O homem que plantava árvores

Para que o caráter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, devemos ter a sorte de observar a sua ação por um longo período. Se esta ação é desprovida de todo o egoísmo, se a ideia que a dirige é de generosidade inqualificável, se é absolutamente certo que não buscou recompensa em nenhum lugar, e se além disso deixou marcas visíveis no mundo, então estamos inquestionavelmente a lidar com um personagem inesquecível.

Há cerca de quarenta anos, fiz uma longa caminhada, por colinas absolutamente desconhecidas dos turistas, naquela região muito antiga onde os Alpes penetram na Provença.

Esta região é limitada a sudeste e sul pelo curso médio do Durance, entre Sisteron e Mirabeau; a norte pelo curso superior do Drôme, desde a sua nascente até ao Die; a oeste pelas planícies de Comtat Venaissin e os arredores de Mont Ventoux. Inclui toda a parte norte do Departamento de Basses-Alpes, o sul de Drôme e um pequeno enclave de Vaucluse.

Na época em que fiz a minha longa caminhada por essa região deserta, ela era composta por terras áridas e monótonas, a cerca de 1200 a 1300 metros acima do nível do mar. Nada lá crescia, exceto lavanda selvagem.

Eu estava a atravessar este país na sua parte mais larga e, depois de caminhar por três dias, encontrei-me na mais completa desolação. Estava acampado ao lado das ruínas de uma aldeia abandonada. Tinha usado a minha última água no dia anterior e precisava encontrar mais. Embora estivessem em ruínas, estas casas todas amontoadas e parecendo um velho ninho de vespas fizeram-me pensar que, em algum momento, devia ter havido ali uma fonte ou um poço. Havia de fato uma fonte, mas estava seca. As cinco ou seis casas sem teto, devastadas pelo sol e pelo vento, e a capelinha com o campanário caído, estavam ordenadas como as casas e capelas das aldeias vivas, mas toda a vida tinha desaparecido.

Era um belo dia de junho com muito sol, mas naquelas terras sem abrigo, lá no alto, o vento assobiava com uma brutalidade insuportável. O seu rosnar nas carcaças das casas era como o de uma fera perturbada durante a sua refeição.

Eu tive que mudar o meu acampamento. Depois de cinco horas de caminhada, ainda não tinha encontrado água, e nada me dava esperança de encontrar. Em todos os lugares havia a mesma secura, as mesmas plantas duras e lenhosas. Pensei ter visto ao longe uma pequena silhueta negra. À sorte, fui em direção a ela. Era um pastor. Cerca de trinta cordeiros descansavam perto dele no chão escaldante.

Deu-me um gole da sua cabaça e um pouco depois levou-me até à sua cabana de pastor, localizada numa ondulação do planalto. Ele tirou a sua água – excelente – de um buraco natural, muito profundo, sobre o qual tinha instalado um molinete rudimentar.

Este homem falava pouco. Isto é comum entre os que moram sozinhos, mas ele parecia seguro de si e confiante nessa segurança, que parecia notável nesta terra despojada de tudo. Ele não morava numa cabana, mas numa verdadeira casa de pedra, de cuja aparência era claro que, com o seu próprio trabalho, tinha restaurado as ruínas que encontrara à sua chegada. O seu telhado era sólido e estanque. O vento batia nas telhas com o som do mar rebentando na praia.

A sua casa estava em ordem, os seus pratos lavados, o seu chão varrido, a sua espingarda lubrificada; a sua sopa fervia no fogo. Percebi então que ele também estava recém-barbeado, que todos os seus botões estavam solidamente costurados e que as suas roupas eram remendadas com tanto cuidado que tornavam os remendos invisíveis.

Ele dividiu a sua sopa comigo e, quando depois lhe ofereci a minha bolsa de tabaco, ele disse-me que não fumava. O seu cachorro, tão silencioso quanto ele, era amigável sem ser bajulador.

Ficou imediatamente combinado que eu passaria a noite ali, pois a aldeia mais próxima ainda estava a mais de um dia e meio de distância. Além disso, compreendi perfeitamente o caráter das raras aldeias daquela região. Há quatro ou cinco delas dispersas umas das outras nos flancos das colinas, em bosques de carvalhos brancos nas extremidades das estradas transitáveis ​​por carruagens. São habitadas por lenhadores que fazem carvão. São lugares onde a vida é pobre. As famílias, apertadas e unidas por um clima extremamente severo, tanto no verão como no inverno, lutam cada vez mais egoisticamente umas contra as outras. A disputa irracional cresce além de todos os limites, alimentada por uma luta contínua para escapar daquele lugar. Os homens levam o carvão para as cidades nos seus caminhões e depois voltam. As qualidades mais sólidas quebram-se sob este perpétuo chuveiro escocês. As mulheres despertam amargura. Há competição em tudo, desde a venda de carvão até aos bancos da igreja. As virtudes lutam entre si, os vícios lutam entre si, e há um incessante combate geral entre os vícios e as virtudes. Além de tudo isto, o vento, igualmente incessante, irrita os nervos. Há epidemias de suicídios e inúmeros casos de insanidade, quase sempre homicidas.

O pastor, que não fumava, pegou num saco e derramou uma pilha de bolotas sobre a mesa. Começou a examiná-las uma após outra com muita atenção, separando as boas das más. Fumei o meu cachimbo. Ofereci-me para a ajudar, mas ele disse-me que era um assunto seu. De fato, vendo o cuidado que ele dedicou a este trabalho, não insisti. Esta foi toda a nossa conversa. Quando ele tinha na pilha boa um bom número de bolotas, contou-as em grupos de dez. Ao fazer isto, eliminou mais algumas bolotas, descartando as menores e as que apresentavam até mesmo a menor rachadura, pois examinou-as muito de perto. Quando tinha diante de si cem bolotas perfeitas, parou e fomos para a cama.

A companhia deste homem trouxe-me uma sensação de paz. Perguntei-lhe na manhã seguinte se poderia ficar e descansar o dia inteiro com ele. Ele achou isso perfeitamente natural. Ou mais exatamente, ele me deu a impressão de que nada poderia perturbá-lo. Este descanso não era absolutamente necessário para mim, mas fiquei intrigado e queria saber mais sobre este homem. Soltou o seu rebanho e levou-o para o pasto. Antes de partir, embebeu num balde de água o saquinho com as bolotas que escolhera e contara com tanto cuidado.

Notei que ele carregava como uma espécie de bengala, uma haste de ferro da espessura do seu polegar e cerca de um metro e meio de comprimento. Saí como quem passeia, seguindo um caminho paralelo ao dele. O seu pasto de ovelhas ficava no fundo de um pequeno vale. Ele deixou o seu rebanho aos cuidados do seu cachorro e subiu em direção ao local onde eu estava. Tive medo de que ele me viesse censurar pela minha indiscrição, mas nem um pouco: era a sua própria rota e convidou-me para o acompanhar, se eu não tivesse nada melhor para fazer. Continuou por mais duzentos metros colina acima.

Tendo chegado ao lugar para onde estava indo, começou a bater com a sua barra de ferro no chão. Isto fez um buraco no qual ele colocou uma bolota, após o que ele cobriu o buraco novamente. Ele estava a plantar carvalhos. Perguntei-lhe se a terra lhe pertencia. Ele respondeu que não. Sabia ele de quem era aquela terra? Não sabia. Supunha que era terra comunal, ou talvez pertencesse a alguém que não se importava com ela. Ele próprio não se importava em saber quem eram os donos. Desta forma ele plantou as suas cem bolotas com muito cuidado.

Após o almoço, começou mais uma vez a colher as suas bolotas. Devo ter insistido bastante nas minhas perguntas, porque ele respondeu. Já fazia três anos que vinha plantando árvores dessa maneira solitária. Ele tinha plantado cem mil. Destes cem mil, ficaram vinte mil. Contava perder metade para os roedores e para tudo o mais imprevisível nos desígnios da Providência. Isto deixava dez mil carvalhos que cresceriam neste lugar onde antes não havia nada.

Foi neste momento que me comecei a perguntar sobre a sua idade. Ele tinha claramente mais de cinquenta. Cinquenta e cinco, disse-me ele. O seu nome era Elzéard Bouffier. Tinha uma fazenda nas planícies, onde viveu a maior parte da sua vida. Ele tinha perdido a seu único filho, e depois a sua esposa. Tinha-se retirado para esta solidão, onde tinha prazer em viver lentamente, com o seu rebanho de ovelhas e o seu cachorro. Ele tinha concluído que o país estava a morrer por falta de árvores. Acrescentou que, não tendo nada mais importante para fazer, resolveu remediar a situação.

Levando como levava na época uma vida solitária, apesar da juventude, sabia tratar com delicadeza as almas das pessoas solitárias. Ainda assim, cometi um erro. Foi precisamente a minha juventude que me obrigou a imaginar o futuro nos meus próprios termos, incluindo uma certa procura da felicidade. Eu disse-lhe que em trinta anos estas dez mil árvores seriam magníficas. Ele respondeu muito simplesmente que, se Deus lhe desse a vida, em trinta anos ele teria plantado tantas outras árvores que estas dez mil seriam como uma gota de água no oceano.

Ele também tinha começado a estudar a propagação de faias e tinha perto da sua casa um viveiro cheio de mudas de nogueiras. As suas pequenas mudas, que ele tinha protegido das suas ovelhas por uma cerca de tela, estavam a crescer lindamente. Também estava a considerar bétulas para o fundo do vale onde, segundo me disse, a humidade estava adormecida a apenas alguns metros abaixo da superfície do solo.

Despedimo-nos no dia seguinte.

No ano seguinte veio a guerra de 14, na qual estive envolvido por cinco anos. Um soldado de infantaria mal conseguia pensar em árvores. Para dizer a verdade, a história toda não me impressionou muito. Achei que fosse um hobby, como uma coleção de selos, e esqueci-a.

Com a guerra para trás, encontrei-me com um pequeno bônus de desmobilização e um grande desejo de respirar um pouco de ar puro. Sem nenhuma noção preconcebida para além disto, voltei a percorrer as trilhas por aquela região deserta.

A terra não mudou. No entanto, além daquela aldeia morta, percebi ao longe uma espécie de neblina cinzenta que cobria as colinas como um tapete. Desde o dia anterior eu pensava no pastor que plantava árvores. Dez mil carvalhos, disse a mim mesmo, devem ocupar muito espaço.

Eu tinha visto muitas pessoas morrerem durante estes cinco anos para não poder imaginar facilmente a morte de Elzéard Bouffier, especialmente porque quando um homem tem vinte anos, pensa num homem de cinquenta como um velho para quem nada resta senão morrer. Ele não estava morto. Na verdade, continuava muito ágil. Tinha mudado de emprego. Agora só tinha quatro ovelhas, mas para compensar isso tinha cerca de cem colmeias. Tinha-se livrado das ovelhas porque elas ameaçavam a sua colheita de árvores. Disse-me (como de fato eu pude ver por mim próprio) que a guerra não o tinha perturbado em nada; continuara imperturbavelmente com o seu plantio.

Os carvalhos de 1910 tinham agora dez anos e eram mais altos do que eu e que ele. O espetáculo era impressionante. Fiquei literalmente sem palavras e, como ele próprio não falava, passamos o dia inteiro em silêncio, caminhando pela floresta. Estava dividida em três seções, onze quilômetros de comprimento total e, no seu ponto mais largo, três quilômetros de largura. Quando considerei que tudo isto tinha nascido das mãos e da alma deste único homem – sem ajuda técnica -, ocorreu-me que os homens podem ser tão eficazes quanto Deus noutros domínios que não a destruição.

Ele tinha seguido a sua ideia, e as faias que chegavam até aos meus ombros e se estendiam até onde a vista alcançava testemunhavam isso. Os carvalhos eram agora bons e espessos, e haviam passado da idade em que estavam à mercê de roedores; quanto aos desígnios da Providência, destruir a obra que tinha sido criada exigiria doravante um ciclone. Mostrou-me admiráveis plantações de bétulas que datavam de cinco anos atrás, ou seja, de 1915, quando eu lutava em Verdun. Tinha-as plantado no fundo do vale onde suspeitara, corretamente, que havia água perto da superfície. Elas eram tão ternas quanto meninas, e muito determinadas.

Esta criação tinha, aliás, o ar de funcionar através de uma reação em cadeia. Ele não se preocupou com isso; continuou obstinadamente com a sua simples tarefa. Voltando para a aldeia, vi água a correr em riachos que, na memória viva, sempre foram secos. Foi o avivamento mais impressionante que ele me mostrou. Estes riachos já tinham trazido água antes, em tempos antigos. Algumas das tristes aldeias de que falei no início do meu relato foram construídas sobre os sítios das antigas aldeias galo-romanas, das quais ainda restam vestígios; os arqueólogos que escavavam ali tinham encontrado anzóis em lugares onde em tempos mais recentes eram necessárias cisternas para ter um pouco de água.

O vento também estava a trabalhar, espalhando certas sementes. Quando a água reapareceu, também reapareceram os salgueiros, vimes, prados, jardins, flores e uma certa razão para viver.

