Platão e o Ritual Maçônico – Capítulo II (3ª Parte)

 

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Dr. James Anderson: O arquiteto escocês de origem maçônica inglesa

Este homem foi um instrumento para reescrever a história inicial da Maçonaria (e por razões muito políticas), estabelecendo um conjunto moderno de Constituições que regem a Ordem, e colocando em prática princípios do ritual maçônico moderno (baseado em linhas Gregas). A razão pela qual ele implantou todas estas coisas foi para conseguir um único objetivo – o alinhamento dos novos ideais da Maçonaria aos da nova era Hanoveriana.

Ele nasceu por volta do ano 1680 e com 30 anos de idade em 1710, foi ordenado pastor da Igreja Presbiteriana. Nove anos mais tarde, ele se tornou ativamente envolvido em um debate acalorado sobre a posição que os presbiterianos sob a sua autoridade deveriam assumir sobre a aplicação do artigo primeiro dos Artigos de Religião da Igreja da Inglaterra. Quando olhamos sua vida, esta associação próxima, acalorada com o debate em 1719 pode ter sido um fator que ajudou a formar em sua mente o modelo de Obrigações de um Maçom que fizeram parte de sua primeira edição das Constituições publicadas em 1723, existem algumas semelhanças entre as Obrigações de um Maçom, e os artigos de religião anglicanos, que são mais que simples coincidência.

Se compararmos os cabeçalhos gerais das Obrigações de Anderson aos Artigos de Religião que podem ser encontrados em um livro anglicano comum de oração, uma característica muito evidente é a formatação distinta de cada uma das rubricas que começa … “Da … etc “. Os 39 Artigos de Religião Anglicanos e 5 dos 6 Cabeçalhos  Gerais das Obrigações de um Maçom, cada um deles começa com o formato estilístico idêntico.

Em segundo lugar, o artigo XXXVII trata de assuntos relacionados ao Magistrado Civil. Curiosamente, o cabeçalho II das Obrigações de um Maçom trata, de maneira semelhante, o Magistrado Civil.

Também é fácil perceber que a linguagem e o estilo tanto dos Artigos de Religião Anglicana quanto das obrigações de um Maçom compartilham o tom semelhante e a qualidade religiosa da redação. Nesses casos, por clonagem deliberada do estilo, linguagem e tom dos Artigos de Religião Anglicana, Anderson estava estampando a moderna Maçonaria com uma associação direta com a Igreja da Inglaterra estabelecida da época. Ele estava declaradamente distanciando a Maçonaria de qualquer possível sugestão de associação com qualquer tipo de marca de sociedade subversiva jacobita católica romana.

Em 1730, apenas 13 anos após a formação da Primeira Grande Loja da Inglaterra, uma exposição pública dos segredos da Maçonaria foi publicada sob o título de Maçonaria Dissecada. Ela foi escrita por Samuel Prichard.  Anderson publicou uma resposta à exposição pública de Prichard e chamou-a Defesa da Maçonaria.

No seu panfleto de 1730, ele explicava que havia três graus praticados na Maçonaria moderna e que cada loja era governada por um Mestre “e dois Vigilantes”. Mais do que qualquer outro documento da época que está disponível para nós hoje ressoa o panfleto de Anderson com material que é comum no Ritual de Emulação.

É também evidente que Anderson estava muito bem familiarizados com as obras de clássicos gregos e romanos –  autores que eram (e ainda são) conhecidos por sua interpretação da história e mitologia gregas.  Em 1730, em sua Defesa da Maçonaria, Anderson explicava o significado da lenda Hirâmica recentemente desenvolvida através de referência ao historiador grego Heródoto, à Eneida de Virgílio e às Metamorfoses de Ovídio. As Metamorfoses de Ovídio foram sem dúvida a mais notável conquista romana na conversão de personagens mitológicos gregos para um ambiente cultural romano.

Em 1738, Anderson publicou a segunda edição das Constituições, e neste trabalho ele elaborou uma história da Maçonaria que se estendia muito além das Antigas Obrigações originais. Anderson foi ainda mais longe – ele incluiu em sua lista de Grãos-Mestres anteriores a 1717, o Cardeal Católico Romano Wolsey, Moisés e até mesmo Nabucodonosor da Babilônia. A única característica singular da sua versão de 1738 das Constituições é que, neste colorido bordado (embora altamente imaginativo) de pseudo-história maçônica, ele descurou completamente de qualquer influência escocesa no desenvolvimento da história maçônica, traçando a sua ascendência inglesa de volta aos tempos bíblicos.

