Platão e o Ritual Maçônico – Introdução

platão

A INFLUÊNCIA DE “A REPÚBLICA” DE PLATÃO SOBRE A MAÇONARIA E O RITUAL MAÇÔNICO

Introdução

Foi em um sábado à tarde, frio e chuvoso, em meados de 2004, que fiz a descoberta de pouca importância, acidental, que me levou a escrever este livro.

Cerca de oito ou nove anos antes, eu havia colocado uma série de livros em caixas acima do teto em nossa casa. Meu plano original tinha sido que isso serviria como uma instalação de armazenagem temporária. Sobre isso, penso que eu deva ter dado à minha esposa Jenny, alguma garantia de que este acordo ia ser exatamente o que a palavra “temporário” realmente sugere. A razão de eu fazer esta observação é que naquela mesma manhã, Jenny  lembrou-me  aquela garantia certa de que ela se lembrava de que eu havia dado a ela tantos anos atrás. Cocei a cabeça e olhei fixamente para ela. Ela enfrentou meu olhar vazio com um olhar determinado. O subtexto mudo de sua expressão confirmou-me além de qualquer sombra de dúvida, que já era hora de começar a trabalhar acima do nosso teto. Em qualquer caso, aquela área precisava ser preparada para alguns dutos de ar condicionado que deveriam ser instalados dentro de algumas semanas.

Como as coisas acabaram acontecendo, limpar o espaço acima do teto foi uma tarefa bem adequada para aquele sábado em especial. Lá fora, uma chuva constante caía e continuou a cair até o início da noite.

Uma vez que o espaço acima do teto havia sido desocupado, eu classifiquei os livros dentro das caixas em três grupos.

De um lado, coloquei os livros que queria manter. De outro – livros que eu queria vender.

O último grupo foi dedicado às doações e marcados para serem doados ao Lions Club local – um clube de serviço ao qual eu tinha pertencido antes de entrar para a Maçonaria.

Quando olho para trás, para aquele sábado em especial, ele não era  realmente muito diferente de tantos outros sábados que eu tinha aproveitado em minha vida. Houve, no entanto, uma coisa que o diferenciou de todos os outros, e isso ocorreu no exato momento em que eu peguei um único livro em particular, que tinha estado anonimamente entre todos os outros. Era um livro que eu havia estudado ao realizar um trabalho escrito sobre a história da educação. Isso foi em 1977, quando eu estava estudando no Murray Park Teachers College em Magill, Sul da Austrália.

A capa do livro mostrava a imagem de um painel de mosaico de vidro de um filósofo grego chamado Platão. O título  do livro era muito simples – A República, e ele tinha sido escrito mais de 2300 anos antes pelo mesmo filósofo grego cuja imagem aparecia na capa. Lembrei-me de que o trabalho escrito que eu tinha feito há tantos anos detalhava como Platão tinha sido a primeira pessoa na sociedade ocidental a elaborar um projeto para um currículo de educação para um homem ou mulher, cujo produto final seria tornar-se um líder ideológico dentro da sociedade grega de seu tempo. Ele se referia à graduação de seu sistema de ensino – um sistema que tinha o título muito distinto de rei-filósofo. Seu aluno atingia esta distinção em estágios progressivos, através da abordagem revolucionária de Platão para a educação.

Platão propôs que a educação formal deveria visar dois aspectos importantes da natureza humana, a fim de que um indivíduo pudesse atingir a excelência. O primeiro aspecto era que a maioria dos sistemas de ensino é concebida (ainda hoje) para alcançar – o desenvolvimento do intelecto de uma pessoa. O segundo aspecto do seu sistema de ensino era muito mais revolucionário. Ele tratava do desenvolvimento do caráter de uma pessoa. Seu governante ideal demonstraria excelência em seu pensamento, ações e tomada de decisão através de um equilíbrio entre seu intelecto (que podemos chamar de pensamento certo) e seu caráter (que era demonstrado através do comportamento certo).

