A Maçonaria e os Construtores de Catedrais

I. O QUE FOI O GÓTICO

A palavra Gótico tornou-se associada em nossas mentes a muito do que é mais bonito no mundo – catedrais, igrejas, torres e uma forma antiga de decoração – mas para os artistas italianos da Renascença que lhe deram notoriedade ela tinha um significado bastante diferente, e era usada por eles como um termo de reprovação para significar a cultura dos bárbaros do norte, especialmente de sangue alemão, que tinham rompido com as tradições clássicas. Vasari parece ter sido o responsável, acima de qualquer outra pessoa, por este uso.

O Gótico foi primeiro aplicado a toda a cultura bárbara (eu uso a palavra aqui em seu sentido renascentista); mas mais tarde, e depois que os homens começaram a entendê-la e apreciá-la, era mais restritivamente aplicada ao que era mais característica da cultura bárbara, a arquitetura; e em ainda no período mais tardio, e através do uso popular, tornou-se associada quase exclusivamente à arquitetura religiosa, e mais especialmente às catedrais, de modo que encontramos o grande Novo Dicionário Inglês dando-lhe a seguinte definição:

“O termo para o estilo de arquitetura predominante na Europa Ocidental do século XII ao século XVI, cuja característica principal é o arco ogival; também aplicado aos edifícios, detalhes de arquitetura e ornamentação. Os nomes mais comuns para os períodos sucessivos neste estilo na Inglaterra são Inglês Antigo, Decorativa, e Perpendicular.”

ARCO OGIVAL

Esta definição não é tão precisa quanto poderia ser. Muitas autoridades sobre história da arquitetura não concordariam com a afirmação de que “a principal característica é o arco ogival”, pois eles têm outras teorias sobre o assunto. Também não é seguro aplicar a palavra apenas à arquitetura, porque existiam estilos góticos em roupas, pontes, paredes, móveis, na ornamentação, nos costumes, e até em utensílios domésticos. Acontece que pouco resta do gótico, exceto edifícios de igrejas, mas isso se deve às guerras que destruíram tudo o mais.

Alguns dos melhores escritores sobre o assunto, Lethaby, por exemplo, cujo trabalho é recomendado por sua energia, interesse e erudição, torna o gótico equivalente a tudo especificamente medieval em arte, o que incluiria vitrais, manuscritos, poesias, etc. Esses autores destacam que só quando surgiram os arqueólogos do século XIX, sob a liderança de De Caumont e seus companheiros, os homens começaram a dar um uso restrito à palavra. “A palavra”, escreve Arthur Kingsley Porter, “aplicada pela primeira vez como um epíteto de opróbrio a todos os edifícios medievais pelos arquitetos do Renascimento, recebeu um significado técnico por De Caumont e os arqueólogos do século XIX, que a empregavam para distinguir prédios com arcos pontiagudos daqueles com arcos redondos, que eram chamados Românicos”. Alguns autores continuam simplesmente a se recusar a usar a palavra; Rickman prefere “Arquitetura Inglesa”, e Brion “Arquitetura Cristã”. O Dr. Albert G. Mackey diz: “que a arquitetura gótica foi, por conseguinte, muito justamente chamada de A Arquitetura da Maçonaria, mas daquela de outros tempos”.

O antigo estilo romano de construção, no qual todos os estilos subsequentes na Europa Ocidental estavam baseados até a chegada do Gótico, e que vieram a serem chamados Românicos, era organizado com base em um princípio muito simples, e teve o seu início, pelo menos até onde se relacione com templos, igrejas e catedrais, na antiga basílica. Um telhado plano era colocado sobre quatro paredes, como a tampa de uma caixa. Se o telhado era ondulado ou arqueado, as paredes tinham que ser engrossadas, para suportar a pressão lateral, de modo que em edifícios maiores, onde era necessário muito espaço interior, as paredes recebiam necessariamente uma espessura maciça, e esta espessura, por sua vez,tornava necessário usar pequenas janelas, para que a ancoragem fornecida pelas paredes não fosse enfraquecida e o colapso do edifício evitado. Em consequência disto, os edifícios românicos eram como fortificações militares em seu achatamento, sua aparência pesada e seu interior sombrio. Os arquitetos góticos escaparam desses resultados infelizes através da utilização do arco ogival que lhes permitiram considerável aumento em sua altura interior, e eles aprenderam como anular a pressão lateral daqueles arcos por meio de contrafortes, ao invés de muros pesados como cais. Isso eliminou o grande peso das paredes laterais e permitiu que os construtores substituíssem pedra por vidro, destruindo imediatamente a obscuridade desagradável. No decorrer do tempo, o sistema de colunas, arcos e contrafortes arcobotantes tornou-se um tipo coisa em si, coma estrutura de uma máquina, de modo que o esqueleto de um prédio se tornou autossuficiente, e pode-se dizer que dispensava simplesmente as paredes. É nesta estrutura organizada para ser autossustentável, que mais distingue o gótico como um todo do seu antecessor, o Românico; sendo as características que tornaram possível esta façanha – o arco, a abóbada, e o arcobotante – secundárias.

