A Vaidade

“A vaidade dos outros é insuportável por ferir a nossa.” (ditado popular)

A mitologia grega registra a história de Narciso, um jovem que se julgava tão belo a ponto de considerar-se semelhante a uma divindade. Foi amaldiçoado e condenado a fixar-se de forma doentia à sua própria imagem refletida na água de um lago por ter rejeitado o amor e causado a morte da ninfa Eco. Impossibilitado de materializar sua paixão, dá cabo à sua vida por afogamento atraído pela sua beleza ao se olhar na água.

Para os gregos, Narciso representava a vaidade e o símbolo da individualidade ou egoísmo. Em contexto mais recente, a atitude tem uma conotação de apego às aparências, vontade de ser aceito, querido e notado, considerar-se melhor que os demais, com uma necessidade pessoal incontrolável de se exibir, receber admiração e aprovação em tudo.

No Livro do Eclesiastes ou do Pregador, Capítulo 1:2, lemos “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”. O Livro é atribuído a Salomão, que nele relata sua angústia ao procurar significado e propósito na vida, apesar de todos os prazeres mundanos que desfrutava.

Do ponto de vista teológico, a vaidade é considerada o pecado mais grave, pois é nesta categoria que se enquadra o pecado original: Adão e Eva aceitaram o fruto proibido da árvore do conhecimento, querendo igualar-se a Deus.

No caso vertente, a vaidade tem o seu oposto na humildade ou modéstia. Para Aristóteles, a virtude é a equidistância entre dois vícios: um por excesso, outro por falta. Ele nos alerta sobre a necessidade de sermos prudentes e buscarmos o equilíbrio, o justo meio, onde se situa o respeito próprio, como síntese da perfeição de nossas atitudes e comportamentos.

Não é fácil identificar a vaidade em nós mesmos e os julgamentos da espécie devem considerar atitudes hipócritas que levam à analogia de quem consegue ver um cisco nos olhos dos outros quando tem algo bem maior no próprio olho, conforme advertido no “Sermão da Montanha”.

Mas, condenações e julgamentos à parte, a vaidade é transparente quando os observados demonstram um comportamento de se situar acima dos demais, por quaisquer atributos, sejam estéticos, intelectuais, materiais ou outros que ensejam uma atitude de atrair admiração. Pode ainda se manifestar de uma forma disfarçada, de acordo com objetivos a atingir. Aprofundar nessas perspectivas não é o nosso objetivo, mas dizem os especialistas que muitas vezes o vaidoso o é naturalmente, sem perceber, e vive desempenhando um personagem que escolheu e com os conflitos de encontrar-se a si mesmo.

A forma mais visível da vaidade é identificada em pessoas em postos de comando que, ao se julgarem superiores aos demais, demonstram empáfia, orgulho arrogante e presunção da verdade. Tal vício de conduta gera, muitas vezes, problemas de ordem interna nas instituições e disputas desnecessárias.

São considerados folclóricos os exemplos daqueles que se ufanam em demasia, minimizam suas limitações e, na sua falsa modéstia, dizem que o seu maior defeito é ser perfeccionista. Repercutem em conversas informais, com floreios de pilhéria, as situações de pessoas que estão sempre em busca de um destaque especial, como demonstrado em entidades tais como: clubes de serviço, organizações comunitárias, entidades filantrópicas, sindicatos e assemelhados, onde cargos são disputados apenas para que seu ocupante tenha o nome citado em eventos, conste de listas de convidados, nominatas, anuários ou receba chamado para compor mesas em solenidades, além de ser destinatário de homenagens, sentar em posições privilegiadas e outros mimos, saboreando os aplausos de praxe.

Algumas destas pessoas ficam furiosas quando os protocolos se confundem e não se fazem os devidos anúncios ou encaminhamento para posições privilegiadas na mesa principal, por vezes até abandonando o evento em questão.

Muitos se lembram do burburinho ocorrido em oportunidades em que a leitura do currículo de um palestrante ou orador toma proporcionalmente mais tempo do que a apresentação do tema proposto.

Não obstante, é evidente que sentimentos de repulsa e demonização de tudo o que diga respeito a disputas por cargos e funções não podem ser alimentados, seja em que circunstância for da vida em sociedade, pois existem pessoas verdadeiras e capacitadas, e portanto necessárias, que vislumbram projetos nobres e demonstram paixão e arte naquilo que se propõem a fazer. Afinal, recorrendo à sabedoria popular, tudo deve ser avaliado, com os devidos cuidados, para não se “lançar fora o bebê com a água do banho”, ou seja, ver além da simples aparência ou pretensões para não cairmos em vícios de avaliação prematura ou preconceituosa.

