Virtude

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Na busca incessante do significado da Virtude me deparei com livros e artigos de dois filósofos, Aristóteles e Santo Agostinho, que me deram boa base para o desenvolvimento deste trabalho.

A Virtude, segundo o dicionário, é “o que expressa boa conduta; em conformidade com o correto, aceitável ou esperado; segundo a religião, a moral, a ética etc.”

Segundo Santo Agostinho, “a definição mais acertada e curta de Virtude é a que diz que ela é ordem do amor” (Agostinho, 1961, p. 330).

A Virtude, segundo Aristóteles, é “uma disposição de caráter relacionada com a escolha de ações e paixões, e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, que é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta, a virtude encontra e escolhe o meio termo. E assim, no que toca à sua substância e à definição que lhe estabelece a essência, a virtude é uma mediania.”

A Virtude, segundo a maçonaria, “é a disposição da alma que nos induz à prática do bem.”

Mas, que relação podemos estabelecer entre os conceitos desses pensadores? O que realmente fazemos para nos aperfeiçoar intelectualmente através da prática da Virtude?

Aristóteles nos ensina que a Virtude se divide em moral e intelectual. A Virtude intelectual é gerada por natureza, nasce e cresce graças aos resultados do ensinamento e da educação, e a Virtude moral não é gerada em nós por natureza, é sim o resultado do hábito que nos torna capazes de praticar atos justos. Ele classifica a Virtude como o meio termo entre dois vícios, ou seja, a justa medida em que o excesso ou a deficiência culminam em vício de suas ações. Já Santo Agostinho, define a virtude como um hábito que faz o bem, ou, as ações do homem conforme a natureza que, voltadas ao bem, o conduz a um fim.

Tanto Santo Agostinho como Aristóteles entendem que a Virtude é gerada em nós por natureza, já está no interior do ser humano e se cria dentro do homem apenas o meio para o hábito de se praticá-la. Mas, para Santo Agostinho, a Virtude só pode existir no homem se este viver conforme o Amor (uma vida em Deus), através da graça concedida por Ele, e é esse Amor a maior virtude que o homem pode ter.

Nesses dois conceitos acredita-se que a finalidade da virtude é o “bem supremo”, que para Aristóteles é a felicidade da Humanidade e, para Santo Agostinho, é o Amor.

Acredito que eu possa ser um exemplo de como agir para se aperfeiçoar intelectualmente. Ainda profano, não sabia trabalhar a Pedra Bruta, por isso ao passar pela Câmara de Reflexão, observando os símbolos que ali estavam, fui levado a refletir e procurar respostas no meu “eu interior”. Nessa busca pelo aperfeiçoamento intelectual é necessário o aprimoramento de meus conhecimentos; na jornada para meu aprimoramento moral devo pautar meu comportamento pela prática da Virtude, e assim encontrar “a Pedra Filosofal”, no seu mais puro significado, dentro de mim. Para isso preciso trabalhar, e estar sempre na constante e incessante construção de templos à virtude, usando o maço e o cinzel para lapidar a Pedra Bruta, pois somente desbastando as asperezas da vida profana que deixei de lado quando renasci como Aprendiz, sendo justo e comedido, usando a medida justa da Régua de 24 polegadas para estar dividindo meu dia e praticando retamente minhas ações, na busca por uma vida virtuosa.

Mas, qual a Virtude que, no nosso dia a dia, no nosso convívio e relacionamento interpessoal, buscamos realmente e quais as Virtudes esperadas de um maçom?

No meu entendimento, não devemos praticar uma ou outra Virtude, mas sim todas possíveis a cada situação apresentada em nossa vida, para que tornemos o nosso meio um pouco melhor a cada dia, seja como maçom, como cidadão ou como pessoa comum. Nosso trabalho tem como objetivo melhorar o mundo, e a prática das Virtudes é o caminho para chegarmos lá.

Segue alguns exemplos de Virtudes que ao meu temos que praticar mais e mais:

A Justiça: Virtude que nos faz dar a cada um, o que lhe corresponde, que deve fazer-se de acordo com o direito e a razão. A Justiça é o apoio do mundo e a injustiça é a origem e manancial de todas as calamidades que o afligem.

A Prudência: Virtude que faz prevenir e evitar as faltas e perigos, a que nos faz atuar com sobriedade, discrição, moderação e previsão.

A Temperança: Virtude que modera os apetites e as paixões, e trabalhar com moderação, sobriedade e continência.

A Humildade: Virtude de assumir e reconhecer os erros próprios.

A Caridade: Virtude que atua como extrema sensibilidade aos sofrimentos alheiros. É o AMOR FRATERNAL, muitas fezes confundido com a filantropia.

Mesmo com pouco tempo em nossa Sublime Ordem, percebo que em muitos casos esses conceitos parecem não ser corretamente assimilados por todos, seja por desconhecimento de seus significados, ou por estar o irmão ainda em seu processo de lapidação.

Acredito eu que, após iniciados, nós maçons devemos buscar o crescimento intelectual e o aprimoramento moral, e isso exige tempo, estudo e dedicação, para que a cada dia nos tornemos melhores em todos os sentidos, e para que, um dia, nossas paixões e vícios sejam enterradas nas masmorras que nos propusemos a cavar.

O Maçom deve ser escolhido para ser Iniciado não por motivos profissionais, familiares ou de amizade, mas sim por ser o profano reconhecido Maçom em sua essência, encontrando nele as virtudes que tanto valorizamos.

“A Virtude é um hábito do bem, ao contrário do hábito para o mal ou o vício” Santo Tomás de Aquino

Autor: Davidson Dionizio de Oliveira
Aprendiz Maçom, membro da ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG
Oriente de Ibirité, Minas Gerais

Referências Bibliográficas

ARISTOTELES. Ética a Nicômaco. Trad. de Torrieri Guimarães. São Paulo: Editora Martin Claret, 2001

https://www.maconaria.net/virtudes-e-vicios/

https://www.maconaria.net/sobre-as-virtudes-maconicas/

https://www.maconaria.net/v-i-t-r-i-o-l/

https://www.significados.com.br/virtude/

https://www.dicio.com.br/virtude/

https://blog.cancaonova.com/seminario/virtudes-e-vicios-em-santo-agostinho/

https://sentadonalua.wordpress.com/2012/07/12/a-etica-de-santo-agostinho-frente-a-etica-aristotelica/

http://iblanchier3.blogspot.com/2018/06/virtude-virtudes-e-bons-costumes.html

http://coral.ufsm.br/gpforma/2senafe/PDF/019e2.pdf

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Lojas de Instrução

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Introdução

Há, por vezes, um grande equívoco sobre a prática e os conceitos das instruções maçônicas em Lojas. Este ensaio tenta desfazer as incertezas sobre o tema. No decorrer do trabalho, apresentam-se exemplos e como devem ser desenvolvidas as instruções maçônicas. Explica-se como funciona o sistema de instrução maçônica nas Lojas inglesas, as Lojas de Instrução. Termina-se informando, na opinião do Autor, como adaptar este sistema inglês à realidade brasileira.

Instrução é a formação de determinada habilidade. É o treinamento, é o adestramento. Instrução maçônica é o treinamento de como se deve comportar em Loja aberta, ou seja, é o adestramento do uso dos Rituais, da liturgia maçônica. Isto é, como se habilitar nos procedimentos ritualísticos. É a formação do Maçom. É feita, na Maçonaria inglesa, geralmente em Lojas de Instrução. No Brasil é feita em Lojas abertas, em Seminários e em Encontros maçônicos. Há, também no Brasil, algumas escolas maçônicas. Instrução maçônica, conforme esta definição, não é educação maçônica. Educação maçônica é definida abaixo.

Importante é esclarecer que as instruções na Maçonaria não são exposição e aceitação de dogmas, isto é, doutrinas de caráter indiscutíveis, como são instruções religiosas. Trata-se de ritualística, simbolismo e alegorias, cujos ensinamentos e conclusões finais são de responsabilidade e iniciativa do Maçom que está sendo instruído. Por isso, o Maçom é um livre pensador, homens livres e de bons costumes. O livre pensar convida ao despojamento de crenças, baseadas em superstições e magias, as quais geram acomodações e preguiça mental. O livre pensar demanda coragem, determinação, sede de saber, iniciativa de quem está sendo instruído e o uso da razão na busca da verdade. Cabe ao instrutor mostrar o caminho do saber, do alcance das virtudes e da prática da moral. Cabe ao Maçom que está sendo instruído, o instruendo, chegar, por seus próprios meios, pensamentos e iniciativa, ao ensinamento final. Ilustração clássica desse método está na figura do Aprendiz desbastando a Pedra Bruta.

Educação maçônica é o desenvolvimento cultural do Maçom. Trata-se de um conjunto de métodos que repassam conhecimentos sobre história da Maçonaria, filosofia maçônica incluindo ética e moral e cultura maçônica. Nesta definição, não envolve estudo dos Rituais e preleções maçônicas. O objetivo da cultura maçônica é complementar a formação do Maçom. Normalmente é feita através de palestras, seminários, encontros e, principalmente, leituras.

Informação é a notícia, não é propriamente instrução maçônica. É a exposição de um fato de interesse geral a que se dá publicidade. Por exemplo: notícias sobre outras Lojas, sobre encontros e seminários. Informação maçônica é, portanto, a apresentação de notícias de interesse dos membros da Loja maçônica.

