Quando o GOB era Socialista e a guinada maçônica brasileira ao Conservadorismo

1 – A promotora do Ensino Laico…

Muitos dos maçons brasileiros da atualidade, tão tolerantes, para não dizer concordantes, com discursos e argumentos considerados reacionários, quando não pró-ditadura, talvez não imaginem que o GOB – Grande Oriente do Brasil por anos defendeu oficialmente a bandeira socialista.

Isso ocorreu em decorrência das ações sociais maçônicas promovidas durante a última década do século XIX e as duas primeiras do século XX, quando, após a Proclamação da República, a Maçonaria resolveu colaborar para o desenvolvimento de um estado laico, focando principalmente no ensino laico, que foi levado tão a sério a ponto do Grande Oriente do Brasil, em 1915, decretar que:

O ensino primário da língua nacional é obrigatório para todos os filhos de maçons entre sete e doze anos. (…) Em todos os orientes onde não houver escolas gratuitas mantidas pelo governo no país, ou por associação leiga de qualquer natureza, as Lojas e os maçons aí residentes são obrigados a suprir essa falta e a essa missão. (…) As escolas assim criadas serão públicas. (GOB. Decreto No. 513 de 23/12/1915).

O resultado dessa política obrigatória foi computado em uma pesquisa interna realizada pelo GOB em 1922, quando se tinha o registro de 132 escolas maçônicas públicas e 22 bibliotecas maçônicas públicas. A maioria dessas escolas era noturna e técnica, voltada a trabalhadores adultos analfabetos (BARATA, 1999).

No entanto, juntamente com a promoção do ensino laico e a formação de profissionais em suas escolas técnicas, surgiu no Grande Oriente do Brasil uma preocupação quanto a exploração desses trabalhadores. E a única literatura que combatia tal exploração naquela época era a socialista. Por essa razão, o Grande Oriente do Brasil apresentou em seus boletins, entre 1892 e, pelo menos, 1917, uma série de manifestações oficiais a favor da implementação do socialismo no Brasil. Afirmava acreditar “no dia da vitória da causa socialista” (Boletim do GOB, No. 12, 1892), e que “devemos concluir que a maçonaria e o socialismo têm numerosos pontos de contato” e os maçons brasileiros deveriam “cooperar com o socialismo para o triunfo definitivo de seus bons e sagrados ideais” (Boletim do GOB, No. 5, 1917).

Fato é que, naquela época, ocorreram inúmeras “conferências maçônico-socialistas” no Brasil, promovidas pelo GOB e suas Lojas, e o discurso socialista no âmbito maçônico só diminuiu o tom quando a revolução soviética triunfou e começaram a chegar as notícias de perseguição à Maçonaria na Rússia e em outros países (MOREL; SOUZA, 2008).

Você pode estar agora se perguntando: mas o que levou à Maçonaria brasileira a essa guinada, de socialista a reacionária?

2 – De perseguida na Ditadura Varguista…

Depois de ter sua chama socialista abafada pela perseguição soviética à Maçonaria, a Maçonaria brasileira passou praticamente toda a década de 20 vivenciando os atos que culminaram na grande cisão maçônica de 1927, que originou as Grandes Lojas Estaduais brasileiras (PIRES, 2015). O cenário maçônico brasileiro então iniciou a década de 30 polarizado. De um lado o Grande Oriente do Brasil tentando se reestruturar do caos gerado pela cisão. Do outro, as recém-criadas Grandes Lojas Estaduais tentando se estruturarem e criar novas Grandes Lojas nos Estados que ainda não havia. A busca pela felicidade da sociedade brasileira teria que esperar. Mas, pelo menos, o Presidente da República, Washington Luís, era maçom!

No entanto, este nono Presidente da República maçom, dentre os 13 primeiros Presidentes que houve no Brasil, sofre, em 24 de outubro de 1930, um golpe militar. Assume o poder Getúlio Vargas, que acaba sinalizando favoravelmente ao discurso antimaçônico dos integralistas, tão comum nas ditaduras. Trata-se da crença na teoria da conspiração judaico-maçônica-socialista, promovida pela Igreja Católica, dentre outras instituições.

Ao decretar, em 1937, estado de guerra interna, Vargas determina o fechamento de todas as Lojas Maçônicas, pela suspeita das Lojas terem comunistas infiltrados. Considerando as conferências maçônico-socialistas e os boletins oficiais do GOB na década anterior, isso não era de se estranhar.

Durante a Ditadura de Vargas, Octávio Kelly, que havia sido Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil no período da cisão, foi nomeado para o Supremo Tribunal Federal, posto que ocupou de 1934 a 1942. Mas, enquanto muitas lideranças maçônicas da época esperavam nessa nomeação a salvação da Maçonaria brasileira contra o fechamento sumário de suas Lojas, Octávio Kelly não realizou qualquer pronunciamento contra o fechamento das Lojas enquanto
ministro do STF, traindo assim a Maçonaria. Para os apoiadores de Mário Behring, o qual falecera em 1933 como o maior desafeto de Octávio Kelly, isso era o mínimo que se podia esperar de alguém que colocava o interesse por cargos e títulos acima do interesse da instituição.

Nessa época, o GOB, então governado por um General, optou por se submeter e colaborar com o novo regime em detrimento de seus próprios membros (entre eles alguns comunistas) e dos ideais maçônicos (de Liberdade, por exemplo). O Decreto 1.519 de 03 de março de 1938, tratou de substituir o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, então considerado muito “revolucionário”, por “Ordem, Fraternidade e Sabedoria” (pasmem); enquanto que o Decreto 1.579, de 02 de junho de 1938, determinou a expulsão automática, sem efeito suspensivo de recurso, de maçons que “professarem ideologias contrárias ao regime político-social brasileiro” (CASTELLANI, 2003, p. 25).

Mas, sejamos justos: a colaboração com a Ditadura de Vargas não ficou restrita ao GOB, sendo também observada no Supremo Conselho de Behring e por algumas Grandes Lojas. O retorno oficial da Maçonaria brasileira e a reabertura de suas Lojas somente veio ocorrer em novembro de 1939.

Apesar do retorno oficial, a ditadura varguista não aliviou para a Maçonaria. O local das reuniões e suas datas tinham de ser informados aos delegados da Ordem Pública, assim como os nomes completos e dados de todos os membros de cada Loja. E não era raro um Venerável Mestre ser intimado a depor se um ou outro membro de sua Loja era comunista ou simpatizante.

Cabe registrar que também foi na Era Vargas, mais precisamente em 1935, que o Grande Oriente do Brasil opta por voltar atrás na decisão tomada anteriormente pelo patriota Lauro Sodré (que, em 1912, havia garantido a soberania nacional maçônica), abrindo as portas para a criação de uma Grande Loja Distrital da Grande Loja Unida da Inglaterra em território brasileiro e concedendo Lojas a essa Grande Loja Distrital, em troca de que a Grande Loja Unida da Inglaterra não reconhecesse suas novas concorrentes, as Grandes Lojas Estaduais que surgiram da cisão de 1927 (ISMAIL, 2014).

3 – A defensora da Ditadura Militar…

Nas duas décadas seguintes, de 40 e 50, o mundo viveu o medo, guerras e consequências da Guerra Fria, polarizada entre comunismo e capitalismo. E já no início da década de 60, o Grande Oriente do Brasil, aquele mesmo que, por muitos anos defendeu em seus boletins oficiais o socialismo, passa a condenar, mais especificamente em 1963, o movimento grevista sindical.

Nessa época o Brasil começa a sofrer com a pressão da classe média e dominante contra o proletariado, simbolizado, principalmente, pela “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, ocorrida no início de 1964 e promovida por senhoras católicas de classe média e alta, que pediam pela deposição do presidente da República. Em muitas localidades, a marcha contou com o apoio de Lojas Maçônicas.

As preces das carolas foram escutadas pelos militares, que mobilizaram, em 31 de março de 1964, tropas rumo ao Rio de Janeiro, iniciando assim a ditadura militar. Três dias depois, o GOB já se manifestava oficialmente a favor do golpe (ou seria revolução?), que “neutralizou os perigos do comunismo e do caos” (MOREL; SOUZA, 2008, p. 231). Essa foi a primeira de muitas outras manifestações formais e públicas em favor do governo militar, realizadas nos anos seguintes.

Sem realizarmos qualquer juízo de valor, é curioso observar que a obediência maçônica que censurara as Lojas paulistas que apregoaram a proclamação da República no final do século XIX, por estarem se manifestando politicamente, o que era contra os princípios maçônicos; é a mesma que se manifestou por anos a favor do socialismo e em defesa dos direitos dos trabalhadores no início do século XX, mesmo isso indo contra os tais princípios maçônicos; e passa então a se manifestar a favor da ditadura e contra o comunismo, na segunda metade do século XX. Qual a razão para isso? Não podemos ignorar o fato, explicitado anteriormente, da Ditadura Varguista ter fechado as Lojas Maçônicas. Diante de uma nova ditadura militar, pode-se supor que fora uma simples estratégia de sobrevivência, como muitos pesquisadores assim defendem. O que se tem registrado é que esse discurso pró-ditadura militar foi acompanhado de incontáveis condecorações e homenagens maçônicas concedidas a militares e civis postos no poder por vias não democráticas.

Dois manifestos públicos foram divulgados pelo GOB durante a Ditadura Militar. O primeiro apontava as razões da incompatibilidade entre o comunismo e a Maçonaria (sim, pela mesma Obediência que, em 1917, havia concluído oficialmente que “a Maçonaria e o Socialismo têm numerosos pontos de contato”). No segundo manifesto, no período mais duro da Ditadura, o de Médici (1969-1974), o GOB ataca diretamente os críticos às Forças Armadas, ao dizer que esses críticos estavam “ignorando deliberadamente o seu relevante papel histórico na unificação e integração nacional ou apontando-a como opressora do povo, quando, ao contrário, o seu papel em 31 de março de 1964 foi, justamente, o de libertadora da nação”. Esse manifesto foi publicado justamente no cume de prisões, torturas, exílios, desaparecimentos e mortes do regime militar, o que não pegou muito bem para o Grande Oriente do Brasil.

4 – E, por fim, baluarte do conservadorismo

A ditadura militar, enfim, acabou, na década de 80. E como a Maçonaria saiu desse período e assistiu ao fim do século XX? Uma dúzia de anos antes do fim da ditadura, o GOB havia sofrido sua segunda grande cisão, por questões eleitorais (SOBRINHO, 1998). Já externamente, segue aqui uma pequena reflexão de Morel e Souza (2008, p. 237) a respeito:

Finda a ditadura, em 1985, a maçonaria brasileira precisaria, novamente, repensar seus valores, reaver seus princípios originais. Toda autoanálise, porém, não conseguiria fazer com que a ordem retomasse uma trajetória que, há quase um século, havia sido abandonada. Já era fato consumado que, de liberal e crítica no século XIX, passando pelo servilismo ao estado varguista nos anos 1930 e 1940, a maçonaria brasileira chegara ao fim do século XX como baluarte do conservadorismo. (GRIFO NOSSO)

A reflexão dos autores Morel e Souza condiz com o estranhamento que alguns críticos apresentam ao se depararem com os postulados maçônicos que afirmam se tratar de uma instituição “progressista”, enquanto assistem a Lojas, e até mesmo Obediências Maçônicas, realizando menções honrosas ao período da Ditadura Militar e condecorando acusados de tortura.

Enfim, o Brasil atravessou o final do século XX reexperimentando a democracia direta e contando com uma Maçonaria brasileira dividida basicamente em três vertentes (isso sem contar as cisões menores vivenciadas por essas), sem qualquer expressão política em nível nacional, sem a maioria das escolas e bibliotecas públicas que havia criado no final do século XIX e no início do XX, sem relevantes projetos sociais permanentes, sofrendo mais de um século de ataques da Igreja Católica e de outras denominações religiosas que adotaram posteriormente o mesmo discurso preconceituoso. Uma Maçonaria vivendo do passado, de sua glória no período entre 1822 e 1930, sem qualquer ação relevante nas décadas seguintes (apenas algumas um tanto quanto constrangedoras).

Durante a década de 90, num país que, aos poucos, passava a ser governado principalmente pelos perseguidos e aquelas lideranças estudantis que sofreram a ditadura militar, a Maçonaria brasileira se viu condenada por boa parcela da sociedade brasileira economicamente ativa, não sendo mais atrativa aos novos intelectuais, lideranças e formadores de opinião como havia sido anteriormente.

Deve-se levar em consideração que a Maçonaria, anteriormente às democracias
contemporâneas, já praticava uma forma de governança democrática, na qual o voto já era bem do indivíduo e não por propriedade ou localidade (JACOB, 1991), o que reforça a teoria da Maçonaria como uma instituição emancipadora do indivíduo e uma das precursoras do ideal democrático. Um dos vários exemplos que relacionam Maçonaria e democracia é a indiscutível participação da instituição na independência dos Estados Unidos (BULLOCK, 1996), tida como a primeira nação democrática do mundo moderno.

Torna-se, assim, plausível a proposição de que a Maçonaria, munida do mais profundo princípio de igualdade entre os homens, realmente colaborou, por intermédio da liderança libertadora de seus membros, para a implementação dos primeiros regimes democráticos. E no Brasil não foi diferente, tendo a mesma colaborado para a proclamação da república. Entretanto, a postura foi outra durante as duas ditaduras vividas pelo país no século XX, um século em que a Maçonaria brasileira praticamente não pôde viver seus princípios (o que significaria lutar pela democracia), mas apenas garantiu sua própria sobrevivência, ensinando lições que mal praticava enquanto instituição.

Autor: Kennyo Ismail

Fonte: No Esquadro

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Referências Bibliográficas

BARATA, A. M. Luzes e sombras: a ação da maçonaria brasileira (1870-1910). Campinas: editora Unicamp, 1999.

BULLOCK, S. C. Revolutionary Brotherhood: Freemasonry and the Transformation of the American Social Order, 1730–1840, Chapel Hill, 1996.

CARVALHO, W. A. Pequena História da Maçonaria no Brasil. REHMLAC, Vol. 2, No.1, 2010, p. 31-58.

CASTELLANI, J. Fragmentos da Pedra Bruta. Londrina: Editora A Trolha, 2003.

CASTELLANI, José. Do Pó dos Arquivos, Vol. III. Londrina: Editora Maçônica A trolha, 2003.

COSTA, Cruz. O Positivismo na República. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.

ISMAIL, Kennyo. A colonização maçônica inglesa: na contramão dos princípios maçônicos. Revista C&M, Vol. 2, n.2, 2014, p. 97-104.