Mas a transformação ocorrera tão lentamente que fora dada como certa, sem causar surpresa. Os caçadores que subiam as colinas em busca de lebres ou javalis tinham notado a extensão das pequenas árvores, mas atribuíam-no à maldade natural da terra. É por isso que ninguém tinha tocado na obra desse homem. Se suspeitassem dele, teriam tentado frustrá-lo. Mas ele nunca foi suspeito: quem entre os aldeões ou os administradores suspeitaria que alguém pudesse mostrar tamanha obstinação em realizar este magnífico ato de generosidade?

A partir de 1920 não deixei passar mais de um ano sem visitar Elzéard Bouffier. Nunca o vi vacilar ou duvidar, embora só Deus possa dizer quando a própria mão de Deus está numa coisa! Não disse nada das suas decepções, mas pode-se facilmente imaginar que, para tal feito, era necessário vencer a adversidade; que, para assegurar a vitória de tal paixão, era preciso lutar contra o desespero. No ano ele havia plantado dez mil áceres. Todos morreram. No ano seguinte, ele desistiu dos áceres e voltou para as faias, que se saíram ainda melhor do que os carvalhos.

Para se ter uma ideia real deste caráter excepcional, não se deve esquecer que ele trabalhou em total solidão; tão total que, no final da vida, perdeu o hábito de falar. Ou talvez ele simplesmente não visse a necessidade disso.

Em 1933 recebeu a visita de um guarda florestal atônito. Este funcionário ordenou-lhe que parasse de fazer fogueiras ao ar livre, por medo de pôr em perigo esta floresta natural. Era a primeira vez, disse-lhe aquele homem ingênuo, que se observava que uma floresta crescia sozinha. Na época deste incidente, estava a pensar plantar faias num local a doze quilômetros da sua casa. Para evitar as idas e vindas – porque na época tinha setenta e cinco anos – planeava construir uma cabana de pedra onde estava a plantar; fez isso no ano seguinte.

Em 1935, uma verdadeira delegação administrativa foi examinar esta “floresta natural”. Havia um importante personagem das Águas e Florestas, um deputado e alguns técnicos. Muitas palavras inúteis foram ditas. Decidiu-se fazer alguma coisa, mas felizmente nada foi feito, exceto uma coisa realmente útil: colocar a floresta sob a proteção do Estado e proibir qualquer pessoa de lá ir para fazer carvão. Era impossível não se encantar com a beleza destas jovens árvores em plena saúde. E a floresta exercia os seus poderes de sedução até no próprio deputado.

Eu tinha um amigo entre os chefes florestais que estavam com a delegação. Expliquei-lhe o mistério. Num dia da semana seguinte, saímos juntos para procurar Elzéard Bouffier. Encontramo-lo a trabalhar duro, a vinte quilômetros do local onde a inspeção tinha sido realizada.

Este chefe florestal não era meu amigo à toa. Ele entendia o valor das coisas. Ele sabia ficar calado. Eu ofereci alguns ovos que trouxera comigo como presente. Dividimos o lanche em três partes e passamos várias horas em contemplação muda da paisagem.

A encosta de onde viemos estava coberta de árvores de seis ou sete metros de altura. Lembrei-me da aparência do lugar em 1913: um deserto… O trabalho pacífico e constante, o ar vibrante da serra, a sua frugalidade e, sobretudo, a serenidade da sua alma deram ao velho uma espécie de boa saúde solene. Ele era um atleta de Deus. Perguntei a mim mesmo quantos hectares ele tinha ainda que cobrir com árvores.

Antes de partir, o meu amigo fez uma sugestão simples sobre certas espécies de árvores para as quais o terreno parecia ser particularmente adequado. Ele não foi insistente. “Pela razão muito boa”, disse-me depois, “de que este sujeito sabe muito mais sobre este tipo de coisa do que eu”. Depois de mais uma hora de caminhada, tendo este pensamento viajado com ele, acrescentou: “Ele sabe muito mais sobre este tipo de coisa do que ninguém – e encontrou uma maneira muito boa de ser feliz!”.

Foi graças aos esforços deste chefe florestal que a floresta foi protegida e, com ela, a felicidade deste homem. Ele designou três guardas florestais para a sua proteção e aterrorizou-os a tal ponto que eles permaneceram indiferentes a qualquer jarro de vinho que os lenhadores pudessem oferecer como suborno.

A floresta não correu nenhum risco grave, exceto durante a guerra de 1939. Naquela época, os automóveis eram movidos a álcool de madeira e nunca havia madeira suficiente. Começaram a cortar alguns dos talhões dos carvalhos de 1910, mas as árvores ficavam tão longe de qualquer estrada útil que o empreendimento acabou por ser ruim do ponto de vista financeiro, e logo foi abandonado. O pastor nunca soube nada sobre isso. Ele estava a trinta quilômetros de distância, continuando pacificamente a sua tarefa, tão despreocupado com a guerra de 39 quanto com a guerra de 14.

Vi Elzéard Bouffier pela última vez em junho de 1945. Tinha então oitenta e sete anos. Eu tinha mais uma vez iniciado a minha caminhada pelas regiões selvagens, apenas para descobrir que agora, apesar da confusão em que a guerra tinha deixado todo o país, havia um autocarro a circular entre o vale do Durance e a montanha. Atribuí a este meio de transporte relativamente rápido o fato de já não reconhecer os pontos de referência que conhecia das minhas visitas anteriores. Parecia também que a rota estava a levar-me por lugares inteiramente novos. Tive que perguntar o nome de uma aldeia para ter certeza de que estava de fato a passar por aquela mesma região, outrora tão arruinada e desolada. O autocarro deixou-me em Vergons. Em 1913, esta aldeia de dez ou doze casas tinha três habitantes. Eram selvagens, odiando-se uns aos outros e ganhando a vida com armadilhas. Física e moralmente, pareciam homens pré-históricos. As urtigas devoravam as casas abandonadas que os cercavam. A vida deles era sem esperança, era só esperar que a morte chegasse: uma situação que dificilmente predispõe à virtude.

Tudo isto tinha mudado, até o próprio ar. No lugar das rajadas secas e brutais que me saudaram há muito tempo, uma brisa suave sussurrou para mim, trazendo odores doces. Um som como o de água corrente veio das alturas acima: era o som do vento nas árvores. E o mais surpreendente de tudo, ouvi o som de água real correndo numa poça. Vi que tinham construído um chafariz, que estava cheio de água, e o que mais me tocou, ao lado dele tinham plantado uma tília que devia ter pelo menos quatro anos, já engrossada, símbolo incontestável de ressurreição.

Além disto, Vergons mostrou os sinais de trabalhos para os quais a esperança é um requisito: a esperança deve, portanto, ter retornado. Limparam as ruínas, derrubaram as paredes quebradas e reconstruíram cinco casas. A aldeia agora contava com vinte e oito habitantes, incluindo quatro famílias jovens. As novas casas, recém-rebocadas, eram cercadas por jardins que continham, misturados entre si, mas ainda cuidadosamente dispostos, vegetais e flores, repolhos e roseiras, alho-poró e bicas-de-leão, aipo e outras plantas. Agora era um lugar onde qualquer um ficaria feliz em viver.

De lá continuei a pé. A guerra da qual mal saímos não permitiu que a vida desaparecesse completamente, e agora Lázaro estava fora do seu túmulo. Nos flancos mais baixos da montanha, vi pequenos campos de cevada e centeio; no fundo dos vales estreitos, os prados começavam a ficar verdes.

Levou apenas os oito anos, que agora nos separam daquela época, para que todo o país ao redor floresça com esplendor e facilidade. No local das ruínas que eu tinha visto em 1913 existem agora quintas bem cuidadas, sinal de uma vida feliz e confortável. As velhas nascentes, alimentadas pela chuva e pela neve, agora retidas pelas florestas, voltaram a fluir. Os riachos foram canalizados. Ao lado de cada fazenda, no meio de bosques de áceres, os charcos das fontes são cercados por tapetes de hortelã fresca. Pouco a pouco, as aldeias foram reconstruídas. Yuppies vieram das planícies, onde a terra é cara, trazendo consigo juventude, movimento e espírito de aventura. Caminhando pelas estradas encontram-se homens e mulheres em plena saúde, e rapazes e raparigas que sabem rir, e que recuperaram o gosto pelas tradicionais festas rústicas. Contando tanto os antigos habitantes da área, agora irreconhecíveis de viver em abundância, quanto os recém-chegados, mais de dez mil pessoas devem a sua felicidade a Elzéard Bouffier.

Quando considero que um único homem, contando apenas com os seus simples recursos físicos e morais, foi capaz de transformar um deserto nesta terra de Canaã, estou convencido de que, apesar de tudo, a condição humana é verdadeiramente admirável. Mas quando levo em conta a constância, a grandeza de alma e a dedicação desinteressada que foi necessária para realizar esta transformação, fico cheio de um respeito imenso por esse camponês velho e inculto que soube realizar um trabalho digno de Deus.

Elzéard Bouffier morreu pacificamente em 1947 num lar em Banon.

Autor: Jean Giono
Traduzido por: António Jorge

Fonte: Freemason

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Perguntas e respostas sobre o Mestre Instalado

1 – Mestre Instalado é grau, dignidade, cargo, oficialato ou qualidade? 

R – Mestre Instalado não é grau. É apenas um título distintivo para aquele que exerce ou já tenha exercido o veneralato de uma Loja Simbólica.

2 – Se for grau por que nunca fez, e ainda não faz parte dos 33 graus da Maçonaria (Graus Superiores ou Altos Graus)?

R – Como foi dito não é grau. Agora “altos graus da Maçonaria”? O melhor seria “altos graus” como particularidade de alguns Ritos. Maçonaria Moderna Universal e tradicional é composta por três Graus – Aprendiz, Companheiro e Mestre. Daí pelo título de Mestre Instalado não ser nenhum Grau, também não há como lhe associar com os ditos altos graus que nada, mais nada mesmo, tem a ver com o Franco Maçônico Básico. Altos graus, se assim podem ser reconhecidos, são particularidades de alguns Ritos e não da Maçonaria como um todo.

3 – Se não é grau, por que em sessões de algumas Lojas no Brasil, e só no Brasil, os Mestres Instalados são convidados a ocuparem o Oriente do Templo e os Mestres Maçons investidos nos Graus Superiores ou Altos Graus (4° ao 33º) não são convidados da mesma forma para ocuparem o Oriente, sendo que estes sim são reconhecidos por todas as Potências mundiais como Graus Superiores ou Altos Graus?

R – Primeiro que “altos graus” não são reconhecidos mundialmente na unanimidade das Obediências mundiais. Como dito anteriormente, o título de Mestre Instalado, quando existe, e conforme a vertente maçônica faz parte do simbolismo maçônico. Normalmente, ex-Veneráveis têm assento no Oriente, principalmente como distinção para aqueles que já exerceram a presidência de uma Loja Simbólica. Em complemento à questão, qualquer grau dito acima do de Mestre tradicionalmente não faz parte do simbolismo. Portadores dos ditos “graus superiores” são tratados no simbolismo apenas como Mestres Maçons. Repetindo, grau acima do terceiro é particularidade de rito e não faz qualquer diferença em Loja Simbólica.

4 – Qual o avental do Mestre Instalado?

R – Em linhas gerais, ele possui no lugar das rosetas o símbolo do nível/prumo (perpendicular e vertical) chulamente conhecido como “tau” invertido, a despeito que a letra grega “tau” não tem significado algum na Maçonaria, muito menos invertido, ou de ponta-cabeça. Ainda, nos dois lados da face do avental prendem-se duas fitas na cor da borla de cujas pontas aparecem adornos compostos por correntes e bolinhas que tradicionalmente na Inglaterra são, ou eram franjas prateadas.

5 – Qual a joia do Mestre Instalado?

R – Em exercício do veneralato é o Esquadro de ramos desiguais. Na França o ex-Venerável usa uma joia composta por um Compasso sobre um quarto de Círculo com a figura do Sol ao centro e às vezes substituído pelo Olho Onividente. Já na Inglaterra o “Past-Master” carrega a joia composta pelo Esquadro e a representação pictográfica da 47ª Proposição de Euclides (Teorema de Pitágoras). Como esclarecimento, na França “instalação” em Maçonaria é sinônimo de posse e tradicionalmente não existe a figura do Mestre Instalado, senão do Venerável Mestre e do ex-Venerável. Já o título de Mestre Instalado e Mestre Instalado Passado é tradição dos Trabalhos Ingleses e, por extensão, da Maçonaria Norte-Americana.

6 – Quais os paramentos do Mestre Instalado?

R – Além do avental e da joia citados nas questões 05 e 06, cuja joia fica presa em um colar decorado como motivos maçônicos (geralmente ramos de acácia), o Mestre Instalado usa punhos também decorados que, em muitos lugares estes somente são privativos do Venerável (no Brasil, o GOB adota esse procedimento).

7 – Quando, onde e como se declarar/identificar Mestre Instalado?