O livro que eu tinha em minha mão tinha sido traduzido para Inglês por Sir Desmond Lee e era uma reedição de 1976 de uma edição original Penguin Classics. Olhando para o livro, eu também notei que suas extremidades superiores estavam manchadas com tinta amarela desbotada, aguada – sem dúvida o resultado de um derrame acidental de realce que tinha ocorrido há muitos anos.

Fiz uma pausa e olhei para fora do vidro da porta deslizante traseira, imerso em reminiscências associadas aos meus tempos de estudante. Lá fora, raios fracos ocasionais de uma luz acobreada carregada de umidade se refletia no gramado, arbustos e árvores de uma forma que era tão típica de uma tarde de meados do inverno em Adelaide.

Voltando ao A República, comecei a folhear com curiosidade nostálgica. Momentos depois, fiquei surpreso ao ler as palavras de uma passagem que eu tinha destacado quase três décadas antes. Foi neste momento específico, que transformei uma tarde de sábado normal entre tantos sábados comuns em algo de maior significado pessoal para mim.

A linha de texto assinalada que prendeu meus olhos estava, sem dúvida, prenhe de significado maçônico. Foi uma coincidência muito curiosa. Eu olhei aleatoriamente para outra página. Também neste caso, havia um trecho de texto assinalado. Da mesma forma, este foi também era muito semelhante a uma outra parte do Ritual maçônico. Eu agora tinha duas coincidências muito curiosas. Respirando fundo, acomodei-me em uma cadeira e comecei a percorrer o texto. A esta altura, qualquer curiosidade sentimental que eu tinha, havia se transformado em concentração.

Muito rapidamente, tornou-se óbvio para mim que muitas dessas passagens tinham relação direta com o ritual com o qual eu tinha me familiarizado desde minha iniciação na noite de segunda-feira 8 de Novembro de 1999.

Devido ao grande número de paralelos, comecei a me perguntar se estas eram apenas coincidências, ou se havia alguma arquitetura proposital, prevista na estrutura do nosso ritual que poderia ter como base a mais importante obra filosófica de Platão? Meu primeiro pensamento foi que havia semelhanças demais para simplesmente descartar o que eu tinha encontrado.

No decorrer da semana seguinte, li o livro – da capa à contracapa – estimulado por uma ânsia de entender por que era que parecia haver tantas correspondências com o ritual Maçônico praticado no sul da Austrália.

Compreendi que havia um problema central que eu tinha que superar. Platão tinha escrito A República em grego, e eu nunca tinha estudado a língua. Eu tinha frequentado a Escola St Paul aqui em Adelaide, que se orgulhava de ter uma estrita tradição de Irmãos Cristãos. Como consequência, cada um dos cinco anos do meu currículo do ensino secundário, tinha uma matéria de latim clássico – e não grego.

Como quase 30 anos haviam se passaram desde a minha última aula de Latim (e sem uso diário) o meu comando da língua tinha, compreensivelmente, se tornado pouco cansado. Apesar disso, uma lembrança permaneceu tão nítida como sempre.  E eu sorrio ao pensar nela, entendendo-se que somente a distância no tempo que me separava dos tempos de estudante que me permitiu o luxo de um sorriso. Foi a lembrança do castigo que esperava qualquer estudante que falhasse em declinar um substantivo ou conjugar um verbo com o floreio de precisão que os Irmãos Cristãos exigiam.

Aqui estava minha principal preocupação – a tradução Penguin era fiel? Sem qualquer conhecimento do grego como eu poderia estar certo?  Porque tanto o idioma quanto os sentimentos em destaque no livro que eu estava segurando eram tão impressionantemente parecido com o ritual maçônico, que eu queria me convencer uma coisa em particular. Eu precisava de garantias de que esses paralelos não eram apenas uma peculiaridade desta tradução particular de Sir Desmond Lee. Mesmo assim – como eu poderia fazer um julgamento considerado neste contexto, dado que o grego era (em todos os sentidos da palavra) estranho para mim?

