A Herança Grega na Maçonaria – 3ª Parte

 

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A Contribuição grega na Maçonaria: as Ordens Arquitetônicas e as colunas Dórica, Jônica e Coríntia; a Mitologia; os Gregos e a Astrologia; a Estrela Pentagonal

Para a faísca inicial, é bom já considerarmos as informações que vem na sequência, com as quais o Irmão Kennyo Ismail inaugura o artigo de sua autoria “As Ordens Arquitetônicas”:

“Muitos ritos fazem explícita referência às ordens arquitetônicas que compõem a arquitetura clássica, e que foram desenvolvidas pelos gregos e os romanos. São cinco ordens, sendo três de origem grega e duas de origem romana. As ordens de origem grega são as mais antigas e originais, sendo que as duas ordens romanas são apenas derivações delas. Como todo bom ‘construtor’, o maçom deve saber distingui-las, relacioná-las com o Templo e conhecer seus significados.”

As Ordens Arquitetônicas

O que é uma Ordem Arquitetônica?

De acordo com A. Jardé, em sua obra muito conceituada intitulada “A Grécia Antiga e a Vida Grega”, Ordem é uma combinação específica de três elementos arquitetônicos: base, coluna e entablamento.

Vejamos um pouco mais daquilo que ele escreveu sobre o assunto:

“AS ORDENS – Os monumentos se diferenciam pela disposição e proporções dos diversos elementos arquitetônicos, que compõe a colunata: é a isso que se dá o nome de Ordem. Distinguem-se duas ordens: a Ordem Dórica e a Ordem Jônica. A chamada Ordem Coríntia é uma variante da Ordem Jônica, de que diverge pelo emprego de um capitel decorado com folhas de acanto.

A ordem dórica, por assim dizer, é a reprodução em pedra da antiga construção de madeira. A coluna repousa diretamente sobre os degraus do envasamento. O capitel compõe-se de duas partes, do Equino ou Coxim, uma espécie de almofada ovalada (echinos) e do Ábaco ou Talho (ábax), uma simples laje quadrada ou retangular. Sobre os capitéis assenta-se a viga mestra ou Arquitrave. Mais acima, o friso apresenta uma sucessão de Tríglifos (tríglyphoi), que correspondem aos pontos extremos das vigas, e de Métopas, geralmente esculpidas.

Na ordem jônica, a base da coluna é torneada. O capitel caracteriza-se pelas espirais ou Volutas. A Arquitrave, em lugar de ser monolítica, divide-se em três bandas (fasces). O friso é contínuo e quase sempre decorado com esculturas.

A ordem dórica é mais pesada e mais severa, a ordem jônica é mais esbelta e mais elegante. Os gregos comparavam a primeira com a beleza masculina e a segunda com a beleza feminina.”

A Maçonaria e as Ordens Arquitetônicas

Para enlaçarmos os temas, Maçonaria e Arquitetura, agora no começo, ainda que, um tanto mais extensa que as habituais transcrições que faço, o verbete constante no Vade-Mécum Maçônico do irmão João Ivo Girardi, com o título de “ARQUITETÔNICAS, ORDENS”, possui um texto condensado que reúne informações valiosas, do tipo onde nada é descartável.

Antes, porém, retirei do trabalho intitulado “As Cinco Colunas de Arquitetura”, publicado há muitos anos na revista “O Prumo”, de autoria do Irmão Vanio de Oliveira Matos, esse parágrafo: “Uma Ordem de Arquitetura é o Sistema de todos os Ornamentos e proporções de Colunas e Pilares, ou um arranjo particular das partes projetadas de uma construção, especialmente aquela de uma coluna que forma a beleza perfeita e completa de um todo (William Preston, 1781).”

Agora o excerto que foi retirado do Vade-Mécum Maçônico:

ARQUITETÔNICAS, ORDENS:

1. Arquitetos e artistas primitivos reproduziram em seus trabalhos os conhecimentos adquiridos, transmitindo-os através de um sistema simbólico. Exatamente por não existir na antiguidade, uma linguagem escrita ou uma forma de expressão que permitisse transportar idéias abstratas. Esse simbolismo, unido aos primitivos sistemas religiosos, veio a ser uma linguagem sagrada de grande significado secreto.

