Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo II (1ª Parte)

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Maçonaria: Um breve resumo de sua história até o ano de 1823

Antes que possamos mesmo abordar qualquer compreensão de como o pensamento, história e mitologia gregas se tornaram incorporados ao ritual maçônico, precisamos ter alguma compreensão da história da Maçonaria – o seu próprio pano de fundo. Esta compreensão nos fornecerá um contexto no qual a sequência de eventos que levaram à inclusão de um corpo tão profundo de tradição grega antiga em nosso Ritual poderá ser demonstrada em um processo muito natural e lógico de evolução.

É certo que um dos aspectos mais frustrantes do entendimento da Maçonaria moderna é chegar a um acordo com os seus primórdios. Parece haver tantas teorias inteligentes relativas a esta questão e ainda assim parece que todas elas entram em conflito entre si. Para uma organização que tem sido tão influente na sociedade ocidental pela maior parte de últimos 300 anos, suas origens são irritantemente obtusas.

Será que a Maçonaria se originou como um braço reformado / reinventado da Ordem Católica Romana dos Pobres Cavaleiros do Templo (Cavaleiros Templários) – uma Ordem que, em Outubro de 2007, foi absolvida pelo Vaticano de acusações de heresia lançadas contra ela no século XIV? Será que a Maçonaria se originou de um desenvolvimento das corporações medievais de pedreiros? Será que a Maçonaria se originou como um broto da Royal Society? Será que a Maçonaria se originou na Escócia, ou foi na França, ou foi na Inglaterra?

Há um ou dois anos, fiz uma apresentação sobre um aspecto da pesquisa que eu tinha feito sobre este livro em uma reunião de loja metropolitana, aqui em Adelaide. A apresentação estava relacionada a aspectos do Ritual de Emulação. Conforme afirmado anteriormente, o Ritual Emulação é (… apenas com pequenas variações), o ritual usado no sul da Austrália e Território do Norte desde 1884, e foi desenvolvido na Inglaterra e aprovado para uso no ano de 1816. Na reunião, um irmão escocês atencioso e bem-intencionado  aproximou-se e repreendeu-me por uma falha que (na sua opinião) nós compartilhávamos em comum com outros  Instrutores da Grande Loja  da jurisdição. A falha que todos nós compartilhávamos era a crença de que a Maçonaria se originou na Inglaterra. Ele enfatizou com grande paixão, voz e convicção sincera de que ela não tinha essa origem. Ela se originou na Escócia. Ele me deixou na dúvida de seu entendimento da questão (ou por isso) – a real importância que desses aspectos da história  têm para os irmãos nesta jurisdição. Quanto à verdadeira origem da Maçonaria, há uma distinção que nos ajudará se a fizermos. É entre dois modelos distintos de Maçonaria.

O primeiro modelo é uma proto-Maçonaria cujos registros provam ter existido na Escócia, já ao final dos anos 1500. Por proto-Maçonaria, quero dizer uma primeira fase de organização. Nesta primeira fase, pode haver elementos que podemos reconhecer, ainda hoje, mas geralmente em um nível muito superficial. Em todos os sentidos do termo, este tipo de Maçonaria nada mais era que um precursor primitivo do que existe hoje.

O segundo modelo é o que podemos chamar (com alguma facilidade e precisão), pelo termo moderno Maçonaria. Isso nós podemos fixar o ponto como tendo uma data de início em 24 de junho de 1717. Os elementos que formam este tipo de Maçonaria (quer se trate de um, dois ou 300 anos de idade) são facilmente reconhecíveis no ritual e regras praticados hoje.

Traçar uma linha na areia entre esses dois modelos díspares de Maçonaria é vital para qualquer discussão inteligente sobre as origens da Maçonaria. É fundamental porque a partir das evidências que temos à mão, cada modelo tinha uma finalidade diferente em vigor na época.  Muito importante – o propósito da proto-Maçonaria era baseado em um modelo filosófico e religioso, que era muito diferente de seu descendente mais moderno.