Este é o ponto da famosa descrição do gótico de Violet-le-Duc, habilmente resumida por C.H. Moore com estas palavras: “Um sistema que foi uma gradual evolução a partir do estilo Romanesco, e aquele cuja característica distintiva é que todo o caráter do edifício é determinado por, e toda a sua força reside em uma estrutura finamente organizada e francamente confessada, ao invés de paredes.”

Moore forneceu, ele mesmo, uma definição ainda mais famosa, e facilmente compreendida:

“Em suma, então, a arquitetura gótica pode ser resumidamente definida como um sistema de construção em que a abóbada sobre um sistema independente de costelas, é sustentada por pilares e contrafortes, cujo equilíbrio é mantido pela ação contrária da impulsão e do contragolpe. Este sistema é adornado por esculturas cujos motivos são retirados da natureza orgânica, convencionada em obediência às condições arquitetônicas, e regidas pelas formas adequadas estabelecidas pela arte antiga, complementada por desenhos coloridos sobre chão opaco e, mais amplamente em vidro. É uma arquitetura da igreja popular – o produto dos artesãos seculares trabalhando sob o estímulo das aspirações nacionais e municipais, e inspirados por fé religiosa”.

Moore acha a chave para o Gótico no arcobotante.

Outras autoridades têm outras teorias. Porter acha que está na abóbada; Phillips no arco ogival, o que ele transformou no alfa e o ômega de todo o sistema; Gould acredita que o as abóbadas de pedra são fundamentais, enquanto Lethaby parece achar a quintessência do gótico nesta ou naquela característica, mas no caráter medieval geral dela como um todo.

II. QUEM INVENTOU O GÓTICO?

Tem havido uma grande diferença de opinião entre os historiadores da arquitetura quanto a onde e quando começou o Gótico. Escritores ingleses, que têm um desejo muito natural de reivindicar para sua própria terra a glória da descoberta da arte, a datam de 1100 DC ou mais cedo, e encontram suas primeiras manifestações em Durham; enquanto que os escritores franceses sustentam quase unanimemente que o gótico começou primeiro de todas as regiões em redor de Paris, no que já foi chamado de Ile de France, e dizem que a Igreja da Abadia de St. Denis, iniciada em 1140, deve ser considerado como o primeiro monumento gótico conhecido. Parece que a maioria dos escritores mais modernos inclina-se a concordar com a teoria francesa. Porter data o novo estilo como se iniciando em Paris por volta de 1163, e diz que ele alcançou seu ponto culminante no ano de 1220, com a nave de Amiens.

Nave de Amiens

Goodyear, em seu Arte Romana e Medieval, faz um relato bastante preciso e muito condensado da origem e do crescimento do gótico em um parágrafo muito apropriado para citação a este respeito. Ele diz que “o gótico tardio é conhecido na França como extravagante, ou seja, florido (ou flamejante). Caso contrário, as designações do Gótico como ‘inicial’, médio’ e ‘tardio’ são aceitas. Deve ser entendido que não há limites definidos entre esses períodos. Falando de maneira geral, o final do século XII foi o tempo em que o Gótico surgiu da França, e ele é raramente encontrado em outros países antes do século XIII; os séculos XIII e XIV são, ambos, períodos de grande perfeição, e o século XV é o momento de relativa decadência. Tanto na Alemanha quanto na Inglaterra o século XIII foi o momento da introdução do estilo gótico. Na Itália ele nunca foi plena ou geralmente aceito. Dentro do campo do gótico propriamente dito (isto é, excluindo a Itália), a Inglaterra é o país onde as modificações locais e nacionais são mais evidentes, muitas delas mostrando que o estilo era mais ou menos praticado de segunda mão. Na pitoresca beleza e atratividade geral, as catedrais inglesas podem ser comparadas a qualquer outra, mas a preferência deve ser dada aos franceses no estudo da evolução do estilo.” (Pág. 283.)