R – Não entendi a questão, salvo se for para a composição de um Conselho de Mestres Instalados para a instalação de um Venerável. Esse Conselho legalmente só existe para tal e nunca para interferir na direção da Loja. Um Conselho desse tipo é prerrogativa da Obediência que a nomeia para o ato da Instalação e a dissolve após estiver à missão cumprida. No Grande Oriente do Brasil, o RGF regula as atribuições do Mestre Instalado.

8 – Quando, onde, por que, como e em quais circunstâncias foi instituída a Instalação de Mestres na Maçonaria?

R – A figura do Mestre Instalado é tradição da Maçonaria inglesa com o advento da Moderna Maçonaria e a inauguração do primeiro sistema obediencial. Nos anos que se seguiram com a fusão dos Antigos (1.717) e os Modernos (1.751) que resultaria na Grande Loja Unida da Inglaterra em 1.813, o sistema inglês não tardaria, por influência da instalação do Rei no trono inglês, a adotar esse costume criando uma cerimônia específica acompanhada de uma exposição lendária o que viria resultar no título conhecido como Mestre Instalado. A propósito, o Grau de Mestre na Maçonaria somente viria aparecer a partir de 1.724. Anteriormente ao fato a Maçonaria Operativa e posteriormente Especulativa era composta por apenas dois graus. A razão do título de Mestre Instalado, provavelmente esteve ligada a aristocratização da Sublime Instituição (ver a influência da Royal Society) que a partir da fundação da Primeira Grande Loja em Londres, já se preparava e previa o intento em um futuro breve.

9 – Mestre Instalado é uma invenção da Maçonaria Brasileira ou faz parte da história cultural da Maçonaria Inglesa? Ou foi instituído pelas Grandes Lojas?

R – Como já comentado, o procedimento de instalação é costume integrante da Maçonaria inglesa. No Brasil em primeira instância isso acontecia nas Lojas que praticavam os Trabalhos de Emulação, confundido como título com o de York, comum no sistema Norte Americano. A Maçonaria brasileira que é filha espiritual da França, sempre teve na sua grande maioria de Lojas ritos ligados a essa espinha dorsal, dentre esses o rito majoritário no País que é o Escocês Antigo e Aceito.

Ao longo da história da Maçonaria no Brasil, uma dissidência do GOB daria origem em 1.927 às Grandes Lojas Estaduais (CMSB). Ocorreria então o fato do reconhecimento dessa nova Obediência pelas Grandes Lojas Norte Americanas que praticavam, e ainda praticam o Rito Americano que é decalcado nos Antigos de York de origem inglesa. Por essa influência as Grandes Lojas Brasileiras adotariam equivocadamente no Rito Escocês Antigo e Aceito (que é de origem francesa) práticas que poderíamos dizer anglo-americanas. Dentre as tais, apareceria o ato de Instalar o Mestre eleito para o veneralato da Loja.

Em termos de Maçonaria brasileira, esta se manteve por um longo tempo com a Instalação de Mestres restrita às Grandes Lojas, todavia ao longo desse tempo, muitos obreiros acabariam se mudando de uma para a outra Obediência e, por influência de Irmãos egressos da Grande Loja em aporte no Grande Oriente do Brasil, a partir de 1968 o GOB passaria também a praticar o costume de Instalação que prevalece até a atualidade de maneira consuetudinária. Mais tarde, nos anos de 1.972 e 1973 haveria o segundo grande cisma no seio do GOB que resultaria nos Grandes Orientes Estaduais Independentes (COMAB). Com essa dissidência e estando o costume de Instalação já arraigado no GOB as lojas pertencentes à COMAB herdariam também esse costume que hoje tem se tornado uma unanimidade na Maçonaria verde e amarela, fazendo com que ritos que nunca possuíram tradicionalmente a cerimônia de Instalação viessem praticar um costume neles inexistentes apenas em solo brasileiro.

10 – Há uma supremacia hierárquica do Mestre Instalado sobre o Mestre Maçom não instalado?

R – Não existe supremacia alguma, salvo quando o Mestre Instalado está na posse do Primeiro Malhete da Loja – o Venerável Mestre. Mestre Instalado como fora dito anteriormente é um título distintivo e, para adquirir esse título, inquestionavelmente ele precisa ter atingido a plenitude maçônica que é o Grau de Mestre, além de ser eleito para o cargo. Plenitude nesse caso significa o último estágio de evolução na Maçonaria Universal que é o simbolismo que, por extensão, possui apenas três graus. Não é dado o direito a nenhum Mestre Instalado entender que tem supremacia sobre os demais Mestres. O que pode existir, conforme a Obediência, no caso do Brasil, é que os Regulamentos indiquem atribuições e direitos relativos ao título distintivo, como por exemplo, ocupar lugar no Oriente, ou em se tratando da ausência precária do Venerável, dirigir uma Sessão Magna de Iniciação, Elevação e Exaltação, levando-se em conta de que o Primeiro Vigilante não seja também um Mestre Instalado.

11 – Se há a supremacia, há o reconhecimento dessa supremacia pela Grande Loja Unida da Inglaterra (dita Mãe da Maçonaria)?

R – Não há supremacia e a Grande Loja Unida da Inglaterra dificilmente se envolve nessas questões, já que lá existem os Preceptores para as diversas Províncias normalmente indicados pelo Grão-Mestre Provincial, além do livro de regulamentos editado sob o título de Regras Gerais. Geralmente na Maçonaria inglesa o Past Master imediato tem função de auxiliar o Mestre da Loja, porém sem qualquer intromissão nos trabalhos.

12 – Será que a dignidade do Mestre Instalado não é compatível apenas e tão somente com os ditos Ritos anglo-americanos, tais como o os Ritos Craft e York (Emulação)?

R – Esse título distintivo como já citado anteriormente é tradição da Maçonaria inglesa e, por conseguinte da americana. Particularmente a Instalação do Mestre da Loja como cerimonial lendário não é procedimento dos ritos de origem francesa. Para esses, quando porventura venham existir é um mero produto de enxerto.

Cabe aqui ainda uma consideração: No Craft inglês (working) não se reconhecem ritos, porém “Trabalhos”, por exemplo – Trabalho de Emulação, Trabalho de Bristol, Trabalho de Humber, Trabalho de Taylor’s, Trabalho de West End, etc. Já nos Estados Unidos da América do Norte o título de rito é reconhecido, cuja imensa maioria das Lojas pratica o Rito Americano que é baseado nos Trabalhos Antigos de York (inglês), organizado em solo americano por Thomas Smith Web, daí ser comum intitulá-lo como Rito de York.

Por esse esclarecimento o que se pratica aqui no Brasil comumente conhecido como York, não faz sentido algum, pois o aqui perpetrado é o Trabalho de Emulação e não o Rito de York (americano) como equivocadamente é conhecido.

13 – Os Mestres Instalados não são Mestres Maçons eleitos para administrar o Santo Arco Real, que também não é um grau?

R – Mestres Instalados que fazem parte dos “side degrees”, ou graus laterais, nada tem a ver com o Franco Maçônico Básico. Embora isso possa até parecer, o costume somente ingressaria para acomodar uma situação para os intitulados graus de aperfeiçoamento ingleses. Os integrantes do Santo Real Arco são recebidos das fileiras dos Mestres Maçons sem que haja a condição sine qua non de serem Mestres Instalados. Daí um Mestre Instalado do Santo Real Arco não é o mesmo Mestre Instalado do Franco Maçônico Básico, porém uma instalação específica do grau lateral.

Volto a repetir que Maçonaria Universal da atualidade possui apenas três graus. Nada do que acontece nos ditos graus superiores pode interferir no simbolismo. O contrário sim, pois qualquer obreiro que aspire galgar esses sistemas distintos, necessariamente precisa ser um Mestre Maçom.

14 – Será o Mestre Instalado mais um enxerto na Maçonaria?

R – Da Maçonaria em geral não, todavia poderia assim ser considerado no caso dos Ritos que não possuem tradicionalmente esse costume.

15 – É certo assinar a lista de presença em sua Loja ou em visitas a outras, no campo – GRAU – como Mestre Instalado, ou seria o correto 1, 2 ou 3, ou ainda, Apr∴ Comp∴ ou M∴M∴?

R – Como extensivamente dito, Mestre Instalado não é grau, porém um título distintivo. Se a coluna do rol de presenças solicita o grau do Irmão, ele deveria indicar apenas o seu grau simbólico.

16 – Como deve ser o tratamento ao Venerável que saí do comando da Loja, Ex-Venerável, “Past master” ou Mestre Instalado? Ou outra forma?

R – Nos ritos de vertente francesa – ex-Venerável. Nos trabalhos de vertente inglesa e Rito Americano (York) – “Past Master”. Cabe aqui também um comentário: no Brasil, além da inserção de um costume que não é tradicional em alguns ritos por conta das nossas Obediências, ainda uma boa parte delas trata ex-Veneráveis com o título de “Past Masters”.

17 – O Maçom só tem o título de Mestre Instalado enquanto ocupar o cargo de Venerável, ou mesmo depois de deixar este cargo? Por quê?

R – Há certo critério analítico no caso. Onde é tradição a Instalação, o título é sempre o de Mestre Instalado, pois todo o Venerável obrigatoriamente será um Mestre Instalado. Assim todo aquele que já exerceu o veneralato será sempre um Mestre Instalado. O que o diferencia é que ele é um Mestre Instalado no exercício do cargo de Venerável. Deixando o cargo ele continua possuir o título distintivo, só não é o Venerável. No caso da Maçonaria brasileira que adota a instalação indistintamente é a mesma coisa.

Resumindo – o título de Mestre Instalado é vitalício. Um Venerável que por extensão é sempre um Mestre Instalado, somente é Venerável no exercício do cargo. Deixando-o será um ex-Venerável, todavia sempre um Mestre Instalado.

18 – Depois de deixar o cargo de Venerável o maçom não volta a ser apenas mais um Mestre em Loja?

R – Penso que a pergunta não faz muito sentido por tudo que foi dito anteriormente. Ora, se para obter o título de Mestre Instalado o obreiro obrigatoriamente deva possuir a plenitude maçônica (grau de Mestre), ele será sempre um Mestre Maçom que possui o título distintivo vitalício de Mestre Instalado. Todo Mestre Instalado não volta a ser. Ele é um Mestre Maçom.

19 – Não seria o correto instalar um Mestre Maçom que seja investido ao menos no Grau 4°?

R – Exaustivamente eu já disse – graus superiores, ou altos graus como pomposamente muitos maçons brasileiros gostam de salientar, não interferem e nada tem a ver com o simbolismo. No rigor da lei, nenhum Mestre Maçom que esteja colado em qualquer um desses “graus” pode se considerar melhor do que o Mestre. O Mestre Maçom é aquele que atingiu a plenitude maçônica. A pura Maçonaria Universal é composta por três Graus a partir de 1.724, antes possuía apenas dois. Tenho incansavelmente dito: qualquer grau, ou sistema acima do terceiro é particularidade de um Rito maçônico que não o faz melhor por possuir essa particularidade. O que diríamos então sobre ritos que não adotam nenhum sistema ou grau acima do terceiro?

20 – Quais as prerrogativas de um M∴I∴?

R – Os Regulamentos das diversas Obediências regulam esses procedimentos. No caso do Grande Oriente do Brasil sugiro consultar o Regulamento Geral da Federação.

21 – Quais os critérios para a instalação de um Mestre?

R – Estar colado do Grau de Mestre Maçom obedecido o interstício regimental de acordo com a Obediência e ser eleito para o cargo de Venerável da Loja.

22 – Onde ele tem assento?

R – O Venerável no trono (sólio), os ex-Veneráveis (Mestres Instalados) no Oriente, porém abaixo do sólio.

23 – Onde consta na planta do templo este assento?

R – Se a pergunta estiver direcionada ao REAA∴, sinceramente penso que deverias consultar o Ritual de Aprendiz do REAA∴ em vigor, páginas 22 e 23, no caso do Grande Oriente do Brasil.

Em sendo de outro Rito, consultar o ritual específico e ainda, inexistindo a indicação, sugere-se consultar o Secretário do rito. Outras Obediências certamente fazem a indicação da mesma forma nos seus respectivos rituais.

24 – Qual a diferença entre o avental do Venerável? Existe o avental de Mestre Instalado?

R – O do Venerável está descrito na resposta nº 4. O do Mestre Instalado que deixou o cargo de Venerável tradicionalmente tem os emblemas nível/prumo presos aos aventais cobertos por fios bordados na mesma cor da orla do avental. Algumas Obediências não adotam esse sistema, como é o caso do GOB, onde o avental permanece o mesmo, sendo que o que o diferencia é que o ex-Venerável possui joia conforme descrita na resposta nº 5 quando alude ao costume francês. Também no GOB o ex-Venerável não usa punhos. O Ritual de Mestre Maçom do GOB para o REAA∴ em vigência demonstra essa explicação.