Proto-Maçonaria

Nos últimos cem anos ou mais, houve pesquisa maçônica considerável que foi aplicada a um grupo de documentos conhecidos como Old Charges (Antigas Obrigações). Como grupo, estes documentos históricos apontam para indícios circunstanciais de que a Maçonaria (como nós a conhecemos agora), teve seus antecedentes nas corporações (guildas) de pedreiros medievais. São aqueles pedreiros que realizavam rituais baseados no ofício (ou atividade) real e físico de construção no período medieval de formação e no final do período renascentista a que nos referimos com o termo maçom operativo. Eles também usaram as Antigas Obrigações como um guia para viver suas vidas.  O estudo da Maçônica Moderna aponta para (aproximadamente) seis “famílias” de documentos que compõem o cânon das Antigas Obrigações. As datas de autoria dessas famílias de manuscritos abrangem um período de 300 anos – de cerca de 1.390 até cerca de 1680. Os dois documentos mais antigos são os Manuscritos Poema Regius (c 1390) e Matthew Cooke (c 1450).

A característica distintivas destes dois manuscritos é que, por padrão do período histórico em que foram escritos, eles eram católicos romanos na perspectiva religiosa e filosófica. Esta é uma faceta que é muitas vezes ignorada ou esquecida por alguns historiadores maçônicos. Entender esse ponto muito simples é crucial se quisermos entender por que, desde os primeiros anos dos século XVIII, o modelo filosófico proposto por Platão foi conscientemente adaptado para se adequar ao modelo maçônico que reconhecemos hoje … falo mais disso posteriormente.

Voltando ao Manuscrito Regius, ele é composto de 15 artigos com 15 pontos. Com poucas exceções, os sentimentos que aparecem nos artigos originais e os pontos que aparecem no corpo das Obrigações do Primeiro e Terceiro Grau são semelhantes com as Obrigações do Primeiro e Terceiro Graus do Ritual baseado em Emulação.

Uma característica importante do Poema Regius é que, embora ele não especifique um código de conduta esperada de um pedreiro, e este código de conduta é, em muitos aspectos, semelhante ao que os maçons modernos estão acostumados, ele não menciona o rei Salomão, em absolutamente nenhum contexto.

Nossa experiência de vida normalmente confirma que as coisas ocorrem (em geral) de uma forma evolutiva. Sabemos que qualquer nível de sofisticação geralmente ocorre após um nível mais primitivo, mais básico. O desenvolvimento da proto-Maçonaria segue um caminho evolutivo idêntico.

Aproximadamente 60 anos após o Poema Regius ter sido composto, outro documento conhecido como o Manuscrito Matthew Cooke foi composto. O título “Matthew Cooke” refere-se à pessoa (um maçom), que publicou este documento pela primeira vez em 1861, e não ao seu autor. O Manuscrito começa com uma oração e passa a discutir as sete artes liberais e ciências. Aqui, o Manuscrito explica que as sete artes liberais e ciências foram preservadas por um descendente de Caim chamado Lameque.

De acordo com este Manuscrito, Lameque inscreveu todo o conhecimento da humanidade em dois pilares – um era feito de pedra, enquanto o outro era feito de outra substância. A suposição era de que caso o mundo fosse destruído pelo fogo ou pela água, poder-se-ia esperar que um ou outro  sobrevivesse. Como resultado de sua sobrevivência, a vida e o desenvolvimento humano continuaria através de avanços evolutivos do conhecimento. Sem a sua sobrevivência, o conhecimento e avanço humano, seria de esperar que houvesse regressão.

A história dos dois pilares contada no Manuscrito Matthew Cooke não se confunde com a história dos dois pilares que temos em nosso atual Ritual.

No Manuscrito Cooke, a história diz respeito a uma tradição judaica que é recontada por um sacerdote judeu / historiador romano chamado Flávio Josefo, em uma obra conhecida como “Antiguidades dos Judeus”. Este trabalho foi originalmente escrito para judeus de língua grega, no primeiro século da era cristã.

