Vícios e Virtudes

O título desta Prancha decorreu de conversas com o meu Irmão padrinho, no trajeto de todas as quartas-feiras para a nossa Oficina, sobre a escolha de um tema complementar aos trabalhos que eu havia apresentado anteriormente a respeito da Terceira Instrução do Segundo Grau.

Repercutindo os temas complexos daquele trabalho, e aprofundando aspectos da filosofia iniciática, disse-lhe que havia me defrontado de uma forma embaraçosa com os questionamentos iniciais provocadores sobre “O que é a vida? Para que ela serve? Qual o seu fim?”, os quais lançam desafios ao livre pensador na direção da busca da “Verdade” e da necessidade de “Meditação” sobre a temática.

No processo de discussão, relatei-lhe que sempre retornava à minha mente aquelas perguntas do ritual de iniciação sobre o entendimento da Virtude e o que pensava ser o Vício, pois somente se pode trabalhar no sentido do aperfeiçoamento daquele e na desconstrução deste com o perfeito e justo entendimento dos respectivos limites de cada conceito e seus reflexos em nossa vida. Afinal, para isso eu entendia que meditar sobre a finalidade da vida seria um passo importante para começo de um plano de ação mais efetivo no sentido de dar concretude ao levantar templos à virtude e cavar masmorras ao vício, de forma a vencer paixões e submeter vontades, para o esperado aprimoramento espiritual.

Assim, recebi a sugestão do prezado Irmão para aprofundar o tema envolvendo Vícios e Virtudes.

Daí, deparei-me, na busca de literatura a respeito, com um texto anônimo, baixado da internet, sobre a “Finalidade da Vida”, que no processo de aquecimento preliminar apresentei no “Quarto-de-Hora de Estudos” do dia 09.06.10. No referido texto se afirma que ”a finalidade da vida terrena é o aprimoramento espiritual”. Prossegue o texto dizendo: “Tudo aqui na Terra são meios de se aprimorar espiritualmente. O estudo, o trabalho, o casamento, o lazer, etc., são meios de a pessoa evoluir”.

Não se pode olvidar que esse processo de evolução tem um ritmo diferenciado para cada indivíduo e, fazendo uma analogia com a mãe natureza, a profundidade das raízes que cultivamos, fortalecidas nos problemas enfrentados, nas penas e nas quedas, aí envolvida a construção dos nossos valores mais sagrados, nos dá forças necessárias para enfrentar a caminhada desafiadora de superação lançada pelo Grande Arquiteto do Universo, que sempre nos disponibiliza a inteligência como arma necessária para vencer as vicissitudes e romper as barreiras da ignorância.

Entretanto, esse aprimoramento espiritual passa por reflexões sobre o conhecimento que temos de nós mesmos, da consciência da nossa ignorância, que nos remete à inscrição do “conhece-te a ti mesmo” insculpida no Templo de Delfos, inspirada em Sócrates (470 ou 469 a.C.), onde se lembrava aos homens que eles não passavam de meros mortais e que nenhum homem pode fugir ao seu destino. Este lema Socrático estimula a consciência racional de si mesmo em cada ser humano, para organizar a própria existência, pois não somos o mesmo em todas as situações de nossa vida atribulada, “por isso chamamos o correto reconhecimento de si próprio de a essência da Sabedoria humana, pois o homem não cessa e não deve cessar nunca de aprender, de se formar e de evoluir”.

Ainda segundo Ubyrajara, “a psicologia nos ensina que quando uma pessoa amadurecida investe em se conhecer, liberta-se de certas restrições psicológicas arbitrárias impostas por sua educação e pela sociedade… o homem ignorante (Pedra Bruta) é uma presa fácil aos preconceitos… o conhece-te a ti mesmo é um chamamento ao homem para o despertar de suas Virtudes”.

Na sequência de seu raciocínio, aduz que “no contexto filosófico, a Maçonaria, através do convite para que o iniciado ‘visite o seu interior‘, procura despertar no Aprendiz o seu pensar em sua própria existência, alertá- lo de seus deveres morais para consigo mesmo; quando o homem se escraviza a dogmas, quando o homem se esquece de si próprio , está a negar-se como SER. O Aprendiz ainda muito próximo do mundo material deve começar a investir no “conhecimento de si mesmo‘ e através de uma transformação individual evoluir como SER”.