Instrução Maçônica

Segundo o Irmão Joselito Romualdo Hencotte: “Um dos problemas que mais afligem a Maçonaria atual é a prática ritualística pobre. Isto não se refere à dificuldade de ler os Rituais, mas, também, à maneira como são praticados, de forma monótona e sem inspiração, o que implica em o candidato não ser atingido pela mensagem das cerimônias das quais participa. A prática ritualística é muitas vezes medíocre, e ela não precisa ser! Uma prática ritualística mais atenta nos oferece a oportunidade de observar melhor os nossos símbolos e as nossas tradições proporcionando assim um entendimento melhor sobre a Ordem Maçônica” (Ramos & Souza Prado, 2011).

As instruções maçônicas, no Brasil, são, em geral, realizadas em Lojas abertas. São feitas com pouco tempo de trabalho, o “tempo de estudos”, muito limitado, em geral sem discussões e, consequentemente, muito falhas. As instruções constam, genericamente, da apresentação de dois ou três trabalhos, da leitura ou memorização das preleções, mas tudo sem debates mais profundos. Muitas dúvidas persistem, por parte dos instruendos. Os trabalhos apresentados, em geral, são cópias e, muito poucas vezes, o Irmão em instrução coloca suas próprias opiniões sobre o tema copiado. Raramente há discussões sobre a ritualística.

Tudo o que se faz num Ritual, as palavras, os atos, o silêncio, os passos, tudo tem um significado simbólico. Poucos conhecem esses significados e, o mais insensato, não está desperto ou interessado em saber o porquê desses atos. Ou seja, não “vestem a camisa” do Ritual, lendo-o como um autômato. Instrução maçônica é, principalmente, o adestramento sobre ritualística e isso é pouco explorado no Brasil. Importante é afirmar que o ritual não é um fim, mas um meio para a preparação e o desenvolvimento de virtudes, de valores e de bem viver. Através de símbolos e alegorias.

Os Irmãos Aprendizes perguntam muito, porque têm interesse, curiosidade e querem aprender. A resposta, em geral, é do tipo “isso eu não posso responder” ou “tenha paciência que você vai saber nos Graus superiores (ou mais tarde)”. Isto é um erro, pois o que não se pode dizer ao Aprendiz são apenas palavras, sinais e toques dos Graus superiores. Então, os questionamentos afloram sem respostas.

As instruções para Mestres Maçons são, ainda, mais deficientes e, muitas vezes, nulas, simplesmente não existem. Certas pessoas, depois de Iniciadas e Elevadas (Exaltadas), continuam profanas, por falta de instrução. Muitos, chegando ao ápice da carreira maçônica, “aposentam-se”. Em consequência dessas falhas, temos o chamado “efeito sanfona” (o entra e sai da Maçonaria), as cisões (de Obediências ou de Lojas), os diversos atritos e problemas existentes na Maçonaria brasileira. Pode-se afirmar, sem erro, que todas as cisões de Obediências ou de Lojas, originaram-se nas inadequadas instruções de seus protagonistas.

As instruções maçônicas no Brasil são de responsabilidade de cada Loja. Temos cerca de 2.900 Lojas (no GOB), acrescidas das Lojas da CMSB – Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil – somada a Grande Loja Maçônica do Rio Grande do Sul (cerca de 2.800 Lojas) e da COMAB – Confederação Maçônica do Brasil (cerca de 1.300 Lojas) e não se tem, na opinião deste Autor, 500 ou 600 instrutores eficientes para instruir Aprendizes, Companheiros e Mestres. Têm-se, em verdade, cerca de 95.000 Mestres (no GOB), 120.000 Mestres (CMSB + GLMRS) e 40.000 Mestres (COMAB). Mas, muitos deles sequer tiveram instruções de Mestre Maçom. Como fazer? Como mudar esta situação? (Brasil aproximadamente: 7.000 Lojas e 250.000 maçons).

As instruções maçônicas deveriam ser mais regulares e frequentes. Deveriam ser feitas em Loja fechada, quando é possível debates, réplicas e tréplicas e questionamentos diversos. Deveriam ser feitas por instrutores que se preparassem para tal, com planejamento prévio, sem improvisações. Muita coisa que estão nos Rituais não estão de forma explícita, mas demanda estudos mais aprofundados. Quando não se sabe a resposta a um questionamento, é preferível dizer: “Não sei responder. Vamos estudar”. Nos trabalhos escritos, além de referências bibliográficas, deve haver como considerações finais, a opinião original e pessoal sobre o tema, pelo Irmão que está sendo instruído. E as cópias de textos já existentes devem vir entre aspas e referenciadas.

Algumas Obediências têm cursos de instruções programados para Aprendizes, Companheiros e Mestres. Mas esses cursos não são eficientes, na maioria das vezes, e alguns são à distância. A Grande Loja de Maçons do Estado do Rio Grande do Sul tem (em alguns Ritos) eficientes manuais de instrução para os três Graus simbólicos. O GOB-SP tem um eficiente programa de instrução (na verdade de educação maçônica), dividido em três partes: Aprendiz, Companheiro e Mestre, que circula em todo Estado: são os ERAC (Encontro Regional de Aprendizes e Companheiros), ERACOM (Encontro Regional de Aprendizes, Companheiros e Mestres), que existem também no GOB-PR. A GLMMG tem a Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves d’Almeida (*NB: com instruções para os 3 graus simbólicos no Templo Nobre em BH e também de forma itinerante nas lojas do interior de Minas). A Grande Loja de Santa Catarina mantém um eficiente programa de instruções maçônicas. Provavelmente, há outros bons programas, desconhecidos deste Autor, em outras Obediências e Orientes. Porém, a grande maioria desses programas, é destinada à educação maçônica e muito pouco de instrução maçônica.

Algumas críticas sobre a necessidade de instrução ritualística são expostas a seguir. É muito comum, no Brasil, enxertos e invenções nos Rituais, “por ser mais bonito”. Quando há dúvidas, muitos Irmãos não tendo conhecimento da solução, criam uma teorização, fundada no subjetivismo pessoal, ou seja, um “achismo”. Não deve existir “achismos” nas instruções maçônicas. Cabe ao Secretário de Ritualística da Obediência manter severa vigilância na execução do ritual. Ele é o responsável pela liturgia do rito e pelo ritual.

Uma grande parte dos Maçons brasileiros acredita que a instrução vai bem. Acham suficientes os trabalhos copiados dos Aprendizes e Companheiros. Não sentem falta da instrução de Mestre Maçom de seus trabalhos. São Irmãos ingênuos, ainda que bem intencionados. Para eles todos são bons e todos são Irmãos e isso basta. Neste caso, falta aos seus Irmãos de Loja tentar abrir suas mentes para a beleza do Ritual, do simbolismo e da Maçonaria. Muitos Irmãos acham que o Maçom, após elevado (exaltado) Mestre Maçom, alcançou a “plenitude maçônica” e isto basta. Se “aposentam”. O que é, evidentemente, um grande erro.

Lojas de Instrução na Inglaterra

Na Inglaterra, quase todas as Lojas têm 4 sessões ritualísticas por ano (as vezes 5). Seguem as determinações das Constituições de Anderson. As instruções não são feitas em Lojas simbólicas, mas feitas em Lojas de Instrução. Lojas de Instrução são lojas formadas por uma ou mais Lojas simbólicas; não têm Carta Constitutiva, não são abertas ritualisticamente e seus membros (Aprendizes, Companheiros, Mestres Maçons e os instrutores) em geral, não usam paramentos. Vale dizer, não são Lojas. Funcionam semanal ou quinzenalmente. As reuniões (não são sessões) de Aprendizes, Companheiros ou Mestres Maçons são realizadas em dias distintos. Toda reunião de instrução, em Lojas de Instrução, deve ter uma ata que é enviada à Grande Loja Provincial (ou Distrital) para controle. Existem Lojas de Instrução, também, nos EUA, Canadá, Austrália, África do Sul e Nova Zelândia. Na Irlanda, as Lojas de Instrução chamam-se Class of Instructions. Talvez também, existam em outros países que este Autor não tem conhecimento. Na Escócia, devido a não uniformidade do ritual, consequência da grande autonomia das Lojas, as Lojas de Instrução são poucas e seus trabalhos são mais difíceis. Outra observação: na Inglaterra, nem todas as Lojas simbólicas operam Lojas de Instrução.

Depois de iniciado o Aprendiz deve frequentar uma Loja de Instrução, com frequência controlada pelo seu padrinho (chamado Mentor ou Mistagogo[1]; em inglês: Mentor or Mystagogue). O Mentor, que no Rito Schröder chama-se Garante, é o responsável pelo iniciado (responsável pela instrução do iniciado, pela frequência na Loja de Instrução e na Loja Simbólica e pelos metais do Aprendiz) até que o apadrinhado se torne Mestre Maçom. O Mentor é que verifica se o Aprendiz (ou Companheiro ou Mestre Maçom) está bem instruído e o próprio Mentor recomenda ao Comitê da Loja a passagem ou elevação do candidato. Na Inglaterra não existe Comissão de Graus. Esta recomendação feita pelo Mentor deve ser secundada por outro Mestre Maçom que conheça a instrução feita ao candidato. (Comitê da Loja é composto pelo Venerável Mestre, 1º e 2º Vigilantes, Tesoureiro, Secretário, 1º e 2º Diáconos, Cobridor Externo e todos os Ex-Veneráveis – Comitê da Loja é o board of directors). Nas Lojas de Instrução de Mestre Maçom faz-se somente o treinamento do ritual. As preleções de Mestre Maçom não são feitas em Lojas de Instrução e são controladas pelo Mentor. Há uma orientação muito eficiente para o trabalho do Mentor, feita pelas Grandes Lojas Provinciais (ou Distritais).

