Simbolismo e a Ciência Sagrada – Parte I

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 A Iniciação

Consideramos a Roda como símbolo do movimento e do cíclico, na sua forma temporal, e também como centro e como eixo, na forma espacial. Neste último caso, todos os povos tradicionais situaram suas cidades, seus templos, inclusive suas casas, em pontos significativos da paisagem amorfa, ou seja: do caos e do vir a ser. Esses pontos são centros específicos de geração e irradiação de uma cultura por considerar-se que conectam precisamente com outros planos da realidade, de forma vertical, e se manifestam nesse omphalos. Desse modo igualmente se expandem de maneira horizontal os conhecimentos obtidos por inspiração dos deuses.

O que é válido para o círculo também o é para o quadrângulo; a figura do quadrado, por ser a de uma contração, ou solidificação do círculo, se presta especialmente para a arquitetura, e seu simbolismo é o de fixar um espaço significativo no transcorrer do tempo. Afirma Mircea Eliade que: “A criação do mundo se converte no arquétipo de todo gesto humano criador, qualquer que seja seu plano de referência. Vimos que a instalação em um território reitera a cosmogonia. Depois de se ter deduzido o valor cosmogônico do Centro, se compreende melhor agora por que todo estabelecimento humano repete a Criação do Mundo a partir de um ponto central (o “umbigo”). À imagem do Universo que se desenvolve a partir de um centro e se estende para os quatro pontos cardeais, a cidade se constitui a partir de uma encruzilhada”. E também: “O verdadeiro Mundo se encontra sempre no “meio”, no “centro”, pois ali se dá uma ruptura de nível, uma comunicação entre as duas zonas cósmicas”. Já citamos alguns casos de símbolos do eixo, ou do pólo, ainda que em princípio tudo aquilo que denote verticalidade está associado a ele; no plano estaria representado particularmente pela cruz svastika, – segundo opinião de autores qualificados – símbolo tradicional, ao qual coube ser um exemplo típico da degradação da mentalidade simbólica contemporânea. A árvore é assemelhada à verticalidade, ou seja, à ruptura de nível, e também à irrupção da vida, à geração e frutificação no plano horizontal. Esta Árvore da Vida foi conhecida unanimemente – ou seus equivalentes poste ritual, obelisco,  coluna, menir – presente tanto na Cabala Hebraica – cujo Modelo do Universo, constituído pelas sephirot (= numerações), se denomina precisamente assim – como na civilização maia, cuja árvore sagrada era a ceiba, que ainda hoje está plantada em meio à praça central dos povos dessa área; também para egípcios, gregos, romanos, celtas, e aborígenes norte-americanos, africanos e australianos.

ROD6Heinrich Khunrath de Leipzig, Amphitheatrum sapientiae aeternae, 1602.

O simbolismo da árvore admite três níveis: raízes, tronco e copa, relacionados com os mundos subterrâneo, intermediário e celeste; nas culturas que tomam o próprio ser humano como símbolo vertical, os níveis são terra, homem e céu. Ambas as versões nos falam da ideia de um Universo hierarquizado em distintos mundos, que também estão presentes no homem, configurando distintos planos da realidade.

A isso se refere também o simbolismo da montanha, e sua réplica humana: a pirâmide (ou o zigurat), cuja ascensão há de se realizar de maneira escalonada. Igualmente, o simbolismo da própria escada não significa outra coisa, e há que se recordar aqui o tão citado episódio bíblico do sonho de Jacó, no qual ele vê anjos subindo e descendo por uma escada, assegurando assim a comunicação entre céu e terra.

Estes níveis se estabelecem no símbolo da Roda, como círculos concêntricos, que se encontram mais ou menos distanciados do ponto central, equivalente ao eixo vertical. Na tradição hindu, um eixo invisível, um fio, o sushumnâ atravessa todos os mundos; no homem o eixo está representado pela coluna vertebral, em cuja base jaz adormecida a serpente kundalinî, e onde se articulam os diferentes chakras, discos ou rodas, energias que ela ativará ao despertar, e que estão intimamente vinculadas ao processo do Conhecimento e sua ritualização: a Iniciação[1].

ROD7Roda hindu

Estes graus de conhecimento vão do mais denso ao mais sutil, da base do monte ou pirâmide, a seu ponto mais alto; do chakra inferior da coluna vertebral (mûlâdhâra) ao superior, o do cocoruto (sahasrâra); expresso em termos cabalísticos, ao espaço, ao “percurso” que separa Malkhuth de Kether, ou seja, à manifestação universal de seu Princípio; logicamente, no símbolo da Roda os círculos concêntricos se acham hierarquizados em virtude de sua proximidade com o ponto central onde os raios cada vez se aproximam mais de um modo íntimo d’Ele. Da mesma forma podemos associar estes graus de conhecimento com níveis da consciência humana, ou planos de leitura da totalidade da manifestação, e não só com uma de suas partes, ou componentes. Basicamente queremos assinalar quatro planos de leitura da realidade, que em muitas tradições são três já que se fundem os dois associados ao plano intermediário[2]. Estes níveis de leitura são os mesmos que estão associados a qualquer texto ou livro sagrado, começando pela Bíblia, e são próprios de todas as tradições, em especial as chamadas do “livro” (judaica, cristã, islâmica), já que elas simbolizam com este “livro” a manifestação original da palavra, a revelação, uma teofania permanente (sobretudo no Islã), ou seja, o eixo central que permitirá a ascensão ordenada pela hierarquia dos mundos[3].

