A Arte da Memória e a Maçonaria

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Quando um candidato entra no caminho iniciático da Maçonaria, uma das primeiras coisas que ele descobre é que há uma grande quantidade de memorização envolvida. Os oficiais executam o ritual de memória, e longas palestras memorizadas lhe são apresentadas. Finalmente, talvez para sua consternação, ele descobre que deve memorizar um diálogo antes que possa avançar para o próximo grau.

Por que a memorização é tão importante em Maçonaria? Como a prática de decorar o ritual entra na Maçonaria? A memorização ainda tem valor nos tempos modernos? Considerando a importância tradicionalmente dada à memória na Maçonaria, surpreendentemente pouco foi escrito sobre isso. Uma busca em enciclopédias maçônicas e livros de referência revela praticamente nada.

Um dos poucos livros a lidar com as origens da memorização na Maçonaria é As Origens da Maçonaria, o século da Escócia 1590-1710, de David Stevenson[1]. Stevenson ressalta que as primeiras referências à memória na Maçonaria ocorrem nos Estatutos Schaw.

William Schaw foi nomeado Mestre de Obras do Rei para James VI da Escócia (mais tarde James I da Inglaterra) em 1583. Como Mestre das Obras, Schaw era membro da corte real e era responsável pela manutenção de todos os edifícios reais. Em 1598 e 1599, Schaw emitiu regulamentos para os serviços de construção na Escócia. Eles continham basicamente os regulamentos de saúde e segurança, mas também tratavam de regras para a organização dos pedreiros trabalhadores[2].

Os Primeiros Estatutos Schaw, de 1598, exigiam a seleção de Aintenders (instrutores) para cada novo companheiro em sua admissão. As atas iniciais das lojas de Edimburgo e Haven de Atchison mostram que geralmente eram os companheiros mais recentemente admitidos que eram selecionados como instrutores. Como os candidatos teriam que provar sua proficiência técnica antes de serem admitidos, parece razoável supor que a função de intendente era instruir o novo companheiro em trabalho secreto. Isto é confirmado pelo Manuscrito Dumfries no. 3 do século XVII, que diz:

“Então, deixe a pessoa que, então, é feita um maçom, escolher da loja um maçom que deve instruí-lo naqueles segredos que nunca devem ser escritos, e ele o deve chamará Tutor. Então seu tutor o levará para o lado e lhe mostrará todo o mistério, e, em seu retorno, ele pode exercitar com o restantes de seus colegas pedreiros.”[3]

A primeira referência explícita ao uso da memória na Maçonaria está nos Segundos Estatutos Schaw de 1599:

“[O] Vigilante da Loja…testará a arte da memória e ciência dela de cada companheiro e cada aprendiz de acordo com a sua vocação e, caso tenham perdido algum ponto dela…pagará a penalidade como segue por sua preguiça…”

Aqui, Schaw está criando uma regra especial em que todos os membros da Loja devem ser testados anualmente quanto à capacidade de memorizar algo. Infelizmente, não está claro o que é, mas parece ter algo a ver com o ritual e as cerimônias da loja[4].

Nós sabemos pouco sobre o ritual na Escócia no período em torno de 1600. Os primeiros materiais escritos datam de cerca de um século depois. Quaisquer que sejam os detalhes do ritual, isso era visto de alguma forma ligado ao esotérico. Este pode ter sido um dos fatores que atraíam homens que não eram pedreiros para se juntarem à organização. Uma prova que mostra como a Maçonaria era considerada no início do século XVII é um poema de George Adamson, The Muses Threnodie, publicado em 1638, após a morte de Adamson, mas provavelmente escrito por volta de 1630. Contém as seguintes linhas:

Porque o que pressagiamos não está em bruto,
Porque nós irmãos da Rosa Cruz;
Temos a Palavra do Maçom e segunda vista,
Coisas por vir podemos contar certo.
[5]

Aqui, a Maçonaria é retratada como de alguma forma dando aos seus praticantes o poder de prever o futuro, e a Maçonaria está ligada ao Rosacrucianismo. Essa ligação se tornará importante, ao considerarmos a arte da memória.

Stevenson aponta que quando Schaw se referia à Arte da Memória, ele não estava apenas usando um termo extravagante para a capacidade de memorizar[6]. A Arte da Memória, ou Ars Memorativa, era uma técnica específica para memorizar coisas, bem conhecida na época em que Schaw estava escrevendo seus estatutos, e que tinha suas origens nos tempos Clássicos[7]. Originalmente, a intenção da Arte da Memória era aumentar grandemente a capacidade natural da memória humana. Os praticantes da Arte da Memória tentaram encontrar maneiras de manter, recuperar e usar uma grande quantidade de informações. Nos tempos medievais e renascentes tardios, a Arte da Memória gradualmente tornou-se altamente simbólica. Os neoplatonistas e hermetistas gradualmente a adaptaram para desenvolvê-la em uma forma especial de conhecimento, uma maneira especial de se relacionar com o universo. É nesta tradição que Stevenson encontra as origens do uso maçônico da memória.

A história tradicional é que a Arte da Memória se originou com o poeta grego Simônides de Ceos, cerca de 500 a.C.. De acordo com a lenda, um nobre da Tessália contratou Simônides para compor uma ode, a ser recitada em um banquete celebrando as vitórias atléticas do nobre. O nobre concordou em pagar um certo preço pela ode. Simônides incluiu algumas linhas na ode em homenagem a Castor e Pollux, deuses gregos do boxe e da equitação. O nobre reclamou que a ode deveria ter se dedicado inteiramente a ele, e disse que pagaria apenas metade do preço acordado. Ele disse a Simônides que cobrasse a outra metade de sua taxa de Castor e Pollux. Pouco tempo depois, um mensageiro disse a Simônides que dois jovens estavam esperando fora do salão do banquete para vê-lo. Quando Simônides saiu, ninguém estava lá, mas, assim que ele deixou o prédio, o telhado desmoronou, matando todos lá dentro. Naturalmente, a lenda é que os dois jovens eram Castor e Pollux, que tinham vindo pagar a metade dos honorários. A história conta que os corpos dos convidados estavam tão mutilados que não podiam ser identificados. Simônides, no entanto, conseguiu lembrar-se de onde cada convidado estava sentado e, por isso, os corpos foram identificados. Pensando nisso, Simônides percebeu que esse método de lembrar coisas poderia ser usado para outros fins. Ele desenvolveu um sistema de memorização e o ensinou com grande sucesso[8].

As características essenciais da arte tradicional da memória são que um edifício é retratado na mente, as partes do edifício são visualizadas em uma determinada ordem, e várias imagens são associadas às partes do edifício. As imagens lembrariam ao praticante o que ele estava tentando lembrar. Quando estava tentando lembrar algo, o praticante caminharia mentalmente pelo prédio. Quando ele chegasse, por exemplo, a uma certa estátua, ele se lembraria da imagem que ele havia associado a ela, por exemplo, uma espada e um escudo, e isso lembraria o que desejava falar, que o próximo ponto de seu discurso envolvia guerra. Idealmente, as imagens deveriam ser impressionantes e memoráveis. Os oradores e políticos romanos usavam a Arte da Memória para que pudessem pronunciar longos discursos com precisão. Pode-se imaginar um antigo orador passeando pela cidade, procurando um edifício adequado com muitos locais distintivos, onde ele poderia ancorar suas associações mnemônicas, e em seguida, passando lentamente por ele enquanto ensaiava seu discurso. O elemento-chave deste sistema é o uso de imagens mentais em configurações ordenadas, muitas vezes arquitetônicas, e tornou-se a base para desenvolvimentos posteriores.

Nos tempos medievais e renascentistas, juntamente com as configurações arquitetônicas usadas na arte clássica da memória, os praticantes faziam uso de todo o cosmo ptolemaico de esferas concêntricas como cenário para suas imagens de memória. Hermetistas do Renascimento levaram isso um passo adiante. Eles argumentavam que, se a memória humana podia ser reorganizada à imagem do universo, ela se tornou-se um reflexo de todo o reino das Ideias platônicas e, portanto, a chave para o conhecimento universal. O microcosmo da memória refletiria o macrocosmo do universo[9]. As imagens colocadas em um edifício não precisam ser usadas para associar e lembrar ideias externas arbitrárias. As próprias imagens podem ser usadas para lembrar o observador de certas ideias. A ênfase muda de expansão da memória para a busca de uma linguagem universal de símbolos. O templo da memória pode se tornar não apenas um método para lembrar discursos, mas uma ferramenta para ensinar.

Frances Yates escreveu:

“Não é fácil para nós reconquistar o espírito em que os príncipes do Renascimento planejaram e mobilizaram seus palácios e terrenos, como uma espécie de sistema de memória viva, através do qual em elaborados arranjos de lugares e imagens, todo o conhecimento, toda a enciclopédia, poderia ser armazenado em uma memória… e também, talvez, induzir uma atmosfera através da qual relações ocultas pudessem ser percebidas e harmonias ocultas do universo pudessem ser ouvidas.”[10]

O próximo passo lógico seria construir um edifício utilizado especificamente para a arte da memória, para incorporar todo o conhecimento humano. Existe pelo menos um exemplo conhecido. Giulio Camillo (1480-1544) construiu um teatro portátil de madeira no qual apenas duas pessoas podiam entrar. Segundo Camillo, a estrutura continha lugares de memória e imagens que poderiam conter todo o conhecimento humano[11].

Talvez o sistema mnemônico mais desenvolvido e complexo na época fosse o de Giordano Bruno[12]. Um dos estudantes de Bruno, Alexander Dicson (ou Dickson) era um cortesão de James VI da Escócia. É altamente provável que ele conhecesse William Schaw, e possa ter sido a fonte do interesse de Schaw pela arte da memória[13].

Stevenson sugere que a tentativa de construir um teatro de memória físico é a origem da Loja maçônica simbólica. Ou seja, nossos edifícios de lojas e painéis de loja, em maior ou menor grau, são uma encarnação de uma loja ideal, que existe em sua forma máxima somente em nossas mentes. Os maçons do século XVII provavelmente usavam giz ou carvão para marcar um diagrama dessa loja ideal em qualquer sala em que eles se reunissem. Os mais antigos catecismos maçônicos preservados são do final do século XVII e mostram que os maçons desta época tinham uma imagem mental da Loja essencialmente a mesma que é dada na palestra moderna do grau de Aprendiz[14]. Comparado aos sistemas de memória de Giordano Bruno ou Giulio Camillo, uma loja maçônica é um templo de memória muito simples. Em vez de tentar apresentar todo o conhecimento humano, uma loja apenas sugere caminhos que o iniciado pode querer explorar. É talvez por esta mesma razão que a Maçonaria continua a ser uma força vital, enquanto os sistemas elaborados de memória do passado estão quase esquecidos.

Os edifícios imaginários utilizados para a Arte da Memória às vezes são chamados de teatros de memória. Robert Fludd, escritor do século XVII sobre o Rosacrucianismo, escreveu extensivamente sobre a Arte da Memória e sugeriu o uso de um prédio de teatro real para ancorar as imagens da memória. A.T. Mann, em seu livro Arquitetura sagrada, sugere que locais específicos em um teatro isabelino ou jacobita tenham significados simbólicos específicos, de modo que o lugar onde um personagem entrou, saiu e atuou dava indícios quanto ao estado de espírito[15]. Pode valer a pena investigar se essa ideia poderia ser aplicada às Lojas Maçônicas. Outra possível relação entre o teatro isabelino e jacobino e as Lojas maçônicas é que a frente do teatro tinha uma cobertura, chamada Aheavens, retratando o zodíaco e outros corpos celestes[16]. Isso lembra o céu coberto de Astar que nos é dito simbolicamente cobre a loja, e que às vezes é representado no teto da Loja.

Na vida moderna, livros e computadores são fontes fáceis de informação. Conferencistas podem usar notas ou teleprompters. Mesmo assim, a Arte da Memória ainda tem valor. Um dos objetivos da prática tradicional é maximizar as capacidades humanas como ferramentas para a transformação interior.  A Arte da Memória é valiosa para nós hoje, não só porque ela desenvolve a memória, e nos permite reter uma grande quantidade de informações, mas também porque exige de nós que usemos outras capacidades, tais como atenção, imaginação e imagens mentais, que são úteis para o nosso desenvolvimento geral[17].

Cada Loja é, de fato, um Templo da Memória, projetado para provocar efeitos específicos através da lembrança de suas imagens e símbolos, e nossos movimentos físicos à medida que avançamos através da loja. Cada grau enfatiza um aspecto deste Templo. A palestra do grau de Aprendiz nos lembra o nosso lugar no esquema cósmico das coisas, o macrocosmo. O grau de Companheiro nos traz de volta à terra, enquanto nos movemos através do mundo material. O grau de Mestre Maçom traz a espiral ainda mais para dentro, para dentro de nós, para o microcosmo da psique humana. Assim, a Arte da Memória continua a ser uma parte essencial da iniciação maçônica. O método da iniciação maçônica é ensinar-nos a construir, e a viver, um templo da memória, um templo repleto de símbolos que nos lembrem daquele edifício espiritual, daquela casa não feita com as mãos, eterna nos céus.

Autor: Clarence A. Anderson
Tradução: José Filardo

Fonte: BIBLIOT3CA

Notas

[1] – David As Origens da Maçonaria: o século da Escócia 1590 – 1710, Cambridge University Press, 1988.

[2] – Cooper, Robert L. D., A Maçonaria de Schaw, The Short Talk Bulletin, Vol 89, No. 7, July 2002, The Masonic Service Association of America, Silver a Spring MD, pp. 3-4.

[3] – Carr, Harry, ed., Os primeiros catecismos maçônicos, 1943, reimpresso pela Kessinger Publishing Co., Kila MT (reimpressão sem data).

[4] – Cooper, p. 5

[5] – Stevenson, p. 126

[6] – Stevenson, p. 49

[7] – Yates, Frances, A arte da memória, University of Chicago Press, Chicago, 1966.

[8] – Fuller, Henry H., A arte da memória, National Publishing Co., St. Paul MN, 1898.

[9] – Greer, John Michael, Ars Memorativa: Uma Introdução à Arte Hermética da Memória.

[10] – Yates, Frances, O Iluminismo Rosacruz Barnes and Noble, Nova Iorque, 1996, p. 68.

[11] – Mann, AT, Arquitetura sagrada, Element, Rockport MA, 1993, pp. 158-163.

[12] – Yates, Frances, Giordano Bruno e a tradição hermética, University of Chicago Press, Chicago, 1991.