De onde os arquitetos góticos tiraram o segredo de sua nova arte? As teorias são tão numerosas quanto diferentes, e elas vão desde as sublimes até as ridículas. Lascelles acreditava que os construtores haviam aprendido seus arcos ogivais de seções transversais da arca de Noé! Stukeley e Warburton sustentavam que eles tinham tropeçado em seu novo princípio ao tentar imitar os bosques secretos dos druidas. Ranking argumentava que o gótico é gnóstico por natureza para suportar uma grande massa de dados. Christopher Wren alegava que ele tinha sido tomado emprestado dos Sarracenos. Findel e Fort atribuíam, ambos, a descoberta da arte aos alemães, e com isso Leader Scott concorda em seu agora famoso Construtores de Catedrais, exceto que ela parece defender que os Mestres Comacine eram missionários que a levaram para a França e para a Inglaterra. O Dr. Milner acreditava que o gótico era uma alteração dos arcos do estilo românico, uma teoria com a qual muitos concordam. Em uma contribuição para a Ars Quatuor Coronatorum que provocou uma grande celeuma na época, Hayter Lewis insistia em que tal princípio definido e claramente articulado devia ter sido obra de um único homem, e sugeriu Suger, o ministro do rei Louis, o Grande, da França, país que era, nessa época, pouco mais que uma pequena tira não muito maior que a Irlanda. O Governador Pownall acreditava que o gótico se originava de práticas de trabalho em madeira; enquanto alguns teóricos escoceses acreditavam que ele era provenientes de trabalhos em vime. Gilbert Scott, um escritor de grande autoridade na sua época, rejeitava todas estas derivações especiais e argumentava que o gótico evoluiu gradualmente, oral e inevitavelmente, a partir de condições já existentes na arquitetura e na sociedade; com o que Gould está de acordo, assim como a maioria dos escritores do presente. Gould coloca toda a questão em uma frase: “As pesquisas de escritores posteriores e mais bem informados, no entanto, deixaram claro que o gótico não era imitação ou importação, mas um estilo nativo, que surgiu aos poucos, mas quase que simultaneamente em várias partes da Europa.” (História da Maçonaria, vol. I, p. 255.)

III. FORAM ARQUITETOS GÓTICOS OS PRIMEIROS MAÇONS?

Na época em que o gótico fez a sua aparição, quase toda a arte, incluindo a arquitetura, ainda estava sob o controle das ordens monásticas; mas com o desenvolvimento das catedrais a arte passou ao controle leigo. Alguns acreditam que a escassez de registros sobre os próprios construtores deve-se ao orgulho de cronistas, quase sempre eclesiásticos, que desprezavam mencionar os trabalhadores, exceto de forma mais geral. Esses trabalhadores, como quase todos os outros artesãos da época, eram organizados em corporações (guildas). As guildas diferenciaram muito entre si com o tempo e lugar, mas em todas as suas diferentes modificações retiveram características bem definidas. Cada guilda era uma organização estacionária que geralmente possuía o monopólio do comércio em sua própria comunidade, cujas leis eram obrigatórias para os artesãos. As guildas de um comércio não exerciam qualquer controle sobre os de outra, mas todos concordaram com determinadas regras e práticas, tais como aquelas relacionadas com aprendizagem, compra de matérias-primas, marketing, e tudo isso. Em algumas comunidades, as guildas tornaram-se tão poderosos que alguns historiadores têm confundido o seu governo com o governo de sua cidade, mas é provável que isto nunca tenha acontecido com frequência, se é que aconteceu.

