O Simbolismo Maçônico – Parte I

A Maçonaria é uma instituição iniciática e esotérica que revela seu ensino através de determinados códigos baseados fundamentalmente no simbolismo construtivo. Isto é devido a Maçonaria atual ser em grande parte herdeira dos antigos grêmios de construtores, e embora hoje em dia os maçons já não construam edifícios, entretanto esse simbolismo segue estando vigente, entre outras razões porque é consubstancial à Ordem Maçônica e constitui seus gestos de identidade e sua razão mesma de ser, como veremos a seguir.

Acima de tudo os símbolos maçônicos se referem a um conjunto de ideias relacionadas diretamente com o conhecimento da Cosmogonia, e portanto do homem, pois este é um cosmos em miniatura, um microcosmos, por dizê-lo em linguagem hermética. Precisamente os antigos construtores consideravam o Cosmos como seu modelo simbólico por excelência, e para levantar seus edifícios imitavam as estruturas desse modelo, reveladas sobretudo através das formas geométricas, entre as que destacam o círculo e o quadrado, símbolos respectivos do céu e a terra. Essas formas e estruturas simbólicas sempre respondem a uns arquétipos universais, a uns princípios que são coetâneos com qualquer tempo ou circunstância histórica ou pessoal.

Não importa, como dizíamos, que os maçons de hoje não levantem edifícios. O realmente importante é que esses mesmos princípios ou ideias os podemos conhecer através dos símbolos que decoram nossos templos, o mais importante dos quais é justamente o que se refere a quem é verdadeiramente o Autor de cujo Pensamento surge a Grande Obra da Criação, conhecido na Maçonaria com o nome de Grande Arquiteto do Universo, e em outras tradições, como por exemplo a hindu, como o “Espírito da Construção Universal”. O Grande Arquiteto do Universo é o Princípio Supremo, a verdadeira chave da abóbada ou pedra angular do Templo maçônico. É sob a influência d’Esse princípio que os maçons realizam seus trabalhos dentro da Loja maçônica, trabalhos em que junto ao estudo dos símbolos está a prática do rito, tornando a própria Loja maçônica um espaço significativo análogo à mesma estrutura do Cosmos. Como mais tarde veremos, o simbolismo da Loja maçônica também é um dos temas de meditação aos que nossa Ordem concede uma importância muito relevante.

E já que falamos do Grande Arquiteto, acreditamos que é conveniente assinalar que na Maçonaria este não tem nenhum tipo de conotação religiosa. E não pode tê-la porque a Maçonaria não é uma religião, como pode ser a católica ou qualquer outra, mas sim uma organização iniciática que entrega ao homem os meios e os conhecimentos necessários para seu aperfeiçoamento como ser humano. Não esqueçamos que a Maçonaria é uma Ciência e uma Arte, e seu Princípio Supremo se manifesta como a Inteligência que organiza o Cosmos, o Templo Universal, de acordo ao plano ideal concebido em sua Sabedoria, que como está escrito no Livro da Lei Sagrada “tudo o fez em número, peso e medida”. Não se trata de “acreditar” no símbolo, mas sim de compreendê-lo, pois na medida em que o compreendemos e nos penetramos de seu significado profundo seremos um com a ideia que o conforma. O maçom toma ao símbolo como veículo de Conhecimento e não como um objeto de “culto”, pois sabe que não terá que confundir o símbolo com o que este simboliza.

Mas o fato da Maçonaria não ser uma religião não impede que existam maçons que em sua vida privada, e no exercício de sua liberdade, pratiquem um credo religioso determinado, ou que não pratiquem nenhum. Isto à Maçonaria não tem que se lhe importar, pois essas crenças, sejam religiosas ou de qualquer outro tipo (filosóficas, científicas, políticas, etc.) têm que deixar-se, junto com os metais, na porta do Templo. Como diz o próprio Guénon em outro artigo titulado “A Gnose e a Franco-Maçonaria”, esta “deve ser pura e simplesmente a Maçonaria. Cada um de seus membros ao entrar no Templo, deve despojar-se de sua personalidade profana e fazer abstração de quanto seja estranho aos princípios fundamentais da Maçonaria, princípios ao redor dos quais todos deveriam unir-se para trabalhar em comum na Grande Obra da Construção universal”.

