década, que aguçou a curiosidade principalmente dos jovens sobre a Maçonaria, especialmente dos acadêmicos;
  • a abertura gradual que vem sendo feita pela Maçonaria, principalmente pela Maçonaria Inglesa, considerada como aquela que deu origem a todas as Obediências regulares de todo o mundo e que abre seus Templos à sociedade com eventos culturais e a divulgação de campanhas de toda sorte.[3]

Somando-se a estes argumentos e analisando a minha a experiência como Venerável Mestre da Loja Maçônica “Universitária – Verdade e Evolução” n° 3.492, na cidade de Brasília, pude observar que os jovens maçons apresentam-se comprometidos e motivados, ao passo que o maçom da Loja poderá participar da administração da Oficina e assumir cargos, inclusive o de Venerável, com uma idade inferior a 30 anos, o que prepara o maçom para maiores desafios.

O Tempo de Estudos – uma das atividades comuns a uma Sessão Maçônica – é sempre pautado por temas maçônicos que são cotidianos à vida universitária, motivando o maçom a estudar e se preparar cada vez mais para sua trajetória dentro da Maçonaria. A idade que para alguns maçons é vista como empecilho para crescimento do maçom é atualmente vista por mim, nestes mais de oito anos em Loja Universitária, como um ponto importante e motivador para a busca dos conhecimentos e, sobretudo, para o preenchimento de várias lacunas sobre aspectos simbólicos, filosóficos e históricos que envolvem a Maçonaria.

Sendo uma Loja Maçônica igual à outra qualquer, os Irmãos podem ser convidados para a fundação de uma Loja desse tipo, mesmo se ligados à área acadêmica ou não. Da mesma forma, os candidatos não terão que ser única e exclusivamente oriundos de Instituições de Ensino Superior para compor os seus quadros.

As Lojas Universitárias: Origens e Evolução no Contexto Maçônico

Ao contrário do que imagina o senso comum, as Lojas Universitárias não são novas e nem uma invenção do Grande Oriente do Brasil – GOB. Elas há muito existem em outros países como Inglaterra, Escócia, Irlanda, Estados Unidos, Canadá e Austrália.

A primeira Loja Universitária devidamente constituída foi a University Lodge nº. 74, da Grande Loja de Londres, fundada no dia 14 de dezembro de 1730 por iniciativa dos maçons da Loja “Urso do Arado” nº. 63, que se reunia na taberna de mesmo nome. Dessa Loja Universitária participou, além de estudantes da Universidade de Oxford e Cambridge, um dos baluartes da Moderna Maçonaria, o Sr. Jean Théophile Désaguliers, considerado o Pai da Maçonaria Especulativa Moderna. (CARVALHO, 2004; HODGKINS, NADEAU, 2010).

A Westminster and Keystone Lodge n°. 10 é considerada a segunda do gênero. A Loja foi fundada em 1722 e se tornou Universitária em 1855. A partir de 1873, assim como a University Lodge nº. 74, ela também passou a reunir os estudantes de Cambridge e Oxford. (idem).

A Associação da Maçonaria Universitária com duas das mais renomadas universidades Britânicas, quiçá mundiais, também fez com que ingressassem em seus quadros maçons ilustres. Neste período, ingressou nas colunas do templo Oscar Wilde, um dos maiores escritores do século XIX. Wilde ingressou na Loja Universitária Apollo a 23 de fevereiro de 1875 e sendo ele menor de idade. Neste caso iniciaram-no com licença especial. (ibidem).

Com o crescimento das Lojas Universitárias na Inglaterra foram criadas Lojas especificas para a Universidade de Oxford, Loja Apollo, e Cambridge, Loja Isaac Newton, que também apresentavam licença, automaticamente renovada a cada ano, para iniciar candidatos abaixo de 21 anos, aproveitando o ingresso dos candidatos na Universidade.