Por seu turno, sabendo que há aqueles que não resistem a um tapete vermelho e ao toque de trombetas, deixam-se levar por elogios, títulos, medalhas, cargos e desmancham-se ao serem ovacionados e aplaudidos, a natureza por sua vez deu asas àqueles que adoram paparicar e alimentar esse vício, sabendo do prazer que também a ação proporciona a esses agentes e dos dividendos que podem eventualmente ser colhidos.

Segundo François de La Rochefoucauld (1613/1680), escritor e moralista francês, um pessimista desencantado com o gênero humano, “a bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana”.

Ocorre que sempre avaliamos as situações em que a vaidade se manifesta pelos excessos, pelo incômodo causado. Mas podem ocorrer situações em que se apresenta de forma dissimulada, revestida de certa modéstia, quando a pessoa enaltece boas ações praticadas, como caridade ou ajudas prestadas, como fruto de qualidades ou virtudes que nem sempre se tem, visando a receber aprovação pessoal. Para François de La Rochefoucauld “a necessidade de estima e de admiração está por trás de toda manifestação de bondade, sinceridade e gratidão”.

Por outro lado, a vaidade pode receber avaliação positiva, em especial quando não afeta os outros e está mais ligada à autoestima, como demonstrado em pessoas que querem estar sempre bem e se preocupam com o corpo e a aparência, mantendo-os em evidência. Nestes casos, como em contextos semelhantes, muitos nem chegam a se incomodar, podendo gerar, isso sim, certa concorrência não prejudicial. Afinal, evitando-se os excessos, a natureza do ser humano não pode ser suprimida, mas orientada para o bem.

No âmbito da Maçonaria, sabemos que possíveis vaidades, outros vícios e luxos decantados na vida profana são pacíficos de renúncia no bojo das decisões que fazemos como consequência da opção por sermos aceitos na Ordem, sustentada no tripé da Igualdade, junto à Liberdade e Fraternidade, visando ao bem comum. Contudo, é necessário que se tenha as cautelas necessárias para corrigir os desvios de modo a se evitar que algum Irmão, em nome da vaidade, ultrapassasse os limites e tente submeter sua vontade em detrimento da harmonia geral, provocando discórdia e indisciplina, com possibilidades de desagregar os trabalhos em Loja.

Se no mundo profano os vaidosos disputam posições de destaque, na Maçonaria o obreiro não deve pleitear cargos nem honrarias, realizando apenas e tão-somente os trabalhos que realcem o valor da Ordem, com foco na construção e fortalecimento de relações sinceras, leais e éticas, tendo a convicção de que a vaidade compromete a sustentação das colunas da Loja. A conduta dos Veneráveis e dos Mestres da Loja é a referência para os Aprendizes e Companheiros, que anseiam por bons ensinamentos a ser transmitidos com paciência, prudência e serenidade. Os Mestres precisam estar conscientes da necessidade de estudar e aprofundar as pesquisas e compartilhar seus conhecimentos com os Irmãos e trabalhar para o fortalecimento da loja e da Maçonaria Universal.

O importante para o legítimo Maçom é o seu crescimento espiritual, a sua regeneração e a sua superação sobre a vaidade e outros vícios. Porém, torna-se imprescindível ter em mente que a aceitação nos graus filosóficos não é motivo para ufanismo e pompas ou motivo para considerar-se superior aos demais, pois os mesmos não são exigidos, apenas recomendados, vez que o Grau de Mestre já confere a plenitude da qualidade de Maçom.

Enfim, à parte todos esses conflitos, e como não somos caras-de-pau ou carentes de verniz social, torna-se reconfortante a consciência de que podemos ser distinguidos por nossas qualidades pessoais, por nosso amor ao próximo, educação, gentileza e reputação ilibada, por coerência aos princípios que pregamos, pelos exemplos, pela fidelidade aos familiares e amigos e por não compactuarmos com as injustiças vigentes, manifestando sempre os nossos protestos e indignações quando a situação não se mostra justa e perfeita.

“A vaidade é um princípio de corrupção.” (Machado de Assis)

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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2 respostas para A Vaidade

  1. Jairo Escobar Arregocés disse:

    Gracias Querido Hermano por tan importante y diciente historia de Narciso. Su significado es la persona que siente admiración exagerada por sí mismo, especialmente por su aspecto físico.

    Se mira mucho al espejo.

    Toda una simbologia para los ególatras-idólatras y enfermos por su belleza física y su personalidad. ¡¡Vanidosos!!

    Es un tema de cuidadoso análisis psicológico ya que se puede herir susceptibilidades, egos y algunas personas lo defienden desde su punto de vista y cultura que maneja.(Lo que ayer era malo hoy es bueno y lo que hoy es bueno, mañana será malo. Los tiempos cambian y las comunicaciones avanzan dado los adelantos científicos y tecnológicos, la globalización de la economía y la internacionalización del conocimiento.)

    TAF

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  2. Pedro Araújo disse:

    Bela peça se arquitetura, Ir.’.
    Um TFA
    Pedro Araújo M.’.I.’. RJ

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