Em Maçonaria, escreve o Irmão Adolfo T. Benitez: ‘todas as instruções e seus mistérios são comunicadas em forma de Símbolos fundados em uma ciência especulativa e uma arte prática; tornando-se as ferramentas da profissão, espiritualizando-se os termos de arquitetura, foram eles relacionados com a Virtude e com a história e adotados como símbolos.

Em Arquitetura, Ordem, é a forma e a disposição das partes salientes dos Pilares e do Entablado. Por sua vez, cada uma dessas duas partes de uma construção divide-se em três. É fácil, pois compreender o porquê da inclusão de tal Símbolo nas instruções do 1º Grau Maçônico. Assim, ao passo que a Coluna (pilar) compreende a base, o fuste e o capitel, o entablamento, é o conjunto da arquitrave, do friso e da cornija. Os dois processos de construção são distinguidos por estas duas partes.

No início, a ideia da Coluna Dórica, veio do Egito, ao passo que a Coluna Jônica é originária da Assíria. Os gregos, entretanto, as remodelaram de tal maneira, que são eles hoje considerados como inventores. As Colunas Toscana e Compósita são de origem romana. A primeira, tão singela quanto Dórica, é caracterizada pela ausência de qualquer ornato; o fuste é cilíndrico e liso e o capitel parecido com o Dórico. A Compósita é uma mistura dos ornamentos da Jônica e da Coríntia, ou seja, tem no seu capitel as volutas da Ordem Jônica e as folhas de acanto da Ordem Coríntia.

2. As Cinco Ordens de Arquitetura aparecem no Painel de Companheiro com relativo destaque. Seu aparecimento na Ordem Maçônica é datado de 1738, no frontispício da capa da 2ª edição da Constituição de Anderson. Depois desse aparecimento triunfal, elas ressurgem na década de 1770, quando o Irmão William Preston (o primeiro professor de Maçonaria) passa a ensinar seu Simbolismo na Maçonaria. Era comum, por essa época, o ensino da Arquitetura nas reuniões das Lojas. Aqueles que viajavam sempre traziam dados novos que, durante as Sessões, repassavam aos Irmãos. O primeiro registro está num Catecismo de um Manuscrito – A Masons Examination -, que apareceu em 1723. Ali aparece pela primeira vez a referência sobre as Cinco Ordens.

3. O Irmão William Preston em seu livro ‘Lecture’ sobre as cinco Ordens de Arquitetura conclui desta maneira ’As antigas Ordens de Arquitetura reverenciadas pelos maçons, não são mais que Três, a Dórica, a Jônica e a Coríntia.’ A Coluna Dórica é curta e maciça; ela evoca a ideia de força e grandeza; sua altura é igual a oito vezes o diâmetro de sua base; seu contorno é cavado de vinte caneluras formando arestas vivas; seu capitel, pouco elevado, mostra uma seção retangular. Seu nome, de acordo com Vitrúvio, viria de Dorus, filho de Heleno, rei da Acaia e do Peloponeso. Representada na Loja pelo 1º Vigilante. A Coluna Jônica é a mais esbelta e graciosa: sua altura é igual a nove vezes o diâmetro de usa base; ela tem vinte e quatro caneluras separadas por um filete e não por uma aresta vivia; seu capitel é caracterizado por um duplo enrolamento em espiral chamado voluta. De acordo com Vitrúvio, ela viria dos jônios da Ásia e do templo de Éfeso. Representada na Loja pelo Venerável Mestre. A Coluna Coríntia é a mais bonita; sua altura é igual a dez vezes o diâmetro de sua base; seu fuste (tronco) é liso e canelado; seu capitel é uma corbelha de folhas de acanto (planta espinhosa, originária da Grécia e da Itália). De acordo com Vitrúvio, seria devida ao escultor Calímaco, de Corinto. Representada na Loja pelo 2º Vigilante. Costuma-se considerar a Coluna Dórica como símbolo do Homem, enquanto a Coluna Jônica simboliza a Mulher. Às três Ordens de Arquitetura acima definidas, acrescentam-se às vezes a ordem Compósita, ou Romana, e a ordem Toscana. Essas ordens são ‘’modernas e participam das outras três; não devem ser levadas em conta no simbolismo maçônico.