Os instrutores das Lojas de Instrução são, em geral, professores, preceptores ou pedagogos (full professor, lecturer, prelector, teacher, schoolteacher, instructor, educationalist) portanto preparados. Quase todos têm formação ou experiência pedagógica e todos são maçons experientes e muito bem formados.

As instruções de Aprendiz e Companheiro constam em memorizar o ritual, discutir o ritual e seus significados simbólicos em detalhes, discutir e decorar as preleções, elaborar e discutir trabalhos, etc. Os Aprendizes e Companheiros aprendem a interpretar, representar e encenar o ritual. As instruções são, basicamente, estudo do ritual. O resto é deixado que o maçom tenha seu próprio pensamento e consciência. Como a Loja de Instrução não é aberta, há muitos debates, discussões e questionamentos; as interrupções para questões são frequentes. Não se obriga o candidato a memorizar os rituais. Mas para que ele, como Mestre Maçom ocupe cargos, ele deve memorizar todas as palavras desse cargo nos três graus. Isto significa que o Venerável Mestre tem, obrigatoriamente, memorizado todos os 3 rituais do simbolismo, incluindo iniciação, passagem, elevação, e instalação. Na Inglaterra, Aprendizes e Companheiros não podem ter rituais impressos. Só Mestres Maçons os têm, depois de memorizados os textos e serem elevados.

Isso permite uma formação sobre ritualística eficiente o que torna o Mestre Maçom estar realmente na plenitude maçônica. Esses Mestres Maçons britânicos “vestem a camisa”, adotam a Maçonaria, lutam por ela e são excelentes Irmãos.

Como originaram as Lojas de Instrução?

O mais antigo registro de instrução maçônica é de 1725, quando a Ancient Society of Masons of York convocava Irmãos para instruções maçônicas fora das Lojas. Observe: fora das Lojas. É provável que esse sistema seja mais antigo, pois Maçons especulativos devem especular (estudar com atenção, pesquisar, refletir, teorizar) – Beresiner, 2008.

Depois da unificação entre a Loja dos Modernos e a dos Antigos, em 1813, a Grande Loja Unida da Inglaterra preocupou-se em unificar, também, os Rituais. Isso aconteceu na Inglaterra e nunca aconteceu na Escócia. A United Lodge of Perseverance, dentre as mais proeminentes Lojas daquele período, fundada em 1818, teve, em seu Quadro, vários dos Maçons mais cultos de então, sendo que nove destes ilustres conhecedores da Arte foram fundadores da mais célebre de todas as Lojas de Instrução ainda em atividade: a Emulation Lodge of Improvement for Master Masons. A Loja de Emulação e Aperfeiçoamento foi fundada em outubro de 1823, sob a sanção da Lodge of Hope, nº 7 e ensinava o Ritual através das preleções, segundo o sistema da Grand Stewards’ Lodge. Hoje, a ELOI é uma Loja de Instrução da Lodge of Unions, nº 256, reúne-se uma vez por semana (as sextas-feiras, entre outubro a junho, às 18:15 hs), não tem Carta Constitutiva e seu foco é a demonstração da prática do Trabalho de Emulação. Tornou-se a curadora oficial, em todo mundo, do Trabalho de Emulação. Curadora é a instituição que cuida dos interesses e defende a pureza do Ritual de Emulação. Ao contrário de outros Ritos admitidos pelo GOB, o Ritual de Emulação é monitorado, interpretado e explicitado, para todo mundo, exclusivamente, pela Emulation Lodge of Improvement. Esta Loja já esteve no Brasil, em Curitiba, por duas vezes, em 2015 e 2016, divulgando instruções para as Lojas brasileiras que trabalham em Emulação.

Desde o início do século XX, iniciou-se o processo de reconhecimento das Lojas de Instrução. Um Comitê da Emulation Lodge of Improvement aprova preceptores para as demais Lojas de Instrução e isso confere o reconhecimento a estas Lojas. Há, sempre em junho, um Festival Anual dos Preceptores, na verdade uma reunião anual.

As Lojas de Instrução são, na Inglaterra, uma experiência prática da liturgia maçônica com um propósito óbvio – instrução – mas possui uma consequência importante: a convergência de Irmãos de diversas Lojas, proporcionando relações pessoais e sociais. Reúnem-se não somente em templos maçônicos, mas, também, em velhas igrejas, sinagogas ou residências de maçons.

Como adaptar o sistema de Lojas de Instrução à realidade brasileira

O que se expõe a seguir é pensamento de responsabilidade do Autor. A adaptação do sistema inglês para a realidade brasileira é muito simples. Algumas reuniões administrativas podem se transformar em Lojas de Instrução do modelo inglês. As instruções de Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom poderão ser feitas em horários diferentes, no mesmo dia da reunião administrativa. Esta forma passa apenas por resoluções da própria Loja simbólica, podendo as reuniões administrativas de instrução serem feitas, a convite, com a participação de várias Lojas simbólicas. Porém, extremamente importante, os instrutores devem estar preparados; devem estudar o assunto a ser debatido, com antecedência e em grupo.

Deve-se evitar “achismos”; portanto, se não souberem uma questão, a fórmula correta será: “vamos estudar e depois explicaremos”. Essas Lojas de Instrução/reuniões administrativas podem ser mensais e atender, exclusivamente instruções, conforme definição deste ensaio, ou seja, ritualística maçônica, o porquê de cada ato, palavra ou símbolo que se faz em Loja aberta, além das preleções. Ritualística e preleções, amplamente debatidas, discutidas e comentadas com o objetivo de envolver de maneira profunda, aquele que está sendo instruído, os instrutores e a Loja. Os questionamentos devem ser ilimitados, tal que não deve permanecer nenhuma dúvida.

Obviamente, as Lojas de instruções/reuniões administrativas não devem substituir as reuniões realmente administrativas da Loja simbólica.

Muitas Lojas infelizmente “perdem tempo” nas reuniões destinadas a administração da Loja, por exemplo, discutindo o cardápio dos ágapes. Isto pode ser de responsabilidade do Mestre de Banquetes que pode consultar os Mestres entendidos em gastronomia fora das sessões e reuniões administrativas.

Considerações Finais

Repetindo as palavras dos Irmãos Edson José Ramos e Cezar José Souza Prado (Ramos & Souza Prado, 2011):

“As referências que aqui se apresentam, relacionadas às Lojas de Instrução, cabem, muito naturalmente, a todos os Ritos que hoje são praticados no nosso país. Não são, portanto, exclusividades da Maçonaria Inglesa, pois se configuram como um modus pedagógico, fornecendo caminhos de aprendizagem no que se refere às práticas ritualísticas e como colocá-las o mais possível em nível de excelência. E para que este modo peculiar de se instruir se torne um costume entre Maçons brasileiros, nenhuma ação monumental faz-se necessária. Ao contrário, basta que aos textos de nossos Rituais seja dada a importância que eles merecem, buscando-se neles os reais significados de ali estarem e, por consequência, tornando-os íntimos de nossa melhor expressão ao pronunciá-los, evitando assim o palavreado mecanicamente repetitivo, e oferecendo a cada palavra, a cada sinal, a reverência devida e esperada para tornar viva a simbólica da Arte Maçônica”.

As instruções não devem ser empurradas “goela abaixo” do Maçom que está sendo instruído. Os instruendos devem ser incentivados pelos instrutores para aprender mais, a alcançar, por si mesmo, pela sua própria mente, a buscar a solução, os resultados. Por que não fazer as instruções maçônicas ao longo de toda vida do Maçom? Não se diz que o Maçom é um eterno Aprendiz? Por que não fazer o aprendizado agradável e prazeroso? Por que não aguçar a curiosidade dos instruendos?

Termina-se este trabalho a respeito da importância do estudo e da especulação, com uma frase do escritor, matemático e filósofo francês Bernard Le Bovier de Fontenelle (1657–1757):

“É verdade que não podemos encontrar a pedra filosofal, mas é bom que ela seja procurada. Procurando-a, encontramos muitos segredos que não procurávamos”. 

Autor: Walter Celso de Lima
Acadêmico da Academia Catarinense Maçônica de Letras, Cadeira 27
MI da Loja Alvorada da Sabedoria (GOB/SC), oriente de Florianópolis

Fonte: ACML News, nº02

Nota

[1] – Mistagogo era o sacerdote, na Grécia antiga, que iniciava alguém nos mistérios eleusinos (de Elêusis).

Referências Bibliográficas

– Beresiner, Y. “Masonic Education – Lodges of Instruction”. Pietre-Stones Review of Freemasonry, 2008.
– Boller, C.E. “Instrução Maçônica”. Liberdade e amor, Or. Cassia, MG, 2014.
– Carr, H. “O Ofício do Maçom”. São Paulo: Madras, 2012.
– Cavalcante Medeiros, M. “Imagem Pública não é Divulgação”. Revista Rotary Brasil, 91: (1127), Maio, 2016.
– Girardi, J.I. “Educação Maçônica”. JB News 2344, mar.2017.
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Maçonaria – Vai de Escada ou de Elevador?

