Como a Maçonaria Operativa se Transformou na Maçonaria Especulativa

I. O PERÍODO DE TRANSIÇÃO

Se em meu breve estudo sobre a Maçonaria Operativa eu advertia rapidamente e de passagem ao fato de que nos dias em que as lojas maçônicas eram em sua maioria completamente “operativas”, ou dedicadas a atividades de construção efetiva, havia certo elemento de não operativa na participação, algo tornado necessário pelas condições sob as quais foram erigidos os edifícios eclesiásticos. Muitas vezes, o trabalho estava sob a superintendência geral de um bispo ou outra autoridade da igreja que, na natureza das coisas, teria que ter a liberdade da loja; ao mesmo tempo, ali eram empregados funcionários educados para cuidar dos livros e possivelmente também homens educados para ajudar na elaboração de alguns dos problemas mais técnicos.

Sempre que uma catedral era erguida por uma corporação local, era necessário que seus representantes tivessem acesso aos registos e, de outra forma fossem autorizados a compartilhar a direção das atividades; além disso, pode ser que homens da alta posição totalmente fora do Ofício eram ocasionalmente, e por diferentes razões políticas ou sociais, admitidos sob alguma qualidade na irmandade. Um exemplo é fornecido no Manuscrito Cooke, datado de cerca de 1450, onde é dito do “Príncipe Edwin” que “de especulativo ele era um mestre”; o significado disso pode ser ou que este dignitário era amigável do Ofício, ou então que ele sabia que algo de “geometria”, que estava na base de todos os projetos de construção.

Em todo caso, os homens eram admitidos a algum tipo de participação em loja, que não tinha a pretensão de praticar a arte, um fato que não precisa causar qualquer surpresa porque ele era bastante coerente com os princípios e práticas das corporações. A aceitação destes não-operativos pode eventualmente ter tido algum efeito sobre cerimônias em loja. Na natureza do caso, tal irmão não podia fazer juramento de manter os segredos do ofício sobre o qual ele não precisava aprender coisa alguma;, nem podia ser obrigado a produzir uma obra prima, como o eram os aprendizes regulares, porque ele não possuiria a habilidade.

Tão pouco se sabe sobre este assunto que só se pode permitir especular, não obstante seja de alguma consequência o esforço para recuperar uma imagem dos usos da loja nos tempos antigos. O principal ponto aqui é que desde os primeiros tempos não se era considerado ilegal ou irregular para lojas operativas aceitar sob algum tipo de razão a participação de homens não operativos; tendo isso em mente, será mais fácil entender como em anos posteriores não operativos passaram a ser aceitos em tais números que superaram simplesmente os Operativos.

II. DECLÍNIO DA MAÇONARIA OPERATIVA

No século XV, a Maçonaria operativa começou a declinar, e no século seguinte, quase deixou de existir e, isso principalmente devido à Reforma Protestante na Inglaterra. Todas as corporações de ofício foram suprimidas por Henrique VIII (ver Estatutos de 37 de Henrique VIII, c. 4, e I Edward VI, c. 14) e corporações de mosteiros foram dissolvidas e seus fundos confiscados pela Coroa. As catedrais já não eram mais erguidas; aos olhos dos puritanos, que rapidamente chegaram à frente, elas eram monumentos da religião papista e, portanto, consideradas perigosas, de modo que muitas delas foram desfiguradas ou parcialmente demolidas; a mesma amargura foi dirigida contra todas as outras estruturas de tipo semelhante, de modo que as velhas lojas de Maçons Operativos, que tinham surgido para erguer as catedrais, viram-se sem trabalho. Algumas delas, assim se acredita, voltaram sua atenção para as casas da nobreza palaciana para os fidalgos do interior, mas a maioria delas pereceu ou então manteve uma existência lânguida.

Outras influências operaram com a mesma finalidade. As guerras civis deixaram o país esgotado. Novas cidades surgiram com novas tradições, e alguns dos antigos centros de vida das corporações passaram para segundo plano. Ao mesmo tempo, e devido à escassez de trabalhadores, operários estrangeiros foram importados da França, da Holanda, Alemanha e Itália, e estes tinham outros costumes e tradições. No mundo do pensamento, outras revoluções, silenciosas mas poderosas, ocorreram, uma delas dando origem à fundação da famosa Royal Society, da qual os membros eminentes da primeira Grande Loja eram membros, alguns deles bastante ativos. Em outras palavras, toda a vida da Inglaterra sofreu uma mudança profunda, de tal modo que organizações como o Ofício de Maçonaria tiveram que mudar com ela, e se encontraram em um conjunto de circunstâncias bem diferentes daquelas que tinham obtido durante os séculos XIII e XIV.