[13] – Stevenson, pp. 87-96

[14] – Carr, supra.

[15] – Mann, supra, pp. 168 ff.

[16] – Yates, Frances, Teatro do Mundo, University of Chicago Press, Chicago, 1966.

[17] – Greer, supra.

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Elevação e Declínio da Maçonaria no Mundo

Um dos palestrantes do I Congresso Internacional de Ciência & Maçonaria, realizado entre os dias 7 e 9 de setembro em Brasília, foi o mestre William Almeida de Carvalho, que, seguindo a máxima de que o conhecimento deve ser compartilhado, disponibilizou o vídeo com a íntegra de sua brilhante exposição.

A apresentação de Dom William, com o título Elevação e Declínio da Maçonaria no Mundo, pode ser conferida através do link abaixo:

Elevação e declínio da maçonaria no mundo

Além de Dom William, tivemos também como palestrantes o professor J. F. Benimeli, S.J. e o professor Guilhermo de Los Reys-Heredia. Essas duas palestras já foram disponibilizadas em nossa página do Facebook, e podem ser vistas através dos seguintes links:

Palestra J. F. Benimeli – 1ª Parte

Palestra J. F. Benimeli – 2ª Parte

Palestra Guilhermo de Los Reyes

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Protegido: Forces Occultes (1943) – O Filme (para ler o artigo, digite a p∴ s∴ de Apr∴)

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A ignorância é o princípio da sabedoria

Imagem relacionadaAlcibiade recevant les leçons de Socrate – François-André Vincent (1746-1816)

Nietzsche disse que “a sabedoria é um paradoxo”, já que “o homem que mais sabe é aquele que mais reconhece a vastidão de sua ignorância”. O pensamento do filósofo alemão corrobora com a máxima socrática do “só sei que nada sei”, isto é, com a ideia de que a ignorância é o princípio do conhecimento e que, portanto, é necessário estar aberto à reflexão constante para que se possa atingir o mínimo de conhecimento e sabedoria.

Em um contexto como o nosso, em que há uma grande carga de informações, sobre os mais diversos temas, disponível, a ideia que correlaciona ignorância e sabedoria parece não fazer tanto sentido. O que se observa é a formação de um conjunto enorme de pessoas que se coloca como possuidor das verdades últimas sobre as coisas, ainda que essas verdades possam mudar constantemente e rapidamente de acordo com a melhor conveniência de quem as define.

Dessa forma, cria-se um ambiente inóspito para que o conhecimento possa se desenvolver, haja vista a sacralização feita pelos indivíduos das coisas que eles julgam como sendo verdadeiras e, por conseguinte, a impossibilidade de questionamento e de debate sobre certas coisas, dogmatizadas. Isso não significa que as pessoas não possam acreditar em algo com veemência ou que não exista uma verdade sobre as coisas, mas até mesmo quando acreditamos em algo, precisamos estar abertos ao novo, o que só é possível se estivermos abertos à reflexão e ao diálogo.

Em outras palavras, é preciso estar aberto a outras formas de pensar, para que problematizações possam surgir, a fim de ratificar aquilo que acreditamos (com mais embasamento e mais espaço discursivo) e/ou para que possamos observar, analisar e seguir novas perspectivas, até então desconhecidas. Nesse sentido, percebe-se que o outro, que pensa de forma antagônica à nossa, passa a ser considerado, o que estimula a interação entre situações contraditórias a partir de uma perspectiva dialética, ou seja, de abertura para o novo que possa surgir por meio do encontro estabelecido.

Essa relação dialética que se instaura com gênese no reconhecimento da ignorância, isto é, da compreensão da não completude sobre o conhecimento de todas as coisas, permite que o sujeito possa crescer intelectualmente, já que passa a possuir um horizonte com maior amplitude de alcance, além de evitar o enrijecimento dos conhecimentos e convicções, bem como, o desenvolvimento do individualismo, impeditivo para a compreensão, o respeito e o diálogo com cosmovisões e crenças diferentes das que possuímos.

Fechar-se em si mesmo e acreditar que não há nada a ser aprendido não denota convicção do que se acredita, mas antes, ignorância, pois – como falava Paulo Freire – “Onde quer que haja mulheres e homens, há sempre o que fazer, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender”. Assim, para que consigamos atingir o mínimo de sabedoria é imprescindível que consideremos e busquemos a sabedoria que está no mundo, do qual não somos todo, mas apenas, parte.

Autor: Erick Morais

Fonte: Genialmente Louco

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O mercado de abertura de oficinas no Brasil

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O que se faz necessário para a abertura de uma nova loja?

A resposta está na ponta da língua da maioria dos IIr∴. Mas quando perguntamos por que querem abrir uma nova loja é que a conversa fica sem nexo. Muitos responderão que a abertura de uma nova loja está ligada à dissidência de outra loja já constituída.

Mas o que acontece? Essa dissidência se dá por conta de “divergências” de opiniões? Então, eu não concordo com algo e resolvo que eu serei o melhor exemplo fundando a minha própria loja? E o princípio da tolerância, do respeito a pluralidade dos pontos de vistas que encontramos diariamente em nossas sessões? Aí não servem mais como referência?

Já outros dirão que é puro ego. Somente para se tornar aquilo que demoraria anos, ou até décadas para acontecer naturalmente, esperando a maturação, o conhecimento necessário para se tornar um V∴M∴ em sua oficina. Neste aspecto, há de lembrar, que as constituições das obediências maçônicas exigem que um dos MM∴ seja um M∴I∴, o que descartaria esta hipótese para quem almeja o principal cargo da oficina. Entretanto, nada o impede que nessa nova formação, comece ocupando cargos nas luzes.

Bom, se “cargos” não deveriam ser o motivo principal para dissidências que levam a aberturas de novas oficinas, o que mais poderia ser? Quando o número mínimo de MM∴ resolve sair ao mesmo tempo para a abertura de uma nova oficina, o que acontece com esta oficina?

São diversas as oficinas que muitas das vezes aguardam ansiosamente a chegada de IIr∴ para poderem abrir seus trabalhos em número mínimo, conforme orienta a constituição maçônica. Imagine agora, saindo mais da metade de seu quadro? Seria um ato digno de um verdadeiro maçom? Algumas oficinas ainda sobrevivem na base de “convide” IIr∴ de outras oficinas para terem o número mínimo exigido para uma abertura de sessão. Outras, fecham suas portas. Batem Colunas.

Com a escassez de templos e o número elevado de novas oficinas, não é de se admirar que ao sair de seu quadro, você ainda irá utilizar o mesmo templo que o da sua antiga oficina.

Em um breve parecer, abrir novas oficinas não é lá um grande negócio. Perder parte do quadro de seus IIr∴, pode também não ser saudável para que se tenha uma vida longa como loja regular em sua potência e, quando falo em regular, digo, se manter financeiramente com as suas obrigações perante a sua potência. Sem dizer, é claro, do aluguel do templo, do condomínio, da luz, enfim, despesas que deverão ser rateados por um número menor de IIr∴ ativos.

O que acontece então com essas oficinas que ficam com seus números reduzidos?

A maioria acaba devendo para a sua potência, já que preferem pagar as despesas fixas da oficina. O que prejudica a oficina nessa decisão? Em nada, a potência irá parcelar essa dívida, mais cedo ou mais tarde. E o maçom? Bom, aí, já é um pouco diferente. Deixando de pagar o pecúlio, sua família não recebe o seu seguro.

Agora imagine, 20 anos ativo em uma oficina, seus IIr∴ por “divergência”, resolvem sair e abrir a sua própria oficina e, você, fica sem seus direitos. É óbvio que ninguém está aqui pelo incentivo do pecúlio, mas para algumas famílias, como pude presenciar, trouxe um pouco de tranquilidade até poderem se organizar com a partida do Ir∴.

A pior parte, e aí começo a entender, mas não concordar, a técnica da “iniciação em massa”. As taxas de iniciação variam muito entre as oficinas. Cada uma estipula o valor que acha “adequado” para aceitar um novo candidato. Aí chegamos em um ponto delicadíssimo.

Sustentar a oficina com iniciações, ou até mesmo, com o intuito de pagar dívidas com a potência, é a degradação dos pilares da maçonaria. As entrevistas são fracas, há um baixo nível de critério para indicações.

Quem dera, a taxa de iniciação fosse usada com fins hospitaleiros.

Mas então, por que ainda se abrem tantas oficinas no Brasil? Fortalece a imagem da potência dizer que tem algumas centenas de oficinas? Mesmo que a maioria esteja em situação de “bater colunas”?

Como fortalecer as colunas de uma oficina? Com regras justas, claras e não tendo uma potência que contribua em demasia para abertura de novas oficinas, que acabam prejudicando outras existentes, ficaria mais fácil preservar suas oficinas em saúde financeira e na composição de quadro.

A maioria dos templos está ocupado quase que diariamente, funcionando com diversas oficinas com números reduzidos em seus quadros. Nossa sugestão é que o processo de pedido de Kits, devam obedecer um critério de “aviso prévio”, para que a loja possa se organizar com a previsão de saída do IIr∴, com exceção de casos específicos apresentados aos dirigentes.

Enquanto no endereço de seu templo houverem oficinas com o quadro inferior a 50% da ocupação, não deve-se conceder a abertura de uma nova oficina neste mesmo endereço, aplicando-se a regra à todos os endereços que tiverem uma oficina desta potência.

Ou seja, fortalece as CCol∴ de sua oficina e em contrapartida, se tem um melhor controle para uma correta avaliação de novas indicações.

Autor: Ewerton Moraes Sarmento

Fonte: Estação Hospitaleiro

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O Contributo da Maçonaria para a Abolição da Escravatura – Parte III

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Filantropia para libertação

Tenório de Albuquerque em seu livro “A Maçonaria e A Libertação dos Escravos”[22] informando sobre os preceitos maçônicos, logo nas primeiras páginas do livro, coloca como primeiro desses preceitos Amar a Humanidade. Uma Loja que não atua filantropicamente junto à sociedade não está integralmente cumprindo a Tríade da Ordem.

A tão proclamada “Fraternidade Maçônica”, não é apenas um sentimento entre Irmãos, ela deve ultrapassar as paredes do Templo e alcançar a Humanidade. É neste ponto em que há o encontro da “fraternidade” com a “filantropia”.

A etimologia da palavra filantropia deriva do grego (filos, amor e antropos, homem), daí significar amor pela humanidade.

Diversas foram as ações de Lojas, e também de maçons individualmente, no sentido de atenuar ou acabar com o sofrimento do negro durante a escravatura no Brasil. Tanto que se somarmos as ações empregadas pelos Irmãos e pelas Lojas, esse conjunto se verificará um grande esforço organizado em prol dos escravos no séc. XIX, realizados por membros de uma instituição, seja fundando sociedades abolicionistas, grupos radicais, jornais, comprando alforrias, financiando advogados, etc.

Vale citar agora algumas dessas ações, cuidando para que não seja meramente uma citação cronológica, mas evidenciando a amplitude e o alcance dessas ações. Verificar-se-á que em praticamente todas as regiões do país, de várias formas agiram os bodes negros[23].

A Loja Perseverança III, paulista de Sorocaba, tem em seus registros, o fato de ter sido a primeira instituição do gênero a constituir-se formal e especificamente com o objetivo de trabalhar pela abolição da escravatura e pela educação tanto dos antigos trabalhadores quanto da nascente classe operária sorocabana[24], em 1869, numa proposta idealizada por Ubaldino do Amaral:

Trago, subscrita por essa presidência, por Leite Penteado e por mim, a seguinte proposição que esperamos merecer a aprovação da Oficina:

  • A loja de iniciação será de 25$000;
  • A mensalidade de 15$000;
  • Colocar-se-há na Officina uma caixa, denominada “Emancipação” na qual os iniciandos, a convite do Venerável e de qualquer Irmão quando queiram, depositarão suas offertas;
  • O produto dessa caixa será exclusivamente destinado à libertação de crianças do sexo feminino, de 2 a 5 annos de idade;
  • As crianças assim libertadas ficam sob a proteção da Loja;
  • Serão absolutamente prohibidos os banquetes, ceias, copos d’agua, que o uso tem admitido nas iniciações, devendo o Venerável convidar os recipientes para converter as quantias que dispenderiam com isso em donativos à CAIXA DE EMANCIPAÇÃO;
  • Serão criadas escolas para adultos e menores. As escolas serão nocturnas e mantidas pela Officina, para o ensino gratuito das primeiras letras. [25]

Porém, a Loja Perseverança, de Paranaguá (PR), foi a primeira tomar medidas de âmbito interno como forma de contribuir para libertação dos escravos:

À Glória do Supremo Architecto do Universo e sob os auspícios do Grande Oriente e Supremo Conselho do Brasil, a todos os Maçons:

Resolução adoptada e promulgada em 18 de Novembro de 1867, pelo seu Venerável de Honra Perpétuo, Dr. Alexandre Busquet, Delegado do Grão-Mestre em Paranaguá:

Considerando que a missão da Maçonaria é guiar os povos no caminho da Civilisação [sic], da Liberdade e do Progresso, e tornar sempre a iniciativa das medidas tendentes à felicidade do gênero humano, preenchidas as formalidades exigidas pelos artigos 257, 258 e capítulos 278 e 281, à unanimidade dos votos,

Decreta

Art. 1º – Todos os fundos, tanto da Thesouraria como de Beneficência, que excederem de seus gastos normaes, d’agora em diante, sejam empregados em libertar escravos de qualquer cor, unicamente do sexo feminino, que não tenham mais de 4 annos de edade.

Art. 2º – Todos os annos, no dia 23 de Junho, véspera da festa de São João, a Loja reunida em sessão magna procederá ao sorteio das libertadas. Os nomes das agraciadas serão profanamente publicados no dia seguinte, 24 de junho.

Art. 3º – Contemplar-se-hão somente, seste sorteio, as escravas mães de melhor conducta e residentes neste Município. A escolha dos nomes que deverão entrar na urna será feita em sessão exonomica que precedera de 23 de Junho, em Loja plena, previamente convocada pelo Venerável. (…) [26]

Mais tarde a “Augusta e Centenária Portadora da Cruz de Perfeição Maçônica Loja Simbólica Acácia Riograndense”, fundada no dia 17 de setembro de 1876, por João Landell, um médico formado na Inglaterra, se torna a primeira desse estado a abraçar a causa abolicionista, comprando de início, cartas de alforria para cinco escravas negras, porém, essa criou a primeira Sociedade de Emancipação de Escravos do Brasil, também em março de 1869, na cidade do Rio Grande. A referida Sociedade foi uma iniciativa direta da Loja maçônica “Acácia Rio-Grandense” e tinha por finalidade a manumissão de escravas na idade fértil de procriação, entre 8 e 25 anos, essa era uma prioridade que é encontrada em diversas sociedades emancipadoras maçônicas. Seu idealizador foi o maçon João Frick. Quem conta sobre os estatutos dessa Sociedade é Carmem G. Burgert Schiavon, Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), no seu artigo “A primeira sociedade de emancipação de escravos do Brasil”[27]:

Art. 1º – O fim da sociedade é promover a emancipação de escravos na província do Rio Grande.