25 – Se em Loja Simbólica os Aprendizes e Companheiros não podem subir ao Oriente, reservado somente os Mestres e Mestres Instalados, por que essas sessões são realizadas em Templos que possuem dois pisos, sendo o Oriente o mais elevado?

R – No caso de ritos que assim procedem, o desnível indica o limite do quadrante. Para esses casos, ao Oriente delimitado só tem acesso em Loja aberta os Mestres Maçons. Isso implica em doutrina iniciática, cujas explicações não fazem parte do mote desses questionamentos. O costume de elevar o Oriente não é unanimidade nos ritos maçônicos.

26 – Será que o Oriente elevado e circunscrito nunca fez parte da ritualística dos graus simbólicos e todos os Irmãos deveriam estar num mesmo plano, visto que um dos pilares da maçonaria é a IGUALDADE?

R – Aqui não é bem o caso de igualdade, porém de doutrina iniciática. Na pura Maçonaria nunca existiu essa divisão topográfica que limita o quadrante oriental. Nesse caso o Oriente é a parede oriental e o lugar do Venerável, considerando-se também os Irmãos dispostos à sua esquerda e direita. Com a profusão dos ritos a partir do século XVIII, sistemas doutrinários viriam caracterizar o Canteiro (Loja) de acordo com muitos costumes regionais e culturais.

27 – Qual outro Rito é semelhante ao Rito Schroeder que todos rodeiam o Tapete em um mesmo plano, Aprendizes, Companheiros, Mestres Instalados ou não?

R – Não é bem o caso de rodear o Tapete e nem o de se ocupar lugar em Loja indistintamente. Nos Trabalhos ingleses, por exemplo, a Sala da Loja possui o mesmo plano, destacando-se apenas o sólio por três degraus onde tem assento o Mestre da Loja (Venerável). Agora, Aprendizes se sentam no Norte e Companheiros no Sul. Já ritos de ilharga francesa geralmente há desnível e divisão entre o Oriente e Ocidente.

Nesse particular o Rito Escocês Antigo e Aceito que é de origem francesa, nos primórdios do seu simbolismo como pode se notar no primeiro ritual simbólico (1.804) o Templo era exatamente no mesmo nível e nem existia balaustrada. Por influência dos tais “graus superiores” que seriam incorporados pelo Grande Oriente da França junto com o simbolismo até o Grau 18 no primeiro quartel do Século XIX, criavam-se as Lojas Capitulares. Para satisfazer as particularidades capitulares, o Oriente era então elevado e dividido por uma balaustrada. Posteriormente com o retorno dos graus a partir do 4 até o 18 para o Segundo Supremo Conselho na França, extinguiam-se as Lojas Capitulares.

O problema é que mesmo extintas as Lojas Capitulares, o Oriente elevado e a balaustrada acabariam equivocadamente por permanecer no simbolismo do Rito. Essa prática arraigou-se de tal forma que hoje é praticamente impossível extirpá-la do simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Autor: Pedro Juk

Fonte: JB News nº 754

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O maçom e o conflito

O conflito faz parte das nossas vidas. Quer queiramos, quer não. Existem interesses divergentes, quantas vezes inconciliáveis. Quando tal sucede, várias formas de lidar com o assunto existem: a força, a imposição de poder, a desistência, a conciliação, a cooperação, a hierarquização, etc.

Os maçons também vivem e estão sujeitos a conflitos. Tanto como qualquer outra pessoa vivendo em sociedade.

Mas os maçons aprendem a lidar melhor com o conflito. Desde logo, porque aprendem, interiorizam e procuram praticar a Tolerância. Esta postura não elimina, obviamente, os conflitos, nem leva quem a pratica a deles fugir, ou a ceder para os evitar. Pelo contrário, ensina e possibilita a melhor gerir o conflito. E melhor gerir um conflito não é procurar ganhar a todo o custo. Melhor gerir um conflito consiste em detectar e obter a melhor solução possível para ele. Por vezes, “vencer” o conflito pode parecer a melhor solução no curto prazo, mas revelar-se desastrosa depois.

O maçom aprende a gerir o conflito, desde logo treinando-se a fazer algo que, sendo básico, é muitas vezes esquecido: ouvir! Ouvir o outro, as suas razões, pretensões. Ouvir o outro não é apenas deixá-lo falar. É prestar efetivamente atenção ao que diz e como o diz. Para procurar determinar porque o diz e para que o diz. E assim lobrigar exatamente em que medida existe realmente conflito de interesses entre si e o outro – ou se existe apenas uma aparência de conflito de interesses, por deficiente entendimento, de uma ou das duas partes, de propósitos, intenções, objetivos.

Ouvir o outro é o primeiro exercício prático da Tolerância, da verdadeira Tolerância. Porque esta não é o ato de, condescendentemente, admitir que o outro tenha uma posição diferente da nossa e permitirmos-lhe, “generosamente”, que a tenha. A verdadeira Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. A verdadeira Tolerância resulta do pressuposto filosófico de que ninguém está imune ao erro. Nem nós – por maioria de razão. Portanto, tolerar a opinião do outro, a exposição do seu interesse, porventura conflituais com a nossa opinião e o nosso interesse, não é um ato de generosidade, de condescendente superioridade. É a consequência da nossa consciência da Igualdade, fundamental entre nós e o outro. Que implica o inevitável corolário de que, sendo diferentes as opiniões, se alguém está errado, tanto pode ser o outro como podemos ser nós. A Tolerância não é um ponto de chegada – é uma base de partida. Não é demais repeti-lo.

Porque a consciência disto possibilita a primeira ferramenta para a gestão do conflito: a disponibilidade para cooperar com o outro, para determinar (1) se existe verdadeiramente divergência entre ambos; (2) existindo, qual é ela, precisamente; (3) em que medida é essa divergência, superável, total ou parcialmente; (4) ocorrendo superação parcial da divergência, se o conflito se mantém e, mantendo-se, se conserva a mesma gravidade; (5) finalmente, em que medida é possível harmonizar os interesses conflituantes: cada um abdicando de parte do seu interesse inicial? Garantindo ambos os interesses, seja em tempos diferentes, seja em planos diversos?

Treinando-se na prática da Tolerância, o maçom aprende a lidar melhor com o conflito, porque é capaz de, em primeiro lugar, determinar se existe mesmo conflito, em segundo lugar predispõe-se para cooperar na superação do conflito e finalmente adquire a consciência de que existem várias, e por vezes insuspeitas, formas de superar, controlar, diminuir, resolver, conflitos – quantas vezes logrando-se garantir o essencial dos interesses inicialmente em confronto.

E tudo, afinal, começa por saber ouvir e por saber tolerar (o que implica entender) a posição do outro.

Por isso o primeiro exercício que é exigido ao maçom é a prática do silêncio. Para que aprenda a ouvir, para que se aperceba do que realmente é dito, para que reflita sobre a melhor forma de resolver os problemas que ouça expostos.

Através do silêncio, aprende o maçom a sair de si e a atender ao Outro. Através da Tolerância da posição do Outro, aprende o maçom a descobrir a forma de harmonizá-la com a sua. Através da busca da Harmonia, aprende o maçom a gerir os conflitos. Através da gestão dos conflitos, torna-se o maçom melhor, mais eficiente, mais bem sucedido.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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22º Sorteio Literário do blog

A Ressonância Schumann

Em inúmeras ocasiões ouvimos as pessoas dizendo que o “tempo está curto”, que não têm tido tempo para fazer todas as suas atividades, ou seja, que precisam que o dia tenha mais horas para fazermos todas as nossas tarefas.

Notamos esse frenesi no trânsito, nas pessoas andando apressadas, na falta de paciência para com os mais lentos e até quando temos que ouvir um irmão com mais atenção.

Percebemos pessoas dizendo que dormiram pouco, pois precisaram trabalhar ou estudar até a madrugada para dar conta de suas tarefas, que o ano passou rápido demais.

Pois bem. Em 2004, o teólogo Leonardo Boff escreveu um artigo para o Jornal do Brasil (5 de março de 2004) teorizando sobre o porquê dessa noção de que os dias aparentemente possuem menos horas do que realmente precisamos. Ele atribuiu a essa percepção humana a ocorrência de um fenômeno da física denominado “Ressonância Schumann”.

W.O. Schumann foi um físico alemão que, em 1952, constatou que o nosso planeta é cercado por um campo eletromagnético poderoso, que se forma entre o solo e a parte inferior da ionosfera. Para aqueles que não se lembram, a biosfera terrestre (a parte habitável de nosso planeta), é a área da atmosfera aonde podemos ir sem proteção especial e que tem na ionosfera o seu limite superior.

Assim, Schumann enunciou que essa área do planeta, entre o solo e a ionosfera, forma um escudo que nos protege das radiações siderais, e, como todo fenômeno eletromagnético, possui uma frequência, uma espécie de ritmo ou pulsação. Schumann determinou em 1952 que a frequência dessa cavidade protetora em que vivemos era de 7,83 Hertz.

Leonardo Boff em seu artigo, afirmou que essa frequência é uma espécie de marca-passo planetário e uma referência para todos os seres vivos da biosfera terrestre. Inferiu que 7,83 Hz era o valor da frequência natural dos seres humanos e que nossas vidas eram influenciadas pela frequência planetária, ou mais especificamente, pela Ressonância Schumann.

Disse que a partir dos anos 80, o marca-passo planetário acelerou passando de 7,83 Hz para 13 Hz. Com isso, os organismos vivos submetidos a essa ressonância ou magnetismo, tenderam a alinhar-se com esse novo batimento, ou seja, atribuiu o frenesi da sociedade atual ao aumento dessa frequência planetária.

Boff diz ainda que o coração da Terra disparou levando o planeta a mais atividades vulcânicas, degelo das calotas polares, “El Niños” mais severos, furacões mais frequentes, etc. Afirmou que devido ao aumento dessa frequência nossa jornada de 24 horas passou a ser de fato de 16 horas e, portanto, a percepção de que tudo está passando rápido demais não é ilusória, mas teria base nessa alteração da Ressonância Schumann.

Teoriza também que o único meio para que esse fenômeno se reverta é que os seres humanos busquem a serenidade e o seu equilíbrio interior, vivendo com mais amor, pois o amor é uma energia essencialmente harmonizadora.

Buscando agora o que dizem nossos cientistas, verificou-se que de 1952 até os dias de hoje a variação na frequência foi de praticamente 0,1 Hz devido às explosões solares, atingindo apenas o valor máximo de 7,9 Hz, não muito diferente de 7,83 Hz. Podemos comprovar também que não houve alteração na passagem do tempo a partir do lançamento de satélites localizados após a ionosfera, ou seja, fora da influência da Concha de Schumann, e que possuem relógios atômicos que após anos ainda estão perfeitamente sincronizados com os relógios que ficaram na Terra.

Mas de onde vem então essa percepção de todos nós de que o tempo passa mais rápido? A resposta está em nós mesmos! Se formos a um interior longínquo da Região Amazônica, ainda encontraremos cidades pequeninas que mal possuem energia elétrica.

Veremos lugares onde as pessoas possuem o hábito de fazer rodas de conversas, de observar a chegada da “Estrela D’Alva”, o planeta Vênus, que depois da Lua é o corpo celeste mais brilhante de nosso firmamento e que sempre chega junto ao alegre cantarolar dos grilos. Nesses interiores tudo é perto e o tempo passa deliciosamente devagar.

O que de fato aconteceu conosco nas grandes cidades é que recebemos diariamente um bombardeio de “inputs”, ou seja, de informações que chegam e que precisam ser respondidas com rapidez. Estamos envolvidos nesse ritmo, nessa roda insana de nossa sociedade conectada.

Mas como reverter essa situação que nos gera tantos desgastes, males físicos e mentais?

Segundo Siddharta Gautama (2003), talvez a resposta esteja no “caminho do meio”, assim como nos ensinou Buda… “Nem tanto ao céu, nem tanto a Terra”.

Temos que dar uma cadência às nossas vidas… parando nos momentos certos, buscando a organização mental, a serenidade em nossas ações… temos que buscar a harmonização. Pessoas com equilíbrio conseguem transmitir sensações de paz e de bem-estar. Torna-se prazeroso estarmos próximos a pessoas equilibradas energeticamente.

Lembremos da régua de 24 polegadas que nos serve de referência, lembremos de meditar, de buscar a organização mental para conduzir nossas tarefas e nosso dia.

Lembremos que como disse Boff, na parte de seu texto que nos servirá como ajuda, que temos em alguns momentos em nosso dia que sermos “menos cultura” e “menos competitivos”.

Temos que ser mais seres humanos, mais amorosos e mais fraternos. Temos que ser um pouco menos reativos e mais humanos… olhar estrelas, como faziam nossos antigos mestres egípcios, apreciar a beleza das flores, conversar, confraternizar… dar boas risadas!

Só agindo desta forma, conseguiremos realmente atingir o nosso equilíbrio físico e mental que nos defenderá do ritmo alucinante de nossa sociedade urbana, para que a paz e a tranquilidade estejam de fato entre os seres que habitam este lindo planeta azul.

