A corda de 81 nós: uma visão operativa

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Nós, como nós,
atados no fio da vida,
unidos, mas sempre sós,
elos do eterno, medida.
(S.K.Jerez)

A Arte da Cordoaria e os Nós

O uso de cordas, cordões, nós e laços pelo homem se confunde com a sua própria história. Fundamentais para a evolução da espécie e extremamente valiosos para o estabelecimento de sua supremacia sobre outros animais, o desenvolvimento destes recursos como parte do ferramental de sobrevivência humano só deve ser posterior, na escala tecnológica – se o for – ao emprego de pedras, paus e ossos pelas comunidades primitivas. Supõe-se – já que não há provas materiais disso – que mesmo o Homo habilis, que viveu entre 2,5 e 1,6 milhões de anos atrás, na África oriental, já fosse capaz de realizar atividades básicas de cordoaria e entrelaçamento de fibras.

Os primeiros materiais para confecção de cordas devem ter sido trepadeiras, cipós, peles de animais, cabelos, junco, cânhamo, tendões e tripas. Inicialmente, elas devem ter sido utilizadas para confeccionar abrigos, leitos em árvores e atar coisas a serem transportadas, e deve ter se passado um longo tempo até que os nossos ancestrais percebessem o seu valor no desenvolvimento de artefatos de caça, pesca, ataque e defesa.

Os arcos e flechas, por exemplo, que requerem o uso técnicas apuradas para produção de cordas e elaboração de nós, só vieram muito depois. Não se sabe ao certo onde se originaram, mas os vestígios mais remotos de seu uso foram encontrados em Angola, datando de aproximadamente 30 mil anos.

A descoberta, em 1991, do “homem do gelo”, – Oetzi, como foi apelidado – que morreu no Tirol há cerca de 5.400 anos, permitiu uma avaliação precisa do papel dos nós e das cordas nas vestimentas e utensílios dos povos europeus antigos.

Há mais de 3 mil anos, como decorrência de sua  familiaridade no trabalho com cordas e nós, que vinha desde os primeiros hominídeos, os egípcios e seus vizinhos semitas e líbios já eram capazes de produzir tecidos com alto grau de sofisticação.

A par do uso das cordas nas atividades do dia-a-dia, os nós, em particular, desempenhavam um papel importante nas crenças egípcias. A eles era atribuído um poder mágico, médico ou religioso. O tipo do nó variava segundo o seu emprego. A direção das laçadas, o número de cordões que o compunha e o material com que era feito também eram específicos para cada finalidade.

Para os egípcios, tanto fazer nós quanto desfazê-los poderia trazer resultados positivos ou negativos. Por exemplo, um nó na ponta de um cordão protegia contra as influências do mal. Contudo, se o mal já estivesse instalado, o impediria de sair. Desfazê-lo significava remover qualquer bloqueio, mas, por outro lado, poderia abrir caminho para que alguma força potencialmente prejudicial tomasse conta de seu usuário. O mesmo nó, no campo da medicina, era usado pelas mulheres grávidas para como um amuleto para prevenir sangramentos ou abortos.

Um nó muito importante na mitologia egípcia era o Nó de Ísis, semelhante aos nós que, naquela cultura, ornamentavam a gola das vestes das divindades em geral. Segundo o Livro dos Mortos, quem usasse este nó ganharia a proteção de Ísis e de seu filho Hórus, e seria bem-vindo no outro mundo. Os sacerdotes e sacerdotisas de Ísis, em particular, eram reverenciados por seu poder de cura e frequentemente recorriam ao uso de cordões e nós mágicos em suas terapias. Para demonstrar que acreditavam no seu próprio remédio, usavam, eles mesmos, cabelos trançados, tradição esta que migrou para a cultura greco-romana junto com o culto à deusa.

Os kvinus, formas primitivas de registrar de informações, também recorriam ao uso de nós e cordas. São os registros “escritos” mais antigos da história. Empregados como sistema de memorização pelos povos andinos, chineses e japoneses ancestrais, usavam uma convenção de sinais feitos com nós que auxiliavam na preservação da memória de fatos e conhecimentos.

corda1Kvinus, uma escrita ancestral

Tudo isso dá uma ideia da importância da arte da cordoaria e das técnicas para elaboração de nós no desenvolvimento das civilizações. Talvez por serem um recurso muito comum e, sob a maioria dos aspectos, muito simples, os livros de história não lhes deem o devido destaque. Mas o fato é que cordas e nós sempre estiveram presentes, quaisquer que fossem os seus usos, na trajetória do homem. São, portanto, uma parte indissociável da tradição dos povos, em todos os continentes.

As Cordas e os Nós na Maçonaria Operativa

A utilização de cordas ou, pelo menos, o entrelaçamento de fibras, está no nascedouro das ciências construtivas.  A partir do momento em que o homem deixou as cavernas e passou a adotar uma vida nômade ou seminômade, a confecção de abrigos tornou-se fundamental e, neste contexto, saber fazer cordas e confeccionar nós podia significar a diferença entre sobreviver ou não, já que seu uso proporcionava mais resistência e segurança às primitivas habitações.

Possivelmente foi muito depois da corda ter sido intensivamente usada nas situações mais comuns – como amarra, meio de tração e arrasto, auxiliar em escaladas, recurso de ataque e defesa, utensílio de caça e pesca – que ela passou a ser utilizada com uma finalidade mais nobre, qual seja, como instrumento de medição. E foi mais adiante ainda que alguém deve ter tido a ideia de fazer nós equidistantes nas cordas, de modo a que pudessem servir não só para medir partes inteiras, mas também frações dessas partes, a exemplo do que o homem provavelmente já fazia com as varas de medição.

No estabelecimento de extensões maiores, como, por exemplo, terrenos e áreas rurais, a utilização de cordas com nós era essencial, já que o uso de outros recursos levava a medidas menos precisas. Há indícios de que eram usadas com essa finalidade pela maior parte das principais civilizações antigas, como a suméria, egípcia, chinesa, grega e romana.

No Egito, especialmente em função das cheias do Nilo, que destruíam as divisas das terras aráveis, os agrimensores exerciam um papel fundamental. Eram chamados de Hardenonaptai (esticadores de corda). Heródoto, o historiador grego, já menciona o trabalho deles ao se referir a Ramsés II (aprox. 1.300 a.C.), dizendo que o faraó egípcio distribuía lotes de terra para os seus governados, em parcelas retangulares iguais, sobre as quais cobrava um imposto anual. Quando o rio varria as linhas demarcatórias, era comum os proprietários pedirem redução nos valores a serem pagos, alegando a diminuição de sua área. O faraó, no entanto, cioso das receitas que as terras lhe proporcionavam, enviava seus agrimensores para restabelecer os limites perdidos ou determinar a pertinência da redução do imposto.

Isso mostra que os agrimensores não só determinavam distâncias simples entre pontos, mas que eram capazes de estabelecer ângulos retos através de um recurso que era passado tradicionalmente de geração para geração: a corda de doze nós. Não se sabe onde e quando esta tradição teve início, mas o fato é que, por experiência prática, os esticadores de corda sabiam que era possível, utilizando-se apenas uma corda fechada com doze nós equidistantes, criar um triângulo retângulo onde a medida de cada lado correspondia, respectivamente, a 3, 4 e 5 intervalos entre nós, como mostra a figura abaixo:

corda2O triângulo de 3, 4 e 5 medidas[1]

Os agrimensores eram muito prestigiados no Antigo Egito. Como toda a cultura girava em torno das cheias do Nilo e das grandes construções, medir era uma atividade essencial e constituía o topo da escala de conhecimentos da época. Prova disso é que a cerimônia mais importante da tradição egípcia era chamada de “esticar a corda”. Seus rituais estavam associados à medida do tempo e do espaço na terra e nos céus, nos quais a deusa Seshat, padroeira dos arquitetos, aparecia ao lado do faraó.

Voltando-se à corda, credita-se a ela os primeiros passos de uma ciência que é, seguramente, a mais cara para os maçons: a geometria. Quando se amarram hastes nas extremidades de uma corda e se fixa uma destas hastes num determinado ponto no chão, basta esticar a corda e com a haste remanescente girar em torno da haste fixa, que desenharemos um círculo, figura fundamental de todo desenvolvimento geométrico.  Não por acaso, alguns dos filósofos gregos mais importantes, como Platão e Aristóteles, atribuíam aos egípcios a criação da geometria.

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O método de medição e de criação de figuras geométricas usando cordas permaneceu o mesmo durante muitos séculos, mas acredita-se que, com o objetivo de aumentar-se a exatidão das medidas, os nós tenham sido gradativamente substituídos por algum outro tipo de marcação.

Foi apenas no século XVII que as técnicas de medição de terras tiveram um salto de qualidade no que tange à precisão, quando a agrimensura passou a adotar a Corrente de Gunter, uma cadeia formada por hastes de metal. Até então, as cordas ainda eram prevalentes. Só em 1922 é que foi patenteada a trena, por Hiram Farrand.

corda4Corrente de Gunter

As Cordas e os Nós na Maçonaria Simbólica

Jean van Win[2] acredita que a corda que utilizamos na decoração do templos tenha sido introduzida na maçonaria simbólica devido a um engano. Segundo ele, o uso da corda de nós espalhou-se pelo mundo, a partir da França, por um erro de tradução do abade Pérau, que, em 1742, publicou um livro intitulado O Segredo dos Franco-Maçons, baseado na obra A Maçonaria Dissecada, de Samuel Prichard, editada em 1730. Nela, Prichard afirma que dentre os equipamentos da Loja há o “Pavimento Mosaico, que é o piso da Loja, a Estrela Flamígera, que é seu Centro, e a Orla Dentada, que é a borda em torno dela”[3]. Acontece que o abade traduziu, do inglês original para o francês, Pavimento Mosaico como Palácio Mosaico, Estrela Flamígera como Dossel Constelado de Estrelas e Orla Dentada por Borla[4] Dentada. Com isso, as potências maçônicas que, por qualquer motivo, se inspiraram direta ou indiretamente na tradição francesa, teriam assimilado o termo Borla Dentada.