4. (…) ‘a essas Colunas foram dadas três ordens de Arquitetura: a Jônica, para representar a Sabedoria; a Dórica, significando a Força; e a Coríntia, simbolizando a Beleza.’”

As Colunetas

Vejamos o que o Irmão Kennyo Ismail escreveu sobre as colunetas, na sua obra Desmistificando a Maçonaria, da qual já nos utilizamos com um pequeno trecho logo acima:

“Sem entrar no mérito do uso das colunetas no REEA em algumas obediências brasileiras, o que, ao que tudo indica, também surgiram no Brasil apenas após 1927, provavelmente copiadas dos rituais ingleses, compreendamos o uso destas nos trabalhos em Loja: a coluneta Jônica (‘sabedoria’) fica sempre de pé, mostrando que a sabedoria deve reinar sempre, 24 horas por dia, seja no trabalho, seja no descanso. Já, as colunetas Dórica e Coríntia se revezam: a Dórica (‘força’) é erguida durante os trabalhos (do meio-dia à meia-noite), quando a força é necessária para a execução dos trabalhos; enquanto a Coríntia (‘beleza’) está levantada durante o descanso, considerado antes da Loja devidamente aberta e aos ser devidamente fechada (da meia-noite ao meio-dia).”

Comentários

Com certeza, existem outras informações e explicações sobre o uso das colunetas: no Vade-Mécum, por exemplo, é comentado sobre o fato de que antigamente não existia a função de 2º Vigilante. Logo que surgiu o mesmo, a regra que passou a prevalecer foi a de que o Irmão 1º Vigilante seria o responsável pela Loja durante os trabalhos, e o Irmão 2º Vigilante o responsável durante o período das recreações. É mencionado também, que é essa a divisão pela qual é lembrada na posição alternada das colunas, no Rito de York.

O Irmão Theobaldo Varoli Filho apresenta uma analogia e interpretação, que confesso, ainda não havia visto. Temos que nos acostumar com a ideia de que em Maçonaria, há inúmeras interpretações quando o assunto envolve Simbolismo, e acho que analogias muito mais..

Vejamos a parte em que ele trata das Ordens Arquitetônicas, e as suas explicações:

“… três luzes governam uma loja. Esse governo pousa sobre três colunas gregas: a coluna jônica, da sabedoria e do Venerável Mestre; a coluna dórica, da força (potência), do 1º Vigilante; a coluna coríntia, da beleza, do 2º Vigilante. Conforme o rito, as duas últimas podem ficar em posições diferentes, mas nunca no Oriente. Isso não importa, eis que o que se encarece é o significado histórico e filosófico das três colunas. Elas representam tudo quanto estudamos até aqui. A sabedoria jônica venceu a força espartana (dórica) e, quando ato e potência se equilibraram, surgiu a beleza, que se completou, mais tarde, e já na época helenística, ensejando a perfeição da coluna coríntia e completando o ternário, o qual, por sua vez, viria a repercutir em toda a história da humanidade. É costume colocar essas colunas sobre o ‘altar’ (mesa) das três luzes (Venerável e Vigilantes), cada qual com a sua coluna correspondente. Cumpre observar que as colunas dórica e coríntia, nada tem que ver com as colunas ‘J’ e ‘B’.”

Nociones de Arquitectura y  Masonería: sobre a simbología, sobre los estilos y sobre los princípios

Já havia começado o trabalho que o leitor tem em mãos quando tomei conhecimento de que estava em curso uma “Feria Del Libro” na cidade de Rivera, Uruguai (para quem não tem conhecimento, a cidade onde moro, Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul, Brasil, faz fronteira com a cidade de Rivera, capital do Departamento de Rivera, República Oriental do Uruguay. Resumindo: são meus vizinhos). E fui até lá, por dois motivos principais: aprecio os livros editados na Argentina e na Espanha, e amo a língua espanhola.