Autor: Cézar Furtado

* Cézar é VM da Loja de Estudos e Pesquisas Acácia Canoense, 252, filiada à GLMERS – Oriente de Canoas, Rio Grande do Sul.

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Referências

Jornal do Brasil – RJ – Coluna do Teólogo Leonardo Boff – 5 de março de 2004

GAUTAMA, S. A Doutrina de Buda. São Paulo: Martin Claret, 2003. p.19

Material eletrônico, artigo de revista eletrônica:

Artigo Científico – A ressonância Schumann e a disparada do coração da Terra – Alberto Gaspar (Dr. Pela USP e Prof. Física da UNESP-Guaratinguetá) – Autor da Ática, 2006.
http://www.aticaeducacional.com.br/htdocs/secoes/atual_cie.aspx?cod=751

O lado sombrio de Hiram Abiff

Introdução

O século 19 viu florescer uma enormidade de graus e sistemas, a maioria dos quais acabou não sobrevivendo. Seria possível passar décadas escrevendo sobre eles e a maioria traz apenas variações em cima dos mesmos temas. Leia-se: Mudam os personagens e os cenários, mas as lições são fundamentalmente as mesmas.

Nessa profusão de graus, contudo, um deles chama muito a atenção: O grau de Mestre Marcado. Pouco se sabe sobre esse grau, exceto pelo fato de que ele surgiu no século 18, supostamente na Escócia, chegando a ser praticado também nos EUA.

Esse grau fazia parte de um sistema de 44 graus, chamado de Early Grand Rite of Scotland, algo como “Grande Rito Primitivo da Escócia”, que não deve ser confundido com um homônimo posterior criado por Ambelain. Hoje extinto, alguns graus desse sistema sobrevivem na Allied Masonic Degrees (AMD) e entre os Knight Templar Priests (KTP). Não se sabe, contudo, se o grau é originário desse sistema, ou apenas foi a ele agregado.

O que torna o grau diferente?

Mas o que o diferencia dos demais graus é o fato de ser o único que traz o que chamo de lado sombrio de Hiram Abiff, apresentando-o como invejoso, negligente e responsável por homicídio culposo!

E, por se passar num período anterior à sua morte, acaba por trazer uma interpretação totalmente diferente para o grau 3. Para os maçons que receberam o grau, certamente serviria como um “twist” no estilo dos filmes hollywoodianos que os faria pensar que isso muda tudo. Abaixo, passo a narrar a lenda desse grau:

A lenda de Hiram e Cavelum

O grau se passa no começo das obras do Templo de Salomão. Nessa época, Hiram Abiff teria ido a Jerusalém para participar da construção do Templo de Salomão, achando que ele seria o Mestre-Construtor.

Ao chegar, contudo, deparou-se com o fato de que um parente do rei Salomão, denominado Cavelum[1], havia sido apontado para supervisionar a obra. Hiram Abiff teria sentido inveja de Cavelum e, indignado por não ter recebido a honraria que esperava e ter sido relegado a um papel de menor importância, teria ficado amargurado.

A amargura de Hiram teria atrapalhado na condução de seus trabalhos.

Certo dia, Hiram inspecionava os trabalhos sobre o portão norte do complexo do Templo. Totalmente absorvido por seus sentimentos, Hiram não percebeu que uma das pedras estava mal fixada. Hiram acabou deslocando essa pedra, que caiu justamente sobre Cavelum, matando-o.

Profundamente entristecidos pelo acidente, Hiram Abiff e o rei Salomão mandaram fechar o portão norte.

Observações

O leitor que conhece a lenda de Hiram Abiff imediatamente perceberá que o fechamento do portão norte teria impacto direto sobre a lenda do terceiro grau, que o autor do artigo evitará de comentar por zelo maçônico.

O objetivo central dessa lição era a ideia de que a falta de domínio sobre nossas paixões pode levar a consequências desastrosas, mesmo que essa não seja a nossa intenção.

Mas, mais do que isso, o grau pretendia fazer com que o recipiendário visse a lenda de Hiram como parte de um ciclo de causa e efeito, provocando-o a pensar se as injustiças sofridas não seriam decorrentes de ações anteriores, por nós desconhecidas.

Problemas de aceitação

Todavia, para ensinar essas lições, o grau sacrificava a reputação de Hiram Abiff. O que nos leva ao comentário de Arthur Edward Waite:

“Por um lado, a lenda do Mestre Marcado o representa como em primeira instância subordinado a Cavelum, um dos parentes reais, que estava encarregado das operações antes da chegada daquele artista cuja genialidade e fidelidade encheram o mundo da Maçonaria com louvor para sempre. Essa é a anomalia na superfície; mas o que se segue, também na superfície, é pior, pois é uma mancha na reputação do Construtor. Ele é descrito como descontente e invejoso por causa de sua posição inferior; e sua negligência conduziu a uma fatalidade que tem quase um aspecto homicida.” (1911)

Teria sido esse sacrifício ousado demais, mesmo que a lição simbólica, abaixo da superfície, seja nobre?

Nos dias atuais, isso seria encarado com relativa naturalidade, pois nossa sociedade se acostumou com o fato de que até os super-heróis são às vezes reportados como tendo lados obscuros, sombrios e, por muitas vezes, recheados de esqueletos no armário.

Semelhantemente, nenhum maçom minimamente esclarecido nos dias de hoje acredita que a lenda de Hiram Abiff seja uma história literal.

Porém, se até hoje em dia as pessoas reagem mal quando não gostam de um dado desdobramento na história de um personagem de um filme ou série, quanto mais um personagem tão central para um sistema filosófico, como é o caso de Hiram Abiff na Maçonaria.

Assim sendo, não é improvável supor que a ousadia na lenda desse grau tenha causado aversão a muitos maçons no passado.

Teria sido essa amarga impressão um dos motivos pelos quais acabou deixando de ser praticado? Ou, talvez, a razão pela qual outros graus foram preservados por outros corpos e esse acabou sendo deixado de lado?

O último registro que se tem de qualquer coisa referente a esse grau ocorre numa alusão à sua lenda, feita num jornal neozelandês datado de 1937, o que dá a entender que o grau pode ter se espalhado por mais países.

Embora não seja mais praticado, pelo menos não pelos corpos maçônicos convencionais, o grau conserva ainda grande curiosidade por ter a distinção de ser singular na releitura que faz de um personagem tão importante para a Maçonaria.

Autor: Luis Felipe Moura

Fonte: O Prumo de Hiram

*Luis Felipe é M∴ M∴, membro da ARLS Conde de Grasse-Tilly 301 (Grande Oriente Paulista/COMAB). É bacharel em Letras (Inglês), mestre em Teologia e em Psicanálise, atualmente trabalha como psicanalista e professor de Bíblia Hebraica.

Nota

[1] – O nome Cavelum não é bíblico. E há duas hipóteses etimológicas: Pode ser que venha do latim cavellum, que significa um pequeno buraco ou lugar oco, talvez aludindo à pedra posta sobre o portão norte. Ou pode ser que faça alguma alusão à cavalaria, já que vários autores e rituais se empenharam em fazer conexões entre a cavalaria e a lenda da construção do Templo.

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Referências

CAMPBELL, WM. The Stone of Destiny. The New Zealand Herald, Auckland, 28 jan. 1937, p. 13.

HUGHES, Paul T. Old Legends of Hiram Abiff. Tucson: Southern Arizona Research Lodge, 1982.

WAITE, Arthur E. A New Encyclopedia of Freemasonry, vol. II: Mark Masonry. Nova Iorque: Cosimo, 1921.

WAITE, Arthur E. The Secret Tradition in Freemasonry and an Analysis of the Inter-Relation Between the Craft and the High Grades, vol. I. Londres: Rebman Limited, 1911.

SMITH, M.A. Common Words with Curious Derivations: Cavil. Londres: Bel and Daldy, 1865.

ARCHITECT. Grand Council – Allied Masonic Degrees. Disponível em: <http://www.amdusa.org/degrees/ARC.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

HISTORY. The Grand College of America – Holy Royal Arch Knight Templar Priests. Disponível em: <http://www.hraktp.org/history.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

EGSR: The Early Grand Rite of Scotland. Disponível em: <http://ecossais.net/index.html>. Acesso em: <29/12/2019>.

O Inefável da Maçonaria

“O mistério gera curiosidade e a curiosidade é a base do desejo humano para compreender” (Neil Armstrong)

Na Grécia antiga, à iniciação aos mistérios do sagrado denominava-se mistagogia, que é uma palavra composta de duas partes: mist + agogiaMist relacionado a mistério, mysterium; agogia, agein, ligado a conduzir, guiar. Portanto, guiar para dentro dos mistérios; iniciar ao conhecimento, à interpretação dos mistérios. Daí o mistagogo, o sacerdote que iniciava os neófitos nos mistérios; o guia (mentor/mestre) que orienta desde os primeiros passos.

Por sua vez, mysterium vem da palavra muein, que significa “fechar os olhos e a boca”, enxergar o segredo e calar-se. O conteúdo é um segredo acessível somente às pessoas que estão sendo iniciadas e que serão guiadas por um caminho que as leva do mundo perceptível, real, envolvendo a vida, os símbolos e ações rituais, em direção a seu significado escondido. Diz o Aurélio: o segredo é o que se oculta à vista, ao conhecimento, que não se divulga. Portanto, o mistério está estreitamente ligado a silêncio, prudência e segurança.

Na Antiguidade Clássica, as escolas não tinham os contornos como hoje compreendemos, pois a cultura era adquirida pela forma iniciática e com um sentido de sabedoria sagrada revelada. Os sacerdotes da alta hierarquia dos mistérios da Grécia e do Egito (hierofantes) e os legisladores (arcontes) excitavam a curiosidade das pessoas e ocultavam as verdades sob o véu de alegorias encorajando dedicação e estudos. Os “Mistérios” eram dramatizações que exibiam alguma lenda significativa das mudanças da natureza. Cada centro de ensinamento possuía uma história simbólica que servia de base a toda concepção dos mistérios onde divindades eram reveladas.

Não obstante o passar do tempo, como as pessoas gostam de contar histórias, que crescem e se multiplicam de fogueira em fogueira, os mistérios se renovam e os exemplos e narrativas se frutificam sempre envoltos em diferentes roupagens e denominações. Conforme ensinou Gustav Meyrink, escritor, dramaturgo, tradutor e banqueiro austro-húngaro, que escreveu principalmente dentro do gênero literatura fantástica,

“Quem não tem a intuição suficiente para descobrir por si mesmo o mistério, não é digno de possuí-lo por outros meios.”

A Ciência existe no mistério e o que não faltam são fenômenos que fogem à compreensão comum e intrigam pesquisadores, sendo a origem da vida, surgida há não mais que 4,2 bilhões de anos, o mais desafiador deles. E a pergunta que sempre intrigou os cientistas é exatamente porque as coisas são do jeito que são. E o ser humano, de modo geral, diante da morte, se enche de medo. É a dúvida sobre o mistério da transformação.

Hoje temos a difusão da moderna tecnologia, na iminência da geração de um “ser artificial e inteligente”, com contornos de algo fascinante e misterioso, mas tratando-se apenas e tão somente de uso intensivo da informática, que em breve tornará muito difícil separar o que é real do digital. Com o avanço das pesquisas sobre prevenção e tratamento de doenças, vislumbra-se mesmo a criação de um ser pós-humano, o que é bem mais assustador.

Na sua obra “2001 – Uma odisseia no Espaço”, Arthur Clark dizia que “qualquer tecnologia suficientemente avançada parece ser mágica”, e como sempre, poucos são os “iniciados” nessa seara e despertam curiosidade quanto à aura mística, ao simbolismo e linguagem cifrada através da qual se comunicam e protegem seus conhecimentos e descobertas, aí incluindo segredos militares, empresariais e de Estado, em muitas situações protegidos por legislações e estratégias digitais de segurança específicas. A guerra ora em andamento na Ucrânia acontece também no espaço cibernético, com sites oficiais sendo atacados e sanções sendo aplicadas às plataformas de notícias estatais russas. Nessa guerra híbrida, a tecnologia já é considerada um novo tipo de “soldado”. Cibercrime e invasão de privacidade estão aí para ficar.

Todo negócio tem o seu segredo e, concordemos ou não, todas as disciplinas (economia, matemática, física…), religiões, governos, associações etc., têm lá seus mistérios e uma linguagem própria, carregada de jargões, que não é clara para os leigos e é acessível apenas para os iniciados e pertencentes às respectivas bolhas.

Conforme ensina a doutora em teologia Ione Buyst (2011),

“O mistério é uma realidade tão rica, complexa, abrangente e profunda que é impossível expressá-la ou explicá-la racionalmente. O mistério não é irracional, mas ultrapassa nossa razão. Por isso, só temos acesso a ele por um caminho feito de experiência e de sabedoria, que valoriza o conhecimento simbólico.”

Nos registros do Concílio Vaticano II, NA 2, consta:

“Desde os tempos mais remotos até aos nossos dias, encontra-se nos diversos povos certa percepção daquela força oculta presente no curso das coisas e acontecimentos humanos; encontra-se por vezes até o conhecimento da divindade suprema ou mesmo de Deus Pai.”