Ainda segundo van Win, a adoção da corda como elemento na decoração dos templos teria vindo de uma tradição diferente: a partir do século XVI, era costume das mulheres nobres, ao enviuvarem, encimarem o brasão de seus maridos com uma corda ornada com nós de amor[5] terminada em borlas pendentes.  Isso – acrescido de uma eventual associação com o termo “filhos da viúva”, surgido nos rituais na mesma época – teria bastado para que se passasse, por extensão, a associar a Borla Dentada de Pérau a uma corda com nós e borlas em torno da Loja.

corda5Nó do amor

De todo modo, o fato é que as cordas com nós vêm sendo usadas desde então como ornamento nos templos, quadros ou tapetes de Loja maçônicos. Algumas Lojas utilizam nos seus quadros ou tapetes o número de nós conforme o grau representado. A maioria delas, no entanto, especialmente na Europa e América do Norte, adota a corda de 12 nós, que, como já mostramos, tem um significado relevante na história da geometria. Aqui cabe uma consideração: aceita-se, por seu caráter simbólico, que a corda maçônica, mesmo sendo aberta, tenha 12 nós, embora uma corda assim crie apenas 11 intervalos ou medidas entre os nós, o que não permitiria a representação de um triângulo retângulo. Ou seja, a rigor, a corda aberta em torno do templo, quadro ou tapete de Loja deveria ter 13 nós, perfazendo 12 medidas, para, desta forma, poder representar o triângulo pitagórico. Assim, quando fechada, os nós das extremidades poderiam ser sobrepostos, criando as condições para a criação do triângulo.

corda6A corda com 13 nós (em preto) e 12 intervalos (em vermelho)

Diferentemente de outros países, no entanto, as potências do Brasil fizeram uma opção peculiar, adotando em suas Lojas a Corda de 81 nós, que, quando fechada, sobrepondo-se os extremos, formaria 80 intervalos. Logo, a ser observado o mesmo critério utilizado pelas Lojas do hemisfério Norte, dissociando a realidade do simbolismo, a corda maçônica brasileira poderia conter apenas 80 nós.

A exemplo da corda de 13 nós, a Corda de 81 nós também se presta à criação de um triângulo retângulo. Seus catetos correspondem aos intervalos formados, respectivamente, por 16 e 30 nós, e, a hipotenusa, por intervalos de 34 nós (16+30+34=80 e 162+302=342). Também, da mesma forma que a corda de 13 nós, a de 81 pode ser usada para criar triângulos equiláteros e isósceles e, assim sendo, quer sejam de 12 ou 80 nós quando fechadas, ou 13 e 81 quando abertas, geometricamente ambas as cordas expressariam o mesmo significado.

Os documentos históricos da maçonaria anteriores à criação da Grande Loja de Londres, em 1717, denominados genericamente de Antigos Deveres (Old Charges), não fazem alusão a cordas e nós.

Já os rituais de 1904, publicados pelo Grande Oriente e Supremo Conselho do Brazil[6], mencionam apenas um cordão que forma, de distância em distância, nós emblemáticos (e) termina em uma borla pendente em cada um dos lados da porta de entrada. Conclui-se, desta forma, que o número de nós foi estipulado em data posterior à publicação dos rituais.

Não obstante, além das evidentes conotações geométricas, algumas referências podem ter sido determinantes para que o número de nós da corda adotada pela maçonaria brasileira fosse 81, quais sejam:

  • o número mínimo de meses estipulado para que um maçom chegue ao grau 33;
  • o total de graus da maçonaria francesa, em 1784;
  • a idade do mestre secreto (3 x 27);
  • a quantidade de atributos da divindade, para o intendente dos edifícios;
  • a idade do vigilante do perfeito e sublime maçom.

Além dessas, a inspiração para a adoção dos 81 nós pelas Lojas brasileiras talvez possa ter advindo de Albert Pike, que escreveu em seu livro O Pórtico e a Câmara do Meio, de 1872, o seguinte: “Ao redor de toda a parede, logo abaixo do teto, está pintada, nas Lojas francesas, um cordão ou corda com nós (la houppe dentelèe) de aproximadamente  seis polegadas de diâmetro, com borlas pendendo em cada canto. Os nós são em número de oitenta e um. Não é usada nesta jurisdição.”

Quanto às borlas, nenhum documento foi encontrado que justificasse seu uso maçônico. Se foram, de fato, inspiradas no brasão das viúvas, serviriam apenas de arremate e adorno e, do ponto de vista operativo, não teriam qualquer significado.

Há, porém, uma hipótese plausível de que tenham existido marcadores de distância atados nas cordas junto com os nós ou em substituição a eles. Essa hipótese decorre da constatação de que algumas Correntes de Gunter adotavam pingentes de metal presos em cada elo, de modo que o agrimensor soubesse, ao olhar um pingente, a que distância se encontrava com relação ao início da corrente. Isso evitava, especialmente nas distâncias maiores, o trabalho de contagem e recontagem de elos, que poderia levar a erros.

corda7Corrente de Gunter e os pingentes marcadores de distância

Ora, se é sabido que as cordas de nós foram aperfeiçoadas durante dezenas de séculos, é razoável imaginar-se que a solução dos pingentes fosse anterior à invenção das Correntes de Gunter. Assim sendo, da mesma forma que adotou as cordas com nós, não seria de se estranhar que a maçonaria simbólica tenha incorporado também os pingentes, transformando-os em borlas. Mas isso é apenas um palpite.

Para concluir, mesmo considerando que o uso da corda de nós pela Ordem possa, de fato, ter advindo do erro de tradução de Pérau, é inegável que essa “coincidência” foi extraordinariamente feliz, já que, à exceção da Pedra, nenhum outro utensílio operativo poderia ser considerado mais importante e tradicional.

Mas estes são apenas aspectos exotéricos relacionados à Corda de 81 nós. Muito mais se poderia falar sobre ela ao analisá-la sob outros prismas.

É o que pretendemos fazer oportunamente…

Autores: Sérgio K. Jerez, Lincoln Gerytch e Ulisses Pereira da Silva Massad
Loja Nova Esperança, 132 – Oriente de São Paulo

Fonte: BIBLIOT3CA

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Notas

[1] – Também conhecido como triângulo de Pitágoras.

[2] – Membro honorário da Loja Anderson, 82 (Grande Oriente da Bélgica), de Bruxelas, foi presidente do  Capítulo Francês Le Prínce de Ligne para Bruxelas e Soberano Grande Inspetor Geral do Conselho Supremo Misto do Rito Moderno Francês para a Bégica.

[3] – No original, Mosaick Pavement, the Ground Floor of the Lodge, Blazing Star the Centre, and Indented Tarsel the Border around about it.

[4] – Segundo o Houaiss, borla é obra de passamanaria que consta de uma base forrada de tecido, linha ou outro material, da qual pendem franjas; pompom, bolota.

[5] – Nó de amor é o termo que se usa para definir o nó utilizado pela maçonaria. Talvez esse nome decorra da sua utilização no brasão das viúvas, expressando seus ternos sentimentos pelos maridos. No entanto, uma variedade de nós, independentemente de seu formato, são empregados desde a antiguidade para simbolizar amor, amizade e afeto. Mackey cita o nó de amor quando fala da ordem dos Chevaliers et Chevalieres de la Rose, criada na França.

[6] – Brazil com z, na ortografia original.

Bibliografia

Ashley, C.W.The Ashley Book  of Knots – Londres, Inglaterra, Faber and Faber, 1993

Buckland, R.Buckland’s Complete Book of Witchcraft – St. Paul, Minnesota, E.U.A., Llewellyn Publications, 1997

Cassidy, J.The Klutz Book of Knots – Palo Alto, CA, Klutz, 1985

Gould, R.F.Collected Essays and Papers Relating to Freemasonry – Belfast, William Tait, 1913

Mackey, A.G.An Encyclopedia of Freemasonry – Nova Iorque, E.U.A., The Masonic History Company, 1914

Paulson,  J. F.Surveying in Ancient Egypt – Cairo, Egito, Anais do From Pharaohs to Geoinformatics FIG Working Week 2005 and GSDI-8

Pike, A. The Porch and the middle chamber: book of the Lodge , 1872

Poll, M.R. (ed) – Ancient Manuscripts of the Freemasons  – New Orleans, LA, Cornerstone Book Publishers, 2009

Prichard, S.Masonry Dissected – Londres, Inglaterra, Charles Corbett, 1730

Rituais no 1º, 2º e 3º Graus adotados pelo Supr\ Cons\ do Brazil, em julho de 1898 – Rio de Janeiro, Typ. J. Schmidt, 1904

Turner, J. C. e  van de Griend, P. (ed)  –  History and science of knots, Singapore, World Scientific, 1995

Van Win, J.La Houppe dentellée: cordelière ou  « floche », décor ou symbole?- extraído de http://montaleau.over-blog.com/article-rite-francais-de-la-houppe-dentellee-66256800.html

Wendrich, W.Entangled, connected or protected? The power of  knotting in ancient Egypt

in K. Szpakowska (ed) Through a Glass Darkly: Magic, Dream and Prophecy in Ancient Egypt 243-69 Swansea, The Classical Press of Wales, 2006.

Dezenas de artigos extraídos da Internet

 

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Equinócio de Outono

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Equinócio é o momento exato que marca o início da primavera ou do outono, momento esse em que sol incide com maior intensidade sobre as regiões próximas à linha do equador, tanto no hemisfério norte quanto no hemisfério sul. O termo tem origem na junção dos termos latinos aequus (igual) e nox (noite). Quando ocorre o equinócio, o dia e a noite têm igual duração (exatamente 12 horas).

