Pavimento Mosaico: Uma Incursão Simbólica pela Cabala Medieval

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Introdução

Neste ensaio apresento uma interpretação do Pavimento Mosaico como um símbolo cabalístico, procurando, assim, extrapolar a mera interpretação alegórica. Com efeito, a interpretação alegórica não fornece, do meu ponto de vista, a necessária coesão hermenêutica para os Ornamentos da Loja. Entendo por coesão hermenêutica a perspectiva segunda a qual as interpretações simbólicas dos Ornamentos fazem parte do mesmo pano de fundo e uma não tem significado sem a outra. Busco, por isso, neste ensaio, sob a ótica da Cabala medieval, um significado mais profundo para os Ornamentos, em especial para o Pavimento Mosaico.

Em primeiro lugar, na seção 2, procuro identificar em que ponto o pavimento do Templo passou a ser associado a Moisés. Essa discussão é relevante pelo simples fato de que essa conexão não existe nos catecismos ingleses do século XVIII, aparecendo somente nos rituais americanos no século XIX, donde derivaram os nossos. Entretanto, mostro que essa conexão existia antes de 1717 em algumas Antigas Obrigações, particularmente, no MS Dumfries № 4. Em seguida, na seção 3, apresento uma discussão quanto a se o Pavimento Mosaico se refere a Moisés ou, como dizem alguns, às Musas, sendo, neste caso, apenas um pavimento adornado. Defendo a tese de que se refere, de fato, a Moisés, mas os motivos que apresento são diferentes dos existentes, principalmente porque não considero convincentes os argumentos comumente apresentados em seu favor. Na seção 4, enveredo pela necessidade de se extrapolar a visão do Pavimento Mosaico como alegoria da dualidade e passar-se a vê-lo como símbolo de algo mais profundo. Essa extrapolação se faz necessária porque, no nível alegórico, não existe coesão hermenêutica na estrutura interna dos Ornamentos. A busca por uma concepção simbólica do Pavimento Mosaico em particular e dos Ornamentos em geral só tem sentido se ela for capaz de fornecer a coesão hermenêutica ausente da concepção alegórica. Esse caráter simbólico encontrei-o na Cabala medieval. Na seção 5, com o intuito de justificar o uso histórico da Cabala para a elevação do Pavimento Mosaico ao patamar de símbolo, apresento evidências do caráter cabalístico da Maçonaria especulativa pouco antes de seu nascimento oficial e de sua perpetuação até a união das duas Grandes Lojas da Inglaterra. Na seção 6, apresento finalmente os meus pensamentos quanto ao tema proposto. Com base nas concepções cabalistas da Torá, que surgiram na Catalunha e na Provença do século XIII e que passaram para a Cristandade renascentista através de Pico della Mirandola, proponho uma interpretação simbólica do Pavimento Mosaico que dá aos Ornamentos uma significação coesa.

Conexão do Pavimento Mosaico ao Templo de Salomão

O Ritual do Franco-Maçom de Thomas Smith Webb (Freemason‟s Monitor), cuja primeira edição é de 1797, é o ritual sobre o qual se basearam todos os rituais em uso hoje nos Estados Unidos e, por conseguinte, os nossos. Sobre os Ornamentos, diz o Ritual de Webb que:

O Pavimento Mosaico é uma representação do piso térreo do Templo de Salomão; a Orla Dentada, essa bela borda orlada ou franjada que o rodeia; e a Estrela Flamejante no centro comemora a estrela que apareceu para guiar os sábios do oriente ao lugar da natividade de nosso Salvador. O Pavimento Mosaico é um emblema da vida humana, um entrelaçamento de bem e de mal; a bela borda que o circunda, aquelas bênçãos e confortos que nos rodeiam e que esperamos obter mediante uma firme confiança na Providência Divina, a qual é hieroglificamente representada pela Estrela Flamejante no centro. [Webb, p. 37, edição de 1806] (grifo nosso).

A mesma definição é repetida ipsis litteris no Ritual de Shaver, publicado originalmente em 1892. Ele apenas acrescenta que:

Enquanto o Pavimento Mosaico está diante de nós, somos instruídos a não nos vangloriarmos de nada, a ter compaixão e a dar assistência àqueles que estão na adversidade, a sermos corretos e humildes, pois tal é o estado presente de existência, que não há situação na qual não possamos ser colocados; ao contrário, é sujeito a reveses. Hoje nossos pés passeiam na prosperidade, amanhã cambaleamos sobre os irregulares caminhos da fraqueza, tentação e adversidade. Enquanto caminha sobre esse Mosaico, tenha todo Maçom esses fatos em mente e, à medida que os ditames da razão e da consciência o incitem, viva em amor fraternal. [Shaver (1907), p. 40] (grifo nosso).

A despeito de quais possam ser seus significados alegóricos e simbólicos, o fato relevante é que, nos rituais norte-americanos, o Pavimento Mosaico é associado ao Templo de Salomão, algo que não ocorre nas instruções de Emulação. De acordo com a primeira Instrução de Emulação, o Pavimento Mosaico é simplesmente “o belo piso da Loja”, sem quaisquer outros acréscimos [Horne (1972), p. 248].

Pode parecer que a conexão do Pavimento Mosaico com o Templo de Salomão é um puro americanismo, mas existem evidências dessa conexão na Inglaterra já no início do século XVIII, um século antes do ritual de Webb. A evidência documental não está nos rituais do século XIX nem nos catecismos britânicos do século XVIII, mas em manuscritos relativos às Antigas Obrigações (Old Charges). Com efeito, no MS Dumfries № 4, circa 1710, encontramos a seguinte Obrigação:

Servirás ao verdadeiro Deus e cuidadosamente manterá seus preceitos em geral e particularmente os Dez Mandamentos entregues a Moisés no Monte Sinai, como te foram plenamente explicados no pavimento do Templo[apud Horne (1971), p. 248] (grifo nosso).

Nesse trecho, evidencia-se não só uma explícita conexão do Pavimento Mosaico ao Templo de Salomão, mas também uma conexão com a Lei Mosaica.

Em Masonry Dissected, de Samuel Prichard (1730), o Pavimento Mosaico é tomado tanto como o piso da Loja quanto como o piso do Templo de Salomão, em duas séries de perguntas e repostas. Em primeiro lugar:

  • P. Tens algum Móvel em tua Loja? 
  • R. Sim.
  • P. Qual? 
  • R. O Pavimento Mosaico, o piso térreo da Loja, a Estrela Flamejante no centro e a Orla Dentada, a borda que o rodeia. [apud Horne (1971), p. 249] (grifo nosso).

No curso de uma conversação sobre o Templo de Salomão, encontramos:

  • P. Quais são as Joias-Mestras?
  • R. O Pórtico, as Janelas e o Pavimento Quadrado.
  • P. Explica-os.
  • R. O Pórtico é a entrada para o Sanctum Sanctorum, as Janelas as luzes do lado de dentro e o Pavimento Quadrado o piso térreo. [apud Horne (1971), p. 249].

Qualquer que seja a forma do “pavimento quadrado”, certamente refere-se a um pavimento no Templo de Salomão. Na terceira Instrução de Emulação, a terceira joia-mestra (ou ornamento) é definida como “o pavimento quadrado onde caminha o Sumo Sacerdote” [Horne (1971), p. 249].

Portanto, a associação do Pavimento Mosaico ao Templo de Salomão existe aproximadamente desde o nascimento oficial da Maçonaria especulativa e é exclusiva da simbólica maçônica.