Art. 3º – Cada sócio tem a obrigação de angariar subscritores para a sociedade.

Art. 4º – A contribuição anual é de 6$000 para o fundo de emancipação.

Art. 5º e 6º – Todo o fundo de emancipação é para alforriar escravas; quaisquer despesas miúdas de anúncios, impressos etc., são por conta dos sócios fundadores; – só poderão ser alforriadas escravas entre oito e vinte e cinco anos.

Art. 7º – A alforria será por sorteio sobre o número de ordem das escravas matriculadas; e estas para se habilitarem contribuirão com 5$000 réis, e trarão o consentimento de seus senhores e a declaração da quantia que estes pretendem pela liberdade.

Art. 9º 10º 11º – O sorteio terá lugar cada vez que haja dinheiro para uma alforria; e logo que à escrava saia a sorte da liberdade, a Diretoria da Sociedade tratará com o senhor sobre o preço da alforria; se não chegarem a um acordo, entrará o número outra vez para a urna, e se procederá a novo sorteio.

Carmem G. Burgert não conseguiu encontrar os estatutos por completo, e informa que para realizar a sua matrícula junto à Sociedade de Emancipação, a escrava deveria pagar uma espécie de taxa de inscrição no valor de 5$000 réis e apresentar uma carta com a autorização do seu proprietário para a realização de sua inscrição junto à Sociedade (o valor a ser pago por sua alforria também deveria constar nesta carta). Continua Carmem:

A forma para a realização da libertação, como previa o estatuto, consistia no sorteio, e assim o fizeram. O primeiro número contemplado foi o três, que pertencia à escrava Amélia (sua proprietária solicitava a quantia de 2:000$000 para sua libertação); o outro número sorteado foi o oito, pertencente à escrava Cecilia, a qual seria libertada mediante o pagamento de 800$000 réis. Após os sorteios, partiram o Sr. João Landell (presidente da Sociedade) e o Sr. João Frick para a compra das alforrias das respectivas escravas.

A primeira visita foi à residência de Clara Vieira de Castro, proprietária da escrava Amélia. Na conversa com D. Clara, disseram-lhe que a diretoria da Sociedade havia decidido pagar, pela libertação da referida escrava, a quantia de 1:200$000 réis (mesmo sabendo que a exigência da proprietária era de 2:000$000 réis). A proprietária salientou que esse ponto não importava, pois, como estimava muito o trabalho da mucama, não pretendia libertá-la e que só havia permitido a sua inscrição, porque a mesma tinha insistido muito e que o fizera “por condescendência com a escrava, mas nunca com a ideia de que a sociedade a emancipasse”.

Diante dessa circunstância, o número da escrava Amélia foi novamente reposto e procedeu-se a novo sorteio. Para surpresa, outra vez foi sorteado o número três, ou seja, o da referida escrava. Como forma de solucionar o problema, os organizadores pensaram, inicialmente, na devolução dos 5$000 da mucama Amélia e na sua retirada do sorteio, tendo em vista que a Sociedade, conforme os estatutos, não poderia pagar mais de 1:2000$000 réis. Entretanto, a Sociedade rejeitou esta proposta e resolveram expor o acontecido à proprietária da escrava.

Contudo, de acordo com o relato de João Frick, logo a escrava Amélia ficou sabendo do ocorrido e ela mesma conseguiu, em apenas 3 dias, a quantia de que precisava para a compra da sua libertação (os 800$000 réis que estavam faltando).

Não é difícil encontrar em atas de Lojas maçônicas, sempre numa ocasião festiva, ou em inaugurações a distribuição de alforrias, exemplo da Ata de fundação da Loja Philantropia e Liberdade:

Aos dezoito dias do mês de setembro de 1835 E:. V:. e 5835 V:. L:., reunidos em sua sede, sito à Rua da Igreja, nº 67, em lugar Claríssimo, Forte e Terrível aos tiranos, situado abaixo da abóbada celeste do Zenith, aos 30º sul e 5º de latitude da América Brasileira, ao Vale de Porto Alegre, Província de São Pedro do Rio Grande, nas dependências do Gabinete de Leituras onde funciona a Loj:. Maç:. Philantropia e Liberdade, com o fim de, especificamente, traçarem as metas finais para o início do movimento revolucionário com que seus integrantes pretendem resgatar os brios, os direitos e dignidade do povo Riograndense. A sessão foi aberta pelo Ven:. Mestre, Ir:. Bento Gonçalves da Silva. Registre-se, a bem da verdade, ainda as presenças dos IIr:. José Mariano de Mattos, ex- Ven:., José Gomes de Vasconcellos Jardim, Pedro Boticário, Vicente da Fontoura, Paulino da Fontoura, Antônio de Souza Neto e Domingos José de Almeida, o qual serviu como secretário e lavrou a presente ata. Logo de início o Ven:. Mestre, depois de tecer breves considerações sobre os motivos da presente reunião, de caráter extraordinário, informou a seus pares que o movimento estava prestes a ser desencadeado. A data escolhida é o dia vinte de setembro do corrente, isto é, depois de amanhã. Nesta data, todos nós, em nome do Rio Grande do Sul, nos levantaremos em luta contra o imperialismo que reina no país. Na ocasião, ficou acertada a tomada da capital da província pelas tropas dos IIr:. Vasconcellos Jardim e Onofre Pires, que deverão se deslocar desde a localidade de Pedras Brancas, quando avisados. Tanto Vasconcellos Jardim como Onofre Pires, ao serem informados, responderam que estariam a postos, aguardando o momento para agirem. Também se fez ouvir o nobre Ir:. Vicente da Fontoura, que sugeriu o máximo cuidado, pois certamente, o Presidente Braga seria avisado do movimento. O Tronco de Beneficência fez a sua circulação e rendeu a medalha cunhada de 421$000, contados pelo Ir:. Tes:. Pedro Boticário. Por proposição do Ir:. José Mariano de Mattos, o Tronco de Beneficência foi destinado à compra de uma Carta da Alforria de um escravo de meia idade, no valor de 350$000, proposta aceita por unanimidade. Foi realizada poderosa Cadeia de União, que pela justiça e grandeza da causa, pois em nome do povo Riograndense, lutariam pela Liberdade, Igualdade e Humanidade, pediam a força e a proteção do G:. A:. D:. U:. para todos os IIr:. e seus companheiros que iriam participar das contendas. Já eram altas horas da madrugada quando os trabalhos foram encerrados, afirmando o Ven:. Mestre que todos deveriam confiar nas LL:. do G:. A:. D:. U:. e, como ninguém mais quisesse fazer uso da palavra, foram encerrados os trabalhos, do que eu, Domingos José de Almeida, Secretário, tracei o presente Balaústre, a fim de que a história, através dos tempos, possa registrar que um grupo de maçons, homens livres e de bons costumes, empenhou-se com o risco da própria vida, em restabelecer o reconhecimento dos direitos desta abençoada terra, berço de grandes homens, localizada no extremo sul de nossa querida Pátria. Oriente de Porto Alegre, aos dezoito dias do mês de setembro de 1835 da E:. V:., 18º dia do sexto mês, Tirsi, da V:. L:. do ano de 5835.|Ir Domingos José de Almeida – Secretário.[28]

O mesmo podendo-se dizer, do outro canto do país, da “Fraternidade Cearense”, conforme Tenório D’Albuquerque[29]:

A Loja Maçônica “Fraternidade Cearense”, onde estavam alistadas a nobreza e a opulência de Fortaleza, alforriava a bom preço, nas suas festas levas inteiras de cativos, e nas famílias de maçons os grandes regozijos eram registrados com cartas de liberdade. Sucessivas eram as subscrições populares para o mesmo fim, e de sua parte, o governo deu o ponto alto instituindo um fundo especial de 15 contos de réis por ano, para a manumissão de cem escravos que fossem nascendo e levados à pia batismal, de preferência do sexo feminino, (Lei nº 1.254, de 28 de dezembro de 1868).

O Ceará foi o primeiro estado a abolir a escravidão, em conseqüência da sua forte participação, o presidente do estado, Dr. Sátiro Dias, foi afastado do governo do Ceará pelo Conselheiro Lafayete. Ainda sobre a atuação no Ceará, Tenório D’Albuquerque continua:

Governava o Ceará, o maçon Dr. Sátiro Dias. A Maçonaria do Ceará, também se condoera da situação aflitiva dos escravos, comungava com eles, em sua imensa dor, compartilhava moralmente de seus suplícios. Era intenso, eficiente, diuturno, o trabalho maçônico, em prol da libertação da escravatura. Reuniram-se os maçons para epilogar a tragédia dos africanos. Tomaram uma deliberação decisiva e, no dia 25 de março de 1884, o Dr. Sátiro Dias assinava um decreto extinguindo a escravidão no Ceará, emancipando todos os seus escravos restantes, nada menos de 19.588.

Mais curioso foi a atuação da Sociedade Cearense Libertadora, fundada em 1880, contando com 225 sócios no momento da fundação. Seu membro, João Cordeiro, protagonizou uma ação que havia começado com um juramento em cima de um punhal, que ele havia atirado sobre a mesa numa reunião maçônica. Os que juraram, prometeram matar ou ser morto em bem da abolição. Os estatutos da revolucionária organização maçônica eram resumidos: Art. 1º Um por todos e todos por um; Parágrafo Único – A Sociedade libertará escravos por todos os meios ao seu alcance. Os sócios ainda tomaram nomes de guerra. Juntar-se-á a essa sociedade Francisco José do Nascimento, mais conhecido como Dragão do Mar, que liderou um movimento de recusa de embarques de escravos nas praias do Ceará. Além desses atos mais extremos, como furto de negros, a sociedade também fundou o jornal “Libertador”.

Foi Mossoró, no Rio Grande do Norte, a primeira cidade do Brasil a abolir a escravidão. Também lá a participação da maçonaria foi relevante. A ideia de fundar uma sociedade libertadora veio do Ceará, quando o casal Romualdo Lopes e D. Amélia Dantas, chegaram em Mossoró em 1882, trazendo uma mensagem da maçonaria de Fortaleza para a de Mossoró. Essa mensagem concitavam os maçons a ingressarem na luta à favor dos negros.

(…) E foi o próprio Romualdo que promoveu a fundação da “Libertadora Mossoroense”, entidade criada para esse fim.

Na noite de 24 de dezembro de 1882, véspera de natal, há uma sessão solene na Maçonaria destinada a alforriar as escravas Herculana, pertencente à viúva Irinel Soter Caio Wanderley e Luzia, da firma Cavalcanti & Irmãos. No momento em que alforriavam estas escravas, D. Amélia Dantas, num rasgo de entusiasmo, se ergue da cadeira e beija chorando as escravas libertas. Despertava, nesse momento, para a imortalidade. [30]

Portanto a ideia não foi original de Mossoró, ela foi exportada de Fortaleza pela maçonaria. Embora em Mossoró a libertação tivesse vindo antes do Ceará.

Mas essas sociedades libertadoras, e outros empreendimentos, fundados por maçons, não eram constituídos somente por maçons, mas também pelos que não eram, pois uma sociedade não maçônica, embora dirigida por maçons, poderia congregar mais participantes e essa conexão traria mais força à luta. Sobre isso encontramos um paralelo com o livro de Tenório D’Albuquerque[31]:

A ideia da abolição da escravatura vingou em Mossoró. Os mossoroenses abraçaram-na com entusiasmo, especialmente a Loja Maçônica 24 de Junho que naquela época (1882), estava em pleno florescimento. (…) Ainda assim em 1882 eram alforriados os primeiros escravos, pela verba do “fundo de emancipação” e por donativos de particulares, membros da Sociedade da Maçônica 24 de Junho.
(…)
Por iniciativa da Loja 24 de Junho, fundada em 1873. Criouse a Sociedade Libertadora Mossoroense, em 6 de janeiro de 1883. A sua primeira diretoria ficou assim constituída: Joaquim Bezerra da Costa, presidente; Romualdo Lopes Galvão, vice dito; Dr. Paulo Leitão Loureiro de Albuquerque, secretário; Cel. Francisco Gurgel de Oliveira; Manuel Cirilo dos Santos, Salvador Bráulio de Albuquerque Montenegro, Manoel Benício de Melo, Conrado Maia (era o suíço Meyer), Francisco Romão Figueira.
Eram maçons, os que estão grifados. Como se vê predominavam na diretoria os elementos da Maçonaria.

Em São Paulo, novamente é citada a Loja América por sua ação libertadora, dessa vez por Elciene Azevedo[32], vale notar a característica urbana predominante no movimento abolicionista:

As lojas maçônicas situadas nos núcleos suburbanos também se constituíram em importantes espaços de discussões e ações antiescravistas. Sem apresentarem o radicalismo das associações libertadoras surgidas nos últimos anos da escravidão brasileira, auxiliavam escravos a conquistarem suas alforrias. A Loja América, estabelecimento comercial localizado em São Paulo, mantinha um fundo dedicado à emancipação de escravos e também financiava ações de liberdades. A loja direcionava os advogados pertencentes à maçonaria para defenderem os escravos requerentes e pagavam os encargos judiciais.

Como veremos mais adiante, um desses advogados, como citado por Elciene Azevedo, foi Luiz Gama. E aqui cabe ressaltar, o suporte dado aos abolicionistas maçons, no caso de Gama de apóia-lo e através da bucha mantê-lo na faculdade de Direito; no caso de José do Patrocínio ajudando nos custos da viagem ao Ceará em 1882, para incentivar aquela campanha abolicionista.