Na cultura Cristã as datas comemorativas para os processos de nascimento, morte e ressurreição do Senhor também coincidem com as características dos equinócios e o “drama cósmico” que vive o sol na abóboda celeste.

Esse “drama cósmico” foi muito bem observado por várias culturas e civilizações antigas, sendo os equinócios e solstícios considerados momentos especiais para integrar-se com as forças da natureza e do cosmos. Tamanha importância pode ser comprovada pelos numerosos monumentos e construções erguidas com sincronia matemática em relação às características dos equinócios, como Loughcrew, monumento neolítico localizado na Irlanda, e Stonehenge na Inglaterra.

O homem, quando deixou de ser nômade, precisou cultivar para ter o seu sustento e, para isso, tinha que ter uma agenda. Essa agenda ele encontrou observando as estrelas, o Sol e a Lua. Ele olhava para o céu e fazia as coisas na Terra.

Com o equinócio de outono inicia-se o momento da grande colheita, representando a fartura, a maturidade da natureza, o recolhimento e descanso depois de longo tempo de plantio e cuidado com a terra.

A data era largamente celebrada pelos povos antigos. Na Anatólia ocorriam festas em honra a Cibele; na Grécia e outras regiões eram realizados os mistérios de Elêusis, em honra a Deméter e Perséfone; em Roma era comemorado o festival de Ceres, deusa dos grãos e da agricultura; na Lusitânia céltica (em especial na região da Galícia) realizavam-se ritos para Nábia e também para Aetegina; na Irlanda o equinócio de outono era a ampliação e finalização das festas de Lúnasa, dedicados a Lugh e Tailtiu; na Escócia, o último feixe de grãos era ceifado de formas ritualísticas e amarrado em uma figura de palha que seria chamada de “Rainha da Colheita” e estaria repleta de poder fertilizador.

Na tradição celta, é o período em que a escuridão, novamente, ganha o controle, a energia “giamos” fica ainda mais proeminente nos ritmos diários do mundo natural e as energias da Tribo humana devem lutar para se realinharem com a mudança da ordem das coisas. O próprio ato de recolhimento, de se voltar para o interior é a característica principal do “giamos” (como oposto à qualidade expansiva e mudança externa de “samos“), e uma vez as atividades de coleta e armazenamento da colheita tenha sido completada, a estação da escuridão pode se estabelecer completamente, presenteando o mundo com um período necessário de inação, contemplação e descanso.

O outono é a maturidade não apenas da natureza, mas também do homem. É a estação que representa o equilíbrio. É a natureza mostrando-nos sua face mais calma, mais serena e madura, nos chamando para um momento de pausa, reflexão e descanso. É o momento de agradecimento pela “colheita”, pelos “frutos” recebidos, pelo aprendizado adquirido. É um tempo de, sobretudo, agradecimento pela fartura da Terra e pelas bênçãos alcançadas ao longo do ano.

Pesquisa realizada por Luiz Marcelo Viegas

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Maravilhas dos Símbolos e o Ócio Criativo

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Considerando o equipamento de comunicação, sensibilidade e habilidade de que o homem é provido, só isto já o faz reinar soberano nesta biosfera. Sua superioridade é aumentada quando coloca em prática a sua capacidade de sonhar e principalmente de pensar com lógica e clareza. Mesmo que sua construção emocional o equipe com instintos que podem ser usados para bem e para o mal, ele desenvolve processos de interiorização que o defendem e o transformam de besta cruel e sanguinária em criatura dócil e amorosa. E é neste desenvolvimento que a Maçonaria atua no maçom que realmente deseja ser pessoa de bem em sentido lato. Ao incentivar o pensamento com ilustrações e especulações racionais, ensina ao homem a favorecer-se de sua capacidade racional e lógica. O maçom aprende a pensar.

Pensar como fruto do próprio esforço e iniciativa é uma característica que a poucos seres humanos é dado fazer. Não que sejam indolentes para meditar sobre temas importantes, mas estão submetidos a um sistema cruel de sobrevivência; pouco ou nenhum tempo resta para o indivíduo caminhar pelos meandros do pensamento especulativo. Esta falta de tempo é agravada pelas ofertas do mundo da propaganda e do entretenimento passivo. A concorrência é tão intensa e os atrativos para atividades passivas são tantas, que a maioria fica impossibilitada de oportunidades para meditar e pensar. Cinema, televisão, joguinhos de computador e outras distrações roubam o tempo e viciam as pessoas em atividade que não exigem praticamente nenhum esforço e os impedem de desenvolver a capacidade de pensamento para a felicidade.

A Maçonaria usa símbolos e alegorias para fazer as pessoas pensar. Todo aquele que é assíduo aos trabalhos em loja, praticamente sem esforço algum é conduzido pela caminhada dos símbolos e das estorinhas de fundo moral, que levam a pensar. Inclusive, por breves instantes, quando reunido em loja, o maçom é afastado dos laços alienantes do mercado consumidor para exercitar sua capacidade de pensar com lógica, filosofar e até sonhar.

Um símbolo fala muito mais que palavras; ele induz pensamentos completos que não são estáticos na linha do tempo, mas que se adaptam a cada situação, a cada estágio evolutivo da pessoa e da sociedade. O símbolo é o mesmo, a ideia que o circunda é diferente.

Uma alegoria representa de forma figurada expressões de pensamentos que se não forem traduzidas por ficções tornam-se difíceis, senão impossíveis de analisar com isenção. Os preconceitos e referenciais da cultura induzem enveredar por caminhos tortuosos, difíceis e até errados. Se a dificuldade for muito grande, a mente desiste e desliga o assunto. É semelhante a um ruído monótono e continuo; a mente desliga a capacidade de filtrar aquela informação e a pessoa consegue até dormir. O homem usa de sua capacidade de contar estorinhas para transmitir conceitos de moral e ética complicados aos seus pares, consistindo na principal razão do homem chegar ao ponto de evolução em que se encontra. Não fosse a sua maravilhosa capacidade de contar estorinhas ao redor das fogueiras desde o tempo das cavernas, não teria desenvolvido sua capacidade de pensar e até de sonhar. A Maçonaria abraçou esta intuitiva capacidade de ensinar utilizando-se de símbolos e estorinhas. O maçom nem percebe que está evoluindo em sua capacidade latente de pensar com lógica.

Esta característica de transmitir conhecimento era usada pelos pedreiros operativos no projeto e ensino das tarefas da profissão. Depois do trabalho, duro e estafante, eles reuniam-se de modo fraternal em algum lugar confortável, e lá, ao sabor de bom vinho e boa comida sonhavam e trocavam idéias de como fazer e melhorar em sua arte de construir catedrais. Os sábios que deram origem a Maçonaria perceberam isto e transportaram os hábitos e costumes daqueles pedreiros ao campo da especulação, na construção de catedrais que usam de pedras vivas para edificar a sociedade. Em loja tratam do treinamento formal e disciplinado, e após a reunião, em alegres reuniões os irmãos discutem os mais variados temas de interesse comum do indivíduo ou da sociedade. Assim foi o berço das grandes ações desenvolvidas por maçons que alteraram de forma permanente a história.

É nos momentos de descontração que afloram os potenciais de pensar; semelhante ao tempo em que não existia rádio e televisão, quando as pessoas conversavam e trocavam as mais valiosas informações para o seu crescimento intelectual, emocional e espiritual. É a prática daquela reunião familiar tão comum antes da Primeira Guerra Mundial. É uma sábia forma de escapar da alienação do sistema que escraviza e afasta o homem do estado natural.

O maçom que participa das atividades de sua loja, em todos os aspectos, se humaniza com muito mais facilidade. As duas atividades são importantes e complementares. O ritual comportado e ordeiro das lojas e a descontração livre e solta após os trabalhos complementam-se. É nos momentos de relaxamento que o maçom encontra solução para a maioria de seus problemas do cotidiano. Estes postulados são meticulosamente defendidos por Domenico de Masi e Bertrand Russell. Muitas vezes um simples comentário de um irmão dispara um processo racional para solução de problemas que até então pareciam insolúveis; é a volta para o circulo das fogueiras praticado pelos vetustos homens das cavernas, um hábito que a poucos é dado desfrutar neste mundo recheado de artificialidades.

Muitas vezes uma pessoa que não está contaminada pela emoção ou submetida a um sentimento de culpa desperta soluções na mente do irmão que tem algum problema em sua casa ou escritório.

Em todas as oportunidades da vida moderna o cidadão é instado a preparar-se para o trabalho; são raras ou inexistentes as vezes em que é treinado para o ócio. Nas ágapes festivas após os trabalhos em loja, o maçom reúne-se com outros seres humanos e troca símbolos ou idéias que o ajudam na programação de sua vida profissional e familiar. Há muito tempo, bem antes da loucura de nossa lides estafantes e alienantes que a Maçonaria trabalha assim, preparando o homem para bem usufruir os momentos de descontração. É um ócio criativo que possibilita e fomenta um futuro de qualidade e feliz para o ser humano.

Estes procedimentos complementares das reuniões nas lojas maçônicas liberam intelectualidade, energias psicológicas, morais, emocionais e espirituais. Existe um intercâmbio de sensações, emoções, símbolos e estorinhas que constroem o ser humano para fazer frente às vicissitudes da vida. Esta convivência pacífica e prazerosa desperta o poder dos símbolos latentes em cada intelecto e que foram treinados, até de forma subliminar, na reunião do templo. Cada atitude exterior do maçom reflete uma disposição interior, que foi desenvolvida no templo. Os momentos de descontração e divertimento consolidam aquilo a que o maçom foi exposto em loja. É importante não sair correndo após os trabalhos da loja exatamente devido a esta característica de complementação do que se aprendeu no templo. Ambas as atividades tem igual importância na fixação de tudo o que se aprendeu. Se assim não ocorre na loja é porque existe algum problema que está dispersando os irmãos, e cabe a todos os mestres maçons examinar quais os motivos que levam à debandada dos irmãos após os trabalhos; motivos que podem ser a sinalização de simples apatia até o perigo de degradação dos relacionamentos da irmandade ao ponto de culminar com abatimento de colunas, além de tornar infrutífero tudo o que se desenvolveu durante a sessão.