Essa associação, no entanto, é arbitrária, pois não possui respaldo histórico, pelo menos no que tange às fontes arqueológicas mais relevantes, a saber, a própria Bíblia, a obra As Antiguidades dos Judeus (vide, particularmente, livro VIII, capítulo 3), de Flávio Josefo (A.D. 37 – circa 100), e a obra De Templo Salomonis, do Venerável Beda (673-735), considerada a primeira interpretação alegórica do Templo de Salomão. Nem mesmo em obras importantes imediatamente anteriores ao nascimento oficial existe tal associação, como, por exemplo, Solomon‟s Temple Spiritualized, de John Bunyon (1688).

Em todas essas fontes fala-se do pavimento do Templo, mas não do Pavimento Mosaico da forma como é representado em nossos painéis. Horne (1971, p. 251) acredita ser possível que a associação maçônica do Pavimento Mosaico ao Templo de Salomão se deva a uma tradução literal de II Crônicas 3:6 da Vulgata latina:

Cobriu também o pavimento do templo de preciosíssimo mármore, de muita beleza.

A versão da Vulgata latina vem da Septuaginta grega, que, em Paralipômenon II 3:6, traz:

Também adornou a habitação [o Templo] com pedras preciosas para o esplendor (…).

Até mesmo n’As Antiguidades dos Judeus, a fonte não-bíblica certamente mais consultada pelos inventores da Maçonaria especulativa nos séculos XVII e XVIII, Flávio Josefo apenas comenta o seguinte:

E também aplainou o pavimento do templo com lâminas de ouro. [Josephus, AJ, VIII(74), cap. 3].

Como se depreende tanto da Vulgata como da Septuaginta, é plausível afirmar que a simbólica maçônica tenha, de fato, buscado nessa passagem bíblica a associação do Pavimento Mosaico ao Templo de Salomão. Mas a fonte bíblica permite apenas uma associação entre o pavimento e o Templo de Salomão, mas não do Pavimento Mosaico propriamente dito. Daí se conclui que, havendo uma menção ao embelezamento do pavimento ou da fundação do Templo, os maçons especulativos tomaram emprestada essa associação e inventaram o Pavimento Mosaico, associando-o ao Templo de Salomão.

Mas devo analisar mais profundamente essa sugestão de Horne (1971, p. 251), pois existe, na literatura maçônica, uma sugestão alternativa. A Vulgata traz explicitamente o termo “pavimento” (pavimentum), enquanto a Septuaginta traz apenas “habitação” (οἶκοσ, pronuncie “óikos”). Já Flávio Josefo fala do “pavimento” (ἔδαφοσ, pronuncie “édafos”, que, na verdade, tem o significado mais geral de “fundação”). Se os Maçons especulativos se basearam na Vulgata, então certamente desconsideraram a Septuaginta, talvez se apoiando também em traduções latinas de Flávio Josefo. A sugestão de Horne (1971, p. 251), portanto, só se fundamenta se supusermos que os introdutores do Pavimento Mosaico na simbologia maçônica por alguma razão desconsideraram o texto grego (já que é pouco provável que conhecessem o original hebraico) e preferiram um trecho da Bíblia diretamente relacionado ao tema do Templo de Salomão.

Digo isso porque Mackey (1916, pp. 493- 494) sugere uma outra origem bíblica para a adoção da ideia de pavimento, que me parece, do ponto de vista etimológico, mais plausível, mas que requer se pague o preço de não se basear numa referência a Salomão. Mackey (1916, pp. 493-494) sugere que a origem esteja em João, 19:13, que, na versão da Bíblia de King James, traz:

Quando Pilatos, portanto, ouviu o que diziam, trouxe Jesus e sentou-se no assento do julgamento em um lugar que é chamado o Pavimento, mas que em hebraico [é dito] Gabbatha.(grifo nosso).

Com relação a esse versículo, a Septuaginta traz o termo Λιθόςτρωτοσ (pronuncie “lithóstrotos”), que, na Vulgata, é simplesmente transliterado para Lithostrotus (pronuncie “lithóstrotus”) e que significa algo preparado com pedras, pavimento enxadrezado de pedras. Mackey (1916, pp. 493-494) usa como prova disso o fato de que é esse o significado que Plínio Maior, em sua Historia Naturalis, atribui ao termo lithostrotus. O problema com a sugestão de Mackey (1916, pp. 493-494) é que, nesse versículo, não há associação do pavimento ao Templo de Salomão, apenas ao templo à época de Jesus. No meu entender, esse é um preço que não deve ser pago. Além do mais, o que tem Moisés a ver com tudo isso?

Portanto, acredito que tanto Horne (1971, p. 251) como Mackey (1916, pp. 493-494) poderiam ter procurado a origem dessa associação em outro lugar.

Musas ou Moisés?

Existe uma controvérsia quanto ao termo Pavimento Mosaico referir-se a um pavimento adornado de mosaicos, justificando-se menção às Musas, entidades do panteão de deuses gregos ligadas às artes em particular e à beleza em geral, ou ao pavimento de Moisés, o que quer que isso signifique.

A confusão começou com a distinção inadequada entre “pavimento mosaico” e “pavimento de mosaicos”.

Aqueles que dizem que o certo é “pavimento de mosaicos” argumentam que mosaico se refere, na verdade, ao conjunto de ladrilhos de cores variegadas, de modo que o certo seria “pavimento de mosaicos”, ou seja, “pavimento de ladrilhos de cores variegadas”. O adjetivo mosaico não se referiria a Moisés, mediante o adjetivo grego μοςαικόσ, mas, na verdade, ao adjetivo μουςικόσ, que, numa primeira tradução, quer dizer musical, mas que, numa tradução mais elaborada, levando-se em conta a origem dessa palavra, é um adjetivo que se refere às Musas e, portanto, se refere ao caráter artístico e esteticamente belo da configuração do pavimento. Significaria “digno das musas” e, portanto, “de rara beleza” etc. A razão pela qual μουςικόσ se transformou em μοςαικόσ, dando origem a toda essa confusão, é fácil de entender e nem requer comentários adicionais.

Contra a tese de que o certo seria “pavimento de mosaicos”, argumento que mosaico é um termo que passou às línguas modernas através do italiano. De fato, mosaico é um vocábulo italiano de origem grega que já denota “um pavimento composto de ladrilhos de diversas cores”, de modo que o certo seria falar simplesmente mosaico, pois “pavimento de mosaicos” seria uma redundância. Agora, o substantivo de origem italiana mosaico certamente ganhou status de substantivo por uma simplificação linguística. Assim, o termo italiano mosaico na verdade significa “pavimento mosaico”. Desse modo, abraço a ideia de que o correto é “pavimento mosaico”, sendo mosaico meramente um adjetivo. Essa percepção linguística do termo também é explicitada por Castellani (2006, pp. 207-208), que chega a dizer que o termo “pavimento de mosaicos” é uma bobagem. Ele argumenta que o substantivo mosaico denota o pavimento adornado e que o adjetivo mosaico refere-se exclusivamente a Moisés. Com base no que argumentei acima, julgo que a conclusão de Castellani é parcialmente correta, pois seu argumento é errado. O adjetivo mosaico também pode se referir às Musas, desde que se entenda a confusão fonética entre os adjetivos gregos μοςαικόσ (referente a Moisés) e μουςικόσ (referente às Musas). Se a pronúncia bizantina medieval era mais semelhante à do grego moderno, μοςαικόσ seria pronunciado “mossikós”, muito semelhante a “mussikós”, a pronúncia de μουςικόσ. Ao ter passado para o italiano, o termo mosaico tornou indistinguível se a referência seria às Musas ou a Moisés.