Na mesma linha nos informa sobre Vitória, no Espírito Santo, Mariana de Almeida Pícoli, em sua Dissertação de mestrado[33]:

Destacam-se neste contexto as irmandades religiosas e a loja maçônica União e Progresso, ambos locais de encontro dos membros da elite. A loja maçônica representou um profícuo espaço de debate político durante os últimos anos da escravidão em Vitória. Entre seus frequentadores encontravam-se José Feliciano Moniz Freire e seu filho José de Mello Carvalho Moniz Freire, ambos os redatores dos principais jornais antiescravistas da capital o Jornal da Victoria e o A Província do Espírito Santo, respectivamente. Este último em sociedade com Cleto Nunes, outro importante integrante da maçonaria e contando com a participação de Francisco de Lima Escobar, Francisco Urbano Vasconcelos, Manoel Pinto Aleixo Netto, Alpheo Monjardim, Tito Machado, Basílio Carvalho Daemon, entre outros representantes engajados na campanha contra a escravidão. Afonso Cláudio, figura de destaque do movimento abolicionista, embora não fosse maçom, lecionava no Liceu da loja maçônica União e Progresso como professor de História. [34]

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[22] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[23] – Como são conhecidos popularmente os maçons no Brasil.

[24] – Site da Loja Perseverança III, Disponível em: . Acesso em: 10 fevereiro 2010.

[25] – CASTELLANI, José. Os maçons e a abolição da escravatura. Londrina: A Trolha, 1998.

[26] – IDEM.

[27] – SCHIAVON, Carmem G. Burgert. A primeira sociedade de emancipação de escravos do Brasil. 4º. Encontro escravidão e liberdade no Brasil meridional, Curitiba, 1, 2009.

[28] – Wikisource: Ata Nº 67 da Loja Maçônica Philantropia e Liberdade.

[29] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[30] – GERALDO, Maia. Tributo à uma abolicionista. O Mossoroense, Mossoró, fevereiro de 2009, Nossa História.

[31] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[32] – AZEVEDO, Elciene. Orfeu de Carapinha: a trajetória de Luiz da Gama na imperial cidade de São Paulo. Campinas: Editora da UNICAMP, 1999.

[33] – PÍCOLI, Mariana de Almeida. Ideias de liberdade na cena política capixaba: o movimento abolicionista em Vitória (1869/1888). 2009. 142 fls. Dissertação (Mestrado Centro de Ciências Humanas e Naturais). Universidade Federal do Espírito Santo, Espírito Santo.

[34] – IDEM.

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A Temperança e o Protrepticus de Aristóteles

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O intuito desse breve trabalho é relacionar a virtude da temperança com o Protrepticus de Aristóteles, obra cujo conteúdo trata-se de uma exortação à filosofia, feita para um certo Themison, que ao que tudo indica, seria um rei numa cidade do Chipre. Logo no início do texto, Aristóteles mostrará ao rei por que a filosofia é a realização natural do homem e o maior dos bens, e durante os primeiros capítulos dá as razões por que ela deve ser procurada. Pretendo mostrar como a temperança, ou sophrosyne, é de suma importância para aquilo que Aristóteles tem em mente: mostrar a constituição do homem e da natureza para assim convencer ao rei as razões do filosofar. Vou me apoiar principalmente nos primeiros capítulos do Protrepticus, o Cármides de Platão e também me guiarei por autores que esclareçam o conceito de sophrosyne nos filósofos gregos.

Sophrosyne

A sophrosyne é o assunto do diálogo Cármides, de Platão, e ela geralmente é traduzida como temperança ou moderação[1]. A etimologia da palavra sophrosyne apresenta os seguintes elementos:

  • saos ou sos – são, salvo, em boa saúde;
  • phron/phren – coração, espírito;
  • syne, sufixo que indica qualidade.

No Cármides nenhuma definição precisa é dada, segundo o dicionário de termos filosóficos de F.E.Peters, mas o que Platão tem em mente ao falar de sophrosyne é o conceito pitagórico de harmonia e também as palavras de Heráclito no fragmento 112, onde ele diz que: “Sophrosyne é a maior das virtudes, e sabedoria é falar e agir na verdade, fazendo jus a natureza das coisas”. Nesse diálogo, Sócrates diz ser a moderação ou temperança, um grande bem e verdadeira fonte de felicidade. Podemos dizer que o conceito de sophrosyne é um modo de agir e de pensar, um modo de entender os limites, um modo de se relacionar com a natureza das coisas. O contrário da sophrosyne é a hybris, o excesso, a falta de medida.

Apesar de o conceito de sophrosyne apresentar concepções populares, práticas, religiosas, políticas dentre outras, vamos nos ater a dois aspectos principais. Na introdução da edição portuguesa do Cármides feita por Francisco de Oliveira, ao enumerar esses diferentes aspectos, ele diz acerca da sophrosyne encarada sob o aspecto do autoconhecimento: “ …este plano é primordial na estrutura do Cármides e no diálogo aporético, devendo situar-se no âmbito mais vasto da identificação de virtude e conhecimento e da unificação das virtudes”. Mais à frente faremos o paralelo disso com o Protrepticus. Há também o aspecto ético ou prático da sophrosyne, que é a prática do bem ou a prática da virtude, em oposição aos prazeres[2].

Aqui portanto, já podemos vislumbrar algo acerca dessa relação, já que o conselho que Aristóteles dá ao rei no primeiro capítulo do Protrepticus e suas justificações nos primeiros capítulos a respeito da hierarquia da natureza, com a razão no topo dessa hierarquia, mostrarão em que sentido o filósofo vai se relacionar ou vai se apoiar na sophrosyne para atingir a vida feliz. Sendo a razão aquela que deve imperar sobre todas as outras partes, tanto em Platão como em Aristóteles, o Protrepticus deixa claro qual a maneira do filósofo agir para atingir a vida feliz.

Necessário se ater por instantes as noções de Platão e Aristóteles das partes do homem. Em Platão, há uma divisão da alma em três partes, a racional, a irascível e a concupiscente; a alma bem ordenada, aquela alma que tem harmonia entre as partes, é a alma cuja parte racional domina as outras duas. Em Aristóteles, como veremos, isso se dá numa divisão tripartida também, há uma parte vegetativa, uma sensitiva e uma parte racional. Aquele que deseja iniciar na filosofia deverá por meio da temperança estabelecer o que é melhor para si e para os outros, segundo a ordem natural, esta portanto o levará da pratica rumo a sabedoria.

Por fim, devo dizer que a virtude da temperança ou da justiça em Aristóteles estão relacionadas com a ética. A parte sensitiva do homem, que estaria acima da parte vegetativa e abaixo da parte racional, é aquela que controla as paixões, por meio do intelecto ou dianóesis, ela busca encontrar a justa medida na prática dessas virtudes.

O Protrepticus

O primeiro capítulo do Protrepticus Aristóteles diz a Themison que aquele que tem muito dinheiro, está mais apto a filosofar, pois tem mais tempo para estudar. Porém, sem sabedoria, esse acúmulo de bens intelectuais só produziria loucura: “…a felicidade não consiste em adquirir muitas coisas, mas sim na maneira pela qual a alma é disposta.” Para o homem cuja alma está em desarmonia, está mal disposta, a riqueza, a força, a beleza não podem ser bens, essas pelo contrário, são nocivas frente a essa desarmonia. Aqui como no Cármides, há uma preocupação com a sanidade do espírito, o são de espírito pode esperar usufruir dos bens do mundo com a devida moderação e harmoniosamente, mas aqueles cuja alma é destemperada, só podem aguardar um fim trágico, já que a falta de temperança aliada a tais bens, só levariam tal homem a cometer a hybris, a loucura como aquela retratada na peça de Ésquilo, Os Persas, onde Xerxes age em oposição ao comportamento moderado.

Estabelecido portanto esse primeiro passo, que a alma desordenada não poderá usufruir de modo correto os bens, Aristóteles inicia uma explicação acerca da constituição das coisas, a ordem na qual o homem e consequentemente sua razão está inserida, e mostra de que maneira a filosofia é a realização natural dos homens. Vamos tentar acompanhar esses passos.

Aristóteles explica que entre as coisas, algumas são engendradas por um pensamento e por uma arte, enquanto outras são engendradas pela natureza. Algumas porém são engendradas pelo acaso, e nesse caso, não pode haver finalidade, e portanto não pode haver realização. Tudo que é engendrado segundo a arte e a natureza é engendrado segundo um objetivo, e esta é sua melhor realização. Na natureza, Aristóteles dá o exemplo da gênese das coisas:

“…não é verdade que algumas sementes, em qualquer terra caiam, germinam sem proteção, ao passo que outras precisam, além disso, da arte do cultivador? Quase do mesmo modo, alguns animais dão conta, por si mesmos, de toda a sua natureza, aio passo que o homem precisa de muitas artes para a sua preservação, tanto por ocasião da gênese primeira, quanto mais tarde, durante a nutrição.”

Toda a gênese se produz com vistas a um objetivo, esse objetivo pelo qual a coisa foi engendrada é o mesmo pela qual ela deveria ser engendrada. E a natureza engendra os seres para o melhor, não para eles destruírem ou prejudicar essa ordem. Podemos ver nitidamente que o que está em foco nessas passagens é que tudo aquilo que é engendrado por uma arte ou pela natureza é feito segundo uma finalidade, e essa finalidade é aquilo pelo qual o ser foi engendrado, é o seu bem maior. A realização natural é o que se realiza por último lugar na ordem da gênese, no homem, primeiro se realiza aquilo que se refere ao corpo, e por último a alma, que é a realização do melhor. Dando sequência a esse esquema, a última parte da alma, a melhor, é a parte racional. “E realmente, se a sabedoria é, em conformidade com a natureza, nossa realização, então, de todas as coisas, exercer a sabedoria será a melhor.”

Dentro do que foi dito acerca da realização do homem, ele é engendrado segundo a natureza, mas sua constituição de corpo e alma faz com que o corpo esteja subordinado ao fim maior que é a alma, pois ela vem depois desse na ordem natural, e na alma, realizar a virtude com vistas à sabedoria. Aqui fica claro aquela tripartição da alma, estando as virtudes subordinadas ao bem maior que é a aquisição da sabedoria.

O que está sendo dito ao rei no Protrepticus é que a natureza e a arte, que a imita, trabalha segundo uma ordem, essa ordem só pode funcionar bem segundo o fim para qual a coisa foi feita, se houver harmonia entre as partes que constituem o todo. Diz Platão na República, 430e: “ A temperança é uma espécie de ordenação, e ainda o domínio de certos prazeres e desejos…”. Essa ordenação é um alinhamento com a natureza das coisas, o meio mais propício de fazer bem as coisas, de se atingir o fim para o qual a coisa foi feita.

Na constituição do homem, portanto, seu fim último, o motivo para o qual ele foi engendrado é o uso da razão, mas a razão ordenada, a razão dentro de uma harmonia, pois essa razão sem a ordenação devida se transforma em loucura.

A temperança, sophrosyne, é o elemento inicial das lições ou exortações que Aristóteles está mostrando ao rei, através das virtudes como a justiça e a temperança, o rei poderá ser sábio. No primeiro capítulo ela se mostra do ponto de vista prático e ético, ao evitar a hybris, o homem pode esperar o bem para ele e para os outros, e na sequência do texto, ao mostrar como age a natureza e as artes, Aristóteles busca mostrar como essa mesma natureza se dá no homem, qual a maneira de atingir o fim último do homem, aqui ela se mostra não como virtude prática, mas sim como autoconhecimento. Esse autoconhecimento é a sabedoria[3], e essa é uma virtude intelectual, enquanto a sophrosyne é uma virtude prática. Há em Aristóteles uma divisão entre virtudes práticas e intelectuais. Mas nessa breve exposição, está além de minhas capacidades esgotar tal assunto. O fato é que uma virtude prática como a sophrosyne pode ser justificada no Protrepticus pela sua relação com a ordenação da natureza e do homem.

Dando sequência ao texto, Aristóteles dirá que: “ …somos capazes de aprender as ciências que tratam do que é justo e lucrativo…”, e que “…o anterior é sempre mais passível de conhecimento do que o posterior, e o que é melhor por natureza…”. Aqui há novas justificativas, a primeira da possibilidade de aprender as ciências do justo, ou seja, é possível o homem saber a respeito do lugar das coisas, da harmonia entre as coisas, e em segundo lugar, que o anterior tem sempre mais atributos de ser conhecido que o posterior, isso por causa da relação de causa e efeito, o posterior depende do anterior na ordem das coisas, é claro, mas o que Aristóteles quer deixar claro aqui é que será em vista à intelecção que todas as coisas deverão ser escolhidas pelo homem, pois todo o resto da hierarquia das coisas subsiste em função do melhor.

A sabedoria do filósofo será portanto a consciência dessa ordem nas coisas, a hierarquia da natureza dentro e fora dele. As leis por exemplo são um produto dessa razão e a consciência da lei a sabedoria dessa ordem, mas a atitude, o submeter-se a elas será a sophrosyne, a temperança é a prática, uma virtude prática, é se por em conformidade à ordem das coisas e o regular-se conforme a ordem natural do homem, fazendo com que a parte racional dirija as outras partes do homem. A sophrosyne, que aqui traduzo por temperança, ou moderação, é a ordenadora das virtudes, esse reconhecimento do lugar nas coisas, o entrar em harmonia com a ordem é também uma atitude de humildade, onde o homem sabe o seu lugar e não ousa se por acima daquilo que deve, a virtude da justiça também se assemelha à temperança, já que a justiça, segundo W.K.C. Guthrie é ocupar-se de seus próprios assuntos, cada um fazendo o que deve ser feito e segundo o modo como deve ser feito. Eis aqui portanto novamente a noção de ordem, de harmonia, ser temperante é estar não só consciente dessa ordem mas agir segundo essa ordem.

É interessante que alguns dizem ser a temperança a maior das virtudes, a que ordena todas as outras virtudes. O homem temperante é o homem são, aquele que sabe a ordem de importância das coisas.

Considerações finais

A temperança, virtude que mostra ao homem o seu lugar e o faz agir segundo aquilo que se deve fazer, ou nas palavras de Sócrates no Cármides, “…é saber o que se sabe e o que se não sabe.”, está presente no Protrepticus de Aristóteles nos conselhos que esse dá ao rei. Ao mostrar a hierarquia das coisas da natureza e do homem, Aristóteles estabelece uma harmonia oriunda da estrutura das coisas mesmas, segundo Hilary Armstrong “ A vida moral do homem deve formar um todo ordenado e dirigido a um fim púnico, da mesma forma que o universo forma um sistema ordenado dirigido a um fim único”, o filósofo deverá ser temperante para alinhar prática e pensamento, e assim não agir de forma errada, que poderá leva-lo a cometer coisas perniciosas para si e para os outros.