É um fato de alguma importância que o número de não operativos aceitos na sociedade parece ter aumentado à medida que o Ofício como um todo diminuía; a maioria dos nossos escritores tem visto nisso as conexões de causa e efeito, e não há razão supor que eles estejam errados. As atas de loja mais antigas ainda existentes na Inglaterra datam do início do século XVIII; mas, na Escócia, os registros são muito mais antigos, as atas da Loja-Mãe Kilwinning datam de 1642, as de Aberdeen a partir de 1670. A partir dessas atas, e de outros registros antigos, aprendemos que não só os não-Operativos eram aceitos no início por lojas escocesas, mas que eles (os não operativos) tinham uma participação ativa nos assuntos da loja. O Irmão Murray Lyon, cuja história da Loja de Edimburgo tem sido, há muito tempo, uma obra padrão, diz que o primeiro registro autêntico de um não operativo sendo aceito como membro de uma loja data de 08 de junho de 1600, quando o nome de John Boswell, Lord de Auchinleck, aparece entre os irmãos.

Dois anos antes disso, no entanto, ainda outro não operativo deve ter estado nas listas, porque sabemos que em 1598, William Schaw, quem Lyoll acredita ter sido um membro honorário, assinou e promulgou dois conjuntos de estatutos, ou códigos de leis, um para uso do Ofício em geral, o outro para uso da loja de Kilwinning. Schaw assinou como “Mestre dos Trabalhos, Vigilante dos Maçons”. Em julho de 1634, Lord Alexander, Visconde do Canadá, Sir Anthony Alexander e Sir Alexander Strachan foram admitidos à Loja de Edimburgo. Como o historiador da Maçonaria Escocesa por excelência, vale a pena citar as palavras de Lyon de comentário a este respeito:

“É digno de nota que, com poucas exceções, os não operativos que eram admitidos com membros das irmandades maçônicas nas lojas de Edimburgo e Kilwininng durante o século XVII eram pessoas de qualidade, a mais eminente das quais, como resultado natural da sua posição metropolitana, sendo feita na primeira loja. Sua admissão à irmandade uma instituição composta de Maçons Operativos associados juntos para as finalidade de seu Ofício, com toda probabilidade, seria originária de um desejo de elevar sua posição e aumentar sua influência, e uma vez adotado o sistema, recomendaria ainda à Fraternidade pelas oportunidades que se apresentam para o cultivo da amizade e desfrute da sociedade de senhores, a quem, em circunstâncias normais, havia pouca chance de que eles sequer teriam conhecido pessoalmente.”

“Por outro lado, a vinculação de não profissionais à loja pelos laços de filiação, acreditamos, seria ativado em parte por uma disposição de retribuir os sentimentos que tinham provocado a concessão da participação, em parte pela curiosidade de penetrar os arcanos do Oficio, e em parte pela novidade da situação, como membros de uma sociedade secreta e participantes em suas cerimônias e festividades.”

III. REGISTROS DA ANTIGA LOJA ESCOCESA

Hughan deu expressão à surpresa sentida pela maioria de nossos acadêmicos com o fato de que os registros de loja fossem muito mais longe na Escócia do que na Inglaterra; ele escreve:

“O motivo pelo qual tantos livros de ata ainda estão preservados na Escócia, muito antes da instituição da Grande Loja, até mesmo alguns do século XVII, e ainda assim quase nenhum é encontrado na Inglaterra, parece inexplicável.”

Os registros da Loja Alnwick remontam a 1703. Parece que uma loja não-Operativa existia em York, a julgar pelos registros, já em 1705. A extinta Loja Haughfoot tinha uma maioria não operativa com um ritual e cerimônia já em 1702. Essas entradas mostram que as práticas não operativas estavam na moda nos anos antes da fundação da primeira Grande Loja da Maçonaria especulativa, em Londres, 1717.

