Destino, Liberdade e Ética

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        “O confronto entre a Razão e o Destino é prova decisiva da reflexão filosófica” Henrique Claudio de Lima Vaz

Provavelmente, em algum momento de extrema angústia, perplexo, você ergueu os olhos aos céus e, munido da mais aguda e desperta ratio, empreendeu uma luta hercúlea, buscando explicação lógica para uma pequena ou portentosa tragédia pessoal.

Os tragediógrafos gregos, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, versaram sobre as atemporais mazelas da vida. Esses premiados literatos registraram de forma magistral o inexorável peso do Destino e dos caprichos Fortuna (Tyché) sobre o Homem.

Do alinhavar da predestinação implacável à paulatina descoberta do Homem enquanto portador de uma alma (psyche) em relação com os demais, a tragédia grega assinala a aurora do Ethos – hábito, conduta – que culmina em nosso ‘habitat’.

Será então, embalada por esse avanço (ainda que tímido) na liberdade de agir que emergirá uma nova conduta, um novo Ethos.

Como reitera o filósofo Henrique Claudio de Lima Vaz, “a descoberta da alma assinala a emergência de uma nova figura do indivíduo no centro da reflexão ética.”. Ao presunçoso, mas desamparado filho da physis (natureza), logra êxito o lógos verdadeiro.

Reféns dos tais “desígnios” (Destino/Fortuna), tornamo-nos também, filhos da virtude e da razão.

Em contraponto às inescrutáveis razões da physis, onde o indivíduo sofístico erige e circunscreve o palco do Ethos movido pela cega vontade de poder (subjugado pela hybris, a desmedida e, portanto refém do Destino), desponta o herói (ou heroína, como Antígona) e, na sequência, emerge o ponderado indivíduo socrático, cujo Ethos é circunscrito no agir virtuoso, na ação justa, portanto, razoável.

Lima Vaz aponta que na ação razoável, “que é igualmente a práxis justa e virtuosa, deverão conciliar-se desejo, razão e liberdade.” Essa possibilidade fora negada ao herói trágico, pois, encapsulado por seus desejos e paixões, o não deliberar restringia seu potencial de liberdade.

Os “nós” desse entrelaçamento são didaticamente expressos pelo filósofo Mario Sérgio Cortella: “Ética é o conjunto de princípios e valores que usamos para decidir as três grandes questões da vida: quero [desejo]? devo [razão]? posso [liberdade]?”.

Cortella então prossegue, chamando a atenção para o fato de que: “Tem coisas que eu quero, mas não devo; que eu devo, mas não posso e que posso, mas não quero (…). Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve.” Seria perfeito!

E, se mesmo agindo somente depois de prudente deliberação, de forma sensata, segundo a excelência do Bem, a “realidade enigmática e hostil do mundo e da vida”, o Destino, se opor à ação virtuosa, revelando-se cego e fatal? Noutras palavras, “como ousar prolongar o caminho da Ética como ciência do ethos no interior da obscuridade impenetrável que envolve a temerosa montanha do Destino?”, indaga Lima Vaz.

Essa interrogação, diz ele, encontrará no mundo antigo a resposta da mais impressionante grandeza e da mais desoladora resignação: “quando o Estoicismo tiver elevado a razão do Sábio à própria altura do Destino, então transfigurado em pronoia, providência racional.”.

O que a reflexão ética platônico-aristotélica busca estabelecer é o melhor ajuste possível entre lógos e Ethos.

Destino e Fortuna acabam obscurecendo esse ajuste, pois são duas faces incompreensíveis da realidade: “de um lado, a rígida cadeia da necessidade [Destino] que parece ligar seres e acontecimentos nos vínculos de uma infringível ordem universal; de outro, a Fortuna volúvel que distribui de maneira imprevisível a sorte de cada um.”.

Quando o imponderável se apresenta, mesmo diante da conduta sensata do justo e, surpresos indagamos: “Por quê?” é que “a primeira face [Destino] ergue-se enigmática”, diz Lima Vaz.

Já a segunda face (Fortuna), também por não obedecer a uma lógica alcançável “ameaça com a sem-razão de uma total contingência as razões do agir segundo a virtude”.

Como garantir àqueles que agem virtuosamente o justo direito a uma felicidade “que se sobreponha à inelutabilidade do Destino e à inconstância da Fortuna?”.

As primevas reflexões sobre Destino e Fortuna nasceram no mito arcaico ANTES “de encontrar no discurso filosófico o seu desaguadouro natural”. As tragédias explicitam o confronto “entre o pungente sentimento de impotência em face do Destino e da Fortuna e a inquebrantável energia e a força criadora com as quais o homem grego enfrenta os desafios da ação (práxis)”. Desde então, o homem segue “plasmando a sua existência e organizando o seu mundo segundo as normas da razão (lógos) e o alvo da excelência (areté)”.

Quando a Paideia (pedagogia) das tragédias tem por alvo a excelência (areté), diz Werner Jaeger, “mostra que a experiência do Destino e da Fortuna, longe de alimentar um resignado fatalismo na alma grega, estimulou todas as suas energias para responder, com a criação da Ética e da Política, à ameaça do niilismo moral (…)”.

Nas tragédias áticas trava-se o embate entre Razão X Destino/Fortuna. Ou, como poeticamente se expressa Lima Vaz: “o entrecruzamento da linha horizontal da vida traçada pelo precário e trabalhoso saber humano e a linha vertical do majestoso desígnio divino que desce das alturas de uma inalcançável transcendência”. Eis a essência do mistério que envolve nossas angústias.

A famosa inscrição no Templo de Apolo, em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”, diz ele, “conduzirá ao recesso mais íntimo do indivíduo, que a tradição consagrará com o nome de ‘consciência moral’”.

Mas, quais são os remédios capazes de curar dos males da existência quando, mesmo sendo razoáveis, virtuosos e dignos, surpreendidos pelo Destino (Moira), deparamo-nos com assombrosos obstáculos, aparentemente intransponíveis?

Lima Vaz afirma que essas interrogações são decisivas e que acompanham a formação do pensamento ético e em torno das quais se adensa, pouco a pouco, a ideia de uma ‘vida interior’ do virtuoso, da alma (psyche) no sentido socrático e, será no âmbito dessas ideias que o Destino e a Fortuna serão finalmente compreendidos pelas razões de uma “Razão superior”.

Para o filósofo, é possível “descobrir no homem aquela parte de seu ser – a melhor – pela qual ele é capaz de libertar-se da cadeia dos males e elevar-se à verdadeira eudaimonia [felicidade] (…) pela convicção de que a práxis obediente à norma do lógos torna-se capaz de vencer os males advindos do Destino”.

Consciência moral – co-autoria, responsabilidade dos homens, – não somente capricho dos deuses embasa a tal “consciência tranquila, limpa”. Assim, alcançamos o que ele chama de “uma nova e superior forma de felicidade que tenha a sua sede na interioridade racional da psyche [Alma] e seu fundamento no lógos verdadeiro”.

Será na estrutura lógica do agir humano que a liberdade – contraprova do Destino – terá assegurado seu lugar: À luz do Sol do Bem (…) a sombra do Destino recua (…).”, e isso, repito, não é de pouca monta.

Destino e Fortuna são instáveis fluxos dispensadores de penas e alegrias, de onde é possível emergir a grandeza e nobreza inata do homem, capaz de aprender com o sofrimento. Porque faz parte.

Autora: Luciene Felix

Fonte: Blog Conhecimento Sem Fronteiras

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O Príncipe

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O Príncipe é um livro escrito por Nicolau Maquiavel em 1513, cuja primeira edição foi publicada postumamente, em 1532.

Trata-se de um dos tratados políticos mais importantes já escritos, e que tem papel crucial na construção do conceito de Estado como modernamente conhecemos. Entre outras coisas, descreve as maneiras de conduzir-se nos negócios públicos internos e externos, e fundamentalmente, como conquistar e manter um principado.

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Quase nada!

 

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Maçons recém-iniciados, e mesmo os antigos menos conhecedores da Filosofia, dos feitos e da missão da Maçonaria, exaltam-se e julgam impropriamente estar a Sublime Ordem, alheia aos problemas e dificuldades do homem.

Numa de nossas sessões, na hora apropriada, um Irmão, preocupado com a imagem da Maçonaria, lançou a indagação:

– Por que oito entre dez maçons estão insatisfeitos (decepcionados) com a Maçonaria?

A resposta foi dada através de outra pergunta:

– Será que a Maçonaria está satisfeita com dois entre dez maçons? Comigo, com o caríssimo Irmão?

Nada

Conta-se que perguntaram a Pitágoras, após ter sido Iniciado nos mistérios egípcios, o que tinha visto, tendo respondido: Nada. Se ao sair do Templo não tinha visto nada, não se limitou a sair decepcionado, senão buscando a origem deste nada, descobriu em si mesmo que não tinha visto nada mais que desejos e ilusões. Foi então que começou seu caminho para a sabedoria.

Muitos Irmãos recém-Iniciados se afastam da Ordem porque em nossas Lojas não encontram nada, porque o nosso simbolismo não lhes significa nada, porque na Maçonaria não se faz nada; outros se queixam que nas Lojas se fala muito de simbolismo e nada mais; que só comparecem aos trabalhos da Loja para perder tempo e nada mais. Propomos perguntar-lhes: o que significa esse nada com respeito à Maçonaria? O Neófito não vai mais à sua Loja porque não encontrou nada… E como é que não encontrou nada? Não encontrou o Templo com seu Altar, as colunas, os móveis e a decoração? Não encontrou os Irmãos reunidos na Loja? E como é que diz que não encontrou nada e que o simbolismo não lhe significa nada? Encontrou pelo menos o simbolismo… O Neófito que entra no Templo encontra algo, porém não encontra o que busca; isto dá margem à várias perguntas:

  1. O que busca o profano que solicita ao ser Iniciado?
  2. O que a Maçonaria não pode oferecer?
  3. O que a Maçonaria pode oferecer?
  4. O que encontra o Neófito ao dizer que não tem nada?

Respostas:

O que busca o profano que solicita ser Iniciado? Pode solicitar seu ingresso por vários motivos, desde o mais grosseiro materialismo, o desejo de encontrar protetores para seus negócios de qualquer espécie, até o motivo de mais elevado sentimento de humanitarismo. Em geral, é mistura de tudo, acrescido de curiosidade; e frequentemente haverá um sentimento da própria imperfeição acrescido do desejo de melhorar-se e de aperfeiçoar-se. É um dos problemas da Maçonaria que, pelo segredo e discrição que deve guardar seus integrantes, o profano chega geralmente a nossas portas, desconhecendo realmente o que espera vindo em contrapartida cheio de esperanças e ilusões que vão do inadequado até o absurdo.

O que a Maçonaria não pode oferecer? A Maçonaria não é feita à medida das ilusões do Neófito. Se esse esperou uma renovação completa de sua personalidade por meio de um remédio amostra grátis e que se oferece a todo aquele que entra na Ordem, equivocou-se. Dá-lhe a luz, as ferramentas para trabalhar, mostrando-lhe a Pedra Bruta e o modo de trabalhar nela. O resto é assunto do Neófito. Se buscava um meio cômodo para tornar a sua vida mais fácil e agradável, para sentir-se importante sem esforço algum, para viver em paz consigo mesmo. E como não achou o que buscava, diz simplesmente: Não encontrei nada. Aquilo que não encontra era o que ele queria e nada mais. Dizer que a Maçonaria não faz nada é outra maneira de revelar que querem conseguir satisfações de amor próprio a baixo custo.

O que a Maçonaria pode oferecer? Do ponto de vista das pessoas mencionadas, nada, pois para elas o trabalho, o estudo não é nada. Quanto mais irreais, fantásticas forem suas esperanças, mais necessitarão para encontrar o que oferece a Maçonaria, e que é: trabalho, ferramentas para executá-lo, o salário que somente se obtém trabalhando.