Autor: Fernando Gomez

Fonte: Revista Pandora

Notas

[1] – Nas notas da edição portuguesa do Cármides, Francisco de Oliveira diz que: “Como se vê, irá ser difícil uma tradução exata para o termo: prudência, sensatez, sabedoria, moderação, temperança.

[2] – Esses aspectos são defendidos por Crítias ou por Cármides no diálogo, e o caráter aporético do Cármides força-nos a conceber nesses termos a temperança, para que ela possa relacionar-se com um fim estabelecido em Aristóteles.

[3] – Isso nos remete a fórmula conhece-te a ti mesmo. Esse preceito délfico é caro a Sócrates, por causa da identificação de conhecimento e virtude e pelas discussões acerca da possibilidade de se ensinar as virtudes, como no Ménon 87c-89ª, no Protágoras ou em Eutidemo 282c. A identificação de sophrosyne com a inscrição délfica feita por Crítias no Cármides, é a interpretação tradicional. Sobre isso as notas de rodapé de Francisco Oliveira na edição do Cármides de Universidade de Coimbra, também E. Martens.

Referências Bibliográficas

F. E. Peters, Greek Philosofical Terms. A history Lexicon, New York, University Press, 1967. Platão, Cármides, introdução, versão grego e notas de Francisco de Oliveira, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1981. Aristóteles, Da Geração e Corrupção Seguido de Convite à Filosofia, São Paulo, Landy, 2001. Platão, República, tradução de M. H. Rocha Pereira, Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1976. W. K. C. Guthrie, Los filósofos Griegos, México DF, Fondo de Cultura Econômica, 2008. A. H. Armstrong, Introducción a la Filosofia Antigua, Buenos Aires, Eudeba, 2007.

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O Contributo da Maçonaria para a Abolição da Escravatura – Parte II

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A Elite dos bacharéis: maçonaria como espaço acadêmico

Se a maçonaria teve influência na corte e cooptava seus membros da elite do país, e sendo elite, porque a vontade da maçonaria, de libertar os escravos, não se fez prevalecer no governo para que a abolição fosse antecipada?

Para responder essa pergunta é preciso investigar o que é “elite”, quais os tipos, como ela é formada, e qual o poder de cada tipo, por fim, saber em qual tipo de elite a maçonaria se enquadrava. Partindo daí, indo mais além, como atuava essa elite maçônica, o que significava pertencer a esse tipo de sociabilidade?

Citando Adrius Estevam de Noronha que escreve:

O termo elite possui uma flexibilidade conceitual ampla, mas é utilizado majoritariamente em pesquisas para classificar setores que detém o poder político ou econômico. Além disso, o conceito nomeia estratos sociais vinculados à burocracia, ao conhecimento, à religião, sem mencionar os grupos estrategicamente organizados em sociedades secretas, como a maçonaria. [11]

Antes disso ele afirma:

De acordo com Duma[12] (2003, p. 101), os critérios tradicionais para caracterizar “elite” podem ser identificados por cinco pontos fundamentais: “o nível de fortuna, o peso da genealogia, as funções ocupadas, a questão da identidade de um grupo e a maneira pela qual ela vai se definir através de um culto da distinção e da aparência”.

Mais adiante no mesmo artigo ele faz uma tipificação do conceito de elite:

O conceito de elite apresenta, como se percebe, uma descrição bastante variável. Em todas as organizações sociais, as relações de poder fazem parte e uma complexa estrutura psicológica, cultural e social. E sempre haverá um setor que detém o mando ou coordena as ações de um determinado grupo. Portanto, em termos teóricos, é necessária uma tipificação do conceito de elite política, econômica, intelectual, sindical, agrária ou burocrática. 

Continua citando Weber[13] na sua tese em torno dos Três Tipos Puros de Dominação:

A partir da definição do “tipo ideal”, Weber caracteriza as três formas de dominação: a racional, a tradicional e a carismática. Estas três formas possuem a chamada “crença na legitimidade”, mecanismo que é incorporado ao direito e utilizado pela burocracia estatal. A dominação racional se consolida na esfera jurídica como poder incorporado pela sociedade. A dominação burocrática seria, tecnicamente, seu tipo mais puro, que pode ser modificado mediante um estatuto que sancione seu funcionamento e está centrado na disciplina do serviço. Esse processo será encontrado na estrutura moderna da empresa capitalista e no Estado Nacional, apesar de Weber afirmar que a burocracia não é o único tipo de dominação legal. 

Como a vertente dos freemasons e dos franc-maçonneries, que influenciaram a maçonaria luso-brasileira, sempre estive alinhada com o Iluminismo, vale citar, para que seja possível um melhor entendimento, o seguinte trecho do artigo de Adrius Estevam:

Já o pensamento de Hobbes acerca do Estado Moderno estabelece a ponte entre o Renascimento e o Iluminismo, representando mais um passo no processo de autonomização e laicização do Direito e do Estado. (…)
A elite política insere-se nas instituições do Estado e utiliza esse poder de força coercitiva para o exercício de sua dominação.(…) A racionalização do pensamento jurídico ganha corpo nas análises de Hobbes. Para Maltez
[14], o direito no sistema de Hobbes é identificado diretamente com o poder. Vale destacar que o impacto das ideias do Renascimento produz a teoria fundamental para o Estado Moderno e estrutura a forma de dominação da elite política neste Estado. 

Como se percebe, o enquadramento da maçonaria na tipificação do conceito de elite no Brasil é complexo. Isto porque a maçonaria foi elitista sim, mas uma fraternidade heterogênea: não se apresenta formada por uma elite política, mais que isso, tem em seus quadros, médicos e poetas; não formada por uma elite econômica, tem estudantes de direitos e jornalistas abolicionistas; não por uma elite intelectual somente, porque indubitavelmente também teve um importante papel político; e também não somente agrária ou burocrática.

E sobre complexidade o mesmo artigo de Adrius Estevam segue citando Gramsci[15], que formulou suas ideias no séc. XX:

De acordo com Gramsci, na medida em que a sociedade se torna complexa, fruto da modernização econômica e social, os atores políticos buscam se estruturar politicamente, através de movimentos minuciosamente calculados e estratégicos, dentro da sociedade civil, tendo como objetivo buscar apoio fornecido pela burocracia das instituições sociais. Nesse caso, os grupos jornalísticos, as burocracias das associações empresariais e dos centros culturais passam dos bastidores para o centro do palco na arena política.

Concluindo, até aqui, por ser heterogênea, a maçonaria acabou atuando em diversos estratos da complexa organização social brasileira. Por isso, atenta às transformações do seu tempo, atuou de maneira diversificada e coordenada, no intuito de garantir sua dominação racional, ou que pelo menos seus ideais liberais assim as tivesse garantida, se consolidando na esfera “jurídico-burocrática”, visto que, como citado acima, o direito e suas nuances, estão diretamente ligados ao poder. E correspondendo à Gramsci, ampliada a atuação dos maçons entre os grupos jornalísticos, nas burocracias das associações empresariais e dos centros culturais, ela passou dos bastidores para o centro do palco na arena política, mas tudo foi a seu tempo.

E de que maneira a maçonaria tratou de garantir sua Dominação Racional? De maneira influente e proeminente na criação das duas primeiras Academias de Direito do Brasil: a de Olinda e de São Paulo, que ficava no Largo de São Francisco.

Sobre isso, José Carlos de Araújo Almeida Filho, na sua dissertação de mestrado para a Universidade Gama Filho, na área de concentração Direito, Estado e Cidadania com o título O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX, já na introdução esclarece:

Durante a pesquisa realizada em torno da origem do Ensino Jurídico e da Maçonaria, identificamos uma sociedade secreta instalada na Faculdade de Direito de São Paulo – a primaz no Brasil, juntamente com a de Olinda –, denominada Burschenschaft, ou, simplesmente, Bucha, como ficou conhecida. A Burschenschaft alemã, inspiradora da Bucha, fora uma sociedade secreta estudantil com nítidos propósitos de abalar o poder.

A sociedade em questão nasceria poucos anos depois da instalação dos Cursos Jurídicos e foi de grande importância nos destinos políticos e jurídicos do Brasil. Afonso Arinos, citado pelo Prof. Alberto Venâncio, instiga-nos ao afirmar que “seria altamente interessante a pesquisa que comprovasse as ligações entre a Burschenschaft Paulista e o acesso aos mais altos postos políticos desde o Império”. Os mais altos postos políticos se mesclam, no ecletismo característico do Séc. XIX, com o Direito em todas as suas ramificações e áreas de atuação. 

(…)

Desta forma, duas elites são construídas (ou instaladas) no Brasil, e com uma ligação entre as mesmas – a maçônica e a dos bacharéis. A elite maçônica se constituiu pela acessão ao poder. E quem detinha o poder, até, pelo menos, o início do Séc. XX, eram os estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco que, em sua grande maioria, faziam parte da Bucha.[16]

Esse trabalho de José Carlos possui quatro capítulos. No primeiro, trata de conceituar o que é a Maçonaria e os primeiros passos para a construção dos cursos de direito; o segundo debate a localização dos cursos de direito, as ideias de cientificismo nos cursos e a influência maçônica e da Bucha; no terceiro a Bucha, a inexistência de partidos políticos e a República; por fim a contribuição dos símbolos maçônicos e do positivismo na formação dos cursos de direito.

Então no primeiro capítulo do seu trabalho ele já expõe alguns resultados de sua pesquisa que liga os maçons à formação dos cursos de direito:

Com base na pesquisa destes autores, encontramos um elo entre Maçonaria, sociedades secretas e movimentos pelo poder. Nesta inserção histórica e política, analisar-se-á o porquê dos Cursos Jurídicos no Brasil terem sido criados logo após a Independência do Brasil e, ainda, a razão de se encontrarem em São Paulo e Olinda. Ainda hoje se afirma ser a escola paulista positivista.
Havia necessidade de manter o poder com intelectuais e bacharéis – e esta manutenção consistia na ideia de talhar profissionais para ocuparem os mais altos cargos do Império – razão pela qual no Séc. XIX surge a figura descrita pela Ciência Política como Elite dos Bacharéis. Contudo, à inexistência de qualquer curso no Brasil, os mais abastados poderiam estudar em Coimbra e, com isto, poucos eram os bacharéis da época. Com a instalação dos Cursos Jurídicos no Brasil, moldados pela Maçonaria da época e instalados longe da Corte, por fortes motivos políticos, inicia-se uma nova fase no pensamento brasileiro.
Bacharéis para poder sustentar o poder, com conhecimentos jurídicos. Contudo, de forte natureza racionalista, como a própria Maçonaria e, posteriormente, com o advento da República, de forte caráter comtiano.

Mas José Carlos bebe da fonte de Teotônio Simões[17], que também desenvolveu uma tese de doutoramento sobre Os Bacharéis na Política, onde também aponta a ligação dos maçons e da Bucha com os cursos de direito:

Cogitações à parte, o fato é que, após Waterloo (1815), surgiria na Alemanha uma outra Sociedade, a Burschenschaft, integrada, entre outros, por remanescentes dos Iluminados. Um dos integrantes desta Sociedade organizaria, em São Paulo, na Academia de Direito, a sociedade secreta do mesmo nome, e seus membros também fariam parte da Maçonaria. A ligação dos Iluminados com os futuros bacharéis em Direito do Brasil ainda se daria através de Coimbra, de Verney e de Pombal, indiretamente.

Também se apóia na tese de Wander Bastos[18], que igualmente afirma ter existido uma elite imperial forjada no seio da Maçonaria e que perduraria até a Proclamação da República.

José Carlos ainda insere um gráfico que aponta o elevado número de bacharéis na política, e o local de formação, se foi por Portugal, Brasil ou outro país:

grafico

Então desta forma estava justificada a criação dos Cursos Jurídicos em 1827, ipso facto, ora que produziu a Elite dos Bacharéis. Essa atuação tática se mostra coerente com os ideais burgueses, de garantia e estabilidade de seus cargos. E ainda nas palavras de José Carlos, “justifica-se a manutenção no poder, tendo em vista a garantia [grifo meu] jurídica calçada no direito posto”.

Em Portugal, e também no Brasil, havia as Sociedades Filantrópicas, que eram, na maioria das vezes, Lojas Maçônicas sob denominações diversas, por causa das perseguições da inquisição. Desse modo, concomitante com a Bucha, tendo membros como Padre Antonio Diogo Feijó, Antonio Mariano de Azevedo Marques, Antonio Carlos Nogueira, dentre outros, tinha assim como ela (a Bucha), missão de angariar fundos para a manutenção das brilhantes mentes, dar suporte a eles e captar essas brilhantes mentes de São Paulo para a Maçonaria, cingindo com a propagação da função social do advogado.

Citando José Castellani[20], podemos ver como o Curso de Direito, ora, se tornava uma extensão da maçonaria, pois seus personagens e as questões da época que os afligiam, eram os mesmos da Academia e da Ordem, lentes e alunos frequentavam os mesmos âmbitos:

Antônio Carlos – sobrinho de José Bonifácio de Andrada e Silva – Venerável Mestre (Presidente) da Loja América, era lente da Faculdade de Direito e Rui, seu aluno. Apesar disso, este, assumindo o cargo de Orador da Loja, entrava, muitas vezes, em choque com a opinião do mestre, em Loja, principalmente em torno do movimento pela abolição da escravatura no Brasil, expondo suas ideias e fundamentando a sua discordância, com absoluto destemor, apesar de se expor a represálias no âmbito da Faculdade. Felizmente, Antônio Carlos era um homem de grande equilíbrio e descortino e entendeu as razões do seu aluno, jamais levando assuntos de Loja para outros locais. 

A formação dos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo, também se dava extracurricularmente, através dos círculos de romantismo, com grande apego das ideias liberais. Havia uma educação informal nos corredores da Arcada, de ideais influenciados pela maçonaria. Maçonaria e Academia se confundiam em espaço social e espaço acadêmico. Onde uma começava? Onde outra terminava?

Longe de ser simples, essa confusão, proporcionou uma sociabilidade, pelas Lojas, que contribuiu para a construção e mobilização das diversas forças sociais, não somente um canal de propagação do ideário liberal, que era o mote dos estudantes de direito, mas como espaço de construção de uma cultura política marcada pela prática do debate, da representação, da elaboração de leis e da substituição do nascimento pelo mérito como fundamento. Enfim, a Maçonaria, nesse contexto, foi também um espaço acadêmico, contribuindo na educação de diversos líderes, que no objeto dessa monografia, vale citar, comporão a lista dos maiores abolicionistas da história do Brasil, e o que todos esses ilustres maçons tinham em comum? A Bucha e o Curso de Direito: Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Eusébio de Queiroz, José do Patrocínio e Luiz Gama, dentre outros.

