O Simbolismo Maçônico – Parte II

O Símbolo e o Rito

Vamos ver, pois, alguns desses símbolos que constituem, junto aos ritos, o patrimônio vivo e o verdadeiro tesouro da Tradição Maçônica. Em altares de uma maior claridade, podemos classificá-los da seguinte maneira: em símbolos geométricos e visuais; em símbolos sonoros e vocais; e por último em símbolos em movimento, que não são outros que os ritos.

Sobre a importância dos símbolos geométricos e visuais na Maçonaria basta recordar que antigamente se identificava esta com a própria Geometria, o que é perfeitamente lógico pois esta última encontra sua aplicação natural na arquitetura. Efetivamente, a palavra geometria deriva de Geo (terra) e metron (medida), quer dizer “medida da terra”, o que certamente tem muito que ver com o ofício de construtor assim que este delimita um espaço com o fim de realizar sua obra.

Por outro lado, o simbolismo geométrico é, assim como o numérico, uma das heranças mais importantes que a Maçonaria recebeu da tradição pitagórica. Temos que recordar que as confrarias medievais de construtores procediam diretamente dos colégios artesanais da antiga Roma, e que estes tinham recebido grande parte de seus conhecimentos sobre geometria diretamente dos pitagóricos. O certo é que, nas lendas maçônicas, Pitágoras figura, junto ao deus Hermes, como um dos fundadores míticos da Ordem. Efetivamente, nessas lendas tanto Pitágoras como Hermes são os que encontram as duas colunas (assimiladas posteriormente às colunas J. e B. do templo maçônico) onde se gravou todo o saber que remontava às próprias origens da humanidade, e entre as que se encontravam as artes e ciências da Cosmogonia. Como diz a este respeito Federico González no artigo “Tradição Hermética e Maçonaria”, aparecido no mesmo Nº 13-14 de SYMBOLOS, essas duas colunas “configuram os dois grandes afluentes sapienciais que nutrirão a Ordem: o hermetismo que assegurará o amparo do deus através da Filosofia, quer dizer, do Conhecimento, e o pitagorismo que dará os elementos aritméticos e geométricos necessários que reclama o simbolismo construtivo; deve-se considerar que ambas as correntes são direta ou indiretamente de origem egípcia. Igualmente que essas duas colunas são as pernas da Mãe Loja maçônica, pelas quais é parido o Neófito, quer dizer, pela sabedoria de Hermes, o grande iniciador, e por Pitágoras, o instrutor gnóstico.” Poderíamos então dizer que a Maçonaria é a confluência natural dessas duas correntes constitutivas da Tradição Unânime, e que nela são só uma, conformando sua identidade e seu ser.

Voltando para simbolismo geométrico, devemos considerar dentro deste às próprias ferramentas ou utensílios. Concretamente falamos do nível, do prumo, do esquadro e do compasso. Todas elas estão relacionadas diretamente com as formas geométricas fundamentais. Por exemplo, o prumo é claramente um símbolo da vertical, e o nível da horizontal. No simbolismo construtivo ambas são indissociáveis e se necessitam mutuamente, pois a verticalidade do edifício, quer dizer, sua perpendicularidade, vem sendo dada pelo perfeito nivelamento do mesmo. E por sua vez esse nivelamento é a resultante de um equilíbrio que se consegue obrigado à presença constante de um eixo vertical, que assinala o “justo meio” que impede qualquer desnivelamento. O prumo e o nível representam então os dois eixos de coordenadas que tornam possível o levantamento harmonioso de toda a construção.

O mesmo ocorre com o esquadro, que se forma pela união de uma vertical e uma horizontal. Com esta ferramenta também construímos a figura do quadrado, e igualmente a cruz se unirmos dois esquadros por seus vértices respectivos. Ambas as figuras são inseparáveis da ideia de quaternário; assim: os quatro elementos, os quatro pontos cardeais, as quatro estações, os quatro períodos cíclicos da humanidade, as quatro fases da lua, os quatro períodos da vida humana, etc., quer dizer tudo que é relacionado com a terra e o terrestre. Em realidade o esquadro é um ângulo reto, e ele está destinado a “esquadrar” a pedra durante seu processo de polimento, depois de ter sido trabalhada pelo maço e pelo cinzel. Recordemos, enfim, que em latim esquadro se diz “norma”, indicando assim a ideia de ordem, ou de “enquadramento” que faz possível a ordem, especialmente a do pensamento, que se faz una com a Inteligência que reflete, que está simbolizada pelo compasso.