Eliminada a expressão “pavimento de mosaicos”, resta “pavimento mosaico”. Mas isso não resolve a questão. O problema continua, pois ela pode referir-se tanto às musas quanto a Moisés.

Em primeiro lugar, há os que defendem a ideia de que se refere às Musas. Parece ser essa a opinião de Horne (1971, pp. 249-250), que acredita mais na origem greco-romana da ideia e não na sua origem hebraica. Na arquitetura romana, os pavimentos eram adornados com ladrilhos multifacetados, às vezes formando apenas uma disposição de formas geométricas, outras vezes figuras de navios, deuses etc. Adornar pavimentos dessa forma não fazia parte da cultura hebraica. Além disso, Moisés andava com seu povo pelo deserto. Esse período nômade da história do povo hebreu não suporta a ideia de pavimento, algo que requer uma construção fixa no espaço. A ideia é que o termo “pavimento mosaico” teria o sentido de pavimento esteticamente belo e não o sentido de pavimento de Moisés. Além disso, a própria interpretação alegórica que encontramos em nossos rituais modernos, a de que o Pavimento Mosaico representa o aspecto dual da vida, a mescla de bem e de mal a que estamos sujeitos, não faz qualquer referência a Moisés. Afinal, o que Moisés tem a ver com a dualidade?

A única ligação do pavimento a Moisés é o fato bíblico de Moisés, durante o Êxodo, ter assentado pequenas pedras coloridas no chão do Tabernáculo (CASTELLANI, 2006, p. 207). É Castellani (2006) quem vai mais longe nessa direção, mostrando que as descobertas arqueológicas confirmam a existência de pavimentos quadriculados alvinegros na Suméria, detalhe arquitetônico que teria se espalhado para o Egito, Creta, Grécia e Roma. Em particular, teria sido de conhecimento dos hebreus da época, embora o pavimento do Templo de Salomão e as pedras coloridas assentadas por Moisés no Tabernáculo não tivessem essa particular configuração geométrica (CASTELLANI, 2006, pp. 206-207). Segundo ele:

Na Mesopotâmia, esse pavimento representava o terreno sagrado, através do qual se tinha acesso ao santuário mais íntimo da religião, e que, normalmente, só era percorrido pelo sacerdote hierarquicamente mais elevado, mediante certas formalidades, nos dias mais importantes do calendário religioso. Nem todos os demais povos, entretanto, adotaram esse símbolo (os hebreus não o usaram e ele não existia no Templo de Jerusalém), ao passo que muitos o adotaram, apenas, como motivo decorativo (caso dos antigos gregos e cretenses). [Castellani (2006), p. 206] (negrito do autor).

Nota-se aqui uma contradição nos argumentos de Castellani. Se os hebreus não adotaram esse símbolo (que, em suas próprias palavras, referia-se aos opostos, ao aspecto dual do mundo) e ele sequer existia no Templo de Jerusalém, então a única ligação entre esse símbolo e Moisés é o relato bíblico segundo o qual Moisés teria assentado pequenas pedras coloridas no chão do Tabernáculo. Se assim é, porque referir-se a Moisés e, ao mesmo tempo, dar ao Pavimento Mosaico uma interpretação não-hebraica?

Alegoria x Símbolo

Segundo Figueiredo (2006, pp. 476-477, verbete simbolismo), o simbolismo maçônico pode ser dividido em duas categorias: emblemática e esquemática. A primeira transmite, por analogia, um sentido moral; a segunda comporta um significado mais intelectual, filosófico ou científico. A interpretação do Pavimento Mosaico em termos da dualidade é simbólico-emblemática, pelo seu claro caráter moral, na medida em que transmite a ideia de que bem e mal, vícios e virtudes, alegrias e tristezas são polos inerentes à vida e nos convida a uma compreensão, até certo ponto, estoica da aceitação e da necessidade de adaptação a essa polaridade. A interpretação que pretendo dar, se me ativer a essa nomenclatura, enquadra-se no nível simbólico-esquemático, pois comporta um significado que transcende o moral.

Entretanto, adotarei uma classificação diferente, fazendo apenas a distinção entre alegoria e símbolo. Alegoria é aquilo que representa uma coisa para dar a ideia de outra através de uma ilação moral. Uma característica importante da alegoria é a sua quase imediata compreensão. Já o símbolo é multívoco, pode dizer muitas coisas, e não é de imediata compreensão, é vago, polissêmico. O símbolo requer uma convenção. Pode, aparentemente, querer dizer uma coisa, mas, na verdade, o que quer dizer é outra. Cumpre ao contemplador do símbolo compreender, praticamente do nada, o que ele significa. Por isso, a compreensão do símbolo é um processo privado e é resultado de uma catarse psíquica.

Minha proposta é extrapolar a interpretação alegórica e buscar uma interpretação simbólica. A interpretação em termos da dualidade é obviamente alegórica. A disposição harmônica de ladrilhos alvinegros remete-nos quase que imediatamente a uma harmonia dos opostos, que é a que encontramos em nossos rituais.

Além disso, devemos ver o Pavimento Mosaico como parte integrante dos Ornamentos. Segundo os nossos rituais, o Pavimento Mosaico representa essa dualidade, a Orla Dentada representa a reunião dos filhos em torno do Pai e a Estrela Flamejante representa a Divindade. Como disse, essa é uma interpretação alegórica dos três Ornamentos, porém ela não estabelece uma coesão hermenêutica convincente, pois, da forma como é exposta, não faz transparecer qualquer conexão lógica entre os Ornamentos. Cada um é interpretado independentemente dos outros dois. A reunião dos filhos em torno do Pai não possui qualquer ligação hermenêutica com a harmonia dos opostos.

Uma interpretação alegórica mais elaborada e que, de certa forma, apresenta uma coesão hermenêutica muito mais elevada que a de nossos rituais é a de Wilmshurst (1927):

O Piso ou Pavimento da Loja, quadriculado de branco e negro, denota a qualidade dual de tudo que é conexo com a vida terrestre e o fundamento físico da natureza humana (…). O dualismo desses opostos nos governa em tudo e experimentá-lo é-nos prescrito até o tempo em que, tendo aprendido e ultrapassado suas lições, estivermos prontos para avançar a uma condição em que vamos além do sentido dessa existência quadriculada e os opostos deixam de ser percebidos como opostos, mas como uma unidade ou síntese. (…) E essa sublime condição é representada pela Orla Dentada ou borda franjada que circunda o quadriculado alvinegro, ainda que a Presença Divina e a Providência rodeie e envolva nossos organismos nos quais aqueles opostos são inerentes. (WILMSHURST, 1980, pp. 95-96).

Mesmo a interpretação alegórica mais coesa de Wilmshurst (1927) não esclarece a razão pela qual o Pavimento Mosaico se refere a Moisés. Quando, mais adiante (idem, p. 97), diz que o Pavimento Quadriculado é o piso sobre o qual caminha o Sumo Sacerdote, ainda assim não se vê qualquer conexão com Moisés.

Acredito que uma interpretação que liga diretamente Moisés ao Pavimento Quadriculado pode ser obtida em um nível simbólico, um nível que, quanto a este tema, só podemos alcançar mediante a Cabala.