Foi então que eu decidi que a abordagem mais lógica seria para mim  comparar diferentes traduções modernas de A República.

Eu li a tradução de Robin Waterfield (Republic, Oxford World’s Classics 1993), seguido da tradução de C.D.C. Reeve (República, Hackett, 2004. Se alguma coisa aconteceu foi que essas traduções ampliaram (ao invés de diminuir) qualquer correspondência maçônica existente entre os escritos de Platão e o Ritual maçônico.

Neste ponto, no início de minhas investigações, comparar estas três traduções modernas confirmaram para mim, sem a menor dúvida, que A República de Platão tinha sido uma influência principal no desenvolvimento do moderno Ritual Maçônico.

O que eu não entendia era o motivo.  Supondo que eu estivesse correto – que A República de Platão foi o fundamento do Ritual Emulação, por que ele foi escolhido? Quais foram as influências operando na época em que escolha foi feita, uma escolha natural? Com o tempo, as respostas a todas essas perguntas vieram com facilidade e (felizmente) … grande clareza.

Significativamente, por meio desse processo, eu também tinha me satisfeito que a tradução de Lee não tinham sido singular em sua expressão de linguagem maçônica, princípios e sentimentos. Eu, então, comecei a ler outros diálogos de Platão. Quanto mais eu lia, mais convencido ficava de que o nosso Ritual Maçônico foi criado (sem qualquer dúvida ou qualificação) com base em princípios muito específicos da filosofia platônica.

Então, pensei sobre a rota que eu precisaria tomar para chegar a uma conclusão lógica, bem considerada quanto ao motivo por que os escritos de Platão tornaram-se bordados no tecido do moderno Ritual maçônico.

A abordagem que eu devia tomar foi longe de ser auto evidente para mim no começo. Ela se desenvolveu naturalmente e no seu próprio ritmo com o tempo. Minhas investigações conduziram-me por distintos vetores da investigação histórica.

O primeiro foi compreender a vida e os tempos em que Platão viveu.

A segunda via foi entender o que estava ocorrendo na Escócia e na Inglaterra nos anos que antecederam 1717, quando a Maçonaria foi revitalizada sob a égide da Grande Loja da Inglaterra até o ano de 1823 e depois. O que eu descobri foi que a Europa, a partir de meados dos anos 1700 (e mais particularmente a Inglaterra e a Alemanha), foi varrida por uma alavanca cultural que hoje é reconhecido pelo termo “filohelenismo”. O termo significa “amor por todas as coisas gregas”.

Em 1816, um ritual maçônico conhecido pelo nome de Emulação foi aprovado para uso, após décadas de controvérsias quanto ao correto e adequada ritual maçônico que deveria ser usado.

O ritual que usamos no sul da Austrália e Território do Norte é (apenas com variações pouco importantes), Emulação. O ponto crucial disso – os autores do Emulação – (escrito no início do século XIX), tinham decidido, por razões próprias tecer a tela do conceito de Platão de um rei-filósofo no corpo deste Ritual.

Quando eu completei minhas investigações, eu era capaz de articular um modelo significativo, estruturado e coeso de Maçonaria. Era um que era vibrante; ele era enérgico. Mais do que tudo, era algo que fosse fácil de entender e aplicar.  Sua aplicação podia ser demonstrada em uma loja, mas de significado ainda maior – ele poderia ser demonstrado nos aspectos do dia-a-dia de nossas próprias vidas.

Mais importante ainda, o caminho através da Maçonaria, não era mais uma macega de sistemas discordantes díspares de símbolos, imagens e referências.

Aqui está o cerne do argumento que proponho neste livro:

Como maçom, quando você ou eu estamos presentes na Abertura ou Fechamento da Loja, sempre que você ou eu participamos de Iniciação, Elevação ou Exaltação de um irmão, então as palavras e os sentimentos que ouvimos (ou entregamos) ressoam com as palavras e sentimentos escritos por um filósofo grego chamado Platão – quase 400 anos antes da era cristã.

