Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo I

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A pergunta de Tertuliano e sua relevância para Maçonaria moderna

“A Questão de Tertuliano” é, reconhecidamente, um estranho subtítulo para um livro que pretende lidar com a filosofia Maçônica, então agora é um momento tão bom quanto qualquer outro para explicar seu título e relevância. Tertuliano é a forma portuguesa do nome latino Quintus Septimius Florens Tertullianus – (… um nome que certamente tem o seu próprio floreio). Tertuliano nasceu na cidade de Cartago, no que é hoje a Tunísia, por volta do ano 158 d.C.

A história diz que Cartago era uma cidade fundada por colonos da cidade de Tiro, na Fenícia quase 1000 anos antes do nascimento de Tertuliano. Esta mesma cidade de Tiro, que dois dos nossos lendários primeiros Grãos-Mestres chamavam de lar e foi também o lar de trágica rainha Dido. A Rainha Dido foi a amante do príncipe troiano Eneias, por quem tanto Júlio César quanto o imperador Augusto alegavam descendência linear e Virgílio explorou as aventuras lendárias de Eneias no poema épico, a Eneida.

Aníbal, o Grande, que empreendeu uma campanha militar de 16 anos contra Roma durante a Segunda Guerra Púnica (218-202 a.C.) também vinha da cidade de Cartago. Embora esta campanha militar não seja algo que venha facilmente à nossa mente, provavelmente cada um tem uma vaga lembrança de infância dos inimigos de Roma encenando uma ousada travessia dos Alpes usando elefantes. A vaga lembrança desta campanha é aquela que Aníbal havia arquitetado e executado.

Nascido cerca de 200 anos depois de Tertuliano, Agostinho de Hipona foi um grande Doutor da igreja cristã, que também viveu em Cartago por um curto, mas significativo período de sua vida. Como vamos descobrir, Agostinho de Hipona reconheceu que  a produção escrita de Platão era a base da sua conversão ao cristianismo. Foi Agostinho quem injetou a filosofia de Platão no núcleo em desenvolvimento da teologia cristã, e foi o movimento protestante (cerca de mil anos depois) que redefiniu a teologia cristã, retornando novamente a filosofia platônica.

Então, o que sabemos da vida de Tertuliano? Na realidade, sabemos muito pouco. Ele nasceu de pais pagãos, que lhe forneceram um alto nível de educação, principalmente em direito, mas também em literatura e filosofia grega e romana. Em algum ponto de sua vida (e por razões que não são de todo claras), Tertuliano fez uma dramática conversão ao cristianismo. Apenas alguns anos depois, Tertuliano foi ordenado sacerdote. Durante sua vida, ele se tornou um escritor de enorme influência, desenvolvendo aspectos da teologia cristã.

Possivelmente, sua contribuição mais significativa foi o conceito de “trindade” – um conceito que, posteriormente, se desenvolveu como um dos grandes pilares do dogma cristão.

Por mais fervorosa e apaixonada que fosse sua conversão – sua associação com o Cristianismo era raramente harmoniosa. Ele decidiu romper com a igreja cristã estabelecida de Cartago e converter-se para uma seita herética conhecida como os Montanistas. Desiludindo-se com a sua marca do cristianismo, ele a deixou para fundar sua própria seita cristã, morrendo em algum momento em 255 d.C.

Se você tem alguma familiaridade com o idioma português você identificará a palavra tertúlia com “reunião”, “simpósio”, ou “discussão” ou até mesmo um “encontro de mentes”. Em um emprego anterior, tive a sorte de trabalhar com um colega chileno que me apontou esta associação de palavras que demonstra a maior influência de Tertuliano, não só no estudos “sérios” de teologia e filosofia, mas também nos estudos mais “leves” como a linguística.

Embora o nosso conhecimento da vida de Tertuliano seja apenas breve e episódico, a principal característica recorrente de sua vida é uma predisposição para a conversão. Do paganismo, ele se converteu ao cristianismo. Do cristianismo, ele se converteu, em duas ocasiões separadas, para marcas heréticas de sua própria teologia principal.

Tendo isso em mente, a História está cheia de estórias a respeito de conversão, e uma das coisas que muitas vezes parecem acompanhar a conversão é uma forte aversão – um forte afastamento de todos os aspectos da vida anterior e de crenças de uma pessoa. A este respeito, Tertuliano não foi estranho a esse fenômeno psicológico.

Um de seus escritos mais famosos é uma obra curta, que é chamada em latim, De Praescriptione haeretici. A tradução é muito simples: Sobre a Prescrição dos Hereges. Dado o que sabemos sobre Tertuliano e o caminho que sua vida tomou, ele escolheu um título intrigante. Neste curto trabalho e no espaço de apenas alguns parágrafos, ele rejeitou todo o corpo da filosofia grega em que seus pais o haviam educado desde sua tenra infância. É neste trabalho que ele fez a famosa pergunta a partir da qual o título deste livro leva o seu nome. A pergunta de Tertuliano foi: O que tem, realmente, Atenas a ver com Jerusalém? Que concordância há entre a Academia e a Igreja?