Caráter Cabalístico da Maçonaria Especulativa

Na época áurea do desenvolvimento filosófico da Maçonaria especulativa, aquela que viu nascer, na França, os graus filosóficos superiores e que culminaram, entre tantos, nos internacionalmente conhecidos 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, encontramos nos catecismos ingleses, especialmente naqueles editados pela Grande Loja dos Antigos, menções ao caráter cabalístico da Ordem. No catecismo Ahiman Rezon (1764), Laurence Dermott diz, no prefácio ao leitor, que:

Certo é (continua ele) que a Maçonaria tem existido desde a Criação (embora não sob esse nome); que ela foi um presente divino de Deus; que Caim e os construtores de sua cidade eram desconhecedores dos mistérios secretos da Maçonaria; que só havia quatro maçons no mundo quando o dilúvio aconteceu; que cada um dos quatro, mesmo o segundo filho de Noé, não era mestre da arte; que Nimrod, nem qualquer um de seus pedreiros, sabia alguma coisa do assunto; e que não havia senão pouquíssimos mestres da arte, (mesmo) no templo de Salomão: donde claramente se deduz que todo o mistério era comunicado a muito poucos naquele tempo; que no templo de Salomão (e não antes), ela recebeu o nome de Franco-Maçonaria, pois os maçons em Jerusalém e Tiro eram então os maiores cabalistas no mundo; que o mistério tem sido, em sua maior parte, praticado no meio dos construtores desde o tempo de Salomão (…).” [Ahiman Rezon, p. XIII, 1764, 2ª edição] (grifo nosso).

Mas uma referência como essa não consta explicitamente das Constituições de Anderson, mesmo na edição ampliada de 1738, apenas indiretamente mediante a reprodução do panfleto Uma Defesa da Maçonaria, como veremos logo a seguir. Mesmo assim, Anderson devotou uma grande parte das Constituições à história judaica, particularmente à construção do Templo de Salomão.

Segundo MacNulty (1998, p. 135), certamente havia atividade especulativa maçônica na Inglaterra em meados do século XVII, pois os primeiros maçons especulativos que foram positivamente identificados são Sir Robert Moray, iniciado em 1641, e Elias Ashmole, iniciado em 1646, ambos intimamente ligados à tradição hermético-cabalista, uma tradição que moldou intensamente a essência intelectual do pensamento renascentista, principalmente a partir de Pico della Mirandola, no século XV.

Mas se apenas considerarmos o período em que as Constituições de Anderson foram publicadas, surge o nome de John Byrom, conhecido Maçom de então e cujo círculo de amizades englobava outros proeminentes Maçons, como William Stukeley, Sir Hans Sloane, Martin Folkes e John Theophilus Desaguliers, o terceiro Grão-Mestre da Primeira Grande Loja. De 1725 em diante, Byrom administrou um clube de Cabala, do qual Sir Hans Sloane era um membro [MacNulty (1998), p. 139].

Um importante documento histórico, conhecido como Livro M, e que parece ter sido um memorial escrito por um Irmão, diz que uma das principais disciplinas místicas que originaram a Maçonaria foi a Cabala dos judeus.

A mais famosa exposée da Maçonaria é a obra de Samuel Prichard, Maçonaria Dissecada (Masonry Dissected), de 1730. Ainda que as Constituições de Anderson não façam explícita referência à Cabala, a edição de 1738 inclui, no entanto, o opúsculo Uma Defesa da Maçonaria (A Defense of Masonry), publicada pouco tempo após o panfleto de Prichard, com o intuito de ser uma resposta oficial da Maçonaria à detratação sofrida. Nessa resposta, a Cabala surge com uma das fontes da filosofia maçônica. Especificamente, lê-se o seguinte:

Os Cabalistas, uma outra Seita, lidavam com Cerimônias misteriosas e ocultas. Os judeus tinham uma grande consideração por essa Ciência e pensavam ter feito descobertas incomuns por seu intermédio. Eles dividiam seu Conhecimento em Especulativo e Operativo. David e Salomão, eles dizem, eram singularmente habilidosos [em Cabala]; e ninguém, num primeiro momento, ousava pô-la por escrito: Mas a Perfeição de sua habilidade consistia no que o Detrator [i.e., Prichard] chama de seu enletramento ou a ordenação das Letras de uma Palavra de uma maneira particular. [A Defense of Masonry (1730), apud Anderson’s Constitutions (1738, p. 221)].

A história oficial da Maçonaria especulativa começou em 1717, mas em seu primeiro século não foi uma história linear. Na década de 1740, um outro corpo maçônico veio à tona, a chamada Antiga Grande Loja (Antient Grand Lodge), formada basicamente por maçons imigrantes irlandeses. O fato é que era uma outra Grande Loja, que se dizia anterior à fundação da Grande Loja oficial em 1717. A Antiga Grande Loja teria preservado a doutrina especulativa original do século XVII, de natureza muito mais mística e cabalística.

Ao longo de todo o século XVIII, a rivalidade entre as duas Grandes Lojas foi acirrada, ao ponto de a Grande Loja oficial, fundada em 1717, passar a autodenominar-se Grande Loja Moderna, como forma de contraposição à Grande Loja de Antiguidade.

O catecismo Ahiman Rezon (nas suas edições de 1756, 1797 e 1807) é ligado à Antiga Grande Loja. A ela pertencia, supostamente, o autor de Uma Defesa da Maçonaria, inserida nas Constituições de Anderson em 1738. Figuras eminentes como John Byrom eram ligados à Grande Loja Moderna. O próprio Laurence Dermott, autor de Ahiman Rezon, que exerceu influência na Grande Loja de Antiguidade durante toda a segunda metade do século XVIII como Grande-Secretário, dominava o idioma hebraico [Costa (2006), pp. 155-156] e, sem dúvida, teria conhecimento dos textos cabalistas medievais.

Somente a partir da década de 1790, as divergências começariam a diminuir, como consequência de um esforço conjunto pela unificação, o que finalmente culminou na união das duas Grandes Lojas da Inglaterra em 1813. A Grande Loja Unida da Inglaterra teve, como seu primeiro Grão-Mestre, o Duque de Sussex, sabidamente uma pessoa de caráter bastante místico e religioso, além de dedicado estudante do idioma hebraico. No catálogo oficial de sua biblioteca, consta uma enorme coleção de livros sobre a história judaica e muitos manuscritos, em hebraico, sobre a Cabala. Entre as obras cabalísticas de sua biblioteca estão o Zohar, numa edição do século XVII, em dois volumes, contendo as partes referentes aos comentários de Simon ben Yochai ao Genesis e ao Exodus; uma obra intitulada Interpretatio Nominis Dei, do século XV; uma edição do século XIII da Bíblia Sacra Hebraica com os sinais massoréticos; o volume Pentateuchus Hebraicus et Chaldaicus cum Quinque Megiloth et Haphtaroth, do século XIII, além de vários comentários de cabalistas ao Pentateuco, datados dos séculos XIV e XV [MacNulty (1998), pp. 147- 149].

É natural que os rituais modernos, a começar pelo Ritual de Webb, pelo menos nos graus simbólicos, apresentem interpretações alegóricas mais singelas. A influência cabalista mais forte ficou relegada aos graus superiores. E um óbvio exemplo disso é o fato de no REAA haver 33 graus. Sendo o 33º apenas um grau honorário, os 32 restantes, os graus simbólicos e os filosóficos, correspondem ao número 32 conforme apregoado pela Cabala, aquele número que contém os 32 caminhos sagrados, simbolizados pelas 22 letras do alfabeto hebraico mais as 10 letras correspondentes ao números.