Segundo Carvalho (2004:8):

“A Loja Universitária Apollo era então, como é ainda hoje, uma loja prestigiosa na Maçonaria inglesa. A Loja original Alfred na Universidade de Oxford #455, fundada em 1769, abateu colunas em 1783. Acordou em maio de 1818 e em dezembro constitui-se como Loja Apollo #711. Um ano depois a palavra Universitária agregou-se ao seu título. A Loja Universitária Apollo, agora com o número 357, continuou a praticar seu ritual numa maneira tradicional e dentro de seu estilo histórico”.

Carvalho (2004) complementa que: “Os ocupantes de cargos usam calças mais curtas à altura do joelho, fraques, gravata-borboleta branca, meias de seda e sapatos rasos e leves, como o fazem há mais de dois séculos”. (Idem).

Um traje, como se verá, que deve ter causado uma forte impressão em Wilde pelo seu senso estético e refinamento. Tanto assim que usava o traje em solenidades públicas e não maçônicas. Em 9 de janeiro de 1882, uma semana depois de sua chegada aos EUA para sua série de palestras e conferências, Wilde, já no palco, pela primeira vez, no famoso Chickering Hall na 5ª Avenida com a Rua 18, usava o seu traje maçônico da Loja Apollo.

Todos, absolutamente todos, aguardavam ansiosos o discurso inteligente do dândi inglês, já que a capacidade do teatro de 1247 lugares, completamente lotado, rivalizava com os lugares em pé, inteiramente apinhados. O coronel W. F. Morse, o empresário do tour de conferências, introduziu Wilde que caminhou lentamente em direção ao pódio usando o traje conspícuo de sua Loja Universitária: calças pelo joelho, meias de seda e sapatos baixos e rasos com fivelas brilhantes.

Resultado de imagem para Oscar Wilde  Apollo lodgeOscar Wilde com a vestimenta da Loja Apollo

A audiência, atônita, não sabia como reagir. “Alguns dos presentes pensavam que esse traje era uma vestimenta da corte inglesa e ninguém sabia que a última vez que Wilde usara esse traje fora na reunião da Loja Apollo, em Oxford.” (ibidem, p.9)

Nos Estados Unidos, as Lojas Universitárias mais famosas são as Lojas “Harvard”, vinculada a Universidade homônima, e a Loja da Universidade de Boston. Segundo dados do sitio eletrônico da Loja da Universidade de Harvard, esta foi criada em 18 de março de 1922 e considerada a primeira Loja Maçônica Universitária dos Estados Unidos e teve como um dos seus fundadores o ex-presidente norte americano Theodore Roosevelt[4]. A Loja surgiu de uma associação de maçons que eram então alunos de Harvard, e decidiram então fazer uma Loja com o propósito específico universitário. Algumas outras Lojas ligadas a universidades funcionam no próprio campus e outras são independentes. Existem aquelas que só admitem alunos ou ex-alunos de uma determinada universidade e outras que são abertas, admitindo estudantes e não estudantes, muitas vezes professores. Uma Loja como a Harvard University tem aproximadamente 200 membros.

Outra característica é que algumas dessas Oficinas têm apenas seis sessões ordinárias ao longo do ano, exatamente para não comprometer as atividades dos alunos nos seus estudos. No entanto, as Lojas buscam aliar qualidade em detrimento da quantidade, ou seja, há uma profunda discussão a fim de elevar o nível do debate filosófico do maçom participante de Loja Universitária. Segundo ARLS Fraternidade Acadêmica Ciências e Artes[5]:

Para retirar o máximo possível desses candidatos, logo que iniciados, é necessário experimentá-los com muita informação a fim de que saciem sua curiosidade natural, e ao mesmo tempo saibam desde logo quais são os ideais maçônicos, sem poupá-los da verdadeira função da Ordem e da realidade de nossos quadros. Não adianta querer passar a ideia de que somos uma associação de moços bondosos ou caridosos. Somos uma escola, com bons e maus alunos, que busca, em seus símbolos, nos ensinar a melhorar, a evoluir, a construir um caráter exemplar. Para atingir esses resultados práticos, é necessário dar-lhes boa quantidade de trabalho, tanto intelectual quanto prático, fazendo-os experimentar desde cedo a responsabilidade com o compromisso. Comprometimento é a palavra que simboliza o combustível que necessitamos para nos motivar sempre. Tolerância e persistência complementam as virtudes necessárias ao sucesso de todo maçom nessa senda de estudos e práticas que elevam a sociedade, desde que sejamos bons exemplos para ela.