JACOB, M. C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe. New York: Oxford University Press, 1991.

LINHARES, Marcelo. A Maçonaria e a Questão Religiosa do Segundo Império. Coleção Ruy Santos. Brasília: Senado Federal, 1998.

MORAIS, Efraim; CAVALCANTI, Mozarildo. O Senado e a Maçonaria: Uma coletânea de discursos. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008.

MOREL, Marco; SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

PIRES, Joaquim da Silva. A Cisão Maçônica Brasileira de 1927. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2015.

SILVA, M. J. D. Maçonaria e laicismo republicano na imprensa católica cearense. Revista C&M, Vol. 1, n.1, 2013, p. 7-19.

SOBRINHO, Octacílio Schüler. Uma Luz na História: o sentido e a formação da COMAB. Florianópolis: Ed. O PRUMO, 1998.

SOUSA, Octávio Tarquínio de. Fatos e Personagens em Torno de um Regime. São Paulo: Editora USP. 1988.

SUPREMO Conselho do Brasil. Revista Astréa de Estudos Maçônicos, Rio de Janeiro: Ano: II, Nº 04, 1928.

SWANSON, P. A História da Maçonaria Simbólica ‘Craft’ no Brasil. Rio de Janeiro: Comp. Litho Ferreira Pinto, 1928.

Por que te tornaste maçom?

A esta pergunta, o novo Aprendiz responde: “Porque eu estava na escuridão e desejava a luz”.

Duas outras perguntas derivam dessa primeira. Como se pode esperar desejar algo que não conhecemos? Se admitirmos que esta Luz estava em nós, embora a ignoremos, como a Maçonaria poderá nos fazer descobri-la?

A luz!  Termo mágico … base de nossa criação, da Gênesis, fonte de vida, ela é o ponto principal de onde tudo emana. Em todos os tempos, o homem se pergunta sobre essa luz que brilha nas trevas, que inflama as mitologias, os contos, os sonhos. É a jornada secreta do homem em busca de seu futuro espiritual.  Ele transfigura o Ser e multiplica sua imaginação criadora através do tempo e do espaço.

Uma noite, Hermes teve a visão de uma forma de luz que lhe revelava o Conhecimento. Ele a questionou, dizendo: “Quem é Você? ─ Você mesmo”, respondeu ela. Tendo citado esta visão de Hermes, Henry Corbin acrescenta: “O que é o buscador? O que é buscado? A essa pergunta, Najmoddin Kobrâ, apelidado de “o criador de santos”, um mestre sufi persa, nascido em 1145, responde: “O procurado é a Luz divina, o buscador é uma parcela dessa Luz”[1].

Assim se apresenta a maravilhosa história de amor entre a Luz divina e a luz que emana dela. Esta última geralmente ignora sua origem, e é por isso que ela procura fora do que tem dentro de si. Por muito tempo, o homem, portador da luz, tende a se perder tomando as reflexões cintilantes por realidades. Percebendo seu erro, ele entende que seus sentidos externos são incapazes de ver a Luz, de tocá-la e de perceber seu apelo. Esses cinco sentidos são o sinal por excelência da manifestação grosseira e sensível que domina o estado de Aprendiz. Esses cinco sentidos permanecem inexoravelmente exotéricos, porque para encontrar a Verdade, não há necessidade de a buscar … De fato, o buscador da Verdade deve, antes de tudo, ser um buscador de erros, e uma vez que ele tenha encontrado os erros e os derrubados, a Verdade aparecerá nua, pura e simples como sempre foi e nunca deixou de ser.

Aqueles que não são feitos para a finalidade, geralmente não sendo feitos para o caminho, pararão na superfície do erro sem jamais alcançar o núcleo da Verdade e, portanto, a disciplina do arcano que convém a todo ensinamento esotérico não fará seu trabalho. Aqueles que, ao contrário, não se apegam à superfície dos cinco sentidos, compreenderão a correspondência que era feita na Antiguidade entre os sentidos físicos e os sentidos ou faculdades da alma, ou seja, entre os órgãos da percepção sensível e da percepção sutil. Porque, se é possível ao nosso corpo físico perceber o mundo através dos cinco sentidos, a alma pode ver, ouvir, provar, cheirar e tocar graças às suas faculdades sutis. E o processo de unificação do múltiplo, que preside toda iniciação, não terá qualquer problema para permitir que a alma concentre seus cinco sentidos sutis no que é chamado de “quintessência” [2]. Seus sentidos externos, portanto, sendo para isso incapazes. Pouco a pouco, seus sentidos internos nascem, mas eles ainda são frágeis, incapazes de contemplar a plenitude da Luz.

Angustiado, e às vezes vítima de uma vertigem abismal, o homem se olha imaginando quem ele é. Pelo conhecimento de si mesmo, ele percebe sua obscuridade, sua escuridão, suas trevas. Não se trata de negá-los, mas de assumir sua transmutação. Somente quando o buscador tiver sido capaz de mergulhar em sua dimensão de profundidade, em seu fundo sem fundo, é que ele poderá descobrir dentro de si a Luz viva.

É exatamente essa abordagem que é empreendida por nossa busca de desejar a Luz que nos fez procurar ser Maçom. Ela vai encontrar quem a procura e em quem ela habita. Ela gostaria de clarear tudo, sabendo que seu brilho poderia se tornar mortal para um olhar turbado. Então, por compaixão, ela se filtra. De tempos em tempos, para sinalizar sua presença, ela deixa aparecer um brilho comparável em sua brevidade a um piscar de olhos, o mesmo que percebemos inconsciente e furtivamente na Câmara de Reflexão. Esse brilho suave pode ser suficiente para capturar e seduzir aqueles que partiram em sua busca.

No processo empreendido pelo homem portador da Luz, as etapas e as peregrinações são numerosas e longas. Às vezes, o buscador anda em círculos, se cansa, se desespera com os obstáculos e tenta contorná-los. Ele se deixa distrair e corre o risco de esquecer o objetivo de sua viagem. A distância que o separa da Luz lhe parece insuperável e, por compensação, ele se apaixona pelas luzes fracas que o aprisionam. Sua ignorância é pesada e obscurece sua cegueira.  Assim que ele entende que deve purificar seu coração para receber a plenitude da Luz, ele gradualmente se liberta das trevas. Os antigos alquimistas sabiam que, sob sua aparência obscura, o chumbo contém “a flor dourada”. O importante é derretê-lo para que o ouro possa saltar. Assim, o coração do homem, duro e frio como um pedaço de gelo, derrete-se lentamente e dele flui água viva brilhante, toda iluminada por sua própria luz interior: a imagem do Princípio.

Durante sua transformação, o homem não se preocupa. Os textos das Sagradas Escrituras o tranquilizam: “Eu te livrarei de teu chumbo” (Isaías I, 25); “O chumbo é consumido pelo fogo” (Jeremias. VI, 29); “Vossos pecados se tornarão brancos como a neve” (Isaías I, 18). O homem se entristece apenas pela lentidão de seus passos. Ele gostaria de saltar diante da Luz, mas se sente como acorrentado por si mesmo. A Iniciação opera, o homem a recebe com alegria e lhe responde dirigindo seu olhar para a fonte da Luz. Mais ainda, seu olhar como se pregado se torna imóvel. Essa imobilidade é ao mesmo tempo movimento e repouso, confiança dinâmica e abandono.

De repente, eis o homem portador da Luz imerso em sua profundeza suprema. Ele entende que a Luz sempre esteve presente e que ele não sabia. Ela esperava pacientemente ser vista e aceita. Ela se escondia para incentivar a busca. Descoberta, ei-la aqui revelada. Ela ilumina o Homem que respondendo ao seu desejo de Luz, abandona suas próprias trevas.

Uma transformação total ocorre então no homem. Seu coração se torna uma chama comparável àquela que queimava, sem o consumir, a sarça ardente. Para ele, não há mais solidão e isolamento, ele não somente se une à Luz, mas também se une a todos os homens nos quais a Luz está viva através do amor fraternal. Ele participa da existência de criaturas das quais ele percebe o segredo luminoso.  Tudo é, para ele, um espelho refletindo a Luz do Princípio, assim ele amará as pedras, as plantas e os animais. Deslumbrado, o homem de Luz liga incessantemente o visível ao invisível. Agora, eles são um só para ele! Não estando mais estimulado pelos eventos externos e jogado de um lado para outro por eles, ele se liberta das formas e imagens pertencentes ao mundo da manifestação.

O espírito, isto é, o fio da alma ou o nous, tendo recuperado a Luz do Princípio, torna-se criador e, portanto, portador de germes de Vida. A renovação pela Iniciação ocorre no segredo da metanoia, que inicia a transformação gradual das trevas em Luz e de morte em vida. A passagem do obscuro para o luminoso significa a mutação ontológica que vai do múltiplo à Unidade. Assim, a nostalgia da Luz, experimentada naturalmente pelo homem, expressa uma tendência à Unidade, fonte de estabilidade, e o filho da Luz, o puer aeternus, apresenta-se como uma eclosão da Unidade.

Quando o embrião de Luz toma forma nele, o homem descobre seu tesouro de Luz, um pouco como um sol, e ele agora entende a correspondência entre esse sol exterior ou melhor, o Delta Luminoso, e seu sol interior ou a Estrela Flamejante. Um e outro iluminam sem privilegiar. O espaço que eles iluminam nunca é possessivo, daí a dimensão cósmica do homem que se tornou luminoso. Assim, a Luz é a herança do homem que ainda vive no tempo, enquanto se encontra fora do tempo, da maneira que se pode viver no mundo sem ser do mundo.

Todas as tradições, sejam do Oriente ou do Ocidente, fazem alusão, em diferentes linguagens, à busca recíproca da Luz divina e da luz humana. As religiões permanecem focadas na plenitude da luz, na medida em que tentam manter seu momento inicial, mas isso sempre é sobrecarregado por desvios inevitáveis.  Agora, apenas o homem que atingiu a plenitude da era espiritual se torna capaz de estimar os diferentes caminhos, porque se trancar em uma fortaleza fechada só convém aos fracos e pusilânimes. Esta é a razão pela qual, quem estava nas trevas e desejava a Luz, tornou-se maçom. De fato, a verdadeira iniciação, conforme praticada durante o Ritual do REAA, permite satisfazer esse desejo.

Durante a Sessão, o Templo Maçônico, ao mesmo tempo que a Loja, é primeiro sacralizado e transformado em um espaço ritual. Para se tornar seu Centro físico e simbólico, o Painel da Loja deve ser ativado por meio de um Ritual que lhe comunique uma alma e o carregue, de acordo com a mesma lógica que a da abertura dos painéis do retábulo durante um ofício religioso. A partir daí, a imagem é efetivada por meio de uma cosmogonia, uma verdadeira recriação do mundo, mobilizando gestos, silêncio, palavras e … a Luz. Durante sua Iniciação, o Maçom se torna filho da Luz, porque a Luz cria o Maçom como ela criou o Universo. Princípio ativo da Criação, energia infundida no Caos pelo Espírito, a Luz sacraliza o espaço do Painel, portanto, o espaço e o tempo do Templo e da Sessão. Assim, ela própria sacralizada pelo Ritual de Abertura da Loja, emoldurada de Luz e espiritualizada pelas estrelas nos três Pilares cuja iluminação corresponde a um novo Fiat Lux, o Painel espiritualiza, por sua vez, o espaço do Templo, razão pela qual o traçado do Painel não exige nenhum comentário!

A divisa de nosso Rito não é “Ordo ab Chao”? Ela se refere-se à iniciação, à “iluminação”, uma vez que é a vibração original do Fiat Lux que determina o início do processo cosmogônico pelo qual o “caos” será ordenado a se tornará o “cosmos”. As trevas sempre representam, no simbolismo tradicional, o estado de potencialidades não desenvolvidas que constituem o “caos” [3]. A luz está, portanto, bem “depois das trevas”, e isso não apenas do ponto de vista “macrocósmico”, mas também do ponto de vista “microcósmico”, que é o da iniciação, pois, nesse sentido, as trevas representam o mundo profano, de onde vem o recipiendário, ou o estado profano em que ele se encontra primeiro, até o momento exato em que será iniciado “recebendo a Luz”. Pela iniciação, o ser passa, portanto, “das trevas à luz”, como o mundo, em sua origem, passou pelo ato do Verbo criador e ordenador. Assim, a iniciação é verdadeiramente, de acordo com uma característica muito geral dos ritos tradicionais, uma imagem do “que foi feito no começo”.

Nesse sentido, se olharmos em Gênesis I, 1-4, lemos:

“No começo, Elohim criou os céus e a terra. E a terra estava sem forma e vazia, e as trevas sobre um abismo. E o sopro de Elohim pairava sobre a face das águas. Elohim diz: que haja luz! e a luz se fez. Elohim viu a luz: que boa! e Elohim separou a luz das trevas. “

A primeira palavra criadora é “que haja luz”. A vontade original do Criador se relaciona à Luz. A cada criação, “Elohim via que aquilo era bom”, com a diferença de que no primeiro dia é a própria luz que é contemplada e declarada boa. A maravilha divina expressa na exclamação “Elohim viu a luz: que boa!” sublinha a ausência de uma função atribuída à luz. Ela nada produz. Elohim a contempla e a declara boa.  De onde vem ela? Nós o ignoramos. Sabemos apenas que é considerada boa pelo Criador. Podemos considerar, por esse fato, a primeira palavra divina como uma fórmula perfeita de criação. Palavra e criação estão intimamente ligadas nesta primeira fórmula criadora. A proximidade entre a palavra e a existência da luz é tão completa que esta é considerada boa. Do 2º ao 6º dia, “Elohim viu que era bom”, mas o ser criado não é explicitamente nomeado como o sujeito desse julgamento.  No final de 6º dia, “Elohim viu tudo o que havia feito e eis que era muito bom” [4]. Mas no primeiro dia “Elohim viu a luz: que boa!” No Sepher Ha”meq Dabar, comentário sobre Gênesis I, 4, nos é dito: “Em toda criatura, podemos encontrar um elemento, por menor que seja, que não é bom.  Da luz, no entanto, que é absolutamente boa, se diz em nosso texto “que boa”. Não está escrito: “que ela é boa”, porque a expressão “que boa” conota uma qualidade superior àquela expressa no julgamento: “que ela é boa”. Então esse é o ternário do começo: o Criador, o mundo sombrio e caótico e a Luz.

