Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 1ª Parte

As ignorâncias e as incertezas são os principais obstáculos enfrentados pelos pesquisadores que analisam a história da Maçonaria. Daí a singular complacência a que se permitem os assim chamados historiadores, para com uma verdade obstinada que se esconde atrás de uma sucessão de lendas operativas, templárias, salomônicas, rosacruzes, herméticas, etc., religiosamente repetidas por dois séculos e meio. Pois, apesar de alguns fatos específicos, tudo permanece obscuro quanto à origem da Ordem Maçônica, o que fez com que se levassem adiante muitas colocações do tipo “Parece que…”

O que é chamado de Maçonaria especulativa se organiza em Londres, em 1717. Diz-se que é filha da Maçonaria Operativa. Na realidade, ela sucede uma Maçonaria “aceita”, criada como tal no final do século XVI para admissão, no seio das confrarias de pedreiros, de pessoas estranhas ao meio e que serão chamados, na segunda metade daquele século, de “Maçons Aceitos”. É certo que as Lojas[1] – já que havia Lojas na corporação – de bom grado adotavam um protetor, de preferência um nobre ou religioso, que se tornava responsável pelo trabalho administrativo que o canteiro de obra exigia, pois os trabalhadores eram quase todos analfabetos. Às vezes, este protetor era um capelão, e, mais tarde, fornecedores que gravitavam em torno do empreendimento. Este processo nasceu na Escócia, mas embora naquele país os pedreiros aceitos fossem apenas uma pequena minoria durante o século XVII, na Inglaterra aconteceu o contrário, criando-se Lojas estritamente “aceitas” e que, desde os primeiros anos, já não tinham mais profissionais do ofício. Parece que a mais antiga remonta a 1600, mas, a partir do segundo quarto daquele século, a sua existência é comprovada por documentos indiscutíveis. Elas coexistiram com as semi-operativas, “semi-aceitas” e viram, pouco a pouco, desaparecerem os profissionais da força de trabalho destas, devido à diminuição dos grandes canteiros de construções religiosas e feudais, que foram se transformando, com algumas exceções, em lojas especulativas entre 1700 e 1730. Então, surge a pergunta: que justificativa dar ao fato de ter estranhos ao ofício integrados aos agrupamentos profissionais, se não existiam lojas, ou se não houvesse ofício a apoiar?

Os documentos não respondem, mas seu conteúdo, confrontado com o clima intelectual da época em que estão inseridos, provavelmente sugere as explicações exatas. Sobre isso há quatro tipos de documentos, rigorosamente autenticados:

  • Primeiro, os manuscritos – cerca de 150 – relativos às condições e as regras que regiam a vida das confrarias de pedreiros, ditos operativos, tendo este termo chegado tardiamente no vocabulário maçônico, no final do século 18. Eles se espalharam a partir do século XV até o início do século XVIII, e é a partir deles que a Grande Loja Unida da Inglaterra fará emitir os famosos e sacrossantos “Landmarks”;
  • Em seguida, as Atas de três Grandes Lojas: a Loja Mãe de Kilwining, que datam de 1598; a Grande Loja de Edimburgo, de 1696 até os dias atuais, sem interrupção; a Grande Loja da Inglaterra, de 1723 aos dias de hoje; além dos muitos arquivos de Lojas do início do século XVIII;
  • Depois, as obras conhecidas como “revelações[2]“, que pretendiam revelar os segredos maçônicos. Muitas vezes panfletárias, demandam uma crítica severa do seu conteúdo;
  • Finalmente, toda a série de rituais, todos os manuscritos, que estão na casa das centenas apenas para período que vai da década de 1750, quando eles surgem, até 1800, e cuja exegese revela, com demasiada frequência, aberrações litúrgicas.

Jamais descobrimos os profundos motivos que fizeram com que, no final de junho 1717, alguns membros de quatro Lojas em Londres formassem a Grande Loja de Londres, que logo viria a se transformar na Grande Loja da Inglaterra. Não sabemos nada sobre a origem dessas oficinas, salvo a sua existência, uma em 1696 e as outras após 1700, e que eram apenas “aceitas”, como mostram as Atas da Grande Loja da Inglaterra que reproduzem seus quadros em 1723. Três delas eram compostas apenas de artesãos e comerciantes, nenhum dos quais tinha direito, após o seu nome, à referência Esquire[3], que indicaria um nível social acima do comum. A quarta Loja, ao contrário, incluía dois duques, três condes, um marquês, três lords, um barão, quatro cavaleiros militares de altas patentes, ministros religiosos, vinte e quatro Esquires, além de George Payne, Desaguliers e Anderson, que não são citados em nenhum lugar antes desta data. Destes, muitos estudiosos, membros da científica Royal Society, onde Newton ainda tinha assento. Quem pode dizer por que esses personagens nobres se associaram com “gente miúda” – sem que esse termo tenha nada de pejorativo – e por que, ao fazê-lo, tomaram emprestado o modesto caminho dos entalhadores de pedra? E por que 1717?