O registro mais antigo sobrevivente de um homem ter sido iniciado maçom não operativo em solo Inglês é a de Robert Moray, que foi “iniciado” em Newcastle, por membros da Loja de Edimburgo membros do exército escocês, em 20 de maio de 1641. Mas, o mais famoso de todos os primeiros maçons não operativos é, de longe, Elias Ashmole, iniciado em Warrington em 16 de outubro de 1646. Ashmole nasce em Lichfield em 1617, foi educado para a advocacia, tornou-se capitão durante a Grande Revolta; foi eleito Fellow da Royal Society, recebeu o grau de M.D. foi feito Windsor Herald e, além de todos esses interesses e atividades dedicou muito tempo ao estudo do ocultismo, astrologia, botânica, história e diversos outros assuntos. Sua terceira esposa foi a filha de seu amigo, Sir William Dugdale. Um colecionador ativo de curiosidades industriosas e objetos de valor antiquário, ele presenteou sua coleção à Universidade de Oxford, onde ainda é conhecido como o Museu Ashmolean. Ele foi autor de uma História da Ordem da Jarreteira. Seu diário foi publicado pela primeira vez em 1717, e depois uma segunda vez, como uma espécie de apêndice à História de Seu Tempo e Sua Vida de Lilly em 1774. O diário contém dois artigos sobre a Maçonaria, como se segue, ortografia e pontuação como no original:

(Manuscrito Ashmole 1136) 1646. [folio 19, verso]

16 de outubro. – 04:30 P.M. – Fui iniciado Franco Maçom em Warrington, Lancashire, com os Coll: Henry Mainwaring de Kanincham em Cheshire. Os nomes daqueles que estavam lá da loja, o Sr. Rich Penket Warden, Jr. James Collier, o Sr. Rich Sankey, Henry Tattler, John Ellam, Rich: Ellam e Hugh Brewer.

Depois de 36 anos aparece outro trecho que contém menção a Companhia de Maçons de Londres. Ela é dada aqui na íntegra:

Março de 1682. [folio 69. verso]

10º. – Cerca de cinco horas da tarde, recebi uma convocação para c omparecer à loja a ser realizada no dia seguinte, no Masons Hall de Londres.

11º. – Assim eu fui, e cerca de Meio dia foram iniciados na Irmandade de Franco Maçons.

Sr. William Wilson Knight, Capt. Rich: Borthwick, Will: Woodman, Mr. Wm. Grey, Taylour Samuell Sr. e Sr. William Wise.

Eu era o Membro sênior entre eles (sendo 35 anos desde que fui iniciado). Estiveram presentes, além da mim mesmo os companheiros a seguir nomeados. Sr. Tho: Sr. Wise da Companhia dos Maçons aqui presentes estão. Mr Thomas Shorthose, Mr. Thomas Shadbolt, Waindsford Esqr., Mr. Nich: Young, Mr. John Shorthose, Mr. William Hamon, Mr. John Thompson, and Mr. Will: Stanton.

Todos jantamos na Taverna Halfe Moone em Cheapside, em um Jantar Noble, preparado por conta dos Maçons recém-iniciados.

IV. A COMPANHIA DOS MAÇONS

A Companhia de Maçons, sem dúvida, mencionada na citação acima é o assunto de um livro de valor inestimável por Edward Conder com o título Hole Crafte and Fellowship of Masons. Este corpo de Maçons foi constituído em 1410 – 1411 e recebeu uma quota de armas no décimo segundo ano de Edward IV (1472-1473) de William Hawkeslowe, Clarenceaux King of Arms. Os registros da cidade de Londres demonstram que este corpo deve ter estado funcionando já em 1356, porque as sua direção se formou naquele ano. Em 1530, o nome foi alterado para a “Companhia dos Franco Maçons.” Conder acha que há boas razões para acreditar que esta companhia começou em algum lugar no início do século XIII.

O ponto interessante aqui, à luz do nosso presente propósito, é o fato de que associado a esta Companhia de Maçons estava outra organização, talvez subsidiária, denominada “The Accepcon” ( A Aceitação). Reuniam-se na mesma sala e estavam de alguma forma ligadas, como se pode aprender com Conder:

“Infelizmente, nenhum livro relacionado com esta Aceitação – ou seja, a Loja – foi preservado. Podemos, portanto, somente formar nossas ideias de seu funcionamento a partir de alguns itens espalhados pelas contas. A partir destas, pode-se verificar que os membros da Companhia pagaram 20 shillings para entrar na Acception, e estrangeiros 40 shillings. Se eles pagaram direitos aos fundos da Companhia, é impossível afirmar, na ausência do velho Livro de Quarteridge. Uma questão, porém, é bastante certa a partir do velho livro de contas que tem início em 1619, que os pagamentos feitos por maçons recém-admitidos foram realizados para os fundos da Companhia; que alguns ou tudo isso foi gasto em um banquete e as despesas de atendimento, e que qualquer quantia adicional exigida foi pago com os fundos comuns da companhia, comprovando que a companhia tinha o controle completo da Loja e seus metais.”