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A Maçonaria é um sistema de progresso moral, intelectual, filosófico e espiritual baseado em alegorias, símbolos e dramas transmitidos por meio de rituais. Os rituais compreendem graus que, quando sequenciais, compõem um Rito. Dessa forma, ao vencer cada grau, o maçom vai progredindo na senda maçônica. E por conta do progresso, essa trajetória é constantemente ilustrada como uma escada. Por conta de ser uma escada relacionada ao aperfeiçoamento do ser humano, não é raro os maçons a chamarem de “Escada de Jacó”.

Para ser considerado apto ao ingresso no grau seguinte, é comum a exigência de requisitos, como presença mínima nas reuniões, apresentação de um trabalho sobre os ensinamentos do grau em que se encontra e passagem por uma sabatina. Em outras palavras, Maçonaria é uma escola.

O Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA, o mais conhecido dos maçons brasileiros, é composto por 33 graus. Do primeiro degrau até o topo dessa escada costuma-se demorar, no mínimo, 06 anos. Isso porque existem interstícios a serem respeitados que garantem esse tempo mínimo. Por esse motivo, muitos maçons gostam de chamar o Rito Escocês de “Faculdade de Maçonaria”.

E por que alguém frequenta uma Escola? Para aprender, claro! Mas em uma faculdade, existem geralmente dois tipos de estudantes: os que estão ali pela vocação, pela vontade de aprender, e os que só querem o diploma, o título. Aqueles com vocação e vontade são assíduos, participativos, esforçados, estudiosos e comprometidos. Já os outros são ausentes, relapsos, enrolados, “picaretas”.  Na Maçonaria isso não é diferente.

Porém, no universo acadêmico existe uma alternativa para aqueles interessados apenas no título e que possuem o desvio de caráter da desonestidade. Para esses vaidosos desonestos existe um “atalho” que é a compra de diploma, um crime ainda frequente no Brasil. É claro que não se compra o conhecimento, que só pode ser conquistado. Mas para esse tipo de indivíduo, o título já é o bastante para satisfazer seus interesses.

De uma forma geral, existem três formas de se comprar um diploma: por meio de uma instituição corrupta, por meio de um funcionário corrupto, e por meio de um fraudador. O primeiro caso é claramente o mais grave, pois o crime não é cometido por um indivíduo, mas por uma instituição. Uma faculdade que vende diplomas, além de criminosa, não somente coloca em risco a qualidade dos serviços prestados pelos beneficiados pela compra, como prejudica a honra de seus estudantes honestos.

Infelizmente, ainda existe esse tipo de faculdade no Brasil e, mais uma vez, na Maçonaria não é diferente. São vários os casos de maçons passando por todos os graus superiores de um rito em um único final de semana. Esse lamentável fenômeno é conhecido por muitos maçons como “Elevador de Jacó”. O termo significa que o sujeito, em vez de subir degrau por degrau, “pega um elevador e vai direto para a cobertura”.

Sendo a Maçonaria uma escola, sua finalidade é ensinar. E sendo o maçom um estudante, seu objetivo é aprender. Sempre que um Corpo Maçônico ou um maçom fugir disso, estará cometendo um crime. Não um crime legal, mas um crime moral. Um crime perante os maçons e instituições maçônicas honestas deste país.

O fenômeno ocorre no Brasil desde a chegada dos primeiros Ritos Maçônicos, há quase 200 anos atrás, e possui permissão estatutária. No início, tinha-se a desculpa da necessidade de se formar rapidamente uma base para a consolidação dos ritos. Mas atualmente, em pleno século XXI, essa demanda não mais existe. A “subida súbita” tem servido apenas para atender os caprichos de alguns poucos “profanos de avental”, e sido motivada por interesses políticos das instituições fornecedoras.

Os “usuários do elevador” nada sabem e, portanto, nada podem ensinar. Dessa forma, tal prática, assim como ocorre no mundo acadêmico, também é prejudicial ao desenvolvimento da Maçonaria. Mas cabe a cada um dos “estudantes exemplares” trabalharem para a mudança dessa realidade. Aí, quem sabe, essas “escolas de moral” possam ensinar também com o exemplo.

Autor: Kennyo Ismail

Fonte: Teoria da Conspiração

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Jerônimo Borges foi para o Oriente Eterno

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Estimados irmãos,

É com muito pesar que comunico que nosso querido irmão Jerônimo Borges fez ontem sua passagem ao Oriente Eterno.

Jerônimo foi editor do JB News, publicação que diariamente, durante muitos anos, trouxe a todos nós excelentes artigos, de diversos autores, relacionados à Arte Real.

Com o fim das publicações diárias do JB News, nosso irmão Jerônimo nos brindou com o ACML News, uma publicação semanal da Academia Catarinense Maçônica de Letras.

Tanto o JB News, quanto o ACML News, foram compartilhados pelo O Ponto Dentro do Círculo.

Jerônimo foi um exemplo de maçom dedicado ao aprimoramento do Homem através do Conhecimento.

Obrigado por tudo que nos ofereceu, meu querido irmão Jerônimo.

Fraternalmente,

Luiz Marcelo Viegas

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Pequena História da Maçonaria no Brasil – Parte IV

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A Grande Cisão de 1927

A cisão de 1927 cria, no Brasil, as Grandes Lojas estaduais que vigoram até os dias atuais. No âmbito interno da Ordem Mário Behring estava licenciado, mas reassumiu a 23 de junho de 1925, diante do risco que corria sua reeleição. Behring ganha às eleições num pleito fraudado. A partir de então as cisões no GOB ocorrerão sempre por perda de eleições. A Assembleia Geral, em sessão extraordinária, reconhecera a fraude. Estabelecido o impasse, em nova assembleia, no dia 8, os três candidatos propõem a anulação do pleito e a convocação de nova eleição. Em decorrência disso, Behring reassume, a 23 de junho e dissolve o Conselho Geral da Ordem. Vinte dias depois, a 13 de julho, ele renunciava ao Grão-Mestrado, após ver desmoronar seu sonho de reeleição e diante da impossibilidade de saldar o empréstimo contraído em 1924. Assumiria, então, como Grão-Mestre Interino, o Adjunto, Bernardino de Almeida Senna Campos, amigo e correligionário de Behring.

Em sessão especial da Assembleia Geral, a 21 de dezembro de 1925, para apuração da nova eleição eram proclamados e reconhecidos os mais votados: Vicente Saraiva de Carvalho Neiva, para o cargo de Grão-Mestre, e João Severiano da Fonseca Hermes, para o cargo de Adjunto. Carvalho Neiva tivera 3.179 votos, enquanto Behring recebia apenas 317 em um verdadeiro julgamento plebiscitário de sua gestão. Apesar de renunciar ao cargo de Grão-mestre, Behring manteve o de Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do REAA, contrariando o disposto na lei maior do Grande Oriente, a qual previa a ocupação dos dois cargos pelo Grão-Mestre, já que a Obediência era mista, fato que fora totalmente aceito nos Congressos Internacionais de 1907, 1912 e 1922.

Nessa ocasião, Behring já começava a tramar a cisão que viria a ocorrer em 1927, pois tratara, a 2 de novembro de 1925, de registrar os estatutos do Supremo Conselho, embora já houvesse um assento do Grande Oriente – como Obediência mista – englobando o Supremo Conselho, feito por ocasião da promulgação da Constituição de 1907. Esse registro de 1925, portanto, era totalmente nulo, mas serviria, posteriormente, aos desígnios de Behring.

Diante do conflito assume finalmente a direção do GOB Octavio Kelly, que fora eleito para o cargo e empossado a 21 de março do mesmo ano que tentará sanar os estragos promovidos por Behring. Este, todavia, sabendo antecipadamente o que iria ocorrer, promoveu, no dia 17 de junho de 1927 (aniversário do GOB), fora do Lavradio – e, portanto, às escondidas –, uma reunião extraordinária do Supremo Conselho, com apenas 13 membros efetivos, e declarou sua separação do Grande Oriente, sem ter esquecido, antes, de subtrair todos os papéis e documentos dos arquivos do Supremo Conselho, no Lavradio, transportando-os para outro endereço, em um flagrante delito maçônico, pois os papéis não lhe pertenciam.

Behring refere-se às eleições procedidas no Supremo Conselho desde 1921 e que se tornou necessário votar o tratado entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente; e, considerando que vinha pedindo a reforma da Constituição, sem êxito, o Supremo Conselho deliberara, por unanimidade – de apenas 13 dos 33 membros – denunciarem, à Confederação Internacional do Rito, a situação, e, consequentemente, o tratado de 1926. E termina por anunciar que se desliga do Conselho Geral.

Os dirigentes do GOB não souberam aquilatar o significado de tal decisão, apelando para uma união bem próxima, sem saber que o golpe mortal sobre o Grande Oriente já fora veladamente desferido. Behring refere-se, inicialmente, às eleições procedidas no Supremo Conselho, em 1922. Diz que, após o malogro da Constituinte, fora necessário selar o tratado entre o Supremo Conselho e o Grande Oriente, para cumprir as resoluções da Conferência de Lausanne, de 1922. Que o Supremo Conselho vinha solicitando reforma da Constituição sem a obter e que, por isso, no dia 17, deliberara denunciar à Confederação Internacional do Rito a união em que vivia como Grande Oriente e, consequentemente, o tratado celebrado em 1926. Termina dizendo que o Supremo Conselho mantém seu decreto de 1921, motivo pelo qual ele reconhece, unicamente, as Grandes Constituições e os Estatutos do Rito Escocês, só lhe restando, portanto, se retirar do seio do Conselho da Ordem. Era a suprema rebelião. Mas dava a entender que haveria, apenas, a separação das Obediências – Supremo Conselho e Grande Oriente – sem que fosse provocada a cisão no simbolismo.