Por outro lado, o cosmos, enquanto “ordem” ou conjunto ordenado de possibilidades, não é apenas extraído do “caos” enquanto estado “não ordenado”, mas ele também é produzido propriamente a partir deste (ab Chao), onde essas mesmas possibilidades estão contidas no estado potencial e “indistinto” e que é assim o ponto de partida “substancial” para a manifestação deste mundo, como o Fiat Lux o é, por sua vez, o ponto de partida “essencial”. De maneira semelhante, o estado de ser anterior à Iniciação constitui a substância “indistinta ou pedra bruta” de tudo o que poderá se tornar efetivamente depois. Mas a Iniciação não pode ter o efeito de introduzir nele possibilidades que não estariam lá em primeiro lugar (e, além disso, essa é a razão de ser das qualificações exigidas como pré-requisito). Mas, essas possibilidades, quando existem, ainda são encontradas apenas no estado “caótico e tenebroso” ou thohû vabohû do Gênesis, e é preciso “iluminação”, ou seja, Iniciação efetiva, para que eles possam começar a se ordenar e, da mesma forma, passar de potência ao ato. De fato, deve ser claramente entendido que essa passagem não ocorre instantaneamente, mas continua durante todo o trabalho iniciático. É o trabalho interior que vem após a iniciação virtual que diz respeito propriamente à iniciação efetiva, que está, em suma, em todos os seus graus, o desenvolvimento “em ato” das possibilidades às quais a iniciação virtual dá acesso. Essa iniciação virtual é, portanto, a iniciação entendida no sentido mais estrito da palavra, ou seja, como uma “entrada” ou um “começo”.

A iniciação é essencialmente uma transmissão de uma influência espiritual, porque é ela que constitui essencialmente a iniciação no sentido estrito.

É precisamente “porque eu estava nas trevas e desejava a Luz”, que me tornei maçom.

Autor: Joseph Blanc Neveu 
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

Notas

[1] – Henry Corbin, Da Filosofia Profética no Islã Shiita, em Eranos Jahrbuch, 1962, Zurique, 1963, pp.50-51.

[2] – Jean-Michel Pla

[3] – René Guénon, Le Règne de la Quantité et les Signes des Temps, ch. III.

[4] – Gênesis I, 31.

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Ressignificando a Iniciação, sua jornada arquetípica e efeitos psicológicos (Parte II)

4 – Jornada do herói x iniciação maçônica

Havendo demonstrado a estrutura psicológica do templo maçônico, poderemos agora aprofundar a análise da jornada arquetípica do herói no contexto na iniciação maçônica.

Isso porque, compreender tal jornada despida de conceitos como consciente, inconsciente e símbolos, outrora apresentados, seria contraproducente para captar o porquê de cada estágio na estrutura da jornada do herói.

O intitulado “herói” aqui utilizado é compreendido como uma manifestação arquetípica dentro da psique coletiva (JUNG, 1978). Para reforçar tal conceito, Jung indica sua representação (ou adaptação) nas mais conhecidas culturas e religiões ao redor da terra (JUNG, 2011), e nós também poderemos encontrá-lo em filosofias como a maçonaria.

O encontramos essencialmente nas histórias de Atum, Osíris e Hórus do Antigo Egito; de Marduk, dos Mistérios Sumerianos; de Apolo, Febo, Héracles, Dionísio e Orfeu, da Mitologia Greco-Romana; de Krishna, da Religião Hinduísta; de Baldur, dos Mistérios Nórdicos; de Amaterasu, na religião Xintoísta; de Oxalá, Oxalufã, e Oxaguiã, das Religiões Afro-brasileiras; do Rei Arthur, Galahad e Persival, na história do Santo Graal; na verídica história de Jacques DeMolay, nos Medievais Cavaleiros Templários; em Cristian Rosenkreuz, nas Núpcias Alquímicas da Tradição Rosacruz (Manifestos); em Hiram Abiff, no exclusivo mito maçônico; em outros contos como Branca de Neve e o Mágico de Oz; em vários heróis cinematográficos, como Luke Skywalker, Indiana Jones, James Bond, Superman, Frodo Bolseiro, e além é claro, do principal das representações ocidentais, em Jesus o Cristo.

Em todas estas histórias, encontram-se exatas e nítidas similaridades que são explicadas unicamente pelo aduzido conceito do inconsciente coletivo de Jung.

Os principais objetivos da missão do herói são, atingir a liberdade plena, compaixão pela humanidade, ou ainda um casamento místico e espiritual. O processo que leva a tais consecuções e que, suscintamente, retrata a repetida jornada arquetípica foi chamado por Jung de “processo de individuação”.

Essa individuação reside em uma harmonia entre o consciente e o inconsciente, havendo uma contínua relação funcional de equilíbrio – em outras palavras, quando deliberadamente a prática maçônica (inconsciente) toma praticidade no mundo profano (consciente), há uma sucessão de experiências únicas, que levam a um alto estado de percepção, liberdade e amadurecimento, tornando-se, segundo Jung, “um consigo mesmo” (VAN GUENNEP, 2011).

Assim como a psique humana é dividida em três partes pela psicologia analítica, a jornada do herói também o é, podendo ser classificada como:

  1. separação ou partida;
  2. Iniciação ou provas e vitórias; e,
  3. O retorno.

No que concerne à iniciação maçônica, essa pode perfeitamente ser enquadrada neste postulado ternário, sendo a última fase – O retorno – devidamente completada no grau de mestre maçom.

4.1. A separação e o chamado da aventura

… Eu o proponho, na devida forma, um candidato apropriado para os mistérios da Maçonaria. Eu o recomendo, como digno de compartilhar privilégios da Fraternidade, e, em consequência de uma declaração de suas intenções, feita de forma voluntária e devidamente atestada, eu acredito que ele seguirá estritamente em conformidade com as regras da Ordem. (PRESTON, 1867, p.26)

A primeira tarefa do herói é retirar-se da cena mundana, do mundo profano nas alegorias e contos, para iniciar uma jornada – que, desmistificada, trata-se de uma imersão nas regiões causais da psique onde residem efetivamente as reais dificuldades – a fim de transpor os obstáculos, tornar consciente seus defeitos e, ao final, superá-los em benefício do próprio progresso ou da coletividade (CAMPBELL, 2007, p. 27).

Normalmente um problema se apresenta diante do herói mitológico, um desafio, uma questão ou ameaça, a fim de convocá-lo a cumprir seu destino, mas também poderá ocorrer outros fatores para o seu próprio crescimento, como curiosidades, sonhos, desejos, etc.

Trazendo o aduzido conceito para o contexto maçônico, conforme o procedimento maçônico padrão, o candidato é convidado a iniciar na Sublime Ordem. O convite parte do intitulado “padrinho”, o qual figura a função de arauto da jornada do herói.

Na aceitação do convite reside este estágio do “chamado da aventura”, que, em outras palavras, o padrinho figura como um sinal enviado pelo inconsciente (a qual já falamos é o templo maçônico/reunião ritualística) (CAMPBELL, 2007, p. 66). O candidato que recebe o convite-chamado representa a consciência objetiva (simbolicamente o exterior do templo maçônico – mundo profano).

Em termos reais, isso nada mais representa do que a alegoria de um sonho, a qual, como demonstramos, é um fator equilibrante do nosso inconsciente para devidamente direcionar o consciente do indivíduo, a fim de alcançarmos o pretenso equilíbrio

Com o devido paralelo que fizemos antes, acha-se dramatizado tal comunicação inconsciente pessoal versus consciente nesta referida passagem na mitologia maçônica.

Dito isso, as decorrentes associações que trazemos entre a jornada do herói e a maçonaria não devem ser literais, pois, cada mito possui uma conotação cultural que lhe é peculiar, obtendo variações de termos e simbolismo.

Assim, evidente que a história de heróis, como Buda, Jesus e Hiram Abiff, são literalmente diferentes, apesar das vergastadas coincidências. Contudo, o simbolismo arquetípico de suas manifestações no desenrolar das histórias é notoriamente semelhante.

4.2. A recusa do chamado

Tente! E não diga que a vitória está perdida, se é de batalhas que se vive a vida, Vá, Tente outra vez! (Raul Seixas)

Sempre encontramos, tanto na realidade, como nos contos mitológicos, o dramático caso do chamado ou convite que não obtém resposta, havendo, pois, o desvio da atenção para outros vis interesses.

A recusa à convocação acaba por aprisionar o herói mitológico, seja pelo tédio, pelo trabalho duro ou pela ignorância na “matrix”. A recusa é uma negação à renúncia daquilo que a pessoa (inconsciente) considera interesse próprio (CAMPBELL, 2007, p. 72), mesmo que sua mente consciente ainda não saiba, e tal recusa se caracteriza, cumulativamente, pela identificação da Persona [2] com seu ego [3].

Por essas e outras razões, sempre encontramos uma manifestação de egoísmo no estágio da “recusa do chamado”. Há casos em que não são aceitos convites às iniciações por egoísmo, ou mesmo abandonam a maçonaria pelo mesmo sentido.

O clássico exemplo desse estágio é o fatídico episódio bíblico da esposa de Ló, que se tornou estátua de sal por ter olhado para trás e desobedecido a instrução divina, devido à forte emoção que caiu diretamente em Ló, tal evento tornar-se-ia uma “recusa do chamado”, pois poderia diretamente ter rompido com a jornada daquele herói [4].

A recusa do chamado, na maioria das vezes, é representada pelo medo em suas várias manifestações, sendo que tal evento promove um olhar ou mesmo um “voltar-se para trás” de forma a não prosseguir. Ocorre de modo semelhante como “recusa do chamado” na jornada maçônica, quando por algumas vezes o medo do desconhecido ou oculto impede os candidatos de iniciarem, outras vezes o próprio contexto cultural cumpre esse papel.

Para muitos, talvez, esse estágio é o mais difícil de todos, garantindo as devidas proporções. Todo início (na vida) é conturbado, repleto de dúvidas e dificuldades. Dar o primeiro passo, eis à chave para o chamado.

4.3. O auxílio sobrenatural

Quando os tempos se tornarem tempestuosos, e os amigos simplesmente não puderem ser encontrados, como uma ponte sobre águas turbulentas, eu surgirei. (PRESLEY, Elvis. Bridge Over Troubled Water)

Para aqueles que não recusaram o chamado – convite para iniciar – o primeiro encontro da jornada ocorre diante de uma nova figura protetora, que fornece ao iniciando ajuda para lhe proteger.

As mitologias desenvolvem o papel na figura do guia e do mestre. No mito grego esse guia é Hermes-Mercúrio, e no egípcio a sua contraparte egípcia, Thoth. Nas tradições judaicas, Noé contou com uma pomba. Na mitologia cristã encontramos como guia o Espírito Santo ou mesmo a protetora, a Virgem Maria (CAMPBELL, 2007, p. 80).

Na iniciação do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria fica evidente a figura de auxílio da jornada na função do oficial chamado de experto/guia, que conduz o iniciando, oferecendo-lhe a devida proteção: “Eu serei o vosso guia, tendes confiança em mim, e nada receeis”. A função desse cargo na iniciação é conduzir o candidato, que estando privado de certas faculdades, necessita inexoravelmente do amparo do guia.

4.4. A passagem pelo primeiro limiar

Cedo ou tarde, você vai aprender, assim como eu aprendi, que existe uma diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho. (Morpheus – MATRIX)

Superado o medo, muitas das vezes personificado como morte, simbolizado no Rito Escocês pela passagem da Câmara de Reflexões, o herói segue em sua aventura até chegar ao conhecido na jornada do herói por “guardião do limiar” (CAMPBELL, 2007, p. 82- 85).

Entende-se psicologicamente pelo limiar como a passagem do consciente para o inconsciente, onde se adentra a um mundo de fantasias e imagens, semelhantes aos sonhos. Ou seja, um mundo mítico e surreal – o inconsciente –, muitas vezes chamado de mundo da fantasia, variando conforme cada contexto cultural.

Consoante explicado, o ponto simbólico intermediário que marca a passagem do consciente para o inconsciente é a passagem da Sala dos Passos Perdidos para o – Átrio e – Templo.

Campbell aduz que no âmbito mitológico esse estágio está representado pela presença de um guardião seguido por uma “porta”, ou uma ponte, simbolizando o limiar. Na iniciação maçônica a passagem pelo primeiro limiar ocorre, exatamente, quando o candidato é levado à porta do recinto sagrado para ser abordado pelo Guarda do Templo.

Após sua passagem, ou seja, após ser “franqueado seu ingresso”, o candidato passa a vivenciar uma nova e única experiência, sendo submetido a uma ritualística incomum a todas as outras, a simbólica e mística ritualística maçônica, regida no sentido figurado e subjetivo, igualmente aos contos e mitos, a qual já falamos são retratações do inconsciente.

Calha realçar que a jornada do herói de Campbell está pautada no estudo de centenas de mitologias, crenças religiosas, contos e poemas, de modo que toda correspondência com a ritualística maçônica decorre, como reiteradas vezes apontado, pela manifestação arquetípica do herói estar presente na humanidade em toda e qualquer projeção do inconsciente dos indivíduos, inclusive os maçons.

4.5. Provações, testes, a nova experiência – o ventre da baleia

Por isso o axioma: “Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás todo o Universo”, em
outras palavras, “Conheça o seu próprio ego, e sua mente se expandirá”.

A ideia de superação da passagem pelo limiar se acha representada na imagem arquetípica do útero ou ventre. Isso porque, o choque ocasionado pelo rompimento com o estágio consciente (mundo profano) com o avançar pelas “ondas do inconsciente” acabam lançando o indivíduo em um universo desconhecido, dando ao mesmo (novamente) a impressão de morte momentânea, ou submetido a novos testes e provações, de forma que assimile as regras surreais deste novo mundo a qual está descobrindo (CAMPBELL, 2007, p. 92).

Como exemplo, pode-se citar alguns contos, como Chapeuzinho Vermelho (conto alemão) na qual ela é engolida pelo lobo. Da mesma forma todo o panteão grego, exceto Zeus, foi engolido pelo pai Cronos.

Na Bíblia e no Corão encontramos Jonas, que é engolido por um peixe, passando “três dias e três noites” nas entranhas do peixe e depois sai vivo de dentro dele.

Na jornada maçônica o iniciando é colocado à prova por testes simbólicos, fazendo-o seguir por “caminhos escabrosos”, para que coloque a mostra sua coragem de forma a persistir na senda da virtude.