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[11] – NORONHA, Adrius Estevam. Instituições e elite política de Santa Cruz do Sul no contexto de internacionalização da Economia Fumageira (1960-1970). 2006. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Regional). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Rio Grande do Sul Brasil.

[12] – DUMA, Jean. Sobre as elites: abordagem historiográfica. Revista História. São Leopoldo: UNISINOS, v. 07, nº 08, p. 89 – 103, 2003.

[13] – WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Régis Barbosa, Elsabe Barbosa. 3ª edição. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000.

[14] – MALTEZ, José Adelino. Princípios de Ciência Política: Introdução à Teoria Política. Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa, 1996.

[15] – Antonio Gramsci (Ales, 22 de janeiro de 1891 — Roma, 27 de abril de 1937) foi um político, cientista político, comunista e antifascista italiano.

[16] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[17] – SIMOES, Teotonio. Os Bacharéis na Política – A Política dos Bacharéis.

[18] – BASTOS, Aurélio Wander. O Ensino Jurídico no Brasil. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2000.

[19] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[20] – CASTELLANI, José. PiratiningaHistória da Loja Maçônica Tradição de São Paulo. São Paulo: OESP, 2000.

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O Contributo da Maçonaria para a Abolição da Escravatura – Parte I

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Introdução

O tema em questão é de relevante importância histórica e política, principalmente por estar inserido entre os marcos de nossa História. Sabendo-se que esse tema é muito comentado, porém com poucos trabalhos publicados, continua sendo atraente para a busca de uma exploração maior.

Ao longo dos tempos muito se tem lido sobre a Maçonaria como uma instituição de marcante participação e influência na política.

Na história da política brasileira lê-se bastante que a mesma teve relevante participação, principalmente na Independência do Brasil e na Abolição da Escravidão.

O tema desse trabalho é sobre a participação da maçonaria, especificamente sua atuação para a Abolição, com destaque para o período entre 1815 a 1900, sua participação no processo de abolição da escravidão no Brasil.

Esse trabalho foi fruto de uma investigação, que procurou entender como era constituída a maçonaria no séc. XIX, qual a sua força política e social e como influenciou politicamente a Abolição no Brasil.

Será que a maçonaria tinha realmente força política para decidir no voto a abolição? E dentro da maçonaria havia uma coesão quando o assunto era abolição? Havia uma posição oficial da maçonaria quanto a esse assunto? Quais eram as formas de atuação da maçonaria para abolir a escravidão? Qual era o pensamento da maçonaria nesse século que fazia concordar com os ideais de abolição? A maçonaria só lutou pela abolição no Brasil ou em outros países também? Quais os principais nomes de maçons que tiveram participação no abolicionismo nesse período? E depois da abolição, será que os afrodescendentes foram largados à própria sorte? E como atuou a maçonaria imediatamente após a abolição?

Atualmente, a maçonaria começa a revelar um pouco da sua história, porém o que se encontra com facilidade nos sites, documentos e toda literatura produzida por maçons são registros enaltecedores, cabe-nos criticá-los. Existe um movimento de “abertura” das lojas para visitação pública, existem as reuniões secretas e as abertas, muitos livros estão sendo publicados, revistas especializadas em maçonaria revelam segredos da iniciação, de sua atuação no mundo e da vida dos seus membros. Mesmo assim muitas questões ainda precisam ser respondidas sobre a atuação da maçonaria na Abolição, e suas ações específicas nessa causa, bem como a urgência de se explorar o assunto por sua importância e falta de trabalhos publicados sobre esse tema. Portanto, tornar-se-á interessante explorar essa participação, o quanto mais possível, pois o próprio autor teve e sempre terá a ânsia e o desejo da verdade, embora sabendo que dificilmente os encontrará na sua plenitude.

É mister revelar se a maçonaria teve influência, através de seus seguidores, na formação de opinião para a construção do pensamento político; na manutenção de entidades filantrópicas para a libertação e emancipação do negro; na organização de quermesses e outros eventos para angariar recursos para compras de alforrias; no debate e na iniciativa de construção de uma educação emancipadora de caráter universal para o filho do pobre e do negro; na direção de jornais abolicionistas; no exército na figura do marechal Deodoro e de Floriano Peixoto, entre outros, que se recusaram a perseguir negros fugidos, e na ação individual de maçons como José do Patrocínio, Ruy Barbosa, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, José Maria da Silva Paranhos (tanto pai quanto filho, Visconde e Barão do Rio Branco, respectivamente), João Cordeiro e Francisco José do Nascimento (mais conhecido como Dragão da Abolição).

A maçonaria parece ter tido membros em diversas esferas, e na política não foi diferente. Exemplo disso é que o gabinete do Imperador D. Pedro I, era composto principalmente por pessoas que pertenciam aos quadros da instituição, com destaque especial para José Bonifácio de Andrade e Silva; e todas as leis libertadoras de escravos tiveram como seus autores maçons, como as leis Eusébio de Queirós, do Ventre Livre e dos Sexagenários.

Como instituição, a Maçonaria foi uma força, se comparada à Igreja Católica muito mais antiga e poderosa, que logo cedo se posicionou contra a escravidão. A Igreja Católica, só manifestou-se abertamente contra a escravidão em 1887, às vésperas da Abolição. Porque tantos expoentes da abolição como os citados acima saíram dos quadros da Maçonaria e tão poucos dos quadros da Igreja? E por que, dentre estes poucos que encontramos nos quadros da Igreja, coincidentemente os mesmos se encontram também nos quadros da Maçonaria, como Diogo Antonio Feijó?

Formação da Maçonaria no Brasil e sua atuação no processo de abolição e emancipação

A moderna maçonaria, como conhecemos hoje, teve origem na Inglaterra em 24 de junho de 1717. Em 1723, o reverendo presbiteriano James Anderson publicou as Constituições da Maçonaria. Este momento é importante e histórico para a Maçonaria, pois aqui se inicia a Maçonaria Simbólica ou Moderna e encerra-se o longo período considerado como Maçonaria Operativa, em que a Ordem Maçônica estava diretamente ligada à arte da construção, reunindo-se em guildas de pedreiros, responsáveis pela edificação de templos e prédios. É alicerçada nestas Constituições de Anderson que a Maçonaria Simbólica ou Moderna permanece, de forma quase intacta, até hoje.

Todavia, grande parte concorda que as feições da maçonaria moderna remontam a 1717, marco da formação da Grande Loja de Londres que converteu a Ordem em uma espécie de escola de formação humana de caráter cosmopolita e secreto, reunindo homens de diferentes raças, religiões e línguas com objetivo de alcançar a perfeição por meio do simbolismo de natureza mística e/ou racional, da filantropia e da educação (Benimeli, 1984, p. 464). Nesse período, a maçonaria abandonou sua origem ligada às velhas confrarias de pedreiros da época medieval, permitindo a admissão de novos elementos, sem a obrigatoriedade de serem ligados às corporações de ofício ou às sociedades de construtores: eram os “maçons aceitos”. [1]

No Brasil, a primeira loja que se tem notícia surgiu na Bahia, em 17 de julho de 1797, na fragata francesa La Preneuse, cujo nome foi dado de “Cavaleiro da Luz” e foi fundada pelo comandante Larcher, José Borges de Barros e o Tenente Hermógenes Aguiar Pantoja. Antes dessa data, aqui existia apenas agrupamentos com características maçônicas, como gabinetes de leitura e associações, funcionando como clubes ou academias.

A introdução da “Ordem” no Brasil resultou das transformações ocorridas em Portugal a partir das reformas pombalinas. A sociabilidade maçônica foi trazida na bagagem dos jovens brasileiros que iam estudar na Universidade de Coimbra (aliás, reformada por Pombal em fins do século XVIII). Muitos desses estudantes brasileiros prosseguiam seus estudos em universidades inglesas e francesas, nas quais aprofundavam seus vínculos com os círculos maçônicos. A Faculdade de Medicina de Montpellier, muito procurada pelos estudantes brasileiros na época, constituía-se num dos núcleos de pedreiros livres[2] no sul da França.

A primeira Loja Maçônica regular do Brasil, a que se denominou “Reunião”, foi fundada em 1801, no Rio de Janeiro, tinha fins puramente político-sociais e era filiada ao Oriente da França. Dois anos mais tarde, o Grande Oriente Lusitano, ou seja, de Portugal, desejando propagar no Brasil a verdadeira doutrina maçônica, nomeou três delegados com poderes para criar mais lojas no Rio de Janeiro, surgiram então as lojas “Constância” e “Filantropia”.

Muitos aceitam que a primeira loja maçônica foi fundada no Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1815, ficou conhecida como Loja Maçônica Comércio e Artes[3], a Primaz do Brasil. Criada em 1815, inativa após o alvará governamental de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas, e reerguida em 1821; foi dividida em três Lojas, daí resultando, além dela mesma, a União e Tranqüilidade e a Esperança de Niterói.

A maçonaria brasileira desde o seu início, apesar de ter se tornado um espaço de sociabilidade por excelência, durante todo o período de lutas pela independência política do Brasil e abolição da escravidão, não conseguiu manter uma coesão. Ela vivenciou dissidências, rachas e grupos rivalizando-se dentro das próprias lojas. Logo, percebe-se que, ao estudar a contribuição da maçonaria para a Abolição, ela, durante esse processo, terá uma participação importante, mas não unânime.

Nos momentos decisivos do processo de nossa emancipação política, as divergências manifestaram-se dentro da maçonaria. Criou-se uma oposição entre “republicanos” (ou “democratas”), capitaneados por Gonçalves Ledo, e os simpatizantes da monarquia centralizada, liderados por José Bonifácio. Com o término do Primeiro Reinado, dois “Grandes Orientes” são organizados: o Grande Oriente do Brasil, sob o comando de Bonifácio, e o Grande Oriente Nacional Brasileiro da Rua do Passeio, 171, constituído pelos inimigos políticos dos Andradas.

Nos primeiros dias após a proclamação da independência, de 7 de setembro de 1822, iam adiantadas as escaramuças entre os dois grupos, dentro do Grande Oriente, os quais culminariam com o golpe aplicado por Ledo, ao conseguir destituir Bonifácio do Grão-Mestrado, à socapa e fora de assembleia geral, empossando D. Pedro no cargo, a 4 de outubro de 1822. O troco seria no terreno político, com Bonifácio mostrando ao imperador que a luta da independência exigia um período de calmaria política interna, que estava sendo quebrada pelo grupo adversário, com exigências descabidas a D. Pedro e uma rede de intrigas, que poderiam minar a luta externa. As exigências descabidas eram: o juramento prévio de D. Pedro à Constituição ainda não votada e aprovada e a assinatura de três papéis em branco. Diante disso, enquanto José Bonifácio instaurava processo contra os membros do grupo de Ledo, D. Pedro enviava a este a ordem para fechar o Grande Oriente, o que aconteceria a 25 de outubro de 1822.
(…)
Durante praticamente todo o período restante do Primeiro Império, as Lojas brasileiras permaneceram em recesso, só começando a ressurgir quando o cenário nacional caminhava para uma grave crise política, que iria levar, a 7 de abril de 1831, à abdicação de D. Pedro I em favor de seu filho, D. Pedro II, então com pouco mais de cinco anos de idade, ao qual, alguns dias depois, ele escreveria uma carta, como se adulto fosse o herdeiro, plena de dramaticidade. Em 1830, então, ressurgia a Maçonaria brasileira, com a criação do Grande Oriente Nacional Brasileiro, o qual ficou, também, conhecido como Grande Oriente da rua de Santo Antônio e, posteriormente, Grande Oriente do Passeio, em alusão aos locais em que se instalou, no Rio de Janeiro. 
[4]

Nas décadas finais do Segundo Reinado, o Grande Oriente do Brasil (GOB) voltou a dividir-se: havia o Grande Oriente do Vale do Lavradio, aglutinando os maçons defensores da monarquia e influenciados pela maçonaria inglesa; e o Grande Oriente do Vale dos Beneditinos, que reuniu os maçons republicanos e que estava alinhado à maçonaria francesa. Depois disso, após a Proclamação da República, veio a “federalização” da maçonaria brasileira, com o surgimento dos “Grandes Orientes” estaduais, principalmente em São Paulo e no Rio Grande do Sul (1893) e também em Minas Gerais (1894). Somente entre 1883 e 1927, a maçonaria brasileira esteve unida pelo do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brasil.

Na metade do XIX havia os maçons que acreditavam que a abolição deveria acontecer imediatamente, outros que a abolição causaria a falência do Brasil, e esse não era um receio apenas de integrantes da maçonaria, como escreve Emília Viotti da Costa:

Em defesa da escravidão, continuava-se a repetir velhos argumentos, usados desde o Período Colonial. Dizia-se que a escravidão era benéfica para o negro, pois que o retirava da barbárie em que vivia para introduzi-lo no mundo cristão e civilizado. Afirmava-se que o negro não era capaz de sobreviver em liberdade. Alguns, embora reconhecessem que a escravidão fosse condenável em termos morais, argumentavam que ela era um mal necessário, pois a economia nacional não poderia funcionar sem o escravo. A abolição da escravatura, diziam eles, seria a ruína do país. Essa foi a opinião que acabou por predominar entre as elites. [5]

Havia os que simplesmente eram contra a libertação dos escravos. Um caso notório como esse se deu dentro da Loja América de São Paulo, como contou mais tarde, em discurso no dia 17 de dezembro de 1909, na faculdade de direito de São Paulo, o próprio Ruy Barbosa o acontecido na referida loja por ocasião da proposta de lei maçônica de libertação do ventre das escravas:

Da pragmática tradicional éramos tão pouco escrupulosos que, contra as regras constitucionais da Ordem, senão lembraram de me conferir o grau de mestre para me elevarem a orador da Loja. Desse posto me bati contra o seu ilustre venerável, o Dr. Antônio Carlos, meu lente então de Direito Comercial, em defesa de um projeto meu, que obrigava todos os membros daquela casa a libertarem o ventre das suas escravas, e punha como condição prévia de admissão esse compromisso aos futuros iniciados. A minha proposta vingou, renunciando o douto professor a dignidade, que entre nós exercia. De modo que aquele grupo de estudantes liberais, acidentalmente congregados sob o rito maçônico, toca a honra da precedência na ideia, que, dois anos depois, o ato de 28 de Setembro veio a converter em Lei do país. [6]

O dr. Antonio Carlos era o Venerável da Loja e professor de Ruy Barbosa, havia renunciado à dignidade por não concordar com a proposta de libertação do ventre. Da mesma Loja América, faziam parte também Castro Alves e Joaquim Nabuco.

