Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 4ª Parte

Painel do Grau de Aprendiz – 1744

A iconografia começa por volta de 1740: painéis de Loja para os diferentes graus, gravuras de recepção, importantes pelo que aportam em complementação aos textos. As figuras extraídas da L’Ordre des Francs-Maçons Trahi (1742), do Catéchisme des Francs-Maçons (1749) e da La Franc-Maçonnerie Démasquée (1751) enriqueceram todas as obras publicadas posteriormente. Hogarth e Watson divulgaram aspectos pouco conhecidos, às vezes imaginados, da vida das Lojas na Inglaterra. A partir de 1750, os aventais maçônicos, magnificamente bordados, se revelaram verdadeiros “livros mudos”, trazendo, para a sagacidade dos curiosos, todo o simbolismo de sua época.

De 1700 a 1725, as Lojas se reúnem em tabernas das quais também obtêm seu nome. Na França, elas se veem sob a proteção de um santo, geralmente aquele cujo prenome era igual ao do Mestre da Loja, e começam a partir de 1735. O mundo profano não era adequado para reuniões, e, sendo assim, precisavam sacralizar locais onde nenhum dos elementos herdados do século anterior existia. Isso foi remediado pelo painel da Loja. A data de seu aparecimento é incerta. Mas os textos indicam que no primeiro quarto do século XVII a imagem da Loja era desenhada no chão, com giz e carvão, sendo apagada no final da reunião. Tinha a forma de uma cruz e se tornou “alongada” com “…as inovações introduzidas recentemente pelo Dr. Desaguliers e alguns outros modernos” (fim de uma citação de 1726).

Sacrílegos, eles substituem o giz e o carvão por fitas, tachas e letras móveis. Os tapetes das casas senhoriais onde se reuniam as Lojas com certas figuras importantes, explicam o novo procedimento. De acordo com um catecismo da época “as fitas eram brancas e tachadas, com as letras E para Leste e S para Sul”. Mais tarde, a decoração deu lugar a um tapete, e, em seguida, a um painel: nele vemos as colunas de Salomão, o sol, a lua, as ferramentas do ofício, as duas pedras, etc., sem que isso fosse regulamentado por qualquer texto.

Se, no tempo dos “aceitos” a loja era iluminada por uma chama que saía de uma terrina “triangular” na qual se queimava álcool de vinho, os especulativos usavam tochas. Note de passagem que os operativos e aceitos do século XVII nunca usaram o triângulo como um símbolo e que a terrina relatada acima era uma inovação. Segundo manuscritos de 1700 a 1720, as tochas que viriam a se tornar “As Luzes”, eram sempre em número de três, não mais. Para a Loja de Edimburgo, que é primeira a mencioná-las (1698) elas são o mestre, o vigilante e o companheiro. O manuscrito Sloan (1700) dá uma outra versão: são o sol, o mestre e o esquadro. Para o Dumfries (1710), estas três tochas tornaram-se três pilares: o esquadro, o compasso e a Bíblia. Dois textos de 1724 e 1725 dizem que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Depois, um grupo de três textos corajosamente propõe doze luzes que são, na ordem: Pai, Filho, Espírito Santo, o sol, a lua, o mestre maçom, o esquadro, a régua e as ferramentas mencionadas na época. Repare a ausência muito importante da Bíblia e do compasso.

Elas crescem em números, e em meados do século um grau escocês terá oitenta e uma. Sua posição dentro do Loja varia constantemente. Prichard (1730) e o manuscrito Wilkinson (1730) fazem-nas viajar e lhes atribuem o sol, a lua e o mestre da loja. É assim que a França as interpretará de 1730 a 1760. A partir dessa data haverá uma nova variação, e elas serão seis: três grandes luzes, bíblia, esquadro e compasso, e três pequenas luzes, sol, lua e o Mestre da Loja.

Talvez já fossem seis em 1730, quando Prichard e Wilkinson, citados agora, diziam: “três pilares sustentam a Loja: sabedoria, força e beleza”, fórmula vista pela primeira vez em um texto maçônico. Sentença puramente simbólica, sobreposto ao grupo de três luzes, sol, lua e mestre maçom, com a qual elas não se confundem. O destino desses símbolos se tornará definitivo em 1760, quando eles serão, respectivamente, associados ao mestre da Loja, ao primeiro e ao segundo vigilantes. Naquela época, vários dos diplomas das Lojas emitidos para os seus membros continham o lema “Força e Estabilidade”, parecendo que se aplicava à Igreja visando garantir sua perenidade, mas isso só foi encontrado na França e só neste tipo de documento.

Nós não temos nenhuma explicação satisfatória para a presença do pavimento mosaico na Loja apesar de ser um simbolismo bastante óbvio. Parece que na época em que se desenhava o painel da Loja no chão, era preciso enxergá-lo, provavelmente para situar oficiais, companheiros e aprendizes, e assim foram desenhados os quadrados pretos e brancos para distinguir os locais, embora não haja provas disso.

Na Inglaterra, o tapete em mosaico tinha a borda azul e a orla dentada em vermelho, terminada nos quatro cantos por uma borla. Guardará semelhança com a borla dentada que ilustra o Catecismo dos Maçons, edição de 1747, representada por uma longa corda terminado com duas borlas e que rodeia a parte superior do painel? Hiram era o filho de uma viúva. Nós, seus irmãos, somos os “Filhos da Viúva”. Na heráldica francesa, as armas de uma viúva são cercadas pela mesma corda descrita acima, e, a moldura do painel que contém estas armas, decorada com triângulos pretos e brancos. Assim se poderia esclarecer o significado deste símbolo, que tem sobrevivido em relativa obscuridade.