4.6. Iniciação ou provas e vitórias – a descida

Se quisermos ir ao paraíso, devemos antes passar pelo inferno (ALIGHIERI, Dante. Divina Comédia)

Vindo a ser vitorioso nos primeiros testes e provas, ao cruzar por completo o limiar, o herói caminha por uma paisagem onírica povoada por formas curiosamente fluídas e ambíguas, na qual deve sobreviver a uma sucessão de novas provas.

Esta passagem marca o herói por se estabelecer definitivamente neste novo mundo. O paralelo com a mitologia maçônica se torna evidente, vez que a ritualística maçônica é algo jamais experimentado antes, eis aí o “novo mundo” que é apresentado ao iniciando maçom.

O herói continua a ser auxiliado de forma indireta, por guias, mestres e sua própria intuição. Esse supradito auxílio é uma perfeita associação às opiniões dadas quando o Venerável Mestre faz sucessivas perguntas ao candidato.

Estas novas provas, cada vez maiores, representam no processo iniciático maçônico, a passagem pelos quatro elementos (que são tipos psicológicos junguianos).

No processo tribal, a título de exemplificação, os probacionistas se colocam às provas físicas, seja de um incêndio, a nado, ou tempestades.

4.7. Provação difícil ou traumática

Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. (Carl Gustav Jung)

Nesse estágio da jornada do herói, quando todas as barreiras foram vencidas, aparecerá uma experiência profunda e traumática do enredo mitológico. Normalmente é representado por uma morte efetiva e momentânea, ou mesmo por um renascimento miraculoso.

Em diversos ritos maçônicos (e em diferentes graus) encontramos encenações de todo o tipo para dramatizar esta importante lição, seja por mais provas iniciáticas ou por demonstrações fúnebres, funestas e sombrias, de modo que pela última vez é dada a chance ao iniciando nos Mistérios de desistir da “senda da virtude e voltar ao mundo profano”, de render-se ao medo do desconhecido ou as tentações, mas, como ele mesmo descobrirá no futuro, isso é utilizado para cumprir com as finalidades do processo iniciático.

Sendo persistente, o buscador compreende o sentido simbólico de suas provações e testes e, bem no ápice da aventura, é apresentado à prova que Campbell intitulou de “o encontro com a Deusa”. Tal passagem é finalizada por um “enlace místico” ou “casamento alquímico”, conhecido nos mitos por hierosgamos, o mesmo anunciado pelos manifestos rosacruzes.

Em termos psicológicos, tal superação representa a união com a “Anima”, ou “Animus” em contos da heroína. Ocasião em que se toma pleno conhecimento da dualidade do inconsciente e se alcança o equilíbrio interior.

Para desmistificarmos, a mulher/anima ilustra na linguagem pictórica da mitologia a totalidade do que pode ser conhecido, já o herói é aquele que a compreende e assimila. Segundo Jung, havendo o equilíbrio total na psique (o conhecimento de Anima e Animus), atinge-se em seguida o Si-mesmo, ou seja, a totalidade do ser, torna-se lúcido todo o inconsciente, e assim completa o processo que austríaco denominou de processo de individuação do ser.

No contexto maçônico da jornada do herói, podemos entender esse encontro com a deusa, ou anima numa linguagem mais técnica, como a “Luz da Maçonaria” a qual é dada ao neófito, que estava privado de certas habilidades durante a iniciação e agora passa a ter a “Visão e Conhecimento do Templo Maçônico”, obtendo um enlace eterno com a Ordem Maçônica firmado com o solene juramento.

Um dos grandes desafios do intérprete e buscador está em desmistificar conceitos e captar o significado “subterrâneo” da ritualística maçônico que, como sinalizamos, pode ser auxiliar invocando grandes pensadores como Jung e Campbell. A título de exemplo:

O herói mitológico, saindo de sua cabana ou castelo cotidianos, é atraído/levado ou se dirige voluntariamente para o limiar da aventura. Ali, encontra uma presença sombria que guarda a passagem. O herói pode derrotar essa força, assim como pode fazer um acordo com ela e penetrar com vida no reino das trevas (batalha com o irmão, batalha com o dragão; oferenda, encantamento, etc.); pode, da mesma maneira, ser morto pelo oponente e descer morto (desmembramento). Além do limiar, então, o herói inicia uma jornada por um mundo de forças desconhecidas e, não obstante, estranhamente íntimas, algumas das quais o ameaçam fortemente (provas), ao passo que outras lhe oferecem uma ajuda. Quando chega ao nadir da jornada mitológica, o herói passa pela suprema provação e obtém sua recompensa. Seu triunfo pode ser representado pela união sexual com a deusa-mãe (casamento sagrado), pelo reconhecimento por parte do pai- criador (sintonia com o pai), pela sua própria divinização (apoteose) ou, mais uma vez — se as forças se tiverem mantido hostis a ele —, pelo roubo, por parte do herói, da bênção que ele foi buscar (rapto da noiva, roubo do fogo); intrinsecamente, trata-se de uma expansão da consciência e, por conseguinte, do ser (iluminação, transfiguração, libertação). O trabalho final é o do retorno. Se as forças abençoaram o herói, ele agora retorna sob sua proteção (emissário); se não for esse o caso, ele empreende uma fuga e é perseguido (fuga de transformação, Fuga de obstáculos). No limiar de retorno, as forças transcendentais devem ficar para trás; o herói reemerge do reino do terror (retorno, ressurreição). A bênção que ele traz consigo restaura o mundo (elixir).

5 – Conclusão

Depois de todo esboço comparativo entre mitologias, sonhos e a ritualística maçônica, ficou evidente que ambos se manifestam por meio de símbolos e gestos, que atuam cada um como um sensor automático que aciona energia e desenvolve o inconsciente pessoal dos adeptos, funcionando como um fator equilibrante na mente humana (CAMPBELL, 2008).

Tanto os sonhos, como a ritualística maçônica no interior do templo maçônico (plano inconsciente), atuam como um processo de compensação, lançam símbolos na mente, alegorias instrutivas, denotam fortes emoções e sentimentos para, ao retornar ao plano consciente (mundo profano), trazerem o conteúdo-conhecimento para prática na vida diária.

Assim, o templo maçônico discorrido no início do artigo é uma autorrepresentação da psique por meio do qual percorre o enredo da iniciação maçônica que trouxemos ao final através da jornada do herói, portanto, retratam um teatro de operações psicológicas visando um crescimento psicológico do maçom.

A fim de sintetizar ainda mais, a linguagem do inconsciente, por meio do qual os sonhos operam, são os símbolos que sempre se apresentam de forma metafórica, fábulas e alegorias. De igual modo, a ritualística maçônica executada no interior do templo maçônica é processada por alegorias e símbolos. Aliás, não apenas a maçonaria, mas todas as mitologias e religiões também são reveladas através de mitos e contos alegóricos, ou mesmo as fábulas cristãs, exatamente para atingir o mais íntimo no interior do ser humano, o seu inconsciente e ali produzir um conteúdo onírico e permanente.

Ao final dessas páginas, restou evidente que definir a maçonaria “como um sistema de moralidade, velada em alegorias e ilustrada por símbolos” é dizer muito mais do que transliterar os significados do simbolismo maçônico, ou melhor, é demonstrar seu potencial inconsciente e o real motivo do passo a passo na jornada na iniciação maçônica e o porquê da estrutura do templo maçônico.

Autor: Rafhael Guimarães

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

Nota do Blog

*Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

Notas

[2] – Em grego significa “máscara”, definida como parte da personalidade usada em nossas interações, seria nossa face externa fabricada pelo consciente, uma máscara social.

[3] – Na visão de Jung, Ego é o nome dado à organização da mente consciente, constituindo-se de percepções, recordações, pensamentos e sentimentos estabelecidos pela sensibilidade e objetividade do indivíduo (HALL; NORDBY, 2010).

[4] – AT. Gênesis 19:26: “E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal.”

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Referências bibliográficas

CAMPBELL J. O Herói de mil faces. São Paulo: Editora Pensamento, 2007.

CAMPBELL J. As máscaras de Deus, Mitologia Ocidental. São Paulo: Palas Athena, 1994.

CAMPBELL J. As máscaras de Deus, Mitologia Oriental. São Paulo: Palas Athena, 1994.

CAMPBELL J. Isto és Tu. São Paulo: Landy Editora, 2002.

CAMPBELL J. Mito e Transformação. São Paulo: Ed. Ágora, 2008.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1972.

HALL, C. S. NORDBY, V. J. Introdução à Psicologia Junguiana. SP: Cultrix, 2010.

JUNG, C. G. Sincronicidade 8/3. Rio de Janeiro, Vozes, 2013.

JUNG, C. G. Interpretação psicológica do Dogma da Trindade. 11/2. RJ: Vozes, 2011.

JUNG, C. G. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 9/1. Rio de Janeiro: Vozes, 2011.

JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente. 7/1. Rio de Janeiro: Vozes, 1978.

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JUNG, C. G. Psicologia e alquimia. 12. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.

JUNG, C. G. Estudos alquímicos. 13. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.

JUNG, C. G. Psicologia e religião. 11/1. Rio de Janeiro: Vozes, 2011.

JUNG, C. G. A vida simbólica. 18/1. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.

PRESTON, W. Illustrations of Masonry. New York: Masonic Publishing and Manufacturing Co., 1867.

ROBERTS, J. M.: Freemasonry: Possibilities of a Neglected Topic. The English Historical Review, Vol. 84, No. 331, p. 323-335, 1969.

VAN GUENEPP, A. Os Ritos de Passagem. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2011.

Ressignificando a Iniciação, sua jornada arquetípica e efeitos psicológicos (Parte I)

O presente artigo objetiva realizar uma análise da infraestrutura psicológica do templo maçônico e da ritualística para desmistificar a correspondência entre a jornada do herói mitológico na cerimônia de iniciação do Rito Escocês Antigo e Aceito, de forma a promover uma ampla e inédita compreensão do processo inconsciente do iniciando na maçonaria.

1 – Introdução

Em uma das passagens mais marcantes do blockbuster Matrix, um importante intérprete do filme promove um singular questionamento acerca do que é ou não realidade:

Morpheus: – Neo, o que é o real? Como você define o real? Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são [então] simplesmente [meros] sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.

Esse relance cinematográfico é uma via condutora para respondermos o que é maçonaria, ou melhor, o que de fato são as cerimônias maçônicas. Isso porque, a “maçonaria é um sistema de moralidade, velada em alegorias e ilustrada por símbolos” (PRESTON, 2017, p. 69). Essa expressão, tantas vezes reproduzida no meio iniciático, diz muito sobre a instituição e seu modo de ensino e aprendizagem, que ocorre por meio de rituais repletos de alegorias e expressões
simbólicas.

Todavia, entre o desdobramento do ritual e o comportamento de seus praticantes há um mecanismo psicológico que não pode ser ignorado e cuja compreensão pode contribuir para um melhor entendimento da estrutura do templo maçônico e os procedimentos ritualísticos da cerimônia de iniciação, denotando uma explicação “subterrânea”, “oculta”, “estrutural” e “subjetiva” do ritual que revisitaremos neste paper.

Em outras palavras, a ritualística ou o templo maçônico em si, se não examinados sob diversos pontos, se convertem em mera teatralidade despida de caráter litúrgico, religioso e espiritual que a instituição também propaga.

Todos os acontecimentos mitologizados em nossos rituais, como templo, oriente, ocidente, nordeste, sudeste, amanhecer, meio-dia, pôr do sol, meia-noite, os degraus maçônicos, os quatro elementos, não são alegorias de experiências objetivas ou poéticas. Outrossim, são expressões simbólicas do drama interno e inconsciente do maçom que, a exemplo do homem e da consciência humana, consegue assimilar tais ideias através da dramatização atuante no nível inconsciente.

Compreende-se a validade e relevância dessa abordagem pelo fato da literatura produzida pela escola romântica da maçonaria brasileira privilegiar apenas as interpretações que seguem um raciocínio estrito ao entendimento moral, esotérico ou objetivo do ritual maçônico, rechaçando o universo latente do cerimonial e sua formação mitológica e psicológica que propomos constituir nesse artigo juntando os papers da “Iniciação Maçônica”* e “Os efeitos psicológicos do ritual maçônico”**, ambos inéditos e de nossa autoria.

Antes de adentrarmos propriamente na jornada do herói, que dissecará o modus operandi da iniciação maçônica no Rito Escocês Antigo e Aceito, torna-se imperioso desmistificarmos os alicerces desse processo iniciático compreendendo as estruturas psicológicas do templo maçônico pois, somente assim, conseguiremos compreender cada passo na aduzida jornada, da qual o processo de ingresso percorre por meio da alegoria e simbolismos da iniciação.

2 – O templo maçônico e a psique humana

Os maçons são unanimes em dizer que o templo maçônico é simbólico [1]. Contudo, aqui chamamos a atenção que o símbolo é muito mais do que mera ornamentação artística para representar algo.

Com efeito, toda a ornamentação e divisão do templo não são frutos do acaso e do convencionismo estético, a começar pela câmera ou caverna de reflexões, sala dos passos perdidos, mais adiante o átrio, e finalmente o interior do recinto maçônico. Todos estes compartimentos são representações de estágios de níveis de consciência há muito tempo utilizados para separar o sagrado do profano (VAN GUENNEP, 2011, p. 23-40).

Nesse contexto, o ritual dramatiza a passagem de um estado de consciência para outro, ou seja, do profano para o sagrado, de modo que suas repartições devem ser compreendidas caso queiramos aprofundar nossa percepção sobre a ritualística e a cerimônia de iniciação.

Isso porque rituais ou simples gestos simbólicos, identificam nossa consciência com o campo essencial de atuação, isto é, com cada espaço usado para estabelecer a diferença entre o sagrado e o profano na mente do indivíduo.

O soldado que retorna da guerra, ao passar pelo arco do triunfo – rito de passagem – acaba deixando a guerra para trás. Da mesma forma, ao deixarmos a sala dos passos perdidos e posteriormente o átrio, é sabido (mesmo inconscientemente) de que estamos (ou estaremos) em um local “dedicado à virtude e consagrado para a prática do bem”, o templo maçônico.

Assim, as salas que antecedem o templo, cumprem a função psicológica de devidamente introduzir o adepto em um local – estado de consciência, para que o ritual cumpra seu dever cognitivo de forma efetiva.

Um excelente exemplo ritualístico disso, por vezes ignorado, é a entrada ritualística dos que chegaram após a cerimônia de abertura dos trabalhos.

De acordo com alguns rituais, há neste momento uma saudação ritualística, pois, como dito, gestos e sinais simbólicos hão de identificar o consciente e/ou inconsciente com o campo de ação, para o caso deste não ter sido devidamente introduzido no ritual/templo pela hodierna ritualística de abertura dos trabalhos.