Quanto a esta última, é óbvia sua relação com o círculo e com todas as figuras que tendem à circularidade. Mas as formas circulares sempre são geradas a partir de um centro prévio, que é precisamente o que assinala um dos dois braços do compasso, aquele que permanece imóvel enquanto o outro gira a seu redor. O centro da circunferência seria, pois, uma imagem simbólica do Princípio, e a circunferência mesma, uma imagem por sua vez da multiplicidade, da manifestação, surgida ou gerada pela irradiação desse princípio, que permanece não obstante imutável enquanto tudo gira, troca e muda a seu redor. Por isso o compasso é um dos símbolos que se associam diretamente com a atividade criadora do Grande Arquiteto, como o testemunham numerosas gravuras onde lhe representa com um compasso na mão riscando o plano de sua obra, quer dizer do cosmo.

Outras duas figuras geométricas importantes são o Delta Luminoso (de forma triangular) e a Estrela de cinco pontas ou Estrela flamejante, símbolos respectivos do Grande Arquiteto e do homem plenamente regenerado que retornou ao centro de si mesmo. Dá-se a circunstância de que tanto o Delta como a Estrela flamejante são de origem pitagórica, pois estão intimamente relacionados com a Tetraktys (que tem também forma triangular), e com o Pentalfa ou Estrela pentagramática respectivamente, signo distintivo, este último, da confraria pitagórica.

Entre o segundo grupo de símbolos, os sonoros e vocais, encontramos as “palavras sagradas” e as “palavras de passe”, assim como as lendas relatadas nos distintos graus. Tudo isto forma parte do ensino oral da Maçonaria, que se complementa perfeitamente com o ensino visual próprio do simbolismo geométrico. As “palavras sagradas” se denominam assim porque representam diferentes nomes do Grande Arquiteto. Cada grau maçônico está simbolizado e tem sua própria palavra sagrada. O significado dessa palavra dá sentido e orienta os trabalhos rituais e simbólicos que se desenvolvem em cada um desses graus. Por isso é tão importante para o maçom conhecer esse significado, pois para ele será um ponto de referência axial constante e permanente que lhe guiará ao longo de todo seu processo iniciático.

Não menos importantes são as “palavras de passe”, assim chamadas porque elas permitem “passar” de um grau a outro, o que as relaciona diretamente com a simbólica de passagem ou de trânsito, comum a todas as tradições iniciáticas. A expressão “estar em posse da palavra de passe” quer dizer que o maçom culminou uma etapa dentro de seu processo de Conhecimento, que progrediu nas “vias que lhe foram riscadas” desde tempos antigos por sua tradição, e que portanto está preparado interiormente para receber o “aumento de seu salário”.

E por último estão os símbolos em movimento, que como dissemos não são outros que os ritos. O rito põe em prática a ideia que o símbolo expressa. Representa o desenvolvimento e a vivência dessa ideia, quer dizer, de fazê-la efetiva mediante sua permanente reiteração. De nada serviria compreender o que o símbolo manifesta se depois essa compreensão não se viver como uma realidade verdadeiramente transformadora. Por isso mesmo é tão importante o rito dentro da Maçonaria, pois sem essa constante vivificação dos símbolos os trabalhos que se fazem na loja maçônica careceriam de toda “força e vigor”, convertendo-se em meras alegorias quando não em atos puramente mecânicos. Neste sentido a meditação, a concentração e o trabalho sobre os símbolos constituem também uma forma do rito, pois o fim último deste é gerar um estado apto para a compreensão das realidades superiores veiculadas pelos símbolos. Diria-se, pois, que o rito, realizado nestas condições, é uma “meditação em ação”, e isto pode fazer-se tanto no interior da Loja maçônica, como no mundo, que é a loja universal.

Poderíamos então dizer que a Maçonaria é ela mesma um rito, daí que também se denomine “a Ordem”, como sinônimo da própria ordem cósmica. Por isso mesmo, na Loja maçônica  (imagem simbólica dessa ordem) tudo se cumpre segundo o rito, e todos os gestos e signos rituais realizados no interior da mesma têm que ser considerados como o que são: veículos transmissores do ensino simbólico e de sua influência regeneradora. Verdadeiramente não há maior rito que a busca do Conhecimento, pois nela o homem encontra o próprio fundamento de sua existência. Essa busca é um “ato consciente”, e tudo o que a partir de então é realizado, experimentado e vivido durante seu desenvolvimento passa a ser significativo, a ter um sentido que nos “orienta” no labirinto deste mundo perecível e nos impulsiona para o encontro de nosso verdadeiro ser e origem.

Continua…

Autor: Francisco Ariza

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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