Behring, todavia, programara essa cisão, criando um substrato simbólico para o seu Supremo Conselho, na figura de Grandes Lojas estaduais. A primeira delas, a da Bahia, já havia sido fundada a 22 de maio de 1927, recebendo, do Supremo Conselho, a carta constitutiva Nº 1; outras duas, logo depois de declarada a cisão, foram: a do Rio de Janeiro e a de São Paulo. A partir de então a Maçonaria brasileira entrou em um processo de declínio, deixando de ser um grupo de elite estratégico para se tornar um grupo convencional de classe média como muitos que existem no Brasil.

A Revolução de 1930 irá aprofundar mais ainda essa característica até os dias atuais quando o crescimento do GOB a taxas chinesas poderá gerar uma mudança qualitativa. A 3 de agosto de 1927, Behring e seus seguidores lançam um Manifesto às Oficinas Escocesas do Brasil e o um decreto – que ficou famoso pela atitude inusitada envolvida – declarando, oficialmente, o Grande Oriente como potência irregular no seio da Maçonaria Universal. O inusitado é uma Obediência dos Altos Graus escoceses declararem irregular uma Obediência simbólica. Mesmo assim, não deixou Behring, desde que promoveu a cisão, de cortejar a Grande Loja Unida da Inglaterra, no sentido de obter, desta, o reconhecimento para suas Grandes Lojas, o que lhes daria a tradicional regularidade emanada da Obediência Mater. Nada conseguiria, entretanto, como se verá posteriormente, pois a Grande Loja Unida da Inglaterra sempre reconheceu o GOB como seu parceiro no Brasil.

Continua…

Autor: William Almeida de Carvalho

William Carvalho foi diretor da Biblioteca do Grande Oriente do Brasil e Secretário de Educação e Cultura do GODF-GOB. Autor de diversos livros sobre a Maçonaria no Brasil. Membro da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati de Londres, da Scottish Rite Research Society. Presidente da Academia Maçônica de Letras do DF. Tesoureiro da Academia Maçônica do Brasil e da Academia Maçônica de Letras da Paraíba. Doutor em Ciência Política pela Panthéon-Sorbonne.

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

 

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O Mundo Evolui e os Desafios se Agigantam

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O mundo está passando por rápidas e profundas transformações.  A  sociedade evolui quebrando paradigmas, estabelecendo novos conceitos e valores,  numa metamorfose irrequieta que nos deixa  assustados e, sobretudo, preocupados quanto ao  que será o mundo daqui a alguns anos.

É imperioso destacar que o processo de evolução é irreversível; não temos como interromper a caminhada evolutiva do pensamento, da ciência, da tecnologia, da cultura,  dos costumes, etc.  O filósofo grego Pitágoras, que faleceu no ano 500 A.C.  já afirmava que  “a evolução é a lei da vida”. O grande desafio que se nos apresenta é nos adaptarmos ao processo evolutivo e trabalhar no presente, pensando no futuro e construindo bases seguras para que o homem possa interagir  de forma positiva e construtiva  na sociedade do futuro. A enorme indagação é: como será o mundo do futuro?

Nesse contexto, vimos, há muito, e sempre que nos é possível, lançando à Ordem Maçônica sementes provocativas, e instigantes indagações com o objetivo de  conduzir  a produtivas reflexões que poderão nos ajudar na caminhada rumo ao futuro, como por exemplo:

  • Como será o mundo que estaremos vivendo num futuro próximo?
  • Como será a sociedade desse futuro? Seus valores, necessidades, objetivos, etc.?
  • Qual o papel que queremos e julgamos importante desempenhar nessa sociedade?
  • Em decorrência, qual a Maçonaria que queremos e que será necessária para interagir com essa sociedade, superando os desafios que virão pela frente?
  • Estamos preparados para essa Maçonaria? Ou melhor, estamos nos preparando adequadamente, com consciência e responsabilidade para os novos tempos? De que forma?
  • Estamos atentos às visões, anseios, pensamentos e contribuições que trazem as novas gerações que estão chegando às Lojas?
  • Estamos sabendo aproveitar e canalizar o potencial dessa juventude dinâmica, bem informada e com necessidade de ver resultados com rapidez, para trabalhos produtivos, motivadores, consistentes e que podem trazer contribuições à sociedade?

Não temos dúvidas de que é necessário evoluir na nossa forma de atuação e essas indagações têm que ser assuntos recorrentes em nossas reflexões e trabalho como Construtores Sociais.

E, falando em Construtores Sociais, vem à nossa mente dois aspectos importantíssimos de nosso labor, responsabilidade social e cidadã, como fatores essenciais à  liberdade e ao pleno estado democrático de direito.

Não é possível olvidar que de  nossa Minas dos Ouros sempre brotaram os ideais de liberdade e grandes movimentos que edificaram esta Nação.  O nosso grande Estadista Presidente Dr. Tancredo Neves afirmou que “o primeiro compromisso de Minas é com a liberdade”. Lembrem-nos também do grande presidente americano Thomas Jefferson que  afirmou: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”.

Desembarcando  das reflexões sobre o futuro e aportando no  presente com os grandes desafios do ano de 2018 para nós brasileiros,  não podemos deixar de destacar e afirmar  que muito poderemos fazer para contribuir na superação desses desafios, principalmente criando condições para início das mudanças tão necessárias e reclamadas pelo povo brasileiro.

Que o Brasil vive preocupante crise econômica, política, social e sobretudo de natureza ética e moral, não é novidade para ninguém. Entendemos que o início das mudanças passa pelas eleições de 2018, quando os brasileiros irão às urnas para elegerem os dirigentes federais, bem como para as unidades federadas.

As verdadeiras mudanças somente ocorrerão  a partir do cidadão. Estamos diante de uma oportunidade de evolução de nossa sociedade e precisamos aproveitá-la para fortalecer a consciência do cidadão como motor da evolução do pais.  É preciso ter  em mente que as nossas atitudes é que fazem a diferença.

O cidadão precisa tomar consciência de que o voto consciente é a única arma para as mudanças e fortalecimento da democracia, rumo a uma Pátria mais saudável, fraterna, igualitária e desenvolvida, com ordem e paz social.

Assim, com o intuito de fortalecer o nível de consciência do cidadão, sobretudo os menos esclarecidos,  que são alvos fáceis de manipulação por parte de políticos corruptos e oportunistas e, visando o fortalecimento dos pilares essenciais da sociedade e da democracia, a Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil – CMSB, que congrega as 27 Grandes Lojas do Brasil, lançou o Programa “VOTO CONSCIENTE”, que será desenvolvido em todos os 26 Estados da Federação e no Distrito Federal com o slogan “REAGE BRASIL! O voto é o Resgate do País em Nossas Mãos!”

Nesse contexto, diante dos enormes desafios que temos pela frente,  voltamos o nosso pensamento  para o importante momento que vive  a Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, assumindo no Grão-Mestrado e nas Lojas jurisdicionadas, as novas Administrações  que terão a incumbência de desenvolverem  esse trabalho e que, temos certeza,  liderarão com inteligência, estratégia e foco,  hercúleo esforço junto à sociedade, resgatando o nível de consciência social e cidadã. A todos os nossos votos de muito sucesso e a plena confiança de que assistiremos a  gestões inspiradoras, empreendedoras e fraternas, com excelentes resultados.

Conclamamos pois, que cada Maçom se disponha a desenvolver esse trabalho, construindo uma nova consciência nacional e sendo  protagonista na obra de um mundo mais justo.

Queremos e vamos  ser Construtores de Protagonismo! O nosso trabalho e o voto consciente vai fazer a diferença. ACREDITE! Vamos ajudar o Brasil a ser melhor.

Concluímos deixando para reflexão, valiosos ensinamentos de dois expoentes do pensamento, muito pertinentes ao nosso contexto:

Santo Agostinho, um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo afirmou que: “a esperança tem duas filhas lindas; a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão e a coragem a mudá-las.”

Sêneca, importante escritor e filósofo romano disse: “muitas coisas não ousamos empreender por parecerem difíceis; entretanto, são difíceis porque não ousamos empreendê-las.”

Saudações Fraternais, e um brinde à amizade e à consciência do dever cumprido.

Geraldo Eustáquio Coelho de Freitas
Grão-Mestre da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais – triênio 2015/2018
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A Maçonaria e o Iluminismo

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Ao pensarmos sobre a influência do Iluminismo na Maçonaria surgem as seguintes questões: “Seria a Maçonaria filha predileta do Iluminismo ou seria o Iluminismo broto predileto da Maçonaria? Ou nem uma coisa nem outra?”

Sem ter a pretensão de esgotarmos o tema e muito menos apresentarmos uma resposta definitiva, convido-o a juntos retomarmos brevemente o pensamento iluminista e seus desdobramentos. Como sabemos a Maçonaria está intrinsecamente ligada à toda esta efervescência intelectual do século XVIII.

O movimento iluminista desenvolveu-se a partir do Absolutismo[1], no início como sua consequência interna, em seguida como sua contraparte dialética e como inimigo que preparou sua decadência.

Também chamado de Esclarecimento (em alemão Aufklärung, em inglês Enlightenment), foi um movimento e uma revolta ao mesmo tempo intelectual surgido na segunda metade do século XVIII (o chamado “século das luzes”) que enfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo. Foi um dos movimentos impulsionadores do Capitalismo e da sociedade moderna. Que obteve grande dinâmica nos países protestantes e lenta, porém gradual, influência nos países católicos. (CARVALHO, p. 16)

Ao pensarmos em Iluminismo surge imediatamente a Revolução Francesa, que foi um divisor de águas nas relações sociais e que contribuiu expressivamente para a formação do mundo contemporâneo.