Por isso, algumas Lojas brasileiras preferem iniciar os estudantes já nos primeiros anos do curso e com pouca idade para que sejam Mestres Maçons quando se formarem.

As Lojas Universitárias no Brasil

Conforme apresentamos na seção anterior, a Maçonaria Universitária já possui uma posição consolidada no velho continente e nos EUA. No Brasil, embora a Maçonaria estivesse constituída já no século XVIII, o marco inicial da fundação da primeira Loja Universitária ocorreu somente em meados da década de setenta do século XX.

O grande mentor e maior incentivador da “Maçonaria Universitária” em solo brasileiro foi, sem sombra de dúvida, o então, Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil – São Paulo, Irmão Rubens Barbosa de Mattos, que definiu como sendo as Oficinas Universitárias a “Redenção da Maçonaria Nacional”. (GALDEANO, 2007a).

Em 20 de agosto de 1975 foi fundada a primeira Loja Universitária no Brasil sob o título de Loja Universitária nº. 1928, em Bragança Paulista – SP, federada ao Grande Oriente do Brasil. A criação da primeira Loja não impulsionou um aumento de Lojas Universitárias, embora São Paulo tenha tido desde o início do século XX um grande destaque nacional no tocante à quantidade e à qualidade de seus Institutos de Ensino Superior.

No espaço de aproximadamente vinte anos a Maçonaria Universitária se resumiu a duas Lojas. A segunda Loja foi a Fraternidade Acadêmica Piratininga nº. 2862, na cidade de São Paulo, fundada a 20 de abril de 1995, também federada ao GOB. A Fraternidade Acadêmica Piratininga[6] é patrocinada pela histórica Loja Piratininga “A Fidelíssima” nº. 0140, fundada a 28 de agosto de 1850. (idem)

A partir de então o Grande Oriente do Brasil inicia uma campanha em prol da fundação de Lojas Acadêmicas. Em 2005 a iniciativa obteve como principais frutos a existência de 55 Lojas ligadas à área acadêmica, sendo 37 Lojas denominadas Fraternidades Acadêmicas e 18 Lojas Universitárias[7].

Percebemos então um cenário completamente diferenciado no tocante à Maçonaria Universitária. Se no espaço de 20 anos (1975-1995) foram criadas duas Lojas; nos 10 anos seguintes (1995-2005) foram fundadas 55 Lojas. Fica claro o esforço do Ir. Barbosa de Mattos e do GOB em prol desse tipo de Oficina.

Como complemento dos dados da década, no período 2005-2010, segundo os dados da Grande-Secretaria Geral da Guarda dos Selos do Grande Oriente do Brasil – GOB, foram fundadas mais 19 Lojas, perfazendo um total de 76 lojas do tipo Universitárias e Acadêmicas no período de 1975 a 2010.

Ainda segundo a mesma fonte – Grande Secretaria Geral da Guarda dos Selos do GOB – no ano de 2007 existiam 76 Lojas Maçônicas Acadêmicas e Universitárias federadas ao Poder Central, assim distribuídas: uma no Acre; uma no Maranhão; duas no Distrito Federal; duas em Goiás; duas em Pernambuco; duas no Rio de Janeiro; duas em Rondônia; duas no Rio Grande do Norte; uma em Tocantins; uma no Mato Grosso do Sul; três no Espírito Santo; três no Paraná; cinco em Santa Catarina, dezenove em Minas Gerais; e trinta no estado de São Paulo.