Junte-se a tudo isso o fato de que, no decorrer do século XVIII, assim que a Maçonaria se fez presente na França, quando proliferaram os graus superiores, estes eram o refúgio dos intelectuais hermetistas, como, por exemplo, Mirabeau e, principalmente, Andrew Ramsay, discípulo de Fénelon, e um dos criadores do Rito Escocês.

Uma Interpretação Cabalista do Pavimento Mosaico

De acordo com as Instruções do Primeiro Grau, ele representa a variedade do solo, as diferenças de opinião, raças etc. É, além disso, a imagem do Bem e do Mal que permeiam o caminho da vida. Por ser formado pela junção de ladrilhos brancos e pretos, é dito que representa a variedade de raças e de crenças em relação às quais o Maçom deve ser equânime, não devendo essa variedade ser motivo para quaisquer tipos de discriminação. Também é dito representar a imperfeição humana, essa mescla de vícios e virtudes, de bem e de mal. A orla dentada é dita representar a reunião dos filhos em torno do Pai, ou seja, a confraternização dos Maçons em torno do Livro da Lei etc. Observe que a interpretação moral da Orla Dentada não tem qualquer ligação exegética com o Pavimento Mosaico em si.

Essa é a interpretação alegórica que podemos encontrar em nossos rituais e possui um nítido caráter moral. Em camadas exegéticas mais profundas, podemos encontrar uma interpretação concernente à alma, ao mundo e à Divindade.

MacNulty (1998, pp. 133-205) oferece uma interpretação cabalista dos três primeiros graus e do grau de Royal Arch, mas, em particular, interpretando o Painel do Grau 1, sua interpretação cabalista gira em torno da Árvore Sefirótica, que não é a interpretação que pretendo dar.

O que proponho é ligar o Pavimento Mosaico à Torá.

Ora, o Pavimento Quadriculado é o piso sobre o qual deve caminhar o Sumo Sacerdote. Essa informação consta de nossos rituais, mas surge descontextualizada. O fundamento do caminhar do Sumo Sacerdote deve ser a Torá, tanto a Torá escrita como a Torá oral, formada, na sua maior parte, pelo Midrash (investigação ou penetração nos mistérios ocultos). O objetivo da Torá oral é o desenvolvimento de verdades, ditos ou fatos dados ou ocultos na Revelação. O Midrash é dividido em duas categorias: Halahá e Haggadá. Halahá é uma asserção sobre modos de comportamento no sentido das prescrições legais da Torá; Haggadá é, literalmente, uma afirmação, ou seja, uma afirmação da Escritura que diz algo que transcende o sentido literal.

A Torá também é conhecida desde a Antiguidade como Lei Mosaica. A Torá foi dada por Deus a Moisés para que servisse de fundamento para a ação e o pensar de seu povo. Diz-se, nos meios cabalistas, que tudo está bem enquanto o homem justo caminhar segundo a Torá, ou seja, enquanto obedecer a Lei Mosaica. Com efeito, segundo o Zohar [apud Idel (2000), p. 278], o cumprimento dos mandamentos (ou da Lei Mosaica) é a ponte entre o Ein Sof, o Criador além de todo entendimento, e o mundo. Num comentário a Levítico 26:3, o autor do Zohar esclarece:

“E os cumprirdes”. Porque está escrito “E os cumprirdes” depois de “Se andardes nos meus estatutos e guardardes os meus mandamentos”? (…) A resposta é: todo aquele que cumpre os mandamentos da Torá e caminha segundo eles é considerado como se tivesse feito O que está acima. [Zohar III, fol. 113ª, apud Idel (2000, p. 278)].

Idel (2000, p. 278), comentando essa passagem do Zohar, explica que “o cumprimento dos mandamentos provoca a união entre duas forças divinas e, desta forma, a perfeição do nome divino, o que é equivalente a fazer Deus nas alturas”. Interpreto sua posição como querendo dizer que, relativamente a si mesmo, o Homem é como um Deus criando seu próprio universo interior, sendo ele, assim, feito à imagem e semelhança do Criador.

Convém, agora, relembrar a passagem supracitada do MS Dumfries № 4, circa 1710, no qual encontramos a Obrigação:

Servirás ao verdadeiro Deus e cuidadosamente manterá seus preceitos em geral e particularmente os Dez Mandamentos entregues a Moisés no Monte Sinai, como te foram plenamente explicados no pavimento do Templo… [apud Horne (1971), p. 248].

Os maçons especulativos que escreveram o manuscrito Dumfries № 4, pouco antes de 1717, não apenas tinham conhecimentos da Cabala, certamente através dos renascentistas, mas também deviam ter tido acesso direto ao Zohar, pois o Pavimento Mosaico é, aqui, nitidamente associado ao cumprimento da Lei Mosaica, ou seja, à Torá.

Essa sugestão estabelece um elo bem mais forte entre o adjetivo mosaico e o Pavimento. Na verdade, estabelece uma identificação total a Moisés, não à pessoa, mas à Lei Mosaica, ou seja, à Torá.

Mas, antes, é preciso explicar como o quadriculado alvinegro se insere nessa interpretação.

O alfabeto hebraico é composto de consoantes. Modernamente, as vogais são caracterizadas por sinais diacríticos apostos às consoantes, mas, na Antiguidade, a leitura da Torá deveria ser feita com a participação ativa da fala do leitor, acrescentando as vogais de modo a produzir fonemas que proporcionassem significado às palavras. Assim, o texto escrito da Torá só teria vida pela introdução das vogais. A vogal é um som emitido que é essencialmente um sopro, ou seja, as vogais desde o A aberto até o U fechado, podem ser pronunciadas mediante um sopro através da boca aberta, variando-se apenas a vibração de onda e a posição de abertura dos lábios. O sopro sempre foi sinônimo de espírito, o princípio sem o qual a matéria é inerte, seja na língua hebraica (“ וחּרruach”), grega (πνεῦμα, “pneuma”) e mesmo no latim (spirĭtus e anĭma). Sem as vogais, a sequência de consoantes no texto da Torá não tem significado, nada diz, não possui vida. O alfabeto hebraico, então, está munido de um caráter bastante simbólico, porquanto a matéria só tem vida pela ação do espírito. Ler a Torá em voz alta é símbolo da Criação.

Essa ideia teve sua origem no Rabi Jacó ben Scheschet, importante expoente da Cabala catalã no final do século XIII. Ele dizia que o texto da Torá não poderia ser vocalizado, a fim de que pudéssemos interpretar cada palavra de acordo com todos os significados possíveis [Idel (2000), p. 315]. Ela se transformou num conceito cabalístico bem estabelecido e passou para a Cabala cristã graças às Teses de Pico della Mirandola. Um fato é certo: se Pico della Mirandola incluiu essa concepção em suas Teses, então ela era de conhecimento dos maçons especulativos dos séculos XVII e XVIII, pois as Teses de Pico eram leitura obrigatória para qualquer um que expressasse predileção pelo hermetismo, o que era muito comum na época. Era, na verdade, como a “onda”, a moda de então. Relativamente a esse ponto, Pico della Mirandola (1486) diz:

Pelo modo de ler sem pontos (sem os sinais diacríticos ou massoréticos das vogais) na Lei, mostra-se-nos tanto o modo de escrever as coisas divinas como o conteúdo universal pela [abertura] indeterminada [do] compasso das coisas divinas. [Pico della Mirandola (1486), 900 Theses, 11:70, in Farmer (2008), p. 550].