Como principal instrumento pedagógico, a Maçonaria veicula em seus símbolos, mitos e alegorias, mensagens que estimulam reflexão sobre a espiritualidade, somente acessíveis aos iniciados que conhecem a linguagem e decodificam os seus sentidos, de acordo com a capacidade interpretativa de cada um, protegidos por compromissos e juramentos de discrição, favorecendo a identificação e a coesão do grupo. A interpretação e a compreensão de suas verdades é que farão o diferencial na percepção do mundo e na prática das virtudes a eles vinculadas. Por cultuar a razão, a Maçonaria não possui dogmas[1], porém usa essas ilustrações como um caminho para o autoconhecimento. Seus símbolos não são objetos de adoração, mas se constituem em ícones que veladamente encerram Verdades.

Esse “Iniciado” distingue-se do “Profano”[2] (do latim: pro=ante + fanum=templo). O primeiro, tendo ingressado no Templo simbólico da Maçonaria, conhece-o por dentro; o segundo, popularmente referenciado como leigo, fica fora dele, fora do Templo da Sabedoria ou de um real conhecimento da Verdade e da Virtude, das quais reconhece unicamente os aspectos profanos ou exteriores que constituem a moeda corrente do mundo.

Nas religiões e escolas filosóficas antigas (egípcios, persas, gregos, judeus, romanos, celtas e escandinavos), homens e mulheres de qualquer posição e cultura podiam solicitar sua iniciação nos diversos mistérios. Os ensinamentos ministrados aos iniciados, ou discípulos, denominavam-se esotéricos (do grego, esoterikós – interno) ou Mistérios Maiores. E aqueles transmitidos ao público em geral, sem restrições, conhecidos como exotéricos (do grego, exoterikós – exterior) ou Mistérios Menores.

Para Buyst (2011),

“Quem olha de fora, ou quem está dentro sem ter sido iniciado, não conseguirá captar este ‘mistério’ e ser transformado por ele”. “O conhecimento esotérico aliado ao aprendizado permite estabelecer a diferença entre teoria e realidade, consubstanciando-se a experiência pessoal na condição essencial para discernir a opinião da verdade, que é o conhecimento interior.”

Nos evangelhos reconhecemos essa forma de ensinamento. Quando perguntado por seus discípulos por que usava parábolas para falar ao povo, Jesus disse: “Porque a vocês foi dado conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não” (Mt, 13,11). “Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios” (Eclo, 3,20). “A vós foi dado o mistério do Reino de Deus: aos de fora, porém, tudo acontece em parábolas, a fim de que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam” (Mc 4, 10-12). Para os Cristãos, o mistério de Deus se revela na pessoa de Jesus.

Anatalino (2013) afirma que todo Maçom, ao ser iniciado nos augustos Mistérios da Arte Real (outra denominação para a Maçonaria) está na verdade penetrando no Reino da Enteléquia, vocábulo este que significa a qualidade de ser que tem em si mesmo a capacidade de promover seu próprio desenvolvimento. Essa passagem do estado de não iniciado para iniciado se dirige mais à mente inconsciente do Aprendiz do que à sua consciência. Na Loja, o simbolismo permite ao não Maçom que vivia nas trevas da ignorância encontrar a luz, representada pelo conhecimento, renascer tal como uma semente depositada na terra para uma nova vida, a vida maçônica, que aprimorando o caráter o torna capaz de exercer na sociedade um papel diferenciado, como um agente cidadão.

Esse mistério da cerimônia de iniciação marca o fim de um ciclo e início de outro, como uma “morte” seguida de uma aparente ressurreição ou renascimento simbólico dentro de uma nova família bastante numerosa, simbolizando renovação ou rejuvenescimento, mediante encenação de testes alegóricos, contemplando ritualísticas próprias do ofício de construtor e os conhecimentos esotéricos a elas vinculados, com um simbolismo arquitetônico introduzido não para servir às crenças, porém ligado aos mistérios da edificação do templo interior, com foco no despertar da consciência, visando a promover no homem a busca do conhecimento de si mesmo, ao gerar uma visão de sua própria estrutura mental[3].

A experiência da iniciação é individual, cada um absorve de uma forma muito particular, por isso se diz que é inefável. Tão simples e considerada “um mistério!”. Devemos nos lembrar de que passamos por várias “iniciações” ou “rituais de passagem” em nossa vida, como aniversários, formaturas, casamentos etc.

Na sequência de sua recepção como Aprendiz, o neófito (planta nova) passa a ser instruído nos primeiros mistérios que somente a ele caberá desvendar, sendo apresentado a uma sequência de instruções e instrumentos simbólicos que o ajudarão nessa empreitada para desbastar a pedra bruta da sua personalidade, numa escalada de graus sobre os quais passará a refletir e trabalhar, paulatinamente tomando ciência dos segredos a que aspira conhecer, e que se resumem na vivência dos princípios maçônicos, os quais não podem ser considerados mistérios na sua essência e sim um farol a iluminar o caminho do aperfeiçoamento pessoal.

Esses assim chamados “Mistérios Maçônicos” são constituídos de todas as verdades morais, ocultas sob a forma de alegorias, expressas por sinais, palavras, números, fórmulas, lendas e cerimoniais, que funcionam como auxiliares de memória. Mas, é importante que fique bem claro, a Maçonaria não é detentora de nenhum segredo oculto, fórmulas mágicas ou poderes escondidos. O considerado “Mistério” maior e pouco compreendido é representado pela magia que encerra o amor entre os irmãos, uma verdadeira forma da União, que purifica a amizade e as relações fraternais.

A recepção ou aceitação de um novo membro na Ordem deve ser entendida como o ingresso em um novo estado de consciência, e num modo de ser interior, do qual a vida exterior é efeito e consequência. Pressupõe, no entanto, o compartilhamento, no seio de uma comunidade iniciática, de um “segredo” por meio de símbolos e instruções expressos por um ritual que fará de um candidato um autêntico iniciado ao grau de Aprendiz Maçom. Nicola Aslan ensina que “não existem segredos na maçonaria para aqueles que se propõem a estudar”. Ademais, esses supostos segredos podem ser vistos por qualquer um, mas por estarem no fundo dos corações dos obreiros não são desvendados pelos olhos ou sentidos, e sim pelo estudo, pesquisa e o silêncio da meditação.

Porém, o que mais se destaca é a questão do “segredo” e que é própria de todos os grupos e organizações que desenvolvem algum conhecimento corporativo com linguajar próprio e por isso representam a garantia de que os Maçons não estão sós no mundo e abandonados à própria sorte, pois aprendem a se reconhecer em qualquer ambiente. A necessidade de manter esses “segredos” de reconhecimento mútuo, tratados nos recintos das Lojas, que funcionam como um canteiro simbólico, e restrito aos seus membros, vem de uma tradição de cuidados que deviam ser mantidos em um ambiente de intolerância e repressão que a Ordem sofreu ao longo da história, quando uma simples indiscrição podia custar prisão, tortura ou até mesmo morte, e por isso se mantinha “invisível”.

A principal causa do ódio e perseguição contra os cristãos primitivos na sociedade romana devia-se ao estilo de vida diferenciado. A humanidade sempre olhou com suspeita para aqueles que são diferentes.

“A conformidade, não a distinção, é o caminho para uma vida livre de problemas, e quanto mais os cristãos primitivos levaram sua fé a sério, mais eles corriam o risco da reação da multidão.”

E eles ainda foram vítimas de calúnias, como a suspeita de que as reuniões cristãs fossem orgias sexuais e disfarce para todo tipo de crime, inclusive com acusação de canibalismo, no sentido de que alguém era comido, com referências às palavras de Jesus: “Este pão é meu corpo, este cálice é meu sangue”. Os pagãos entendiam que os cristãos deveriam estar comendo carne humana e bebendo sangue humano. Essas acusações provavelmente surgiram de um fato característico da natureza humana: o segredo gera desconfiança (Shelley, 2018).

No caso da Igreja Católica, até o século VI, as catequeses eram dadas depois da celebração dos sacramentos da iniciação cristã, porque naquele tempo era praticada a chamada ‘disciplina do arcano’, que mandava guardar segredo a respeito dos ‘mistérios’ da fé, seja da doutrina, seja dos sacramentos. Não se podia revelar nada disso aos não batizados, para evitar mal-entendidos, gozações e até perseguições.

“E, assim, havia para os batizandos o ’elemento psicológico da surpresa’ que destacava de certo modo ‘a eficácia da experiência espiritual’ do sacramento” (Buyst, 2011).

A Maçonaria tem os seus segredos, mas não é uma organização secreta, tem endereço e personalidade jurídica registrada nos órgãos competentes (Estatuto, Regimento Interno e CNPJ). Porém, os seus detratores distorcem esse entendimento. Caso não fossem verdadeiros e consistentes seus propósitos, já teria desaparecido há muito. Fort Newton destaca:

“Quando todos os homens praticarem seus preceitos simples, os segredos inocentes da Maçonaria serão postos de lado, pois sua missão estará cumprida e seu trabalho terminado.”

Na Maçonaria Operativa, os pedreiros livres se reuniam em lugares fechados para discutir questões de trabalho e problemas de interesse da corporação, sendo tratados como secretos todos os assuntos. Inclusive, em épocas de perseguições na maçonaria moderna, chegou a ser adotado o uso de um nome simbólico no intuito de o obreiro ocultar o seu verdadeiro nome, prática essa ainda mantida simbolicamente em alguns ritos.

É consenso na história da Maçonaria que, se a sua essência e aparência fossem claros aos não iniciados em seus alegados mistérios, a Ordem já teria desaparecido, sucumbindo a pressões de impérios e ideologias. O seu glamour é exatamente esta aura de segredo e mistério, que nada mais é do que um véu que cobre certos aspectos a serem preservados através da tradição. Essa aura de mistérios e segredos foi reforçada a partir de 1717, em Londres, com o nascimento da Moderna Maçonaria, quando James Anderson inseriu exposições lendárias em suas “Constituições”, publicados nos diários londrinos da época, com o fito de agregar novos adeptos e com isso chamar atenção com fatos tidos como misteriosos segredos guardados pela Maçonaria. Porém, conforme contido no art. 1º da referida “Constituição”, o foco era que a Maçonaria se tornasse “o centro de união e o meio para estabelecer uma amizade sincera entre homens que de outra forma permaneceriam separados para sempre”.

A narrativa de uma possível transição de Maçonaria Operativa para Especulativa ou dos Aceitos e, em seguida, para a Especulativa por excelência ou Moderna[4], formada então por homens espiritualizados, teria absorvido e adaptado conhecimentos em voga na sua época áurea, atraindo intelectuais de diversas correntes de pensamentos, que agregaram elementos místicos e ocultistas, muitos inspirados na Bíblia, relativamente à época da construção do Templo de Jerusalém, além de elementos da Cabala, do hermetismo, da astrologia e de antigas religiões e processos iniciáticos históricos. Assim, a Maçonaria se assumia como guardiã (alguns dizem “legatária”) de determinados conhecimentos arcanos oriundos de fontes bastante amplas, que seriam comunicados aos membros nas iniciações e nos diversos graus.

Registre-se que ocultismo não é temática maçônica. Mas, isso já é tema para discussões acaloradas entre os defensores da “Maçonaria Autêntica” e da “Maçonaria Romântica”, que desvirtua o sentido dos objetivos primordiais da Maçonaria.  O glamour da Maçonaria ao qual nos referimos anteriormente, que deu a ela uma conotação diferenciada em relação aos clubes sociais vigentes à época de sua estruturação moderna, foi o conteúdo iniciático e esotérico introduzido no século XIX por obreiros provenientes da Ordem Rosa-Cruz. Segundo Rizzardo da Camino (2017), a Rosa-Cruz seria a legítima promotora da Maçonaria Simbólica. Sem essa influência, afirma ele, a Maçonaria teria permanecido até hoje na Inglaterra como corporação puramente profissional[5].

No entanto, dizer que ela é mística tem o condão apenas de afirmar que não é materialista (vide nota 1 acima), pois alimenta o entendimento da existência de um princípio criador, que é Deus, e na imortalidade da alma, “e que todas as formas vivas e belas são símbolos de coisas mais sublimes do que elas”. “Não sendo religião, no sentido do culto litúrgico, aceita e amplia todos os conceitos religiosos, extraindo deles lição de que necessita para orientar seus filiados” (Camino, 2017).

Quanto a dizer que teria na sua origem elementos ocultistas, vale dizer que tal tendência se desfez ao longo do tempo com os modernos recursos de difusão de informações e conhecimento, pelo progresso no campo científico com o surgimento de novas ciências como a psicologia e a parapsicologia no campo experimental, aliados à evolução do comportamento e do pensamento humano, restando ao mundo ocultista o plano esotérico e espiritual. A absoluta liberdade de consciência e o racionalismo se constituem nos efetivos pilares da Maçonaria.