Para além do templo em si e sua representação como o sagrado, as funções-cargos expressadas no ritual ou na mitologia maçônica são personificações das leis psicológicas que atuam na psique humana, perfeitamente demonstradas por Jung e Campbell, quando inerente às mitologias e religiões, cujas bases serão traçadas para desmistificar a ritualística maçônica.

Destarte, o templo maçônico deve ser assimilado como uma grande alegoria estrutural da própria mente dos maçons, que está sujeita a todo tipo de desafios complexos e provas, consoante replicado abaixo. Se este é o entendimento firmado do templo maçônico, logo, o processo de admissão ao mesmo, ou seja, a iniciação em si, é um procedimento de introspecção, uma jornada para o interior da psique, cujo cerimonial se reveste da mitologia maçônica para, ao final do processo, objetivar uma transformação psicológica no íntimo dos indivíduos.

2.2 Um estudo comparativo da estrutura da personalidade e suas correspondências simbólicas com
o templo maçônico

De acordo com a psicologia analítica de Carl G. Jung, a psique divide-se em três níveis: a Consciência, o Inconsciente pessoal e o Inconsciente coletivo (HALL, 2005, p. 24-83). Conforme segue-se abaixo, tais divisões se conciliam em significados e funções com a parte exterior e interior do templo maçônico (sala dos passos perdidos, átrio e o templo), sendo que na parte interior, teremos uma correspondência particular com o ocidente e oriente.

NÍVEL 1 – CONSCIÊNCIA: Sala dos passos perdidos e o mundo profano

Sobre Consciência, Persona e etc.;

A consciência é a única parte da psique a qual conhecemos direta e objetivamente (HALL, 2005, p. 24-83), e nela tudo ocorre de forma racional e lógica. Da mesma forma, isso também acontece antes de adentrarmos ao templo, pois é na sala dos passos perdidos que tudo ainda decorre de forma desprovida de questões oníricas, sem sinais ou gestos simbólicos, salvo detalhes excepcionais. Essa falibilidade das coisas a nível consciente está perfeitamente representada e dramatizada na câmara ou caverna de reflexão, onde elementos associados a vida terrena se acham dispostos com intuito de proporcionar um entendimento da finitude da vida consciente e sua perene ilusão de imortalidade.

O significado psicológico de Persona, para Jung, é aquela parte da personalidade desenvolvida e usada em nossas interações mundanas (profanas), nossa face externa consciente, nossa máscara social, como veículo não de nossa real vontade, mas da nossa necessária aceitação.

Assim que, nas iniciações maçônicas, o gesto dos candidatos serem despidos de todos os metais, e iniciarem todos exatamente da mesma forma, pode significar que, naquele momento, o indivíduo despe-se de suas personas.

Esse desprendimento se faz necessário visto que, conforme Jung, no nível do inconsciente pessoal – que citaremos logo adiante – não há persona, a qual se manifesta apenas no nível consciente.

Se observarmos bem, o tratamento igualitário – tanto na iniciação como nas reuniões ritualísticas – fazem jus a presente esquematização, conforme corroborado abaixo, todavia não ignoramos os outros significados para com esses detalhes.

NÍVEL 2 – O INCONSCIENTE PESSOAL: O Templo Maçônico

Sobre Inconsciente Pessoal, Sonhos, Anima/Animus e etc.;

Todas as experiências que temos, sendo que algumas são esquecidas, mas que, todavia, não deixam de existir, são antes armazenadas e trabalhadas no Inconsciente Pessoal. É nesse nível que ocorrem os sonhos e toda a projeção quando estamos dormindo e, como sabemos, tais eventos oníricos são dotados de acontecimentos surreais e ilógicos perante a nossa realidade objetiva, visto que conceitos de “Tempo e Espaço” são fatores produzidos pelo nível Consciente.

Assim o Inconsciente Pessoal encontra correspondência simbólica com o interior ocidental do templo maçônico, onde a ritualística já alcança a totalidade dos trabalhos, e estes retratam bem o estado fictício e mítico da mitologia maçônica (drama maçônico), estado este que – paralelamente – também é encontrado nos sonhos dotados de sentidos simbólicos e abstratos, onde, tanto no estado onírico como na ritualística, para se ir do “ocidente ao oriente”, basta-nos dar alguns passos, e do “amanhecer ao pôr do sol”, bastam-se algumas horas, o que ocorre semelhantemente aos nossos sonhos, onde no nível do inconsciente não há uma limitação objetiva, da mesma forma o simbolismo da ritualística não possui um senso lógico pois, sua linguagem é figurada.

Assim como o ritual maçônico não é literal, os sonhos também não são, e ambos transmitem instruções morais através de seus simbolismos visto que, como observado por Jung, o crescimento e amadurecimento moral também é uma finalidade dos sonhos.

Interessante nesse momento confrontarmos as concepções postas entre consciente e inconsciente, demonstrando a oposição destes estágios e, como nosso objetivo é justapor isso com o templo maçônico, o exterior da loja é figuradamente o oposto dos significados ritualísticos do interior, tal como expusemos até agora.

Os conceitos de Anima e Animus foram talvez as duas mais importantes descobertas de Jung. Ambos são aspectos inconscientes de um indivíduo. O inconsciente do homem encontra ressonância com o arquétipo feminino, chamado de Anima, enquanto a mulher associa-se com o arquétipo masculino, chamado de Animus.

Evidente que os conceitos de gênero em se tratando de Animus e Anima se referem às características, e não algo literal, pois, como supramencionado, o inconsciente reside em um nível atemporal, inteiramente psicológico, portanto, não material.

A Anima manifesta-se na psique de forma emocional, passiva e intuitiva. Por outro lado, o Animus manifesta-se de forma racional, ativa e objetiva. Jung costuma relacionar Anima ao deus grego Eros, o deus do Amor, ao passo que Animus era relacionado com o termo Logos, que em grego significa verbo, razão.

No templo maçônico tal equilíbrio dual é conhecido pelas duas colunas B e J. Sendo que na coluna B, tomam assento os aprendizes maçons, os quais são inteiramente instruídos sobre a educação moral, espiritualidade e ética maçônica, conceitos perfeitamente associados ao arquétipo de Anima. E na coluna J tomam assentos os companheiros maçons que, ao contrário dos aprendizes, possuem suas instruções voltadas para arte da ciência, também conhecida como artes liberais, bem como para o conhecimento esotérico, que são características de Animus.

Desta forma, neste contexto, Boaz e Jakin, representam Anima e Animus, e a consecução entre ambas as colunas representa o casamento alquímico, a totalidade do ser, ou seja, o equilíbrio perfeito, o mestre. aquele que caminha com tal união, anda pelo caminho do meio (mestre maçom).

Por fim, vê-se que as duas colunas separam o ocidente em dois lados, e ambas norteiam para os respectivos estudos aqueles que estão sob o seu direcionamento, semelhantemente o que ocorre com nosso inconsciente

NÍVEL 3 – INCONSCIENTE COLETIVO: Sólio do Oriente

Sobre Inconsciente Coletivo, Arquétipos e etc.;

Teoria proposta pela Psicologia Analítica, ele difere do Inconsciente Pessoal, visto que não se trata de experiências individuais, mas, como o nome sugere, são experiências coletivas. Ele é um reservatório de imagens, chamadas de imagens arquetípicas. Tais imagens e concepções são herdadas pelo homem de forma inconsciente através do Inconsciente pessoal. O Inconsciente coletivo estimula no homem/humanidade um comportamento padrão pré-formado, que este seguirá desde o nascimento.

Assim, recebemos a forma do mundo em uma imagem virtual. Tal imagem transforma-se em realidade consciente quando durante a vida identificamos os objetos a ela correspondentes. Da mesma forma recebemos do inconsciente a impressão da contraparte Anima (no caso dos homens). Enquanto crianças a identificamos com nossas mães (ou pessoas que nos criaram que possuam características de Anima), mais adiante em nossas vidas, tal impressão se converte na companheira-mulher, com a qual nos casamos.

Os conteúdos do inconsciente coletivo são denominados de “arquétipos”. Tal termo significa um modelo original que conforma outras coisas do mesmo tipo, semelhante ao termo “protótipo”. Tanto o Inconsciente coletivo como o arquétipo se confundem com aquilo que chamamos, nas ordens iniciáticas e meios espiritualistas, de “egrégora”, e a principal base científica que sustenta este presente artigo, é sem sombra de dúvida o conceito de Inconsciente Coletivo.

Para Jung, tanto a experiência quanto a prática religiosa eram fenômenos que tinham sua fonte, interna e externa, no Inconsciente Coletivo (JUNG, 2011) (conhecido esotericamente por “egrégora”). O céu, o inferno, a era mitológica, o Jardim do Éden, o Olimpo, bem como as outras moradas dos deuses, são interpretados pela psicanálise como símbolos do inconsciente, e se enquadram ao simbolismo do dossel e do sólio no Oriente, localizado a sete degraus acima do nível onde se encontram os Aprendizes, Companheiros e Mestres, onde se encontra o chamado Trono de Salomão e que possui estampado o olho que tudo vê no Rito Escocês Antigo e Aceito.

Assim como o Inconsciente Coletivo dispõe da pré-formação psíquica da psique (JUNG, 2011), o direcionamento ou pré-formação dos trabalhos vem do Oriente da Loja, além de que as informações históricas da Loja, presentes na Carta Constitutiva, também se localizam na região do sólio, bem como os registros de todas as reuniões ficam junto ao secretário (que normalmente toma assento no oriente.

3 – Os efeitos e sinais inconscientes da ritualística maçônica

Os efeitos e sinais inconscientes da ritualística maçônica se mostram evidentes quando dispomos da estrutura psicológica sob o templo maçônico. Desta forma, o indivíduo que vivencia os rituais por meio da iniciação, elevação e exaltação acaba por se transformar, seja pelas convicções conscientes, ocasionadas pelo sistema mnemônico da cerimônia, ou pela influência do inconsciente que recebe todos os sinais enviados pelo simbolismo, como exemplificamos abaixo:

Outra forma de transformação é alcançada através de um ritual usado para este fim. Em vez de se vivenciar a experiência de transformação mediante uma participação [vivência natural], o ritual é intencionalmente usado para produzir tal transformação. (…) Se recebe um novo nome e uma nova alma, ou ainda passa-se por uma morte figurada, transformando-se em um ser semidivino, com um novo caráter e um destino metafísico transformado (JUNG, 2011, p. 231).

Os maçons devem, portanto, realizar reflexões da simbologia maçônica. Ao se executar um ritual de alto valor cultural, com gestos e passagens incomuns ao usual, o qual, sob um olhar cético e profano, pode ser até mesmo considerado supersticioso, deve o adepto analisar tais movimentos sob diversos níveis, inclusive o psicológico.

Ademais, abordar o ritual maçônico sem um entendimento basilar, como propomos neste artigo, seria como ver animais nas nuvens, ou seja, um mero exercício de vontade e imaginação (JUNG, 1978).

Com efeito, a função psicológica da ritualística maçônica é a de restaurar um equilíbrio inconsciente no praticante, por meio do sistema moral e alegórico, de modo a produzir um material onírico na mente dos membros, que terão um amadurecimento progressivo, tanto a nível objetivo e moral, como subjetivo e inconsciente.

Os exemplos são variados disso. Nos rituais tribais de iniciação (e outros por equiparação) dá-se ao candidato um novo nome, sendo classificado dentro do grupo em seu grau correspondente, bem como ele ganha ainda uma idade fictícia, que desempenha um papel simbólico do seu posto, e recebe uma marca, que nos tempos atuais figura como simbólica, e no final, tudo isso distingue o iniciado dos não iniciados. Qualquer semelhança com a maçonaria não é acaso.

No Rito Escocês encontramos estes mesmos e ainda outros atos ritualísticos. Seja física ou simbólica, estas representações operam igualmente no inconsciente. A prática de diferentes termos linguísticos também é usada para separar o sagrado (inconsciente) do profano (consciente). Este exemplo é um dos diferenciais do ritual, onde uma linguagem própria e coloquial é adotada.

A mitologia e a ritualística, em síntese, simbolizam e expressão a dinâmica da psique. O que ocorre de simbólico e figurado no plano consciente, erroneamente deduzido de teatro, ocorre real e efetivamente em outros níveis, como, por exemplo, no inconsciente pessoal dos maçons.

Continua…

Autor: Rafhael Guimarães

Fonte: Revista Ciência & Maçonaria

Nota

[1] – O conceito de símbolo adotado nesta obra é o da Psicologia Junguiana, que difere do conceito semiótico de símbolo instituído pelo suíço Ferdinand de Saussure, pai da linguística, bem como também difere parcialmente de certas análises Psicanalíticas de Freud.

Nota do blog

*Para ler o artigo A Iniciação Maçônica e a Jornada do Herói, clique AQUI.

**Para ler o artigo Os efeitos psicológicos da prática do ritual maçônico, clique AQUI.

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O sentido da vida

Todo o ser humano, mais tarde ou mais cedo, mais ou menos frequentemente, se interroga sobre o sentido da vida. As religiões resultam, em última análise, dessa primordial interrogação, procurando cada uma delas dar resposta à mesma. 

Confrontado com a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o indivíduo tem, basicamente, uma de três reações. Ou aceita essa doutrina, ou a rejeita ou aceita elementos, ainda que modificando-os, dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo.

Se o indivíduo aceita a doutrina da crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o seu problema está resolvido: o sentido da sua vida contém-se nos princípios dessa doutrina, cumpre, ou procura cumprir, os preceitos dessa religião e busca a Salvação ou a Evolução que a doutrina da sua religião preconiza. Sabe qual é o seu lugar e a sua função no mundo e na vida. Não precisa de se questionar mais.

Se o indivíduo rejeita a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, das duas, uma: ou fá-lo porque se identifica com outra doutrina religiosa, a que se converte, ou, pura e simplesmente não crê. Na primeira hipótese, o seu problema de responder à interrogação primordial sobre o sentido da vida fica resolvido, em termos semelhantes à situação anterior. 

Se a rejeição da crença religiosa ocorre porque, pura e simplesmente, não crê, o seu problema fica também resolvido, mas com outra resposta: não existe qualquer sentido na vida, a vida, como o Universo, resulta de uma combinação de fatores físicos e químicos, tudo se resume ao mundo material, onde se nasce, vive-se o melhor que se pode e um belo dia morre-se e nada de nada resta, para além do que se enterra ou é cremado, para dar lugar a outros que, sucessivamente, nascerão, viverão e morrerão, sem que deles nada reste também, para além do que se enterra ou é cremado, até que um dia uma qualquer combinação de fatores físicos e químicos a tudo ponha fim – do começo ao final nada faz sentido, tudo sucede, sucedeu e sucederá por acaso, por mecânica combinação de uma miríade de fatores físicos e químicos.