No entanto, existe uma outra questão muito importante com que Anderson estava conectado que se tornou um ponto crucial da história Maçônica.

Na primeira edição de seu Obrigações de um Maçom (1723), dentro do Cabeçalho Geral – Quanto a Deus e a Religião, aparece o seguinte trecho:

Mas, embora em tempos antigos os maçons fossem obrigado em cada País a ter a Religião daquele país ou nação, qualquer que fosse ela, ainda assim pensa-se ser agora mais conveniente obrigá-los a ter apenas aquela religião na qual todos os homens concordam, deixando suas opiniões particulares para si ; isto é, serem homens bons e verdadeiros, ou Homens de Honra e Honestidade, quaisquer que sejam as Denominações ou Obediências que os possa distinguir; dessa forma a Maçonaria se torna o centro da União, e os meios de conciliar a verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam perpetuamente separados.

Inócuo como este parágrafo possa parecer aos nossos olhos e ouvidos modernos, naquele preciso momento, ele teve o efeito de polarizar a Fraternidade Maçônica. Este único parágrafo mudou o mérito intrínseco do que havia sido a proto-Maçonaria e trouxe-a até um ponto em consonância com os tempos. O que este simples parágrafo fez foi alterar a antiga definição maçônica de “irmão”; ele ampliou sua definição para um ponto que cortou todos os laços que poderiam ter permanecido com o proto-Maçonaria. Ele fez mais do que apenas sugerir uma nova definição de “irmão” – ele a redefiniu de forma inequívoca para incluir não apenas os cristãos (que eram os membros originais da proto-Maçonaria), mas os homens de qualquer religião que valorizam a verdade e a honra. O ano de 1723 marcou provavelmente o ano mais distinto em sua história até nossos dias. Ela se tinha reinventado, rejeitado qualquer identidade com o Catolicismo Romano, que ainda pudesse ter permanecido e viajou até mesmo além dos limites do protestantismo para ver homens de todas as religiões – igualmente. Onde uma vez havia uma divisão entre homens de diferentes religiões – uma divisão que se manifestava sob várias formas de preconceito – a Maçonaria teve uma visão muito esclarecida da fé religiosa e reconheceu que não havia motivos para discriminar entre um homem e outro com base em suas inclinações religiosas.

Para melhor compreender as implicações deste parágrafo, uma analogia exata pode ser imaginar a resposta de maçons em todo o mundo, se a redação de cada Constituição e conjunto de Regulamentos fossem alterados para permitir que as mulheres (que reconhecem a existência de um Ser Supremo) entrassem para as fileiras da maçonaria regular. A grande variedade de respostas e uma gama de emoções que poderíamos esperar fossem expressos não é diferente das respostas que foram associados com a redefinição do termo “irmão” para incluir homens de religiões (diferentes da fé cristã), nos idos de 1723.

Em 1751, apenas 28 anos depois que as portas da Maçonaria foram abertas aos homens de outras religiões diferentes da cristã  –  uma nova Grande Loja foi formada diretamente em oposição à Primeira Grande Loja.

Não surpreendentemente, a principal entre a lista de queixas da nova Grande Loja contra a Primeira Grande Loja era a redefinição de “irmão” de 1723 para incluir os homens de religiões não-cristãs.

As Grandes Lojas “Moderna” e “Antiga”

A nova Grande Loja que foi formada em 1751 referia-se a si mesma como a Grande Loja dos “Antigos” e se referia (com um tom sarcástico) à Primeira Grande Loja de 1717 como a Grande Loja dos “Modernos”.

Eles fizeram isso com base em que eles se viam como preservando as antigas e ortodoxas tradições da Maçonaria, em oposição à Primeira Grande Loja, que tinha “modernizado” a Maçonaria seguindo linhas heterodoxas.

Tão importante quanto a influência de Anderson para a Primeira Grande Loja, a Grande Loja dos Antigos de 1751 tinha sua própria “usina de força” na pessoa de Laurence Dermott.