A confraternização após os trabalhos da sessão é útil e obrigatória. É quando afloram as maravilhas dos símbolos e o ócio criativo em termos práticos. É o momento de gozar das delícias para as quais o corpo humano foi maravilhosamente projetado. Isto porque, o homem não foi feito para o trabalho abusivo e degradante, mas para em suas lides obter prazer e alegria. Os orientais dizem que é devido ao cidadão encontrar um trabalho que ama que ele nunca mais trabalhará na vida. É nos momentos de ócio que a mente humana cria as mais belas obras de arte, seja esta uma arte útil ou inútil. O que interessa é fazer jus de ser maçom, desenvolver para fazer o bem, criar mais e melhores obras que influenciem a sociedade para a honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo.

Autor: Charles Evaldo Boller

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A Chave Escocesa

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O documentário investiga um tema misterioso e enigmático, sujeito a acusações e fantasias de todos os tipos. Presente em todo o mundo, esta associação misteriosa e discreta tem sido objeto de curiosidade, fascínio e suspeita há mais de 300 anos. Atualmente, a Maçonaria tem quatro milhões de membros em todo o mundo e, pela primeira vez, algumas de suas lojas mais antigas revelam documentos que nos permitem ver este mundo até então obscuro sob uma nova perspectiva.

É um vídeo essencial, junto ao livro de David Stevenson, para a quebra de alguns paradigmas que ainda são defendidos por alguns maçons brasileiros.

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Vontade e livre-arbítrio em Schopenhauer

determinismo

Em sua obra principal, O mundo como vontade e como representação (MVR), Schopenhauer utiliza como base de suas considerações a divisão kantiana entre coisa em si e fenômeno (ou representação). Tal divisão remete a uma perspectiva filosófica que considera sujeito e objeto como elementos interdependentes. Quando vejo uma mesa, por exemplo, aquilo que vejo, com formas, cores etc., não existe como tal fora da imagem em minha mente, embora não se possa dizer tampouco que a cadeira foi criada pela minha mente, uma vez que o que chamo “minha mente” não pode existir sem imagens, lembranças, perceptos, pensamentos, em suma, sem objetos. Esse mundo que aparece para mim, ou mundo como representação, só existe, portanto, “entre” o sujeito e o objeto — ele pressupõe os dois.

Assim, Schopenhauer critica as teorias que tentam derivar o sujeito dos objetos – como fazem, por exemplo, aqueles que consideram a mente como um epifenômeno do cérebro –, ou os objetos do sujeito – como fazem aqueles que acreditam que todo o mundo é uma invenção da mente do sujeito. A tentativa de derivar um do outro só pode ser efeito de uma aplicação equivocada do princípio da causalidade. Esse princípio delineia o “funcionamento” do mundo como representação, é uma de suas “regras”, ou um aspecto da “estrutura”de tal mundo. Assim, seria absurdo tentar usá-lo para explicar a própria formação de tal mundo: seria mais ou menos como tentar explicar a origem do xadrez a partir das regras do xadrez.

Tudo que existe para mim enquanto sujeito que percebe e pensa é representação. Como sujeito, só tenho acesso às representações. Entretanto, para além de ser sujeito, observa Schopenhauer, sou também um indivíduo. Isto é, meu “[…] conhecimento, sustentáculo condicionante do mundo inteiro como representação é no todo intermediado por um corpo, cujas afecções […] são para o entendimento o ponto de partida da intuição do mundo” (MVR, § 18). Eu não sou, portanto, como parecem pensar alguns, uma “cabeça de anjo alada destituída de corpo”, puro sujeito transcendental. Embora seja verdade que o grande ideal de Schopenhauer é algo bastante próximo da transformação do indivíduo em uma versão irracionalista dessa tal cabeça de anjo alada, de modo que, ao fim de tudo, ele nega o corpo do tanto quanto Platão ou Agostinho — mas esse tema fica para outro post.

Meu corpo, observamos, aparece para meu entendimento como representação. Entretanto, também tenho acesso a ele de modo completamente diverso através da minha vontade. Meu corpo aparece para mim, portanto, de duas maneiras completamente diferentes: uma vez como intuição do entendimento, ou seja, como representação, e outra vez como vontade, ou seja, de maneira direta, não representada. Essas duas maneiras de aparição, é importante que fique claro, são aparições de uma única e mesma coisa – coisa esta que chamo de meu corpo quando ela aparece como minha representação e chamo de minha vontade quando ela aparece imediatamente em si mesma, como consciência de si. Dizendo de outro modo: meu corpo não tem uma vontade, ele é uma vontade aparecendo como representação.

Ora, se meu corpo, que é um objeto como outro qualquer, nada mais é, fora da representação, do que vontade, por que não concluir que o mesmo vale para todos os demais objetos? Não, evidentemente, que uma pedra ou uma árvore tenha consciência de si, mas isso não significa que ela não seja, como meu corpo, uma objetificação da vontade (ou seja, a vontade na forma de representação) – é, apenas, uma objetificação não consciente de si. Evidentemente, o termo “vontade” foi aqui expandido para coisas que não se enquadrariam no conceito ordinário de vontade, de tal modo que “estaria sempre numa renovada incompreensão quem não fosse capaz de levar a bom termo a aqui exigida ampliação do conceito de vontade, entendendo por esta palavra tão somente a espécie designada até agora pelo termo, acompanhada de conhecimentos segundo motivos, e motivos abstratos, logo, exteriorizando-se a si mesma sob a condução da faculdade racional que, como foi dito, é apenas o fenômeno mais nítido da vontade” (MVR, § 22, destaques no original).

Estamos agora, portanto, no domínio de uma vontade inconsciente. E se a vontade pode ser inconsciente na árvore ou na pedra, por que ao menos parte dela não poderia ser também inconsciente no humano? E, por outro lado, se a vontade na pedra ou na árvore não implica livre-arbítrio, por que implicaria no humano? Seria a consciência de si suficiente para explicar o livre-arbítrio?

 Esta última pergunta é muito próxima daquela que Schopenhauer buscou responder em um ensaio formulado para um concurso de filosofia, depois publicado na forma de livro, junto com outro texto, sob o título Os dois problemas fundamentais da ética. A pergunta tema do concurso era: pode o livre-arbítrio da vontade humana ser deduzido da consciência de si? A pergunta, é claro, implica diretamente outra: a vontade humana pode ser considerada livre?

Muitas vezes, dizer que a vontade é livre significa simplesmente dizer “eu posso fazer o que eu quero”. Entretanto, observa Schopenhauer, ter livre arbítrio em sentido forte não significa simplesmente poder fazer aquilo que se tem vontade – pois isto é evidentemente possível –, mas sim saber se a própria vontade é determinada ou não por algo exterior a ela.

O problema da determinação da vontade é de fato capcioso, pois se pergunto: “o que determina a minha vontade?”, as respostas de um defensor do livre-arbítrio só podem ser “eu” ou “nada”. Ora, se sou eu que determino a vontade, isso significa pressupor um “eu” de certa natureza que determina necessariamente a vontade. Dizer que “eu” determino minha vontade só faz algum sentido na defesa do livre arbítrio se “eu” não é determinado por nada, de modo que apenas prorrogamos a resposta “nada” em uma etapa. Porém, pergunta-se Schopenhauer, o que seria algo que não é determinado por nada?: “O que seria do mundo se a necessidade não permeasse todas as coisas e as mantivesse em seus lugares, e em particular não presidisse sobre a procriação dos indivíduos? Uma monstruosidade, um amontoado de pedaços desconexos, uma careta sem sentido – em outras palavras, o trabalho de genuíno e verdadeiro acidente” [1].

Assim, se seguirmos a razão, sempre caímos ou na necessidade ou em seu oposto, o acaso. O livre arbítrio não é coerentemente pensável. Isso, para Schopenhauer se deve ao fato de o mundo como representação pressupor causalidade e, portanto, necessidade. Nada pode ser livre como representação. A liberdade só poderia ser uma característica daquilo que existe fora da representação, isto é, da Vontade – pois, aí, as noções de acaso e necessidade não fazem sentido. Em resumo: a vontade só pode ser considerada livre como Coisa em si, mas, na medida em que se torna representação, que aparece como minha vontade individual para minha consciência, ela já estaria determinada.

Entretanto, o próprio Schopenhauer precisa rever, posteriormente, a inexorabilidade da determinação da vontade individual para dar conta da possibilidade de autosuprimir a vontade, o ato ético por excelência em sua filosofia. Ele encontra para este ato um lugar especial que nos faz questionar, dentro de seu próprio sistema, até que ponto como sujeitos teríamos uma vontade sempre já determinada. Uma vez que tal supressão da vontade teria que ser um ato livre, e mesmo contra a vontade, ele não poderia advir do sujeito empírico previamente determinado, mas somente da Vontade livre como uma espécie de força externa, mesmo que tenha que derivar do sujeito: “aquela negação do querer, aquela imersão na liberdade não é obtida por força de resolução, mas procede da relação mais íntima entre o conhecimento e o querer no homem; chega, em consequência, como de fora voando. Por isso, justamente, a Igreja denominou esse acontecimento efeito da graça” (MVR, § 70).