O que Pico della Mirandola está dizendo é que é pela adjunção das vogais às consoantes da Lei, ou seja, da Torá ou lei Mosaica, que se evidencia o modo correto pelo qual as coisas divinas são escritas na Torá e que se intui o conteúdo universal da Lei ou sua totalidade como se as coisas divinas fossem aquelas abarcadas pela abertura indeterminada do compasso. Finalmente, logo em seguida, outra tese de Pico della Mirandola diz que é pela Cabala que se deve ler a Torá:

Assim como a verdadeira astrologia nos ensina a ler no livro de Deus, do mesmo modo a Cabala ensina-nos a ler o livro da Lei. [Pico della Mirandola (1486), 900 Theses, 11:72,in Farmer (2008, p. 552].

Se ele fala da verdadeira astrologia, então é porque existe uma falsa. A falsa é certamente a literal. A verdadeira astrologia é simbólica. Desse modo, por exemplo, as afirmações da astrologia quanto às posições relativas dos astros no cinturão zodiacal não devem ser interpretadas literalmente, mas simbolicamente, tendo em vista o princípio hermético da correspondência, segundo o qual a natureza visível é um espelho da natureza interior do Homem. De fato, o que ele chama de livro de Deus nada mais é que a Natureza, o maior símbolo divino. Se a verdadeira astrologia ensina-nos a ler o livro de Deus, então é porque a verdadeira astrologia ensina-nos a interpretar corretamente a Natureza, sendo que o advérbio corretamente significa que a interpretação astrológica correta é aquela consistente com a aspiração humana do autoconhecimento, da mesma forma que a Alquimia, a Cabala e, inclusive, a Maçonaria Simbólica. Esse modus legendi aplica-se também à Cabala, pois esta nos ensina a ler corretamente o livro da Lei, ou seja, a Cabala nos ensina a proceder a uma interpretação simbólica da Torá.

Segundo a Cabala, o texto da Torá tem leituras diversas conforme o mundo espiritual em que é lido. Tanto é assim, que uma das questões que os cabalistas da Idade Média levantaram era quanto à leitura da Torá no futuro. Em um mundo superior, a Torá revelaria verdades sobre a Criação que, em nosso mundo, estão ocultas entre as letras da Torá. Os cabalistas medievais afirmavam, simbolicamente, que as verdades da Criação estavam no branco do pergaminho sobre o qual eram impressas as figuras negras das consoantes da Torá, significando que a imersão do Homem na matéria obscureceria o entendimento dessas verdades ocultas. É claro que não podemos levar ao pé da letra essa questão. Se as consoantes simbolizam a matéria sem vida, então é evidente que as verdades reveladas pela Torá serão tanto maiores quanto maior for o grau de evolução espiritual, pois o que dá sentido ao texto escrito com letras negras é o sopro ou o espírito que, sendo feito à imagem e semelhança de Deus, refletiria o branco oculto sob as letras. Com efeito, de acordo com Gershom Scholem (1989, p. 157), a forma extrema dessa concepção cabalística, com origens anteriores ao século XIII, afirma que a Torá, antes da Criação, foi escrita em fogo preto sobre fogo branco, sendo que o fogo branco conteria o texto verdadeiro da Torá, ao passo que o texto em fogo preto seria a lei oral mística.

Kaplan (1997, p. 238), ao comentar sua tradução do Sepher Yetsirah 6:1 diz que a Torá da qual se está falando não é a Torá escrita comumente conhecida, mas a “Torá primeva, que foi escrita com fogo preto sobre fogo branco, que os cabalistas associavam a Zeer Anpin ou Microprosopus, personificação das seis Sefirot, de Chéssed a Iessod. Zeer Anpin é simbolizado por um homem jovem branco de cabelos negros. Nesta imagem, cada letra da Torá é considerada como um cabelo da barba de Zeer Anpin, que são os canais através dos quais a Sabedoria de Deus emana de sua cabeça, analogamente ao óleo precioso que desce pela barba, pela barba de Aarão… Na Cabala, o fogo é o terceiro passo na iniciação da revelação. Na visão de Elias, os três passos foram vento, som e fogo (I Reis, 19:11 -12). Nesse versículo, Deus fala em meio do fogo. Mas em Deuteronômio 5:20, Deus fala no meio das trevas. O Zohar afirma, entretanto, que este último fogo é o fogo da escuridão, “o desejo que surge da total anulação do pensamento. Isto é também associado ao fogo negro com o qual foi escrita a Torá primeva” [Kaplan (1997, p. 241)].

Dessa forma, com base na teologia hebraica da Cabala, o Pavimento Mosaico pode simbolizar que a imersão do Homem na matéria restringe a capacidade do espírito de apreender verdades maiores. Nesse ponto, a orla dentada possui uma interpretação correlata, o que não é o caso quando da interpretação meramente moral. Note que os triângulos brancos da orla dentada apontam para fora e os triângulos negros apontam para dentro. Isso simboliza que o espírito deve ter uma expansão que transcende a restrição imposta pela matéria. Essa interpretação vai além do caráter meramente moralista de vícios e virtudes ou de diversidade cultural e de raças, e mostra-nos algo concernente ao papel do espírito frente à matéria.

Se nos restringirmos à Torá propriamente dita, não será demais afirmar que a Orla Dentada simboliza o fato de que o espírito, na leitura da Torá, deve transcender a matéria, ou seja, que o fogo branco, que contém a verdadeira Torá, requer uma interpretação bastante acima da lei oral, que é o fogo preto. A união de todas as sete cores é o branco; a ausência das sete cores é o preto. Se a Torá oral é representada pelo quadrado preto e sendo este a ausência de cores, então a Torá oral é a ausência de forma, ou seja, ela permite uma infinidade de formas potenciais, a saber, outras leituras, outras interpretações, conforme a natureza espiritual do leitor, justamente a ideia cabalista desenvolvida na Catalunha medieval, o centro cabalista por excelência. Esse fogo preto, ainda de acordo com o Zohar denota o requerimento da anulação do pensamento como forma de meditação mística para a compreensão da Torá ou da Lei Mosaica, a cópia discursiva, mediante o Logos, da Lei de Deus.

Os livros clássicos da Cabala, a saber, o Sepher Yetzirah, o Sepher ha Bahir e o Zohar, são enfáticos em afirmar que a Torá existia antes da Criação, o que significa que as Verdades da Criação precedem a Criação propriamente dita. Da mesma forma, citando novamente o que diz Laurence Dermott, no catecismo Ahiman Rezon (1764):

[A] Maçonaria tem existido desde a Criação (embora não sob esse nome); (…) que no templo de Salomão (e não antes), ela recebeu o nome de Franco-Maçonaria, pois os maçons em Jerusalém e Tiro eram então os maiores cabalistas no mundo; que o mistério tem sido, em sua maior parte, praticado no meio dos construtores desde o tempo de Salomão (…).” [Ahiman Rezon, p. XIII, 1764, 2ª edição].

Dessa forma, o Pavimento Mosaico simboliza que o Maçom deve estar ciente de que, além de qualquer compreensão que venha a ter sobre a Divindade, o espírito e o mundo, seja mediante a observação direta, seja mediante interpretação simbólica, sempre haverá uma Verdade oculta, porquanto o infinito do Universo ainda é um Nada em relação ao Infinito Absoluto do Criador. A Orla Dentada, com seus triângulos brancos apontando para fora, simboliza, para completar, que essa Verdade oculta é espiritual e transcende o quaternário do Piso, ou seja, transcende a Matéria.