Parece que os membros da Acception não eram maçons operativos; se fosse esse o caso, é óbvio que maçons não operativos fossem admitidos com base em alguma coisa, já em 1619, e provavelmente muito antes disso. Se essa suposição for sólida, segue-se que algum tipo de não operativo ou Maçom especulativo já existia na metrópole mais de um século antes da fundação da primeira Grande Loja. Também parece que Ashmole frequentava a “Acception” na época mencionada em sua segunda entrada de diário citada acima. Com a força desse fato, alguns escritores, o Irmão A.E. Waite, por exemplo, sugeriram que a semente da qual a nossa moderna Maçonaria simbólica teve sua origem pode ter sido plantada ali por homens como Ashmole, que estavam interessados em simbolismo, rituais, ocultismo e todas essas questões.

Que algo era conhecido de uma sociedade de maçons durante a segunda metade do século é provado por referência a isso em alguns livros da época. Randle Holme (o terceiro de mesmo nome), em seu Acadamie de Amorie publicado em 1688, refere-se aos Maçons desta maneira:

“Não posso deixar de Homenagear a Irmandade dos Maçons por sua antiguidade, e mais, sendo um membro da sociedade chamada dos Franco Maçons.”

Dois anos antes do aparecimento do volume de Holme o Dr. Robert Plot publicou a História Natural de Staffordshire, no qual ele se refere aos Maçons de uma forma um pouco satírica:

“A isso se acrescentem os costumes relativos ao Condado, do qual eles têm um, de admitir Homens na Sociedade dos Maçons, que, nas plagas deste Condado parece ser mais solicitado que em qualquer outro lugar, apesar de eu achar que o Costume se espalha mais ou menos por todo o país; pois aqui eu encontrei pessoas da mais eminente qualidade que não desdenham estar neste Clube. Nem, na verdade, eles precisam, se fosse ela de tal antiguidade e honra, que se pretenda, em um volume grande de pergaminho que têm entre eles, conter a História e as regras do ofício de maçonaria.”

“Em que a sociedade, quando são admitidos, eles convocam uma reunião (ou Loja como eles a chamam em alguns lugares), que deve consistir de pelo menos 5 ou 6 dos Antigos da Ordem, quando o candidatos apresentados com luvas, e assim da mesma forma suas esposas, e entretêm com um agrupamento de acordo com o costume do lugar: Isso acabado, eles prosseguem com a admissão deles, que consiste principalmente na comunicação de certos sinais secretos, pelo qual são conhecidos um do outro em todo o país, pelo qual significa que eles têm atendimento para onde quer que viagem: porque se alguém aparece embora totalmente conhecido que possa mostrar qualquer um desses sinais a um Companheiro da Sociedade, a quem eles chamam de outra forma pedreiro aceito, ele é obrigado atualmente a vir até ele, de qual companhia ou lugar ele esteja, ou melhor, embora no alto de uma torre (o perigo ou inconveniente que ele possa correr) para saber o seu prazer e ajuda-lo; ou seja, se ele quiser trabalhar, ele é obrigado a encontrar-lhe algum; ou se ele não puder fazê-lo, dar-lhe dinheiro ou de outra forma apoiá-lo até que possa ter trabalho, que é um de seus Artigos”. 

John Aubrey, um amigo do Dr. Plot e também um antiquário, escreveu a História Natural de Wiltshire, na mesma época, em uma cópia da qual ele inscreveu um memorando onde se lê:

“Memorando: Neste dia, 18 de Maio, sendo segunda-feira, 1691, após a Rogação de Domingo uma grande convenção na Igreja de St. Paul da Fraternidade de Maçons Adotados, onde Sir Christopher Wren, deve ser iniciado como um irmão, e Sir Henry Goodric da Torre, e diversos outros. Houve reis que pertenceram a este Sodalício.”