Ficamos ao final, portanto, com uma ambivalência teórica que não se afasta tanto, nesse ponto específico, do referencial cristão. O que creio ser mais relevante, porém, no tratamento schopenhaueriano do livre-arbítrio, é a constatação de que embora a liberdade da vontade não possa ser coerentemente pensada através de conceitos, uma vez que, em última instância sempre caímos ou no determinismo ou no acaso, isso não significa que sua possibilidade esteja negada.

Autor: Daniel B. Portugal

Fonte: Filosofia do Design

Nota

[1] – SCHOPENHAUER, A. The two fundamental problems of ethics. Cambridge: Cambridge University Press, 2009, p. 80, tradução minha.

Mickey e BARNEY pROMO

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Os Fins Justificam os Meios

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Continuo a falar de ­Maquiavel. Ele nunca disse que os fins justificam os meios. Afirmou, sim, em sua obra mais célebre, O Príncipe, que devemos agir segundo a moral sempre que possível, infringindo-a somente quando for isso necessário. A regra é o bem, mas o mal pode ter seu uso. Isso, porém, não significa fazer o mal ao bel-prazer, menos ainda ser mau. O default, o padrão deve ser a bondade. Mas o mal tem suas condições de serventia. É como se não devêssemos nunca “ser” maus; no limite, aliás, o príncipe de Maquiavel nunca deveria “ser”; ele sempre representaria. O famoso conselho atribuído a Tancredo Neves – o político nunca deve ter um amigo com quem não possa romper, um inimigo com quem não possa se reconciliar – vale aqui. Ele seria, melhor dizendo – para aproveitar a riqueza única de nossa língua e do espanhol, idiomas que distinguem ser e estar – “estaria” geralmente bom, eventualmente mau.

Mas bastou a observação de que o mal, às vezes, tem seu valor, para lançar contra Maquiavel toda a moral de base religiosa. Seu livro foi incluído pela ­Igreja no Índex dos Livros ­Proibidos. Mas Maquiavel não pretendia dizer coisa nova, nem sugerir que os príncipes e reis, que antes teriam sido homens bons, justos, religiosos, se tornassem canalhas. Alguns explicam desse jeito porque ele escreveu quando a Itália estava devastada por guerras, em que abundavam crueldade e má-fé. Porém, os exemplos que dá vêm de todas as épocas, desde a Antiguidade. Ele propõe uma nova compreensão do que sempre fizeram os governantes, e não uma nova forma de agir.

O príncipe tem uma meta, ­mantenere lo stato. A tradução literal é “manter o [seu] estado”, ou condição, de príncipe. (Foi a partir dessa passagem de Maquiavel que a palavra stato passou a significar, também, “Estado”.) Para tal fim, ele deve empregar meios justos, mas, se preciso, usar os injustos. Só nesse caso os fins justificam os meios.

Assim, o príncipe lida com o mal menor e o mal maior. O mal maior é perder a condição de príncipe e o ­Estado que governa; o mal menor é fazer o mal. É difícil dizer que esteja errado. Todo governante age assim, por exemplo quando descumpre promessas de campanha, seja para salvar a economia de uma crise, como tantas vezes vimos no Brasil, seja para promover mudanças maiores na sociedade.

Mais que isso, o que ele faz, fazemos todos. Vários comentadores dizem que há uma Ética da Política e uma do indivíduo privado. Nós, simples cidadãos, teríamos a liberdade (ou a obrigação) de seguir à risca os valores, sem deságio, sem precisarmos cometer males menores. O governante não – porque é responsável não só por si próprio, mas também por todos nós, e isso exige que, para promover o bem de muitos, eventualmente faça mal a alguns. Por sinal, foi esse um tema utilitarista forte no século XIX: se para salvar quatro pessoas precisasse matar uma, isso seria certo (cito uma passagem de O vermelho e o negro, romance de Stendhal). No final das contas, todos os governos são utilitaristas, são levemente maquiavélicos. Mas nós também o somos.

Dou todo ano um curso de Ética para jornalistas, uma das profissões que mais vivem a situação de cumprir ordens com as quais não concordam – sendo que, pior do que um mecânico, eles assinam o texto que lhes mandam fazer. A pergunta é óbvia: cidadãos comuns que eles são, indivíduos privados, por que não se demitem? Porque não dá. Pensam nos filhos, na prestação ou aluguel da casa, no futuro profissional que pode ficar ameaçado. Mas não é isso o que fazemos todos, em alguma medida? Não temperamos nossas decisões altamente morais com o arroz com feijão da sobrevivência, não procuramos manter o estado de nossas finanças? Atire a primeira pedra em Maquiavel quem nunca sofreu por demissão.

Tinha razão Merleau-Ponty: ­Maquiavel é um pensador ético, e, em nosso tempo, a Ética exige que ponderemos não só, em abstrato, o tema a decidir, mas também suas consequências prováveis. O pai que, indignado com uma humilhação na empresa, pede as contas, pode mostrar-se digno; mas, se com isso puser em risco a vida dos filhos, pode estar entre o irresponsável e o egoísta.

Autor: Renato Janine Ribeiro

Fonte: Revista Filosofia

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O Olho da Providência no Simbolismo Maçônico

 

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Diferentemente de alguns dos símbolos adotados na maçonaria, como o compasso, o esquadro e outros que notadamente são artefatos criados pelo homem e de uso corrente na maçonaria operativa, o Olho da Providência contido dentro de um triângulo é, em si mesmo, um símbolo de símbolos, que procura, de um modo peculiar, nos transmitir a ideia de onisciência do Grande Arquiteto do Universo.

Para entendê-lo – e nesse particular ele se comporta como os demais símbolos – é preciso que empreendamos uma longa viagem ao passado, embora saibamos que sua origem real estará sempre além, nos confins do tempo, da capacidade humana de documentar ideias.

Egípcios, acádios, assírios e babilônios

Começamos, como qualquer pesquisador que queira entender a simbologia adotada pelas sociedades ocidentais, a procurar as raízes do Olho da Providência nas civilizações antigas, em especial na egípcia e suas contemporâneas da Mesopotâmia. E, na nossa caminhada, vamos acabar por constatar que em todas as culturas originárias daquela região, como as dos assírios, babilônios e acádios, além dos próprios egípcios, reverenciava-se um deus que era representado por um anel alado.

anel-alado-assirioAnel alado Assírio (foto tirada no Museu Britânico por Robin Edgar)

Parece haver consenso entre os estudiosos de que o anel alado é uma referência ao Sol, que cruza os céus do oriente ao ocidente, “voando sobre a Terra” como se tivesse asas.

Há uma hipótese um pouco mais elaborada, mas nem por isso destituída de fundamento, de que o anel alado representaria o eclipse do sol. A julgar pela foto abaixo, isso é bem plausível. E, se assim for, é possível que uma derivação do anel alado (e do eclipse que ele representaria) tenha dado origem à lenda da Fênix. Mas essa é uma outra história…

eclipse-do-solEclipse do Sol, foto de Steve Albers

Ao longo dos mais de cinco mil anos de história do Egito antigo, o símbolo do anel alado passou por algumas mutações e o anel foi gradualmente deixando de ter a forma primitiva para se transformar em um olho.

olho-aladoO Olho alado egípcio (foto tirada no Museu Britânico por Robin Edgar, em agosto de 1999)

Talvez tenha sido nessa mesma época que, para os egípcios, o olho passou a ser um atributo da deusa Maat[1].

Maat (ou ma’at), filha de Ra[2] , o Deus-Sol, era, para os antigos egípcios, o conceito da verdade, justiça e equilíbrio. Os juízes, por exemplo, eram considerados sacerdotes de Maat.

Sentada no Salão de Julgamento de Osíris, Maat julgava as almas dos mortos. O olho de Maat podia ver tudo e era com base nesse poder que a deusa decidia se, pelos atos praticados, o recém-falecido tinha ou não o direito a uma nova oportunidade de vida e qual seria ela. Sem Maat, portanto, o processo de criação e de renovação do Eu, que era parte da tradição egípcia, ficaria comprometido.

Com o tempo, porém, Maat acabou emprestando seu símbolo a Hórus, e o olho passou a ser associado àquele deus.

A Lenda de Hórus

Hórus era um dos mais importantes deuses egípcios. Um deus-sol representado como um falcão, ou como um homem com cabeça de falcão, cujo olho direito representava o Sol e, o esquerdo, a Lua.

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Diz a lenda que durante a batalha com Set para vingar o assassinato de Osíris, seu pai, Hórus teve seu olho arrancado e cortado em pedaços. Depois da vitória, o olho foi recomposto por Thot[3].

O símbolo era um amuleto poderoso. Considerava-se que trazia sabedoria, saúde e prosperidade. O olho era pintado em barcos e outros objetos pedindo proteção divina. Jóias representando o olho eram colocadas com os mortos e pintadas nos sarcófagos. Era chamado de udjat ou utchat.

O Olho de Hórus tinha um significado muito peculiar. Era representado como uma figura com 6 partes, que correspondiam a seis sentidos – Tato, Paladar, Audição, Pensamento, Visão, Olfato. O olho era o receptor e processador desses sentidos. Algo assim como se tivesse as funções que hoje em dia atribuímos ao cérebro.

Sua construção seguia leis muito precisas. Os sentidos eram ordenados de acordo com sua importância e de acordo com quanta energia deveria “alimentar” o olho para que um indivíduo recebesse uma determinada sensação. Todos os dados sensoriais eram “alimentos”.

A partir de aproximadamente 1200 a. C., o sistema de medida egípcio passou a adotar o Olho de Hórus para representar um sistema de quantificação fracionária.

O olho inteiro media 1 heqat. E cada uma das partes do olho media frações do heqat.