Pois, acabei encontrando e comprando o livro “Arte Y Masonería”, entre outros, claro, da autoria do estudioso argentino Pablo Mateo Tesija, conferencista e diretor da revista maçônica “Símbolo”, editada em Buenos Aires, que traz entre outros assuntos o simbolismo relativo às ordens arquitetônicas, justo sobre o que estamos tratando, e que me fez entender melhor as considerações do Irmão Theobaldo Varoli Filho, e que se coadunam com elas. Dessa obra, extraio então, um trecho que julguei “brillante” em suas explicações:

“Con respecto a los tres primeros (dórico, jónico y corintio), se estudiará su relación con las divinidades griegas. Heracles o Hércules, en el primer caso; Palas Atenea o Minerva, para el segundo y Afrodita o Venus, para el tercero.

El dórico representará simbólicamente la fuerza, la solidez de una construcción desprovista quizás de adornos y detalles esteticistas pero que, pese a ello, cumple a la perfección con su cometido. El jónico rememorará la sabiduría, con el perfecto equilibrio entre utilidad e estética, representando un avance hacia otro tipo de preocupaciones. Es decir, ya dominados los princípios básicos del arte real, la mirada se vuelve al equilíbrio entre funcionalid y estética; la primera sola parece insuficiente, recibiendo el aspecto decorativo su lugar en la obra. Por último, el coríntio será el paradigma de la belleza profana, cobrando una importancia casi exluyente la decoración de la columna. De la combinación de estos tres princípios el masón logrará una obra ‘bella’, entendiendo por ella una obra ‘verdadera’

Cada uno de estos tres estilos arquitectónicos que hemos tomado como ejemplo tendrá su contrapartida ética en el plano simbólico.El dórico representará la fuerza de carácter necesaria para lograr el objetivo propuesto; el jónico, la sabiduría que debe servirnos de guia constante y el coríntio el amor que debemos poner en la empresa abordada. Estos tres elementos serán, también desde el punto de vista del arte sacro como del masónico, sinônimo de ‘belleza o verdad’ en la construcción tanto personal como social. La simbología de ellos puede ser completada de acuerdo a los distintos puntos de vista, obediencias, ritos y grados en que se trate, aunque el sustrato último será el mismo.”

Comentários

Sem dúvida, a última frase resume praticamente tudo: “a simbologia deles pode ser completada, conforme os diferentes pontos de vista, obediências, ritos e graus em que se trate, mas, a essência última será a mesma.”

E para finalizar o assunto “Ordens Arquitetônicas“, gravemos fundamentalmente que os estilos arquitetônicos clássicos, o dórico, o jônico e o coríntio, são utilizados em vários dos Graus maçônicos, e valem por seus aspectos quais sejam: o estilístico, o histórico, o mitológico e o simbólico.

A Mitologia

O que é Mitologia?

Com base em um dicionário comum, a Mitologia em sua definição mais simples é posta assim:

“MITOLOGIA. (gr.muthologia, as) 1. Conjunto de mitos de uma determinada cultura. 2. Coletânea dos mitos dos antigos romanos e gregos. 3. Estudo sistemático dos mitos.”

Um conjunto de mitos, ou uma coletânea dos mitos e o estudo dos mitos. Então vejamos a definição do que é mito.

O que é Mito?

“(lat.mythus, i) 1. Narrativa de ordem remota e significação simbólica, sobre as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana, cujos personagens são deuses, seres sobrenaturais etc. 2. Construção da mente que não se baseia na realidade; fantasia. 3. Afirmação falsa, divulgada com intuitos difamatórios, propagandísticos, etc.; fábula. 4. Fig. Representação mental de fatos ou personagens reais de forma idealizada e tomada como modelo estereótipo.”