V. WREN ERA MAÇOM?

Esta referência à Wren levanta uma questão sobre a qual tem havido um longo debate contínuo. Foi o famoso arquiteto, o construtor de St. Paul e de Londres depois do grande incêndio, um maçom? Claro, ele era um arquiteto e, portanto, um membro do Oficio em sentido geral, mas era ele membro de uma loja? Gould dedica cinquenta e quatro das suas páginas mais fortemente carregadas para provar que ele não era, e que qualquer afirmação neste sentido é pura e simples fábula. O Irmão F. De P. Castells escreveu uma crítica mordaz destas páginas num esplêndido ensaio publicado em Transactions na Loja dos Autores, vol. II, página 302:

Nós todos admiramos a erudição de Gould”, observa ele, “sua História é uma obra monumental. Mas, nesse assunto, ele se mostrou mais instruído que sábio, porque ele se colocou sob uma falsa luz, na qual o vemos como um crítico acerbo, sofismando, digladiando com os fatos, e lançando dúvida sobre tudo o que sugere o pensamento de Wren ter sido maçom.”

Alguns acreditarão, talvez, que o irmão Castells tenha exagerado um pouco o assunto, mas que nem lá nem cá; ele encerra em seu próprio caso com quatro peças de evidência: primeiro, as Constituições de 1738; segundo, um trecho do Postboy, um jornal londrino que, no seu anúncio da morte de Wren, refere-se a ele como “aquele digno maçom”; Terceiro, a anotação de Aubrey citada acima e quarto a afirmação de Preston no sentido de que “Wren presidiu a antiga Loja de St. Paul’s durante a construção da catedral”. Mas, o que parece ser o argumento decisivo na argumentação do Irmão Castell é dado em seu postcriptum, em que há tanta matéria muito interessante que pode muito bem ser citado na íntegra:

 “O que precede foi apresentado como uma palestra. Desde então, porém, tendo visto os registros da Loja de Antiguidade que o irmão Rylands trouxe à luz, penso que a questão está absolutamente resolvida. A Loja já teve registros que remontavam a 1663. Mas, quando um inventário foi feito em 1778, tudo o que existia anterior a 1721 tinha desaparecido. Isto é referido em um Memorando como “o ultraje”, pois foi um caso de apropriação indébita. Ainda assim, os poucos registros agora existentes são suficientes para satisfazer qualquer um. Assim, as Atas de uma Reunião realizada em 03 de junho de 1723, dão substância ao que os irmãos haviam decidido: “O conjunto de Castiçais de Mogno presenteado a esta Loja por seu digno e velho mestre, Sir Christopher Wren, deverá ser cuidadosamente depositado em uma caixa de madeira revestida de pano a ser imediatamente adquirido para esta finalidade”. A razão para isso era que como o “digno e velho mestre” da Loja tinha morrido, eles estavam ansiosos para preservar os castiçais como lembranças preciosas de sua ligação com a Loja.

Existe também um Memorando sobre uma ‘Assembleia Geral de um grande Número de Maçons Realizada em 24 de junho de 1721’, que é notável por incluir entre os presentes ‘Christopher Wren, Esq.’, o único filho do arquiteto, cujo nome reaparece de maneira semelhante oito anos mais tarde. Obviamente, o filho era um daqueles que ajudaram a formar a primeira Grande Loja; assim, podemos entender que o pai deveria tê-lo nomeado como seu substituto, quando a Fraternidade comemorou o Capestone em 1710. E ainda assim, Gould, quando escreveu sua História, não sabia que alguém já tivesse anunciado o filho como um membro da nossa Ordem!

A questão tem sido levantada se a Loja Antiquity original era de maçons especulativos. Os três Castiçais permitem boa base para a presunção, mas deixemos os membros da Loja falar por si mesmos. Na ata de uma reunião em 03 de novembro de 1722, lemos:

“O Mestre relatou os trabalhos da Grande Loja e a nomeação do Irmão Anderson para rever as antigas Constituições. Foi o parecer da Loja que o Mestre e os seus Vigilantes compareçam a todo Comitê durante a revisão das Constituições, e que nenhuma alteração possa ser feita no Antigo Estabelecimento.

Este zelo em manter a velha ordem nos permite afirmar positivamente que a Grande Loja de 1717 não criou a Maçonaria, mas simplesmente reorganizou a Fraternidade.