Das Lojas do tipo Fraternidades Acadêmicas, vinte e duas trabalhavam no Rito Escocês Antigo e Aceito, seis no Rito Francês ou Moderno, quatro no Rito Adonhiramita, quatro no Brasileiro e uma no Ritual de Emulação. Já nas lojas do tipo Universitárias: oito trabalhavam no Rito Francês ou Moderno, sete no Rito Adonhiramita, dezoito no Rito Escocês Antigo e Aceito e seis no Rito Brasileiro. Mais uma vez, convém ressaltar que não existe um rito melhor que o outro e percebe-se que o Rito Escocês Antigo e Aceito é um dos ritos mais utilizados em Lojas Universitárias. Essa correlação deve-se por este ser o mais difundido no Brasil e algumas Lojas funcionarem em Templos Maçônicos que também funcionam com este Rito. (GALDEANO, 2007a).

Sabemos que a Pluralidade de Ritos é uma das maiores riquezas do Grande Oriente do Brasil, como já dizia Álvaro Palmeira[8]:

De fato, é um laurel da Maçonaria Brasileira a Pluralidade de Ritos, porque o exercício de Ritos Regulares faz com que a nossa Obediência abrigue, generosamente, as várias correntes Filosóficas e Doutrinárias do Mundo Maçônico, desde o Agnosticismo até o Teísmo. Seria um atentado à História e à Justiça se, em obediência a imposições ilegítimas e alienígenas, criássemos agora obstáculos aos Ritos.

Entretanto concordamos com o Irmão Varella quando ele se refere ao Rito mais apropriado para uma Loja composta por jovens Maçons:

A vantagem do Rito Moderno para Lojas Universitárias está nas características do Rito que são mais adequadas aos jovens: simplicidade, liberdade de expressão, ausência de conteúdo religioso, racionalidade, preservação das ideias iluministas e incentivos à participação na melhoria da sociedade. Trata-se de um Rito que privilegia a razão em detrimento de concepções místicas, de difícil aceitação pela comunidade acadêmica, altamente influenciada pelas ciências.

Ademais, é no Rito Francês ou Moderno que oficialmente trabalham, ou deveriam funcionar, os Grandes Corpos do Grande Oriente do Brasil, se for respeitar a legislação, a história e a tradição. O GOB, desde 1822, ano de sua fundação, se estruturou no Rito Moderno (CASTELLANI,1993) e, por dever de justiça, pensamos que deveria ter um maior número de Lojas federadas trabalhando no referido Rito.

Considerando os sete Ritos reconhecidos e praticados pelo Grande Oriente do Brasil, ainda não existe nenhuma Oficina, de origem Acadêmica ou Universitária, trabalhando no Rito Alemão ou Schroeder e nem no Rito Escocês Retificado.

O Panorama das Lojas Universitárias no Distrito Federal e o Atual Cenário

Aqui, na jurisdição do Grande Oriente do Distrito Federal, não se pode falar em Loja Universitária sem mencionar o nome do Eminente Irmão João Correia Silva Filho, Grão-Mestre de Honra da nossa Obediência Distrital.

O Eminente Irmão João Correia se tornou o grande responsável pela fundação da ARLS “Universitária-Verdade e Evolução” nº. 3492, do Rito Moderno, primeira Oficina Universitária da Capital da República, fundada a 22 de março de 2003. Disse ele, no primeiro Aniversário de Fundação da Loja:

Conversando com o Irmão Rubens Barbosa de Mattos, Grão-Mestre Honorário do Grande Oriente de São Paulo, hoje falecido, dizia-me ele com entusiasmo, cheio de vaidade, sobre o que chamou na ocasião de “Redenção da Maçonaria Nacional”[…]”. (GALDEANO, 2007a)

O Irmão João Correia complementa que, segundo palavras do Irmão Barbosa de Mattos que a Loja Piratininga, na qual deu a titulação de Fraternidade Acadêmica, havia incorporado a ideia e concitou-me a aderir a ela. Segundo João Correia:

Saí daquela Suprema Congregação com o espírito impregnado com a ideia, mas uma coisa me chamava à atenção: o título “Fraternidade Acadêmica” e não “Augusta e Respeitável Loja Simbólica Universitária (…)