Mitologia Grega: uma introdução

Dizer que a Mitologia é um assunto extremamente fascinante já virou lugar-comum. De qualquer forma, para conhecer a fundo as civilizações antigas, o estudo da mitologia é fundamental. No caso da Grécia, ou da civilização grega, não conseguimos imaginar qualquer estudo sobre a mesma, deixando de fora sua mitologia, ou no mínimo, algum aspecto que guarde relação com ela. A história da Grécia parece estar todo tempo entrelaçada com a sua mitologia.

Pierre Grimal, estudioso consagrado no terreno da mitologia, em seu livro “Mitologia Grega”, já considerado um clássico, entre tantas coisas interessantes, escreveu:

“Dá-se o nome de mitologia grega ao conjunto de relatos fantásticos e lendas cujos textos e monumentos representativos nos mostram que estavam em voga nos países de língua grega entre os séculos IX ou VIII antes de nossa era, época a que se reportam os poemas homéricos, e o fim do paganismo, três ou quatro séculos depois de Jesus Cristo. É uma matéria enorme, de definição bastante complicada, de origens e características muito diversas e que desempenhou e desempenha ainda um papel considerável na história espiritual do mundo.

Todos os povos, em um determinado momento de sua evolução, criaram lendas, ou seja, relatos fabulosos os quais durante certo tempo deram crédito – ao menos em algum grau. No mais das vezes, as lendas, por fazerem intervir forças ou seres tidos como superiores aos humanos, pertencem ao domínio da religião. Elas se apresentam, pois, como um sistema mais ou menos coerente de explicação do mundo, e cada um dos gestos do herói cujas proezas são relatadas é criador e gerador de conseqüências que ressoam pelo universo inteiro. (…) Esta é talvez a característica mais interessante do mito grego: a constatação de que ele se integrou a todas as atividades do espírito. Não existe nenhum domínio do helenismo, tanto na plástica quanto na literatura, que não tenha constantemente recorrido a ele. Para um grego, o mito não conhece fronteiras. Ele se insinua em toda parte. É tão essencial para o seu pensamento quanto o ar ou o sol o são a sua própria vida.”

Comentários

Heróis, deuses e semideuses estão entre aqueles personagens que povoam a mitologia da Grécia. Muitos foram os narradores dessas histórias. Outros as recontaram, as reinventaram milhares de vezes. Filósofos, poetas, pensadores, escritores, todos ele beberam uma ou outra vez dessas fontes. A Maçonaria também bebeu do misticismo e da mitologia da antiga Grécia.

A Mitologia grega tem sua importância reconhecida no universo da Maçonaria, fundamentalmente no uso das expressões simbólicas. O misticismo que está entranhado na doutrina da Maçonaria, e que sobressai no Simbolismo e na Ritualística, tem suas raízes lá no misticismo religioso da antiga Grécia, como pudemos deixar já evidenciado por ocasião da temática apresentada nos trabalhos precedentes e que versaram sobre os Mistérios Gregos. Com certeza, há uma infinidade de deuses: deuses do céu, da terra, da fertilidade, dos animais, subterrâneos, ancestrais ou heróis e olímpicos. Veremos apenas alguns deles, em sua relação ou representação que adquirem na Arte Real.

Antes, porém, gostaria de transcrever um pequeno trecho que consta no “Dicionário Maçônico” de autoria do Irmão Rizzardo da Camino, que trará um pouco de discernimento para todos nós:

“A Mitologia é rica quanto à imaginação dos que a estabeleceram; foram os sábios da Antiguidade que assim provaram para manter disciplinados os povos. O culto aos deuses foi um exercício primitivo em distinção ao culto à Divindade monoteísta. Com a fixação do Cristianismo, a Mitologia foi posta de lado e hoje serve apenas como expressão simbólica.”