Ao colocar esta questão, Tertuliano estava argumentando que a filosofia pagã (o que ele caracterizou como Atenas) tinha, em sua opinião, nenhuma influência ou mesmo relevância sobre o corpo em desenvolvimento da filosofia cristã ou da teologia revelada. Em contrapartida, ele caracterizava a filosofia cristã e sua teologia como Jerusalém. Então, com uma utilização escassa de palavras e um uso rico e elaborado de habilidade retórica, Tertuliano rejeitou totalmente todos os séculos de pensamento avançado que chegou até nós através de filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles (entre outros). Mas, ele atingiu mais que isso. Ele foi ainda mais fundo. Com o zelo fanático que acompanhou sua conversão, suas palavras também transmitiram a sua posição bombástica de que as posições mundanas ocupadas pelos antigos filósofos gregos eram totalmente incompatíveis com a perspectiva do mundo cristão. Para Tertuliano, esses dois universos eram totalmente antagônicos. Estes eram em todos os sentidos do termo, mundos em rota de colisão.

Então, como está Tertuliano relacionado com nossa experiência Maçônica?

Entendendo o que ele estava tentando expressar, vamos reinterpretar sua pergunta em nosso meio maçônico e fazer a pergunta simples:

“Existem influências históricas filosóficas ou míticas gregas sobre nosso ritual”?

Bem… a resposta a essa pergunta surpreenderá muitos irmãos.

Sem até mesmo a menor qualificação, podemos dizer com confiança que em qualquer Ritual que se baseia no ritual e rubricas do Emulação Inglês – a resposta é – sim! Além disso, essas influências gregas não são nem pouco importantes, nem acidentais. Estas influências gregas foram cuidadosamente consideradas, cuidadosamente selecionadas e, em seguida, artisticamente bordadas dentro da história hebraica da construção do Templo do Rei Salomão, que é relatado nos Livros de Reis e Crônicas.

Então, quando Ritual de Emulação foi aprovado em 1816, foi lançado como um moderno re-trabalho (ou uma reinterpretação moderna) dos princípios de Platão sobre a liderança, como ele os desenvolveu em vários de seus diálogos, mas principalmente em um diálogo conhecido como República. Com um entendimento de alto nível da história grega, mitologia e escrita platônica, os autores do Emulação criaram um ritual que (uma vez explicado) nos fala hoje com uma mensagem que é especialmente relevante para nossas vidas neste século XXI.

O que estou propondo pode parecer novo, mas isso está longe de ser o caso. Há evidências sugerindo que já há 150 anos, estava bem claro e entendido que a filosofia de Platão era a orgulhosa espinha dorsal da Maçonaria moderna.

Henry Mildred, o Primeiro Grão-Mestre Provincial do Sul da Austrália fez um discurso no lançamento da pedra fundamental do Hospital Britânico e Alemão em Carrington, Santa Adelaide, em 24 de maio de 1851. Em suas próprias palavras, ele afirmou que “os princípios da maçonaria … brilhavam radiantes na filosofia de Platão”.

Com um sorriso irônico, podemos criticar a escolha de palavras de Mildred (o entendimento que Platão antecedeu a Maçonaria por apenas … alguns séculos). O que ele estava tropeçando na forma de se expressar, é que a filosofia de Platão brilhava radiantemente nos princípios da Maçonaria.

Quando este trabalho se afasta da pesquisa Maçônica estabelecida é o fornecimento de uma cartilha (ou em outras palavras) – uma primeira tentativa – de conciliar os nossos rituais com a filosofia platônica e a história e mitologia gregas. Espero que em algum momento no futuro, um irmão com uma habilidade considerável em grego possa ser capaz de adicionar cor à escala de cinza dessa primeira tentativa de uma reconciliação Maçônica platônica.

Se o meu argumento tem até mesmo o menor germe de verdade, então estamos diante do reconhecimento de que a partir do momento em que ficamos no Canto Nordeste – algo de extraordinária significância estava ocorrendo que nos conectava com a filosofia do rei- filósofo de Platão. Naquele momento, nós nos tornamos participantes ativos em um modelo de envolvimento com o objetivo de sermos preparados para nos tornarmos reis-filósofos em todas as áreas de nossas vidas.

O amálgama simples e sem esforço dos escritos platônicos com as escrituras hebraicas (conforme evidenciado no Ritual Emulação inglês), sempre esteve focado em alcançar nas vidas de cada um de nós, o mais alto potencial (ou em termos platônicos) o mais alto ideal de um ser humano que cada um de nós tem o potencial de alcançar nos breves anos de vida que nos foram dados.

Vamos voltar muito rapidamente ao nosso amigo Tertuliano … Tendo colocado a sua famosa pergunta, ele então passou a justificar sua posição. Sem discutir a sua posição de uma forma ou de outra, podemos notar que seu argumento não só é elegante, mas também vibra com ressonância maçônica:

“… porque nossa instrução vem do pórtico de Salomão que tinha, ele mesmo, ensinado que o Senhor deve ser procurado na simplicidade do coração.”

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Grande Instrutor Adjunto – Grande Loja do Sul da Austrália e Território do Norte
Tradução: José Antonio de Souza Filardo
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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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