Essa evolução pressupõe o entendimento que o único bem a ser conquistado é a Virtude e esta consiste unicamente na coragem do homem de praticá-la, isto é, extirpar de si tudo que não for o bem. E para isso a primeira coisa é aprender a pensar, que demanda o saber ouvir com atenção. “Aprender a pensar é aprender a conhecer, é aprender a discernir, é aprender a concatenar os pensamentos, a aprender a falar”.

Pensar a Virtude é se conscientizar de todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente. Para Sócrates a Virtude é o fim da atividade humana e se identifica com o bem que convém à natureza humana. Platão (429-347 a. C.), que desenvolve a doutrina de Sócrates, apresenta a Virtude como meio para atingir a bem-aventurança. Aristóteles (384-322 a. C.) interpreta-a como qualidade ou disposição permanente do ânimo para o bem. Para ele, Virtude é um hábito bom. Santo Agostinho diz que “a virtude é uma boa qualidade da mente, por meio da qual vivemos retamente“. Santo Tomás de Aquino diz que “a virtude é um hábito do bem, ao contrário do hábito para o mal ou o vício“.

Esse aprendizado é estimulado no Aprendiz logo no ritual de iniciação quando o mesmo é instado a extinguir paixões, vícios e os preconceitos mundanos que possui, para viver com Virtude, Honra e Sabedoria. É-lhe ensinado que a Virtude é uma disposição da alma que induz à prática do bem e o Vício tudo aquilo que avilta o ser humano, o hábito desgraçado que arrasta para o mal. Esse processo de aperfeiçoamento é penoso e somente pode ser alcançado com muito trabalho para adaptar nosso espírito e regular nossos costumes pelos eternos princípios da moral, para darmos à nossa alma o equilíbrio de forças e de sensibilidade que constitui a “Ciência da Vida”.

Essa busca deve começar no fundo do coração e pode aparentar-se inicialmente muito fácil. Para isso vale trazer para reflexão a Lenda do Deus Brahma (criador da trindade Hindu), também conhecida como a Lenda dos Devas.

Conta a lenda que, após criar nosso Universo, preparando-o para toda forma de vida que surgiria em seu devido tempo, o deus Brahma deparou-se com grande problema: onde esconder o segredo da chama da criação divina? Pergunta aos demais deuses e recebe de imediato a resposta: – Esconda-o no mais alto dos céus. Brahma pensa e responde: – Não! Haverá de surgir seres inteligentes, que chamarão a si mesmos de humanos, e estes irão construir pássaros maiores dos que criei e descobrirão o segredo. O grupo medita e fala: – Esconda-o no mais profundo dos oceanos. Brahma, novamente, pensa e propõe: – Não! Um dia esse mesmo ser construirá peixes que em pouco tempo encontrarão o segredo. O grupo faz mais uma tentativa e, depois de longa introspecção, sugere: – Esconda-o nas profundezas da Terra. Brahma, responde de imediato: – Também não adiantará! Eles chegarão lá em pouco tempo e terão o segredo em suas mentes. Finalmente Brahma diz ao grupo: – O segredo da chama divina da criação deverá ficar escondido dentro do coração de cada um destes seres que estão por vir. Nada entendendo, perguntam do por que da escolha deste lugar tão fácil de ser achado, a que Brahma responde: – Estes seres que estão por vir jamais procurarão nada no fundo de seus próprios corações.

Então, se podemos facilitar, por que complicar? Para todo veneno temos um antídoto. Numa visão dualista, se o vício “é o oposto da virtude e sendo algo inato ao homem ele deverá ser combatido com o desenvolvimento da virtude através do autoconhecimento”. “O triunfo da virtude é a vitória do homem sobre suas paixões, conquistando a harmonia interior, quando se torna senhor de si”. Quando o homem compreender que o vício é incompatível com sua própria felicidade e até mesmo com sua própria segurança mais ele sentirá a necessidade de combatê-lo e será levado a agir assim por seu próprio interesse na busca da felicidade”.