A partir dessas citações e das considerações de práticas operativas iniciais advertidas nos parágrafos de abertura deste artigo, é evidente que o elemento da associação e princípios não operativos estavam na Ordem desde os primeiros tempos; e que uma interpretação conservadora da história maçônica sugeriria que este elemento veio com o tempo, e que, devido a alterações fora e dentro da Ordem, para contrabalançar a influência Operativa, resultando finalmente em uma completa reorganização da Fraternidade. Mas, de acordo com uma visão mais radical, que também precisa ser considerada, este elemento não operativo não poderia, por si só e sem assistência externa, ter jamais se provado suficientemente poderoso para realizar as muitas mudanças que ocorreram no “renascimento” de 1717. Outras influências devem ter operado, como sustenta este ponto de vista, e que de fora da Ordem causaram tais mudanças revolucionárias, como, sem dúvida, ocorreu. Alguns dos argumentos apresentados por aqueles que sustentam essa posição merecem consideração.

Muito pouco se sabe realmente sobre a formação da primeira Grande Loja, mas parece certo que muito atrito foi gerado entre os “antigos membros” e as antigas lojas independentes pelas mudanças radicais que foram feitas pela primeira Grande Loja. Este fato pode significar que inovações no ritual e regulamentos foram feitos e que isso despertou a inimizade dos “irmãos antigos” que temiam inovações; em caso afirmativo, isso mostraria que o novo material foi introduzido de fora, senão não teria havido qualquer insatisfação com a nova ordem das coisas.

VI. O SIMBOLISMO DO TEMPLO

Pode ser possível oferecer o elaborado sistema de simbolismo construído sobre o Templo do Rei Salomão como um caso em questão aqui. O mais antigo manuscrito maçônico não mapeia a Maçonaria até o rei Salomão, mas muito além dele até Nimrod e até Euclides. No Manuscrito Dowland, datado em cerca de 1550, Hiram Abif é mencionado, mas apenas como um nome entre muitos outros. Em 1611, a versão da Bíblia do Rei James apareceu na Inglaterra e despertou um interesse quase universal, em especial pelas narrativas do Antigo Testamento de Salomão e seu Templo.

No final do mesmo século e no início do século seguinte, esse interesse foi tão geral que muitos modelos do Templo foram construídos e expostos em centros populosos, e manuais descrevendo-os receberam circulação geral, algo que deve ter sido particularmente interessante para os maçons antigos, que tinham tradições há muito acalentadas relacionadas com aquele edifício histórico. Quando Anderson preparou a primeira edição de suas Constituições, ele incorporou em uma nota de rodapé uma explicação erudita do nome “Hiram Abif”, uma coisa que ele não teria feito se seus leitores já não estivessem interessados.

A inferência a partir desses fatos, assim sucintamente expostos, é que há muito tempo existia na Ordem um germe de interesse pelo Templo de Salomão; que esse germe se encontrava em um ambiente favorável para o desenvolvimento quando o interesse na matéria tornou-se popular, e que este desenvolvimento encontrou um lugar no Ritual no início do século XVIII sob a forma agora três vezes familiar. Se esta leitura da matéria é procedente, segue-se que o simbolismo do Templo é um caso de desenvolvimento dentro da Ordem, devido a condições externas.

Aqueles que sustentam a visão de que o “renascimento” em 1717 deveu-se principalmente à influência de fontes externas apontam para o cabalismo, Templarismo, Rosacrucianismo, Hermetismo, etc., (a consideração de todos exigiria muito espaço), mas, mesmo assim, outra influência “de fora” pode ser chamada agora, porque ela não recebeu tanta atenção quanto parece merecer. Refiro-me ao clube Inglês, que era tão poderoso como influência social na vida Inglesa do século XVIII. Quase todo homem, rico ou pobre, pertencia a um; havia clubes de beber, clubes musicais, clubes literários, clubes de homens gordos, clubes de Antigos colegas, clubes chineses, clubes para os homens com narizes grandes, e para os pequenos, e todas as outras formas imagináveis de organização para fins de sociabilidade.

Em uma época em que os jornais diários não existiam e os livros eram escassos, estes clubes eram centros de fofocas e informações gerais, bem como sociedades para a propagação de diferentes “causas”, todas elas embalsamadas para sempre nos ensaios de Addison, Steele, Goldsmith e os outros imortais da época. Será que as primeiras lojas de maçons especulativos surgiram em resposta a esta necessidade de clubes? A questão exige ventilação mais profunda do que tem recebido, porque há algo a ser dito sobre ela. Gould, recorde-se, atribuída a adesão de Desaguliers à Ordem ao seu desejo pela vida de clube, e o irmão Arthur Heiron mostrou quão poderosa era a influência do clube na Maçonaria do século XVIII, em seu excelente livro Maçonaria Antiga e a Antiga Loja Dundee.