Acredita-se que, devido a peculiaridades de sua arte, as guildas que tinham a incumbência da construção das catedrais tornaram-se diferenciadas de outras em alguns elementos muito importantes. Se isso realmente aconteceu, era um resultado muito natural das circunstâncias em que os construtores das catedrais trabalhavam. A deles era uma vocação única. Todas as outras construções eram totalmente diferentes de catedrais, e não era frequente que as cidades pudessem dar-se o luxo de ter uma, de modo que nunca havia grande abundância de trabalho para elas. Além disso, sua arte era particularmente difícil, e envolvia a posse e aprendizagem de muitos segredos incomuns, de modo que a própria natureza do trabalho diferenciava o artesão construtor de catedrais de outros membros da guilda. Historiadores cautelosos acreditam que depois de um tempo, as autoridades, reconhecendo a especificidade da arte dos construtores de catedrais, concedeu-lhes certos privilégios e imunidades, e permitiram que eles se movessem à vontade de lugar para outro, o que por si só os definia nitidamente como diferentes das guildas estacionárias, cada uma delas não sendo autorizada a trabalhar fora de seus próprios limites incorporados; e muitos escritores acreditam que devido a essa liberdade para se movimentar sem restrições pelas limitações comuns de privilégios do costume medieval, que estas guildas, ou Maçons (a palavra significa “construtores”), vieram finalmente a serem chamadas de “maçons livres ou francos”. O Governador Pownall escreveu uma página certa vez, para provar que mesmo os papas concederam privilégios especiais a estes construtores, mas pesquisas posteriores na biblioteca do Vaticano não permitiram que ele, ou outros pesquisadores depois dele, descobrissem as bulas papais.

IV. OS CONSTRUTORES GÓTICOS FORMAVAM UMA GRANDE FRATERNIDADE?

Escritores da velha guarda costumavam acreditar, quase unanimemente, que esses maçons medievais eram ligados em uma grande fraternidade unificada operando sob o controle individual de alguns centros, tais como Londres, Paris, Nova York, e argumentavam que esta “grande fraternidade única”, com certas mudanças importantes, mas não revolucionárias, existiu até ao nosso tempo, e que a Maçonaria de hoje é praticamente a mesma organização que era então. R. F. Gould, que falava por um grupo inteiro de estudiosos maçons ingleses de primeira classe, bem como por si mesmo, negava categoricamente toda essa teoria da forma mais ampla e inequívoca. “Eu demonstrei”, disse ele na página 295 do primeiro volume de sua História da Maçonaria, “que a ideia de um corpo universal de homens trabalhando com um só impulso, e segundo uma forma definida, a pedido de um organismo cosmopolita sob certa direção… é um mito.” Na página 262 do mesmo volume, ele comenta que a teoria de uma fraternidade universal “é desmentida pelo silêncio absoluto de toda a história”. Com este veredicto, Arthur Kingsley Porter, que escreveu apenas como historiador da arquitetura medieval, e não tendo qualquer um dos problemas da Maçonaria em mente, concorda, e em grande medida pelo mesmo motivo.

Gould baseia sua negação quase totalmente nos testemunhos dos próprios edifícios, e argumenta que, embora um escritor aqui e ali possa errar, as construções não o fazem, e ele sustenta que elas, todas e cada uma delas, oferecem um testemunho unificado de que não eram o trabalho de “uma grande fraternidade”, mas representavam peculiaridades locais que não devem ser negligenciadas. Sua análise da arquitetura gótica dos diferentes países, com o propósito em vista de revelar o seu testemunho sobre este ponto importante é uma das conquistas mais belas de sua monumental História. É provável que a grande maioria dos historiadores atuais de arquitetura medieval concordaria com ele.