Aquilo me perturbava, ainda hoje perturba, pois afronta a Constituição, que não contempla as “Fraternidades Acadêmicas”. Outra coisa me incomodava. Senti, naquela ocasião, que havia no GOBSP, certa rejeição à ideia, razão pela qual o Irmão Rubens procurava me influenciar para implantá-la no Distrito Federal. Hoje, tenho a certeza de que não estava totalmente errado no meu julgamento. O Irmão Rubens implantou a Fraternidade Acadêmica Piratininga, que serviu de modelo as que lhes seguiram, mas com muita luta e muita oposição. Quem sabe se as “Fraternidades Acadêmicas” ou “Lojas Universitárias” tivessem início por Brasília, às dificuldades para implantá-las nos Estados fossem menores?(…) (idem)

Certamente uma das maiores dificuldades se referia ao aspecto financeiro. Havia, no Grande Oriente do Distrito Federal – GODF, a Lei que isentava os universitários das taxas, mas a referida Lei não era abrangente. O candidato deveria ser filho de Maçom ou Lowton, ter frequentado por pelo menos três anos Instituições Paramaçônicas (APJ, DeMolay, etc.) e outros requisitos que ficava muito difícil a tal isenção.

A verdade é que o Grande Oriente do Brasil, não abria mão das taxas devidas ao Poder Central. Os Grandes Orientes Estaduais, salvo algumas raríssimas exceções, também não. Alguns poucos Grão-Mestres Estaduais, sensibilizados pela causa Universitária, procuravam contemplar os jovens iniciados, mas era a vontade deles e não uma legislação que os amparava. Mudando o Grão-Mestre, mudar-se-ia a sensibilidade também.

Por várias vezes, algumas Lojas, através de seus Deputados Federais ou Estaduais, chegaram a enviar Projetos de Lei para as nossas Assembleias Legislativas Maçônicas (Estaduais, Distrital ou Federal) tentando criar uma legislação que contemplasse os jovens aptos a ingressar na Ordem. Com relação a isso ouvíamos muita discussão sem fundamento, até o cúmulo de dizerem que uma Legislação que isentasse os universitários das taxas iria onerar os cofres da Instituição. Essa questão rendeu acalorados debates nas nossas Casas de Leis, porém os projetos visando esses benefícios eram sempre relegados a um segundo plano.

O importante é que um número cada vez mais crescente de Irmãos fundamentava e demonstrava repetidamente que esse era o caminho para a renovação dos nossos quadros. Era o futuro da nossa Instituição. Com isso, posteriormente, a causa universitária da Maçonaria colheu os seus frutos com a promulgação da nova constituição do Grande Oriente do Brasil, sendo contemplada com a isenção das taxas devidas às Obediências. Uma medida justa, até porque um jovem estudante que se encontra fora do processo produtivo, à procura do conhecimento e da verdade em tempo integral, em geral não tem rendimentos.

Analisado os dados disponíveis à época e feito uma pesquisa informal com os Veneráveis Mestres, segundo o Irmão João Correia conclui-se que era inviável a fundação, em 1995, de uma Loja Universitária, contudo, dentro de 08 a 10 anos, teria o Distrito Federal Maçônico condição de ter uma única Loja voltada para o meio acadêmico, quer docente ou discente. (ibidem)

Investido de suas elevadas prerrogativas de Grão-Mestre do GODF (1995/2003), ele começou a preparar o caminho e, para tanto, tratou de incentivar e criar uma visão positiva dos jovens para com a Maçonaria, trazendo-os para junto da Ordem, tendo como base os filhos de Maçons. (idem)

Outra iniciativa importante para a fundação da “Loja Universitária” no Distrito Federal foi a edição da Lei nº. 05, de 13 de novembro de 1997, que isentava do pagamento de qualquer taxa, contribuição ou rateio devida ao GODF, até os 24 anos de idade civil, o filho ou Lowton, e os parentes de maçons até o terceiro grau consanguíneo, que fossem propostos antes de completarem 22 anos de idade civil, sendo-lhes exigido que os beneficiários estivessem filiados a, pelo menos, três anos, na Ação Paramaçônica Juvenil – APJ ou na Ordem DeMolay, e que estivessem regulares e efetivamente cursando o ensino superior. Esta lei se destinava a qualquer Loja da jurisdição, sendo o seu primeiro beneficiário o Irmão Jefferson Ferreira de Lima, da Loja “Solidariedade de Ceilândia”.

