Os Collegia Fabrorum

Nenhuma história da Maçonaria seria completa sem elencar os Collegia Fabrorum entre suas fontes de influência. É evidente que existem consideráveis diferenças entre aquelas associações e as Lojas Maçônicas tais como as conhecemos hoje e mesmo como possivelmente funcionavam na Idade Média e início da Idade Moderna.

A similitude aqui é em nível de aproximação entre objetivos, funcionamento e estrutura, já que tais colegiados incorporavam muitas práticas análogas ao que temos nas Lojas maçônicas de hoje.

Alguns historiadores tem reivindicado uma ligação direta entre os Collegia Fabrorum e a Maçonaria citando a organização conhecida no mundo romano como Colégio dos Artífices de Dionísio.

Supostamente, essa organização teria sido uma herdeira dos antigos construtores, que desde a construção do Templo de Salomão continuavam preservando os segredos místicos da arte de construir.[1]

Essa hipótese busca confirmação na já bem conhecida teoria Comacine, segundo a qual alguns egressos desse grupo de arquitetos, fugindo das invasões bárbaras, buscaram asilo em um mosteiro próximo ao Lago Como na Itália, e ali sobreviveram vivendo como monges, preservando esses segredos durante séculos. Foram esses conhecimentos que permitiram os povos da Europa reconstruir suas cidades destruídas pelas invasões bárbaras.

Esses arquitetos comacinos teriam servido de mestres para esses novos maçons, que viriam a ser os antecessores dos nossos Irmãos operativos medievais. Segundo essa teoria, os comacinos, agindo como missionários cristãos, fundaram escolas de arquitetura em vários. países europeus, principalmente nas Ilhas Britânicas, na França e Alemanha, onde seus ensinamentos prosperaram com maior vigor.

Por fim cabe citar aqui a teoria proposta por Robert F.Gould em sua História da Maçonaria (Londres, 1727). Segundo esse autor os Collegia Fabrorum entraram nas Ilhas Britânicas através dos exércitos romanos, que deles necessitavam para construir e reconstruir as cidades que foram destruídas na guerra de conquista. Quando os romanos foram, enfim, expulsos da ilha, essa instituição tipicamente romana foi recepcionada por seus sucessores anglo-saxões na forma de guildas formadas pelos profissionais dos mais variados serviços, entre eles, o mais importante, os pedreiros profissionais.

Essa teoria tem vários seguidores entre os historiadores maçons e apresenta uma certa lógica confirmada pela História da civilização nas Ilhas Britânicas. Todavia, há bem pouca documentação que a confirme.[2]

Há também quem acredite que os Collegia Fabrorum tenham, de algum modo, sobrevivido no Império Romano do Oriente, através das guildas dos construtores bizantinos. Sua influência se fez sentir na Europa, servindo de núcleo para a fundação das guildas europeias. Teriam sido, segundo essa crença, um importante elemento de influência na chamada Renascença, principalmente através das suas ligações com um famoso grupo de arquitetos florentinos. Teria sido a partir deste último grupo, aliás, que surgiu a chamada Maçonaria Especulativa, grupo de pensadores que tem a arquitetura como forma simbólica de expressar a sua filosofia. Essa linha de pensamento nos leva até Leonardo da Vinci, a Paulo Toscanelli, famoso arquiteto da Renascença, e ao navegador Américo Vespúcio, que no início do século XVI fundaram a Academia de Arquitetura em Milão, sob os auspícios da família Sforza.

Reunindo em torno de si uma formidável plêiade de artistas e intelectuais da época, essa Academia foi o foco irradiador do movimento cultural conhecido como Renascença. As ideias geradas por esse grupo influenciaram a Europa inteira e penetraram com mais vigor nas universidades e academias, que nessa altura já se disseminavam por todo o continente europeu. Essa influência se espalhou também por outras organizações, inclusive as Corporações de Ofício.[3]

MAÇONARIA

Evidentemente, a existência dos Collegia Fabrorum não explica, por si só a origem da Maçonaria, como também os Antigos Mistérios, nem as guildas dos antigos construtores medievais. Todas essas organizações e manifestações culturais constituem ligações que podem ser estabelecidas com maior ou menor grau de certeza, porém nenhuma delas pode ser efetivamente eleita como a legítima antecessora da nossa Ordem. A verdade é que a Maçonaria, como todo arquétipo que habita no inconsciente coletivo da humanidade, não tem, como os demais institutos que moldam o espírito humano, uma fonte única de referência.

Da mesma forma que os Antigos Mistérios, as guildas medievais, as seitas religiosas dos judeus, as seitas gnósticas e os diversos clubes e agrupamentos de defesa de interesses mútuos que já se formaram no mundo, em todos os tempos, os Collegia Fabrorum ocupam um lugar proeminente nessa eterna luta em que o espírito humano se empenha, com o objetivo de organizar suas sociedades. A ideia de agrupar-se, de procurar juntar-se aos seus iguais é uma necessidade que o homem tem procurado suprir desde a aurora da sua existência. Ninguém consegue vencer sozinho os desafios que o mundo nos coloca. Por isso é que nos reunimos em grupos. Essa á a forma de colocarmos ordem no caos (Ordo ab Chaos), missão que o Grande Arquiteto do Universo nos confiou.

Por isso a história da Maçonaria é a história do sentimento de cooperação e da ideia da fraternidade universal entre os povos. É, em última análise, a história da Irmandade. Seja ela ligada por laços de uma mística ideia de que um dia essa união já existiu em seu estado mais perfeito, e que se pode recuperá-la pelo espírito da egrégora, seja simplesmente pela cultura pura e simples das virtudes que tornam a vida social mais feliz. Essa é a esperança e o objetivo de toda Irmandade e é para realizar essa ideia que a Maçonaria existe.

Autor: João Anatalino

Notas

[1] – Hipótese defendida pelo Irmão da Costa- History of the Dionysian Artificers –Ensaio- Lodge The Montana Mason – November 1921.

[2] – Um desses raros documentos é a constituição do lendário Rei Athelstan, da Inglaterra, que século X, outorgou aos profissionais de construção do país um estatuto regulando essa profissão.

[3] – SUTTON, Ian; História da arquitectura do Ocidente; Lisboa: Verbo, 2004

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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