De minha parte, não acredito na “teoria do clube” como origem da Maçonaria especulativa, mas a questão é oferecida aqui como um exemplo dessas teorias que olham para as influências externas como explicação para a transformação da Maçonaria Operativa em Especulativa, e como uma sugestão aos estudantes que eles investiguem um campo fascinante.

Como conclusão, pode-se dizer que até que se saiba mais sobre o período de transição, será necessário para cada leitor maçônico sentir o seu caminho através da escuridão, tão bem como puder, mantendo seu julgamento sobre muitas questões em suspenso, pois, como pouco ainda se sabe realmente, e que muitas vezes é bastante conflitante. No entanto e não obstante pareça alguns de nós que o que sabemos mostra uma continuidade ininterrupta entre as antigas lojas maçônicas operativas e a Instituição que as substituiu em 1717, e que em uma maneira geral, as práticas e princípios dos maçons medievais continuaram na Maçonaria Especulativa. Ainda temos Aprendizes, Companheiros e Mestres; ainda nos reunimos em lojas como antigamente, sob o governo de Mestres e Vigilantes; observamos o sigilo, e usamos cerimônias de iniciação dividida em classes ou graus; mantendo tudo junto, como uma estrutura sólida, está o uso emblemático e simbólico dos instrumentos e práticas da construção, e no centro de tudo está o edifício mais famoso da história e o mais famoso construtor sob tais circunstâncias de drama e mistério que ajudam cada maçom a melhor compreender a si mesmo e o mundo, os segredos da vida e Deus, que é a verdadeira vida.

Autor: H.L. Haywood
Tradução: José Filardo

LIVROS CONSULTADOS NA PREPARAÇÃO DESTE ARTIGO

Ars Quatuor Coronatorum, Author’s Lodge Transactions, I, II, III. ; Constitutions of the Freemasons, Anderson. ; A Short Masonic History, Armitage. ; Natural History of Wiltshire, Aubrey. ; Grand Lodge of England, Calvert. ; Mackey’s Revised History of Freemasonry, Clegg. ; Hole Craft and Fellowship of Masons, Conder. ; Evolution of Freemasonry, Darrah. ; Ahiman Rezon, Dermott. ; Club Makers and Club Members, Escott. ; History of Masonry, Findel. ; Concise History of Freemasonry, Gould. ; History of Freemasonry, Gould. ; Ancient Freemasonry and the Old Dundee Lodge, Heiron. ; Acadamie Armory, Holme. ; Masonic Sketches and Reprints, Hughan. ; Spirit of Masonry, Hutchinson.; Medieval Architecture, Kingsley. ; History of the Lodge of Edinburgh, Lyon. ; Guild Masonry in the Making, Merz.; History of Lodge Aberdeen, Miller. ; The Builders, Newton. ; Essay on the Usages and Customs of Symbolical Masonry in the 18th Century, Oliver. ; Preston’s Masonry, Oliver. ; Tradition, Origin and Early History of Freemasonry, Pierson. Natural History of Staffordshire, Plot. ; Illustrations of Masonry, Preston. ; Freemasonry Before Existence of Grand Lodges, Vibert. ; Story of the Craft, Vibert. ; New Encyclopedia of Freemasonry, Waite. ; Freemasonry and the Ancient Gods, Ward.

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

ENCICLOPÉDIA DE MACKEY (Edição Revista): Accepted, 10; Anderson, 57; Antiquity of Freemasonry, 66; Apprentice, Entered, 70; Ashmole, 81; Constitutions, 175; Cromwell, 186; Degrees, 203; Desaguliers, 207; Dunckerley, 223; Edwin, 230; Fellow Craft, 261; Free and Accepted, 281; Freemason, 282; Freemasonry, Early British, 283; Geometry, 295; Gilds, 296; Hermetic Art, 323; Innovations, 353; Kabbala, 375; Kilwinning, 381; Legend, 433; Lodge, 449; Mason, 471; Master Mason 474; Operative Art, 532; Points of Fellowship, 572; Progressive Masonry, 591; Scotland, 671; Speculative Masonry, 704; Stone-Masons, 718; Symbolic Degrees, 752; Wren, 859; York 866.

 

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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