Durante os 06 anos (1996 a 2002) que antecederam a fundação daquela que seria a primeira Loja Universitária do Distrito Federal, o discurso do GODF se pautou no crescimento quantitativo e qualitativo dos quadros das Lojas, fazendo frente a uma cultura existente e resistente àquela proposta, por uma grande maioria dos Irmãos que tinham em mente a fixação de que o que vale é a qualidade e que a quantidade impede a qualidade. Este fato da falta da aceitação da política de crescimento dos quadros das Lojas levou o Grande Oriente do Distrito Federal ao envelhecimento, fato que já vinha ocorrendo em todo o GOB, chegando a uma média etária de 60 anos de idade.

Segundo levantamento feito pela Grande Secretaria Geral da Guarda dos Selos do Grande Oriente do Brasil, no período de 2000 a 2010, foi constatado que a faixa etária de Maçons do GOB girava em torno de 52 anos de idade, faixa essa reduzida em comparação com estatísticas de períodos anteriores graças às Lojas Maçônicas Universitárias.

Todos os passos traçados anteriormente pelo então Grão-Mestre João Correia, só tinham um desiderato: preparar terreno para que a Loja Universitária se tornasse uma Oficina voltada para a busca, na sociedade juvenil e universitária, de cidadãos de elevado potencial político, que, forjados pela doutrina maçônica, enquanto ainda detentores de idealismo puro e de sonhos, pudessem, no futuro, influir no destino da Maçonaria e da Pátria. Em suma, buscar futuros dirigentes para a Nação Brasileira em geral e para a Ordem Maçônica em particular.

As críticas locais a uma Loja Universitária foram surgindo. Desde o elitismo de contar apenas com membros com formação em andamento ou completa em nível superior, até mesmo a possível falta de maturidade dos jovens para governar uma Loja. As previsões eram catastróficas.

A fundação de uma Loja Universitária na Capital Federal foi discutida e maturada amplamente, em um longo e demorado processo. A Loja “Universitária-Verdade e Evolução” nº. 3492, adotando o Rito Moderno e fundada a 22 de março de 2003, se tornou uma grande realidade e serviu de exemplo a toda Maçonaria Brasileira.

Em 31 de Março de 2007 foi fundada a segunda Loja Universitária jurisdicionada ao GODF, com o Título Distintivo de ARLS “Universitária Ordem, Luz e Amor” nº3848, trabalhando no Rito Escocês Antigo e Aceito.

Com o advento da nova Constituição do Grande Oriente do Brasil, que entrou em vigor no dia 25 de junho de 2007, data da sua publicação, foram designadas comissões de maçons para elaborarem o novo Regimento Geral da Federação e os respectivos anteprojetos do Código Disciplinar Maçônico, do Código Processual Maçônico e do Código Eleitoral Maçônico. O Artigo 27 do RGF definiu a idade para ingresso na Ordem Maçônica em 18 anos, definiu também, visando à admissão e após a sua implementação, que estarão isentos do pagamento de taxas e emolumentos estabelecidos pelo Grande Oriente do Brasil, pelos Grandes Orientes Estaduais e do Distrito Federal e pelas Lojas:

  • Os Lowtons, os DeMolays, e os Apejotistas com dezoito anos, no mínimo, até completarem vinte e cinco anos de idade;
  • OS ESTUDANTES DE CURSO SUPERIOR DE GRADUAÇÃO com, no mínimo, dezoito anos de idade e, no máximo vinte e cinco anos, ou até a conclusão do curso superior, que comprovadamente não dispuserem de recursos próprios para sua subsistência (grifo nosso).