Talvez tenha sido para evitar a confusão que ameaçava se estabelecer em razão do número crescente de Lojas espalhadas especialmente na Inglaterra.

Ou para “ser o centro de união” como iria escrever alguns anos mais tarde o pastor Anderson, sob a direção de Payne e Desaguliers, o que atendia a uma necessidade latente de sociabilidade, depois das tempestades que abalaram o país durante as décadas imediatamente precedentes[4].

Ou como resposta ao desejo de dar uma doutrina para esses grupos praticamente isolados, mas que alegavam a mesma identidade sob a cobertura de um segredo ilusório e inexistente, e que se reuniram para festejar, participando assim do modismo geral impressionante conhecido na época como sociedades lúdicas e baquistas.

Ou, então, para descobrir este segredo que especificava algo muito vago do passado e que era capaz de reconectar os espíritos às certezas tranquilizadoras. Como aconteceu com os estudiosos membros da Loja “Au Gobelet et Au Raisin“, já sujeitos a algum tipo de disciplina científica que, necessariamente, os levava a centralizar, organizar, dirigir. Mas o enigma permanece intocado.

De qualquer forma, a Grande Loja da Inglaterra se espalhou muito rapidamente por todo o Reino, fosse por criar novas Lojas, fosse por reunir as que já existiam e estavam dispersas. Enquanto isso, ela sufocou a Grande Loja de York, operativa e moribunda, e depois a exportou.

Parece que a França foi o primeiro país a se beneficiar da novidade. Primeiro por ação dos stuardistas, escoceses no exílio. De acordo com as memórias de De Lalande, por muito tempo considerado suspeito, mas reabilitado por Pierre Chevallier como resultado de uma pesquisa recente, quatro maçons ingleses conhecidos e claramente identificados, defensores de Charles-Edward Stuart, constituíram uma Loja em Paris, em 1725 ou 1726, sob o nome de Saint- Thomas, em memória de Thomas Beckett. Charles Radclyffe, futuro conde de Derwentwater, em 1731, e que mais tarde se tornou Grão-Mestre das lojas francesas, foi, provavelmente, Mestre de Cerimônia e Venerável da Loja. Jamais soubemos onde foi recebido maçom, ou mesmo se ele o foi. Supõe-se que Ramsay teria dado a ele tal condição, embora este último tenha sido admitido em março de 1731 na Loja Horn, de Londres, e Radclyffe tenha nascido em 1693 e deixado a Inglaterra em 1716. Quanto a Maclean, também Grão Mestre após o Duque de Wharton (1728-1731) – e antes de Derwentwater, que assumiu o posto em 1736 – nasceu em Calais, viveu em Edimburgo até 1721, depois em Paris (1721-1726), voltou a viver na Escócia entre 1726 e 1728, e retornou à França, onde serviu no exército francês. Não se sabe onde foi recebido maçom.

O estabelecimento da Maçonaria de deu lentamente durante os anos seguintes à criação da Loja Saint-Thomas. Isso ainda é muito confuso. Se nos ativermos apenas aos documentos autênticos, duas novas lojas nasceram, uma em 1729 – a Arts Sainte-Marguerite – e outra em 1730, embora, de acordo com o registro da Grande Loja da Inglaterra de 17 de março de 1731, tenha sido constituída regularmente em 03 de abril de 1732, sob o número 90 e a denominação de “The King’s Head” Butcher Row, at Paris, que poderíamos traduzir como ‘”Sob a Ensígnia do Rei” Rue de la Boucherie’. Vemos nela a Loja Saint-Thomas em Louis d’Argent, ou Saint-Thomas no 2, porque veio de uma divisão da primeira Loja com esse nome, ou ainda “Au Louis d’Argent”, devido ao fato que os nomes King’s Head[5] e Louis d’Argent[6] devem ter tido origem na moeda de prata usada na época, que trazia estampada a imagem do rei da França. Em seguida vem a Loja do duque de Richmond, sabendo-se que ela estava em funcionamento em 1734, fosse em Paris ou em Aubigny-sur-Nère, na antiga província de Berry, na casa de Louise Kéroualle, Duquesa de Portsmouth, onde recebeu Desaguliers, Montesquieu e outros. Depois vem a Loja de Bussy-Aumont, de 1735, e a Loja Constos-Villeroy, cujo nome vem de dois de seus veneráveis, de 1736.