Se a economia do mundo do século XIX foi formada principalmente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa.[2]

Em Crítica e Crise[3], cuja leitura concebe a dimensão do que foram as sociedades secretas nos Setecentos europeu e sua predisposição em levar a humanidade a um avanço intelectual. Um objetivo exercido, sobretudo, pela franco-maçonaria com seu conteúdo pedagógico de formar homens críticos com ideário modernizador e progressista. Assim, em um relacionamento indissociável com a ideia de sociabilidade e de poder indireto proposta por Koselleck e com os trabalhos historiográficos que na temática deste trabalho se insere na problemática acerca do papel da franco-maçonaria no período que antecedeu a Revolução Francesa.

É importante ressaltar o que Koselleck afirma que duas formações sociais marcaram de maneira decisiva a época do Iluminismo no continente: a República das Letras e as lojas maçônicas. O Iluminismo e segredo aparecem como gêmeos históricos.

Quanto ao segredo, que atualmente é associado à Maçonaria, na época era muito utilizado pelo Poder Absolutista; crescendo mais ainda com o nascimento da nova elite, composta por grupos diversos, até mesmo heterogêneos, cuja característica comum residia no fato de que se viam destituídos ou privados de qualquer liberdade de decisão política no Estado Moderno, representado apenas pelo monarca absoluto.

Esse grupo diametralmente oposto, mas poderoso, da nova sociedade desenvolveu-se sob a Regência. Era composto por banqueiros, coletores de impostos e homens de negócio. Eram burgueses que trabalhavam e especulavam, alcançavam riqueza e prestígio social e frequentemente compravam títulos de nobreza; desempenhavam um papel de liderança na economia, mas de modo algum na política.

O crescimento foi tão grande que passaram a ser financistas do Estado, porém somente o dinheiro que era destinado, não havia nenhuma gerência e muito menos acompanhamento do destino destes numerários. Muitos destes financistas ganhavam fortunas milionárias graças à corrupção do sistema fiscal e à arrecadação de impostos, mas ao mesmo tempo, o acesso ao orçamento secreto e inatingível do Estado lhes era vedado. Não tinham nenhuma influência sobre a administração financeira e, como não bastasse, não possuíam nenhuma segurança para os seus capitais: a decisão real levava-os frequentemente a perder dinheiro que haviam ganho com a especulação e trabalho.

Rivarol[4] traduziu a maneira que o Estado administrava o dinheiro que devia à aristocracia financeira e, além disso, roubava de maneira arbitrária – e totalmente “imoral” – os lucros de seus credores; expressou “Quase todos os súditos são credores do senhor…que é escravo, como todo o devedor”.

Na interação do capital financeiro (que também era, nas mãos da sociedade, um bem moral) com o endividamento financeiro do Estado (que, em virtude da sua autoridade política, dissimulava ou negava imoralmente suas dívidas) está um dos impulsos sociais mais fortes da dialética da “Moral e da Política”.

À nobreza antiabsolutista e à burguesia endinheirada juntava-se um terceiro grupo, emigrantes protestantes expulsos da França após a revogação do édito de Nantes de 1685. Os filósofos iluministas mantinham estreita ligação com esses refugiados, espíritos eminentes na época. Mas não havia qualquer forma de acesso ao aparelho de comando do Estado, seja a legislatura, a política ou o exército.

Todos os homens da sociedade, excluídos da política, reuniam-se em locais “apolíticos” – na bolsa de valores, nos cafés ou nas academias – onde se praticavam novas ciências, sem sucumbir à autoridade eclesiástico-estatal de uma Sorbonne, ou então nos clubes, onde não podiam estabelecer o direito vigente; nos salões das cátedras e das chancelarias, ou ainda nas bibliotecas e sociedades literárias, onde se dedicavam à arte e a ciência, mas não à Política Estatal.

Esta nova sociedade criou suas instituições sob a proteção do Estado absolutista, cujas tarefas – toleradas, promovidas ou ignoradas pelo Estado – eram “sociais”. Desde o início, os representantes destas sociedades só podiam exercer influência política – se é que podiam – de maneira indireta. Portanto, todas as instituições sociais da nova camada social, aberta à sociabilidade, adquiriam potencialmente um caráter político, tornando-se com tempo forças políticas indiretas.

As lojas maçônicas apresentam uma melhor opção para o movimento iluminista, onde o segredo é a garantia de sua proteção: “A liberdade secreta se torna o segredo da liberdade”. A outra função do segredo é a de propiciar a coesão entre os irmãos. Nasce aí uma nova elite, denominada humanidade, que sente ser seu dever servir a este novo mundo[5].

Os maçons, aos seus próprios olhos, queriam fazer o bem, mas encontravam obstáculos, quais fossem: a divisão do mundo entre homens e Estados divergentes, a hierarquia social e as religiões em conflito.

Por esses motivos, a crítica permanecia obediente ao Estado, devendo os progressistas limitarem-se ao espírito das ciências[6].

No entanto, à medida que a crítica da razão torna todos iguais, inclusive o soberano, ela reduz todos os homens à condição de cidadãos. E se todo cidadão é igual, todo poder é abuso de poder, e o rei absolutista é um usurpador.

Na Alemanha, observa-se clara percepção da tensão entre moral e política, o que deveria provocar a cisão entre Estado e sociedade[7]. Todavia, nessa região, a burguesia é fraca e minoritária, logo, as sociedades secretas são ferrenhamente perseguidas e colocadas fora da lei. Diz-se delas que são um Estado dentro do Estado, que se trata de uma conspiração jesuítico-maçônica, acima dos Estados soberanos, para destruí-los, a eles e às igrejas.

Göchhausen, um militar prussiano, maçom, mas lacaio do rei, assim denuncia os iluministas:

A razão, aparentemente, irá criar um território sem fronteiras e instaurar a era da frugalidade espiritual, física e política no país de fria abstração; mas, de fato, só haveria duas condições toleráveis: a classe que governa e a classe que é governada (Critica e Crise p. 119).

Historiadores importantes apresentam estudos que relacionam a Maçonaria com o Iluminismo e creditado à instituição o princípio da igualdade entre os homens, embrionário do movimento democrático[8] [9], dando-lhe o papel de protagonista de revoluções, como a Revolução Francesa.

Um dos principais pensadores do Iluminismo, o filósofo alemão Immanuel Kant[10], compreendeu essa vocação das Lojas Maçônicas como uma vocação natural de homens de bem se unindo e se comunicando com seus semelhantes sobre questões que afetam a humanidade como um todo. Habermas[11], famoso filósofo alemão da escola crítica, coaduna com tal pensamento, ao registrar sua leitura do período iluminista:

A promulgação secreta do Iluminismo, típica das Lojas, mas também amplamente praticada por outras associações e Tisclzgesellschaften, tinha um caráter dialético. Razão pela qual o uso público da faculdade racional a ser realizado na comunicação racional de um público composto por seres humanos cultos, em si precisava ser protegido de se tornar público porque era uma ameaça para toda e qualquer relações de dominação. Enquanto a publicidade tinha a sua sede nas chancelarias secretas do príncipe, a razão não podia revelar-se diretamente. Sua esfera de publicidade ainda tinha que confiar no sigilo; seu público, até mesmo como um público, permaneceu interno. A luz da razão, assim velada de autoproteção, foi revelada em etapas. Isso lembra a famosa declaração de Lessing sobre a Maçonaria, que na época era um fenômeno europeu mais amplo: ela era tão antiga quanto a sociedade burguesa – “se de fato a sociedade burguesa não é apenas a prole de Maçonaria” (The Structural Transformation of the Public Sphere, Habermas, 1989, p. 35)

Concluindo este brevíssimo trabalho, que sobrevoou por fatos importantes que conduziram a humanidade a novos tempos, é possível inferir que acompanhando o pensamento dos principais pensadores do Iluminismo, a Maçonaria realmente colaborou com o desenvolvimento desse e, munida do mais profundo princípio de igualdade entre os homens, emprestou seu conceito e experiência de democracia à sociedade contemporânea então recentemente instalada. E, por sinal, instalada graças à liderança libertadora de seus membros. Portanto, a Maçonaria é a filha predileta do Iluminismo e também o seu broto predileto.

Autor: Rogério Vaz de Oliveira

Rogério é Mestre Maçom integrante da Loja Estrela do Sul 84 – Bagé/RS; sócio correspondente das Academias Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul e o Leste de Minas. Especialista em Comunicação Pública e em História da Maçonaria.

Nota do Blog

Agradecemos ao estimado irmão Rogério por nos ter enviado este excelente artigo, permitindo assim que nossos milhares de leitores possam desfrutar dessa enriquecedora peça de arquitetura.

Notas 

[1] – Para SQUIERE o absolutismo é forma de governo em que o detentor do poder exerce esse último sem dependência ou controle de outros poderes, superiores ou inferiores.

[2] – HOBSBAWM, Eric J. Era das Revoluções: 1789-1848. Tradução: Maria Tereza Teixeira. 25ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2010. p. 97.

[3]Kritik und Krise: Ein Beitrag zur Pathogenese der bürgerlichen Welt, publicado pela primeira vez em 1959, nasce da tese de doutoramento de Reinhart Koselleck apresentado em 1954 na Universidade de Heidelberg.