Estas eram as partes do Olho de Hórus e as frações e sentidos[4] correspondentes:

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Pitágoras e a Trindade

Filósofo e matemático grego nascido no ano de 580 a.C na cidade de Samos, Pitágoras deixou sua terra natal para escapar da tirania de Polícrates e foi para o sul da Itália em aproximadamente 518 a.C. (antes, segundo alguns). Iamblico, um de seus maiores biógrafos, dá outras razões para sua partida e faz um comentário sobre a resposta dos samianos aos métodos pedagógicos usados pelo sábio:

“… ele tentou usar seu método simbólico de ensinar que era similar em todos os aspectos às lições que ele havia aprendido no Egito. Os samianos não eram muito afeitos a esse método e o trataram de maneira rude e imprópria.”

Em Croton (hoje Crotona), Pitágoras fundou uma ordem ou escola filosófico-religiosa que teve muitos seguidores. Seus discípulos mais próximos eram conhecidos como mathematikoi.

Os mathematikoi viviam permanentemente na escola, não tinham posses pessoais e eram vegetarianos. Usavam como símbolo uma estrela de cinco pontas que era marcada em suas mãos. Obedeciam regras rígidas e eram ensinados pelo próprio Pitágoras, que defendia que:

no seu nível mais profundo, a realidade é o número (e, por extensão, a matemática) aplicado à natureza;

  • a filosofia pode ser usada para a purificação espiritual;
  • a alma pode elevar-se e unir-se ao divino;
  • certos símbolos têm uma significação mística, e;
  • todos os irmãos da ordem deveriam observar lealdade rígida e segredo.

Não obstante seus biógrafos atribuam seu nome a uma homenagem a Pítia, profetiza do templo de Apolo, em Delfos, mais a palavra ágora, que significa lugar (de pessoas), me atrevo a sugerir uma outra etimologia para ele. Segundo o Houaiss, ágora é a praça principal das antigas cidades gregas, local em que se instalava o mercado e que muitas vezes servia para a realização das assembleias do povo; formando um recinto decorado com pórticos, estátuas etc., era também um centro religioso. A ágora ἀγορά, também “assembleia”, “lugar de reunião”, derivada de ἀγείρω, “reunir” é um termo grego que significa a reunião de qualquer natureza, geralmente empregada por Homero como uma reunião geral de pessoas. Parece ter sido uma parte essencial da constituição dos primeiros estados gregos.

Como é sabido, Pitágoras, ainda jovem, percorreu a maior parte do mundo civilizado daquela época colhendo os conhecimentos que seriam a base para seus futuros ensinamentos. Concentrou-se especialmente no Egito e de lá trouxe certamente tudo o que se poderia saber então sobre a arte de construir, ainda que, é bom que se diga, a nação que um dia tivera Ramsés II como faraó já não vivesse seus dias de maior esplendor.

Foi lá, provavelmente com os sacerdotes do deus Ptah – deus egípcio dos construtores, arquitetos, pedreiros, escultores, artesãos, ferreiros e artistas – que Pitágoras tomou contato com as técnicas de divisão da circunferência que levou para a Grécia, assim como deve ter sido nos templos de Hórus que aprendeu as noções de retidão, justiça e de saúde que transmitia a seus discípulos.

Como Ptah é não só o deus, mas o conjunto de qualidades inerentes a ele, todos os discípulos de Ptah encarnavam, pela prática de seus conhecimentos, o próprio deus. Dessa forma, como o sábio grego teria se tornado, quando no Egito, um discípulo de Ptah, era, ele mesmo, um Ptah. Assim, por haver criado um centro de estudos onde repassava os conhecimentos que obteve dos egípcios, é razoável supor que seu nome seja proveniente das ágoras em devoção a Ptah, tornando-se, por isso, Pitágoras…

Tudo o que se sabe de Pitágoras nos foi transmitido por terceiros, seus discípulos ou não. Um fato curioso é que as particulares relações entre os lados do triângulo retângulo, cujo teorema leva o seu nome e pelo qual ganhou fama, já eram conhecidas 1.000 anos antes de seu nascimento, pelos babilônios.

Pitágoras interessava-se por todas as questões inerentes ao homem, ao universo e à natureza de forma geral. Foi ele, por exemplo, quem percebeu que a órbita da Lua era inclinada no equador da Terra e foi também um dos primeiros a constatar que uma determinada estrela que era vista durante o anoitecer nada mais era do que Vênus, a estrela d’alva.

O que era fundamental para Pitágoras era a autenticidade do auto-conhecimento, a fim de que este fosse aplicado para o bem dos outros homens através do ensinamento santo e sagrado relativo à Tríade divina[5].

Por meio do estudo dos polígonos, Pitágoras deu-se conta de que Deus tinha uma lógica para a criação de cada coisa. Bastava descobri-la.

A questão da Tríade ou Trindade como um símbolo de Deus pode ser explicada da seguinte forma:

  • Os pitagóricos certamente acreditavam que o Grande Arquiteto do Universo, na sua perfeição, jamais iria criar algo que não fosse originalmente perfeito;
  • Julgavam que apenas os polígonos regulares[6] eram perfeitos;
  • Acreditavam que era possível criar qualquer figura geométrica regular utilizando, para tanto, apenas os pontos contidos no círculo;
  • Provavelmente, pensavam que a circunferência era uma metáfora do universo, onde a Origem era representada pelo ponto central[7];
  • Perceberam, também, que nenhum polígono pode ser criado dentro do círculo apenas com o ponto central, nem tampouco com o ponto central e mais outro ponto, já que dois pontos podem ser antagônicos[8]. Mas que, com três pontos, subitamente era revelada a glória da criação e nascia o mais simples e fundamental dos polígonos regulares: o triângulo equilátero;
  • Concluíram que o terceiro ponto é que justificava os outros dois, já que, para que houvesse a criação – e, portanto, para que o Criador também passasse a existir[9] – os três se tornavam mutuamente necessários, sem qualquer hierarquia entre eles.

Pontos são “apenas” pontos, por definição.

Para que exista a circunferência é necessário um ponto central. Para que o triângulo equilátero seja criado – ou seja, para que se realize a criação inicial, que precede todas as outras – são necessários três pontos ou, metaforicamente, três Forças Criadoras que poderíamos chamar, por exemplo, de Sabedoria, Força e Beleza ou Pai, Filho e Espírito Santo.

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Os pitagóricos possivelmente as representavam assim através do desenho geométrico:

São três circunferências essencialmente iguais, indiferenciadas, da mesma forma que o são os três pontos centrais que lhes dão Origem. Os pontos são indistintos, porque não há como distinguir pontos. Quem conhece um conhece todos e quem conhece todos conhece apenas um. São iguais entre si. Podemos chamá-los de a, b e c, mas isso não os individualizará. Dado um ponto, jamais saberemos se é o a, o b ou o c. Não um ponto no papel, é claro; mas um ponto no espaço, no “éter”, na mente de um ser humano. Um ponto que é uma abstração, como é uma abstração qualquer ideia que se faça de Deus.

O triângulo, ou criação fundamental, é emanado dos três pontos sem que haja prevalência de qualquer um deles. Mas somente a junção dos três propicia a criação. Portanto, são os três que constituem a força única, o Criador, capaz de gerar o universo e todos os seus seres. Os três juntos são Um, o Único que é capaz de criar.

É esse triângulo, responsável pela existência simultânea de Criador e Criatura, que os pitagóricos reverenciavam e que o cristianismo adotou como seu.

A solução de Rinaldini e a Vesica Pisces

Desde as civilizações antigas o homem busca fórmulas gerais para a divisão da circunferência[10]. Os primeiros de que se tem notícia nessa busca foram os sacerdotes egípcios. Mas eles eram iniciados, e as técnicas construtivas que desenvolviam eram segredos que compartilhavam apenas com seus iguais e com seu deus Ptah. O pouco que se sabe sobre o que descobriram é pela análise de suas obras.

Depois, já com os filósofos e matemáticos gregos, a começar pelo próprio Pitágoras, a geometria foi se popularizando. Mas, talvez pelo fato dos matemáticos gregos não utilizarem pontos localizados fora do círculo para criar polígonos, não chegou aos nossos dias nenhuma teoria daquela época que fosse genérica, capaz de permitir a divisão do círculo em qualquer número de partes.

Somente no século XIII, Etienne Tempier, bispo de Paris, que condenava várias das proposições dos filósofos helênicos, desenvolveu uma solução para o problema, que até hoje faz parte dos currículos escolares. Carlo Rinaldini (1615-1698) e Nicolas Bion (1652-1733), também estudaram a questão e lançaram, cada um deles, processos que permitiam dividir o círculo em um número qualquer de partes, sendo o de Rinaldini considerado o melhor dos três.

Não vamos aqui detalhar o processo de Rinaldini, mas julgamos essencial apresentar sua aparência para que se perceba do que estamos falando.

solucao-de-rinaldiA solução de Rinaldini para a divisão da circunferência

Curiosamente, como o leitor certamente já terá deduzido, a utilização da solução de Rinaldini é, no seu cerne, guardadas as proporções, comparável à do Olho de Hórus para a divisão do inteiro em várias frações.

Um outro fato interessante é que, para obter sua solução, Rinaldini, que certamente conhecia bem o que chamamos de geometria sagrada, recorreu à Vesica Pisces[11] – muito utilizada pelos artistas do renascimento e pelos construtores dos arcos góticos – que é uma figura formada pela intersecção de duas circunferências que se tocam nos respectivos centros, como se vê na figura abaixo:

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A Vesica Pices (área hachurada) tem uma propriedade que é muito particular: da relação entre os segmentos AB e CD nasce a raiz quadrada de 3, o que nos remete novamente à instigante natureza da trindade.

Detalhando um pouco mais, temos que:

Se dois círculos compartilham o mesmo raio (AB), sua intersecção cria a Vesica Pisces, onde CD dividido por AB é igual à raiz quadrada de 3, que é igual a 1,732.