Meïr ben Gabai, na obra Abhodat haKodesh, redatada em 1531, diz, a propósito da voz divina, que ela é a mediadora entre a Torá oral e a escrita:

Aquela grande voz é a porta e a passagem de qualquer outra voz, e este é o sentido do discurso sobre um “cercado da unidade” e a isto se refere o verso do Salmo “Esta é a porta de Deus”, segundo o qual a porta é a doutrina oral que leva a Deus, que é a Torá escrita vigiada pela Torá oral. Este é o motivo dos cercados e limitações que os doutores da Lei erigiram em torno da Torá.[Meïr ben Gabai, Abhodat haKodesh, Lemberg, 1857, parte I, caps. 21-22 e parte III, caps. 20- 24, apud Scholem (2008, pp. 93 -94)] (grifo nosso).

A Torá permite infinitas leituras, dela se tiram as permissões e as proibições. Entretanto, em nenhuma haveria erro, pois provêm da mesma voz fundamental. O que numa geração era proibição e permissão, noutra é permissão e proibição. A Torá apresenta um rosto para cada indivíduo. Esse caráter dinâmico da Torá e sua infinita polissemia apresenta uma estabilidade fundamentada na voz de Deus, o substrato primordial da Torá oral e da escrita. A Torá oral vigia a Torá escrita. O fundamento desse equilíbrio que mantém os opostos numa coesão unitária é simbolizada, na Cabala, por uma cerca em torno da Torá, no sentido de que a própria voz de Deus, ou seja, Sua Vontade, mantém os opostos e a dualidade a que estamos sujeitos por natureza em um equilíbrio justo e perfeito. O mal se manifesta na justa medida em que proporciona o bem; o vício de um é a virtude de outro. A cerca em torno da Torá simboliza a justiça entre os opostos, a justiça inerente à Vida e ao Cosmo. A Orla Dentada assume, assim, um significado consistente com a estrutura dos Ornamentos.

O terceiro Ornamento é a Estrela Flamejante, que obviamente representa a Divindade. Mas não é só isso. Ela representa a Divindade em seu aspecto de Logos ou de Verbo Divino. O adjetivo flamejante denota os raios ondulados emanados pelo fogo da Estrela. A Estrela Flamejante é símbolo do Verbo, do Logos, do Pensamento Ativo [Boucher (2006, p. 72) e Chevalier & Gheerbrant (2006, p. 392)]. Com efeito, λόγοσ vem originariamente do verbo λζγω, que significa “eu falo”, tendo, por conseguinte, o sentido de fala, linguagem. A linguagem é a expressão do pensamento e desde de Pitágoras e Platão, λόγοσ corresponde àquela parte da alma caracterizada pela faculdade mental superior, pela inteligência conceitual e raciocinante, nesse caso denominada especificamente de νοῦσ. O termo latino correspondente é ratĭo, que significa razão. A forma ondulada dos seus raios representa a ondulação do fogo, que é o símbolo da vibração do espírito. O Logos faz gerar o mundo ordenado e belo (cosmo) a partir da matéria-prima. É desse fogo emanado em Logos, em razão, em discurso racional, como o arbusto em chamas na presença de Moisés, que se escreveu a Torá com fogo preto sobre fogo branco, conforme a interpretação cabalista.

A força criadora concentrada no Nome de Deus, na visão dos cabalistas, constitui um absoluto que, descansando em si mesmo ou movendo-se em si mesmo (donde o símbolo “um ponto no centro do círculo”), “emite seus raios a tudo que busca forma e expressão em todos os mundos possíveis. A Torá é, pois, um entretecido dos nomes de Deus” [Scholem (2008), p. 89]. A imagem preferida dos cabalistas para ilustrar que a Torá está construída a partir desse nome é dizer que a Torá é tal qual um edifício que se constrói dando artísticas formas aos silhares, que são todos, afinal, de um só material originário.

Citando novamente um trecho de Uma Defesa da Maçonaria, reproduzido na edição de 1738 das Constituições de Anderson:

Os Cabalistas, uma outra Seita, lidavam com Cerimônias misteriosas e ocultas. Os judeus tinham uma grande consideração por essa Ciência e pensavam ter feito descobertas incomuns por seu intermédio. Eles dividiam seu Conhecimento em Especulativo e Operativo. David e Salomão, eles dizem, eram singularmente habilidosos [em Cabala]; e ninguém, num primeiro momento, ousava pô-la por escrito: Mas a Perfeição de sua habilidade consistia no que o Detrator [i.e., Prichard] chama de seu enletramento ou a ordenação das Letras de uma Palavra de uma maneira particular. [A Defense of Masonry (1730), apud Anderson’s Constitutions (1738, p. 221)] (grifo nosso).

A ordenação de uma Palavra de uma maneira particular, habilidade cabalística de David e Salomão, nada mais quer dizer que o grande Nome de Deus. Na opinião do cabalista Josef Gicatilla (discípulo do famoso cabalista Abraão Abuláfia e autor de Guinat Egoz em 1274), a Torá nada mais é que o grande Nome de Deus. Essa concepção era bem conhecida dos cabalistas renascentistas e, por conseguinte, muito provavelmente pelos primeiros maçons especulativos. Vale a pena, aqui, citar o que diz Gershom Scholem sobre essa concepção:

Nela [o branco do pergaminho] está o tecido vivo fabricado com o Tetragrama, em uma sutil e infinita malha de permutações e combinações de suas consoantes [o fogo preto], que, por sua vez, se tece uma e outra vez ad infinitum em ulteriores processos de combinações, até que finalmente nos chega na forma das frases hebreias da Torá. Isso significa que as palavras que lemos na Torá escrita, as que constituem a “palavra de Deus” perceptível e contêm uma comunicação compreensível, são, na realidade, mediações nas quais se representa a palavra absoluta, para nós incompreensível. (SCHOLEM, 2008, p. 89)

A interpretação alegórica baseada na dualidade também encontra eco na interpretação cabalista. Ao final do século XVIII, o mestre hassídico Rabi Moisés Hayim Efraim disse que “a Torá é [constituída] de 248 mandamentos do que deve ser feito e 365 interdições” [apud Idel (2000), p. 357]. É evidente que esses números são simbólicos. Por exemplo, o número 365 refere-se aos dias do ano hebreu, que é lunar e tem 355 dias, mais 10, que talvez se refiram às 10 Sefirot da Árvore da Vida, que simbolizam as formas da manifestação divina e de sua emanação. Isto possui um caráter cíclico físico e espiritual, no sentido de que sempre haverá restrições sobre o que pode ser feito. Juntos, 365 e 248 somam os 613 preceitos da Lei.

Idel (2000), citando o cabalista José de Hamadan, diz que:

Tudo na Torá deve ser interpretado de acordo com setenta aspectos de impureza e de pureza, como está escrito: “Deus fez tanto este como aquele”. [José de Hamadan, MS Paris, BN 841, fol. 267b, apud Idel (2000, p. 337)].

