O Número 2: A Discórdia

Fato:

“O número dois é um número terrível, o número fatídico. É o símbolo dos contrários e, por consequência, da dúvida, do desequilíbrio e da contradição”.

“Para demonstrar isso, tomemos o exemplo concreto de uma das sete ciências maçônicas, a Aritmética, em que 2 + 2 = 2 x 2”.

“Até na Matemática, o número dois produz confusão, pois ao vermos o número quatro ficamos na dúvida se é o resultado da combinação de dois números dois, pela soma ou pela multiplicação, o que não ocorre com qualquer outro número… Por isso, na Antiguidade, representava o Inimigo, símbolo da Dúvida, quando nos assalta o espírito”.

Texto extraído de ‘Manual de Instruções – Grau 1 – Quinta Instrução: A simbologia dos números ‑ Grande Loja do Estado da Guanabara – Rio de Janeiro, GB 1964’ (atualmente o texto, um tanto modificado, faz parte da Sétima Instrução que também mantém a essência do ensinamento).

Conclusão:

A Unidade é a primeira causa, o principio criador dos números; é o ponto de que se geram as linhas. Sendo só, a Unidade não pode produzir; para isto é necessário que se oponha a si mesma, que se desdobre: assim se obtém o Dois, o número binário. Um é ativo, dois é passivo. Um é Deus, dois é a Natureza. Um é o homem, dois é a mulher. Um é o Ser, dois é o reflexo. Um é a energia absoluta, dois é a oposição, a divisão”. (LOREZN, 1967)

Dois não existe por si só; é o reflexo da unidade. Assim a natureza é o reflexo de Deus, e a mulher é o reflexo do homem…”. (LOREZN, ibid)

O número um vibra com o Sol. Representa criatividade, proteção e benevolência. É o número da ação original, a base iniciadora de todos os outros números… O número dois vibra com a Lua. Representa a imaginação, progenitura e sensibilidade. O número dois é o número da concepção, parição e sonhos…”. (GOODMAN, 1987)

Tanto na obra de Lorezn quanto na obra de Goodman não foram encontrados indícios do número dois ser fatídico, terrível ou traiçoeiro conforme menciona o Ritual, a menos que o antagonismo, a dualidade, ou a oposição de que aqui se está falando o seja!

Até na unidade humana se percebe a dualidade, se percebe o dois: excluindo-se o nariz com suas duas fossas nasais, boca, umbigo e o falo com seu par de glândulas, o resto é em duplicidade, inclusive a boa parte dos órgãos internos são duplos. O dois sempre presente e operante. É fatídico ou mesmo terrível possuir dois pulmões? Dois rins? Dois braços? Onde eles se contrariam? Pelo contrário… Complementam-se! Terrível mesmo é não ter qualquer um dos dois órgãos!

Onde se encontra o desequilíbrio no número dois? Pelo contrário, é ele que estabelece o equilíbrio, ele é um dos pratos da balança da vida…

Para os cabalistas, a primeira letra do alfabeto hebraico, aleph (a), valor numérico 1, simboliza a ideia do homem; já a segunda, beth (b), valor numérico 2, está associada à ideia de habitação… Onde reside a dúvida? Onde a Cabala[1] qualifica o dois como nefasto?

Eliphas Levi, no livro Dogma e Ritual de Alta Magia corrobora esse principio:

“‘a é o homem, b é a mulher; 1 é o princípio, 2 é o verbo; a é o ativo, b é o passivo; a unidade é Boaz; o binário é J\… Essas duas colunas explicam em Cabala todos os mistérios do antagonismo, quer natural, quer político, quer religioso, explicam a luta geradora do homem e da mulher, porque, conforme a lei da natureza, a mulher deve resistir ao homem e este deve atraí-la ou submetê-la.

Onde a Cabala ‘condena’ o dois? Claro que a Cabala ensinada por Enoque ao Patriarca Abraão, este aos seus filhos e netos até os livros de Moisés não poderia ter chegado aos nossos dias com tamanha incoerência!

Ainda na obra de Levi:

O princípio ativo procura o princípio passivo, o cheio é amante do vácuo…”.

A importância do dois se manifesta ao associar a ao primeiro homem, Adão, gerador da fonte de vida manifestada na habitação (depósito) b, isto é, Eva”.

O alfabeto hebraico, coincidentemente(?!) é constituído por 22 letras… exatamente dois dois! E que se reduzem a quatro! Onde reside o inimigo?