Já com o que discutimos até agora, podemos traçar uma linhagem evolutiva para o nosso atual Ritual, observando as seguintes semelhanças:

  • A história contida no proto-ritual (assim como a Maçonaria moderna), refere-se a dois pilares.
  • Ambos os conjuntos de pilares têm tradição judaica como sua base.
  • A função de ambos os conjuntos de pilares é a preservação do conhecimento. No moderno Ritual Maçônico, o conhecimento que está contido nos pilares são os “rolos constitucionais da Maçonaria” … ou herança ancestral da Maçonaria.

O Manuscrito também menciona o seguinte:

  • Um artesão de metais, cujo nome era Tubalcain
  • A importância da ciência da geometria
  • Que os artesãos devem chamar uns aos outros Companheiros
  • Que o artesão mais especializado deve ser chamado de Mestre
  • Que o Mestre deve ser apoiado por Vigilantes
  • Uma breve menção ao rei Salomão e à construção de seu Templo
  • Uma breve menção do Rei Hiram de Tiro (que não é mencionado pelo nome)
  • Uma menção muito breve de alguém que associaríamos a Hiram Abif (.. ele não é mencionado por nome, mas apenas como “filho do rei de Tiro”).
  • Um “Livro de Obrigações” para a conduta de pedreiros.
  • Menção de um geômetra grego chamado Euclides.
  • Os 15 artigos originais e 15 pontos que aparecem no manuscrito Regius são reduzidos para nove artigos e 9 pontos.

Assim, nesta fase inicial do que podemos chamar de proto-Maçonaria, houve dois importantes documentos que oferecem indícios para o desenvolvimento de características que são reconhecidas em lojas maçônicas em todo o mundo. Ambos documentos estão originalmente em inglês. Ambos documentos apontam para o surgimento de um código filosófico de conduta referido como Obrigações, um sistema de ensino baseado nas artes liberais e ciências, a ênfase dada à ciência da geometria e uma estrutura de loja incorporando Companheiros, Vigilantes e Mestres de Loja. Há também referência a personagens comuns ao nosso presente Ritual, tais como Tubalcain, Rei Salomão, Hiram, rei de Tiro e (possivelmente) Hiram Abif.  Por último, temos uma alusão a duas colunas, cujo propósito é simbolicamente preservar o conhecimento contra os elementos naturais de destruição cósmica.

E sobre a Conexão Escocesa?

Ainda há um debate significativo com relação à discussão se a Maçonaria surgiu da Escócia e infiltrou-se na Inglaterra (ou vice-versa).

Aqueles a favor da teoria da Maçonaria emergindo da Escócia muitas vezes citam uma conexão dos Cavaleiros Templários. Provavelmente o melhor defensor expresso desse argumento é  “O Templo e a Loja” de Baigent e Leigh. Neste trabalho, os autores explicam como (enquanto preparavam um documentário da BBC sobre os Cavaleiros Templários) eles começaram a investigar cemitérios no norte da Escócia para descobrir evidências de motivos templários em lápides de túmulos. As lápides que eles encontraram eram datadas depois de 1307 quando a Ordem foi suprimida por decreto do Vaticano. Isso tendia a indicar que os sobreviventes da Ordem haviam migrado para a Escócia, vindos da França, para escapar da perseguição das mãos de Filipe IV (1268 – 1314), Rei de França. A razão para a escolha da Escócia era muito lógica. Robert Bruce como o líder dos escoceses tinha sido recentemente excomungado pela Sé de Roma. Como líder dos Escoceses, sua excomunhão efetivamente significava a excomunhão da Escócia. Ao migrar para a Escócia, os Templários estavam fora do alcance de Roma. Mas, a lógica (por mais forte que seja) não é o argumento mais convincente. Este encontra-se nas mudanças que aparecem nas tumbas dos Templários no norte da Escócia, ao longo do tempo. Conforme os anos passavam, as lápides (ainda mostradas hoje), testemunharam uma mudança estranha e gradual. As lápides (sem discussão – Templárias), começaram a incorporar mais e mais motivos maçônicos … motivos que são claramente compreensíveis por todos os maçons que vivem hoje.