[4] – Antoine de Rivarol (1753-1801). Memories, Ed. Berville, Paris, 182.

[5] – Marionilde Dias Brepohl de Magalhães. Comentários sobre Crítica e crise. Universidade Federal do Paraná

[6] – A institucionalização da crítica se dá, num primeiro momento, de forma dissimulada, pelo e no teatro ou pela e na literatura. O resgate do drama tem este sentido, de oposição de forças diametralmente opostas: razão/ revelação, liberdade/ despotismo, natureza/ civilização, comércio/ guerra, moral/ política, decadência/ progresso, luz/ trevas.

[7] – À época do Sturm und Drang (Tempestade e ímpeto), primeira fase do Romantismo, também compreendido como Romantismo Ilustrado.

[8] – KRAMNICK, I. The Portable Enlightenment Reader. Harmondsworth: Penguin, 1995.

[9] – JACOB, M. C. The Radical Enlightenment: Pantheists, Freemasons and Republicans. Cornerstone Book Publishers, Lafayette, Louisiana. 2006.

[10] – KANT, I. The Metaphysical Elements of Justice; Part I of the Metaphysics of Morals. 2nd ed. Tradução: John Ladd. Indianapolis: Bobbs-Merrill, 1999.

[11] – HABERMAS, J. The Structural Transformation of the Public Sphere: An Inquiry into a Category of Bourgeois Society. Cambridge, MA: MIT Press, 1989.

Referências

CARVALHO, William Almeida de. História da Maçonaria: Das Origens Corporativas à Maçonaria Moderna. Unileyer: Brasília, 2016.

ISMAIL, Kennyo. Artigo Maçonaria e Iluminismo, disponível no http://www.noesquadro.com.br/2012/12/maconaria-iluminismo.html, acessado em 12 FEV 17.

DIDEROT OU AS MIL LUZES DO ILUMINISMO, artigo disponível na Revista Digital Bibliot3ca https://bibliot3ca.wordpress.com/?s=iluminismo&submit=Pesquisa, acessado em 12 FEV 17.

HOBSBAWM, Eric J. Era das Revoluções: 1789-1848. Tradução: Maria Tereza Teixeira. 25ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2010. p. 97.

MAGALHÃES, Marionilde Dias Brepohl de. Comentários sobre Crítica e Crise. Rio de Janeiro: EDUERJ/Contraponto, 1999.

ROUANET, S. P. As razões do iluminismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.

ROCHA, Luiz Gonzaga. Ciência, Artes e Literatura Maçônica. Brasília: UnyLeya, 2016.

RIVAROL, Antoine. (1753-1801). Memories, Ed. Berville, Paris, 1824.

SQUIERE, P. Absolutismo. In: BOBBIO, Norberto, MATTEUCCI, Nicola, PASQUINO, Giafranco. Dicionário de Política. Brasília: UNB, 1997.

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A Coisa Certa a Fazer

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A Maçonaria é uma instituição que tem por objetivo tornar feliz a Humanidade pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade, pelo respeito à autoridade e à religião de cada um.

Já há algum tempo que, volta e meia, ouvimos irmãos de Ordem cobrarem “uma atitude” por parte da Maçonaria. Entre as várias reclamações que você já ouviu – ou já fez – em algum momento, listamos a seguir algumas das mais comuns:

  • – O que a Maçonaria está fazendo para mudar a situação atual do país?
  • – A Maçonaria não faz nada!!!!
  • – Antigamente a Maçonaria já teria dado um jeito nisso! Hoje ela morreu!!!
  • – O Grão-Mestre não faz / não fará nada!!!

Mas será que o sujeito presente nesses questionamentos é o que deve ser mesmo cobrado? É a Maçonaria, como instituição, que deve tomar uma atitude? Seria o Grão-Mestre aquele que deve ser o responsabilizado por tudo?

A resposta, a meu ver, é NÃO.

Entendo que devemos perguntar a nós mesmos “o que estamos fazendo para mudar a situação atual do país?”. O que EU, como maçom e cidadão, faço pelo aperfeiçoamento dos costumes? Como EU posso contribuir para a disseminação do conceito de tolerância e igualdade na sociedade em que estou inserido? Como EU posso contribuir para fortalecer, entre aqueles com quem tenho convívio, o respeito à autoridade e à religião de cada um?

Certa vez li um artigo, de um maçom americano, em que ele se diz decepcionado com a Maçonaria, já que, para ele, a Ordem vive no passado e muitos de seus membros não querem que ela se modernize. Segundo seu relato, após anos de Ordem ele se perguntou se tinha feito alguma diferença; se a fraternidade ou a loja estava melhor do que quando foi iniciado.

Mais uma vez entendo que as perguntas feitas foram as perguntas erradas. O correto seria perguntar se, depois de 10 anos de Ordem, se ele fez alguma diferença na sociedade; qual foi sua contribuição para “tornar feliz a humanidade”; se com os ensinamentos da Arte Real ele se tornou uma pessoa melhor. Afinal, posso, pelo meu exemplo e atitudes, trabalhar por uma sociedade melhor?

As mudanças, tão desejadas por todos, somente será possível se cada membro da Ordem passar a agir como verdadeiro maçom e der a sua contribuição.

Mas, infelizmente, muitos daqueles que clamam por uma atitude da Maçonaria são os mesmos que compartilham fake news nos grupos de WhatsApp da Loja e da família.

Outros tantos são maçons saudosistas, iludidos por lendas fantasiosas, que desconhecem o que é tolerância e respeito à liberdade de pensamento e atacam todos àqueles que têm uma visão política distinta daquela que, para ele, é a única correta.

Há ainda uma parcela que nada sabe, mas é ávida por títulos e medalhas. Desconhece totalmente os princípios da Sublime Ordem; maçons que não leem; não se interessam em se aperfeiçoar como ser humano, mas gritam aos quatro cantos que é preciso que a Maçonaria faça algo!!

A verdade é que, ao invés de cobrar uma atitude da instituição, o maçom deve cobrar uma atitude de si mesmo! Descruzar os braços e deixar de confundir esperança com esperar. As ferramentas necessárias estão ao nosso alcance, mas infelizmente, há em nossas fileiras uma total falta de compromisso com o juramento prestado. Claro que é muito mais fácil culpar a instituição Maçonaria do que enxergar os próprios defeitos.

Respeitando as diferenças, e as individualidades, todo maçom pode – e deve – contribuir para o aperfeiçoamento do Homem e para a felicidade da Humanidade. Para isso, basta querer agir. Basta dar o exemplo. Basta compartilhar e colocar em prática todos os ensinamentos recebidos após nossa iniciação. Basta ser um maçom de verdade.

Com todos passando a ter uma ação proativa, sem transferir responsabilidades, a organização irá mover suas engrenagens, e os resultados surgirão.

Deixemos de lado as lamúrias e passemos à ação! Pois, como já disse Kant, a virtude é a força das máximas do indivíduo na realização de seu dever.

Vontade – força interior que impulsiona o indivíduo a realizar algo, a atingir seus fins ou desejos; ânimo, determinação, firmeza.

Autor: Luiz Marcelo Viegas
ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG
Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida – GLMMG

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À vossa direita e abaixo do Sólio

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Trono e Sólio

Saudações estimados Irmãos, o Venerável assenta-se no Trono ou no Sólio?

Se você respondeu no Trono, acertou; no Sólio, também acertou. Mas se respondeu no Trono que está no Sólio cometeu uma enorme redundância; o mesmo que, subir para cima e descer para baixo.

Certamente foi lhe instruído que, o Primeiro Diácono fica abaixo do Sólio, e o Sólio é onde fica a cadeira do Venerável, do ex-Venerável e da maior autoridade maçônica presente.

Devo abrir um parêntese para explicar que esta informação é passada principalmente no Rito Escocês, mas há alguns ritos que não fazem menção do Sólio e às vezes, nem dos diáconos e da divisão entre ocidente e oriente.

O uso da palavra sólio, como mobiliário de uma Loja Maçônica é corretíssimo, pois quer dizer “assento do Rei”, “Trono” se levarmos em consideração que fazemos analogia entre a Loja Maçônica e o Templo de Salomão, nada mais plausível que chamemos a cadeira do Venerável Mestre de Trono de Salomão ou, se preferirem, Sólio de Salomão.

Eu, particularmente, prefiro a palavra sólio; trono, dá-nos ideia de Realeza, Poder Temporal, Luxo, já, sólio está mais ligado aos aspectos espirituais. Palavra de origem latina que designa assento elevado, por metonímia: poder ou autoridade real.

O mais famoso dos Sólios é o Sólio estelífero que enfeita o teto de nossas Lojas e talvez o mais poderoso seja o Sólio Pontifício que é a Cadeira de São Pedro (não se usa o termo Trono de São Pedro). Tendo a oportunidade de ir ao Vaticano, visite a Igreja de São Pedro. Conte os degraus que elevam o Sólio Pontifício, de onde o Papa celebra as missas, irá encontrar sete degraus.

Não são quatro mais três, são sete degraus diretos, mesmo assim lembram alguma coisa! Fico a pensar, em quanta Força é necessária para um homem alcançar o Sólio, não força bruta, mas, Força de Vontade, Determinação.

