Catolicismo e Maçonaria

Ao ser convidado para intercambiar com os Irmãos sobre “Maçonaria e Religião”, mais precisamente sobre os “Encontros e Desencontros do Catolicismo e da Maçonaria”, fomos acometido da preocupação de não vincular ambas. Maçonaria não é uma religião, mas é um caminho que pode resultar na religação da Criatura ao Criador.

Nossos trabalhos visam o aprimoramento moral, ético e de cidadania no homem, naturalmente, comportamentos baseados nesses princípios elevam a condição espiritual do ser humano. A diferença está em que as religiões pregam “o bom comportamento” para alcançarmos uma condição existencial melhor pós-morte. Todos os trabalhos maçônicos calçados “no bom comportamento” visam à melhoria da condição existencial individual e coletiva em vida.

Apesar de encontramos, surpreendente, similaridade nas liturgias, não podemos equiparar Catolicismo e Maçonaria. Ambas são ramos do conhecimento humano, que, apesar de terem algumas metodologias iguais, têm propósitos diferentes.

Vamos, primeiramente, entender o que venha a ser Catolicismo. Em seguida, estudaremos os aspectos pares da Maçonaria com o Catolicismo e finalizaremos com um quadro bem claro sobre os aspectos conflitantes entre essas duas entidades.

Acreditamos que a primeira inquietude que poderemos causar é contar ao Irmão que não podemos confundir Catolicismo com Cristianismo. O Cristão é o seguidor das regras e valores ensinados por Jesus, o Cristo, já, o Católico é o discípulo de um conjunto de fé, princípios morais e éticos, teologia, ritos e doutrinas, que são administradas por líderes religiosos.

A palavra Catolicismo é de origem grega e na linguagem atual, sua melhor definição será “Universal”, em sentido contrário a “local”, provavelmente, os primeiros discípulos utilizaram esse termo para dizer que a mensagem do Cristo já estava difundida em todo o mundo conhecido e, dessa forma, surge o embrião de uma estrutura, que ultrapassa a concepção material de uma instituição.

Essa estrutura é chamada de “Igreja” e a mais conhecida é a Igreja Católica Apostólica Romana. Esse título a qualifica como “Instituição Religiosa Cristã Universal, construída sobre os fundamentos dos Apóstolos e que as unidades locais estão sob a égide da Igreja de Roma, personificada no “Bispo de Roma”.

É preciso esclarecer que outras Igrejas, também, intitulam-se “Católicas” e que, em aspectos doutrinários e administrativos, diferem-se. As principais são: a Igreja Católica Ortodoxa, a Igreja Assíria do Oriente, a Velha Igreja Católica e as Igrejas da Comunhão Anglicana.

Nos três primeiros séculos do Cristianismo, os Papas exerceram o poder espiritual e, em muito, influenciaram a sociedade em questões conflitantes. Três foram os Papas que se destacaram como mediadores e juízes de questões sociais: Clemente I, Vitor I e Calixto I.

O interessante é que nesses três primeiros séculos a Igreja foi organizada e dirigida por três Patriarcas, (de Roma, de Alexandria e de Antioquia), mais adiante se criou a Pentarquia, ou seja, a Igreja Católica foi administrada por cinco Patriarcas (de Roma, de Constantinopla, de Alexandria, de Antioquia e de Jerusalém).

Durante séculos houve conflitos entre essas Igrejas, principalmente, nos aspectos doutrinários, nos Concílios disputados, na evolução de ritos separados e quanto à posição do Papa de Roma seria ou não de real autoridade ou, apenas, de respeito. O que levou à uma divisão, em 1054, em Igreja Católica no Ocidente e Igreja Ortodoxa no Leste. Essa divisão ficou conhecida por “Cisma do Oriente”.

Podemos fazer um paralelo com as divisões que a Maçonaria, como Instituição, sofreu: o questionamento da autoridade do Grão-Mestre; plenárias, extremamente, políticas; criação de Ritos e mudança de aspectos ritualísticos, que geraram a fundação de Potências e Obediências, e a animosidade entre os Irmãos.

A Quarta Cruzada (1202-1204), que foi iniciada com a intenção de tomar a Terra Santa, então, em mãos muçulmanas, foi desviada de seu intuito original, e os Cruzados, junto aos Venezianos, tomaram e saquearam Constantinopla (inclusive as Igrejas), cidade cristã, capital do Império Bizantino. Esse evento levou à consolidação do Grande Cisma do Oriente.

Indiferentes de sua denominação, todas as igrejas adotaram os princípios cristãos e criaram uma administração própria, Templos caracterizados em consonância com o Rito praticado.