A mudança nos motivos de lápides fortemente sugeria uma reinvenção da Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo (Cavaleiros Templários) como Ordem dos Maçons Livres. As lápides eram apenas uma indicação da reinvenção da Ordem com uma identidade Maçônica. A verdadeira evidência foi a gama de temas que aparecem na Capela de Rosslyn. Estes eram temas ricos em simbolismo maçônico.

Sua conclusão é simples – os Cavaleiros Templários evoluíram para se transformarem em maçons livres.

Mesmo aqueles com um conhecimento mínimo dos Cavaleiros Templários apreciarão a largura e extensão do simbolismo que caracterizava sua Ordem. Qualquer um que abra os milhares de sites relacionados com os Cavaleiros Templários descobrirá a importância que o simbolismo desempenhava nos seus rituais, suas roupas e sua espiritualidade.

E se a conexão Cavaleiros Templários-Maçonaria com a Capela Rosslyn estiver errada, e se estiver equivocada?

Presumindo-se que os Cavaleiros Templários realmente migraram para a Escócia; presumindo-se que eles realmente se reinventaram como proto-maçons; presumindo-se que eles realizavam sessões em loja… com todos estes pressupostos, a única coisa que poderíamos esperar encontrar eram evidências de seu simbolismo nos documentos “maçônicos” que temos daquele período … e nós temos muitos documentos “maçônicos” escoceses daquele período. Os documentos em questão referem-se à maçonaria operativa. O problema é que falta a esses documentos qualquer conteúdo simbólico ou filosófico. A este respeito, a evidência é notável por sua ausência.

Rastrear a origem exata da Maçonaria até a Escócia não é uma tarefa fácil, apesar dos protestos em contrário.

Estes documentos escoceses “maçônicos” remontam a 1475. Naquele ano, o Selo de Causa incorporava os “Masons and Wright”. Mais de cem anos depois – em 1598 e 1599, respectivamente – duas peças de legislação conhecidas como o Estatutos Schaw regulamentaram a forma como os pedreiros deveriam  realizar seu ofício operativo. Elas também autorizavam a Loja de Kilwinning a supervisionar as lojas operativas no Oeste da Escócia. Conforme Bernard E. Jones (um dos mais respeitados estudiosos maçônicos) enfatizou – embora esses documentos efetivamente existam, nada há neles que sugira alguma coisa esotérica ou de natureza filosófica de que a Maçonaria moderna é imbuída. A rede de lojas na Escócia nesta época parece ter sido marcada com um caráter que era totalmente diferente das lojas operando ao sul da Muralha de Adriano – as lojas que tinham suas próprias obrigações e os começos de suas próprias lendas e mitos.

Assim, a evidência em questão sugere fortemente que enquanto as redes de lojas estavam se desenvolvendo na Escócia e na Inglaterra durante o período medieval, as lojas escocesas estavam se desenvolvendo em termos de processos regulatórios, regendo o funcionamento do trabalho físico (dimensão operativa) da atividade de cantaria. Isto está em nítido contraste com a experiência inglesa que se caracterizava pelo desenvolvimento de um código de conduta pessoal pelo qual os pedreiros viveriam. O código de conduta também se estendia às suas relações profissionais, e eram expressos na linguagem da época como “obrigações”. As obrigações são as instruções para a vida e eram, muitas vezes, ilustradas através da adoção de lendas e mitos antigos e dando-lhes uma vitalidade dramática, fresca do tipo assuntos atuais.

Já dentro deste desenvolvimento proto-maçônico de um código de conduta conhecido como Obrigações, estavam germinando o núcleo de uma filosofia de liderança. Mas, nesta época, a filosofia de liderança, ainda era algo sombrio, ainda indistinto, ainda esperando para ser expresso em uma linguagem e símbolos mais claros. Era quase como algo esperando acontecer. Os ecos daquele algo já estavam sendo ouvidos no clamor distante do trovão que prenunciava a chegada da Reforma.

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Grande Instrutor Adjunto – Grande Loja do Sul da Austrália e Território do Norte
Tradução: José Antonio de Souza Filardo
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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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