Dermott nasceu na Irlanda em 1720.  Aos 20 anos de idade, ele foi iniciado e instalado como Mestre da Loja de Dublin em 1746. Dois anos mais tarde, ele se estabeleceu na Inglaterra, assumindo a posição de Secretário da Grande Loja dos Antigos por um período de 19 anos – de 1752 a 1771. Dermott escreveu uma obra que provoca comparações às Constituições de Anderson, mas que tem o título muito estranho de Ahimon Rezon. Não está claro o que realmente significa o título, mas acredita-se que signifique vagamente parecido com “ajuda a um irmão” em hebraico.

As relações entre as Grandes Lojas “moderna” e “antiga” eram tensas para dizer o mínimo. Fora a hostilidade que a abertura da adesão aos homens de religiões não-cristãs havia provocado, havia muitas outras questões controversas, e a maioria delas estava relacionada com a forma como o Ritual era interpretado e executado. Para garantir que um irmão da Grande Loja adversária não pudesse entrar em suas reuniões de loja para ver seus rituais, modos de reconhecimento (como apertos de mão e senhas) foram mudados. O ponto sobre o qual os Antigos eram enfáticos era que o ritual dos Modernos era exatamente isso – moderno – no sentido de Liberal. Ele se afastava significativamente das tradições antigas e ortodoxas.

Para negociar uma solução amigável para os conflitos que vinham dividindo a Maçonaria nos 50 e poucos anos anteriores, a Grande Loja dos “Modernos” autorizou a formação de uma loja com uma única finalidade especial – a solução dos conflitos entre as Grandes Lojas Moderna e Antiga. Esta loja conhecida como Loja de Promulgação foi formada em 1809, e conduziu as negociações sobre cada aspecto da disputa até 1813. Em dezembro daquele ano, um documento conhecido como os Artigos da União foi assinado pelos Grãos-Mestres tanto da Grande Loja dos Modernos quanto da Grande Loja dos Antigos. Com a assinatura deste instrumento, ambas Grandes Lojas adversárias foram amalgamadas como a Grande Loja Unida da Inglaterra.

1813 a 1823: O desenvolvimento do Ritual de Emulação

Após a assinatura dos Artigos da União, a primeira prioridade foi o desenvolvimento de um Ritual que incorporasse todos os elementos extraídos do funcionamento das Grandes Lojas Moderna e Antiga, que tinham sido acordados, nos termos da unificação das duas Grandes Lojas.

Este foi um projeto delicado que exigiu homens de visão, um entendimento superior de Maçonaria, um aguçado senso de diplomacia e habilidade de negociação de alto nível. Para supervisionar este projeto, outra loja especial desse grupo de elite de maçons foi formada. Ela era conhecida como a Loja de Reconciliação, e como o próprio nome sugere, sua principal finalidade era a racionalização ou a reconciliação dos diferentes rituais praticados naquele momento. Como não era permitido imprimir o ritual em 1813, ele era ensinado somente por meio do boca a boca. Todos conhecemos as dificuldades que a transmissão boca a boca pode produzir – os problemas relacionados ao que foi dito, como é interpretado e que é lembrado … entre outros. Em todo caso, três anos mais tarde, em 1816, o resultado desta colaboração foi a aprovação oficial do que ficou conhecido como Ritual Emulação – o ritual praticado na jurisdição do sul da Austrália e Território do Norte. A fim de assegurar que o mais elevado padrão de Ritual (usando Emulação como base) fosse praticado, a Loja Emulação de Perfeição foi formada em 1823.

No centro deste Ritual repousa a melhor expressão da filosofia platônica, bem como a melhor expressão da mitologia grega. Ele foi propositalmente concebido desta forma para articular uma mensagem específica – um significado específico. Sua mensagem e significado estão ressoando com pertinência em nossas vidas hoje.

Nossa tarefa agora é entender porque foi que muitos aspectos da cultura grega foram incorporados ao Ritual Emulação.

Uma vez que tenhamos entendido as razões que influenciaram essa decisão, então passaremos algum tempo examinando os aspectos específicos da filosofia, história e mitologia grega que aparecem em nosso ritual, com muito mais detalhes.

Continua…

Autor: Stephen Michalak
Grande Instrutor Adjunto – Grande Loja do Sul da Austrália e Território do Norte
Tradução: José Antonio de Souza Filardo
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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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