Para ajudar a humanidade não afeita aos estudos filosóficos e meditações transcendentais, as religiões e assemelhados sempre ocuparam esse espaço procurando definir os contornos dos conceitos de vícios ou pecados a serem evitados e das virtudes necessárias a uma boa orientação para a vida em coletividade.

Os nossos conhecidos sete pecados capitais são quase tão antigos quanto o cristianismo. Mas eles só foram formalizados no século VI, quando o papa Gregório Magno, tomando por base as Epístolas de São Paulo, definiu como sendo sete os principais vícios de conduta: gula, luxúria, avareza, ira, soberba, preguiça e inveja. Mas a lista só se tornou “oficial” na Igreja Católica no século XIII, com a Suma Teológica, documento publicado pelo teólogo são Tomás de Aquino (1227-1274). No documento, ele explica o que os tais sete pecados têm o que os outros não têm. O termo “capital” deriva do latim caput, que significa cabeça, líder ou chefe, o que quer dizer que as sete infrações são as “líderes” de todas as outras.

E, do ponto de vista teológico, o pecado mais grave é a soberba, afinal é nesta categoria que se enquadra o pecado original: Adão e Eva aceitaram o fruto proibido da árvore do conhecimento, querendo igualar-se a Deus. A Igreja até tentou oferecer soluções para os pecados capitais, criando uma lista de sete virtudes fundamentais – humildade, disciplina, caridade, castidade, paciência, generosidade e temperança -, mas os pecados acabaram ficando mais famosos. Afinal, notícia boa não repercute.

Outras religiões, como o judaísmo e o protestantismo, também têm o conceito de pecado em suas doutrinas, mas os sete pecados capitais são exclusivos do catolicismo.

Assim, se conclui que ”desde que o homem começou a ter as primeiras noções de moral, vem-lhe sendo repetido que deve ser bom, que deve elevar sua vida e ser melhor. Entretanto, foi-lhe ensinado positivamente como fazer para alcançar semelhante desiderato?”. Respondendo a este questionamento, González Pecotche afirma que não foi ensinado ao homem como ser melhor, por falta de conhecimento daqueles que pretenderam fazê-lo, ao inculcar no semelhante, desde a mais tenra idade, pensamentos e sugestões incompatíveis com sua razão e sensibilidade. Prossegue, afirmando que sempre se buscou o fácil, o ilusório e sedutor, a fim de conquistar adeptos para uma ou outra seita religiosa ou tendência filosófica.

Na concepção daquele educador, o caminho passa pelo conhecimento, pelo bloqueio e na ação de debilitar e anular todas as deficiências psicológicas que afetam a criatura humana. Ressalta que “é preferível conhecer que inimigos temos dentro, para combatê-los com lucidez mental, a ignorá-los, enquanto ficamos à mercê de sua influência despótica, suportando docilmente a maioria dos desgostos e depressões que diariamente nos acarretam”. Com isso, assegura Pecotche, aquela citação de que “pau que nasce torto morre torto” torna-se inconsistente, pois que, ao modificar as causas que determinam a defeituosa configuração psicológica do indivíduo, modifica-lhe também a vida na totalidade de seu conteúdo.

No aspecto prático da sua doutrina Pecotche chama de deficiência ao pensamento negativo (dominante ou obsessivo) que, enquistado na mente, exerce forte pressão sobre a vontade do indivíduo, induzindo-o de modo contínuo a satisfazer seu insaciável apetite psíquico. Ilustra o autor que essas deficiências, em alguns casos, têm tanta influência na vida do ser humano e se evidenciam de tal maneira, que este é apelidado pelas suas características, tais como: vaidoso, rancoroso, egoísta, teimoso, intolerante e, em outros casos, de presunçoso, hipócrita, fátuo (vaidoso, pretensioso), intrometido, obstinado, néscio, etc. Nesse sentido, é trabalhoso descobri-las e convencer-se de sua realidade e enfrentar a tarefa de erradicá-las da nossa vida.

Para corrigir essas deficiências ou vícios, Pecotche criou a figura da “antideficiência”, que seria a virtude em ação ou forma de pensamento específico para opor-se a elas, para anular o despotismo que o pensamento-deficiência exerce sobre o mecanismo mental, sensível e espiritual do homem, vigiando, repreendendo e paralisando o vício.