É sabido que vários escritores maçônicos imaginosos dotaram seus símbolos históricos e tradicionais de significados que nunca tiveram, além de introduzirem dramatizações descabidas e que somente os verdadeiros iniciados vislumbram as diferenças e não repercutem essas lorotas. Alguns evocam uma suposta egrégora em Loja, que não faz parte da tradição maçônica que prima pela razão, e ainda fazem mise-en-scène para plateias desinformadas ou pose de maçons misteriosos exatamente por não estudarem e usam de subterfúgios para camuflar a ausência de conhecimentos. Parodiando a escritora e teósofa Annie Besant, ensinam o que não sabem, como seguro refúgio de sua ignorância.

Fort Newton ensina: “aquele que professa uma religião, que não seja somente teoria ou forma, é um místico, existindo entre ele e os grandes místicos apenas uma diferença de Grau”. Acrescenta ainda, “misticismo não é patrimônio exclusivo de um grupo de adeptos para ser encarado como um segredo …. Qualquer homem que se curve numa oração, ou eleva seu pensamento ao céu, é um Iniciado no misticismo eterno, que é a força e o consolo da vida humana”. O misticismo diferencia os seres humanos dos animais e a vida se manifesta por meio de atos místicos. Importante, ainda, refletir sobre o pensamento de Joseph Campbell:

“Mitologia é nome que damos à religião dos outros.”

Conforme ensina Camino (2017), “o homem necessita sempre de um amparo vindo do Alto, do mistério extraterreno, do Infinito, poderoso e que atenda a seus caprichos”. Ao fim e ao cabo, é com o autoconhecimento, olhando para dentro, que misteriosamente encontramos o que tanto procuramos alhures. Cícero afirmava que “nos Mistérios, nós percebemos os princípios reais da vida e aprendemos a viver de maneira feliz, mas principalmente a morrer com uma esperança mais justa.”

“Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga”. (Clarice Lispector)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

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Notas


[1] Sobre a alegada inexistência de dogmas, pergunta-se o que seria a crença em um “Princípio Criador” e na imortalidade da alma, presente em alguns Ritos.  O Rito Sueco, mais praticado nos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia, além da Islândia), e em muito menor escala nos Países Baixos e na Alemanha, com origem a partir de 1759, tem sentido profundamente cristão. Conclui-se, assim, que não existe uma Maçonaria, mas Maçonarias e inúmeros Ritos, cada um com suas tradições, usos e costumes inerentes à sua estrutura iniciática e que podem variar entre as Potências.

[2] Infelizmente, o termo “profano”, dentre seus vários significados, somente é referenciado como aquele que deturpa ou viola coisas sagradas. Essa é uma situação que constrange e que poderia ser substituída, no caso da Ordem, pela expressão “não maçom”, muito mais palatável. Guénon (1947) ensina que a palavra “clero” significa “instruído”, e se opõe ao “secular”, que se refere ao homem do povo, ou seja, o vulgar, assimilado ao ignorante ou ao “profano”, de quem só se pode pedir para acreditar no que não se pode compreender, porque só assim se faz participar da tradição na medida de suas possibilidades.

[3]  Ver o Artigo “A alegoria do Templo e a Iniciação Maçônica”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2019/03/12/a-alegoria-do-templo-e-a-iniciacao-maconica/

[4] https://opontodentrocirculo.com/2021/04/23/maconaria-moderna-o-legado-escoces-parte-i/

[5]  Ver Influência da Bíblia na Maçonaria em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/08/28/a-influencia-da-biblia-na-maconaria/

Referências:

BUYST, Ione. O Segredo dos Ritos: ritualidade e sacramentalidade da liturgia cristã. São Paulo: Paulinas, 2011.

CAMINO, Rizzardo da. Simbolismo do Terceiro Grau. São Paulo: Madras, 2017.

CONCÍLIO VATICANO II: NA 2 – declaração Nostra Aetate sobre a igreja e as religiões não-cristãshttp://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_nostra-aetate_po.html, acesso em 09.02.2020.

OLIVEIRA FILHO, Denizart Silveira de. Da Iniciação rumo à Elevação. Londrina: Ed. “A Trolha”, 2012.

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio. Dicionário de Maçonaria: seus mistérios, ritos, filosofia, história. São Paulo: Pensamento, 2016.

GUÉNON, René. Autoridade Espiritual e Potência Temporal (1947), disponível em https://docero.com.br/doc/cxv5vx1. Acesso em 20.01.2022.

KRIWACZEK, Paul. Babilônia: a Mesopotâmia e o nascimento da civilização. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

NEWTON. Joseph Fort. Os Maçons Construtores: uma história e um estudo sobre a Maçonaria. Londrina: Ed. Maçônica “A Trolha”, 2000.

RODRIGUES. João Anatalino. O Tesouro Arcano – a maçonaria e seu simbolismo iniciático. São Paulo: Madras, 2013.

SHELLEY, Bruce L. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.

XAVIER, Arnaldo. Saiba o que são Maçonarias. Belo Horizonte: Label Artes Gráficas, 2010.

A casa está queimando…

Eu simplesmente não consigo entender o incêndio criminoso de três templos maçônicos na área de Vancouver. Servimos nossas comunidades e nosso país por séculos por meio de caridade, auto sacrifício e boas ações. W Bro. Syd Schatzker[1]

Por mais triste que seja este momento, talvez possamos usá-lo para repensar nossas estratégias de comunicação, nossos esforços de construção de imagem e – mais importante – nossas práticas de educação e mentoria.

Deixe-me ser franco:

Para servir a sua comunidade, você não precisa ser um maçom. Basta ir e ser voluntário em qualquer organização de serviço comunitário.

Para servir nosso país você não precisa ser maçom. Basta ir e se inscrever no exército (ou pior cenário: entrar na política pública com honestidade).

O auto sacrifício não é um conceito ensinado em nossa educação maçônica. [Embora eu tenha lido nos últimos dias uma “constituição” de uma defunta obediência maçônica do século 18, onde eles costumavam colocar o candidato em um julgamento para testar sua vontade de auto sacrifício.]

Fazendo boas ações …? Qualquer religião é mais óbvia e significativa sobre tais ações – e mesmo se fizermos “boas ações” – não é a ideia (apontando para o auto sacrifício) que não se espera receber carinho por fazer boas ações? Se fizermos boas ações para obter “boa reputação” como recompensa… estava vindo do coração ou apenas uma simples troca comercial?

Agora, talvez, seja hora de parar e pensar sobre nós mesmos, nosso lugar no mundo, o significado da Maçonaria e a imagem que criamos de nós mesmos. E as perguntas que fiz acima.

Há – fora da nossa fraternidade – autores de ficção e lunáticos, em igual quantidade, que escrevem sobre os maçons, suas origens, seus rituais, seus objetivos e suas atividades presumidamente “secretas”. O público em geral, e muitas vezes também os maçons, não conseguem discernir a diferença entre o real e o imaginário. O motivo: falta de educação e orientação.

Durante séculos, seguindo a postura da Maçonaria Inglesa, todas as Grandes Lojas permaneceram silenciosas e indiferentes a tais exercícios mentais exibidos por obras literárias ou malucos adeptos de teorias de conspiração. Enquanto a única mídia a atingir as massas foi a impressa, que não era acessível para tais “escritores”, talvez essa atitude oficial tenha se justificado. No entanto, o século XXI trouxe grandes mudanças também neste campo: a internet, a Web 2.0 (introduzindo a interatividade), as mídias sociais, os e-books etc. De repente, os grafomaníacos obcecados ganharam um meio de fácil acesso, uma plataforma mundial para espalhar suas fantasias… e as Grandes Lojas estavam, e ainda estão, à margem, como se isso não as afetasse. Talvez devêssemos questionar a validade dessa posição. A torre de marfim pode não funcionar desta vez. Para uma analogia, olhe para a economia: a disrupção tornou-se a norma. As velhas maneiras de fazer as coisas são obsoletas e não são eficazes.

A internet e a mídia cheia de conspiração não é apenas mais uma “exposé” como as iniciadas na década de 1730… não é apenas mais uma farsa impressa como a de Taxil… misteriosa Maçonaria. É um ataque com esforços concentrados (embora não cometamos o mesmo erro: não é uma conspiração mundial dirigida por um cérebro central!). Mesmo que não tenha origem em só lugar – está convergindo em uma única direção: contra nossa Sublime Ordem.

Devido aos nossos mais de 300 anos de silêncio e ao sigilo real e percebido, perdemos há muito tempo a chance de controlar nossa própria imagem pública. Quando mais de uma geração de maçons cresceu (e envelheceu) sem ser capaz de comunicar de forma coerente, nem mesmo para suas próprias famílias, o que é a Maçonaria e por que ela é importante na vida de um homem… perdemos o barco. Se nós, como maçons, não fomos capazes de comunicar às nossas amadas famílias o que é a Maçonaria – como esperamos convencer as massas paranoicas sobre as qualidades de nossa fraternidade?

(Antes que você se oponha nervosamente a essa ideia: pense em todos aqueles jovens anunciando publicamente que seu pai ou avô era maçom, mas eles nunca disseram uma palavra à geração mais jovem… eles podem dizer por que nunca foram orientados e educados adequadamente sobre a Arte Real!)

Fazer doações para instituições de caridade e/ou distribuir pacotes de alimentos para os necessitados – não é Maçonaria. É, sem dúvida, uma intenção nobre e uma ideia nobre ajudar os menos afortunados e contribuir para causas nobres. Mas quando a Maçonaria, para o iniciado, termina aí, ou, eventualmente, adicionando algumas cervejas com os “camaradas” … aí a Maçonaria acaba também.

Mentes brilhantes, como Thomas W. Jackson, o conhecido estudioso e maçom de longa data que viajou extensivamente ao redor do mundo, escreveu que distinguia cinco estilos de maçonaria: filosófico, social, sociológico, político e caritativo. Definitivamente, os exemplos destacados do Charitable Style são a América do Norte, tanto o Canadá quanto os EUA. O que significa que perdemos todo o resto … Como o Ir. Jackson colocou: nós “nos afastamos mais de suas raízes do que qualquer Maçonaria no mundo”.

Poderíamos citar muitos de seus artigos, e de muitos outros estudiosos maçônicos. Também poderíamos dar uma dica do nosso próprio programa de Grão-Mestre: Ritual, Educação, Mentoring. Sem isso, que tipo de “maçonaria” você tem? Vindo de um lugar onde a Maçonaria manteve vivo seu “estilo” filosófico e raízes, onde a elite intelectual costumava ser e ainda é atraída pelos ideais da Maçonaria, fiquei amargamente chocado quando um jovem maçom canadense não muito brilhante se opôs veementemente ao uso da palavra “elite” em conexão com a Arte. Ele pensou que era algum tipo de palavrão… e quando as pessoas podem associar com a palavra apenas os infames 1% mais ricos do país e nada mais, é um triste retrato de como fomos negligentes em nossa obrigação de orientar e educar nossos membros. Enquanto não mudarmos isso, não conseguiremos atrair a “elite”, nenhum tipo de elite.

Muitos maçons respeitam o autor John J. Robinson (pelo motivo errado, devo acrescentar, porque ele não é um historiador qualificado do Ofício). No entanto, todos podemos concordar com esta afirmação dele: “O problema com a Maçonaria é que ela não pratica mais a Maçonaria”.

Como isso está relacionado aos incêndios criminosos de BC?, você pode perguntar. Reflita sobre isso: quem é responsável pela discrepância entre nossa autoimagem e a imagem que existe na sociedade em geral?

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Nota

[1] – O autor dessa citação se referiu ao caso de incêndio criminoso de 30 de março de 2021 em Vancouver, BC. Veja reportagens da mídia: https://www.cbc.ca/news/canada/british-columbia/north-vancouver-fires-1.5969506https://globalnews.ca/news/7731273/arson-charges-masonic-hall-vancouver/ 

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O que é Cabala e qual sua verdadeira relação com a Maçonaria?

O que é Cabala?

Cabala é o esoterismo judaico. Existe o esotérico e o exotérico. O exotérico é o conhecimento ensinado ao povo, enquanto o esotérico é o conhecimento oculto no exotérico, restrito aos escolhidos, aos iniciados.

Trata-se de um sistema de simbologia e numerologia de origem judaica que teoricamente serve para desvendar os segredos ocultos na Torá.

Apesar dos cabalistas acreditarem que a Cabala foi transmitida pelo próprio Deus a Moisés, vários historiadores concordam que sua origem é nórdica, baseada na lenda de Odin. Por coincidência, a Capela de Roslin, considerada por muitos como um verdadeiro Templo Maçônico do século XV, possui a lenda de Odin com sua árvore sagrada ilustrada na chamada “Coluna do Aprendiz”.

O alfabeto hebraico possui 22 letras, enquanto a Cabala possui 22 caminhos que ligam às 10 esferas (sefirás) que formam sua estrutura, comumente chamada de “árvore da vida”. A árvore da vida é de uma certa maneira formada por triângulos, quadrados e círculos, três formas geométricas muito comuns na Maçonaria.

Qual sua relação com a Maçonaria?