A Vesica Pisces tem inúmeras conotações e correlações, boa parte delas dentro da tradição cristã, mas também está relacionada às pirâmides, astronomia, cabala etc.

Conclusão

Cremos que, por tudo o que os estudos de Pitágoras e seus discípulos representaram para o desenvolvimento das técnicas construtivas e para a evolução da humanidade, é razoável supor que o Olho da Providência contido no triângulo, e que é adotado como símbolo maçônico, tenha sido uma justa homenagem a quem, como eles, buscou incessantemente uma solução geral para a divisão da circunferência. Foram, não só por isso, mas também pelo conjunto de suas idéias, de fundamental importância para o aparecimento da nossa ordem. Como grande estudioso da geometria, no que tange a dividir o círculo em partes iguais, Rinaldini, que viveu mais de 2.000 anos depois de Pitágoras, talvez possa ser considerado o seu mais destacado discípulo, pois concluiu com êxito e perfeição a obra que o sábio e revolucionário mestre grego iniciou.

O símbolo do olho omnividente, no entanto, aparentemente jamais deixou de ser usado. Segundo S. Brent Morris, Past Master da loja Patmos nº 70, de Ellicott City, Maryland, EUA:

“Era parte da iconografia cultural popular nos séculos XVIII e XIX. Como foi durante esse período que o ritual e o simbolismo maçônico evoluiu, não é surpresa que muitos dos símbolos comuns e conhecidos pela sociedade em geral tenham sido levados para as cerimônias maçônicas. Em 1614, por exemplo, o frontispício de ‘A história do mundo’, de Walter Raleigh, mostrava um olho numa nuvem com o título de ‘Providentia’.”

Aquele que parece ter sido o primeiro uso “oficial” do Olho da Providência pela maçonaria, se deu (embora sem mencionar o triângulo) na publicação The Freemasons Monitor, quase 100 anos depois da morte de Rinaldini. Dizia, então, Thomas Smith Webb a esse respeito:

“E embora nossos pensamentos, palavras e atos possam ser ocultados dos olhos dos homens, o Olho-que-tudo-vê, ao qual o Sol, a Lua e as estrelas obedecem, e sob cujo atento cuidado os cometas fazem suas estupendas revoluções, penetra nos recessos mais interiores do coração humano e nos recompensará de acordo com os nossos méritos.”

Coincidência ou não, quatorze anos antes, os fundadores dos Estados Unidos da América já o tinham utilizado no Grande Selo da então nova nação, embora dos quatro homens que participaram da elaboração daquele brasão apenas Benjamin Franklin fosse maçom.

Devemos lembrar, estando nossa tese correta, é claro, que foram agregados ao desenho de Rinaldini alguns traços para que, efetivamente, ele corresponda à anatomia de um olho humano. Mas essa qualidade “humana”, me parece, não faz jus àquele a quem o símbolo realmente quer representar. Mesmo porque, o que de fato representaria o Grande Arquiteto do Universo nessa simbologia não é o olho como um todo, mas sua pupila. Além do triângulo, é claro!

Embora os templos do Palácio Maçônico, em São Paulo, exibam o triângulo contendo um olho esquerdo, nas pesquisas realizadas nada foi descoberto que pudesse indicar essa preferência. No entanto, parece haver um certo consenso entre estudiosos de que o olho representado dentro do triângulo deveria ser o da onisciência ou onividência, também chamado de olho frontal ou “terceiro olho”, com o qual a solução de Rinaldini parece ter mais identidade.

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Para finalizar este artigo, talvez valha a pena fazer um apanhado geral de algumas das coisas que o Olho da Providência envolto pelo triângulo potencialmente representa: o Sol, a Lua, a onisciência do Grande Arquiteto do Universo, a verdade, a justiça e o equilíbrio, o retorno à vida pela reencarnação (eis a fênix mais uma vez), os sentidos, a justa medida, a prosperidade, a lógica do pensamento divino, a trindade, os cristãos, a saúde, a essência da criação e, do ponto de vista estritamente geométrico, a maravilhosa possibilidade de divisão do círculo em partes iguais, que, em última análise, tem sido a responsável pelo progresso da humanidade. É realmente fantástico que um único símbolo contenha em si todas essas ideias!

Mas, para quem se dedica a entender a geometria sagrada, esse símbolo guarda ainda uma última mensagem, talvez a mais especial, qual seja: Tudo emana do centro, do ponto central onde todas as coisas existem, em estado latente, pela vontade do Grande Arquiteto do Universo, esperando ser tornadas reais pela mente e obra humanas.

Autor: Sérgio Koury Jerez

Fonte: BIBLIOT3CA

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Notas

[1] – Maat, Ísis, Osíris, como Amon, Ptah, Hórus etc., não eram, efetivamente, deuses ou deusas. Eles eram o que os egiptólogos chamam de neter, ou seja, aspectos, funções, atributos de um Único e Supremo Deus. O neter, erroneamente traduzido como deus ou deusa, era a personificação de energias, poderes, forças que, através de suas ações e interações criaram, mantiveram e continuavam a manter o universo.Não obstante, continuaremos a utilizar a denominação deus ou deusa ao longo deste artigo, por julgarmos que o leitor está mais familiarizado com ela do que com neter.

[2] – Às vezes também, nas lendas egípcias mais antigas, confundido com Hórus.

[3] – Thot ainda usou de magia para restaurar uma parte do olho, referente a 1/64, que havia sido perdida.

[4] – Existem associações e deduções interessantes feitas com base nas relações entre sentidos e frações. Vide, por exemplo, na Internet:

http://www.aloha.net/~hawmtn/horus.htm http://www.sangraal.com/library/eyesofhorus.htm

[5] – Pitágoras acreditava que a própria Tríade não poderia ser compreendida a não ser que se considerasse  sua relação com o Ponto. O Ponto, por sua vez, não poderia ser captado senão como Um com relação à Díade. E a Mônada e a Díade não poderiam ser completamente entendidas a menos que também fossem vistas em termos da Tríade. E assim as séries de números prosseguiam.

[6] – Que possui todos os lados congruentes e todos os ângulos congruentes.

[7] – Nesse aspecto, é intrigante como a teoria do Big Bang, respeitadas as diferenças de objetivo, é uma cópia mais elaborada da forma de pensar dos pitagóricos.

[8]“Mas toda tensão entre opostos culmina em liberação, da qual surge o “terceiro”. No terceiro, a tensão é resolvida e a unidade perdida é restaurada.” Carl G. Jung

[9] – Pois sem criatura não existe criador e vice-versa.

[10] – É preciso lembrar, nesse particular, que a procura por soluções desse tipo era considerada – como até hoje pode ser – uma busca para entender a forma de pensar do Grande Arquiteto do Universo. Ou seja, dividir a circunferência para que se possa criar todos os tipos de polígonos regulares é um dos primeiros passos rumo à compreensão da Suprema Inteligência.

[11] – Do latim. Que, em português, significa bexiga de peixe.

Bibliografia

Aslan, Nicola – Estudos Maçônicos Sobre Simbolismo – Rio de Janeiro, Ed.Aurora. Boucher, Jules – A Simbólica Maçônica – São Paulo, Ed. Pensamento. Campbell, Joseph – As Máscaras de Deus – São Paulo, Ed. Palas Athena, 1992. Campbell, Joseph – O Poder do Mito – com Bill Moyers, 1a edição, 2a reimpressão, São Paulo, Ed. Palas Athena, 1991. Cirlot, Juan-Eduardo – Dicionário de Símbolos – São Paulo, Ed. Moraes Ltda, 1984. Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda – Novo dicionário da língua portuguesa – 1a edição, 15a impressão, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro. Gebara, Ivone – Trindade, palavra sobre coisas velhas e novas: uma perspectiva ecofeminista – São Paulo, Paulinas, 1994. Hawking, Stephen – Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros – Rio de Janeiro, Ed. Rocco Ltda, 1988. Hawking, Stephen – O Universo numa casca de noz – São Paulo, Ed. Mandarim, 2001. Putnoki, José Carlos – Elementos de Geometria e Desenho Geométrico vol.II – São Paulo, Ed. Scipione Ltda, 1991 Schuré, Édouard – Os Grandes Iniciados – São Paulo, IBRASA, 1985

Iyer, Raghavan – Pythagoras and his school – Santa Barbara, Concord Grove Press, November 1977 – http://theosophy.org/tlodocs/PitágorasandHisSchool.htm

Morris, S. Brent – The eye in the pyramid –                        http://www.srmason-.org/council/journal/dec99/morris.html

O’Connor J. J. e Robertson E. F. – Pythagoras of Samos – http://turnbull.dcs.st-and.ac.uk/~history/Mathematicians/Pythagoras.html

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Por que Masmorras e não Guilhotinas?

 

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Quando entramos para a Maçonaria é comum sermos questionados sobre o que fazemos nas Lojas. Aprendemos sobre isso nos rituais: Levantamos templos à virtude e cavamos masmorras ao vício. Infelizmente não podemos explicar dessa forma porque o entendimento depende da experiência vivenciada dentro das Lojas.

Assim como tudo que se encontra na Maçonaria, essa expressão também é rica de significados, por mais simples que possa parecer, e se conecta harmonicamente ao sistema de símbolos que ilustram nossos trabalhos.

A começar pela Iniciação: nos é revelado o conceito de vício e virtude. O primeiro, em especial, entende-se ser “um hábito desgraçado”.

Segundo dicionário online de português, o significado de hábito é:

  • Mania; ação que se repete com frequência e regularidade; comportamento que alguém aprende e repete frequentemente;
  • Costume; maneira de se comportar; modo regular e usual de ser, de sentir ou de realizar algo;
  • Prática repetida que se torna conhecimento ou experiência.