Existe uma correlação entre o vanguardismo político e a maçonaria no Brasil, basta ver que os primeiros pensamentos revoltosos contra a metrópole surgiram da permanência de estudantes brasileiros na França.
Um fato histórico que reforça a importância da maçonaria no Brasil no início do século XIX é a inusitada resposta do então Príncipe Regente D. João ao receber uma lista dos maçons que deveriam ser presos, dizendo, diante do tamanho da lista, que “foram estes que me salvaram”.
Outro exemplo da importância da maçonaria no Brasil é observada quando da partida da família real para Portugal, deixando no Brasil um príncipe regente cercado de maçons, que constituíam à época a elite econômica e pensante do país. O príncipe fora aprovado em assembleia maçônica, sendo iniciado em agosto de 1822 e recebido o nome simbólico de Guatimozin e em poucos dias fora aprovado para o grau de Mestre Maçom da loja “Comércio e Artes”. [7]

Se por um lado os maçons eram próximos e estimados pelo imperador, por outro, a grande parte que se considerava liberal, não tinha maioria política representada na Câmara e não representava o poder econômico do império, portanto, não tinha força para impor uma abolição antes da segunda metade do XIX. O que, se tivesse acontecido antes desse período, teria se configurado numa revolução.

Na Europa do séc. XVIII, a burguesia criara conceitos novos, que vieram pouco a pouco destruir a visão de mundo que justificava a ordem tradicional, conceitos que levaram à Revolução Francesa. Lá sim, uma revolução havia acontecido, onde, hoje, autores apontam afinidades entre a Revolução Francesa e a maçonaria (porque entre outras coisas aquela teria sido inspirada nos mesmos princípios universais: Liberdade, Igualdade e Fraternidade), fato é que ainda se discute a real participação da maçonaria na Revolução:

Para uns, a maçonaria foi a reboque da revolução aproveitando-se despudoradamente da sua influência para recolher dividendos políticos e sociais a fim de melhor abrir o caminho para a conquista do poder. Para outros a maçonaria teria sido a Alma Mater da revolução toda ela impregnada do espírito maçônico.
Possivelmente nem uns nem outros terão a razão do seu lado. Talvez ela esteja numa situação intermédia, porque se a revolução não foi um plano estritamente maçônico não há dúvida que ela teve como figuras de proa pessoas reconhecias e assumidamente maçons, tais como: D’Alembert, Diderot, Helvécio, D’Holbach, Voltaire, Condorcet, etc. [8]

Da burguesia francesa revolucionária, assim como dos militares e nobres revolucionários, boa parte integravam a maçonaria, e o ideal que os uniam à Revolução era o Liberalismo, pois esse afinal, era o pensamento de vanguarda. Contudo, na França revolucionária, é nos ideais liberais do pensamento de Rousseau, e de outros, que encontramos as origens teóricas do abolicionismo:

No pensamento revolucionário do século XVIII encontram-se as origens teóricas do abolicionismo. Até então, a escravidão fora vista como fruto dos desígnios divinos; agora ela passaria a ser vista como criação da vontade dos homens, portanto transitória e revogável. Enquanto no passado considerara-se a escravidão um corretivo para os vícios e a ignorância dos negros, via-se agora, na escravidão, sua causa. Invertiam-se, assim os termos da equação. Passou-se a criticar a escravidão em nome da moral, da religião e da racionalidade econômica. Descobriu-se que o cristianismo era incompatível com a escravidão; o trabalho escravo, menos produtivo do que o livre; e a escravidão uma instituição corruptora da moral e dos costumes.
Enquanto na Europa a revolução burguesa produzia seus frutos, no Brasil, os colonos que se sentiam cada vez mais reprimidos pela política metropolitana acolhiam com entusiasmo as novas ideias revolucionárias. No bojo dessas ideias havia, entretanto, algumas contradições fundamentais. Como conciliar o direito de propriedade que os senhores tinham sobre seus escravos com os direitos que os escravos tinham (como homens) à sua própria liberdade? Como conciliar a sujeição do escravo com a igualdade jurídica, que, segundo a nova filosofia, era um direito inalienável do homem?
(…)
Na época da Independência, os escravos viram suas aspirações à liberdade frustradas. Se bem que a Carta Constitucional de 1824 incluísse um artigo transcrevendo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (cópia idêntica à original francesa de 1789), na qual se afirmava que a liberdade era um direito inalienável do homem, manteve-se escravizada quase a metade da população brasileira. A Constituição ignorou os escravos. Sequer reconheceria sua existência. A eles não se aplicavam as garantias constitucionais.
Não obstante esse flagrante desrespeito à humanidade do escravo, a consagração dos princípios liberais pela Constituição foi o primeiro passo em direção à criação de uma consciência crítica em relação ao sistema escravista. A questão que se apresentaria a partir daí era como justificar a escravidão em uma sociedade em que se aceitavam os novos princípios liberais. Como negar aos escravos os direitos humanos que, em princípio, aplicavam-se a todos?
Na época da Independência e muitos anos depois, a maioria da classe dominante no Brasil continuava a depender inteiramente do trabalho escravo. Por isso, fariam ouvidos surdos aos argumentos de uns poucos indivíduos que, identificados com as novas ideias ilustradas então em voga na Europa, denunciavam a contradição entre liberalismo e escravidão e condenavam a escravidão em termos morais, religiosos e econômicos.
[9]

E isso foi feito, aos argumentos liberais de maçons, fizeram-se ouvidos surdos. Mas isso era sabido pelos maçons, a abolição viria por um processo, cada coisa a seu tempo. A luta dos liberais maçons no Brasil seria direcionada para a conscientização da população com jornais; para a criação de escolas públicas de formação liberal e laica, ou ajudando a pensar uma escola ideal, laica e pública para o Brasil, como assim foram os pareceres do ilustre maçom Ruy Barbosa[10]; seria pela filantropia; pela compra de alforrias; participação em fugas; projetos de leis; processos judiciais, etc. A maçonaria perseguiria os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, preparando a elite pensante para um novo tempo, inspirados pela Revolução Francesa. Nesse ponto, como organização, a maçonaria coordenou singularmente, o maior movimento abolicionista do Brasil.

A partir da Revolução Francesa, o Grande Oriente de França, constituído em 1773, ganha prestígio e emana as suas filosofias liberais, deístas, progressistas e enciclopedistas para as obediências em formação na Europa e na América. Vai disputar sua influência com as grandes lojas de Londres.

A influência da Grande Loja da França fez-se sentir na ainda frágil maçonaria portuguesa, e dessa para a brasileira. A filosofia francesa iria inspirar os maçons portugueses e brasileiros, agora que começariam a ser recrutados no seio da classe política e arrastando assim os ideais liberais que iriam marcar fortemente a política no Brasil no fim do século XIX.

A maçonaria brasileira participou do processo abolicionista como nenhuma de outro país participou, isso porque a abolição no Brasil foi tardia. Aqui, o florescimento da maçonaria, e seus ideais liberais na sociedade, chocou-se com a vigência da escravatura.

A maçonaria francesa, após a Revolução e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, viu abolida a escravidão em 4 de Fevereiro de 1794 na Convenção Nacional; o primeiro ministro reformista Marquês de Pombal, maçom inciado em Londres, aboliu a escravidão em Portugal e nas colônias da Índia a 12 de Fevereiro de 1761; mediante a Declaração de Emancipação (promulgada pelo presidente Abraham Lincoln – que chegou a visitar Lojas Maçônicas querendo ser um iniciado, mas a campanha presidencial o levou para outro destino -, na que foi declarada a liberdade de todos os escravos em 1863 e entrou em efeito pela primeira vez no final da Guerra Civil em 1865) os abolicionistas americanos obtiveram a libertação dos escravos nos estados em que continuava havendo escravidão, a despeito disso muitas Lojas norte-americanas, como a Grande Loja de Nova York, eram racistas e não aceitavam negros; A 23 de Agosto de 1833 foi aprovada o Slavery Abolition Act (Ato de Abolição da Escravidão) pelo qual desde 1 de Agosto de 1834 ficavam livres todos os escravos das colônias britânicas; a maçonaria brasileira foi a única a ter um posição oficial em relação à escravatura, formalizada por meio de uma lei interna.

Um projeto de Lei, apresentado pela Loja “América”, ao Grande Oriente Brasileiro em 4 de abril de 1870, ao Vale dos Beneditinos e subscrito por Ruy Barbosa, comprova a posição da mocidade maçônica, contrária à escravatura. É interessante por comprovar documentalmente o pensamento da maçonaria logo após a fundação da Loja “América” – o da necessidade da emancipação e não de uma simples “alforria generalizada”:

A Loja “América” apresenta à sábia consideração do Gr.’. Or.’. do Vale dos Beneditinos o seguinte projeto, requerendo sua conversão em lei geral e obrigatória para toda a Maçonaria estabelecida no país.
Art. 1º: Sendo verdade inconcussa que a emancipação do elemento servil e a educação popular são hoje duas grandes ideias que agitam o espírito público e de que depende essencialmente o futuro da nação, a Maçonaria brasileira declara-se solenemente a manter e propagar esses dois princípios, não só pelos recursos intelectuais da imprensa, da tribuna e do ensino, como também por todos os meios materiais atinentes a apressar a realização dessas ideias entre nós. (…)

A Abolição não foi mérito de um único grupo ou setor da sociedade, muitos fatores concorreram para que a escravidão se tornasse uma instituição abolida: a mecanização das fazendas, a substituição da mão-de-obra pela dos imigrantes, a pressão internacional, as ferrovias, a própria resistência dos escravos, o advento do liberalismo, os jornais, os abolicionistas, e as diversas instituições que lutavam pela abolição – dentre elas, a maior foi a Maçonaria.

Continua…

Autor: Márcio Antonio Silva de Pontes

Notas

[1] – BENIMELI apud BARATA, A. M. Freemasonry and Brazilian enlightenment. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, p. 78-79, jul./out. 1994.

[2] – Sua origem é localizada nas corporações de ofício dos pedreiros da Idade Média, no final do século XIV. Naquela época, não havia escolas capazes de ensinar as técnicas da construção em pedra, utilizadas principalmente em catedrais. Somente nas corporações, também chamadas guildas, aprendizes e mestres dividiam a ciência do talhe e se reuniam após o expediente para discutir o andamento das obras e defender sua profissão, como em um sindicato. Levavam às reuniões os instrumentos de trabalho, utilizados na composição dos projetos arquitetônicos – como o esquadro e compasso, que se tornaram símbolos da Ordem -, ou na atividade braçal – avental, malho e cinzel. Assim surgia a “maçonaria operativa”, preocupada com coisas práticas e restritas ao ofício

[3] – Site da Loja Comércio e Artes. Disponível em: . Acesso em: 10 dezembro 2009.

[4] – CASTELLANI, José. A maçonaria na década da Abolição e da República. Londrina: Editora A Trolha, 2001.

[5] – COSTA, Emília Viotti da. A ABOLIÇÃO. São Paulo: UNESP, 2008.

[6] – D’ALBUQUERQUE, Tenório. A Maçonaria e a libertação dos Escravos. Rio de Janeiro: Aurora, 1970.

[7] – FILHO, José Carlos de Araújo Almeida. O Ensino Jurídico, a Elite dos Bacharéis e a Maçonaria do Séc. XIX. 2005. 180 fls. Dissertação (Mestrado área de concentração Direito, Estado e Cidadania). Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

[8] – Respeitável Loja Ocidente de Portugal. Disponível em:. Acesso em 21 janeiro 2010.

[9] – COSTA, Emília Viotti da. A ABOLIÇÃO. São Paulo: UNESP, 2008.

[10] – FUNDAÇÃO CASA DE RUY BARBOSA. Obras completas de Rui Barbosa. Tomos publicados: Reforma do Ensino Secundário e Superior. Vol. 9, t. 1, 1882; Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública. Vol. 10, t. 1 e 4, 1883.

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Organização, Preceitos e Elementos da Cultura Maçônica: fundamentos para a introdução aos estudos da maçonaria – Parte II

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A maçonaria e sua linguagem simbólica

Diferentemente de outras organizações sociais, não há na maçonaria um conjunto de escritos que contenham e traduzam todos os seus preceitos, filosofias, normas e ritos. Embora a Constituição de Anderson seja ainda uma referência para a maçonaria e seus estudiosos, a simplicidade e a objetividade de seu texto não lhe permitem esgotar toda a riqueza da cultura maçônica. De fato, o cerne da filosofia maçônica vem sendo transmitido e perpetuado entre as gerações por meio de uma linguagem não textual, mas, sim, simbólica, baseada em mitos, rituais e alegorias. Esta linguagem simbólica constituiu-se no principal instrumento pedagógico adotado pela maçonaria com o propósito de inculcar entre seus membros os preceitos e as divisas da ordem.

O corpo simbólico maçônico foi alimentado por elementos culturais múltiplos, advindos da cultura grega, egípcia, oriental e, principalmente, judaico-cristã. O mito de origem da ordem, bem como a base do ritual maçônico, gira em torno do personagem bíblico de Hiram, o arquiteto chefe da construção do templo de Salomão. Já os graus simbólicos (aprendiz, companheiro e mestre), os ornamentos e insígnias maçônicas (esquadro, compasso, prumo, malhete, trolha, etc.), aludem à cultura medieval das antigas corporações de construtores[39].

Faz-se necessário ressaltar que os mitos, os símbolos e os ritos não são privilégios do pensamento e das culturas religiosas. Ao contrário, eles correspondem aos ingredientes vitais da civilização humana, permitindo-lhe expressar o desejo quase inato do homem de saber cada vez mais acerca do mundo e de si próprio. Na busca pela compreensão do mundo em sua totalidade, da sua significação e de sua ordenação de forma coerente, o ser humano encontra na simbologia uma forma de falar, ver e sentir dimensões da realidade que são inatingíveis racionalmente e de difícil apreensão de modo direto pela consciência discursiva. Em outras palavras, a linguagem simbólica exprime, em planos diferentes e meios que lhe são próprios, um complexo sistema de afirmações coerentes sobre a realidade última das coisas[40].

Diante dos anseios humanos acima referidos, a maçonaria construiu em torno de sua simbologia e da fábula capital de Hiram, não só um mito de origem que explica e legitima sua instituição, mas, também, uma filosofia própria que tem como escopo dar coerência e propósito à existência do ser humano.