O que encontra o Neófito ao dizer que não tem nada? Bate à porta do Templo, se abre para ele e não encontra nada. O que é este nada? Algo ele encontra e se o pressionarmos um pouco, ele nos dirá: “Não há nada, somente palavras, somente Ritualística, somente Símbolos, somente ideias antiquadas”. Algo, portanto encontra, porém “não o que buscava”.

O Irmão que se afasta da Loja queixando-se de “não haver encontrado nada”, afasta-se desgostoso, decepcionado. O encontro com o nada o afetou no mais profundo do seu ser, reconhecerá que onde não encontrou nada, foi em si mesmo. Este é o ponto onde começa a germinar a ideia maçônica. Se o Irmão chegar a este ponto, começará ser maçom.

Temos tido acesso a manifestos de destacadas autoridades, patriotas, que embora não pertençam à Maçonaria, repelem o descalabro, as ignominias das corrupções e da falta total de caráter, de pudor e de vergonha que assolam a Nação.

Conclamam a Ordem Maçônica à adoção de uma posição proativa, pela indignação, pela perseverança, pelo esclarecimento, pela pressão, pelo alerta constante, esperando que seu clamor seja ouvido, por aqueles que não podem deixar de ouvir.

Convocam-nos continuarmos a luta contra o errado, o ilícito, a mentira e a trapaça que não podem ser aceitas, mesmo que praticadas, apregoadas e admitidas como naturais.

Mas o que fizemos até aqui para mudar?

Parece haver uma mudança de um estado de apatia crônica dos maçons (que não deixa de ser uma forma de protesto, uma espécie de resistência passiva) para uma agitação ainda sem foco muito definido (talvez uma insatisfação geral), uma forma de reação mais ativa, que cresce na medida em que os outros também se movimentam. Não dá para ficar de braços cruzados, “vendo a banda passar”, nesse momento histórico, quando todos estão cansados de tudo. Mudar esta triste realidade é tarefa de todos nós.

A Loja esta chata, o emprego é monótono, o salário é baixo, o atendimento médico é precário, o trânsito é caótico, nunca temos dinheiro para comprar o que queremos, a violência cresce perto de casa, as perspectivas de futuro não são lá muito animadoras, estamos indignados com o que vemos e ouvimos sobre os políticos, corrupção e impunidade.

Ônibus, carros, lojas comerciais pilhadas e prédios públicos depredados e incendiados, jornalistas intimidados porque trabalham para grandes empresas de comunicação, agressões e mortes desnecessárias a policiais e a outros manifestantes. Como evitar esses excessos no calor do momento? Mas o que fizemos até aqui para mudar? Quase nada! No momento em que tudo isso vem à tona e percebemos que outros sentem e passam por situações semelhantes levemos desejos e frustrações para o meio da rua e os protestos se tornam uma forma efetiva de manifestar insatisfação, de tentar dizer um “basta”.

Os governos federal e dos Estados procuram organizar-se para enfrentar o problema de superpopulação e assassinatos nos presídios, motivo de aflições e agruras em nosso país. A ideia que vem prevalecendo é construir mais cadeias públicas, porque assim seria possível acomodar melhor os detentos e dificultar os assassinatos. A edificação de novas penitenciárias, desacompanhada de um ataque direto e objetivo às principais causas da criminalidade, talvez signifique quase o mesmo que rasgar dinheiro e até mesmo uma visão inadequada do problema.

Conclusão

A Maçonaria, em todos os tempos, tem se dedicado a iluminar a humanidade, disseminando, por toda a parte, os postulados da Luz e da Verdade. Mas os homens de hoje têm seus ouvidos e olhos fechados ao espiritual. Os maçons, em grande número, não têm saído do estado de Aprendiz. Neles ainda prevalece a matéria sobre o espírito.

Grandes movimentos maçônicos acompanharam mudanças históricas importantes no Brasil e no mundo. Mas sem foco definido, sem lideranças estabelecidas, com tantos motivos para protestar, sem particularizar objetivos, sem formular caminhos, como mudar o que não funciona?

Como brasileiro exijo que não se dê “palanque” a nenhum bandido, corrupto, ladrão, traidor da Pátria, independente de partido, ideologia, religião, seja magnata, juiz, ministro, governador ou presidente. Que se faça justiça, no sentido exato da palavra, para termos paz e futuro.

Como Obreiros de Deus, vivemos no presente, caminhando e construindo para o futuro, mas nada irá empanar as verdades eternas que nos vieram do passado.

Quem diz sempre a última palavra é a morte; mas temos a esperança, e é por isso que vivemos e que cremos na vida. Aqui estamos para fazer uma Nação justa!

Autor: Valdemar Sansão

Fonte: JB News, nº 2332

P.S.: Os homens mudaram. Os maçons também. A sua vida e o seu mundo mudam quando você muda. A sua escolha se faz num “universo” bem adulterado. São poucos os que trazem riso no rosto e preces nos lábios.

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O Simbolismo da Roda – Capítulo 4 (2ª Parte)

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O conhecimento de “outro tempo” na verdade está incluído na ordenação ou iniciação hermética, que supõe a vivência direta de uma cosmogonia e a iniciação em seus mistérios. E só o quis trazer aqui para mostrar o influxo espiritual da tradição hermética, sob distintas formas, até nossos dias, no Ocidente. Inclusive o cristianismo oferece uma iniciação virtual por intermédio do sacramento do batismo, ou regeneração pelas águas, motivo pelo qual as pessoas interessadas neste tipo de temas aos quais estamos nos referindo, não têm necessidade de ir a tradições estranhas a sua, embora de maneira nenhuma devam desprezá-las, face à dificuldade que, algumas vezes, se tem de se identificar com elas[64]. A obra hermética se produz na interioridade do athanor (analogicamente, do templo do homem). O certo é que esta tradição propõe o conhecimento mediante o estudo da cosmogonia. Estudar as leis cosmogônicas não supõe a erudição literal, ou o cômputo de detalhes banais, que para estas disciplinas são coisas secundárias, se não às vezes entorpecedoras. Conhecer a cosmogonia supõe ser uno com ela. Estar vivo ou ter nascido no verdadeiro estado humano. Este fato assombroso inclui uma perda e um achado de identidade, uma morte e uma ressurreição, que se realizam inumeráveis vezes em vários anos, no athanor do alquimista, sua interioridade. E lhe dá também a matéria com o que seguir trabalhando neste processo alquímico, chamado também de iniciação no caminho do conhecimento e da vida real.

O alquimista e o astrólogo trabalham sozinhos. Assim se os pode ver em numerosas gravuras da iconografia hermética. Ou estudando, meditando ou orando, quando não absortos na contemplação de seus achados[65].

Conhecer uma cosmogonia significa viver a mandala tridimensional do cosmos. Compreender a revelação de um universo e suas leis, absolutamente diferente do que foi ensinado. Onde os valores são tão outros, que unicamente podem ser recebidos por meio de uma total conversão psicológica. Este processo necessita de uma ordem e de um trabalho. Não só tem enormes riscos de separação de muitos tipos (os quais, geralmente, são parte do processo), mas sim pode resultar quase impossível de realizar, por indefinidos motivos. Diz-se que é difícil, mas não impossível. No caminho podem ficar, entre outras coisas, a saúde, a fama e a honra, quer dizer, toda segurança. Mas a recompensa é a identidade, o conhecimento, o ser. O aprendiz de alquimista está disposto à realização espiritual, que inclui o conhecimento vivo das leis do cosmos, em definitivo, o conhecimento de si mesmo, e da realidade, da ordem, da vida. Receberá, pois, o que desejou, sempre que seu trabalho for paciente e sacrificado[66] e passe pelas provas dos heróis mitológicos. Deve levar seu trabalho hermético a todo nível em sua vida e sua cotidianidade, pois se trata da recuperação da luz – a lucidez -, utilizando o emotivo fogo do sangue. O estudo das disciplinas herméticas e dos textos mágicos, alternar-se-á com a constante meditação e o trabalho interno, sagrado, e se surpreenderá então de ver-se cada vez mais estrangeiro no mundo das causas e efeitos[67]. Esse espaço interno poderá albergar as estruturas com as quais construir um novo cosmos, ou melhor, descobri-las-á em si mesmo e manifestando-se em qualquer parte. Poderá então viver de manhã até a noite – e em suas próprias horas de repouso – um novo mundo, cada vez mais assombroso, cuja característica é a riqueza e também o esplendor. Sendo tanto o que tem nas mãos, tem que tomar consciência então de sua responsabilidade com respeito a si, e advertir que não foi por seu mérito, nem um descobrimento próprio, o obtido, senão que simplesmente isso é assim, e que, além disso, não lhe pertence. E, mais ainda, reconhecerá que sua personalidade, tal qual imaginava, não existe. Deve então procurar dirigir-se com as estratégias próprias das artes marciais e equilibrar constantemente o percurso de seu caminho, o manejo de seu veículo. Esta arte requer uma manipulação delicada e é provável que se aprenda à força; ao menos se trata de uma ciência de fortes contrastes. Mas, perseverando até o fim, conseguirá viver em uma mandala viva, espelho do cosmos, onde toda coisa tem significado, nas tensões e matizes próprios da harmonia e da ordem do criado, e de seu sustento invisível e arquetípico. Terá conhecido a cosmogonia e, assim, o batismo lunar de João, de água (da ciência do esquadro), e terá recebido o batismo solar de Jesus, de fogo (da ciência do compasso), e quando tiver culminado este último processo, então se poderá dizer que compreendeu a essência da terra e do céu, o que é simultâneo com sua chegada ao centro e equivale a estar já preparado para começar sua ascensão vertical, pois finalizou com os mistérios menores.

Trata-se, pois, de um caminho mágico, onde os próprios veículos são reveladores[68]. E quando nos referimos ao termo magia, não estamos falando de nada de menor grau, onde os sempre mesquinhos interesses pessoais estão em jogo e a mera individualização fenomênica é valorizada de acordo a patrões modernos e materializados. Referimo-nos a algo muitíssimo mais sutil e poderoso: a autêntica estrutura invisível do espaço e do tempo, intuída diretamente, que não é já algo exterior ou alheio a nós mesmos e ao todo. Entre outras razões, diz-se que o pensamento analógico é mágico, porque as associações e correspondências que ele provoca nos ensinam a pensar, fazem-nos saber do que se trata a obscura lembrança do conhecimento. E nos transforma em verdadeiros seres inteligentes, ao nos fazer partícipes da natureza de nossa identidade. Esta transformação psicológica, e a fenomenologia que lhe corresponde, é mágico-teúrgica. Por outra parte, existem sistemas iniciáticos especialmente desenhados para transmitir estas verdades do pensamento analógico. Estes métodos estão carregados com o influxo espiritual de quem os tem trazido à luz e com a energia de todos aqueles que meditaram neles. Para isso foram construídos – assim como qualquer texto revelador ou sagrado, que sem este fim não teria sido escrito – e se confia em seu poder simbólico e sintético, que nos manifesta a cosmogonia através de uma mandala – ou jogo de estruturas – para nos fazer partícipes dela, utilizando códigos e símbolos como a árvore da vida sefirótica ou o jogo do Tarot.

Desta maneira, transmite-se a energia espiritual da revelação, e a pessoa que está em condições de compreender poderá ouvir as vozes e o chamado da Tradição e efetivar sua iniciação, quer dizer, começar o caminho do conhecimento. Para esse, então, certamente a maioria dos candidatos conheceram bastante o mundo que os rodeia, e de uma ou outra maneira, desiludiram-se dele; hão aprofundado com relação ao que a sociedade atual pode lhes oferecer como atrativo, sobretudo no que toca o plano da realização do autêntico ser. Ou seja, que efetuaram um trabalho de depuração e seleção com respeito a si mesmos, e essa busca os trouxe para os temas da tradição hermética, que quase nunca se encontram de forma casual. A partir de um momento determinado – para o qual terá que estar preparado internamente – produz-se o começo efetivo do processo de conhecimento. As provas iniciáticas são posteriores a esse ponto e as assimila ao passar pelo labirinto. As dificuldades que cada aspirante tenha encontrado até o momento da iniciação, devem ser tomadas apenas como circunstâncias preparatórias, por graves ou significativas que sejam.