Nesse desiderato, o trabalho de localizar e compreender cada deficiência demanda perseverança na vigilância sobre ela. Nessa senda, é indispensável manter-se firme no propósito de superação e adaptação à “antideficiência”. Para ilustrar essa necessidade de perseverar e cuidar, Pecotche traz a metáfora do fazendeiro que tem suas terras invadidas por feras, as quais, após assolar seus campos e sedentas de sangue, se lançam contra sua vivenda, com o objetivo de acabar com ele. Nesta imagem, alguém faz chegar ao fazendeiro armas de fogo para a defesa de sua vida e de seus bens, mas ele não sabe como usá-las. No início as feras se assustam com os estampidos, mas quando não vêm os resultados e se acostumam a eles voltam a atacar.

Nesse contexto, Pecotche afirma que as deficiências ou vícios são feras mentais que destroem os pensamentos e projetos úteis, como acontece com o pessimismo, a obstinação, o descuido, a irritabilidade, a veemência, etc. Essas deficiências afetam a vida psíquica, tal como fazem as enfermidades em relação ao corpo. Ainda segundo ele, não devemos nos iludir acreditando que uma deficiência, por leve ou inofensiva que pareça, possa permanecer em nossa mente sem prejudicar-nos. Para ilustrar novamente, cita o caso do camponês que levou dois filhotes de tigre para criar, presumindo que cresceriam mansos e inofensivos ao seu lado. Certo dia, já crescidos, esqueceu-se de levar-lhes alimento e os mesmos, impelidos pela fome, atiraram-se sobre ele e o devoraram. Vícios, como feras, enquanto não eliminados, serão sempre risco latente.

Portanto, devemos estar alertas e operantes no sentido de vencer as deficiências generalizadas no ser humano, dentre aquelas mais conhecidas e que retirei do rol apresentado por Pecotche, quais sejam: vaidade, falsa humildade, soberba, presunção, impaciência, egoísmo, cobiça, verborragia, rancor, intolerância, teimosia, hipocrisia, negligência, rigidez, petulância, etc. Assim, para quem se propõe a superar essas deficiências deve substituí-las por uma eficiência como objetivo a ser alcançado, onde deverá ser colocado o máximo de empenho. Portanto, na seqüência acima, teríamos a modéstia, sinceridade, humildade, paciência inteligente, desprendimento, honestidade, concisão, bondade, tolerância, docilidade, veracidade, diligência, flexibilidade, cordura (ser cordato), etc.

Além dessas e de outras deficiências e “antideficiências”que enumera, Pecotche destaca ainda uma série de pensamentos negativos que se manifestam esporadicamente e exercem pressão sobre a vontade e promovem um relaxamento circunstancial do juízo, denominados propensões. Estas devem ser também enfrentadas com a firme determinação de vencê-las, tais como as propensões a: adular, prometer, dissimular, iludir, isolamento, exagero, desalento, desespero, desatenção, confiar no acaso, pessimismo, licenciosidade, descuido, etc.

É preciso, pois, acabar com tais deficiências e pensamentos antes que eles acabem conosco, perseverando e assumindo uma condução consciente da vida, tornando-nos seres humanos mais plenos, persistentes no caminho do bem, não postergando a necessária e inadiável evolução interna nesta jornada material do aprimoramento do espírito, efetiva finalidade da vida, conforme avocado no início deste trabalho. Enfim, para uma reflexão mais profunda, vale o alerta do educador, escritor e naturalista norte-americano David Starr Jordan, “sabedoria é saber o que fazer, virtude é fazer”.

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

Fontes de pesquisa

Ritual e Instrução Grau 2 – R∴E∴A∴A∴ e Manual de Instruções – Grau 1-  R∴E∴A∴A∴

Souza Filho, Ubyrajara. Cognições e Evolução dos Rituais Maçônicos, Londrina (PR): Editora “A Trolha”, maio 2010

González Pecotche, Carlos Eduardo. Deficiências e Propensões do Ser Humano. São Paulo: Logosófica, 11ª Ed, 2005.

Revista Mundo Estranho – site: http://mundoestranho.abril.com.br/religiao/pergunta_287783.shtml

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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