Mitologia Grega e Maçonaria

O Irmão Nicola Aslan escreveu que a Mitologia significa propriamente a história fabulosa dos deuses, dos semideuses e heróis. Também, que a denominação Mitologia assume uma dimensão maior, quando é estendida à história das religiões antigas, ao detalhamento dos cerimoniais que faziam parte das mesmas, dos seus mistérios e dos seus mitos. Aslan traduz um trecho referente ao verbete Mitologia da “Encyclopaedia” de Mackey que diz:

“É literalmente a ciência dos mitos, definição muito apropriada, pois a mitologia é a ciência que trata da religião dos antigos pagãos, que foi quase completamente fundada em mitos ou tradições populares e contos lendários; e assim Keightly (Mythol. Of. Anc. Greece and Italy)diz que ’a mitologia deve ser vista como o repositório da primitiva religião do povo’.

O seu interesse para um estudioso Maçom, procede do constante antagonismo existente entre as suas doutrinas e as dos Mistérios primitivos da antiguidade, e a luz que os mistérios mitológicos trouxeram para a antiga organização da Maçonaria Especulativa.”

A fim de entender a relação Mitologia-Maçonaria, novamente socorramo-nos do Vade-Mécum Maçônico, onde no verbete MITOLOGIA, além de uma breve explanação sobre o uso das estátuas, são disponibilizadas também informações sobre o simbolismo contido nos cargos em Loja em sua relação com os deuses da mitologia grega:

MITOLOGIA:

  • Conjunto de mitos sobre a origem histórica de um povo; a história lendária de deuses e semideuses da antiguidade.
  • Conjunto de lendas e crenças que, por princípios simbólicos, fornecem explicações para a realidade universal.
  • A mitologia greco-romana exerce grande influência na arte, principalmente na literatura e no teatro durante a Antiguidade e o Renascimento.
  • O fato de a maçonaria admitir as estátuas dos deuses Minerva, Hércules e Vênus não significa idolatria; esses deuses e suas estátuas são apenas símbolos – de Sabedoria, Força e Beleza, que é a trilogia maçônica por excelência. Essas estátuas não são veneradas, apenas justificam que a Maçonaria é também mitológica, especialmente quanto aos graus filosóficos.
  • Os Cargos em Loja representam e possuem o apanágio de vários deuses do Olimpo e de semideuses do panteão grego. Assim tem-se:

Venerável – seria a representação de Zeus (Júpiter para os romanos), por sua condição de dirigente máximo da loja, já que Zeus era o principal dos deuses, soberano do mundo, que reinava no monte Olimpo, a mais alta montanha da Grécia; controlando as ações humanas e as dos demais deuses, era o protetor de toda a Grécia, embora cada cidade tivesse ainda, o seu protetor especial. Mas, o Venerável pode, também, ser simbolizado pela deusa Atená, ou Palas Atená (Minerva), nascida da própria cabeça de Zeus e que era a deusa da inteligência, da sabedoria e da paz, já que o Venerável Mestre deve ter essas qualidades para poder bem dirigir ao seus Irmãos.

1º Vigilante: – representa Ares (Marte), deus da agricultura e da guerra, além do símbolo da força, já que esta é a característica deste cargo, que também é relacionado com Héracles (Hércules), filho de Zeus e da princesa Alcmena, considerado o maior de todos os heróis gregos e que era poderosamente forte, o mais vigoroso de todos os homens.

2º Vigilante – Simboliza Afrodite (Vênus), filha de Zeus e que era a deusa do amor e da beleza; o 2º Vigilante dirige a Coluna da Beleza, enquanto que o 1º Vigilante dirige a Coluna da Força e, o Venerável a simbólica Coluna da Sabedoria. É por isso que muitos Ritos possuem, em seu Ritual, o acendimento de velas que representa esse três atributos.

Orador – é a representação de Apolo, ou Febo (mesmo nome para os romanos), filho de Zeus e deus do Sol, criador da poesia e da música, do canto e da lira, da profecia e das artes; o Orador responsável pela guarda da lei e das peças de oratória representa a Luz, simbolizada por Apolo.

Secretário – Corresponde a Ártemis (Diana), filha de Zeus e de Hera e que era a divindade protetora das florestas, da caça e das flores, além de ser também, a deusa da Lua, que o Secretário simboliza ao refletir o que vem do Sol (Orador).