Assim, articula-se um processo que, transposto ao plano do temporal, tem que ser visto necessariamente como sucessivo e gradual, e que compreende o conhecimento de sete, nove, ou mais estágios[69], segundo as diferentes tradições, e que se simbolizam em forma de pirâmide no espaço, ou, no plano, com a espiral – ou a dupla espiral – ou com um jogo de círculos concêntricos (uns dentro dos outros), que podem sintetizar-se em três grandes círculos ou níveis, correspondentes aos graus de aprendiz, companheiro e mestre, e aos subgraus que houver entre um e outro destes estágios.

Estas coisas são bem singelas de compreender, embora nem tanto de experimentar honestamente, motivo pelo qual [grande] quantidade de pessoas não têm feito senão confundir-se e confundir a respeito, amparando-se na ignorância de outros, constituindo-se em verdadeiros impedimentos da iniciação dos puros[70], fazendo-se desta maneira cúmplices de forças muito obscuras, que não nos atrevemos a qualificar, mas que podem formar parte deste processo e também truncá-lo definitivamente. Referimo-nos expressamente àqueles que negam a possibilidade da encarnação do conhecimento, através de um desenvolvimento, e repudiam desse modo a divindade do Cristo interno, contra a unânime opinião das tradições. São essas mesmas pessoas as que, ao não se sentirem qualificadas para essa empresa, permitem-se julgar os outros de acordo ao achatamento e mediocridade de seus padrões, motivo pelo qual se condenam a suas próprias limitações, sem que por isso seu desejo de danificar, e de fazer o mal, seja menos notório. Coisa curiosa, este tipo de seres é moralista e certas vezes pretende conhecer algo do processo iniciático. São inimigos tão embuçados como pueris, que pensam que a iniciação é uma cerimônia física, onde um extraterrestre impõe as mãos sobre um pobre ignorante e este se transforma imediatamente em superman. A iniciação seria, para estas pessoas, um diploma devidamente certificado e garantido por uma religião oficial, um prêmio por boa conduta e pontualidade, uma gratificação outorgada ao mérito. Tenhamos muito cuidado com os que “sabem” a respeito da doutrina, o mistério e a iniciação, falsos doutores da lei que condenam o processo de amor e paixão cristã. Esta gente está acostumada ser a mesma que aqueles outros obscuros sacristões de vocação, que pretendem ser “bons” e “piedosos”, pela bondade e a piedade mesm0[71] fazendo verdadeiras competições para medir quem é o melhor e o maior dentre eles, enchendo-se todos de uma satisfação soberba, úmida e perigosa. Estes personagens, insignificantes em si, podem fazer grave dano, repeti-lo-emos, legalizando-se depois de uma ortodoxia mentida e uma localização e um conhecimento falsos; e o aspirante deve saber que são inimigos de sua evolução espiritual, aos quais tem necessariamente que vencer, no plano das ideias, porque é provável que sejam parte das provas de seu percurso e não só pessoas inocentes e equivocadas.

Do mesmo modo, há outra espécie que pode encontrar-se com o passar do processo e que, junto com a anterior, constitui um bloco muito marcado, que tem em comum com ela o fingimento, embora o aprendiz tem que saber que inumeráveis perigos lhe aguardam em forma de muitos personagens, que não são senão a projeção externa e social de seus egos internos. Trata-se, neste caso, daqueles que entendem que dominar as paixões é as ocultar[72]. Além disso, sempre com segunda intenção, intimamente associada com o poder. E não se permitem a menor demonstração de suas emoções, procedendo com a “habilidade” dos jogadores de pôquer, de gente com “guelra”, que atuam com “sangue-frio”[73].

Com muitos conceitos acontece o mesmo que com estes personagens, ou egos, e são autênticos riscos. Sem ir mais longe, com toda a terminologia atualmente em uso, que corresponde a uma leitura literal e materializada das palavras e dos termos, com respeito ao sentido com que foram concebidos. Esta confusão, este impedimento, não é um fato isolado, mas sim, pelo contrário, constitui uma amostra da degradação cultural geral da sociedade moderna, cujo chefe, é necessário nomeá-lo, é o príncipe deste mundo, que, como tão bem já se disse, não só é um monstro do mal e da falsidade, mas também, por sobre todas as coisas, é um autêntico estúpido e um mentiroso. Personagem que todos levamos dentro e que nos faz nos vender constantemente por um prato de lentilhas.

Portanto, nada tem de irregular um processo iniciático que se realiza por meio dos ensinos, instrutores e mestres da tradição hermética – como tampouco outro que se efetue pela judaica, cristã, ou islâmica – e que se desenvolve de forma normal, face às dificuldades, insipidezes e paradoxos de todo tipo, próprias desta via mágico-teúrgica – em que se trabalha quase sempre solitariamente -, embora sua realização se produza em um meio tão irregular como o mundo moderno. E é necessário advertir as pessoas a quem lhes começa a acontecer certos fatos referentes à abertura de sua consciência e lhes dá vontade de compartilhá-los, que devem tomar cuidado, porque estas coisas são perigosas. Mas também, poderão sentir-se suficientemente seguras para vivê-los com outros, ou outro, entre os quais se encontrará o Espírito, conforme se diz nos evangelhos. Igualmente, afirma-se que: “procurem e encontrarão”, e, do mesmo modo, um adágio hermético assegura que: “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”. Este último, se a atitude é adequada, surgirá de todas maneiras. É conveniente esclarecer, por um lado, que ninguém pode adicionar um só côvado a sua estatura, motivo pelo qual tem que chegar até onde pode e deve, no percurso da vida e o conhecimento. Por outro, que ao aspirante, apesar de seus múltiplos méritos, tudo lhe foi ou lhe será ensinado. Que nenhum homem pode nem poderá conhecer estes segredos, nem os descobrir por si mesmo, se não for por revelação e por sua participação em uma cadeia iniciática, com a qual se enlace. A via que aqui se propõe é a simbólica da tradição hermética e sua relação com a simbólica e com a mitologia universal. Onde um símbolo ou mito não resulta claro, em tal ou qual contexto, busca-se a analogia correspondente nesta ou naquela tradição. As transposições e relações que se efetuam com os símbolos constituem grande parte do trabalho hermético. Um símbolo chinês, ou pré-colombiano, pode iluminar imediatamente um símbolo europeu e desta maneira constituir-se em parte integrante de um jogo de relações, de ideias, que se não fosse por sua participação, não poderiam se efetuar. Deve se recordar, uma vez mais, a energia-força atribuída aos símbolos em geral e aos da tradição hermética – neste caso em particular – e a sua irradiação mágico-teúrgica. Também deve se prestar atenção completa aos textos dos sábios, hierofantes e magos, que atuam de uma maneira especial, entre quem é capaz de recebê-los, e os conduzem ao jardim do paraíso, ou estado adâmico, restituindo-os ao andrógino original. Em todo caso, devemos assinalar, para finalizar, que certamente é muito benéfico o transitar especificamente uma tradição religiosa determinada, e praticar o rito esotérico correspondente. Mas de maneira nenhuma é imprescindível, pois os mistérios da tradição hermética – que não é religiosa – e a iniciação nos mesmos, não só constituem o patrimônio vivo do Ocidente, mas também, acaso, sua razão de ser, como um gesto, ou uma cor, no espectro da história humana.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

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Notas

[64] – Atualmente não é difícil conectar-se com membros ou representantes de tradições orientais, seja viajando para eles ou assistindo a cursos e ritos em distintas cidades europeias ou americanas. Especialmente mestres taoistas e zen budistas, assim como lamas do budismo mahayana. Igualmente existem no Ocidente tarîqahs islâmicas, entre as que podemos citar, em cidades de língua castelhana, a de Granada (Espanha) e Buenos Aires (Argentina) A tradição hindu é, desgraçadamente, a vítima mais notória de todo tipo de fraudes. Onde isto é mais evidente, é na própria a Índia, e até em cidades sagradas como Varanasi, Rischikesh e Harivard. Estes mesmos perigos existem dentro da Tradição Pré-colombiana, ou melhor, entre alguns que pretendem conhecê-la ou até representá-la, o que não é o caso, é obvio, de seus autênticos chefes, mestres, ou de seus curandeiros [NT: original “medicine men“].

[65] – A contemplação pode-se vincular, em maior grau, com a energia celeste, enquanto que a ação pode-se conectar, mais diretamente, com o terrestre.

[66] – No sentido de sacrum-facere.

[67] – Interessa destacar a força energética da oração, seu poder de concentração imediato, a necessidade da invocação incessante dos nomes divinos, sua repetida lembrança, sua memória trazida constantemente ao sempre Presente.

[68] – Recordar os numerosos cavalos mágicos, ou que falam, das distintas tradições e folclores.

[69] – Na tradição hermética soem tomar-se às vezes como dez a estes graus, sendo os sete primeiros os de construção do ser ou templo interno, o oitavo de passagem, o nono de conclusão da Obra, e o décimo, o de coroação da mesma ou virtual saída do cosmos ou da perspectiva espaço-temporal simplesmente humana, que se foi modificando pouco a pouco com o passar do processo.

[70] – Os puros, os não compostos nem duplos. Os valentes e generosos aspirantes ao conhecimento. Nenhuma relação com as piedosas “filhas da Maria”.

[71] – Como os que desejam ser ascéticos ou estoicos, pela ascética e o estoicismo como fins, e não como simples veículos ou meios, que aparecem no caminho. Uma vez mais se faz de algo relativo, algo absoluto.

[72] – Em lugar de utilizar esse fogo e domesticá-lo, de tal maneira que facilite a transmutação.

[73] – São os meninos maus do passeio, ou aqueles que já “sabem” ou que confundem sua megalomania com a verdade. Seu esporte é a constante manipulação.

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Incenso e Altar dos Perfumes no REAA

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Um irmão escreveu a Pedro Juk a seguinte questão:

Estimado Pedro Juk, surgiu-me uma dúvida quando estava lendo o Informativo JB News de número 1359, onde outro irmão pergunta sobre o uso do incenso em Loja. O Irmão respondeu que não está previsto o uso do incenso no REAA, sendo portanto proibido. Foi ai que surgiu a minha dúvida. Para que serviria o Altar dos Perfumes que fica no Oriente? Ao meu entender seria para colocar uns incensos, umas essências para perfumar a Loja. Não fazer uma cerimônia de incensação, mas apenas deixar um incenso perfumando a Loja. Pode por gentileza sanar essa minha dúvida.

Considerações

Pois é meu Irmão, esse Altar no simbolismo do Rito não serve realmente para nada. Existem três possibilidades de o mesmo ter permanecido no Oriente da Loja sem qualquer utilidade.

A primeira possibilidade talvez tenha sido quando das já extintas Lojas Capitulares, cujas particularidades do mobiliário e decoração se distinguiam do simbolismo.

Houve tempo, já no século XIX, que essas Lojas Capitulares englobavam no Grande Oriente da França e os seus seguidores também o simbolismo, isto é: do primeiro Grau até o décimo oitavo Grau. Quando esse sistema foi extinto, ficando apenas o simbolismo com o Grande Oriente e os demais com o Supremo Conselho, algumas particularidades capitulares acabariam por permanecer no básico maçônico (três primeiros graus), como é o caso do Oriente elevado e da balaustrada.

Assim existe a possibilidade de que o Altar dos Perfumes tenha sido também um elemento do outro sistema (o capitular) que acabara permanecendo onde não deveria ter sido conservada.

Já a segunda possibilidade está na cerimônia de Sagração do Templo, cujo costume acabou se generalizando no Brasil com uma mesma ritualística através de um mesmo ritual especial e específico por Obediência para todos os ritos nela praticados, inclusive inserindo caracteres desconhecidos para alguns sistemas ritualísticos. Daí talvez dessa cerimônia de Sagração, onde é pertinente o uso desse Altar apenas na oportunidade em que o Templo é consagrado já que a Sagração de um Templo se faz tão-somente uma só vez, acabaria permanecendo esse móvel no Oriente da Loja simbólica escocesa, porém sem apresentar qualquer significado, já que os seus rituais simbólicos (Aprendiz, Companheiro e Mestre) não preveem com ele qualquer prática ritualística.