Se o indivíduo, confrontado com a crença religiosa da sua cultura, aceita, ainda que modificando-os, elementos dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo, esse é o que mais longa e persistentemente se debate com a interrogação sobre o sentido da vida. A resposta institucional não o satisfaz, a opção no ateísmo materialista também não. Esse rejeita que tudo sucedeu por acaso, por mera consequência de fatores físicos e químicos e que a vida não tenha sentido. Esse considera que existe, sim, um sentido na vida, ainda que ele o desconheça, mas entende que existe um Propósito, um Objetivo, na existência do Universo e, principalmente, da Vida. O que materialmente vê e sente é apenas uma parte do quadro da Vida. Acredita que outros planos de existência ocorrem, que a passagem por este plano material tem um propósito, simplesmente não se satisfaz plenamente com as respostas dadas pela religião da sua cultura – nem com as respostas dadas pelas demais religiões.

Esse, ou se conforma com o desconhecimento e vive segundo os preceitos da sociedade em que se insere, ainda que porventura os não aceitando plenamente, ou busca, por si, com a sua Razão, resposta ou caminhos para resposta suscetível de o satisfazer. É crente, mas não se identifica com nenhuma religião em concreto. É crente porque a sua Razão o conduz a que o seja, mas, por isso mesmo, procura as respostas por si mesmo. É o que se denomina de deísta.

Há ainda os que – talvez a maioria – vão evoluindo ao longo da sua vida, em resultado do seu crescimento, das suas experiências, dos seus encontros e desencontros com pessoas, ideias e ideais. O mesmo indivíduo pode, ao longo da sua vida, passar por mais do que um – no limite, até por todos – dos estádios acima referidos.

Cada um é como cada qual. A pergunta – qual o sentido da vida? – é a mesma, impõe-se a todos, mas cada um dá-lhe a resposta que entende ou que pode dar e, se muda os termos dessa resposta, uma ou várias vezes, é porque a sua natureza o impele a assim fazer.

Muitos, a maioria, interrogam-se sobre o sentido da vida na solidão do diálogo consigo próprio ou podem apenas obter as respostas institucionalizadas da sua tradição religiosa. Outros confrontam a sua interrogação com as similares interrogações de outrem, e daí resultam apostasias, conversões, mas também lutas, por vezes ferozes, ou indiferenças perante as diferenças.

Há uns quantos, porém, que têm a possibilidade de colocar essa interrogação em conjunto com outros, sem confrontos, com aceitação das respostas de cada um, com partilha de pontos de vista e de experiências, pondo todos em comum o que cada um tem, de forma a que cada um retire do todo posto em comum o que necessite para ir mais além e mais fundo, na sua busca pessoal de resposta à interrogação primordial que o venha a satisfazer.

Esses são os maçons!

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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Pérolas em lojas maçônicas

“A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios” (Oscar Wilde).

As pérolas têm origem biológica e são produzidas por alguns moluscos, as ostras e mexilhões, em reação a corpos estranhos que invadem os seus organismos, como vermes ou grãos de areia, provocando um tipo de irritação e, ao defender-se do intruso, segregam uma substância branca, brilhante e rica em calcário, o nácar ou madrepérola, que ataca esse agente, cristalizando-se rapidamente, dando origem a um material geralmente esférico.

Apreciadas desde a Antiguidade, com referências que datam de cerca de 2000 anos a.C., simbolizam a pureza e a beleza. Há registros de que durante a Idade Média, nos séculos XIII e XIV, o uso de pérolas era restrito, em muitos países europeus, à aristocracia por força de lei, como símbolo de poder e de riqueza, sendo usadas como adorno nas mais valiosas joias da época.

Variadas são as interpretações simbólicas sobre o processo de formação das pérolas, notadamente quando vistas como o resultado de um processo de cura decorrente de um sofrimento doloroso. Ensina Rubem Alves que “ostra feliz não faz pérola”. Segundo esse autor, “isso é verdade para as ostras e é verdade para o ser humano”.

A presente reflexão derivou-se do conselho de um provecto irmão que se diz calejado e não se surpreende mais com o inusitado. Segundo ele, conforme a situação da Loja, é melhor não argumentar quando a gestão do momento não se abre nem sequer se mobiliza para o incremento dos conhecimentos ou incentivo aos debates e integração, limitando-se a inibir manifestações nesse sentido e a focar apenas na ritualística, às vezes alterando-a a seu bel-prazer, muitas vezes sôfrega e claudicante.

“É como lançar pérolas aos porcos”, afirma ele, “não devemos gastar nosso tempo em produzir trabalhos que causarão mais desconforto do que satisfação, pois não estão ainda prontos para ouvir e debater”, e arremata: “pode ser que na próxima administração tenhamos espaço para contribuições”.

Em Mateus 7,6 Jesus alerta:

“Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”

Na alegoria bíblica, porcos e cães eram associados à impureza e ao perigo. No contexto bíblico, a referência envolvia pessoas resistentes ao evangelho que lhes era pregado. Assim, jogar uma pérola ao porco poderia ofendê-lo como se tivesse sido atingido por uma pedra. O gesto de dar pérolas aos porcos pode significar gastar o que temos de precioso com quem não aprecia ou recusa nossa ajuda.

Conforme ensinam nossas instruções, em Loja devemos ser sempre participativos, focados e dedicados aos estudos e aos projetos e atividades sociais aprovados pelos obreiros. Porém, em determinados momentos nossos esforços podem causar mais incômodo do que benefícios, quando a direção da Loja não se orienta pelo trabalho em equipe, não entrega valor aos membros da Loja, interdita ideias e as decisões ficam sempre restritas ao gestor principal, que exclui os demais por deficiências nas habilidades de condução dos trabalhos.

Alguns dirigentes, por insegurança, partem da premissa de que os irmãos mais experientes representam ameaça à sua gestão e tremem diante de seus prestígios e reconhecimentos no meio maçônico, chegando, em determinadas situações, a simular uma pretensa superioridade intelectual e sugerir que os mesmos se recolham, “cada um, às suas próprias insignificâncias ou que forneçam orientações prudentes, da qual se acham donos, para que não sejam criticados”, conforme mensagem direcionada a velhos mestres de uma determinada Oficina longínqua. É cediço que, quando a Coluna da Sabedoria abdica de suas atribuições, abre-se espaço para a intolerância e rupturas.

Gestores com esse perfil procuram apenas e tão-somente desfrutar do prestígio do cargo e a exercer naturalmente o autoritarismo, fomentando a desconfiança, a desagregação, em especial o conflito entre gerações, por acreditarem que os mais velhos, alguns referenciados por eles como “decorebas” de rituais e de poemas, são vazios de conhecimento e sabedoria e não têm mais como contribuir e os mais jovens nada com eles a aprender e muito a ensinar-lhes. E pasmem, a depender do perfil de um candidato em especial, atrevem-se a insinuar que a Loja não tem Mestres com estofo suficiente para orientar aquele “tal” de currículo supremo e lustroso que, já deveria, de plano, ser Iniciado, Elevado, Exaltado e quem sabe, conduzido ao Veneralato!

Em muitas situações, esses gestores demonstram favoritismos, impõem suas decisões sem discussão em Loja e promovem o cancelamento dos que porventura representem alguma ameaça. Nesse sentido, merece destaque um depoimento colhido em uma reunião de estudos por videoconferência onde a venerabilidade teria se regozijado, em evento social, de que teria tido sucesso em silenciar algumas estrelas da Loja por ele consideradas decadentes. E é essa postura desafiadora que os acalentam. Normalmente, não zelam pela harmonia, pelo diálogo e pela construção, e sentem certa atração pelo caos, olvidando que o bom legado de cada gestão é que dá sustentação para a caminhada dos obreiros e o fortalecimento da Oficina.

Nesse cenário burlesco, não faltam os que sempre aplaudem e compõem um grupo exclusivo de aduladores, incentivadores desse tipo de comportamento, que outro irmão irreverente e certeiro nas curtas mensagens classifica de “babaovistas” (derivado do pejorativo baba-ovo), atributo dos bajuladores contumazes. Isso para não falar daqueles que, por conveniência ou pusilanimidade mesmo, mantêm-se “em cima do muro” ou só querem receber paparicos. Esses, respaldando-nos na lição de Rubem Alves, não sofrem e não produzem pérolas.

Para ilustrar, citamos o exemplo de uma manifestação em um grupo de conversas de uma hipotética Loja de Oriente distante, quando o Venerável, resistente aos avanços tecnológicos, pouco afeito à liturgia do cargo e usuário do malhete como porrete, afirmou que não haveria reunião por videoconferência durante sua gestão: “Perfeeeiiito! Concordo plenamente com o nosso poderosíssimo e amantíssimo Venerável”, postou em áudio um irmão chegado a superlativos. Outro apoiador sentenciou: “comentários a respeito de instruções maçônicas somente em sessão ritualística, fora disso é uma excrescência”. Seguiu-se silêncio obsequioso, observando-se a conveniente prudência, segundo a fonte.

Prossegue o desabafo. Um “iluminado conselheiro para as Lojas dos outros”, teria ainda perguntado: “mas os demais não fazem nada, acatam simplesmente?” Redarguiu o irmão: “quem tenta argumentar leva pancada de bate-pronto e é tachado de pavão e convidado a recolher as plumas, com o lembrete de que a porta da rua é serventia da casa, além de outros devaneios, recados tortos e ironias, estas notadamente dirigidas aos associados de Lions, Shriners ou aos que chegaram ao topo da pirâmide. Então é melhor ser paciente e exercitar a tolerância, pois essa gestão passará logo e, pelo visto, deixará um histórico de desacertos, mágoas e baixas no quadro de obreiros!”. Nesse contexto, nunca se mostrou tão consistente a frase indevidamente atribuída a Abraham Lincoln: “Quer conhecer o caráter de uma pessoa? Dê-lhe poder!”. Mutatis mutandis, in casu, um malhete.

Mas, questiona-se: é isso mesmo? Dúvida de um jovem e perplexo Aprendiz:

“Existe um balcão de reclamações na Maçonaria? De preferência anônimo, para evitarem-se eventuais constrangimentos e não atrasar ainda mais a minha Elevação? [no caso foi utilizada a linguagem dos videogames: ‘passagem de fase’].”

Sabe-se que nos bastidores dessa improvável Loja o assunto continuaria rendendo, ao amparo do “truquezinho do entre colunas”. Dizem que chegou a ser cogitada uma DR até o fim da gestão, da qual não se tem notícias.

Se o irmão teve perseverança para ler até aqui e não se lembrou de nenhuma situação semelhante (Glória a Deus!), que fique bem claro que esta prancha não tem endereço específico e nem pretende dar conselhos ou dizer o que os componentes dessa ou de outras Lojas devam fazer em tais situações, caso venham a ocorrer, o que não acreditamos. As Lojas são autônomas quanto à gestão. Por outro lado, cautelarmente, qualquer eventual semelhança com a realidade, como sempre, terá sido mera coincidência mesmo. A proposta é apenas a de suscitar reflexões. Quem sabe dar origem a uma nova e valiosa pérola.

Enfim, na condição de maçons, o exemplo que precisamos ter sempre em nossos corações são as palavras de Tertuliano (c.160 – c.220) a respeito dos primeiros Cristãos, onde o afeto fraterno chamava a atenção dos pagãos, que assim a eles se referiam: “vejam como eles se amam entre eles” (Vide, inquint, ut invicem se diligant).  

“Uma palavra escrita é semelhante a uma pérola.” (Goethe)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da Loja Maçônica Águia das Alterosas Nº 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte; Membro Academia Mineira Maçônica de Letras e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras; Membro da Loja Maçônica de Pesquisas “Quatuor Coronati” Pedro Campos de Miranda; Membro Correspondente Fundador da ARLS Virtual Luz e Conhecimento Nº 103 – GLEPA, Oriente de Belém; Membro Correspondente da ARLS Virtual Lux in Tenebris Nº 47 – GLOMARON, Oriente de Porto Velho; colaborador do Blog “O Ponto Dentro do Círculo”.

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23° Sorteio Literário

A Maçonaria e sua história: dois mundos diferentes

Eu gosto de História Maçônica e de História em geral, procuro conhecê-la e compreendê-la. Ela é um guia seguro para mim e me impede de recorrer a essas armas fáceis de anátema global e excomunhão coletiva. René Guilly [1]

Permitam-me apresentar-me.  Eu sou um daqueles dinossauros que fizeram dizer o autor de História de O, Dominique Aury, quando ela tinha pouco mais de oitenta anos:

Você não se deve esperar atingir a idade a que eu atingi, você deveria desaparecer antes, porque você se encontra, com algumas exceções, com pessoas muito mais jovens que você, que fazem o favor de lhe falar, sim, mas não há ninguém mais, é um deserto. Seus livros permanecem, felizmente!  A humanidade será salva pelos livros.[2]

O cartaz do nosso encontro indica – com razão – que sou membro da Loja Quatuor Coronati da Grande Loja Unida da Inglaterra, mas vale ressaltar que sou francês, nascido em Paris de pais e avós parisienses (meu avô materno foi encontrado em uma cesta durante o cerco de 1870), e que fui iniciado no Grande Oriente da França há meio século.

Minha primeira vida como pianista explica um pouco minhas mudanças, tão numerosas quanto as sucessivas obediências a que pertenci. Depois de ter passado dez anos no Grande Oriente da França, depois – muito brevemente – na Grande Loja Nacional Francesa, depois quinze anos nas Grandes Lojas Unidas da Alemanha, sou hoje, há mais de vinte anos, membro da Grande Loja Suíça Alpina. E finalmente moro na Suíça.