Muitos são os trabalhos, estudos e livros relacionando a Cabala com a Maçonaria. Alguns chegam a inventar que existe a Cabala Operativa e a Cabala Especulativa, para aproximá-la ainda mais das raízes da Maçonaria. Porém, nenhum autor faz o favor de citar um fato ou documento histórico que liga a Cabala à Maçonaria ou mostrar onde há Cabala na Maçonaria. Tudo é muito vago ou, como alguns preferem, está tudo “oculto”, “entre linhas”.

A verdade é que a Cabala se popularizou entre os intelectuais do século XVIII e XIX. E se poderiam haver ensinamentos ocultos na Torah, muitos acreditavam que também poderia haver na Bíblia, nos rituais antigos, etc. A busca pelo oculto se tornou obsessão para a classe intelectual dessa época, aproveitando a onda de decadência da Igreja e das Monarquias e o fortalecimento da massa crítica da sociedade. Nessa época, Maçonaria era moda na Europa e várias outras sociedades secretas brotavam nas cidades, prometendo conhecimento oculto. Somente na Maçonaria Francesa, mais de 1.000 graus maçônicos surgiram dentro de dezenas de Ritos, todos com supostas origens honrosas como Egito Antigo, Palestina, Templários, celtas, Antiga Grécia e outras. O conteúdo e costumes nascidos da Maçonaria Operativa tentavam sobreviver em meio a essa avalanche de novas histórias, crenças, símbolos e práticas, todas novas, mas se autointitulando como “antigas”.

Os “criadores” dos Ritos e rituais chamados “Superiores” necessitavam de conteúdo para criar tantos graus. Ora, a Maçonaria sempre teve uma relação com o Templo de Salomão, com uma Palavra Perdida. Não há misticismo mais próximo disso do que a Cabala, a moda do momento! A origem judaica e a busca por um conhecimento que se perdeu nas brumas do tempo e pode estar oculto é um prato cheio para aqueles sedentos por conteúdo para enxertar na criação de dezenas de novos graus de um sistema.

Dessa forma, a Cabala foi introduzida na Maçonaria quando da criação dos Ritos Maçônicos, entre eles, o Rito de Heredom, sistema de 25 graus, que deu origem ao Rito Escocês.

Onde pode ser visto a Cabala no REAA?

Sua presença mais evidente está no Templo do Rito Escocês: o Templo e suas mesas e altar seguem a famosa Árvore da Vida.

Nos templos originais do REAA, o trono do 2º Vigilante ficava no lado ocidental da Coluna do Sul, paralelo ao trono do 1º Vigilante, assim como ainda é mantido nos Graus Superiores do REAA. A mudança do 2º Vigilante para o centro da Coluna do Sul, como podemos observar nas Lojas Simbólicas atuais, somente ocorreu pela influência dos templos ingleses e do Rito de York.

Observando o formato original do Templo do REAA, o mesmo formato em que a Loja de Perfeição é organizada, vê-se claramente a formação da Árvore da Vida:

O Átrio, onde os candidatos aguardam para serem iniciados, é onde se inicia a senda maçônica. É o ponto intermediário, que separa o profano do sagrado. Em seguida há a Porta do Templo, no Ocidente, que dá acesso à Luz, a partir de onde se inicia o trabalho. Os tronos dos dois Vigilantes seguem paralelos, em suas extremidades, representando o VM no governo de suas Colunas. Tem-se o Altar dos Juramentos no Centro. Observe que o Altar é o único ponto da Árvore em que todos os outros pontos têm caminho direto, menos o Átrio de onde só há acesso ao Altar após atravessar a Porta. Isso mostra que todos estão ligados por meio do GADU, representado pelo Livro da Lei no Altar. Seguindo, vê-se as mesas do Chanceler e o Tesoureiro, paralelas. A partir daí, inicia-se o Oriente, onde se vê as mesas do Secretário e do Orador nas laterais e, por fim, a cabeça da Árvore da Vida, ponto mais alto da Sabedoria da Cabala, o trono do Venerável Mestre.

Essa herança da Cabala se faz presente nos Templos do Rito Escocês e demais Ritos de origem francesa. Já nos templos ingleses (Rituais ingleses modernos, pós 1813) e nos templos americanos (Rito de York, a partir de 1797), não se vê tal característica, visto os templos serem mais próximos do chamado “Antigo Ofício”, ou seja, dos costumes da Maçonaria Operativa, exatamente por não terem sofrido essa influência “ocultista” ou “esotérica” que a maçonaria da Europa Latina (França, Portugal, Espanha e Itália) sofreu.

A Maçonaria Simbólica brasileira, por desconhecimento, promoveu com o passar dos tempos diversas adaptações em seus templos do REAA, desfigurando a Árvore da Vida pela influência de outros Ritos e Rituais. Porém, ela encontra-se preservada através dos Graus Superiores, ainda inviolados.

Por que não há registros explícitos disso?

Porque os criadores e líderes dos Ritos na época buscavam a atração e aceitação de seus adeptos através de afirmações de que o Rito surgiu de uma expedição de Napoleão ao Egito, ou dos escritos de um antigo Imperador, ou de um pergaminho protegido por um cavaleiro templário que sobreviveu à Inquisição. Era mais interessante do que confessar que se tratava de um trabalho um pouco mais recente, fruto de uma miscelânea de história, parábola, símbolos, com uma pitada de Cabala e outros misticismos.

Autor: Kennyo Ismail

Fonte: No Esquadro

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As três Grandes Luzes da Maçonaria, a Moral e a Ética

As três grandes luzes da Maçonaria são o Compasso, o Esquadro e o Livro da Lei Sagrada.

Talvez o mais conhecido dos símbolos da Maçonaria seja o que é constituído por um esquadro, com as pontas viradas para cima, e um compasso, com as pontas viradas para baixo.

Como normalmente sucede, várias são as interpretações possíveis para estes símbolos.

É corrente afirmar-se que o esquadro simboliza a retidão de caráter que deve ser apanágio do maçom. Retidão porque com os corpos do esquadro se podem traçar facilmente segmentos de reta e porque reto se denomina o ângulo de 90 º que facilmente se tira com tal ferramenta. Da retidão geométrica, assim facilmente obtida, se extrapola para a retidão moral, de caráter, a caraterística daqueles que não se “cosem por linhas tortas” e que, pelo contrário, pautam a sua vida e as suas ações pelas linhas direitas da Moral e da Ética. Esta caraterística deve ser apanágio do maçom, não especialmente por o ser, mas porque só deve ser admitido maçom quem seja homem livre e de bons costumes.

É também corrente referir-se que o compasso simboliza a vida correta, pautada pelos limites da Ética e da Moral. Ou ainda o equilíbrio. Ou a também a Justiça. Porque o compasso serve para traçar circunferência, delimitando um espaço interior de tudo o que fica do exterior dela, assim se transpõe para a noção de que a vida correta é a que se processa dentro do limite fixado pela Ética e pela Moral. Porque é imprescindível que o compasso seja manuseado com equilíbrio, a ponta de um braço bem fixada no ponto central da circunferência a traçar, mas permitindo o movimento giratório do outro braço do instrumento, o qual deve ser, porém, firmemente seguro para que não aumente ou diminua o seu ângulo em relação ao braço fixo, sob pena de transformar a pretendida circunferência numa curva de variada dimensão, torta ou oblonga, assim se transpõe para a noção de equilíbrio, equilíbrio entre apoio e movimento, entre fixação e flexibilidade, equilíbrio na adequada força a utilizar com o instrumento. Porque o círculo contido pela circunferência traçada pelo instrumento se separa de tudo o que é exterior a ela, assim se transpõe para a Justiça, que separa o certo do errado, o aceitável do censurável, enfim, o justo do injusto.

Também é muito comum a referência de que o esquadro simboliza a Matéria e o compasso o Espírito, aquele porque, traçando linhas direitas e mostrando ângulos retos, nos coloca perante o facilmente perceptível e entendível, o plano, o que, sendo direito, traçando a linha reta, dita o percurso mais curto entre dois pontos, é mais claro, mais evidente, mais apreensível pelos nossos sentidos – portanto o que existe materialmente. Por outro lado, o compasso traça as curvas, desde a simples circunferência ao inacabado (será?) arco de círculo, mas também compondo formas curvas complexas, como a oval ou a elipse. É, portanto, o instrumento da subtileza, da complexidade construída, do mistério em desvendamento. Daí a sua associação ao Espírito, algo que permanece para muitos ainda misterioso, inefável, obscuro, complexo, mas simultaneamente essencial, belo, etéreo. A matéria vê-se e associa-se assim à linha direita e ao ângulo reto do esquadro. O espírito sente-se, intui-se, descobre-se e associa-se, portanto, ao instrumento mais complexo, ao que gera e marca as curvas, tantas vezes obscuras e escondendo o que está para além delas – o compasso.

Cada um pode – deve! – especular livremente sobre o significado que ele próprio vê nestes símbolos. O esquadro, que traça linhas direitas, paralelas ou secantes, ângulos retos e perpendiculares, pode por este ser associado à franqueza de tudo o que é direito e previsível e por aquele à determinação, ao caminho de linhas direitas, claro, visível, sem desvios. O compasso, instrumento das curvas, pode por este ser associado à subtileza, ao tato, à diplomacia, que tantas vezes ligam, compõem e harmonizam pontos de vista à primeira vista inconciliáveis, nas suas linhas direitas que se afastam ou correm paralelas, oportunamente ligadas por inesperadas curvas, oportunos círculos de ligação, improváveis ovais de conciliação; enquanto aquele, é mais sensível à separação entre o círculo interior da circunferência traçada e tudo o que lhe está exterior, prefere atentar na noção de discernimento entre um e outro dos espaços.

E não há, por definição, entendimentos corretos! Cada um adota o entendimento que ele considera, naquele momento, o mais ajustado e, por definição, é esse o correto, naquele momento, para aquela pessoa. Tanto basta!

O conjunto do esquadro e do compasso simboliza a Maçonaria, ou seja, o equilíbrio e a harmonia entre a Matéria e o Espírito, entre o estudo da ciência e a atenção às vias espirituais, entre o evidente, o científico, o que está à vista, o que é reto e claro e o que está ainda oculto ou obscuro. O esquadro é sempre figurado com os braços apontando para cima e o compasso com as pontas para baixo. Ambas as figuras se opõem, se confrontam: mas ambas as figuras oferecem à outra a maior abertura dos seus componentes e o interior do seu espaço. A oposição e o confronto não são assim um campo de batalha, mas um espaço de cooperação, de harmonização, cada um disponibilizando o seu interior à influência do outro instrumento. Assim também cada maçom se abre à influência de seus Irmãos, enquanto ele próprio, em simultâneo, potencia, com as suas capacidades, os seus saberes, as suas descobertas, os seus ceticismos, as suas respostas, mas também as suas perguntas (quiçá mais importantes estas do que aquelas…) a modificação, a melhoria, de todos os demais.

Quanto ao Volume da Lei Sagrada, este pode ser qualquer dos Livros de qualquer das religiões que acreditem na existência de um Criador, qualquer que seja a conceção que Dele se tenha, mais ou menos interventor no Universo ou mero Princípio Criador catalisador e e definidor do Universo.

O Livro da Lei Sagrada contém em si as normas básicas da atuação e convivência humanas, referencial para a conduta do homem de bem. Em suma, simboliza o conjunto de regras que a Sociedade determina aceitáveis para que a sã convivência entre todos seja possível, ou seja, A Moral inerente à Sociedade e que todos os que a integram devem respeitar e seguir.

Nas sessões de Loja, o Compasso e o Esquadro são colocados SOBRE o Volume da Lei Sagrada. Não porque se entenda que são mais importantes aqueles do que este, mas, pelo contrário, porque o Volume da Lei Sagrada simboliza a base Moral sobre a qual assenta a Ética de cada um.

Esta, a Ética, defini-a já como o conjunto de princípios que norteiam a determinação e utilização dos meios à nossa disposição para atingirmos os fins que nos propomos.

 O Esquadro traça, sobre o pano de fundo da Moral, as linhas éticas que o Homem deve definir para a sua atuação. O Compasso define os limites que essas linhas devem respeitar.

O conjunto de ambos simboliza, assim, também a Ética que, tal como eles assentam no Volume da Lei Sagrada, assenta na Moral sobre que esta se constrói.

Porque a ética sem Moral pode usar esse nome, mas não é verdadeiramente ética – ou então teríamos que aceitar como tal a “honra dos ladrões”, a dita “ética dos criminosos”. A Ética tem que necessariamente ser individualmente construída respeitando e assentando na Moral da Sociedade em que nos inserimos, pois nenhum homem é uma ilha podendo arrogar-se o direito de definir o seu conjunto de princípios fora da Moral da Sociedade em que se insere.

As Três Grandes Luzes da Maçonaria são, assim, o conjunto de símbolos que deve guiar a atividade de aperfeiçoamento do maçom, homem livre de escolher e determinar os Princípios que o norteiam, mas sempre harmoniosamente integrado na Sociedade em que se insere.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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