Quanto à última possibilidade, que eu particularmente entendo como bastante provável, é a do simples “enxerto” no escocesismo simbólico de uma cerimônia de incensação, cuja característica e tradição pertencem a outro rito.

Como o Rito Escocês tem sido tratado como uma verdadeira “colcha de retalhos”, nada mais comum que certos rituais equivocados e ultrapassados tenham por seus autores associado uma cerimônia de incensação com seus turíbulos e incensos e, obviamente não podendo faltar o Altar dos Perfumes.

Deste modo, em se tratando do simbolismo escocês, como esse Altar só é usado na consagração do espaço, não demoraria muito a aparecer a invenção do tal acendimento de incenso na Loja. Destarte, unindo o útil ao agradável, apareceria o elemento fumígeno com o seu respectivo suporte de apoio – o Altar.

Daí também inventar-se-ia até a tal “chama votiva” que deveria ficar acesa sobre o dito altar em alusão à presença do “Criador”, como se já não existisse o Delta que é um dos mais importantes símbolos que relembra a presença da “Divindade”, seja ela de concepção teísta, ou deísta.

Como pelo exposto no Rito Escocês tradicionalmente não existem esses procedimentos, os atuais rituais simbólicos do GOB não mencionam qualquer prática litúrgica que envolva o Altar dos Perfumes e outras ações dele derivadas, contudo o dito ainda equivocadamente permanece identificado como mobiliário na planta do Templo.

O ideal seria mesmo suprimi-lo no rito em questão, senão a sua presença acabaria dando margem, por exemplo, ao juízo como aquele emanado pela vossa respeitável pessoa: “Ao meu entender seria para colocar uns incensos, umas essências para perfumar a Loja. Não fazer uma cerimônia de incensação, mais apenas deixar um incenso perfumando a Loja”.

O ideal seria mesmo suprimi-lo no rito em questão, senão a sua presença acabaria dando margem, por exemplo, ao juízo como aquele emanado pela vossa respeitável pessoa: “Ao meu entender seria para colocar uns incensos, umas essências para perfumar a Loja. Não fazer uma cerimônia de incensação, mais apenas deixar um incenso perfumando a Loja”.

Autor: Pedro Juk

Fonte: JB News, nº 1463

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O Abrasivo que Afia o Cinzel

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A gigantesca e verdadeira obra da Maçonaria é propiciar ao seu iniciado um lugar adequado para a modificação da personalidade, a moderação de paixões e desejos e o desenvolvimento de virtudes; numa escalada que inicia numa operação denominada: desbastar a pedra bruta.

Esta atividade consiste no trabalho, básico e rústico, de arrancar da pedra, arestas, deformidades e protuberâncias, de modo que ela possa vir a adaptar-se ao seu lugar reservado numa importante construção.

Traduzindo, significa: o aprendiz recebe instrução, é dotado de ferramentas, de conhecimentos elementares, é assistido por método e simbologia próprios que, manipulados por seu intelecto, culminam em desenvolver suas capacidades racionais, intelectuais, lógicas e filosóficas nos assuntos da Maçonaria.

E estas, por sua vez, o auxiliam a subir uma escada que parte de um ambiente onde domina a matéria, e o eleva até um estágio onde ocorre a predominância do espírito sobre a matéria.

O interessante é que, o potencial adquirido com o uso da sua própria intelectualidade, dependendo de suas raízes culturais, não o precipita na geração de dogmas que possam torná-lo fanático; ao contrário, o treinamento o leva ao suave equilíbrio entre racionalidade e espiritualidade.

Gradativamente, o processo “abre portas inefáveis” até então invisíveis. Sua sensibilidade lhe revela, a cada reunião, no templo especialmente preparado para o seu desenvolvimento pessoal, onde, sob efeito de sons e incenso, ocorre sua integração com a força do maçom, um campo energético gerado pelo seu grupo de companheiros.

A vida mística e profunda da essência dos símbolos vai gradativamente revelando o que até então não enxergava. Desvelando apenas uma parte onde ele mesmo é material de construção, uma pedra que depois de trabalhada, constituirá parte integrante do grande templo moral da humanidade.

Dentre as ferramentas de trabalho do aprendiz estão o maço e o inseparável cinzel que desbastam a pedra bruta, ele mesmo. O cinzel representa o intelecto e ambos concorrem para o mesmo objetivo. É exemplo de dualismo construtivo, eficaz e positivo.

O cinzel é o símbolo do trabalho inteligente. Seguro pela mão esquerda corresponde ao aspecto passivo da consciência, à penetração, à receptividade intelectual, ao discernimento especulativo, indispensável para descobrir as protuberâncias ou falhas da personalidade. Serve de intermediário entre o homem e a natureza. Sozinho seu uso é quase nulo. Sem a ajuda do maço ele não produz muita coisa, exige participação da outra ferramenta. Assemelhado com a razão humana que, isolada, nada constrói. O cinzel carece da parte operativa, ação, força e trabalho do maço.

A lógica representada pelo cinzel torna o aprendiz independente, sem torná-lo mesquinho. Sem sua intervenção, o resultado do trabalho seria inútil, senão perigoso. A sua falta representa as soluções aprisionadas no espírito. Além de ser emblema da escultura, arquitetura e belas artes, é também a imagem da causticidade dos argumentos que permite destruir os sofismas do erro.

O cinzel é usado para o trabalho mais bruto, no alicerce de uma construção. Um trabalho básico. É o aço aplicado sobre a pedra, ambos duros, mas, a dureza do cinzel é maior, ademais, está afiado, daí sua capacidade de penetração, de corte das asperezas. Com ele corta-se fora o que o homem tem de feroz, levando-o a uma condição mais elevada diante da natureza e aproximando-o do conceito de Grande Arquiteto do Universo.

A Terra seria um deserto se os seres humanos deixassem de fazer por polidez o que são incapazes de fazer por amor, e seria quase perfeito, se cada um conseguisse fazer por amor o que só faz por polidez; isto porque, ela faz a pessoa parecer por fora, como deveria ser por dentro.

Quem não for bastante delicado e cortês não pode ser muito bom.

Cerimônias são diferentes em cada país, mas a verdadeira cortesia é igual em todos os lugares.

Assim como a cera, naturalmente dura e rígida, torna-se, com um pouco de calor, tão moldável que se pode levá-la a tomar a forma que se desejar. Também se pode, com um pouco de cortesia e amabilidade, conquistar os obstinados e os hostis.

Partindo do princípio de que uma virtude não é natural, mas uma qualidade desenvolvida ao longo do crescimento individual, do ponto de vista moral, a polidez é uma virtude. Como exemplo: o que acorreria com as quatro virtudes cardeais: justiça, prudência, temperança e coragem, se o indivíduo não é polido ou destituído de qualquer educação ou cortesia? Seriam inúteis!

Sem a educação e o respeito não há como desenvolver virtudes. E como a polidez é algo de aparente pouca importância, é neste “quase nada” que reside seu mérito. Ela pode ser definida como o caráter ou a qualidade do que é polido, da fina educação, da gentileza.

É também uma forma do discurso que indica cortesia e civilidade daquele que fala. Ao que se esforça no uso de expressões que atenuem o tom autoritário, do imperativo e outras fórmulas de etiqueta linguística.

Adicionalmente, designa o indivíduo que possui grandes virtudes e elevada cultura e conhecimento em determinadas áreas do saber.

Na luta para obter maior controle do espírito sobre a matéria, a polidez lustra o coração, de modo que revele o não visto. Sua transparência é proporcional ao quanto foi polido.

Para quem mais poliu sua sensibilidade manifestam-se mais formas invisíveis e revelam-se verdades para as quais a mais sofisticada racionalidade é impotente.

E o cinzel deve ser afiado continuamente, permanentemente, exigindo constante aporte de novos conhecimentos, para não embotar. É a Polidez, o conhecimento aprofundado de temas da vida que o afia. Afiar o cinzel significa receber fina educação, ser cortês e atencioso. E estas são atividades nas quais denodadamente deve-se investir com força, com a ação do maço, e gradativamente ir galgando a escada que leva à perfeição que pertence ao Grande Arquiteto do Universo.

Autor: Charles Evaldo Boller

Bibliografia

CAMINO, Rizzardo da, Dicionário Maçônico, ISBN 85-7374-251-8, primeira edição, Madras Editora limitada., 413 páginas, São Paulo, 2001;

Paraná, Grande Loja do, Ritual do Grau de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito, terceira edição, Grande Loja do Paraná, 98 páginas, Curitiba, 2001.

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Procura-se

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Procura-se um homem que luta para preservar e desenvolver os valores de seu templo interior. Esse homem é acusado de ser livre e de ter bons costumes, de gostar de aparar as arestas da imperfeição, de ser um incansável pesquisador da verdade. De procurar respeitar a humanidade, tolerando suas crenças diversas, mas sempre obstinado em palmilhar a senda espiritual que conduz à luz maior que é Deus, o Grande Arquiteto do Universo.

Esse homem é apontado como elemento que incomoda aos que não dão aos outros o direito de pensar e que não permitem a ninguém tentar encontrar explicações inteligentes sobre o início da vida do homem, sobre a criação e o funcionamento desse universo fantástico, sobre como os homens devem amar-se uns aos outros, independentemente de raças, de posições sociais, etc. Tal homem combate ininterruptamente o ódio que ainda hoje provoca matanças de irmãos criados pelo mesmo Pai.

Outra acusação que pesa contra esse homem é a de procurar fazer feliz a humanidade. Já pensou um mundo totalmente feliz, sem desavenças, com todos se comportando como verdadeiros irmãos? Quem iria dominar quem e quem tiraria proveito político e financeiro disso? Muitos acham que isso é perigoso. Ainda mais: ele procura ser sempre participativo, presente na explosão da alegria e mais presente ainda no tormento da dor de seus semelhantes.

Além disso, junta-se à legião dos que combatem a ignorância, a injustiça, as trevas, a escravidão, a intolerância, e procura sempre conquistar homens de boa formação moral, cultural e espiritual que poderão vir a ser pedreiros-livres, os quais, em breve, aprenderão a construir o seu templo interior, a mais nobre edificação que o homem pode erigir em honra ao Grande Arquiteto do Universo.

Também é acusado de haver descoberto o amor e de procurar mostrar aos outros essa maravilha que Deus colocou à nossa disposição. Isso é imperdoável para os que odeiam. Amar a todos, a começar de seus pais, de seus irmãos, de sua esposa e de seus filhos, de seus amigos e de seus colegas, de seus semelhantes. Vejam só!

Fala-se que ele acredita em Deus e que usa a denominação Grande Arquiteto do Universo para não ofender aos que conhecem o Pai Celestial como Jeová, Viracocha, Btahma, Alá, Odin, etc., e que se tornam seus irmãos. Comenta-se que ele não acredita em um Deus vingativo, mal humorado e que fala sempre em um Deus de amor, de esperança e de compaixão.

Acredita naquele Criador de que nos fala o filósofo Benedictus de Spinoza, a quem devemos procurar não por medo de castigos ou para pleitear favores, mas tão somente porque Ele é a única opção válida com que contamos no caminho evolutivo. Um Deus que jamais considera uns salvos e outros pecadores, mas que ama indistintamente a todos nós que Ele criou. Esse Deus deve ser propagado?

Esse homem é tido como avesso às vaidades humanas ligadas a distinções características do lado exterior do seu ser e que não irão acompanhar o seu espírito quando ele for chamado ao Oriente Eterno. Propaga-se que ele é um grande sonhador, pretendendo combater o vício com a virtude e que é um defensor intransigente do Direito, da Justiça e da Verdade e que aconselha todos a manterem o bom humor, característica que facilita muito o desenvolvimento espiritual. É apaixonado pela liberdade, mas sabe cumprir seu dever. Por isso entusiasma-se com o grande jurisconsulto que foi Cícero: Sou livre porque sou escravo da lei.

