Os Grandes Ensinamentos da Maçonaria – Capítulo II

Porque a Maçonaria utiliza-se de um ritual e do simbolismo

A repetição é da essência do ritualismo; e como nada pode ser  mais fora de moda ou tolo do que a repetição descobrimos que muitas pessoas pensam no ritual como algo como sem sentido algum. Fazer os mesmos sinais várias vezes, dizer as mesmas palavras da mesma maneira, e muitas vezes nem mesmo saber o significado dessas ações e dessas palavras, não é um pouco infantil? Este assunto chegou ao lar de inúmeros maçons, especialmente maçons norte-americanos, pois nesse país temos tão valorizada a originalidade, a novidade, e a individualidade que todos nós temos uma tendência a desprezar e temer o cerimonial. Pode ser bom para nós refletirmos um pouco sobre ritual, o que ele é, o que ele faz por nós, e porque todos nós devemos, mesmo sendo individualistas, simples e inteligentemente mantê-lo como peça essencial para o perfeito funcionamento de uma loja maçônica.

O ser humano foi moldado por um universo que ama a repetição e o cerimonial; a inspiração para o ritualismo está em toda parte. Noites e dias eternamente sucedem uns aos outros; as quatro estações continuam com seus movimentos, vindo uma depois da outra, como as viagens do candidato em sua na Iniciação : as estrelas se movem em suas órbitas fixas, as marés sobem e descem, luas aumentam e diminuem, o crescimento é seguido pela decadência, o nascimento é sucedido pela morte, e até mesmo o cometa, uma vez que se considere o mais caprichoso de todos os principais objetos da criação, foi criado para retornar em cima de seu próprio caminho para sempre. Como o homem tornou-se gradualmente ciente dessas mudanças cíclicas e, quando ele descobriu como sua própria vida estava ligada a elas, ficou admirado, e aprendeu como acompanhá-las, a mover-se nos ritmos da dança, criou cerimoniais religiosos solenes, na esperança de descobrir os segredos do universo.

A partir de então, a nossa sociedade foi preenchida com os elementos dessas cerimônias. Quando a criança nasce, temos um batismo; e após alguns anos o crisma; ensina-se a ajoelhar-se ao fazer suas orações; é instruída sobre como comportar-se nas refeições: quando chega o dia casamento os amigos e parentes são convidados para uma cerimônia formal; e a morte é selada por um “serviço” que deve geralmente ser tão parecido com a cerimônia em uso universal quanto possível. Quando nos encontramos, ou partimos, nos cumprimentamos com um apertar das mãos; o cavalheiro levanta as pontas do chapéu para a senhora, e todos nós nos levantamos quando um convidado ou um estranho entra na sala. Nossos tribunais e as assembleias legislativas têm sua próprias cerimônias, aprendemos a manter o passo quando em marcha para a guerra, e a reunião pública mais informal insiste em alguma aparência de ordem. Todas essas coisas são da essência do ritual, e difícil seria dar uma justificativa puramente racional para eles. Há algo em nós que exige tudo isso.

Embora os psicólogos ainda não tenham explicado esta tendência há uma vantagem nisso em seu aspecto exterior que todos nós podemos ver: o ritual leva o homem a pairar fora de si mesmo, e lhe dá uma sensação de uma personalidade maior.

O garoto que toca em uma banda, o soldado que marcha com seu pelotão, o jovem treinando com sua equipe de atletismo, o adulto em um desfile – nestes, e em incontáveis casos semelhantes, o indivíduo esquece de si mesmo, e é levado pelas emoções que parecem maiores e melhores do que seus próprios, comuns e mesquinhos sentimentos individuais. A ampliação da consciência individual em uma consciência de grupo, adotando o jargão psicológico, é o segredo da prevalência de cerimônias ritualísticas. Se vamos aplicar este fato ao uso do ritual na loja maçônica seremos mais capazes de valorizar e compreender a sua prática.