Desde sua origem os maçons especulativos se inscrevem na Ordem cósmica. Provas: o sol, a lua, os quatro pontos cardeais desenhados no painel da Loja, a orientação deste, as direções nas quais se espera que os maçons de desloquem (De onde vindes? Onde ides?), as viagens feitas ao longo da recepção de um candidato no sentido da rotação do sol, a Estrela Flamejante do segundo grau, o céu estrelado, um dossel azul escuro salpicado de estrelas. Tudo isso materializa a vontade de fazer da Loja uma representação do universo. Isso desde 1710, no manuscrito Dumfries no 4 e no manuscrito do Trinity College de Dublin (1711). O catecismo de Prichard em 1730, confirma que, à pergunta: “Qual é a altura do Loja? “, responde-se: “tão ilimitada quanto o céu e suas estrelas”.

O mobiliário da Loja foi mais reduzido. A mesa do Venerável, de nível. O patamar com três degraus virá muito mais tarde com o mestre e o livro; em sua parte inferior, uma pequena mesa baixa em que foram colocados o esquadro e o compasso: no momento do juramento, o candidato pousava o joelho direito sobre essas duas ferramentas, e assim formava um esquadro com a outra perna.

O painel da Loja, já citado, e suas tochas – três ou três grupos de três, igualmente arranjados nos cantos do tapete, de acordo com a época e lugar. Nem cadeiras nem mesas. Os irmãos ficavam em pé e o venerável sentado. Mais para o fim do século, os vigilantes também se beneficiaram de uma mesa cada um, com uma coluna de cerca de 25 centímetros sobre ela.

Quando as circunstâncias permitiam, as duas colunas de Salomão ladeavam a porta da frente: eram encimadas por um capitel (Bíblia, Reis 3 – 15,2) coberto com romãs. Salomão tinha denominado a primeira, à esquerda, de Boaz, que parece ter sido um de seus antepassados, e a outra de Jakin, mas o texto não fornece qualquer explicação. Esquerda-direita, direita-esquerda? A inversão da posição ocorreu na Inglaterra entre 1730 e 1735 de uma injunção que se seguiu à revelação das palavras sagradas para o mundo profano, a fim de evitar sua utilização por personagens que não tinham sido admitidos regularmente.

Uma gravura inglesa, de 1750, mostra uma mesa, enorme, ocupando quase toda a gravura, em torno do qual os irmãos estavam em pé, com a cabeça descoberta, participando da recepção de um aprendiz: numa das extremidades o venerável, malhete na mão e coberto com um chapéu de três pontas, com um livro e um esquadro diante de si. Três pequenas velas em triângulo nos cantos da mesa. A atitude dos irmãos, vestidos com um avental longo, abetas para baixo e muito descontraídos, sem dúvida sem saber o que fazer com as mãos, além de colocá-las nos bolsos. Mais tarde, em 1787, um célebre quadro retrata a entrega de um prêmio ao Irmão Robert Burns, poeta e escritor, durante uma sessão solene da Loja Cannongate de Edimburgo. Os irmãos, em número de três, estão espalhados ao redor da sala. Não ousamos dizer que é o templo, embora haja uma plataforma elevada no Oriente, com três bandejas. De pé, sentados ou descuidadamente deitados, conversando em volta das mesas espalhadas por toda parte. Curiosa imagem de uma reunião maçônica que se parece muito mais com um encontro profano da pequena nobreza, mas eles estavam revestidos de seus aventais e sem colar.

Os aventais eram de couro branco, emoldurados por uma fita azul ou branca, como havia decretado a Grande Loja da Inglaterra, em 17 de março de 1731. Anteriormente, a 27 de junho de 1726, ela havia ordenado que os Mestres de Loja e os vigilantes “usassem as joias da maçonaria” penduradas em uma fita branca em torno do pescoço, os mestres com o esquadro, os vigilantes com o nível e o prumo”. Em 17 de março de 1731, as joias tornaram-se de ouro ou douradas e a fita passou a ser azul. Esta decisão nem sempre foi respeitada, e, em 1739, a Loja Antiquity manteve o “colar verde de acordo com os antigos costumes”. Para outras ele era amarelo, e avental branco, mas emoldurado de vermelho. A joia-compasso é descrita no manuscrito Dumfries no 4, em 1710, e no frontispício das Constituições de Anderson, em 1723, mostrando o Duque de Montaigu, grão-mestre da Grande Loja, passando-a ao Duque de Wharton, seu sucessor. A cor das pontas do compasso em cobre e a do corpo em aço determinaram que, daí em diante, o colar será amarelo e azul, o que o “Trahi” de 1745 também confirma. Tornar-se-á azul em seguida, e aquele do mestre de banquetes continuará a ser vermelho, assim como seu avental. Em 1742, o venerável porta o esquadro e o compasso, os outros oficiais apenas este último. Não era obrigatório, mas é a primeira menção na França deste uso que permanece até hoje.

O colar tinha apenas um objetivo: pendurar as joias e assim distinguir os oficiais. Não tinha qualquer significado simbólico. Em 1759, uma gravura mostra que os colares eram portados da esquerda para a direita, o que parece dizer que ele não era feito para portar a espada em Loja, mas sim simbolizava a Igualdade. Nenhum dos personagens representados nas gravuras, incluindo os oficiais, ostenta luvas.

Continua…

Autor: André Dore
Tradução: S. K. Jerez
Publicado originalmente em setembro de 1979
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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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