Assim como na Maçonaria, houve na Igreja Católica adequação da estrutura dos princípios e instruções às características culturais do ambiente a que ela estava inserida. A Igreja Católica Romana tem vinte e quatro Ritos Autônomos, basicamente, criados tendo como origem seis tradições litúrgicas e, alguns, só podem ser praticados em determinados idiomas (línguas litúrgicas): Igrejas de Rito Caldeu usam o siríaco; Igrejas de Rito Bizantino usam o grego, o eslavo, o árabe, o romeno e o georgiano; Igreja de Rito Armênio usa o armênio; Igrejas de Rito Alexandrino usam o copta.

Na Maçonaria há, também, essa realidade cultural. É muito comum, por exemplo, o Rito Schröder ser praticado em alemão em países de língua diferente. Se lhe parece complicado, lembre-se que, em nossa Sublime Ordem, há muita confusão entre Rito e Ritualística, derivações de Ritos (RER, REAA), Ritos que, em si, não são Ritos (Rito de York, Rito Azul), Ritos Regionais (Rito Mexicano, Rito Brasileiro).

Não há como negar que a Maçonaria, como ciência, utiliza-se de símbolos católicos, isso graças a própria formatação da Maçonaria, como instituição, no século XVIII, era explícito a influência cristã nos documentos de estruturação da Grande Loja da Inglaterra, e não precisamos retroceder aos séculos passados, o Rito Sueco exige que seus membros sejam cristãos.

É importantíssimo ressaltar que compartilhamos símbolos e não doutrinas ou dogmas. Um exemplo claro é a presença, em ambas as Instituições, do Diácono.

No Catolicismo a diaconia quer dizer “Serviço”, então, o Diácono é ordenado para “Servir”. O ministério do diácono é voltado para o serviço à comunidade. A “Lumem Gentium” diz que, “servem o povo de Deus na diaconia da liturgia, da palavra e da caridade (LG 29)”. Na liturgia eucarística, o diácono tem função própria: servir o altar.

Na Maçonaria, a diaconia quer dizer “Serviço”, então, o Diácono é oficializado para “Servir”. A função do diácono é voltada para prestar serviço à Loja. É nos ensinado que cabe aos Diáconos velar pelo respeito e disciplina, para que os trabalhos se executem com ordem e perfeição. Na ritualística maçônica, os Diáconos tem a função primaz de servir aos que ocupam os altares e, simbologicamente, “tem o dom da palavra”.

A grande divisão seguinte da Igreja Católica ocorreu no século XVI com a Reforma Protestante, durante a qual, formaram-se muitas das igrejas protestantes O movimento de reforma litúrgica, iniciado no início da década de 1960, pelo Concílio Vaticano II, tem sido responsável, nos últimos quarenta anos, por uma convergência significativa das práticas predicamentais do Rito Romano com as das igrejas protestantes, afastando-as das dos outros ritos católicos, particularmente, os ritos orientais. Uma característica dos novos pontos de vista litúrgicos tem sido um “regresso às fontes”, que se diz que tem origem na redescoberta de antigos textos e práticas litúrgicas, bem como, muitas práticas novas.

As reformas litúrgicas pós-conciliares (pós- Concílio Vaticano II) incluem o uso da língua vernacular (local), uma maior ênfase na Liturgia da Palavra, e a clarificação do simbolismo. A característica mais visível das reformas é a postura do padre. No passado, o padre virava-se para o altar, de costas para a congregação. As reformas fizeram com que o padre se voltasse para o povo, separado dele pelo altar. Isso simboliza o desejo de que a missa se torne mais centrada nas pessoas.

Há, todavia, críticos que não concordam com a natureza da missa pós-Vaticano II (conhecida, por vezes, como Novus Ordo Missae). Em 2003 foi revelado que a Missa Tridentina pré-Vaticano II estava, de novo, a ser celebrada na Basílica de S. Pedro (embora não no altar principal) e que o Papa João Paulo II começou a celebrar Missas Tridentinas em sua capela privada, no Palácio Apostólico, no Vaticano.

A partir do dia 7 de Julho de 2007, pelo “Motu Proprio Summorum Pontificum”, o Papa Bento XVI reafirmou a validade da Missa Tridentina (pré-Concílio Vaticano II e rezada em latim) e a liberação de celebrá-la a pedido dos fiéis sem prévia autorização episcopal. Assim sendo, existem, atualmente, duas formas de celebração do rito romano: a forma ordinária (Novus Ordo) e a forma extraordinária (Missa Tridentina).

A Igreja Católica é uma comunhão de 24 Ritos autônomos (sui juris), em comunhão completa uns com os outros e em união com o Papa em sua qualidade de Sumo Pontífice da Igreja Universal (apelidado “Pontífice de Roma” na lei canônica). O Papa, na qualidade de Patriarca de Roma (ou Patriarca do Ocidente) é, também, o chefe da maior das Igrejas “sui júris”, a Igreja Latina (popularmente, conhecida como “Igreja Católica Romana”). As 23 Igrejas “sui júris” restantes, conhecidas, coletivamente, como “Igrejas Católicas do Oriente”, são governadas por um hierarca que é um Patriarca, um Arcebispo Principal, ou um Metropolita. A Cúria Romana administra tanto as igrejas orientais quanto a igreja ocidental. Devido a esse sistema, é possível que um católico esteja em comunhão completa com o Pontífice de Roma sem ser um católico romano.