Existe um passo a mais – os símbolos e alegorias de nossos rituais estão impregnados de história e mitologia grega. Uma vez que entendamos os mitos específicos a que nossos símbolos e alegorias se referem, mais rico em significado nosso ritual se torna para nós.

Semanalmente, em conjunto com os Grandes Oradores de nossa jurisdição, realizo, em toda a rede de lojas maçônicas metropolitanas do sul da Austrália e lojas do interior, estas apresentações – abordando todos os aspectos da história e filosofia maçônicas que procuro expressar (tanto quanto possível) em linguagem cotidiana.

Com a base de filiação na Maçonaria em toda a Austrália mostrando uma tendência ascendente satisfatória, é importante ser capaz de continuar a expressar o que a Maçonaria é, assim como o que ela representa, a cada irmão em uma linguagem que seja inclusiva e não exclusiva.

Estou também consciente de que esta é uma oportunidade para compartilhar nosso patrimônio e os valores maçônicos com os leitores na comunidade em geral – uma direção que está sendo impulsionada energicamente no Sul da Austrália, e destacada no corpo do Discurso Inaugural de Graham Bollenhagen em sua Instalação em abril de 2006 como Venerabilíssimo Grão-Mestre do sul da Austrália e Território do Norte:

Embora seja óbvio, certamente, nesta sociedade moderna, que tem havido uma tendência de foco em vender, parece haver um renascimento da compreensão de um propósito maior de vida, e alguns começam a buscar outros aspectos em suas vidas. Para a Maçonaria, precisamos de garantir que possamos ajudar nesta busca, proporcionando o conhecimento dos nossos ideais, mas é claro, como podemos apresentá-lo à outras pessoas, se nosso entendimento pessoal de tal conhecimento é formulada em termos e numa língua que não é facilmente compreendida pelos outros.

Permitam-me agora dar-lhe um retrato breve de algumas das questões discutidas neste livro:

Algumas coisas que você vai encontrar discutidas neste livro …

Platão foi o primeiro na tradição filosófica ocidental a propor as Virtudes Cardeais e as Artes Liberais e Ciências, como meio para se tornar um rei-filósofo. No Ritual da Maçonaria somos instruídos nas Virtudes Cardeais e nas Artes Liberais e Ciências como os caminhos pelos quais podemos atingir à Cadeira do Rei Salomão. Existe uma conexão entre a nossa instrução maçônica e o rei Salomão (como o rei-filósofo ideal ou arquetípico)?

No Discurso do Canto Nordeste somos instruídos sobre a importância de não ter metais ou objetos de valor em nossa pessoa. Existe alguma relação entre essa instrução e a instrução dada a um dos reis-filósofos de Platão – não ter metais ou objetos de valor sobre a sua pessoa?

Se a mitologia, história e filosofia gregas são a base da Maçonaria moderna, é possível que a Sabedoria, a Força e a Beleza têm alusão simbólica a três principais cidades gregas que tipificavam cada característica no mundo antigo, a saber – Atenas (Sabedoria), Esparta (Força ) e Corinto (Beleza)?

Em Timeu, Platão descreve a criação do mundo por um Ser Supremo que ele chamou de “techton” do cosmos (Artesão do Universo). Este Artesão criou o universo a partir de cinco sólidos geométricos. Platão, (assim como aqueles sólidos geométricos vivos) é mencionado no Discurso da Segunda Cadeira (Palestra simbólica) no Ritual do Santo Real Arco de Jerusalém. O que isso nos diz sobre a evidente influência cruzada com relação a Platão na Maçonaria Simbólica e outros graus?

Em Timeu e Gritias, Platão desenvolve o mito de Atlântida – uma imensa superpotência vencida por uma aliança ateniense de cidades-estados vizinhos governados por (entre todas as coisas) – reis-filósofos. Qual a ligação filosófica da Maçonaria com o antigo mito da Atlântida?

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Grande Instrutor Adjunto – Grande Loja do Sul da Austrália e Território do Norte
Tradução: José Antonio de Souza Filardo

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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