A história das diferentes artes e artefatos que tornaram possível o gótico parece corroborar esta posição. Todos os fatos conhecidos sobre a evolução do gótico provam que ele passou a existir de forma gradual, e que nenhuma organização jamais possuiu os seus segredos em momento algum, e que o arco, o arcobotante, abóbada, e outros recursos tão característicos foram aprendidas através de dolorosa experiência, e independentemente uns dos outros. Porter fala sobre o arcobotante como “um novo princípio” e um “que mais do que qualquer outro assegurou o triunfo da abóbada e um princípio cuja descoberta marca o momento em que a arquitetura gótica apareceu pela primeira vez.” Na página 92 do volume II de sua grande obra, Arquitetura Medieval, uma produção magistral cuja leitura todo estudante da Maçonaria deveria empreender, ele escreve o seguinte: “Dai ser provável que as vantagens e possibilidades do arcobotante não fossem imediatamente totalmente apreciadas, e, embora nova construção fosse livremente aplicada nos casos em que diante de ameaça de queda da abóbada sua aplicação fosse exigida, mesmo edifícios de dimensões consideráveis continuaram a ser erguidos sem o seu auxílio. Esta característica importante, sem a qual o gótico nunca poderia ter surgido foi o trabalho de experimentação gradual, e os construtores aprenderam sobre ele lentamente, um pouco aqui, um pouco ali, e em alguns lugares eles nunca o dominaram completamente: se o segredo do arcobotante tivesse sido conhecido antecipadamente por qualquer grande fraternidade de artesãos, toda esta evolução dolorosa e cara teria sido desnecessária.”

O mesmo pode ser dito do arco ogival que foi tão essencial ao gótico que frequentemente seu próprio nome tem sido dado ao estilo. Porter mostra que o arco como unidade de construção era muito antigo e usado muito antes de os Cruzados terem tomado Jerusalém; e que ele foi adotado pelos construtores góticos lentamente e só sob coação; seu uso para fins ornamentais só veio tarde e no início do gótico os construtores se apegavam ao uso de antigo arco redondo, enquanto foi possível.

O Arco Românico

Não há necessidade de multiplicar os exemplos. A geometria, que era às vezes utilizada como sinônimo da própria arte de construir e, mais particularmente, com o gótico, e que foi obviamente de tanta importância nunca foi conhecida como uma ciência meramente abstrata, e se impôs gradualmente depois de inúmeras experiências e testes de tentativa e erro. Não há evidência de que qualquer grupo de homens a tenha jamais possuído e em sua totalidade, que é o que teria sido necessário para que “uma grande fraternidade” tivesse a empresa de construção medieval na mão. A história de ornamentação românica em estruturas gótico conta uma história semelhante, e assim o faz o uso de vitrais, que Porter mapeia até a Ile de France, e que passou a existir de forma gradual e lenta.

Em suma, a história da arte verifica o testemunho dos próprios edifícios; tudo foi uma evolução gradual, e de acordo com a moda do momento, com base em condições contemporâneas e a partir de métodos e costumes pré-existentes. Quando se olha casualmente para trás na história medieval no conforto de uma poltrona, e se olha para ela como um espetáculo pairando no ar, o gótico pode parecer ter começado a existir quase imediatamente, como uma deusa saindo da cabeça de Zeus; mas um exame mais cuidadoso dos fatos mostra que a velha teoria de uma grande fraternidade conferindo ao mundo uma arte completamente nova e toda uma nova cultura é uma ilusão agradável.

Poderíamos ainda acrescentar ao argumento o testemunho da história, que é o testemunho de silêncio. Se a arte gótica estava na posse de uma única grande fraternidade, então aquela surpreendente sociedade também devia ter em mãos a construção de estradas, pontes, muros, residências particulares, fortalezas, moinhos, e também teria ensinado às pessoas como fazer as suas roupas e ornamentar suas residências, pois, como já foi dito, a arte gótica era uma continuação da arte medieval. Uma sociedade dotada de tal sabedoria, e trabalhando em todos os centros na Europa teria sido tão universal quanto a Igreja Católica da época, e teria deixado um registro volumoso; mas o fato é que existe essa falta de registros, até mesmo dos construtores de catedrais, que mesmo agora, e após um século de constantes pesquisas no terreno por peritos, muito pouco se sabe dos construtores de catedrais, de modo que é necessário descobrir o caminho no escuro, sempre que alguém se dispõe a aprender algo sobre eles.