Por ter um ritual como base de trabalho a loja está a salvo das caprichos individuais e da ditadura de algum Venerável Mestre. Suponha-se que em cada cerimônia de iniciação ou de elevação de grau seja obrigatório um discurso por parte de algum irmão, ou por um dos oficiais, e que esse discurso seja novo para cada ocasião. Por um tempo isso pode ser interessante, mas depois de um tempo os discursos iriam perder o seu interesse ou se tornariam estereotipados, simplesmente porque há poucas pessoas que possam fazer um discurso bem sucedido. O mesmo aconteceria a qualquer iniciação que force a dispensa de se seguir um ritual: a incapacidade individual, ou da comissão encarregada da cerimônia; ou o mau humor de alguém determinado a ter as coisas à sua própria maneira, com a total descaracterização da cerimônia em si, deixaria a todos com a sensação de desgosto. Muitas igrejas passam por essa situação atualmente, naqueles grupos religiosos que dependiam inteiramente do seu pregador e adotaram a exclusão do ritual religioso, a participação está caindo. O indivíduo logo se desgasta, mas um ritual rico e multifacetado, que evoluiu através de gerações de uso, repleto de luzes reluzentes, sombras e mistérios, nunca está à mercê dos caprichos ou falhas individuais.

Mas não se deve supor que um ritual, mesmo o nosso ritual maçônico, exclui a novidade, e as possibilidades do indivíduo acrescentar sua parte à riqueza de tudo isso, pois há sempre espaço para os membros da loja aprimorarem os trabalhos através da interpretação correta das instruções, pela sua capacidade de oratória, por meio de seus sinais, por seus trajes adequados, e cada loja tem a oportunidade de mostrar o seu comprometimento por meio de melhores equipamentos e mobiliário. Além disso, para aqueles que são capazes de fazer um discurso geralmente há muitas oportunidades. A repetição de nosso ritual não tem como finalidade destruir a individualidade mais do que a repetição constante de “Rip Van Winkle” (1) tem em destruir a personalidade cativante de Joseph Jefferson.

Também pode-se notar que um ritual é muito mais rico em significado e poder do que seria a produção de uma só pessoa;  sua sabedoria vem de muitas mentes, e de anos de prática; sua ciência foi aprimorada ao longo do tempo: há nele algo muito mais profundo do que qualquer trabalho de uma pessoa apenas.

É por meio do ritual que a Maçonaria mantém a sua própria identidade. Por que algumas de nossas igrejas protestantes se tornaram irreconhecíveis após a sua criação? Porque foi permitido que cada líder fizesse as coisas mais para atender a si mesmo e as suas vontades: uma sucessão de interpretações pessoais tem sobreposto a mensagem original. Aconteceria o mesmo conosco se não fosse o nosso ritual: ele mudou, mas levemente, e pouco a pouco, de modo que hoje, em uma cerimônia de Iniciação, o neófito vai dizer e fazer muitas coisas que outros neófitos disseram e fizeram várias centenas de anos atrás. Além disso, é uma coisa gratificante para o rapaz que está sendo iniciado sentir que o que ele está fazendo em uma loja nos Estados Unidos. algum outro jovem está fazendo em qualquer lugar do mundo, e que outros homens também irão fazer nos anos que estão por vir. E quando aquele jovem estiver presente, já na sua velhice, na cerimônia de iniciação de seu neto favorito, as lágrimas virão aos seus olhos ao relembrar o que ele viu e ouviu na noite de sua própria iniciação. Assim, é que é, por meio do ritual a Fraternidade conserva a sua identidade e se mantém sólida para seus membros em todo o mundo, sendo capaz de não sucumbir pelas ações do tempo.

Além disso, podemos dizer, embora haja pouco espaço para desenvolvermos um assunto tão rico, que a repetição eterna do mesmo ritual significa que cada palavra torna-se associada na mente de cada Maçom com experiências diversas. O componente presente na vida da loja é como uma rocha sólida sobre a qual surge o coral, ou como uma antiga mansão que reúne todas as memórias das gerações que ali viveram.

E esse elemento ritualístico, sendo algo que quase qualquer homem pode aprender, não exclui ninguém de participar das atividades da loja. Se cada reunião da loja significasse um novo discurso, ou um novo programa, ou alguma outra novidade, então apenas alguns homens talentosos poderiam estar presentes.  Por outro lado, seguindo o ritual todos os irmãos estarão presentes e unidos na bateria de alegria quando um candidato é trazido à luz.