As Igrejas “sui júris” utilizam uma das seis tradições litúrgicas (que emanam de Sés tradicionais de importância histórica), chamadas ritos. Os ritos principais são: o Romano, o Bizantino, o de Antioquia, o Alexandrino, o Caldeu e o Armênio (existem, ainda, dois Ritos Ocidentais menores, o Rito Ambrosiano e o Rito Moçárabe).

O Rito Romano, usado pela Igreja Latina, é dominante em grande parte do mundo, e é usado pela vasta maioria dos católicos (cerca de 98%). Antigamente, havia muitos ritos ocidentais menores, que foram substituídos pelo Rito Romano nas reformas litúrgicas do Concílio de Trento.

Historicamente, o Santo Sacrifício da Missa no Rito Romano (Missa Tridentina) era conduzido, inteiramente, em Latim eclesiástico, mas devido ao Concílio Vaticano II, no início dos anos 60, foi promulgada uma nova versão da Missa (Novus Ordo Missae), que é celebrada na língua vernacular (local). O serviço correspondente das Igrejas Católicas orientais, a Liturgia Divina, é conduzido em várias línguas litúrgicas, segundo o Rito e a Igreja: as Igrejas de Rito Bizantino usam o grego, o eslavo, o árabe, o romeno e o georgiano; as Igrejas de Ritos Antioquiano e Caldeu usam o siríaco; a Igreja de Rito Armênio usa o armênio; as Igrejas de Rito Alexandrino usam o copta e o ge’ez.

Atualmente, seus fiéis, que são cerca de 600 a 700 mil, concentram-se no Médio Oriente, nomeadamente, no Iraque e em partes do Irã e da Turquia. Para além dessas regiões históricas, existe, também, comunidades caldeias na Austrália e nos Estados Unidos da América (nomeadamente, na Califórnia, na Arizona e no Michigan). Um dos católicos caldeus mais famosos é o iraquiano Tariq Aziz, que era um colaborador próximo de Saddam Hussein.

Apesar de a Igreja Caldeia e a Igreja Assíria do Oriente estarem separadas, sua relação melhorou, recentemente, muito devido aos esforços ecumênicos de ambos (Igreja Católica Caldeia).

Catolicismo Vertente do Cristianismo mais disseminada no mundo, o Catolicismo é a religião que tem maior número de adeptos no Brasil. Baseia-se na crença de que Jesus foi o Messias, enviado à Terra para redimir a humanidade e restabelecer nosso laço de união com Deus (daí o Novo Testamento, ou Nova Aliança). Um dos mais importantes preceitos católicos é o conceito de Trindade, ou seja, do Deus Pai, do Deus Filho (Jesus Cristo) e do Espírito Santo. Esses três Seres seriam ao mesmo tempo Um e Três.

Na verdade, existem os chamados Mistérios Principais da Fé, os quais constituem os dois mais importantes pilares do Catolicismo. São eles: a Unidade e a Trindade de Deus; a Encarnação, a Paixão e a Morte de Jesus.

O termo “católico” significa universal, e a primeira vez em que foi usado para qualificar a Igreja, foi no ano 105 d.C., numa carta de Santo Inácio, então, bispo de Antioquia.

No século II d.C., o termo voltou a ser usado em inúmeros documentos, traduzindo a ideia de que a fé cristã já se achava disseminada por todo o planeta. No século IV d.C., Santo Agostinho usou a designação “católica” para diferenciar a doutrina “verdadeira” das outras seitas de fundamentação cristã, que começavam a surgir.

Mas, foi somente no século 16, mais precisamente após o Concílio de Trento (1571), que a expressão “Igreja Católica” passou a designar, exclusivamente, a Igreja que tem seu centro no Vaticano. Cabe esclarecer que o Concílio de Trento aconteceu como reação à Reforma Protestante, incitada pelo sacerdote alemão Martinho Lutero.

Em linhas gerais, podemos afirmar que o Catolicismo é uma doutrina, intrinsecamente, ligada ao Judaísmo. Seu livro sagrado é a Bíblia, dividida em Velho e Novo Testamento. Do Velho Testamento, que corresponde ao período anterior ao nascimento de Jesus, o Catolicismo aproveita, não somente, o Pentateuco (livros atribuídos a Moisés), mas, também, agrega os chamados livros “deuterocanônicos”: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, Macabeus e alguns capítulos de Daniel e Ester. Esses livros não são reconhecidos pelas religiões protestantes.

Autor: Sérgio Quirino Guimarães

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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