Quanto às Lojas das províncias, as encontramos em Bordeaux (1732), em Valenciennes (1733), em Metz (1735) etc. De acordo com a Tabela de Lojas do Reino de França, de 06 de novembro de 1744, havia, desde 1726, 20 Lojas em Paris, 19 nas províncias e, surpreendentemente, 5 Lojas militares, ou seja, 44 no total. E é a partir desse momento que o que viria a se tornar a Ordem Maçônica na França ganhou ímpeto.

Não podemos dizer quando foi formada a primeira Grande Loja da França. O mais antigo documento conhecido, datado de 1705, não a menciona. Seu título: Règles et devoirs de l’Ordre des Francs-Maçons du Royaume de France[7]” e nele MacLean é chamado de “atual Grão-Mestre da Mui Honrada Fraternidade dos Franco-Maçons do Reino de França”, e seu antecessor, o Duque de Wharton, de “Grão-Mestre das Lojas do Reino de França”. E também há o texto que autoriza o Barão Scheffer a formar Lojas na Suécia, que dizia: “… eles serão subordinados à Grande Loja da França”, indicando que a congregação “em Grande Loja ” era nada menos que a reunião dos veneráveis oficiais e vigilantes de algumas ou de todas as Lojas de Paris sob a presidência do Grão-Mestre. Mas nem os regulamentos de 1743, nem as constituições definidas na Loja de Lodève, em 1744, nem os estatutos de 1745 preparados para a Loja Saint-Jean de Jérusalem de Paris, nem mesmo os de 1755, mencionam a Grande Loja da França como autoridade dirigente suprema. As Lojas, em sua quase totalidade, especialmente as da província, colocavam-se sob a obediência do Grão-Mestre do qual buscavam proteção e, especialmente, garantia de regularidade, critério fundamental na época. Esta tendência se generalizou a partir de 1743, após o Conde de Clermont ter assumido o Grão Mestrado. Foi por seu incentivo que foi estabelecido “… no segundo dia da primeira semana do terceiro mês do ano da Luz de 5747 e 1747 da era vulgar” o documento que iria consagrar a hegemonia de um órgão central de todas as Lojas do Reino da França, que parece ter escapado à sagacidade dos pesquisadores.

“Regulamentos da Mui Respeitável Grande Loja da França, estabelecidos por todas as Lojas regulares do Reino, sob os auspícios do Mui Sereníssimo Irmão Louis de Bourbon, conde de Clermont, Grão-Mestre da Ordem na França”.

Este é um manuscrito de 15 páginas, de números 36 a 50, com 121 itens numerados de 1 a 121, que termina com as seguintes informações:

“Ato deliberado e aprovado (sic) (na) reunião Loja T.R da França regularmente no segundo dia.

Cópia compilada (sic) por nosso secretário-geral do documento original, assinado por procuração, Labadie.

Extraído da cópia enviada para o Loja de la Douce Egalité do Oriente d’Avignon”.

Nada se sabe da Loja de La Douce Egalité, cuja existência, no entanto, é confirmada por outros dois documentos. Labadie (ou Labbady ou Labady) mestre da Loja l’Ecossaise de Salomon, personagem conhecido e agitado, foi substituído por providência do secretário-geral da Grande Loja da França, Zambault, em 1765. Não podemos, com essas simples informações, definir uma data específica para esta cópia. O texto de 1747 é importante na medida em que determina pela primeira vez um procedimento para a identificação de todas as Lojas do Reino e seus membros, dando-lhes “… constituições e estatutos gerais para estabelecer a uniformidade do Trabalho” encarregando-se ela, Grande Loja, de repassar a Tabela Geral da Obediência a seus componentes. Além disso, uma série de medidas fixando minuciosamente o funcionamento das Lojas, estabelecendo as relações que poderiam ter entre si e com a Grande Loja, as condições para a sua regularidade e a de seus obreiros. Através dos artigos um embrião de Secretaria Administrativa, com seis inspetores, que circulou por toda a França, e foram reembolsados de suas despesas o tesoureiro, o secretário etc.