Por dizê-lo de algum jeito, o único que a Maçonaria “exige” de seus membros é uma vontade firme no “desbastado” e “polimento” da pedra bruta, que como dizem alguns rituais “é um produto grosseiro da Natureza, que a Arte da Maçonaria deve polir e transformar”. Esse desbastado e polimento é justamente o símbolo do trabalho do maçom consigo mesmo, o qual leva a cabo com as primeiras ferramentas que a Ordem lhe oferece depois de receber o influxo espiritual no rito de iniciação: o maço e o cinzel, símbolos respectivos da vontade e a reta intenção. A obra de regeneração não pode levar-se a cabo sem uma vontade firme e perseverante que a deseje, quer dizer, sem uma força interior que influa e transmita seu poder criativo à “matéria relatório” da psique desordenada e caótica, simbolizada pela pedra bruta. Mas essa força interior precisa ser dirigida e orientada pela inteligência, ou melhor, pelo “rigor intelectual”, que “distingue” aquilo que no ser é conforme à realidade essencial de sua natureza (o que esse ser é em si mesmo), pelo que são apenas seus adornos supérfluos e ilusórios. Assim, como o cinzel da inteligência, impulsionado pelo maço da vontade, o aprendiz vai limando e corrigindo as arestas e asperezas de sua pedra bruta, separando o “espesso do sutil”, o “caos” do “ordem”, o “profano” do “sagrado”, operação alquímica que tem que converter-se em um rito cotidiano, em um exercício de cada momento, pois tal separação constitui a premissa fundamental a cumprir nas primeiras etapas do processo iniciático, até que com paciência e perseverança alcance esse aperfeiçoamento de que falávamos anteriormente, exemplificado na pedra cúbica e esculpida.

A iniciação, ou via no Conhecimento, desperta no homem suas qualidades inatas, que permanecem “adormecidas” ou “quietas” em seu estado ordinário, semelhante por isso ao “sonho” e ao potencial. A influência da iniciação não acrescenta nada que o homem não possua já e não forme parte de sua própria essência. Neste sentido, estamos totalmente de acordo com Arturo Reghini quando diz que esse aperfeiçoamento “está ligado ao conhecimento e ao reconhecimento da natureza humana e suas possibilidades inerentes. É necessário realizar o antigo preceito do oráculo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. É necessário procurar em si mesmo o mistério do ser, considerar a vida humana, suas funções, seus limites e a possibilidade de ultrapassá-los, de intervir ativamente em seu curso, não abandoná-lo à deriva, em descobrir e em despertar os germens latentes, os sentidos e os poderes ainda desconhecidos, adormecidos e ocultos. É necessário, enfim, realizar uma obra de edificação espiritual, uma transmutação, alcançar a virtude e o conhecimento para que o miserável verme que repta pela terra se transforme em gloriosa mariposa voando livremente para a justiça”. Para obter esse fim, o mesmo Reghini nos diz que não existe outro meio que “o trabalho maçônico baseado e sustentado pela iniciação simbólica, quer dizer, conferida e obtida através da inteligência dos símbolos maçônicos familiares, a imagem da obra de arte que se realiza com os instrumentos do ofício”.

A expressão “conhece-te ti mesmo” deveria figurar também no frontispício dos templos maçônicos. Na verdade, nada há mais importante para o homem que conhecer sua verdadeira identidade, saber quem há detrás dessa máscara à que chamamos “personalidade”, e que a Maçonaria identifica com os metais do homem velho, “submerso, como dizem os rituais, nas mais profundas trevas”.

Como estamos vendo, a ideia de transmutação tem muito que ver com o processo alquímico, e de fato a “Arte Real” maçônica, desenvolvida através dos três graus de aprendiz, companheiro e mestre, é idêntica à “Grande Obra” da Alquimia, pelo que pode fazer uma transposição totalmente coerente entre o simbolismo alquímico e o simbolismo construtivo e arquitetônico. A pedra bruta da Maçonaria é, neste sentido, quão mesmo a “matéria prima” da Alquimia: tanto em uma como em outra estão contidas de maneira potencial ou virtual todas as possibilidades que conduzem ao homem para sua regeneração, possibilidades que, no caso do aprendiz maçom, começarão a desenvolver-se e a crescer abrigadas à influência espiritual ou intelectual (pois ambos os conceitos expressam o mesmo) transmitida através dos símbolos e ritos da Ordem.

Continua…

Autor: Francisco Ariza

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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