O poder de influência de um mito sobre uma comunidade encontra força na sua infinita repetição, no seu eterno recontar. Desse modo, cada vez que se realiza um ritual maçônico, a lenda de Hiram é rememorada e sua lição moral introjetada. Na narrativa lendária, os maçons encontram o exemplo de fidelidade, de nobreza e de respeito às hierarquias, isto é, os valores e virtudes que todo membro da ordem deve resguardar:

A lenda de Hiram continua a ser uma das pedras simbólicas da franco-maçonaria atual.(…) Tendo cessado para nós a arte operativa (a construção de edifícios materiais) nós, enquanto mações especulativos, simbolizamos o trabalho de um templo espiritual em nossos corações, templo puro e sem mácula (…) Essa espiritualização do templo de Salomão é a primeira das instruções da Franco-maçonaria.[41]

Os mitos, além de estabelecerem modelos de comportamento, possuem a importante função de legitimar instituições, uma vez que constroem uma explicação de suas origens. Relatando algo fabuloso, que se supõe acontecido num passado remoto, o mito estabelece uma relação de continuidade entre este momento fundador, normalmente perfeito, com uma instituição ou sociedade do momento presente. No caso da maçonaria, a legitimidade da instituição é dada por uma narrativa que parte de uma referência bíblica – II livro de Crônicas, capítulo 2 – portanto, sagrada e irrefutável.

Finalmente, é preciso ressaltar que a linguagem simbólica instituída pela maçonaria, o compartilhamento de rituais, mitos e alegorias decodificadas apenas pelos irmãos da ordem, favorece a identificação e a coesão do grupo. A linguagem simbólica aproxima os homens de uma maneira mais eficaz e real do que a linguagem analítica. Para Mircea Eliade, “se existe uma solidariedade total do gênero humano, ela só pode ser sentida e “atuada” no nível das imagens”[42]. Em um raciocínio próximo, Eric Hobsbawm lembra-nos como o compartilhamento de signos, sinais, toques, rituais de iniciação, isto é, de “tradições inventadas” que se dão a partir da continuidade com um passado histórico apropriado, inculcam normas de comportamento e criam sentimentos de identidade coletiva[43].

Frente ao que foi demonstrado até agora, desejamos argumentar acerca da complexidade da natureza maçônica. Se, por um lado, entendemos a maçonaria como um espaço propiciador da liberdade de expressão, das práticas representativas e do culto à razão, valores típicos das sociedades modernas, por outro, encontramos, também, uma instituição com uma refinada cultura ritualística e um apego às tradições, à mística, à hierarquia e aos princípios morais. A maçonaria especulativa é fruto da mistura do pensamento medieval, renascentista e iluminista. Diante disto, percebemos a configuração de uma instituição que reflete em suas estruturas o espírito progressista da época das luzes, ao mesmo tempo em que se mantém carregada de valores e simbologias medievais. Os preceitos maçônicos são, assim, fruto da interação entre o tradicional e o moderno, o racional e o mítico.

Todavia, não acreditamos haver incoerência nesta constituição, ao mesmo tempo moderna e tradicional da maçonaria. Tampouco, seu apego à tradição e a um passado místico, nega ou inviabiliza seu projeto progressista. Inúmeras foram as ideologias modernas e progressistas que se inspiraram nos sublimes tempos do começo ou, em outras palavras, poucas foram as visões do futuro que não se apoiaram em referências do passado[44]. A modernidade também necessita estabelecer com um passado ou com uma determinada tradição, uma relação de continuidade para se legitimar, sendo que, as inovações não se tornam menos novas ao revestirem-se de um caráter de antiguidade. Diante disto, pessoas ou instituições progressistas, tal como a maçonaria, podem, frequentemente, agir de modo tradicionalista, sem cair em contradição.

Cultura e subculturas maçônicas

Uma instituição formada por um corpo sagrado de crenças e, ao mesmo tempo, historicamente remoldável. É assim que definimos a maçonaria, a partir da análise até aqui realizada.

O estudo da formação e da organização da maçonaria pelo mundo revela-nos uma história marcada por abalos, cisões, irrupções e conflitos. Do mesmo modo, a análise dos preceitos que a fundamentam denuncia menos uma essência maçônica professada universalmente, e mais um conjunto de normas e valores passíveis de interpretações e apropriações múltiplas. A maioria dos pesquisadores da maçonaria, todavia, já é unânime em admitir a impossibilidade de se pensar em uma instituição unívoca e coesa. Marco Morel, por exemplo, defende que a maçonaria constitui-se muito mais em uma concepção de organização do que numa entidade monolítica ou portadora de uma visão de mundo específica[45]. Em raciocínio semelhante, José Antonio Ferrer Benimeli, um dos maiores estudiosos da maçonaria na atualidade, fala-nos da dificuldade em definir esta sociedade de maneira precisa, abrangendo-a em toda a sua extensão. Ao destacar os inúmeros desvios, abusos e subdivisões surgidas no interior da instituição, o autor ressalta que “nem sequer se pode falar de uma maçonaria única, dados os seus múltiplos ritos, obediências e fins diametralmente opostos, embora se sirvam de uma terminologia e de uma forma de organização idênticas”[46]. Frente a estas observações, Eliane Colussi conclui ser mais coerente, historicamente, falar em “maçonarias”[47].

No presente texto demonstramos a existência de um fundo teórico comum que orienta e estrutura todos os discursos maçônicos e que se pauta em ideias próximas às do movimento ilustrado, tais como a do progresso, da razão, da universalidade da natureza humana etc. Entretanto, é preciso ter em mente que o uso em comum de um discurso não garante que ele esteja sendo compreendido e instrumentalizado da mesma maneira. Roger Chartier[48], a partir do estudo das práticas de leituras, ajuda-nos a pensar a questão aqui colocada. Segundo ele, não existe um sentido intrínseco, absoluto, único do texto, ou seja, suas ideias não se apresentam como categorias universais de interpretação. Ao contrário, seu sentido é construído historicamente. Embora os autores de um discurso queiram mantê-lo sujeito a um sentido único, a aceitação de uma mensagem opera-se sempre através de desvios e reempregos singulares. Em síntese, “cada leitor, a partir de suas próprias referências, individuais ou sociais, históricas ou existenciais, dá um sentido mais ou menos singular, mais ou menos particular, ao texto de que se apropria”[49].

A liberdade ou o poder que o receptor tem de atribuir sentido a uma ideia que lhe foi lançada mostra-se clara na análise das inúmeras interpretações que as divisas e proposições maçônicas receberam. Conforme explicitado anteriormente, o entendimento acerca do caráter apolítico da ordem ou de sua relação com a religião, por exemplo, ganhou formas diversas a partir do contexto histórico-cultural das maçonarias nacionais. Até mesmo os mitos e símbolos maçônicos foram decodificados de maneiras diferentes, o que não nos causa estranhamento, uma vez que o mito é fundamentalmente polimorfo e ambivalente, estando suscetível às numerosas ressonâncias e significações, por vezes opostas.

A potencialidade de se conferirem sentidos múltiplos aos preceitos maçônicos é ampliada pela natureza vaga e subjetiva de muitos deles, tal como o discurso da moral, da virtude e do progresso. A concepção de progresso, por exemplo, não carrega consigo um sentido único, tendo sido, por isto, apropriada por diferentes agentes discursivos. Embora parta de um mesmo fundamento – a humanidade que, possuidora de uma natureza comum, caminha, linearmente, rumo a níveis mais avançados de desenvolvimento – as teorias progressistas elaboraram diferentes modelos de sociedades utópicas. A cultura socialista, por exemplo, vislumbra, a partir de uma revolução proletária, uma sociedade sem classes. Já os positivistas projetavam para o final do processo evolutivo, uma ditadura republicana. A maçonaria, por sua vez, entrevê para o futuro, uma humanidade unida e aperfeiçoada intelectual, moral e materialmente. Todavia, quando chega a hora de se definir em que consiste este aperfeiçoamento ou este progresso, quais seriam os fins a serem alcançados por eles, bem como o caminho a seguir para atingi-los, não faltam dissensões. Traduzidas para o plano da organização efetiva das sociedades ou da política de um Estado, as divisas maçônicas fundamentaram propostas às mais variadas, quando não, díspares[50].

Isto posto, concluímos que a maçonaria não se configura como uma instituição acabada e passível de definição a partir de um modelo explicativo único. Ao contrário, ela vem assumindo múltiplas feições, em diferentes épocas e lugares, e que vão sendo construídas a partir de infinitos arranjos entre suas divisas e preceitos e as ressignificações a eles impostas pelas necessidades e anseios de determinados contextos históricos.

Após levantarmos a possibilidade de serem realizadas diferentes leituras e instrumentalizações dos preceitos maçônicos, uma incômoda indagação reclama-nos uma resposta: é ainda possível pensarmos na existência de uma cultura maçônica?

Uma Cultura corresponde a um conjunto complexo de linguagens, comportamentos, valores, crenças, representações e tradições partilhadas por um determinado grupo humano e que lhe conferem uma identidade[51]. Frente a tal definição, todavia, é importante guardar o cuidado de não estabelecermos uniformizações exageradas, lembra-nos o autor:

Atribuir a um determinado grupo valores, comportamentos e imaginários comuns muitas vezes pode não corresponder à realidade. As sociedades, principalmente as complexas, normalmente são marcadas por nuanças, particularidades e divisões internas. As estruturas culturais em questão podem não ser partilhadas por toda a coletividade.[52]

Diante do exposto acima, forjou-se o conceito de subcultura para dar conta da complexidade cultural. Deste modo, as formações sociais podem ser compostas de subculturas que partilham de alguns elementos da cultura mater, ao passo que mantém características próprias[53]. Acreditamos que este modelo explicativo aplique-se corretamente à cultura maçônica.

Neste caso, a sua cultura mater fundamenta-se numa estrutura organizacional típica e num corpo simbólico, mítico e ritualístico responsáveis por conferir às várias subculturas maçônicas, isto é, às várias expressões e formatos assumidos pelas lojas maçônicas, um sentimento recíproco de identificação, uma noção de pertencimento a um grupo maior e, por fim, uma diferenciação em relação à cultura e à sociedade profana.

Isto posto, torna-se importante elencar, rapidamente, os elementos que, ao nosso entender, dão consistência à identidade maçônica. Todas as lojas, independente do rito, obediência ou nacionalidade às quais pertençam, compartilham um mesmo passado mítico, isto é, um mesmo marco fundador, percebendo-se como herdeiras da arte e dos valores do emblemático Hiram. Também os símbolos de reconhecimento maçônico são sempre os mesmos, o que permite a uma loja maçônica ser identificada como tal em qualquer lugar do mundo. Do mesmo modo, a terminologia maçônica, os toques e os sinais empregados, dentro e fora das lojas, possibilitam aos obreiros, em qualquer lugar onde estejam, reconhecerem-se em meio aos profanos. Os elementos de identificação maçônicos são tão poderosos que possuem a capacidade de levar pessoas de diferentes nacionalidades, que jamais se encontraram e nem se encontrarão, a sentirem-se possuidoras de vínculos que as fazem iguais e comprometidas umas com as outras. Tais homens, iniciados nos mesmos mistérios e conhecedores dos mesmos segredos, embora não convivam diariamente e tampouco dividam o mesmo espaço físico, compõem uma única comunidade que ganha existência no nível do imaginário. Por fim, cabe ressaltar que o próprio fundamento teórico maçônico atua como elemento unificador, na medida em que diferentes homens, ao propalarem preceitos comuns, mesmo que só em sua forma, consideram-se agentes de uma mesma causa. Os maçons, por exemplo, são unânimes em afirmarem-se como os maiores defensores da liberdade, igualdade e fraternidade, ainda que estas bandeiras, em diferentes contextos, assumam significados diversos.

Cabe destacar que, para a compreensão do que seja uma cultura, mais importante do que se constituir, concretamente, como uma comunidade coesa, homogênea e universal, é a imagem que os indivíduos alimentam da coletividade à qual pertencem. Os maçons, de modo geral, sentem-se efetivamente ligados a um agrupamento de homens que, embora não visíveis no plano do olhar, encontram-se “lá”, conscientes da existência uns dos outros. É este sentimento de identidade, de comunidade e de pertencimento, não explicados apenas pelo plano da razão, mas também da tradição, do costume e do imaginário, que nos permite afirmar a existência de uma cultura maçônica.

Por fim, a constatação da existência de uma cultura maçônica, subdividida em várias subculturas, leva-nos à associação da maçonaria a um longo tecido que, visto por um olhar distanciado, aparenta possuir forma e cor homogênea. Analisado de perto, entretanto, o tecido maçônico revela-nos um entrecruzamento de diferentes matizes que se mantêm unidos por pontos de interseção, que nada mais são do que os elementos constitutivos da identidade maçônica. Deste modo, a cultura mater da maçonaria, corresponde aos liames que impedem o total esgarçamento deste tecido e, consequentemente, o surgimento de instituições completamente distintas.

FINIS

Autora: Françoise Jean de Oliveira Souza

Fonte: Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña

Para ler a primeira parte do artigo, clique AQUI

Notas

[39] – Paul Naudon, A Maçonaria (São Paulo, Brasil: Difusão Europeia do Livro, 1968).

[40] – Mircea Eliade, Arquétipos e Representações (São Paulo, Brasil: Martins Fontes, 1969), 1

[41] – Naudon.

[42] – Eliade, 13.

[43] – Eric J. Hobsbawn & Terence Ranger, A Invenção das tradições (Rio Janeiro, Brasil: Paz e Terra, 1984).

[44] – Raoul Girardet, Mitos e Mitologias políticas (São Paulo, Brasil: Companhia das letras, 1987).

[45] – Morel.

[46] – José Antonio Ferrer Benimeli, Maçonaria e Igreja Católica (São Paulo, Brasil: Edições Paulinas, 1983), 246

[47] – Colussi, A maçonaria gaúcha no século XIX (Rio Grande do Sul, Brasil: EDIUPF, 1998).

[48] – Roger Chartier, A História Cultual. Entre práticas e Representações (Lisboa, Portugal: Difel, 1990).

[49] – Chartier, Práticas da leitura (São Paulo, Brasil: Estação Liberdade, 1996).

[50] – Para o caso da história maçonaria brasileira ver Morel e Oliveira Souza

[51] – Rodrigo Patto Sá Motta, “A história Política e o conceito de Cultura Política”, Revista de História (Mariana,

[52] – Ibid.

[53] – Ibid.

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