Mestre de Cerimônias – corresponde a Hermes (Mercúrio), filho de Zeus e que era o mensageiro dos deuses, além de deus protetor dos pastores, dos comerciantes, dos viajantes e dos oradores; é o símbolo do Mestre de Cerimônias, já que esse Oficial, em sua circulação, é o mensageiro das Dignidades da Oficina.”

Ainda, com o intuito de fornecer maiores detalhes (consta no Vade-Mécum que somente o Rito Brasileiro prevê a sua obrigatoriedade, e ainda que a representação dessas figuras mitológicas pode ser feita também na forma de pinturas) sobre o uso das estátuas, o Irmão Kennyo Ismail, também se deteve sobre o assunto, e à pág. 36 da sua obra já citada, dispõem sobre elas fazendo o seu comentário, o qual reproduzo na sequência:

“Vale ressaltar que alguns templos no Brasil costumam ser ornamentados com pequenas estátuas de três deuses gregos, ilustrando de forma ainda mais evidente tais simbologias:

  • Atena: deusa da Sabedoria, colocada próxima ao trono do Venerável Mestre, geralmente usando um chapéu (que denota sabedoria, por isso também usado pelo Venerável Mestre);
  • Héracles: mais conhecido pelo nome romano Hércules, semi-deus da Força. Colocado próximo à posição do Primeiro Vigilante, costuma ser apresentado com um porrete na mão;
  • Afrodite: deusa da beleza, colocada próxima à posição do Segundo Vigilante, comumente representada por uma pequena réplica da famosa estátua Vênus de Milo.”

Das Colunas Zodiacais e da Astrologia

Sabemos que as Colunas Zodiacais guardam significados profundos e que abarcam uma relação com todos os graus iniciáticos da Maçonaria. As Colunas Zodiacais, na realidade, são doze meias colunas, seis na parede norte e seis na parede sul, nenhuma ocupando as paredes do Oriente, e elas são da ordem Jônica. Há uma relação mística, onde a consonância com as renovações pelas quais a Natureza passa, e a representação implícita das mortes e das ressurreições. Essas manifestações estão contidas nos ciclos aos quais os vegetais estão sujeitos. Há uma relação ainda com o Sol e os mitos solares, tão comuns em civilizações da antiguidade. Na Maçonaria Simbólica, a presença dos signos zodiacais tem a ver com o caminho místico que o Iniciado irá percorrer, desde o Aprendiz até ao Mestre. Essas influências em nossa doutrina nos remetem para as civilizações antigas, entre elas, os gregos, pois, foi através deles que a Astrologia, como diz no “Vade-Mécum Maçônico”: “atingiu a sua maioridade, com a racionalização e a determinação da função dos planetas, casas e signos.

Para reforçar tal importância e considerando o “leit-motiv” do trabalho em curso, ou seja, as influências que a Maçonaria recebeu da Grécia antiga, vejamos o que escreveu o Irmão José Castellani em seu livro “Origens Históricas e Místicas do Templo Maçônico”:

“A ASTROLOGIA, embora, como já se viu, não possa ser creditada a apenas uma civilização, sendo muito mais medieval, adquiriu entre os gregos, os seus aspectos fundamentais e mais duradouros; a partir do século III a. C., os gregos empenharam-se em transformar a astrologia babilônica de acordo com suas próprias tradições, tornando-a cada vez mais complexa. Eles foram os responsáveis pela popularização de um sistema, que, anteriormente, só era acessível aos reis: o método de calcular destinos individuais, baseado no momento do nascimento. O primeiro livro astrológico moderno e menos empírico do que os anteriores a ele, o Tetrabiblos, tem sua autoria atribuída ao matemático, astrônomo e geógrafo Ptolomeu, nascido em Alexandria e que desenvolveu seu trabalho no século II da era atual, estabelecendo os princípios da influência cósmica, que constituem o cerne da moderna astrologia. Sob a influência da cultura grega, os planetas, as casas e os signos do Zodíaco foram racionalizados, tendo determinada a sua função, de tal maneira que, até hoje, houve muito pouca mudança.”