Os setenta aspectos de impureza referem-se aos infinitos aspectos do Mal ou dos vícios e os setenta aspectos de pureza aos infinitos aspectos divinos do Bem ou das virtudes. Conforme a citação, essa doutrina é fundamentada em Eclesiastes 7:14, na versão da Septuaginta grega:

No dia do benefício, vive no Bem; e no dia do malefício, contempla! Também, pelo menos, Deus fez similarmente isto em harmonia com aquilo, de acordo com o que se comenta, para que o homem não descubra nada depois dele. [Ecl 7:14, Septuaginta].

Segundo Idel (2000, p. 338, rodapé 126), esse versículo é locus probans para a doutrina cabalística de que Bem e Mal sejam partes integrantes da Criação. É essa perspectiva que culminou na interpretação alegórica do Pavimento Mosaico como o enxadrezado de Bem e de Mal, de dia e noite, de vícios e virtudes, dualidade cósmica inescapável para a criatura. Ainda neste caso, essa concepção é proveniente da interpretação do Pavimento Mosaico como símbolo da Torá, pois essa dualidade é inerente à conjunção da Torá escrita com a Torá oral.

Conclusão 

Associei o Pavimento Mosaico à Lei Mosaica, ou seja, à Torá. Essa interpretação fornece uma justificativa objetiva para a inclusão do adjetivo mosaico.

O quadriculado alvinegro é símbolo da ideia cabalista de que a Torá foi escrita com fogo preto sobre fogo branco, ou seja, a Torá oral ou midráshica sobre a Torá escrita. Essa dualidade, representando a Lei Mosaica, aponta para aquilo que constitui propriamente a Lei: o que pode ser feito e o que não pode ser feito, ou seja, as 613 prescrições da Lei. Na tradição cabalista medieval, essa dualidade alvinegra caracterizava o espírito dinâmico da hermenêutica da Torá. Como as vogais são sopradas pelo leitor, o texto da Torá ganha a vida que o leitor lhe der mediante o seu sopro, uma nítida alusão à Criação divina, que deu vida ao barro através do sopro.

Há um caráter de extrema tolerância nessa visão cabalista, pois ao contrário do que comumente se pensa, a leitura da Escritura é mutável, havendo, na verdade, infinitas possibilidades, uma indeterminada polissemia. A meditação seria uma forma de elevar a compreensão da Lei, o que é simbolizado, ainda segundo a Cabala, pelo fogo preto, ou seja, a anulação do pensamento racional, discursivo e finito, em favor do conhecimento intuitivo, num primeiro estágio, e místico, num estágio mais profundo, a tão buscada unio mystica.

A Orla Dentada, com seus triângulos brancos apontando para fora e negros para dentro simbolizam que a Torá escrita possui uma interpretação que a transcende e que a Torá oral requer um mergulho místico para dentro do próprio ser. Além disso, o fato de que a Orla Dentada circunda o quadriculado alvinegro significa que a dualidade inerente à vida se manifesta segundo uma Justiça maior, que limita a disposição de Bem e de Mal. Uma concepção importante da Cabala é que a cerca que limita a Torá escrita e a Torá oral é mutável, dinâmica. Indo às últimas consequências lógicas desse pressuposto, toda a análise que fizemos é aplicável a qualquer ente, seja indivíduo, natureza ou universo.

A Estrela Flamejante é o Logos divino, a voz primordial que constitui o substrato da Torá escrita e da Torá oral, ou seja, a Lei Mosaica e as interpretações que dela fazemos.

Pelo Logos divino (Estrela Flamejante), foi-nos dada a Lei Mosaica (Pavimento Mosaico) e nos foi permitido interpretá-la conforme nossa capacidade e entendimento, mas nos foi exigido cumpri-la (o caminhar do Sumo Sacerdote sobre o Pavimento Mosaico). Pela Lei Mosaica, sabemos que o Homem está sujeito à dualidade, à dor e à alegria, ao Bem e ao Mal, mas essa dualidade é limitada por uma Justiça Maior (Orla Dentada), que mantém o equilíbrio dos opostos.

A Estrela Flamejante é o Logos divino, é a manifestação racional divina na ordem natural do Cosmo. Seus raios ondulados simbolizam que a razão divina sustenta a ordem cósmica, assim como a razão sustenta o discurso inteligível.

Ao voltar seus olhos, pela primeira vez inquiridores e admirados, para a natureza do mundo e do cosmo infinito, o homem percebeu a dualidade básica do dia e da noite, do frio e do calor, da vida e da morte. Deu-se conta, pelo caráter cíclico e restaurador dos opostos, de que à dualidade subjaz uma justiça ordenadora, que delimita, que cerca, que harmoniza os pólos duais. À dualidade do calor e do frio subjaz a justiça manifestada pelo caráter cíclico das estações. Os seres nascem e morrem, tudo na Natureza vem e vai, porém a Natureza sempre se repete a si mesma e continua sendo: Natureza.

O cosmo é o grande discurso racional do Criador. Mas ao discurso divino basta a enunciação do próprio nome de Deus, que é ao mesmo tempo o Verbo. A Natureza é o livro de Deus, no qual Deus se manifesta como Verbo. O Tetragrama, o nome de Deus, é também o Verbo primordial: “Eu sou aquele que sou, que foi e será”.

A narração bíblica do recebimento da Torá por Moisés no topo do Monte simboliza que o homem tem que se elevar rumo à Divindade para entender que o universo moral, o universo interior do homem, é análogo à Natureza. A esse universo moral subjaz a dualidade natural decorrente do Logos que há em cada homem. Mas saiba ele que o universo moral é delimitado, cercado, harmonizado por uma Justiça maior, cuja função é equilibrar os opostos, é permitir o sofrimento na justa medida de sua contribuição para a felicidade, é ceder à necessidade do Mal para conceder necessidade ao Bem. A Torá (ou Livro da Lei) é o símbolo da revelação do universo moral do homem, universo sustentado pelo Logos, pelo Pensamento humano, e regido pela Justiça.

A fonte sustentadora é a Estrela Flamejante. O universo moral representado pela Torá (não o texto como o conhecemos, mas a Lei moral que ele simboliza) é o Pavimento Mosaico. A Justiça que rege a dualidade é a Orla Dentada. Tanto para o universo exterior como para o universo interior, a estrutura simbólica dos Ornamentos apresenta uma fabulosa coesão. Embora os Ornamentos tenham sido desenhados para representar essa estrutura coesa do universo moral humano, eles são um exemplo patente de como os cabalistas adotaram profundamente o Princípio hermético da Correspondência, ideia tão bem sintetizada na Tese 11:72 de Pico della Mirandola.

A literatura cabalista medieval, principalmente a que se desenvolveu na Catalunha e na Provença medievais, valeu-se de imagens bastante semelhantes aos Ornamentos da Loja de Aprendiz, uma semelhança forte demais para ser apenas casual. O que me parece bastante plausível é que os inventores da Maçonaria especulativa no século XVII e primeira metade do século XVIII, herdeiros e cientes que eram dessa literatura, introduziram esses símbolos tendo a Cabala em mente, embora talvez tivessem por objetivo algo menos místico e teosófico, porém não menos importante para o equilíbrio social: a educação e o burilamento moral dos membros da Ordem.

Autor: Rodrigo Peñaloza

Rodrigo é Mestre Maçom, membro da Loja Maçônica “Abrigo do Cedro No. 08” – GLMDF, Ph.D. em Economia pela UCLA (University of California, Los Angeles, 2002), Mestre em Economia Matemática pelo IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada, 1993), Bacharel em Economia pela UnB (Universidade de Brasília, 1991) e professor adjunto da Universidade de Brasília.

Fonte: Revista Ciência e Maçonaria

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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