Apesar de dizer anteriormente que não teríamos mais espaço para desenvolver nossos pensamentos sobre o assunto, acredito que o abordamos de maneira clara. Espero que seja o suficiente para lembrarmo-nos do grande tesouro que dispomos em nosso ritual, pois nele estão as riquezas extraídas de todas as partes do mundo e de todas as eras, e para compreendermos o grande segredo da vitalidade da Ordem, de sua imortal juventude, e – isto talvez não tenha ficado claro – de sua original e ímpar forma de desenvolvimento pessoal. Pois não pode haver liberdade para um homem onde não há também regras mais rígidas.

Se todas as estrelas decidissem inovar, e passassem a mover-se livremente como os pássaros no ar; se todas as coisas comuns a nós repentinamente desejassem serem diferentes do que realmente são e começassem rapidamente a transformar-se, teríamos uma grande balbúrdia no Universo, e nessa “liberdade” atrapalhada de se fazer o que se quer, desapareceriam a espontaneidade, a originalidade, e a liberdade individual, já que onde não existe ordem não pode haver liberdade.

Do simbolismo ainda mais pode ser dito do que do ritualismo, pois tem sido mais universal o seu uso e é capaz de uma aplicação muito mais ampla. Símbolos foram a primeira forma de comunicação do homem. Antes de letras e palavras foram inventadas imagens, criadas para transmitir os pensamentos, e diversos sinais foram criados para representar diversas coisas. Quase toda a linguagem primitiva é uma linguagem simbólica, pois “a voz do sinal”, como Robert Freke Gould descreveu-a, pode ser compreendida por crianças e selvagens. Mesmo hoje, após o uso de palavras ter sido aprimorado quase que infinitamente, símbolos permanecem em uso constante. O pedaço de seda preta na porta é o sinal de morte; um anel representa o compromisso entre um homem e uma mulher; o lírio significa Páscoa e imortalidade, e o emprego de botões, emblemas, brasões, bandeiras, e a lista continua, interminável. Se alguém pudesse registrar uma vida humana em cada detalhe de sua existência desde o nascimento até a morte, ele iria descobrir que essa vida é toda coberta com símbolos, como tenda dos índios norte-americanos.

Não há nada magistral ou simples no uso de um dispositivo tão universal, e não há qualquer dificuldade em descobrir por que é que os símbolos são tão naturais para todos nós.

Por um lado, um símbolo não se esgota tão rapidamente quanto as palavras. Há mistério e profundidade nele, uma infinidade de pequenas sugestões, um incentivo a novas abordagens de pensamento. Suponha, por exemplo, que usemos uma série de discursos para transmitir a um candidato a lição incutida pelo drama de Hiram Abiff! As meras ideias abstratas poderiam ser assim expressas, mas quanto elas perderiam do poder sobre a mente do homem! Da forma que é, nenhum homem pode presenciar a apresentação simbólica da tragédia, mesmo pela centésima vez, sem encontrar-se em um novo estado de espírito, ou com novos pensamentos. Há algo inesgotável no símbolo, de modo que ele ainda estará presente mesmo após o morte de muitas línguas. Ele continua nos dizendo: “Você adivinhou corretamente este significado, mas eu tenho mil outros significados que ainda não foram decifrados.”

Isso sugere mais uma das melhores utilizações de simbolismo. Nós não podemos aprender a mensagem de um símbolo com uma mente meramente passiva e receptiva, porque é do gênio do simbolismo se esconder, como bem o é se revelar. Quando uma coisa é transmitida a nós em palavras simples, ou em imagens simples, como se vê nos filmes, não há necessidade de se fazer um grande esforço para compreender tudo; mas quando um símbolo é colocado diante de nós, e nós temos uma razão para proteger a sua mensagem, nossas mentes devem agir, para que nenhum de seus significados permaneça desconhecido. Seu valor para nós é como o ouro escondido na montanha – o mineiro deve cavar encontrá-lo. Isto é uma virtude, porque muitos homens são amaldiçoados pela recusa em usar suas próprias habilidades. Eles passam por toda a sua vida repetindo pensamentos de outros homens, e essa é uma vida necessariamente sem prazer algum de fazer novas descobertas, que é uma das alegrias  para os que têm presença de espírito.