Ora…se temos um hábito ou costume de fazermos ou nos comportarmos de forma que nos prejudique ou prejudique a outrem, a curto ou longo prazo, entende-se ser um hábito ruim, um hábito desgraçado, um vício.

O exercício de olhar para si mesmo não é natural. Nossos olhos só têm acesso a nós mesmos quando olhamos no espelho; nossos ouvidos não escutam nossa voz da mesma forma como ela é proferida; os nossos sentidos nos proporcionam o reconhecimento do mundo à nossa volta, e não do nosso interior. Fisiologicamente somos constituídos para interagir com o externo; para trabalhar o interno é necessário um “aprendizado”.

E qual é a grande missão do Aprendiz? É conhecer a si mesmo. É saber (ou reconhecer) seus defeitos, suas forças, seus medos, seu potencial; para que essa consciência lhe sirva de base para tomar uma atitude (a Vontade é um atributo indispensável ao Maçom) quando se fizer reconhecer um “hábito desgraçado”, ou mesmo uma virtude que possa ser explorada.

Desbastar a Pedra Bruta é fazer esse exercício. Exige um trabalho de introspecção para identificar o gatilho destes hábitos. E quando descobrimos o que os dispara, podemos decidir o que fazer: seguir no hábito ou contê-lo.

E esta é a chave para o entendimento da expressão “Masmorras”. Desenvolver vícios é um atributo inerente à nossa constituição humana e material. Não é possível extingui-los, mas sim, contê-los, trancá-los nas masmorras do nosso mais profundo íntimo, para que não atuem em nossos comportamentos ou interfiram em nosso Ser.

Desbastar a Pedra Bruta é começar o caminho da espiritualização.

Autor: Leonardo Chaves Moreira

Leonardo é Mestre Maçom, membro da ARLS Águia das Alterosas, nº  197,  jurisdicionada à Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, do oriente de Belo Horizonte.

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Destino, Liberdade e Ética

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        “O confronto entre a Razão e o Destino é prova decisiva da reflexão filosófica” Henrique Claudio de Lima Vaz

Provavelmente, em algum momento de extrema angústia, perplexo, você ergueu os olhos aos céus e, munido da mais aguda e desperta ratio, empreendeu uma luta hercúlea, buscando explicação lógica para uma pequena ou portentosa tragédia pessoal.

Os tragediógrafos gregos, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, versaram sobre as atemporais mazelas da vida. Esses premiados literatos registraram de forma magistral o inexorável peso do Destino e dos caprichos Fortuna (Tyché) sobre o Homem.

Do alinhavar da predestinação implacável à paulatina descoberta do Homem enquanto portador de uma alma (psyche) em relação com os demais, a tragédia grega assinala a aurora do Ethos – hábito, conduta – que culmina em nosso ‘habitat’.

Será então, embalada por esse avanço (ainda que tímido) na liberdade de agir que emergirá uma nova conduta, um novo Ethos.

Como reitera o filósofo Henrique Claudio de Lima Vaz, “a descoberta da alma assinala a emergência de uma nova figura do indivíduo no centro da reflexão ética.”. Ao presunçoso, mas desamparado filho da physis (natureza), logra êxito o lógos verdadeiro.

Reféns dos tais “desígnios” (Destino/Fortuna), tornamo-nos também, filhos da virtude e da razão.

Em contraponto às inescrutáveis razões da physis, onde o indivíduo sofístico erige e circunscreve o palco do Ethos movido pela cega vontade de poder (subjugado pela hybris, a desmedida e, portanto refém do Destino), desponta o herói (ou heroína, como Antígona) e, na sequência, emerge o ponderado indivíduo socrático, cujo Ethos é circunscrito no agir virtuoso, na ação justa, portanto, razoável.

Lima Vaz aponta que na ação razoável, “que é igualmente a práxis justa e virtuosa, deverão conciliar-se desejo, razão e liberdade.” Essa possibilidade fora negada ao herói trágico, pois, encapsulado por seus desejos e paixões, o não deliberar restringia seu potencial de liberdade.

Os “nós” desse entrelaçamento são didaticamente expressos pelo filósofo Mario Sérgio Cortella: “Ética é o conjunto de princípios e valores que usamos para decidir as três grandes questões da vida: quero [desejo]? devo [razão]? posso [liberdade]?”.

Cortella então prossegue, chamando a atenção para o fato de que: “Tem coisas que eu quero, mas não devo; que eu devo, mas não posso e que posso, mas não quero (…). Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é o que você pode e é o que você deve.” Seria perfeito!

E, se mesmo agindo somente depois de prudente deliberação, de forma sensata, segundo a excelência do Bem, a “realidade enigmática e hostil do mundo e da vida”, o Destino, se opor à ação virtuosa, revelando-se cego e fatal? Noutras palavras, “como ousar prolongar o caminho da Ética como ciência do ethos no interior da obscuridade impenetrável que envolve a temerosa montanha do Destino?”, indaga Lima Vaz.

Essa interrogação, diz ele, encontrará no mundo antigo a resposta da mais impressionante grandeza e da mais desoladora resignação: “quando o Estoicismo tiver elevado a razão do Sábio à própria altura do Destino, então transfigurado em pronoia, providência racional.”.

O que a reflexão ética platônico-aristotélica busca estabelecer é o melhor ajuste possível entre lógos e Ethos.

Destino e Fortuna acabam obscurecendo esse ajuste, pois são duas faces incompreensíveis da realidade: “de um lado, a rígida cadeia da necessidade [Destino] que parece ligar seres e acontecimentos nos vínculos de uma infringível ordem universal; de outro, a Fortuna volúvel que distribui de maneira imprevisível a sorte de cada um.”.

Quando o imponderável se apresenta, mesmo diante da conduta sensata do justo e, surpresos indagamos: “Por quê?” é que “a primeira face [Destino] ergue-se enigmática”, diz Lima Vaz.

Já a segunda face (Fortuna), também por não obedecer a uma lógica alcançável “ameaça com a sem-razão de uma total contingência as razões do agir segundo a virtude”.

Como garantir àqueles que agem virtuosamente o justo direito a uma felicidade “que se sobreponha à inelutabilidade do Destino e à inconstância da Fortuna?”.

As primevas reflexões sobre Destino e Fortuna nasceram no mito arcaico ANTES “de encontrar no discurso filosófico o seu desaguadouro natural”. As tragédias explicitam o confronto “entre o pungente sentimento de impotência em face do Destino e da Fortuna e a inquebrantável energia e a força criadora com as quais o homem grego enfrenta os desafios da ação (práxis)”. Desde então, o homem segue “plasmando a sua existência e organizando o seu mundo segundo as normas da razão (lógos) e o alvo da excelência (areté)”.

Quando a Paideia (pedagogia) das tragédias tem por alvo a excelência (areté), diz Werner Jaeger, “mostra que a experiência do Destino e da Fortuna, longe de alimentar um resignado fatalismo na alma grega, estimulou todas as suas energias para responder, com a criação da Ética e da Política, à ameaça do niilismo moral (…)”.

Nas tragédias áticas trava-se o embate entre Razão X Destino/Fortuna. Ou, como poeticamente se expressa Lima Vaz: “o entrecruzamento da linha horizontal da vida traçada pelo precário e trabalhoso saber humano e a linha vertical do majestoso desígnio divino que desce das alturas de uma inalcançável transcendência”. Eis a essência do mistério que envolve nossas angústias.

A famosa inscrição no Templo de Apolo, em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”, diz ele, “conduzirá ao recesso mais íntimo do indivíduo, que a tradição consagrará com o nome de ‘consciência moral’”.

Mas, quais são os remédios capazes de curar dos males da existência quando, mesmo sendo razoáveis, virtuosos e dignos, surpreendidos pelo Destino (Moira), deparamo-nos com assombrosos obstáculos, aparentemente intransponíveis?

Lima Vaz afirma que essas interrogações são decisivas e que acompanham a formação do pensamento ético e em torno das quais se adensa, pouco a pouco, a ideia de uma ‘vida interior’ do virtuoso, da alma (psyche) no sentido socrático e, será no âmbito dessas ideias que o Destino e a Fortuna serão finalmente compreendidos pelas razões de uma “Razão superior”.

Para o filósofo, é possível “descobrir no homem aquela parte de seu ser – a melhor – pela qual ele é capaz de libertar-se da cadeia dos males e elevar-se à verdadeira eudaimonia [felicidade] (…) pela convicção de que a práxis obediente à norma do lógos torna-se capaz de vencer os males advindos do Destino”.

Consciência moral – co-autoria, responsabilidade dos homens, – não somente capricho dos deuses embasa a tal “consciência tranquila, limpa”. Assim, alcançamos o que ele chama de “uma nova e superior forma de felicidade que tenha a sua sede na interioridade racional da psyche [Alma] e seu fundamento no lógos verdadeiro”.

Será na estrutura lógica do agir humano que a liberdade – contraprova do Destino – terá assegurado seu lugar: À luz do Sol do Bem (…) a sombra do Destino recua (…).”, e isso, repito, não é de pouca monta.

Destino e Fortuna são instáveis fluxos dispensadores de penas e alegrias, de onde é possível emergir a grandeza e nobreza inata do homem, capaz de aprender com o sofrimento. Porque faz parte.

Autora: Luciene Felix

Fonte: Blog Conhecimento Sem Fronteiras

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O Príncipe

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O Príncipe é um livro escrito por Nicolau Maquiavel em 1513, cuja primeira edição foi publicada postumamente, em 1532.

Trata-se de um dos tratados políticos mais importantes já escritos, e que tem papel crucial na construção do conceito de Estado como modernamente conhecemos. Entre outras coisas, descreve as maneiras de conduzir-se nos negócios públicos internos e externos, e fundamentalmente, como conquistar e manter um principado.

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