Outra coisa: vive falando em usar a consciência e a razão. Fala que só quem vive em paz consigo é capaz de viver em paz com os outros. Sobre a tão conhecida Escada de Jacó, que simboliza o caminho percorrido pelos anjos para contato com os mortais, esse homem acredita que tal escada sugere-nos que o topo da caminhada está muito além do patamar que nos é visível, significando que não será apenas subindo alguns degraus perceptíveis no estágio em que nos encontramos que iremos alcançar a perfeição.

Quando alguém é proposto para entrar em sua instituição, exige que a vida do candidato, passada e presente, seja levantada com zelo e cuidado; procura descobrir se o candidato gostará de passar por uma verdadeira metanoia, que é uma alteração dos sentimentos, atingindo um novo estado de consciência que o tornará um autêntico obreiro da paz, do amor, da solidariedade. Julga-se membro de uma corrente espiritual do Terceiro Milênio desejosa de fazer todos felizes. Chama os conflitos armados de estupidez da guerra. Entende que ser livre não é mudar de senhor, mas deixar de ser escravo; é manter uma vontade firme de eliminar a preguiça de trabalhar ou de procurar a verdade; que se considera livre, mas não se esquece da lei da física “ação e reação”, que pode ser aplicada também aos seres humanos.

Diz ele que a vida é como uma orquestra: cada músico toca um instrumento diferente, com tons e compassos estabelecidos para cada um, com notas próprias, etc., com marcação do momento em que cada músico atua, dentro de uma cultivada harmonia que torna agradável e benfazejo o resultado de tais diferenças. E que, quando a humanidade agir como uma orquestra, regida por maestros responsáveis e conhecedores da real harmonia, não haverá mais fome, nem doentes desamparados, nem gente morando nas ruas, nem violência, nem donos da verdade.

Apregoa como muito útil a repetição dos ensinamentos de homens abençoados que pertenceram a religiões diversas, que nos ensinaram a dirigirmo-nos a Deus, como recomenda Gibran Khalil Gibran: “Nada Te podemos pedir, pois Tu conheces nossas necessidades antes mesmo que elas nasçam em nós.” Acredita que Joel Goldsmith está certo: “Quando pararmos de pedir coisas a Deus, receberemos o maior dos presentes: Deus mesmo!” Está sempre aconselhando-nos a não vivermos na sombra para que, um dia, não venhamos a ter medo da luz.

Se você encontrar esse homem, procure ficar perto dele e sentir a energia positiva que ele irradia. Sinta a sua doçura no falar. Sinta-lhe a vontade de ser útil, a sua disposição de fazer. Esse homem é um maçom! Agradeça-lhe por tudo o que os maçons já fizeram pela humanidade em tempos diferentes e difíceis, em países diversos, escrevendo gloriosas páginas da conquista da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Agradeça-lhe, sobretudo, pelo o que os maçons vêm procurando realizar em benefício do ser humano, até em favor daqueles que os agridem torpemente.

Procure tratá-lo com carinho e respeito. Ele sonha em poder garantir sua felicidade. O maçom dirige sua oração ao Grande Arquiteto do Universo sabendo que ela não lhe desagrada os ouvidos nem o coração:

“Sou livre e honro o Criador, amando a criatura. Faço isso livremente porque desejo viver um dia na luz plena, onde não haverá dúvidas e nem amarguras e onde todos serão verdadeiramente irmãos; e bendirei todas as ações que desenvolvi, contribuindo para que nosso Templo fosse sempre um reflexo da ordem e da beleza que resplandecem no trono do Grande Arquiteto do Universo.”

O pedreiro-livre encontra na Maçonaria uma floração mística da alma, apoiada na razão. Quem vem apenas buscar, perde. Ela nos faz entender que o trabalho é um hino de amor à vida. Só ele nos capacita a receber o maravilhoso salário de bençãos com que o Altíssimo nos recompensa. E a maior das bençãos é a própria vida. Esta permiti-nos experimentar e aprender, orientando o corpo para que fique mais fácil para o espírito acompanhar a senda visível que foi traçada pelas boas ações no campo material.

Antes de se entregar ao sono de cada noite o maçom agradece ao Grande Arquiteto do Universo por tudo que recebeu Dele durante o dia e pede-Lhe que abençoe e ilumine aqueles que o consideram um inimigo, a fim de que se tornem verdadeiramente seus amigos e seus irmãos e, de modo particular, àqueles que o fazem ou o fizeram sofrer, ajudando-lhe a lapidar o seu espírito.

“Aquele que tem a luz dentro de seu próprio peito, claro, pode sentar-se no centro e desfrutar de um dia brilhante; mas aquele que esconde uma alma obscura e pensamentos negativos, ainda incomodado pela luz do meio-dia, ele próprio é sua masmorra.” (John Milton)

Autor: Pedro Campos de Miranda

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O Simbolismo da Roda – Capítulo 4 (1ª Parte)

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A Tradição Hermética

A tradição hermética deriva de seu nome, nada menos que de Hermes, deus grego, o Mercúrio romano, e sobretudo do mítico Hermes Trismegisto, todos eles instrutores e educadores dos homens, mensageiros dos deuses, personagem que aparece em quase todas as tradições sob distintas formas, como emissário ou intermediário entre céu e terra, sempre vinculado com o que voa, por isso costuma-se representá-lo com atributos alados. Deste modo se o relaciona com audições, recepções e transmissões de mensagens. Quer dizer, com doutrina[54], ciência, sabedoria e revelação. A palavra tradição deve significar, de certa forma, o mesmo que o anterior[55], por isso a expressão “tradição hermética” possa parecer uma redundância, se não se quisesse destacar, pelo aditamento desta última palavra, uma nítida origem revelada -como também assinalar uma circunstância histórico-cultural referente, de modo específico, ao ocidente e às origens de sua civilização. Por outra parte, o termo que nos ocupa é também claro assim que indica uma via de conhecimento determinada, relacionada com os mistérios menores, chamados também mundo ou plano intermediário, no caminho iniciático, expressando, além disso, a ideia da escuridão e silêncio, inerentes a este caminho, referindo-se igualmente a sua natureza misteriosa.

A tradição hermética é, pois, uma forma da tradição unânime, universal e primitiva -adequada à roupagem histórica e à mentalidade de certos povos e certos seres- que se manifestou aqui e ali, conformando e organizando a cultura e a civilização. O deus Hermes é solidário com o Toth egípcio[56],posto que, como ele, representa sabedoria e interpretação hermenêutica, e virtudes de profecia, atribuídas também a Enoch e a Elias artista -patrono da alquimia-, arrebatados ambos ao céu em um carro de fogo (veículo francamente solar) e dos quais se diz que não estão mortos, mas sim vivos, como outros personagens análogos de distintas tradições, dos quais se aguarda sua segunda aparição ao fim dos tempos, assim como os cristãos esperam a parusia do mestre Jesus, rei dos judeus, Cristo Rei, que encarna em forma humana, para nos revelar a verdadeira vida: transmissão que o converte em salvador e redentor. Historicamente não é muito difícil de advertir que os mitos e símbolos esotéricos egípcios, judeus, greco-romanos, cristãos, árabes e mediterrâneos em geral conformam um conjunto que se pode relacionar diretamente com os povos ocidentais; e que esta influência espiritual, embora não tome formas religiosas, é indiscutivelmente válida pela pureza de sua origem, e pelo desenvolvimento concatenado de transmissão, protagonizado por sábios, profetas, guerreiros e “artistas”. Isto não exclui que o conjunto de ensinos ao que nos referimos seja perfeitamente solidário com outros de distintas épocas e latitudes, e até idêntico a eles, além dos disfarces formais. No caso particular que nos ocupa -o do emissário divino que reúne em si a possibilidade unificada do que repta e do que voa, da terra e do ar, que devem ser separados para complementar-se adequadamente através da paixão e do amor-, este fato é claro e probatório da unidade arquetípica de todas as tradições, já que esta oposição-conjunção acha-se manifestada em toda parte. O que nos interessa agora é destacar que as ciências e artes que foram chamadas de “tradição hermética” têm uma origem comum, que se manifestam historicamente ao longo da vida do Ocidente, e que se expressam por intermédio de uma série de disciplinas e trabalhos, mitos e símbolos, que constituem um código coerente, suscetível de ser transposto a todos os códigos e sistemas tradicionais, pois na verdade elas expressam e se propõem o mesmo: revelar um conhecimento oculto, permitindo desta maneira a conquista do verdadeiro estado humano, o ser original, que todo homem perdeu pela queda, e que o coloca em uma situação infra-humana com respeito a si mesmo, motivo pelo que tem que restaurar seu verdadeiro Eu, que se acha oculto em seu interior, tão somente vivo em forma potencial, e que deve atualizar, pela memória de si e a lembrança do arquétipo original, com fé e amor, graças à doutrina tradicional, conhecida neste caso com o nome de hermetismo. Que lhe permite RE-nascer[57] ao estado autenticamente humano, frente ao qual os estados inferiores[58] aparecem como sonhos, ou ensaios, ou projetos ilusórios, ou mera tolice, por não dizer estúpida vaidade.

Estas disciplinas, ou veículos, levam o aprendiz através do mundo intermediário e o colocam defronte ao tabernáculo, no coração do templo, no eixo, que igualmente comunica com a cripta ou caverna, o país subterrâneo dos mortos, ou melhor, no interior do sacrário, de onde poderá iniciar sua ascensão vertical, para a cúpula ou a sumidade, que simbolizam a saída do templo ou do corpo, o supracósmico ou o supra-humano. Faz tempo que recebeu as águas batismais. Inclusive já se liberou das provas do labirinto das formações. Convertido agora, pela comunhão solar, no Rei do Mundo, o aspirante poderá então ser absorvido inteiramente na função sacerdotal e escapar da cosmogonia, que lhe revelou, utilizando sua identificação com ela como um suporte vivo de transmutação inefável. Ofício de guerreiros e cavaleiros, também o é de sábios e artistas, quer dizer, de astrólogos e alquimistas, e inclui a mestria no conhecimento. Não pouco é este conhecimento, no caso da astrologia e da alquimia, disciplinas que conformam o hermetismo ou a tradição hermética -os mistérios menores da Antiguidade-, pois se referem respectivamente ao conhecimento do céu e da terra, constituindo ambas o saber da cosmogonia completa, a ciência dos ciclos e a ciência das transmutações: a “arquitetura” experimentada em forma direta[59].

Historicamente se pode detectar em numerosos pontos da cultura ocidental a aparição de correntes de ideias, crenças, sistemas e pontos de vista herméticos, quer dizer, esotéricos, dentro do exoterismo de tal ou qual período determinado. Se nos ativermos à cronologia cristã, estes acontecimentos ideológicos aparecem não só em determinados momentos históricos -conformando períodos inteiros, como na Idade Média europeia-, mas também constituem os antecedentes de certos personagens e fatos científicos, filosóficos, históricos, literários, e até a origem de todo um código, como no caso da astronomia e da matemática. Convém, pois, situar-se em algum segmento mais ou menos claro e computado do devir temporal e avaliar uma amostragem de acontecimentos culturais-históricos, a fim de ilustrar esta exposição, que não pretende ser um estudo histórico ou sociológico.