Leitura metafísica          Atsiluth

Leitura cosmogônica       Beriah

Leitura alegórica           Yetsirah

Leitura literal               Malkhuth

A Iniciação é conhecida unanimemente pelos povos arcaicos e tradicionais; em realidade só  a época moderna a desconhece, ainda que continue a estar presente no seio de nossa sociedade por seu caráter arquetípico; este é o caso do Ocidente, onde o Cristianismo e a Maçonaria, através de seus símbolos e ritos oferecem aos interessados uma via de realização sempre e quando puderem penetrar nos arcanos, na essência de seu ser, o que não estará isento de todo tipo de dificuldades, dado o grau de distanciamento de suas origens em que se encontram as religiões e as instituições; isso é também válido para o judaísmo; daí a importância que adquire a gnose da Via Simbólica e a Tradição Hermética como veículo de realização espiritual.

Igualmente, subsistem certas iniciações entre os povos “primitivos” o que é contatado pela antropologia; em geral ainda permanecem as cerimônias chamadas “sociais” pelos antropólogos, como os ritos de puberdade, ou seja, da passagem do adolescente a homem ou mulher e isso se deve ao fato de que nestas iniciações participa toda a comunidade, em oposição àqueles ritos chamados “sapienciais” –ainda que neles não seja necessário saber ler ou escrever –, realizados só para os indivíduos chamados ao Conhecimento. Não obstante, que maior experiência de sabedoria, na prática, senão a de enfrentar uma nova posição na vida, fazendo-se assim o novo homem responsável por si mesmo e de sua ação no mundo? Não seria, por acaso, um nível de conhecimento vital assumir uma postura ordenada no cosmos participando inteligentemente dele, sendo esta, além disso, uma atitude perante si mesmo e os outros? As iniciações em todos os lugares e tempos foram obtidas como decorrência de provas e sacrifícios (sacrifício, de sacrum facere, fazer sagrado) que se expressam simbolicamente pelo sangue, elemento essencial; é sabido que o processo psicológico que supõe o sacrifício é a melhor preparação para o Conhecimento.

Neste sentido, não são poucas as provas que diariamente deve enfrentar o estudante da simbólica e da alquimia (chamado familiarmente “misto”): não só deve lutar contra si mesmo, contra as concepções estreitas e aprendidas do meio, mas também contra o próprio meio que se opõe a que qualquer um possa atrever-se a não pensar de uma maneira literal e “oficial”. Nos tempos que correm não há um espaço ideal – ou às vezes concreto – onde as iniciações possam ocorrer. Tampouco há um tempo especificamente definido, pois o tempo tem a virtude de regenerar-se perpetuamente; sempre é agora para trabalhar, e desde logo há uma estreita relação entre a Simbólica e a realização espiritual, expressa pelo que se convencionou chamar a via Simbólica, um de cujos meios, a oração do coração, ou oração concentrada, é uma repetição circular e constante da invocação. Esperar o tempo e lugar oportuno para a iniciação pode ser uma causa de distanciamento definitivo.

Na realidade a Iniciação ritualiza o processo de Conhecimento, e por isso, o que interessa em definitivo é este, já que é o verdadeiro, o real; muitas pessoas podem participar às vezes de ritos iniciáticos tradicionais sem sequer se dar conta do que significa o Conhecimento, e ao contrário, um indivíduo que não houvesse participado de nenhum ritual poderia coroar seu processo de Conhecimento, de realização, que é, em definitivo, o que a Iniciação simboliza. Isso de nenhuma maneira significa que aqueles que têm a oportunidade de iniciar-se em alguma forma tradicional não o façam por considerar que se produziu neles o Conhecimento. Ao contrário, toda Tradição autêntica possui os meios espirituais e os ritos exotéricos necessários para ajudá-lo em seu percurso, e ainda contém a possibilidade de “regularizar” sua situação e integrar-se em uma corrente espiritual que lhe aportará sua energia e à qual ele brindará seu esforço; em muitos casos o estudante opta por alguma forma diferente das do Ocidente. Devemos recordar que o ritual tradicional exemplifica a história arquetípica da encarnação, o mito do deus–homem e do homem–deus.

Continua…

Autor: Federico González
Tradução: S. K. Jerez

Notas

[1] – A tradução do termo chakra é literalmente roda.

[2] – Na cabala hebraica os mundos intermediários de Yetsirah Beriah, estão formados pelas sephirot chamadas de “construção”.

[3] – No Islã este Conhecimento, esta Gnosis, é assemelhada a Ilmut Tauhyd (ciência da unidade), da qual derivam todas as ciências. Igualmente há três graus de Conhecimento: islam, imán, efibsán, correspondentes a três categorias de crentes, muslimúnmu’minún e Muhsinún.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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