A arquitetura gótica não foi o resultado do trabalho de qualquer grupo isolado, mas de todos os grupos e classes que compunham o décimo segundo, o décimo terceiro e o décimo quarto séculos na Europa e na Inglaterra. Neste último país, basta recordar os reinados de Henrique II e do Rei João, de quem a Carta Magna foi arrancada para lembrar em que efervescência estava tudo, e quão vigorosa era a vida comunitária. Na Europa ocidental, ocorria a mesma coisa. Os sucessores dos Capeto criaram nos territórios francos, e com Paris como seu centro, um império comparável ao da própria Roma. Foi a época em que as cidades alcançaram a independência, quando reis se tornaram poderosos monarcas contra a regra divisiva de senhores feudais e barões; quando o papado estendeu seu poder aos limites da cristandade, com a consequência de que algo como unidade estivesse afetado à vida moral e religiosa das partes constitutivas; e esta vida moral e religiosa tornou-se poderosa o suficiente para enviar os cruzados à Palestina para a captura de Jerusalém. A maior de todas as maravilhas da catedral gótica é a idade que a produziu. No meio das brigas de barões ladrões; em meio ao clamor das comunas e facções em conflito; em meio à ignorância e superstição da Igreja, essa arte encantadora, ao mesmo tempo tão intelectual e tão ideal, floresceu como uma explosão. Parece quase como um anacronismo que esta arquitetura devesse ter surgido durante a turbulenta Idade Média. Mesmo assim, a arquitetura gótica, embora em um sentido tão claramente oposto ao espírito dos tempos, estava no entanto, profundamente imbuída desse espírito dos tempos, e só pode ser entendida quando considerada em relação às condições políticas, eclesiásticas, econômicas e sociais contemporâneas. Porque o século XII, apesar de sua escuridão era ainda um período muito avançado em relação ao que tinha acontecido antes – tanto que M. Luchaire não hesita em chamá-lo ‘A Renascença francesa’.

“A revolução intelectual foi acompanhada por uma revolução econômica não menos radical. Herr Schmoller até mesmo o comparou ao que ocorreu no século XIX. Nas cidades, os trabalhadores foram liberados da servidão, e começaram a se unir em corporações livres, e o mesmo processo operou em menor grau entre os vilões ou servos do país. As vantagens econômicas desta emancipação foram incalculáveis. As romarias, as jornadas dos cavaleiros franceses a todas as partes da Europa, e acima de tudo as cruzadas, abriram aos comerciantes um campo de atividade até então inimaginável. As guildas de mercadores, que nunca tinham sido tão numerosas e tão fortes; as relações comerciais que foram estabelecidas entre a Normandia e a Inglaterra; a prosperidade redobrada de Montpellier e Marselha; a multiplicação de mercados; a crescente importância das grandes feiras de Champagne – todas essas condições traem uma transformação radical nas condições materiais da população. Em toda parte, a condição do trabalhador foi facilitada; em toda parte as cidades aumentaram sua produção econômica, e ampliaram seus negócios; em todos os lugares as pontes foram reconstruídas e reparadas; e por todos os lugares novas estradas foram abertas. E com o comércio, veio a riqueza.” (Páginas 145, 147, Arquitetura Medieval, Porter Vol. II)

Esta nova vida também se manifestou na especulação teológica, algumas das quais eram tão audaciosas que homens foram martirizados na fogueira por suas opiniões; na filosofia e do estudo do direito; em organizações políticas e em arte. Uma nova vida rompeu em todos os lugares, e de sua riqueza veio, como sua flor consumada, a catedral gótica.

Duomo de Milão

Mas como, pode-se perguntar razoavelmente, podemos entender a unidade da arte gótica em um momento em que o mundo estava muito dividido, e a intercomunicação entre os países muito difícil? A questão é bem levantada, mas ela pode ser facilmente respondida. A unidade do ofício era devida à união do trabalho realizado pelo ofício; a técnica gótica impôs sua própria unidade sobre os trabalhadores e suas atividades, como essas coisas sempre fazem. Phillips mostrou que se alguém traçar um gráfico mostrando a construção de cada uma das catedrais francesas em sucessão, os locais começarão, grosso modo, próximos a Paris e, em seguida, se ampliarão em curvas concêntricas, provando assim que os novos conhecimentos de arquitetura aprendidos no centro irradiavam-se para fora, como o conhecimento é capaz de fazê-lo.