Podemos nos localizar então na Alexandria do século III de nossa era e observar a multidão de ideias, concepções e personagens, tradições e culturas -inclusive a hindu e a budista-, que confluem ali, constituindo uma verdadeira encruzilhada de caminhos, um ponto de concentração de uma série de energias análogas, vindas de várias e diferentes direções, as quais têm que conformar posteriormente as diversas facetas de nossa cultura. Naquelas datas e lugar podemos encontrar o cristianismo dos primeiros padres convivendo com o gnosticismo, ambos de origem oriental. [Podemos encontrar] o pensamento grego, em particular o neoplatonismo -que surge como uma constante ao longo da história do Ocidente- misturado com a tradição hebraica, e com os fragmentos de civilizações como a caldaica, a egípcia, as do Irã, e outras, algumas delas perdidas ou esquecidas por nós. Não tentaremos, tampouco, neste ensaio, dar uma visão mais ou menos clara destes fatos, nem sequer brindar com um panorama. Remetemos o leitor à numerosa bibliografia a respeito, obra de autênticos especialistas. Desde nosso ponto de vista, destacamos estas coordenadas espaço-temporais, como lugar de reunião e posterior expansão das ideias da Tradição Unânime, da filosofia perene e universal, da doutrina, que chegaram a nós com o nome de tradição hermética. É também muito interessante sublinhar que estas ideias, através dos séculos, mantiveram-se vivas até nossos dias. E não só sobreviveram simplesmente, mas também constituíram, e ainda constituem, a trama invisível de certos acontecimentos revivificadores da história do homem ocidental, sem a qual esta história, e este homem, teriam desaparecido já há muito tempo.

O andaime de ideias ao qual estamos nos referindo, há de permanecer mais ou menos incólume e ser considerado como a sabedoria sempre oculta e esquiva, mas presente na vida pública da cidade e do povo -como uma herança cultural imperecível-, até aproximadamente o século XVII. E seguirá constituindo a medula cultural da Europa. Mas, a partir de então os valores mais profundos, postos em crise pelo mal chamado “humanismo”, degradar-se-ão até a negação de toda possibilidade de tradição e doutrina, o desconhecimento de qualquer esoterismo, e a ignorância total referente ao que se entende por iniciação[60]. Passou-se, então, à profanação do sagrado e à dessacralização da vida e da realidade, por isso tudo começa a ser empírico e insignificante[61].

Não que não tenha ocorrido anteriormente -ou, inversamente, que na escuridão atual não exista a luz-, mas estamos nos referindo agora ao tom particular de um determinado ciclo. Este ciclo que tratamos, é, em termos gerais, o da cultura chamada ocidental. E está, como todo ciclo, encadeado a outro, que a sua vez o está a um terceiro, e assim sucessivamente. Mas isto não é tudo: cada ciclo é um fragmento de outro maior e cada uma de suas partes pode ser um ciclo completo em si, com seus sistemas de subciclos, e deste modo indefinidamente. Tudo são ciclos dentro de ciclos, e a história exemplifica -de maneira alarmante às vezes- esta complexidade tão sutil como emaranhada. Mas a doutrina aparece em cada um deles, de uma ou outra maneira, por momentos brilhando intensamente, em outros declinando, ou escondida na escuridão, no coração de uns poucos. A tradição hermética esteve presente no Ocidente desde suas origens históricas e ideológicas, manifestando-se através de distintos grupos, pessoas ou instituições. Não nos referimos exclusivamente à filosofia grega, Pitágoras e Platão[62], Plotino e Porfírio, Proclo, nem à soteriologia dos romanos (Virgílio, Apuleio), tampouco aos verdadeiros gnósticos, nem aos primeiros pais da Igreja, mas sim queremos destacar o enorme amontoado de hermetistas ocidentais cristãos e esoteristas judeus e islâmicos, que tanta influência tiveram sobre os construtores da Idade Média e entre alquimistas, rosa-cruzes e algumas ordens cavalheirescas de diferentes tipos, das quais deriva a Maçonaria, organização iniciática nascida historicamente no século XVIII, embora de origens muito mais antigas -inclusive míticas-, que felizmente permaneceu até a data, embora desgraçadamente seja quase desconhecida, até para os próprios integrantes de seus quadros, em razão da degradação cultural cíclica, que se dá em todas as ordens e lugares, cada vez mais progressiva e veloz, e que tem feito à verdade tão mais misteriosa e secreta, como se se tivesse retirado realmente ao interior de si mesma e se tivesse que procurá-la, ou tirarmo-nos os véus psicológicos que nos ocultam isso de nós mesmos. Entretanto, a Maçonaria segue outorgando a iniciação em suas lojas maçônicas e esta é perfeitamente válida, dado que se trata da transmissão regular de uma influência espiritual. São muitas as lojas maçônicas que na Europa e América estão trabalhando muito seriamente e são muitos os adeptos que revitalizam os valores originários.

Com respeito ao ocidente moderno, podemos aceitar que as tradições religiosas que atualmente o conformam e que estão presentes em maior grau em sua cultura, são a judaica, a cristã e a islâmica, ou seja, denominadas as “do Livro”. O judaísmo tem em sua religião sua própria tradição e certos rabinos se dedicam à cabala, às relações entre letras, palavras e números, ao estudo, ao rito e à meditação. Quanto ao Islã, sua parte exotérica e seu esoterismo estão muito pouco diferenciados. Religião do deserto, é vivenciada de forma individual, e suas práticas, totalmente interiores, não precisam de imagens e nem de ritos complicados. O sufismo, é sabido, é a expressão do esoterismo islâmico. Quanto ao cristianismo, e mais especificamente ao catolicismo, diremos que muitos de seus membros pertenceram em diferentes épocas a ordens herméticas de esoterismo cristão. Papas, arcebispos, bispos, cardeais, singelos abades, ou párocos, ou humildes monges, encarnaram o conhecimento. E não só entre os doutores e os sábios da Igreja, mas também entre seu Santos e seus mártires, começando pelos apóstolos. Só nos bastará mencionar alguns nomes, dentro do esoterismo cristão, que provam a continuidade e a importância deste, não só quanto à Igreja como instituição e ao catolicismo como religião se refere, senão assim que representa historicamente as raízes mesmas do pensamento ocidental. Assim, por exemplo, deveríamos começar por Orígenes e os primeiros pais da Igreja, para continuar com o cristianismo ortodoxo do Oriente[63], falar do monaquismo na Irlanda, de São Bento e a constituição das diversas ordens de monges religiosos, para passar a São Bernardo, ao Císter e à cavalaria, mencionando nada menos que a Dionísio Areopagita no século V, e também a Santo Agostinho, para chegar a Alberto Magno, São Tomás de Aquino, e ao Mestre Eckhart. Neste ponto, é importante a aparição de um ambiente iniciático, o dos místicos de Munique, que foi para o Eckhart o mesmo que a ordem dos Fedeli d’Amore para Dante. Do mesmo modo, deveríamos nos recordar dos artistas medievais (Nicolas Flamel, Basílio Valentino, Bernardo Trevisano) e do hermetismo cabalístico cristão: Raimundo Llull, Nicolas de Cusa, Marsílio Ficino e Pico de la Mirandola. Também de Jacob Boehme, Cornelio Agripa, Francesco Zorzi; e dos magos elisabetanos, até Robert Fludd e os mencionados rosa-cruzes.

Desta maneira poderíamos percorrer os ciclos das histórias particulares -inscritos em outros mais amplos- e estabelecer as legítimas vinculações e as relações insuspeitadas de todo tipo, entre diversos acontecimentos sem conexão aparente, que nos fariam ver e conhecer outra história. E esse é o valor que na verdade tem a história dos personagens e dos povos, o de poder ser tomada como um código de sinais significativos ou significantes, como um discurso salpicado aqui e acolá de detalhes reveladores. Uma linguagem criptográfica, que poderia nos dar uma espécie de espectro ou panorama -de enquadramento no tempo-, no qual lêssemos como em um livro aberto, o livro da vida, cuja leitura tem que nos levar à imortalidade através do conhecimento dos ciclos universais, análogos aos ciclos dos homens.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

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Notas

[54] – Não confundir com a estreiteza e com o fanatismo do dogmático.

[55] – Do latim tradere: transmitir.

[56] – A quem miticamente costuma-se atribuir a paternidade do código do Tarot. A ave Íbis é um de seus símbolos.

[57] – CO-nhecer = CO-nascer [NT: conforme o original espanhol “CO-necer = CO-nacer”]. Em francês é mais evidente: CO-naitre

[58]Infernus

[59] – Pensamos que não deve associar os mistérios menores com o budismo hinayana e os maiores com o mahayana. O hinayana designa o pequeno veículo e significa a via que o adepto, ou o monge, efetua por si e para si. O mahayana ou grande senda, é a realização que não se produz “até que a última erva seja redimida”, quer dizer, a que se alcançaria conjuntamente com todos os seres sencientes. Esta diferença não cabe entre os mistérios menores e os maiores. Tampouco os mistérios menores correspondem ao que se convencionou chamar “a via úmida” e os maiores, à “via seca”. Nem que os primeiros sejam lunares e os segundos solares. Os mistérios menores correspondem à totalidade da obra alquímica e à astrologia e, portanto, à via lunar; e a solar, à obra em branco e à obra em vermelho, às pequenas e às grandes viagens. Nos mistérios maiores, a ideia da viagem, e ainda a de movimento, carecem de sentido.

[60] – Alguns tomam especificamente o ano 1492 como encruzilhada deste fenômeno histórico. Efetivamente, nessa época se unifica a Espanha católica, descobre-se a América e são expulsos os mouros e os judeus (e inclusive os ciganos) da península Ibérica. Este tema exigiria um longo desenvolvimento, que em alguma oportunidade tentaremos.

[61] – Além do mais deve-se dizer que esta degradação também afeta à Tradição Hermética, que em muitos casos se degenerou em paródias e instituições pseudo-espiritualistas, ocultistas, teosóficas e em toda espécie de fraternidades e confrarias que usurparam determinados conhecimentos, rebaixando-os à trivialidade de sua leitura literal. O mesmo acontece com os nomes e terminologias da autêntica tradição, com os quais se comercializa em forma descarada, quando não “filantrópica”.

[62] – “Quem é Platão?”, perguntamo-nos várias gerações de leitores.

[63] – Ainda existe o esoterismo dentro desta forma tradicional, e não exclusivamente localizado no monte Athos.

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A Importância da Maçonaria na Criação de um Estado Laico

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Introdução

O Maçom deve sempre depositar sua confiança em Deus, logo, não existe Maçom de verdade que seja ateu. Na constituição do reverendo James Anderson, que determina as regras universais da Maçonaria, chamadas de landmarks, consta um artigo específico sobre Deus e Religião.

Um Maçom é obrigado, por dever de ofí- cio, a obedecer a Lei Moral; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso. Muito embora em tempos antigos os Maçons fossem obrigados em cada País a adotar a religião daquele País ou nação, qualquer que ela fosse, hoje se pensa mais acertado somente obrigá-los a adotar aquela religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprios, isto é, serem homens bons e leais, ou homens de honra e honestidade, qualquer que seja a denominação ou convicção que os possam distinguir; por isso a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de conciliar uma verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância (ANDERSON, 2003).

A Constituição de Anderson foi publicada pela primeira vez no ano de 1723 em Londres, uma época de muita perseguição religiosa. Apesar disso, determina que o Maçom não deva aceitar de maneira imposta a religião do País, qualquer que seja, devendo guardar sua opinião para si mesmo. De maneira tímida, convenhamos, está o germe de uma grande ideia sonhada e conquistada pelos Maçons, a criação de um Estado laico.

Como não é religiosa, a Maçonaria aceita em seus quadros profanos oriundos de diversas religiões. Segundo Ismail (2012), quando se faz uma oração no altar da Franco-Maçonaria, estão presentes irmãos de diversas religiões, logo estão todos orando para o mesmo Deus. Está evidente que a Maçonaria considera que todas as religiões se originam de um Deus único. As diversas denominações religiosas não implicam deuses diferentes, apenas formas diferentes de conceber o mesmo Deus. Se eu sou espírita e o meu irmão é evangélico somos todos filhos do mesmo Pai, logo, somos irmãos.

Talvez tenha sido o seu caráter ecumênico que despertou por parte da cúria romana a intenção de coibir o crescimento da Maçonaria. Foi publicada em 1738 a encíclica In Eminenti Apostolatus Specula, pelo papa Clemente XII que proíbe a existência da Maçonaria. Segundo Durão (2011), foi o cardeal Néri Corsini, sobrinho do papa, que elaborou a encíclica, pois o Clemente XII já estava com 86 anos e cego. Contam historiadores que Corsini levava os documentos para a chancela de sua santidade e colocava a mão do pontífice no local da assinatura.