A igualdade 2 + 2 = 2 x 2, expansível para as três igualdades 2 + 2 = 2 x 2 = 22, que amplia ainda mais as coincidências matemáticas, não pode ser usada para caracterizar o número[2] dois como terrível, fatídico ou mesmo responsabilizá-lo por qualquer espécie de confusão. Essa feliz coincidência matemática, ao contrário, faz com que o dois seja especial, pois somente ele atende as três igualdades, torna-se desta forma um número extremamente especial, um número para ser idolatrado; ainda mais porque o dois é o único número par que é primo[3]!

O zero, também apresenta  característica similar    ao número dois, ou seja, 0 + 0= 0 x 0, frontalmente contrariando o Ritual! Será que o zero também é fatídico? Um número cruel tal qual o dois?

Algo mais a dizer?

“É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos.” (Orson Welles)

“Para fazer visível a luz, Deus somente supôs a sombra. Para manifestar a verdade, fez possível a dúvida. A sombra é a repulsão da luz e a possibilidade do erro é necessária para a manifestação temporal da verdade”. (Eliphas Levi)

“A Maçonaria não impõe nenhum limite à livre investigação da Verdade e é para garantir a todos essa liberdade, que ela exige de todos a maior tolerância… A Maçonaria tem por fim combater a ignorância em todas as suas modalidades…” (Ritual do Aprendiz Maçom ‑ GLEMERJ ‑ R\E\A\A\, 1995)

Autor: Aquilino R. Leal – M.’.I.’.
Loja Stanislas de Guaita, 165 – REAA – GLMERJ

Nota do Blog:

O irmão Aquilino é colaborador do semanário FOLHA MAÇÔNICA, do mensário espanhol RETALES DE MASONERÍA, e produtor do programa MÚSICA E MEMÓRIA, UMA VIAGEM AO PASSADO, apresentado todas as quartas-feiras das 17 às 18 horas na Rádio Naphtali (http://www.naphtaliwebradio.com). A partir de hoje passa também a ser colaborador do blog O Ponto Dentro do Círculo, com seus artigos sendo publicados toda sexta-feira.

NOTAS

[1] Também se escreve Qabbalah.

[2] Parece mais correto algarismo ou dígito.

[3] Apresenta apenas dois divisores: o próprio e a unidade.

Referências Bibliográficas

  1. Lorezn, Francisco Valdomiro. Cabala: a tradição esotérica do ocidente. São Paulo: Pensamento, 1967.
  2. Goodman, Linda. Os códigos secretos do universo ‑ signos estelares. Rio de Janeiro: Record, 1987.
  3. Levi, Eliphas, Dogma e ritual de alta magia. São Paulo: Pensamento, 1997.
  4. AMORC. O universo dos números. Paraná: Ordem Rosacruz, 1983.
  5. GLMERJ. Ritual do Aprendiz Maçom, Grau I, R\E\A\A\. Rio de Janeiro: GLMERJ, 1995.

Autor: ------

Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com

Uma consideração sobre “O Número 2: A Discórdia”

  1. Parece-me que o 2 tem um lado dark. O prefixo DI de Di-abo está relacionado ao 2 e está presente em várias palavras negativas como DIscórdia, DIsputa, DIvisão, palavras que indicam ou pressupõem dualidade, ruptura com a unidade. Até mesmo a palavra ó-DI-o contém essa sílaba de 2 em si. Os próprios regimes mais di-abólicos e assassinos que já existiram foram baseados no 2, na dualidade, na polarização de opostos: a raça superior x a raça inferior (Nazismo); e a classe oprimida x a classe opressora (Comunismo). O 2 parece estar associado ao Diabo, à quebra da unidade, à ruptura com o 1, com a união de Deus, à des-1-nião. Cs Lewis em Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz fala da importância das polarizações para os demônios. A polarização é um 2. Mas é claro que tudo isso que você colocou é muito interessante. Existem realmente dualidades que não são más e que indicam complemento. Talvez, concatenando isso tudo, o dois seja um número tão dual, perfeitamente dual, que possa significar coisas boas, complementares e normais (dia e noite, homem e mulher, yin e yang) e também coisas más e obscuras (o Inimigo, discórdia, divisão, polarização, desunião). Não sei por quê, mas me vem à mente que Eva (o 2 em relação a Adão, o 1), seguindo as sugestões diversas e opostas às de Deus, feitas pelo Inimigo (o 2) optou por comer do fruto da árvore do conhecimento do Bem… e do Mal… (dualidade, outro 2) e cometeu um pecado e fez Adão pecar também (2 pecados). Falei muita besteira??? PS: não sou de nenhum meio, rito, nem tenho cultura simbólica. São apenas percepções minhas, para as quais aceito correção.

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