A Estrela Pentagonal

Não vamos entrar no campo das discussões sobre a Estrela Pentagonal, dos outros nomes que ela possa adquirir, das ligações que alguns estabelecem com as Ciências Ocultas, enfim… O objetivo aqui é mesmo apontar, relacionar, descrever e tecer alguns comentários, quando se fizerem necessários, sobre os símbolos, as doutrinas, as escolas, os elementos diversos que fazem parte da cultura grega e que tem sim, comprovadamente alguma conexão com a Maçonaria. Portanto, até cabe num futuro, elaborar um trabalho sobre as diversas estrelas, com suas descrições, com suas origens históricas, com suas funções e suas devidas representações nos rituais maçônicos.

Por ora, vamos nos ater a sua origem pitagórica, o que significa dizer que está inserida no presente trabalho por seu pertencimento às origens gregas. Vejamos o que nosso Irmão Jose Castellani escreveu sobre a mesma:

“A Estrela de Cinco pontas, ou Pentagrama (cinco letras), ou Pentalfa (cinco princípios), que, a partir dos meados do século XVIII, passou, com o nome de ESTRELA FLAMEJANTE, a fazer parte dos símbolos maçônicos (foi introduzida pelo Barão de Tshoudy, criador do Rito Adoniramita), é de origem pitagórica, representando, na Maçonaria, a mesma coisa que no pitagorismo: como ESTRELA HOMINAL, simboliza o homem, em sua alta espiritualidade. Ela representa, também, em muitos ritos, o planeta Vênus, sendo, por isso, colocada na Coluna do 2º Vigilante (já que ele simboliza a deusa Vênus, como já foi visto) entre o Sol (que está no Oriente) e a Lua (que está no Ocidente), pois se trata de um corpo com luz intermediária. Alguns autores tem associado a Estrela pentagonal maçônica com a estrela de cinco pontas usada no ocultismo, na alquimia e na magia medieval, com significado muito diferente daquele dado pelas escolas pitagóricas; a realidade, porém é que ela é mesmo pitagórica, até pela sua interpretação simbólica.”

Autor: José Ronaldo Viega Alves
Mestre Maçom – ARLS Saldanha Marinho, “A Fraterna”
Fonte: JB News

Consultas Bibliográficas

Revistas:
O PRUMO, nº 94, Já./Fev. de 1994. “As Cinco Colunas de Arquitetura” – Trabalho de autoria do Irmão Vanio de Oliveira Matos.

Livros:
ASLAN, Nicola. “Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia- Volume 3 -Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 3ª Edição – 2012. CASTELLANI, José. “Origens Históricas e Místicas do Templo Maçônico” – Editora “A Gazeta Maçônica” – 1991 DA CAMINO, Rizzardo. “Dicionário Maçônico” Madras Editora Ltda. – 2006 Dicionário Enciclopédico Ilustrado – VEJA LAROUSSE – Volume 15 – Editora Abril S/A – 2006 GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite – Vade-Mécum Maçônico” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. 2ª Edição – 2008 GRIMAL, Pierre. “Mitologia Grega” – L&PM PocketEncyclopaedia – L&PM Editores – 2009 ISMAIL, Kennyo. “Desmistificando a Maçonaria” – Universo dos Livros Editora Ltda. 2012 JARDÉ, A. “A Grécia Antiga e a Vida Grega” – Editora da Universidade de São Paulo – 1977 TESIJA, Pablo Mateo. “Arte y Masonería” – Editorial Kier S.A. – Buenos Aires, Argentina – 2014 VAROLI FILHO, Theobaldo. “Curso de Maçonaria Simbólica” – 1º Tomo (Aprendiz) Editora A Gazeta Maçônica S.A. – 2ª Edição – 1977

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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2 respostas para A Herança Grega na Maçonaria – 3ª Parte

  1. O leitor também poderá estudar mais sobre os temas “misticismo grego e a maçonaria” e “astrologia”, em outro livro de Castellani: “As Origens Históricas da Mística Maçônica”.

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