Minha iniciação no Grande Oriente de França foi provavelmente o gatilho para o que se seguiu.  Aconteceu no Sarre, onde eu morava na época.  Eu só sabia da Maçonaria o que Peyrefitte contava em Os Filhos da Luz – ele estava bem-informado –, e quando recém-iniciado fiz uma pergunta simples aos meus Irmãos:  Por que nossa loja e as duas lojas alemãs de Saarbrücken nunca se visitam? Disseram-me que era complicado e que eu entenderia mais tarde. Ora, conforme escreveu Jean Cocteau, “Sou francês e gosto de entender”.[3]

Em 1963, ano da minha iniciação, Joannis Corneloup, publicou aos setenta e cinco anos, seu primeiro livro de história maçônica, Universalismo e Maçonaria.  Ali ele definia claramente as noções de regularidade e reconhecimento, que os membros de minha loja eram incapazes de me explicar. Como sempre faço quando sinto admiração por um autor, o jovem maçom que eu era escreveu algumas linhas ao Grande Comandante de Honra do Grande Colégio de Ritos para lhe agradecer. Ele me convidou para ir vê-lo quando eu estivesse em Paris e foi o início de uma amizade que durou até sua morte em 22 de outubro de 1978.

Neste livro, Corneloup escreveu:

Ensinemos àqueles que não o teriam descoberto sozinhos a distinção a ser feita entre a Ordem e as Obediências.

Observação fundamental, acompanhada de uma breve nota indicando: “Consulte o livro de Marius Lepage, A ORDEM e as Obediências “.  Comprei o livro de Lepage e escrevi a ele também. Outra amizade e longas trocas de cartas até sua morte em 1972.  É este segundo livro que me indicou aqueles pelos quais eu devia começar a abordar a história da Maçonaria.

O universo da Maçonaria – o que Lepage chamava ORDEM – é muito diferente de sua história. A ORDEM participa – aos meus olhos – de um mundo mágico. Com isso quero dizer que coisas incríveis acontecem lá que muitas vezes funcionam e às vezes não.  Nem sempre as compreendemos por que pertencem ao domínio do inexplicável. Eu sou um daqueles que se recusam a explicar a Maçonaria.  Existem inúmeros livros que querem explicar seus símbolos.  Se eu tivesse algum conselho para lhes dar, seria não os ler e até os jogar no fogo. A linguagem da Maçonaria é tão particular quanto a da música.  Nós não explicamos a música, nós a ouvimos e a vivemos.

A história da Maçonaria é um domínio muito diferente. Eu me diverti muito lá, porque o trabalho me diverte [4], e eu continuo. 

A maneira mais fácil é contar a vocês duas ideias fundamentais em meu trabalho. Para se aventurar a pesquisar a história da Maçonaria, dois pré-requisitos são essenciais.  O primeiro me foi indicado por um amigo meu, Roger de Weiss, que se suicidou há mais de trinta anos.  Ele havia obtido seu doutorado em filosofia na Universidade de Friburgo, na Suíça, onde ambos morávamos na época.  E ele me disse um dia: “Alain, você pode escrever o que quiser no campo da filosofia… com uma condição: ter em primeiro lido tudo o que foi escrito neste campo”. Bom. 

A outra condição eu descobri por conta própria.  Porque os livros essenciais – não são muitos – que tratam desta história foram escritos em três línguas, francês, inglês e alemão, creio que é necessário dominar estas três línguas.  Tive a sorte de ter uma governanta inglesa que me ensinou a nunca reclamar e nunca explicar.  Uma vez me casei com uma alemã – ela foi minha empresária depois de ter sido a de Walter Gieseking – e morei na Alemanha por cerca de quarenta anos.  Tenho a sorte de ser trilíngue.

A partir daí, desde que você seja curioso e mantenha os pés no chão, ter paciência, um pouco de bom senso e um pouco de sorte, as coisas andam por si mesmas.

Por que a história da Maçonaria pertence a um mundo diferente daquele da ORDEM? Porque um desses mundos se baseia em lendas fundadoras – a da construção de um templo, o assassinato de seu arquiteto – e o outro repousa para muitos maçons em lendas absurdas, frutos da imaginação de historiadores fantasiosos, inescrupulosos ou desonestos.  O pai desta linha de historiadores é naturalmente Thory.  Devemos a ele – entre outras coisas – a invenção da “Grande Loja Inglesa da França” [5] que causou estragos até 1989[6], o da edição imaginária de 1742 de Segredo dos maçons, e falsos extratos do Memorando Justificativo de Brest de la Chaussée. Em outros lugares veremos nossos ancestrais qualificados como construtores de catedrais, descendentes dos cruzados, sucessores dos templários, inspirações da Revolução de 1789 ou inventores da divisa republicana.

Tivemos que colocar alguma ordem em tudo isso.  A escola autêntica inglesa, vocês acham? De jeito nenhum.  São os alemães os seus fundadores. A primeira enciclopédia da Maçonaria foi publicada em três volumes entre 1822 e 1828 e é preciosa. Assim como sua segunda edição, também publicada em três volumes sob o título de Allgemeines Handbuch entre 1863 e 1867, e uma terceira edição em dois volumes em 1900-1901.  A primeira verdadeira história da Maçonaria Francesa apareceu em dois volumes em 1852 e 1853. Deve-se isso ao Dr. Kloss, outro alemão, também autor do primeiro Bibliografia da Maçonaria em 1844.  E vocês conhecem pelo menos de ouvir falar a de três volumes de Wolfstieg (1911-1913).

Nada equivalente do outro lado do canal da Mancha. Por outro lado, na França, um francês, Jean Émie Daruty, autor de um livro excepcional por sua precisão e honestidade, Pesquisa sobre o Rito Escocês Antigo e Aceito, publicado em 1880 nas Ilhas Maurícias. Aqui está o que ele escreveu em seu Prefácio:

[o autor dessas Pesquisas] não se esquivou diante da obrigação de sempre indicar as fontes de onde extraiu e, se necessário, de verificá-las seriamente. Para tanto, longe de poupar citações, ele declara, pelo contrário, que fez questão de citar com frequência, de modo a dar à sua obra toda a autoridade atribuída aos autores mais confiáveis e a apoiar, na medida do possível com documentos não contestados. Ao mesmo tempo, não adiantou nenhum fato como certo a não ser apenas depois de tê-lo verificado escrupulosamente e mencionado apenas com a mais prudente reserva tudo o que é apenas tradição, – a tradição não se impondo, segundo a expressão de um escritor cujo nome lhe escapa no momento, apenas para aqueles que estão convencidos ou que gostam de o ser. [7]

Como trabalhar?  Recordemos um ponto muito simples.  Quando você escreve um artigo ou um livro que trata da história da Maçonaria, o que você quer explicar ou transmitir só pode se basear em duas áreas distintas. 

A primeira área cobre o que Roger de Weiss me disse uma vez, tendo lido tudo o que foi escrito sobre o assunto.  E aqui vem o conhecimento ou ignorância de línguas estrangeiras (há muitos maçons franceses que estão inconscientes de não levar em conta essa condição necessária). Vamos, portanto, retomar, para os evocar, completar ou contradizê-los, os trabalhos de historiadores anteriores. Em todos esses casos, é imprescindível indicar em nota as referências aos empréstimos que foram feitos, e essas citações emprestadas tornam-se então perfeitamente legítimas.  Preciso acrescentar que com o progresso da Internet, muitos acreditam que não precisam respeitar essa condição sem saber que são culpados de furto?

A outra área é a das descobertas que podemos ser levados a fazer.  Há muitos arquivos que não foram explorados ou o foram apenas superficialmente. Aqui, novamente, é essencial fornecer referências precisas. 

Em suma, ir em busca da história da Maçonaria consiste antes de tudo em voltar às fontes.  Daí a importância das notas de rodapé que as indicam — ou que deveriam indicá-las. Foi seguindo as de Gould e Kloss que encontrei em 1967 os textos regulamentares franceses de 1743 e 1755 sobre os quais Marcy escreveu em 1956 que já não os possuíamos.[8] 

Então você tem que poder publicá-los. Durante uma reunião da Comissão para a História do Grande Oriente da França, da qual fui membro há quase meio século, Jacques Mitterand descobriu a redação do artigo 29 dos Estatutos de 1755, “No dia de São João todos os maçons irão à missa”, e declarou muito claramente que o Grão-Mestre e o Grande Oriente nunca publicariam este texto!  Como resultado, todas as minhas descobertas apareceram em 1974 no jornal da Loja Villard de Honnecourt.[9]

Além dessas duas áreas, as obras de nossos predecessores e nossas próprias descobertas, há alguma outra? A priori, não.  Mas um amigo meu chamou-me a atenção para uma terceira que é muito real: a da imaginação e, às vezes, até da desonestidade.  Que este mundo seja explorado por opositores da Maçonaria, nada mais normal.  O problema começa quando há maçons entre eles.

Recentemente, reli um pequeno panfleto bastante raro que foi publicado em 1936[10]. Ele não contém nenhum comentário. Ele se contenta em reproduzir os documentos que foram escritos no Ano VII da República por ocasião da breve reunificação da Maçonaria na França. 

No estilo inimitável da época, o primeiro desses documentos relembra o passado: 

“A discórdia, esse inimigo implacável, agitou suas serpentes, sacudiu suas tochas sobre nossas cabeças.”

Outro menciona:

“Aquele espírito de paz e harmonia que deve animar todos os verdadeiros filhos da luz: eles rejeitaram aquele caráter orgulhoso, aquele espírito de supremacia e ambição que reinava entre nós até hoje.”

E um terceiro:

Quando se quer com firmeza, quando se quer com justiça, não se perde nos labirintos das respectivas pretensões.

É este espírito que, como historiador e maçom francês, estou feliz por ver finalmente, nos últimos dias, começar a reinar no meu país.

Autor: Alan Bernheim
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa


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Notas

[1]Renaissance Traditionnelle No. 11, julho 1972, 214.

[2] – Dominique Aury, Vocação: clandestina, Gallimard 1998.

[3] – Jean Cocteau, O Passado Definido VI. (1958-1959), 337.

[4] – Tive o prazer de ouvir no Journal Télévisé de France 2, em 20 de junho, uma mulher de 61 anos declarar: “Tenho a impressão de estar brincando enquanto trabalho”.

[5] História da Fundação do Grande Oriente da França (1812), 14.

[6] – John Webb, ‘Discurso Inaugural’ 1987 (Ars Quatuor Coronatorum 100).  Paulo Naudon, Maçonaria (O que eu sei), 1999, 17º [!] ed.

[7] – Jean Emile Daruty, Pesquisas, ix. 2002. Reedição em fac-símile, precedida de Homenagem a Jean Emile Daruty por Alain Bernheim. Edições Teletes, Paris.

[8] – Henrique-Félix Marcy, Ensaio sobre a origem da Maçonaria, voar. II (1956), 173.  Alain Bernheim, ‘Os Regulamentos de 1743 e os Estatutos de 1755 da Grande Loja de France’. Colóquio organizado pelo Grande Oriente da França, Maçonaria na Era do Iluminismo, 2 de dezembro de 1967 (Anais históricos da Revolução Francesa N° 197, 1969, 379-392).

[9] – Alan Bernheim, ‘Contribuição para o conhecimento da gênese da primeira Grande Loja da França’.  Loja Villard de Honnecourt N° 81, GLNF. Paris, 29 de janeiro de 1974 (Obras de Villard de Honnecourt X, 1974, 18-99).

[10] Encontro dos dois GGOOda França 1799.  Documentos para servir na história do G\O\d\F\. Fora do comércio. 1936.

Desmascarando 7 mitos na Maçonaria

Com tantas ideias e teorias (de conspiração) em torno de nossa Sublime Arte, não é surpreendente ver tantos maçons confusos, cuja educação apenas arranhou a superfície e eles próprios se entregam a espalhar informações falsas sobre a Maçonaria. Sem saber e sem perceber, eles também contribuem muito para a desinformação das massas. Maçons recém-iniciados e Mestres parecem ser igualmente ignorantes quando se trata de história, fatos, afiliação de pessoas famosas e outros tópicos “populares”.

1. História e origens

Só porque duas coisas parecem semelhantes, isso não significa que elas estejam organicamente relacionadas.

Embora os tijolos de barro já tenham sido feitos na antiga Mesopotâmia, provavelmente na Babilônia… as fábricas de tijolos de hoje não são descendentes diretas dos artesãos que exerceram esse ofício há milhares de anos. Sim, a ideia básica é a mesma: desenterrar, moldar e modelar a argila como um paralelepípedo(!), deixar secar e depois queimar ou assar no fogo. Nós (quero dizer, os arqueólogos modernos) encontramos vestígios de tais tijolos durante as descobertas arqueológicas. Na aldeia dos meus avós na Transilvânia, os ciganos (hoje conhecidos como Rroma) eram os tradicionais fabricantes de tijolos de barro. Eles até têm um clã com o nome desse ofício! Isso os torna os “descendentes” dos fabricantes de tijolos babilônicos? Eles herdaram algum tipo de conhecimento mágico e secreto dos antigos fabricantes de tijolos e através deles esse conhecimento de percepção secreta desceu à Clay Brick Association of Canada ?

Qualquer um que afirmasse tal conexão seria ridicularizado e considerado maluco.

Por que então a afirmação de que a Maçonaria moderna de hoje se originou no tempo de Noé ou quem sabe onde na história não escrita… pode ser seriamente discutida por certos maçons? Estamos realmente pensando que o trabalho realizado na Torre de Babel ou no Templo do Rei Salomão foram, de alguma forma, os precursores da moderna maçonaria inglesa no século XVIII?

2. Organizações de Maçons?

Collegia romana

Os construtores se organizaram desde os tempos antigos – diz o outro “argumento” querendo dar o pedigree de antiguidade ao nosso Ofício. Portanto, e aqui vem o salto lógico: somos descendentes de todas essas organizações, como o Collegia romana. Nós somos? Não há evidências, apenas especulações de que elementos dos collegia no Império Romano possam ter sobrevivido e constituído a base das guildas medievais na Europa [1].

Sabemos que havia Collegium Fabrorum (de construtores), mas também Collegium Lupanariorum… caso você tenha perdido a aula de latim: significa donos de bordéis.

O Steinmetzen germânico e o Compagnonnage francês

Esses foram os primeiros sistemas de transmissão do conhecimento e “segredos” comerciais dos pedreiros alemães e de diferentes habilidades comerciais na França. Enquanto o primeiro está extinto, o segundo ainda existe na França, proporcionando educação prática e iniciação para aprendizes. Esses sistemas, no entanto, nunca superaram as fronteiras de seus países e não se tornaram um sistema mundial de organização fraterna. Eles são extremamente interessantes de estudar e entender – mas seria difícil aceitá-los como os precursores medievais da Maçonaria moderna.

Um exemplo de organização não-maçônica: carpinteiros .