Em 1751, o sucessor de Clemente XII, o papa Bento XIV emitiu a bula Providas Romanorum Portificum enumerando seis razões para a condenação da Maçonaria. Dentre elas a que mais nos chama a atenção é “(…) nas tais sociedades e assembleias secretas, estão filiados indistintamente homens de todos os credos; daí ser evidente a resultante de um grande perigo para a pureza da religião católica;” (DURÃO, 2011).

É fato que a Maçonaria na sua fase operativa gozava de apoio e patrocínio da Igreja. Foram os ma- çons operativos os construtores das catedrais e Igrejas na Idade Média. Nossos antepassados estavam a serviço dos clérigos e eram portadores de salvo conduto para viajarem entre os feudos. A Maçonaria sempre conviveu harmoniosamente com os dirigentes religiosos (judeus, católicos, maometanos, protestantes) da fase operativa até o início da fase especulativa. A situação de conflito da Igreja com a Maçonaria persistiu com os papas Pio VII (em 1800), Leão XII (em 1823), Pio VIII (em 1829), etc. Várias bulas e encí- clicas reafirmaram a condenação da Maçonaria ao longo dos séculos XIX e XX. Em 1983 a Congregação para a Doutrina da Fé, sob direção do então Cardeal Ratzinger manteve o parecer negativo a respeito da Maçonaria, sendo chancelado pelo papa João Paulo II. (DURÃO, 2011)

Com o papa Paulo VI a postura do Vaticano relaxou consideravelmente e o católico tinha permissão para se tornar Maçom, desde que não se envolvesse em atividades anticlericais. Um arcebispo brasileiro, Cardeal Avelar Brandão Vilela chegou a celebrar uma missa especial em homenagem ao 40º aniversário da Loja Maçônica Liberdade, de Salvador, no Natal de 1975. Naquela oportunidade, o Cardeal foi agraciado com distinta honraria maçônica. (Cerinotti, 2004)

Atuação Maçônica: Liberdade e Religião

Quase todos os iluministas franceses eram maçons, incluindo Voltaire (1694-1778), Diderot (1713-1784) e Condorcet (1743-1794). Eles mantinham estreito contato com Benjamin Franklin (1706- 1790), também maçom. Outros dos chamados pais fundadores dos Estados Unidos da América, George Washington (1732-1799) e Thomas Jefferson (1743- 1823) igualmente eram maçons. A ideia e implementação do Estado laico veio de maçons. Foi Washington que presidiu à convenção que elaborou a Constituição Americana, a qual veio substituir os Artigos da Confederação e estabelecer a posição de Presidente, tornando-se o primeiro a ser eleito para o cargo (CERINOTTI, 2004).

Artigo I (1ªemenda) O Congresso não legislará no sentido de estabelecer uma religião, ou proibindo o livre exercício dos cultos; ou cerceando a liberdade de palavra, ou de imprensa, ou o direito do povo de se reunir pacificamente, e de dirigir ao Governo petições para a reparação de seus agravos.

No Brasil, a sua independência também foi arquitetada por maçons. Segundo Ismail (2012), foi na seção de 20 de agosto de 1822, do então Grande Oriente Brazílico, presidida por Gonçalves Ledo, que a Independência do Brasil foi aprovada, sobre a qual D. Pedro (também maçom) deveria escolher: tornar-se imperador ou voltar para Portugal. Há controvérsias de diversos autores quanto a data precisa da reunião. Ismail (2012) conclui pelas evidências históricas que a data de 20 de agosto está incorreta.

De acordo com Souza (2007) a Questão Religiosa teve o seu início em 1872, com um incidente envolvendo a Maçonaria. O motivo foi a suspensão do padre Almeida Martins pelo bispo do Rio de Janeiro devido à sua participação em uma solenidade maçônica. Na época, o convívio entre católicos e maçons era uma coisa bastante comum no Brasil, e mesmo o Imperador Dom Pedro II (também maçom) tinha no rol de seus principais amigos e conselheiros políticos maçons que também eram católicos.

O bispo de Olinda, dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e o bispo do Pará dom Antônio de Macedo Costa, decidiram interditar aos maçons os sacramentos, inclusive extensivo aos filhos e esposas. Dom Pedro II baseado do regime de padroado determinou aos prelados que a interdição fosse suspensa, mas eles mantiveram suas posições e acabaram sendo presos e condenados a trabalhos forçados. O governo neste episódio usou dos direitos do padroado para manter o controle do aparelho eclesiástico. Para o governo, os bispos envolvidos infringiram o direito do padroado, no ato de interditar confrarias que tinham maçons como membros, bem como recusar os sacramentos aos maçons católicos.

A partir do incidente, D. Pedro II favoreceu a instalação de igrejas protestantes no Brasil. Na opinião de Leôncio Basbaum (1957), a própria visão política e intelectual do governo imperial favorecera os ideais republicanos, bem como a implantação de um Estado laico. Daí, a questão política avança mais no Império, quando o Partido liberal e Republicano se unem em torno daih criação da República, a qual veio consolidar embora que formal e juridicamente a separação da Igreja do Estado (SOUZA, 2007).

Na opinião de Vieira (1980) deve-se observar que no Brasil como em outras partes, a Maçonaria foi um dos grandes veículos da divulgação do liberalismo. Por esta razão, ela foi a causa ostensiva da luta entre os bispos e a coroa (1872-1875) e do fortalecimento de uma ideologia de criação de um Estado laico.

A primeira Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, fundada em janeiro de 1865, foi a primeira designação protestante a ser oficialmente instalada no Brasil. Há registros bem mais antigos da presença dos calvinistas no Brasil, mas de maneira não oficial. Os maçons sempre apoiaram o Estado laico, mas ao mesmo tempo mantinham uma relação amistosa com o Império e a Igreja, pelo menos até a crise da Questão Religiosa (SOUZA, 2007).

Em 13 de janeiro de 1874, por ocasião da prisão do bispo de Olinda, por razão da Questão Religiosa, iniciou-se um movimento político popular, no qual se uniram protestantes, maçons, advogados e intelectuais, dirigidos por Tavares Bastos e Quintino Bocayúva para separar o Estado da Igreja (SOUZA, 2007).

O Espiritismo também possui relações históricas com a Maçonaria. Não há uma comprovação de que Allan Kardec (1804-1869) tenha sido maçom. Segundo Monteiro & Lefraise (2007), existe uma hipó- tese, não comprovada, de que Kardec tenha sido martinista. Léon Denis (1846-1927) era, de fato, ma- çom. Foi iniciado em 26 de outubro de 1868 na Loja Demófilos de Tours. Em menos de um ano Denis passou de A:.M:. a C:.M:. e um mês depois chegou a M:.M:., o que era muito raro na época.

O primeiro Centro Espírita do Brasil, o Grupo Familiar de Espiritismo fundado em 17 de setembro de 1865 em Salvador, sob a presidência de Luiz Olympio Telles de Menezes contava com maçons em suas fieiras. O registro oficial só veio ocorrer em 1874. Apesar de não serem encontrados registros que comprovem que Telles de Menezes era maçom, o estatuto do grupo baiano possui uma similaridade com o funcionamento de uma Loja Maçônica impressionante. Os membros efetivos possuíam três graus. Havia um pagamento estipulado na ocasião da passagem de grau. Veja o artigo 26 do seu estatuto:

Artigo 26º – Uma bolsa denominada Bolsa de Beneficência será apresentada em todas as seções quer magnas, quer particulares a cada membro de qualquer grau ou classe e a cada um dos visitantes para aí deporem uma diminuta quantia cujo produto, imediatamente verificado e declarado pelo Vigilante, ficará a cargo do Tesoureiro e será aplicado a atos de beneficência.

Vianna de Carvalho (1874-1926) foi um maçom e espírita brasileiro nascido no Ceará. Em Fortaleza, o apoio maçônico foi imprescindível para a organização e fundação do Centro Espírita Cearense em 1910. Quase todos os membros indicados por Vianna para compor a diretoria eram maçons. Júlio César Leal (1837-1897), um dos pioneiros espíritas do Brasil, foi convertido ao Espiritismo em uma Loja Maçônica, o qual era membro. Tornou-se presidente da Federação Espírita Brasileira. (MONTEIRO; LEFRAISE, 2007)

Conclusão

A Maçonaria promove o direito universal do ser humano professar a religião que bem entender. Em uma Loja Maçônica não existem discussões religiosas porque a liberdade de cada irmão ter a sua escolha religiosa é respeitada. Nas oficinas há irmãos candomblecistas, budistas, evangélicos, católicos, espíritas, umbandistas, muçulmanos, judeus e de demais credos que convivem em paz e harmonia, pois todos têm a certeza de que são filhos do mesmo Deus, independente de rótulos. Que um dia a Humanidade compreenda esse fato e que ninguém seja morto ou ofendido pela fé que professa, nem pela cor de sua pele, nem pela sua orientação sexual. Todos somos filhos de Deus e, como tal, herdeiros de sua Luz.

Autor: Anderson Lupo Nunes

Fonte: Revista Fraternitas in Praxis

Anderson possui graduação em Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2003) e mestrado em Engenharia Nuclear pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Tem experiência na área de Engenharia Nuclear, com ênfase em Núcleo do Reator, atuando principalmente nos seguintes temas: equações da cinética pontual, método de confinamento da rigidez e métodos numéricos. Atua também na área de Ensino de Física e de Eletrônica. É Mestre Maçom da ARLS de Pesquisas Rio de Janeiro No. 54—GOIRJ/COMAB.

Referências Bibliográficas

ANDERSON, James. tradução: Décio Cezaretti. Constituição de Anderson, As Obrigações de um Pedreiro-livre. Publicado pela A:.R:.L:.S:. Guatimozin, São Paulo, 2003. BASBAUM, Leôncio. História Sincera da República. Livraria São José, Rio de Janeiro, 1957. CERINOTTI, Angela. Maçonaria: A Descoberta de um Mundo Misterioso. Editora Globo, São Paulo, 2004. DURÃO, João Ferreira. Cavaleiros de Jesus: breve história do cristianismo. Ed. Madras, São Paulo, 2011. ISMAIL, Kennyo. Desmistificando a Maçonaria. Universo dos Livros, São Paulo, 2012. MONTEIRO, Eduardo Carvalho; LEFRAISE, Armand. Maçonaria e Espiritismo, encontros e desencontros. Ed. Madras, São Paulo, 2007. SOUZA, Mauro Ferreira de. A Igreja e o Estado: uma análise da separação da Igreja Católica do Estado Brasileiro na Constituição de 1891. Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2007. VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil. Editora Universidade de Brasília, Brasília, 1980.