É possível que use a Força do Bom Propósito. Dotado dessa força, cabe então o Trabalho. Um trabalho social e moral, onde o enquadramento do indivíduo resultará num ganho para a sociedade, para o tanto ele deverá recorrer a Ciência para transpor um nível e favorecer a disposição da alma para a prática do Bem, que é realmente a Virtude. Virtuoso alcançará um grau de Pureza, pois somente os puros, podem ser um foco de Luz, e fazer prevalecer a Verdade em nossa Sublime Ordem.

Apenas como curiosidade, o Trono de Salomão era grande, todo em marfim finamente trabalhado e coberto de ouro puríssimo, o espaldar do trono ao alto era redondo; de ambos os lados tinha braços junto ao assento, e dois leões junto aos braços. Também havia doze leões um em cada extremidade lateral dos degraus. Nunca houve um trono tão bonito em nenhum outro reino.

O Trono ficava sobre um estrado de seis degraus (Liv. dos Reis). O objetivo deste pequeno artigo é aguçar a curiosidade dos Irmãos, aos estudos. Qual a sua resposta para essa pergunta: – Se o Sólio de Salomão ficava no alto de seis degraus, por que o do Venerável fica no alto de sete degraus? Faça uma pesquisa e quando ela estiver pronta, leve para sua Loja enriquecendo seu Quarto de Hora de Estudos.

Autor: Sérgio Quirino Guimarães
ARLS Presidente Roosevelt, 25 – GLMMG
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Los Orígenes de la Masonería Especulativa – Parte II

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Logias Operativas

Por otro lado, la realidad de las logias operativas– dentro del sentido que podemos dar a la palabra logia, a la luz de la masonería especulativa: una estructura permanente, regulando y controlando el Oficio en todos los puntos del territorio, proporcionada de usos rituales específicos – es un hecho problemático en tierras inglesas: puesto que no hay ningún rastro histórico de ello.

Más aún, algunas raras logias operativas, muy tardías, curiosamente solo conocidas en Inglaterra, siguieron siendo operativas hasta su desaparición. No se puede, sino volver al estudio magistral de Knoop y Jones, The Medieval Mason, cuya primera edición aparecida data de 1933, y no deja de ser notable que esta obra haya sido publicada por historiadores profesionales, fuera de los círculos habituales de la erudición masónica, y que hayamos rescatado apenas hace cuarenta años, y es la que nos pone en una certeza: que el origen de las logias masónicas que aparecen en Inglaterra son puramente especulativas. La logia de Chester, en efecto era operativa que se desarrolla en medio del siglo XVII, muy bien estudiada por los historiadores ingleses, tuvo una existencia transitoria, y constituye prácticamente un “hapax en la historia masónica inglesa.

Incluso en lo que se refiere a la famosa Acception de Londres, del siglo XVII, indebidamente calificada de logia, ya que este término no aparece nunca en sus anales, y erróneamente es citada como un testimonio de la transición especulativa, hay que decir que nadie sabe quién tomó la iniciativa de fundarla, ni por qué motivo. Este círculo logial constituido al margen de la Compañía de Masones de Londres, fue el único gremio organizado conocido en Inglaterra para el oficio de masón, cuya autoridad nunca sobrepasó el entorno de Londres.

La Acception dentro de la historia masónica deja dos finos rastros documentales, en 1610, y luego en 1686, en el informe de Elias Ashmole. No se conoce ninguna otra estructura comparable en Inglaterra en esta época, ni aún más tarde. Parece haberse tratado de una clase de club que recibe, según la fórmula muy clásica del patrocinio que se conocerá también Escocia, de notables y personalidades susceptibles de favorecer el Oficio. Recordemos sobre todo que los operativos, ellos mismos debían admitirse en el seno de la logia que controlaban, ya que no eran miembros de derecho. Es por eso, que la Compañía de los Masones de Londres persistió hasta nuestros días, y los Acceptions han desaparecido sin dejar ninguna descendencia conocida.

En absoluto se pueden oponer cosas que parecen presentarse de diferente manera, y en muy distintos ámbitos como Escocia, donde a principios del siglo XVII, donde la entrada de notables en logias operativas organizadas parece cierta. Tendremos ocasión de volver de nuevo sobre el caso. En efecto es muy interesante el tema de Escocia. Observemos por el momento que Escocia era, hasta principios del siglo XVII, un país extranjero y enemigo de Inglaterra, que había muy pocas relaciones entre el uno y el otro, y que la existencia de logias operativas en Edimburgo o Kilwinning, no explican por sí solas las circunstancias de aparición de una Masonería puramente especulativa, al mismo tiempo, que en el sur de Inglaterra.

La Hipótesis del Préstamo

A partir de la crítica a esta teoría, nació a principios de años setenta, lo que se puede llamar una contrateoría. Esencialmente negativa, se podría decir, ésta no se propone solucionar positivamente la cuestión de los orígenes de la Masonería pero sugiere que la Masonería especulativa, contrariamente a lo que afirma la teoría de transición, tendría un origen deliberadamente prestado con textos y prácticas que pertenecen o que pertenecieron a los operativos, pero de manera totalmente independiente, sin filiación directa ni autorización.

La masonería especulativa por lo tanto no habría mantenido, desde su fundación, vínculos puramente nominales, sino como mucho, lazos alegóricos con los constructores de las catedrales. Dejando, hasta cierto punto, a la Masonería especulativa huérfana de su tradición fundadora, el cuestionamiento suscitado por E.Ward condujo a la erudición masónica inglesa a buscar un modelo de sustitución a la teoría de la transición, en adelante ya muy poco operativa en su formulación clásica: “e chantier est toujours en cours”.

Nuevas Miradas Sobre los Antiguos Deberes

A esta primera cuestión vino a añadirse otra más positiva en la propuesta que en 1986 lanza el gran erudito ingles Colin Dyer. Esta teoría se basa en primer lugar en la reconsideración de la filiación de estos textos fundamentales de la tradición masónica inglesa que son los Anciens Devoirs (Old Charges). Se sabe en efecto, que entre las dos versiones más antiguas conocidas, están la Regius y manuscrito Cooke, fechadas ambas en los alrededores de 1400, y las versiones siguientes que existen, más de 130 actualmente, y colocadas en un índice hasta pleno siglo XVIII, habiendo un período documental mudo que alcanza los 150 años aproximadamente. Como revancha decir que a partir de los años 1580, hubo de nuevo una cantidad creciente de textos de Antiguos Deberes. Ahora bien, sabemos, gracias a la mención llevada a cabo por el Manuscrito Ms Sloane 3848, qué sirvió para la iniciación de Elias Ashmole en 1646 en la logia Warrington, un ejemplar de Antiguos Deberes que era un tipo de instrumento de trabajo esencial en las logias especulativas inglesas, en particular, para la recepción.

En aquellos momentos se trataba de una ceremonia muy simple y sencilla para proceder a la aceptación de un candidato. Esto es admitido como un hecho muy general, y sobre todo sabiendo que hacia finales del siglo XVI, no existía al parecer, ya ninguna logia operativa.

La hipótesis de trabajo propuesta por C. Dyer, es estudiar el contenido de estas nuevas versiones de Antiguos Deberes, con el fin de sacar un testimonio sobre el espíritu y los usos especulativos ingleses de quienes, podrían haber aparecido al mismo tiempo que estos mismos textos, o sea mucho antes que se lo piensa generalmente.

Los dos textos más antiguos disponibles hoy, para esta “segunda oleada”, son el Ms Melrose, del cual se posee una copia datada de 1674, pero que afirma referirse a un original – desconocido hasta este día – de 1581, y sobre todo el Ms Grand Lodge n° 1 que tiene clara la fecha que es de 1583, y que son interesantes para un estudio comparativo de su contenido, con la versión antigua de referencia que es el Ms Cooke.

Las diferencias observadas se resumen esencialmente en dos grupos:

  1. Algunas certifican que estos nuevos documentos no tenían probablemente un uso operativo, y que los escritores no pertenecían probablemente al oficio de Masón; así pues, por ejemplo, las condiciones antiguas, relativas a la obligación para todo el Maestro de Obra – es decir, todo patrono – de proporcionar a la sustitución de todo obrero que no realizara su trabajo el tiempo, pagarle por su trabajo y que fueron simplemente suprimidas;
  2. Otras obligaciones hacen su aparición, y poseen significados morales y religiosos interesantes:

a) La obligación de “servir lealmente el Señor para quien él trabajo, se sustituye por un compromiso de fidelidad  a Dios y a Santa Iglesia”. Es necesario observar que este compromiso figuraba en el Ms Cooke bajo la fórmula:  “Dios, la Santa Iglesia, y todos los Santos”;

b) La supresión de esta última mención tiene obviamente un significado confesional probable, ya que prescribe que todo Masón nunca debe caer e en el error o en la herejía de no ser en cualesquier circunstancias un hombre discreto y prudente.

En total, las diferencias observadas entre las dos series de textos conducen C. Dyer, a la conclusión que después de un silencio de más de ciento cincuenta años, el Ms Grand Lodge n° 1 no es de ninguna manera una simple copia, más o menos abreviada de Cooke, sino un documento totalmente nuevo, que introduce numerosas normas que no se refieren ya directamente a la práctica operativa, pero poseen un carácter moral y específicamente religioso. El estudio más detallado de la ortografía utilizada para los nombres bíblicos mostrados por otro lado, en el Ms Grand Lodge n° 1 demuestra que se hizo uso de las biblias publicadas en Inglaterra después de la Reforma, lo que representa que fue escrito a partir de 1540 alrededor.

Continua…

Autor: Roger Dachez
Traduzido para o espanhol por Victor Guerra

Fonte: Diario Masónico

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