3 – Todos os tipos de guildas ao redor do mundo e sindicatos modernos e “irmandades”

Desde os tempos medievais, quando uma guilda, como a dos alfaiates ou sapateiros, regulamentava esse comércio específico na jurisdição de uma vila ou cidade, até os sindicatos modernos (às vezes enganosamente chamadas de irmandades), todas eram organizações profissionais destinadas a proteger seus próprios interesses. As guildas, como órgãos autorreguladores, foram estabelecendo o caminho desde o aprendizado até se tornar um “mestre” – fazendo e apresentando aos responsáveis sua “obra-prima”, a prova de suas habilidades. Os requisitos mostravam muitas semelhanças, independentemente do ofício. Após longos anos de aprendizagem, o jovem fazia uma viagem (daí: viajante) às vezes apenas para outras cidades, às vezes até para outros países. Após o retorno, eles poderiam se candidatar para se tornar um membro mestre da guilda, uma espécie de profissional autônomo da época. As guildas, assim como os sindicatos e organizações profissionais de hoje, tentaram manter seu monopólio da produção e sua autoridade para decidir quem poderia exercer a profissão em seu território.

Novamente, semelhanças não significam parentesco. Por definição, qualquer ordem iniciática – desde os tempos antigos até hoje – vai apresentar semelhanças: as estruturas e métodos de tais organizações estão relacionados. Eles têm um ritual, seguem um procedimento cerimonial durante o qual trazem o aprendiz “de fora” para dentro do círculo de membros que foram iniciados anteriormente. É claro que haverá etapas e maneiras de fazer coisas que pareceriam “semelhantes”. Mas essas semelhanças vêm da natureza das coisas.

4. Iniciação

Cada cerimônia ou ritual iniciático tem um único propósito: compartilhar com o membro recém-admitido (o iniciado) o conhecimento sobre o sagrado. Aqueles que não pertencem ao círculo interno não são iniciados, são profanos – não conhecem o sagrado. Das culturas xamanísticas centro-asiáticas, aos aborígenes nativos das Américas e às várias ordens religiosas, todos têm uma cerimônia bem planejada (um enredo, se desejar) para trazer solenemente o candidato profano do estado de escuridão (ignorância, falta de conhecimento) ao estado elevado de ser iniciado, onde recebe a luz do conhecimento secreto – e sagrado.

Os maçons reconhecerão nas frases acima alusões aos seus rituais. No entanto, quase não há ordem iniciática que não sinta o mesmo: que as referências digam respeito aos seus próprios rituais de iniciação. E é exatamente esse o ponto: todas as organizações que têm esse caráter, vão demonstrar traços semelhantes porque não há outra maneira de fazer a iniciação. Para compartilhar o conhecimento sagrado dos iniciados é preciso passar por eventos e etapas que irão preparar e permitir que a pessoa receba a mesma informação privilegiada.

[O fato de certas organizações degradarem tais processos fazendo uso de “trote” não deve ser negligenciado aqui. O uso de trote é um erro e um desrespeito para com os rituais sagrados que deveriam servir ao recém-iniciado para adquirir a iluminação sagrada.]

5. Todo mundo era maçom…

Ou assim gostamos de pensar. Dos antigos faraós egípcios, aos astronautas e reis, aos presidentes e artistas famosos – qualquer um é suspeito de ser um maçom, um maçom aos olhos dos crentes da conspiração. E de maçons ignorantes.

Vamos deixar esse assunto bem claro: se não havia maçonaria moderna antes das lojas que existiam nas Ilhas Britânicas, então não havia maçons antes disso. Portanto, nenhum personagem bíblico pode ser reivindicado como maçom. Além disso, Leonardo da Vinci não era maçom – não importa o que você leia em um livro de ficção. (Definição de ficção – literatura em forma de prosa […] que descreve eventos e pessoas imaginárias.) Nem Pepino, o Breve, nem Carlos Magno. Isso vale para os Cavaleiros Templários.

Desde a minha infância, fui um ávido leitor: durante meus anos de escola primária, o maior castigo que meus pais podiam me dar era me proibir de ler por alguns dias ou, horribile dictu, uma semana! Eu costumava ser um leitor indiscriminado, que por sua vez resultou mais tarde em um detector muito fino de reconhecer os diferentes gêneros e tipos de textos escritos.

Quanto às celebridades vivas – a primeira regra que aprendi como maçom foi esta: posso dizer publicamente sobre mim mesmo que sou maçom, mas nunca posso dizer algo assim sobre um irmão meu. Então, pare de adivinhar e nomear personalidades vivas como maçons!  Espere até que eles morram.

6. Pais fundadores

É um fato bem conhecido que os ideais ensinados nas lojas maçônicas, sobre a igualdade de todos os homens, uma sociedade onde a liberdade religiosa é a norma, um mundo utópico (tiro o chapéu para Sir Francis Bacon que também não era maçom) de harmoniapaz e liberdade … foram implementados como os princípios básicos de alguns novos países criados por aqueles que deixaram o Velho Mundo para construir um melhor. Em outros lugares, o modelo seguido nas lojas, por exemplo, parlamentarismo (terminologia moderna) onde todos têm voto igual, com regras de direito, democracia e direitos iguais – tornou-se o ideal a ser imitado na sociedade.

Em suma, muitas instituições políticas da era moderna foram influenciadas pelos maçons e seus ideais e práticas. O que não significa que todos os adeptos dessas ideias fossem maçons. Thomas Paine, a “celebridade” influente da época, até escreveu uma história da Maçonaria e ele não era um membro documentado da Arte Real. Dos 56 homens que assinaram a Declaração de Independência (americana) apenas 9 [nove] eram maçons! Nove dos cinquenta e seis.

No Canadá, também temos vários maçons no nascimento da Confederação. Mais interessante, todos os três famosos cervejeiros canadenses também eram maçons: John Labatt, Alexander Keith, John Molson. Devemos dizer que estas são (ou eram) cervejas maçônicas?

7. Maçonaria na Bíblia

Todos sabem, inclusive os não maçons, que a maioria dos símbolos, personagens e histórias que contamos em nossas cerimônias (rituais) são baseados em textos bíblicos. Para alguns, isso é uma prova de que a Maçonaria é uma organização “cristã”, para outros, são como quaisquer parábolas do Antigo Testamento: histórias tiradas de uma fonte e depois moldadas e transformadas em uma dramatização para transmitir os ensinamentos morais e incutir inspiração para o aperfeiçoamento de nossas virtudes. (Notanão há absolutamente nenhuma referência ao Novo Testamento no ritual!)

Um dos personagens centrais de nossas histórias é o Rei Salomão junto com seu templo. É muito interessante que, à luz das últimas pesquisas, a metáfora do “templo”, especialmente a do Templo de Jerusalém, como o templo da sabedoria [templum sapientiae], o templo do conhecimento enciclopédico [templum encyclopediae] era um topos que retornava – uma vez que era a fórmula de tópico tradicional nas décadas imediatamente anteriores à formação da primeira Grande Loja conhecida em 1717. O simbolismo do templo e em um contexto mais amplo, o simbolismo da “Nova Jerusalém” está presente na retórica inglesa desde Sir Francis Bacon…

A Maçonaria, ou mais exatamente, os autores dos primeiros livros e regras e a mitologia apenas adaptaram os temas literários existentes para seus propósitos. Vale ressaltar que, há 300 anos, as histórias bíblicas, a mitologia clássica grega e romana e a literatura eram a base do que chamaríamos de educação. Assim, a maneira mais fácil de transmitir uma mensagem – seja de moral ou outro conteúdo espiritual – era usar as conhecidas histórias, parábolas, metáforas e simbolismos.

No entanto, não há maçons na Bíblia.

Vamos resumir o que aprendemos hoje:

  • NÃO havia “maçonaria” na Antiguidade ou nos tempos bíblicos;
  • Diferentes organizações comerciais de construtores/pedreiros (sindicatos?) podem apresentar semelhanças, no entanto, semelhanças não significam linhagem ou descendente do mesmo ancestral;
  • A maioria das ordens iniciáticas tem métodos semelhantes – per definitonem;
  • Muitas guildas comerciais protegem seus segredos comerciais com o mesmo tipo de sigilo;
  • O fato de existirem construtores desde que a humanidade começou a erigir objetos arquitetônicos… não significa uma linha contínua de maçons ao longo da história;
  • A Maçonaria Especulativa, como a conhecemos hoje, originou-se nas Ilhas Britânicas;
  • Consecutivamente, não houve maçons – como usamos a palavra hoje – antes disso em outros países;
  • Steinmetzen e Compangnonnage são diferentes organizações que permaneceram locais e nunca evoluíram para um sistema mundial;
  • Não, as figuras bíblicas usadas em nossas cerimônias não eram maçons modernos;
  • Não, não havia maçons AC (antes de Cristo);
  • Não, Leonardo da Vinci NÃO era maçom;
  • Não, a maioria dos Pais Fundadores dos EUA não eram maçons: dos 56 signatários, apenas 9 eram maçons documentados;
  • As 3 marcas de cerveja canadenses mais conhecidas foram fundadas por maçons.

Autor: Istvan Horvath
Traduzido por: Luiz Marcelo Viegas

Fonte: The Other Mason

*Horvath é Mestre Maçom, Maçom do Arco Real, membro da Philaletes Society, do Quatuor Coronati Correspondence Circle e da Scottish Rite Research Society. 

Nota

[1] – Clique AQUI para ler mais sobre a Maçonaria e os Collegia Romana

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Para que nos reunimos aqui?

Logo no início dos trabalhos de Aprendiz Maçom, o Venerável Mestre, ao indagar o 1º Vigilante sobre os motivos da realização da reunião, tem como resposta:

“Para combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício.”

Apesar do assunto ser bem trabalhado na sessão de Iniciação, a intensidade da cerimônia talvez não atraia a atenção necessária. Lado outro, talvez tal resposta seja uma das mais importantes para a vida do maçom. Muitas vezes, afetado pelos problemas do dia a dia, o maçom pode se indagar: por que continuo maçom? Para que serve mesmo a reunião? 

A resposta está no próprio ritual e é repetida, reiteradamente, toda reunião.

Necessário nos aprofundarmos sempre no ensinamento ali contido:

“(…) combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros (…)”

Vejam meus irmãos que a ideia aqui é mostrar ao maçom que ele deve sempre preservar o livre pensamento da pessoa humana, preservando-o das adversidades do mundo profano. Se volvermos nossos olhos à época de fundação das primeiras lojas maçônicas e da edição de nossos landmarks, constataremos que toda a doutrina maçônica se baseia no ideal iluminista, que tinha como pensadores pessoas como Descartes, Adam Smith, Diderot e Montesquieu, entre outros. O movimento iluminista que serve como pano de fundo para a maioria das revoluções do século XVIII, como a Revolução Francesa, a Revolução Americana e até mesmo a nossa Inconfidência Mineira (uma tentativa frustrada de revolução).

Tal doutrina tem como elemento principal o direito de o cidadão viver e agir de maneira digna, reduzindo, sensivelmente, o poder do Estado sobre o indivíduo. A partir daí, valorizam o pensamento racional (e daí o direito de questionar até mesmo o Estado), os direitos naturais (que nascem com ele) e a crítica a governos autoritários, com ampla liberdade política, econômica e religiosa.

A ideia do maçom de se combater os tiranos é exatamente de evitar render louvores a posições autoritárias, com supressão pelo Estado de direitos individuais do cidadão. O ritual vai além e exige do maçom que ele não se renda aos preconceitos e à ignorância, ou seja, que lute contra o posicionamento típico daqueles que levam o pensamento dogmático (muitas vezes nutridos por uma religiosidade sem questionamento), literalmente.

Não cabe ao maçom apenas cumprir sem questionar! O maçom é um pensador na essência e, como tal, tem a obrigação de questionar.

Propagar ignorância (ausência de estudo sobre um determinado termo) ou preconceito (opinião desprovida de um mínimo de pensamento crítico), é vedado ao maçom. Necessário um especial cuidado!

Mas daí poderíamos pensar: Ora, então cabe ao maçom desrespeitar deliberadamente as autoridades? Não é esse o ideal maçônico…

O ritual diz:

“(…) glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício(…)”

A primeira parte de tal frase chama a atenção por usar os termos Direito, Justiça e Verdade em letra maiúscula. O uso do termo “Direito” com letra maiúscula é a consagração da “ciência do Direito”. Se partirmos do princípio de que o REAA é originalmente em inglês, a palavra original seria o termo “law” e não “right”. Por força do nosso idioma, o termo Direito (como ciência) e direito (certo, correto) são palavras homônimas, mas não são sinônimas. O uso da palavra varia conforme o significado.

Quando o ritual opta pelo Direito como ciência, diz que cabe ao maçom respeitar a ciência do Direito, aí incluindo, especialmente, nossa Constituição Federal (norma máxima e base do Estado Democrático de Direito). O respeito à Constituição pressupõe o respeito às autoridades constituídas.

Ou seja, cabe ao maçom questionar racionalmente, mas jamais propor o desrespeito às leis; jamais propagando a desobediência civil.

E o ritual continua pregando o respeito da Justiça e da Verdade. Aqui, uma vez mais, o termo Justiça não advém da noção de “justo ou injusto”, noção totalmente individual. O que é justo para mim pode não ser para o meu irmão e vice-versa.

A noção de Justiça que o ritual traz, interpreto como sendo a autoridade judiciária; ou seja, respeito àquele a quem a nossa Constituição dota o poder de “dizer o Direito”, o que a doutrina jurídica chama de jurisdição. Assim, nossos juízes são as pessoas a quem a Constituição deu o poder para definir o que é justo ou injusto, dentro dos limites da própria Constituição.

A noção de Verdade talvez seja um dos principais deveres do maçom, especialmente em época em que o ser humano tem acesso infinito à informação (de todos os tipos), com o uso do sistema mundial de computadores. Nosso ritual exige que apenas propaguemos a verdade. Devemos ter noção de saber muito bem diferenciar a opinião (livre convicção do indivíduo) do que é fato (verdade indiscutível).

Em época das malfadadas “Fake News”, o maçom deve ser um catalisador de informações, tendo o dever de apenas passar à frente aquilo que seja fato e de desmentir o que seja falso! É nosso dever saber e propagar o que é verídico! Apenas com a estrita observância de nossos ensinamentos é que sairemos de casa com a justa consciência do objetivo de nossas reuniões, lembrando que, se nos desvirtuarmos de nosso objetivo, nos desvirtuaremos como maçons.

Autor: Fernando Ramos Bernardes Dias

*Fernando é ex-Venerável Mestre da ARLS Renovação e Progresso, nº 250, do oriente de Patrocínio, jurisdicionada à GLMMG.

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