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O Simbolismo da Roda – Capítulo 3 (3ª Parte)

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Quase resulta desnecessário assinalar que por trás de qualquer manifestação há algo prévio que a conformou e que a essa energia deve sua razão de ser, mesmo que se tenha essa manifestação como fenômeno ou expressão de qualquer tipo. Os exemplos mais belos deste fato são a espontaneidade, o gesto puro, a verdadeira intuição intelectual e o ato gratuito. A vida, a natureza, e o cosmos, seriam ilustrações admiráveis deste singelo e magno acontecimento permanente. Eles se expressam no enquadramento espaço-temporal em que se plasma qualquer manifestação, estando por certo o homem incluído como parte integrante desta. Seriam, pois, todas estas revelações simultâneas dos seres e das coisas, coetâneas com o tempo em uma moldura espacial determinada; e, portanto, as expressões possíveis, sujeitas a estas dimensões espaço-temporais – onde se produz a existência humana –, que coalham em formas cristalizadas, têm que ter uma estrutura prévia, respondendo a certas coordenadas – modelos ou ideias arquetípicas –, para que possam ser elas mesmas as coisas ou os seres que constituem o universo. Na verdade, estes entes a que estamos nos referindo não são, senão, símbolos ou energias-força que representam – cada qual da sua forma ou maneira substancial – a ideia que eles encarnam, dando lugar dessa maneira ao cosmos inteiro, ao qual configuram. No simbolismo do tecido, é fácil advertir que a face brilhante e luminosa do visível, do desenho exotérico, é a expressão do laborioso, oculto, escuro e ordenado trabalho da trama e da urdidura. A ideia de uma estrutura “anterior”, ou prévia, a um fenômeno, ou expressão qualquer, não é só óbvia para o filósofo, para o arquiteto, para o artesão ou profissional – ou para um operário de qualquer índole –, senão para todos os que tenham pensado alguma vez na linguagem ou simplesmente em qualquer morfologia. A imagem visível é, pois, a projeção ou o reflexo do pensamento, da ideia, ou da intuição intelectual, mediante a qual se manifestam as coisas ou se as pretende expressar. Por isso que estes símbolos ou jogos de símbolos – que estabelecem entre si diversas relações de distinto tipo –, configuram códigos ou linguagens diferentes, que ao serem expostos a um nível de compreensão menos sutil, necessariamente têm que obscurecer seu conteúdo, ou ocultá-lo, do ponto de vista de um nível mais denso ou rarefeito de leitura. Eis o motivo da função mediadora dos símbolos, como emissários, pontes ou portas de passagem de um plano da realidade a outro, que está sempre além deste[50]. Sobretudo em um mundo que supomos achatado e igualitário, quando na verdade se trata de um universo diferenciado e hierarquizado. Prova disto nos dão as distintas espécies que o povoam, assim como os diversos espaços que o constituem, e os diferentes tempos que acontecem nele. Por isso é que todo símbolo é significativo, ou significante, qualquer que este seja, e em particular aqueles em que as distintas tradições da antiguidade verteram sua experiência, como testemunho de seu conhecimento a respeito do simbolizado. Porque para estes povos os símbolos não são arbitrários, ou convencionais, ou “metafóricos”, mas sim figuram os próprios princípios, com os quais guardam uma unidade analógica tão viva, quanto real. Isso é o que permite o símbolo passar da ordem fenomênica ao transcendente. Ou seja: que facilita a revelação sintética ou a compreensão de uma linguagem universal e eterna, da qual o próprio símbolo é apenas um suporte, para acessar uma ordem distinta, que se acha em outro nível, com relação à visão literal ou alegórica que estamos acostumados a ter dos fatos e das coisas.

Por outro lado, o símbolo – geralmente numérico ou geométrico – se oculta do olhar ordinário sob o ouropel do decorativo ou do funcional, porque essa é a maneira em que se cumpre a ordem natural das coisas manifestadas. Isto é particularmente destacável no simbolismo construtivo, em especial no que se refere ao centro ou ao eixo. Tal é o caso do centro invisível de qualquer espaço, no qual são extremamente notórios os muros e as paredes, ou o marco que o circunda [espaço]. O mesmo acontece com o simbolismo do arco arquitetônico, onde as evidentes colunas foram levantadas simetricamente a partir de um centro, no plano horizontal, que não é mais que a projeção do eixo vertical. O qual, por outra parte, permanece perfeitamente oculto e imperturbável, enquanto estamos acostumados a admirar os luxuosos e pesados cortinados exteriores e os agregados mais ou menos tardios[51]. O símbolo passou despercebido e devemos realizar um trabalho conosco mesmos, interno, para poder resgatar os valores simbólicos. Por outra parte, já se sabe que esta linguagem foi utilizada unanimemente pelos mestres e artistas de todas as civilizações tradicionais. Devemos começar então por criar em nosso interior as possibilidades da compreensão, necessárias para interpretar e vivenciar estes “segredos” da arte e do símbolo. Pois entre eles e nós só se acha uma muralha psicológica, que se pode transpor face a uma imensa dificuldade atribuível ao esquecimento e, mais ainda, à inversão total dos valores atuais sobre o mundo e sobre o próprio homem, que, entretanto, hoje como ontem, nasceu para o conhecimento. E embora o símbolo, o mito e o rito possam ser tratados de forma conjunta, possivelmente seja necessário estabelecer alguma diferenciação dentre eles.

O símbolo iconográfico está mais relacionado com o espaço e de fato – como é notório nos yantrams hindus e nos ícones do cristianismo oriental – trata de induzir, ou criar, um espaço distinto na consciência de quem o contempla. O mito, pelo contrário, poderia vincular-se em maior grau com o tempo e na verdade nos conecta com um tempo diferente do cotidiano. No templo se combinam estas duas características e o espaço sagrado pretende “capturar” o tempo dos heróis e dos deuses. O rito, por sua parte, dramatiza (ou psicodramatiza, para falar em termos modernos) a cerimônia, e reitera, através da voz, o gesto e o movimento, o tempo e o espaço primigênios[52]. Resgata-os na sua virgindade e pureza original, outorgando à ordem interna e ao pensamento, seu autêntico valor, sua intrínseca harmonia[53]. E aqui devemos recordar que toda arte reconhece origens sagradas (não necessariamente religiosas). Tal é o caso da dança, da música, da poesia (vates, por isso “Vaticano”), etc. Por outra parte a arte não se propôs a outra coisa como meta ao longo dos tempos, assim que ela foi uma permanente busca do conhecimento, ou melhor, do reconhecimento. Agora, ao existirem ideias arquetípicas, ou jogos prototípicos estruturais anteriores a toda manifestação e que, ao expressá-la, conformam-na, é lógico inferir que essas coordenadas constituem um modelo universal exato, preciso e concreto.

Por certo que tal modelo não seria rígido, maquinal ou um artefato de relojoaria, caso pudéssemos imaginá-lo com nossa programação industrial. E menos ainda um computador infernal ou uma gigantesca gravação [N.T.: orig. “cassette”] indefinida, que finalizaria, junto com nossas vidas e a do mundo, em uma constante relação de causa-efeito. Mas bem se trataria de um organismo vivo, tal como o homem e a natureza e, portanto, um mistério cheio de pontos de junção, impossíveis de ser computados por seu próprio comportamento supralógico e metaquantitativo. Em suma, uma poética. Uma obra de arte. Nesse sentido, o cosmos e a projeção [N.T.: orig. “plan”] ou plano em que se conformou, configuram a mais gigantesca possibilidade de expressão e concepção artística imaginável, já que deste modelo, e sua manifestação, derivam todas as formas possíveis e secundárias de realização, tenham estas um sentido qualquer, o inverso, ou estejam neutralizadas entre ambos. Posto que a desarmonia constante das partes é a que produz necessariamente a harmonia e o equilíbrio do conjunto. Isto é tão válido para o modelo cósmico universal, como para o homem em sua integralidade, que não é mais que uma miniatura daquele. De um lado o homem verdadeiro como ponto interior ou coração do cosmos, de outro, opostamente, o universo como uma projeção do ser.

A forma mais simples está em todas as formas, o que equivale a dizer que tudo está em tudo e que tudo está em nós mesmos. E é curioso observar que estas singelas verdades, que de algum jeito conhecemos – e que por certo todos experimentamos –, estão hoje como cobertas por um véu de vergonhosa autocensura, porque talvez sintamos temor de que nos retrotraiam à infância, ou à adolescência, e nos façam, acaso, perder a bagagem “intelectual”, às vezes tão árdua e esforçadamente conquistada. Para alguns seria de um gosto duvidoso afirmar que a vida – ou a natureza, como ilustração dela – nunca se equivoca. Ou que sua pele tem todo tipo de texturas e que troca a roupagem todas as estações. Também assegurar que cresce, desenvolve-se, envelhece e morre. Que a manifestação universal – simbolizada pela dança de Shiva – é a perfeição, o equilíbrio e a harmonia; que no percurso e decurso do mundo, ou do cosmos, toma todas as formas possíveis e não há aroma nem som que não esteja incluído nela. Igualmente, se assegurarmos que esta manifestação é a única coisa que não deixou que ser novidadeira, ou surpreendente, sempre um homem ou uma mulher poderá contemplá-la pela primeira vez. Ou que pôde superar o pessimismo e o otimismo de seus projetos, pois estes são suas realidades de todos os dias. Que entre seus símbolos e ela mesma não há nenhuma diferença. E que através da contemplação de sua simbólica transcendemos a dualidade do cárcere da mente, pois contemplar é recriar a obra de arte permanente. E que, do mesmo modo, somos regenerados cada vez que se cumpre um novo ciclo e se nos abre uma porta de acesso a outras realidades tão mais efetivas quanto menos ilusórias.

O símbolo e a arte – transmissores e receptores de energias – nos brindam com a possibilidade de uma saída, de uma escala, de um caminho a ser percorrido muito mais facilmente do que se imagina. Às vezes os caminhos se perdem no labirinto. Talvez essa seja a única forma, para alguns, de sair dele. No caso da arte e do artista, são particularmente válidas as palavras de William Blake: “pelo caminho do excesso também se chega ao palácio da sabedoria”. Além disso, havendo um modelo cósmico universal, a obra de arte já está feita; foi simbolizada; e tem um plano e uma ordem. Todo nosso trabalho consiste em resgatar e unir os nossos próprios fragmentos, para a síntese definitiva. O mais singelo está sempre ao alcance da mão e na interioridade de cada um. Realizar nosso trabalho com a soma de nossas possibilidades, participando da grande obra universal mediante pauta e métodos concretos; o primeiro dos quais, já se sabe, é a entrega ao trabalho: uma forma de amor. E compreendendo que não estamos excluídos da vida e da manifestação, senão que, melhor, tudo se espera de nós, de acordo com as nossas particularidades, quaisquer que estas sejam, sem estabelecer comparações nem julgamentos, tão relativos, quanto arbitrários.

Diz-se que cada um é símbolo. Que a verdadeira obra de arte é o que se pode fazer cada qual consigo mesmo no fundo de seu coração. As produções são secundárias, e chegam por acréscimo. O realmente válido se situa na zona mais misteriosa e desconhecida. E por certo ninguém poderá julgar sem equivocar-se, pois, a liberdade interior é inqualificável. Muito menos pelo próprio interessado. Já que ela não necessita de nada, pois sendo apenas a virtualidade de um ponto, um espaço vazio, é simplesmente o que é, gostemos ou não: nós, ou os “amigos”, ou “inimigos”, ou nossa ilusória superestrutura mental, que certas vezes nos aplaude a para que inchemos os nossos peitos como perus, e outras nos deprime muitíssimo para que nos percamos no mais próximo sumidouro.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[50] – Toda mensagem ou mensageiro é a expressão de uma realidade mais vasta e superior, da qual ele só é o representante.

[51] – O mesmo é válido para qualquer figura geométrica ou “estrutura primária” relacionadas com a numerologia e, em especial, com a série de 1 a 9.

[52] – O templo reúne espaço e tempo, como o movimento –ritual da roda– os conjuga e efetiva. Templus é um diminutivo de tempus. Um microespaço e um microtempo simbolizam todo o espaço e todo o tempo postos em ação pela “roda da vida”.

[53] – Afortunada ou desgraçadamente, não se pode compreender o ritual, o símbolo ou a criação inteira, se não for em posse das chaves que essas expressões levam implícitas, no enquadramento no qual se manifestaram. Se a obra de arte corresponder a uma ideia, ou ao menos a uma forma de pensamento, devemos retroagir à origem dessa ideia ou à identificação com esse modo de pensamento, para poder realmente compreendê-la. Por isso a necessidade de um ensino e a gradual aprendizagem na realização do conhecimento. Quer dizer, o caminho iniciático através da via simbólica ou mítica ou poética. Porque estas proporcionam, de fato, um meio especialmente adequado, um andaime que permite a encarnação, em relação com a abertura da consciência e que, por certo, não só modifica nossa mentalidade, mas também nossa vida. Pois se formos capazes de ouvir as vozes reveladoras que se acham em nosso interior, mediante um trabalho paciente e delicado, uma arte, chegaremos à convicção de que essas vozes correspondem aos ensinos que nos foram dados e que, por outra parte, são o que constituem esse símbolo ou mito que começamos a compreender e que se efetiva ou vivifica em forma ritual no interior da consciência, que dessa maneira adquire categoria universal.

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