Diante desse grande estímulo, não é necessário ser um bom observador para estar certo de que, com o benefício legalmente criado, com a isenção das taxas, ficou menos árdua as futuras fundações de Lojas Universitárias e o posterior recrutamento de candidatos ligados à área acadêmica.

Estabelecido este parâmetro financeiro, é necessário que a campanha para a criação de Lojas Universitárias seja encampada pelos próprios jovens maçons, com o apoio do GOB e do GODF, a fim de que exista uma difusão cada vez maior deste tipo de Loja Simbólica.

Conclusão

A Maçonaria Brasileira, atualmente, é a terceira maior do mundo, em números absolutos (LIST…, 2013). No entanto, temos plena consciência de que os esforços para atingir o ponto de mutação em que a quantidade se transformará em qualidade ainda carecem de esforços institucionais como, por exemplo, a criação de lojas universitárias.

A Maçonaria Brasileira, em geral, está imersa num imenso país em crise espiritual, moral e cultural. A resultante da crise provavelmente não será a negação das ciências e das liberdades humanas mais fundamentais; não será uma volta ao passado preconceituoso, supersticioso e retrógrado; mas sim a busca de uma nova moralidade, que incorpore as raízes profundas da verdadeira tradição, compatibilizando-a com a liberdade e a ciência. E, neste momento, cremos profundamente que a Maçonaria Universitária terá um papel educacional a desempenhar.

O desafio é grande, mas temos esperança que a Maçonaria Brasileira saberá adquirir a sua plenitude cultural e ética neste terceiro milênio, para um resoluto posicionamento que melhor atenda aos interesses nacionais.

O futuro da Maçonaria em geral e da “Maçonaria Universitária”, em particular, está em conseguir chegar até a juventude e oferecer a ela uma doutrina calcada em ideais progressistas e solidários, construindo o futuro com base nos alicerces de nossa tradição, e expondo um ideal maçônico contemporâneo, de acordo com a realidade atual e futura do povo brasileiro.

Lembrando sempre que somos no presente os portadores do ideal maçônico, e legar aos nossos sucessores uma Maçonaria cada vez mais organizada é nosso mais sublime dever. Neste contexto, só dependerá de nosso trabalho e habilidade para que transformemos os anseios da comunidade em fulgurante realidade, modernizando a Ordem, sem prejuízo das tradições herdadas de nossos antecessores.

Autor: Lucas Francisco Galdeano

Lucas Francisco Galdeano tem Pós-graduação Lato Sensu em História da Maçonaria pela Universidade Cruzeiro do Sul / UDF. Foi Grande Secretário Adjunto de Educação e Cultura do Grande Oriente do Brasil (1993-2001) e é Grão-Mestre Distrital Adjunto do Grande Oriente do Distrito Federal – GODF/GOB.

Fonte: Revista Ciência e Maçonaria

Notas

[1] – C.f. http://www.facienciaeartes.com.br/universitaria.htm ; acesso em 12/02/2012.

[2] – Op cit.

[3] – C.f. http://www.samauma.biz/site/portal/conteudo/opiniao/lu004lojasuniversitarias.htm acesso em 29/02/2012.

[4] – C.f. dados constantes em: http://www.harvardlodge.org/index.htm acesso em 04/10/2012.

[5] – C.f. site A.R.L.S. Fraternidade Acadêmica Ciência e Artes N°. 3685. http://www.facienciaeartes.com.br/universitaria.htm. Acesso em 15/03/2012.

[6] – Idealizada pelo então Grande Secretário Adjunto de Relações Exteriores do GOB, o Eminente Irmão Rubens Barbosa de Mattos (*1937 +2003), Grão-Mestre Honorário do Grande Oriente de São Paulo, que exerceu o cargo de Grão-Mestre Estadual no período de 21/06/1991 a 20/06/1995. Esta Loja é considerada, no meio maçônico brasileiro, a primeira Loja genuinamente Universitária.

[7] – C.f. Guarda dos Selos do Grande Oriente do Brasil (2009).

[8] – Álvaro Palmeira foi Grão-Mestre Geral do G.O.B. de 1963 a 1968.

Referências Bibliográficas

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