O texto de 1747 não tem nada em comum em sua redação com o das versões de 1755 e 1760, nem mesmo em suas principais disposições, e estes dois últimos estatutos parecem ignorar que havia uma Grande Loja da França. Apenas em 19 de maio de 1763 foi criado o primeiro selo, ao mesmo tempo que surgem os novos estatutos que institucionalizarão a Grande Loja da França. Ainda assim, até a criação do seu sucessor, o Grande Oriente – que irá se instalar em 12 de agosto de 1774, alugando as instalações do Noviciat des Jésuites – ela não possuirá secretariado permanente ou qualquer lugar para seus arquivos. As reuniões se davam na casa dos membros que se dispusessem a recebê-las.

Embora vinda da Inglaterra, em nenhum momento a maçonaria francesa teve uma Grande Loja inglesa da França, isto é, uma Grande Loja Provincial da França sob controle da Grande Loja da Inglaterra, embora que esta última não tenha deixado de reclamá-la. Outra constatação, e um tanto estranha: em nenhum lugar na sucessão de regras e regulamentos, encontramos qualquer seção que institui a Ordem Maçônica, dando-lhe uma meta ou um propósito. Os textos são destinados apenas a determinar as condições de regularidade administrativa das Lojas e seus membros. Nem os “statuts de l’Ordre Royal de la maçonnerie en France“, primeiro ato legislativo do Grande Oriente da França, em 1773, nem os estatutos de 1777 e 1787 da segunda Grande Loja da França – chamada de Clermont, dissidência do Grande Oriente ocorrida após a supressão, por esta última, da inamovibilidade dos Veneráveis de Loja – ou os textos a partir de 1806, mostram uma vocação para a Maçonaria. Talvez se satisfizessem com o que dizia o Livro das Constituições de Anderson e, assim, não parecem estar muito preocupados. É por isso que, em 1776, uma circular do Grande Oriente proclamava: “Nosso objetivo consiste em estabelecer, entre os nossos adeptos, uma comunicação ativa do sentimento de fraternidade e ajuda de todos os tipos, em fazer reviverem as virtudes sociais, em recordar as práticas, em tornar, enfim, nossa associação útil para cada um dos indivíduos que a compõem, e útil para a própria humanidade.” Portanto, só em 1826 um texto legal especifica formalmente o propósito da Ordem: “Da Constituição, art. Primeiro: A Ordem dos Maçons tem por objetivo o exercício da caridade, o estudo da moral universal, das Ciências e das Artes, e a prática de todas as virtudes.”

Será que isto significa que durante um século as lojas trabalharam no vácuo? As atas que dão conta da atividade das oficinas e da obediência justificam essa dúvida. A solidariedade para com os irmãos necessitados era real os atos de caridade e se estenderam rapidamente em favor dos pobres e desfavorecidos. Com a evolução dos rituais, a recitação de catecismos introduzirá a afirmação de regras morais que maçons se obrigam, pelo menos teoricamente, a observar. No entanto, parece que não havia obras no sentido maçônico moderno do termo. Isolados, e tardiamente, alguns apartes de irmãos oradores mostravam um desejo de reflexão, sem que obtivessem resposta. Ao contrário, tudo mostra que a vida secular não perdeu nenhum dos seus atributos.

E então surge a questão da natureza da mensagem que a Maçonaria trazia aos homens e que foi capaz de atrai-los, independentemente da sua condição, para que se tornassem maçons. O que nos leva ao passado, muito longe no tempo.

Continua…

Autor: André Dore
Tradução: S. K. Jerez
Publicado originalmente em setembro de 1979

Notas

[1] Neste caso, Lojas na sua acepção original, ou seja, de Alojamentos (N.T.)

[2] Traduzimos por revelações o que o texto original chama de divulgations. Talvez pudesse ter sido traduzido por vazamentos. (N.T.)

[3] Escudeiro, em inglês. (N.T.)

[4] A Guerra Civil Inglesa, na década de 1640 e a Revolução Gloriosa, na década de 1680. (N.T.)

[5] Cabeça do Rei (N.T.)

[6] Louis de Prata (N.T.)

[7] Regras e Deveres da Ordem dos Franco-maçons do Reino da França (N.T.)

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 1ª Parte

  1. adnir roque disse:

    Muito bom.. perfeito e vem de encontro com nossa expectativa elucidando este emaranhado de informações contraditórias… Obrigado meu amado irmão.

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