Todas as grandes coisas, amor, amizade, morte, imortalidade, religião, patriotismo, etc., falam-nos através de símbolos. A vibração da bandeira na frente de uma coluna de soldados nos motivará mais que qualquer discurso: a cruz irá sugerir mais sobre a morte do que qualquer sermão. Talvez isso seja porque o símbolo tenha vários caminhos através dos quais pode alcançar a mente; ele está presente nas características do quadro, dos atos, dos sons, das palavras, e das cerimônia, e por causa de sua ampla utilização e antiguidade encontram-se sobre ele combinações incalculáveis.

Um símbolo, a menos que seja um inventado por algum indivíduo de uma maneira puramente arbitrária, é geralmente entendido em toda parte; ele fala uma linguagem universal. Um círculo para nós significa “infinito”, porque ele não tem começo nem fim. Significa a mesma coisa na Índia e no Japão.E significava a mesma coisa para os homens que viveram antes do alvorecer da história. a Maçonaria nunca poderia ter-se tornado uma instituição mundial se não tivesse em seu ritual um conjunto de símbolos, se não tivesse aprendido há muito tempo a transmitir seus ensinamentos por meio de emblemas e símbolos. Se seus ensinamentos fossem estabelecidos apenas em palavras, essas teriam que ser colocadas em um livro, esse livro teria que ser traduzido em diversas línguas, o que nunca seria um processo satisfatório; falar através de símbolos, é falar a “língua do povo” em todos os lugares.

Além disso, o caráter simbólico do ensino da Maçonaria tende para que a tolerância de pensamento, que é uma das suas bandeiras. Não pode haver interpretação dogmática e oficial de um símbolo para obrigar o parecer favorável disposto por qualquer mente; a mensagem dos símbolos é, em virtude da sua própria natureza, fluida e livre, de modo que todo homem tem o direito de pensar por si mesmo. De professores e estudiosos maçônicos tem havido muitos – Oliver, Preston, Pike, Mackey, e outros igualmente tão honrosos para a nossa história, e estes deram-nos interpretações nobres da Maçonaria, mas nenhum Maçom é obrigado a aceitá-las. Em uma grande Ordem que ensina por meio da “voz dos sinais” nunca pode haver um papa.

O que nos lembra que o simbolismo em si não é uma coisa infalível, e possui toda a sabedoria. Assim como existem livros bons e ruins, e os homens de bem e do mal, por isso existem símbolos bons e maus, e cada um deve manter para com todo o simbolismo uma mente ágil e crítica. Devemos sempre separar o joio do trigo.

Depois de estudar a filosofia do simbolismo, tendo como guia o que foi dito anteriormente, vai ser bom para o estudante para investigar uma outra questão: Que regra iremos usar para interpretar os símbolos maçônicos? O que foi dito sobre o direito de cada membro interpretar os símbolos a sua maneira não quer dizer, naturalmente, que ele sempre tem o direito de interpretar um símbolo maçônico sem nenhuma reflexão, ou que ele jamais poderá descobrir uma verdadeira interpretação, sem levar em conta a devida consideração que outros já fizeram sobre o símbolo em si. Esse procedimento não seria o pensamento livre, mas uma ausência de pensamento. Eu mesmo acredito no princípio histórico da interpretação, e tenho encontrado na prática algumas vozes que compartilham desse pensamento. Quero com isto dizer que, se nos comprometemos a interpretar alguns símbolos, devemos primeiro tentar aprender o que esse símbolo sempre significou para a Fraternidade no passado. Se perguntarmos a nós mesmos, por exemplo, qual é o significado do esquadro e do compasso, devemos tentar descobrir quando esses símbolos entraram em uso na Fraternidade; porque entraram em uso; o que significaram então, e então nós devemos tentar aprender o que a Fraternidade tem entendido por estes símbolos durante os séculos seguintes. Isso vai nos salvar de uma interpretação baseada na ignorância, ou arbitrariedade, ou em nossas próprias manias, e também iria jogar uma nova luz sobre o que a Maçonaria como um todo significa para nós.

Continua…

Autor: H. L. Haywood
Tradução: Luiz Marcelo Viegas

NOTA:

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Os Grandes Ensinamentos da Maçonaria – Capítulo II

  1. Ronaldo José Luiz disse:

    Ir. Luiz Marcelo. Só tenho a oferecer minha gratidão pelo seu trabalho de trazer ensinamentos valiosos para fazermos progressos na maçonaria. Grato, muito grato por tudo….TFA, Ronaldo J. Luiz.

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