Temos em nosso meio abundantes exemplos de tal evolução. O mundo está cheio de motores a vapor de vários tipos, mas nem por isso acreditamos que o segredo de vapor foi propriedade privada de uma organização secreta; sabemos que o motor a vapor começou com Watt, em 1789, e que cada inventor copiou o trabalho de seu antecessor e adicionou suas próprias melhorias e modificações. Existem centenas de escolas médicas neste e em outros países que usam a mesma terminologia técnica (comparável à “linguagem secreta” dos cultos antigos); elas empregam os mesmos tipos de instrumentos, têm regras semelhantes, e todas proporcionam a seus alunos uma educação que é formalmente reconhecida em outras escolas em todo o mundo. Sabemos que esta unidade de organização médica nunca foi criada no início por “uma grande fraternidade”; ela cresceu a partir da natureza da técnica empregada; a unidade formal agora nas mãos de associações médicas nacionais não é a causa, mas o resultado da unidade imposta pela própria profissão.

Eu acredito que alguma coisa semelhante aconteceu no que diz respeito às guildas de construtores da Idade Média. Estes corpos tinham uma unidade, mas era devido à natureza do trabalho, e surgiu inevitavelmente. Eles trocavam associações, como fazem hoje as sociedades médicas, ou de direito, ou de arte, porque o trabalho realizado era basicamente o mesmo. Eles desenvolveram uma ética de sua própria profissão e mantiveram todas as guildas rigorosamente sob a mesma, assim como fizeram as guildas estacionárias, e como fazem hoje as sociedades médicas locais e similares, sempre autogovernadas. A unidade assim desenvolvida a partir da natureza do trabalho em si gradualmente se cristalizou em constituições e tradições; e essa unidade, finalmente, na Inglaterra do século XVIII, e devido a mudanças profundas nas condições sob as quais as guildas, ou lojas operavam, transformaram-se em unidade formal que é representada pela autoridade e poder de Grandes Lojas. Desde o momento no início do século XII, quando as guildas construtoras de catedrais começaram a existir, até que a Maçonaria especulativa nascesse em 1717 como uma sociedade formalmente organizada, nunca houve uma ruptura na continuidade histórica, mas ocorreram importantes mudanças evolutivas. Legal e tecnicamente, nossa atual Maçonaria começou em Londres em 1717; historicamente, e em uma visão mais ampla, ela começou na Europa nos séculos XI ou XII.

Mas, mesmo naqueles primeiros dias, os construtores não começaram desde o começo. Eles tiveram antecessores e antepassados em cujos ombros eles se apoiaram, e de cuja arte eles desenvolveram as suas próprias. Será necessário considerar isso, para completar o quadro; isso será feito em alguns próximos capítulos, e como introdução para um desenvolvimento ainda maior do tema apresentado nesta Nota: A História da Maçonaria de Gould foi, na realidade, o trabalho de um grupo de homens, e era a intenção inicial ter os nomes de todos na página de título. Tenho esta informação diretamente de um dos membros do grupo.

Autor: H.L. Haywood
Tradução: José Filardo

A seguir algumas questões para você, caro leitor:

O que significa originalmente a palavra gótico? Qual é a definição dada pelo Novo Dicionário Inglês? Como Lethaby define gótico? Dê a substância da descrição de Porter do gótico. Qual era o princípio sobre o qual a arquitetura românica estava baseada? Descrever o princípio geral da arquitetura gótica, conforme explicado pelo irmão Haywood. Dê a explicação de Moore com suas próprias palavras. Você pode citar qualquer espécime de arquitetura gótica em sua própria comunidade? Você pode citar alguma catedral gótica nos Estados Unidos? Por que a arquitetura gótica é considerada particularmente adequada para edifícios de igrejas? Alguma vez em sua própria mente você ligou a arquitetura gótica à Maçonaria? Se sim, qual foi a sua teoria daquela conexão?

Onde e quando começou o gótico? Dê em suas próprias palavras um esboço da história gótica. Quais são algumas das várias teorias sobre a origem do gótico? O que tudo isso tem a ver com a história da Maçonaria? O que era uma Guilda? Por que os edifícios góticos são diferentes dos outros? Qual é o significado da palavra Maçom? Como surgiu a palavra ”Maçonaria”? 

Qual era a teoria da ”única grande fraternidade”? Qual é o veredicto de Gould sobre essa teoria? De que maneira a história da arte gótica tende a desmentir a ”teoria de uma só grande fraternidade”? Dê exemplos para mostrar que a arquitetura gótica desenvolveu-se gradualmente. Diga algo sobre a época em que gótico surgiu. Como você explica a unidade da Arte da Maçonaria na Idade Média? Dê alguns exemplos modernos. A maioria dos historiadores da ”Maçonaria” concorda que nossa fraternidade teve sua origem entre as guildas da Idade Média: como você afirma aquela teoria em suas próprias palavras? Que importância tem esta teoria em nossas interpretações e obrigações da maçonaria nos dias de hoje?

LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO

Medieval Art – W.R. Lethaby. ; Westminster Abbey and the King’s Craftsmen – W.R. Lethaby. ; Architecture – W.R. Lethaby; Freemasonry before the Existence of Grand Lodges – Lionel Vibert. ; Story of the Craft – Lionel Vibert. ; Ars Quatuor Coronatorum, Vol. III, p. 13; 70. Ibid., Vol. XXXIII, p. 114. ; New English Dictionary on Historical Principles. History of Freemasonry – R.F. Gould, Vol. I, chapter 6, p.253. ; Medieval Architecture – Arthur Kingsley Porter, Vol. II. ; Mackey’s Revised History of Freemasonry – Robert I. Clegg, p. 814. ; Early History and Antiquities of Freemasonry – G.F. Fort. ; History of Freemasonry – J.G. Findel, p. 76, (1869 edition). ; Freemason’s Monthly Magazine, (Boston), Vol. XIX, p. 281. ; Hole Craft and Fellowship of Masonry – Edward Conder ; The Cathedral Builders – Leader Scott The Comacines – W. Ravenscroft. ; A Concise History of Freemasonry – R.F. Gould, 1920. ; Roman and Medieval Art – Wm. H. Goodyear. ; Development and Character of Gothic Architecture – Charles Herbert Moore. ; History of Architecture – James Fergusson. ; History of Architecture – Russell Sturgis. ; Art and Environment – L.M. Phillips

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

Mackey’s Encyclopedia – (Revised Edition) Antiquity of the Arch, p. 74; Architecture, p. 75; Basilica, p. 99; Bridge Builders of the Middle Ages, p. 117; Builder, p. 123; Cathedral of Cologne, p. 159; Cathedral of Strasburg, p. 729; Freemasons of the Church, p. 150; Gilds, p. 296; Giblim or Stone-squarers, p. 296; Geometry, p. 295; Gothic Architecture, p. 304; Implements, p. 348; Operative Masonry, p. 532; Secret Vault p 822; Sir Christopher Wren, p. 859; Stone-Masons of the Middle Ages, p. 718; Stone of Foundation, p. 722; Stone Worship, p. 727; Symbolism of the Temple, p. 774; Traveling Masons, p. 792.

REFERÊNCIAS DO THE BUILDER

Vol 1 – Regensburg Stonemason’s Regulations, pp. 171, 195; Whence Came Freemasonry? p. 181. Vol. II (1916) – Masonry Universal, p. 29; Steinbrenner, p. 158; Masonic Traditions, p. 189; Joseph Findel, p. 221; A Significant Chapter in the Early History of Freemasonry, Nov. C.C.B. 4; Operative Masonry, Dec. C.C B. 1. Vol. III (1917) – Antiquities, p. 181; Masonic History, p. 204; The Guild and York Rites, p. 242; Freemasonry and the Medieval Craft Guilds, pp. 342, 361; Worthy Operatives Cathedral Builders, p. 349. Vol. IV (1918) – George Franklin Fort, p. 171; The Masonic Writings of George Franklin Fort, p. 210. Vol. V (1919) – Mackey’s History of Freemasonry, p. 53; Legendary Origin of Freemasonry, p. 297; Quatuor Coronate, p. 300. Vol. VI (1920) – Speculative Masonry, p. 130; A Bird’s-Eye View of Masonic History, p. 236. Vol. VII (1921) – Whence Came Freemasonry? p. 90; Three Good Books on the Guild Question, p. 195; “The Evolution of Freemasonry,” p. 360. Vol. VIII (1922) – Gould’s Concise History of Freemasonry, p. 23; Masonic Legends and Traditions, p. 57; Craft Guilds and Trade Unions, p. 63; Travelling Craftsmen, p. 102; A New Brief History of Freemasonry, p. 120; “Freemasonry and the Ancient Rites,” p. 151; Freemasonry of the Middle Ages and International Society, p. 331.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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