A Origem da Alma – Capítulo 3 (2ª Parte)

Os Jônicos e os Eleatas (continuação)

Com outro jônico, Heráclito de Éfeso[21], a cosmologia dos pré-socráticos atinge uma notável profundidade, principalmente pela introdução da “Razão” como arché de todas as coisas. Ou seja, o mundo passa a ser entendido como um cosmos, ou uma ordem racional, porque seu princípio é a própria razão, o chamado Lógos.

Em sua cosmologia, Heráclito aponta, em primeiro lugar, para a perene mobilidade de todas as coisas que são: nada permanece imóvel e nada permanece em estado de fixidez e estabilidade, mas tudo se move, tudo muda, tudo se transforma, sem cessar e sem exceção (REALE, 1993, p.64). O movimento cria tensão, e da tensão entre os opostos nasce a harmonia do mundo, “pois cada contrário nasce do seu contrário e faz nascer o seu contrário”. O um é múltiplo e o múltiplo é um. Essa afirmação nuclear do pensamento de Heráclito não deve ser confundida com aquela vista em Anaximandro. Para este último, há uma unidade primordial que, mantendo-se em sua unidade eterna dá origem à multiplicidade das coisas por meio de movimentos de separação e diferenciação. Ou seja, a unidade primordial não se confunde com a multiplicidade nascida dela. Já, para Heráclito, a própria unidade primordial é múltipla, o um existe enquanto múltiplo (CHAUÍ, p.83).

Dentro de seu estudo das origens, é importante observar que Heráclito foi o primeiro a mostrar com clareza que, para se conhecer a estrutura do cosmos, seria relevante conhecer a natureza da “alma” (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, p.2). Neste sentido, Heráclito fez interessantes averiguações sobre o assunto, que vão além dos seus predecessores. Como os milesianos Tales e Anaxímenes já haviam feito, ele também identificou a natureza da alma com a natureza do princípio, mas, diferentemente daqueles, postulou que seu princípio seria o fogo (REALE, 1993, p.70).

Para Heráclito, a alma é feita de um tipo especial de “fogo”, que percorre todo o corpo fazendo com que este se mova. Não é o fogo comum que conhecemos, mas, sim, um protótipo do que hoje chamamos de “energia” (COOPER, p.109). De acordo com Kirk, Raven e Schofield (p.206), o fogo cósmico puro foi, provavelmente, identificado por Heráclito como éter, substância ígnea e brilhante que enche o céu resplandecente e circunda o mundo: este éter foi amplamente considerado não só como divino, mas, também, como lugar das almas. Deste modo, o fogo foi naturalmente concebido como verdadeiro constituinte das coisas, determinando ativamente a sua estrutura e comportamento, e garantindo não apenas a oposição das coisas, mas, também, a sua unidade. Este fogo foi considerado por Heráclito como centro motor dos processos cosmológicos (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, p.206).

É importante salientar que apenas as almas superiores racionais são feitas deste fogo cósmico. Sem esta distinção, pareceriam contraditórias as passagens onde Heráclito nos fala da alma como sendo uma mistura de água, ar e fogo. Existe, portanto, uma constituição anímica formada pelos três elementos, mas, conforme palavras do próprio Heráclito, “a alma será tanto mais racional quanto mais nela prevalecerem as medidas de fogo sobre as de água e de ar.”

Pela respiração, a alma absorve o fogo e por isso, quando o ritmo da respiração baixa, sua capacidade de conhecimento também baixa: advém o sono e o sonho. Também baixa quando a medida de água suplanta a de fogo: é a embriaguez, a doença. Para Heráclito, o senso comum se parece com o sono e com a embriaguez, com a alma “bárbara” que não sabe ver, ouvir, falar ou pensar (CHAUÍ, p.86).

Assim, a alma compõe-se de fogo; provém da umidade e nesta se converte, numa absorção total que é para ela a morte. Seguem alguns fragmentos de Heráclito, citados por Kirk, Raven e Schofield:

Para as almas, a morte é transformarem-se em água, para a água, a morte é transformar-se em terra; a água nasce da terra, e da água, a alma (frag. 36).

Uma alma seca é mais sábia e melhor (frag. 118).

Um homem, quando embriagado, deixa-se conduzir por uma criança inexperiente, a vacilar e sem saber para onde vai, com a alma úmida (frag. 117).

Estes fragmentos de Heráclito são reveladores: mostram não apenas que a alma é ígnea, mas, também, que desempenha um certo papel no grande ciclo da mudança natural. Ela tem origem na umidade e é destruída quando se transforma inteiramente em água. A alma eficiente, racional, é seca, isto é, ígnea. Uma alma que está úmida encontra-se diminuída na sua capacidade e faz com que o seu possuidor se comporte infantilmente, sem discernimento ou força física. Desta forma, tem-se a confirmação de que o intelecto é explicitamente localizado na alma (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, p. 211).

Quanto à profundidade da medida da alma, Heráclito a considera como uma porção representativa do fogo cósmico – que comparado com o individual é, evidentemente, de enorme grandeza. Assim, para Heráclito, não há limites para a medida da alma: “Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem” (HERÁCLITO, frag. 45, apud Kirk; Raven; Schofield, p.211).

Para Heráclito, portanto, a alma-fogo está aparentada com o mundo-fogo, sendo um fragmento adulterado do fogo cósmico, circundante e possuidora, em certa medida, do poder diretivo deste fogo.

Há uma segunda ordem do pensamento heraclitiano que visivelmente se liga a uma dimensão religiosa, pois há certos pensamentos de ordem ética que pedem um certo tipo de comportamento para que a alma se mantenha pura. Depreende-se de alguns de seus fragmentos, por exemplo, que a felicidade do homem não pode consistir nos prazeres do corpo:

Difícil é a luta contra o desejo, pois o que este quer, compra-o a preço da alma. (HERÁCLITO, frag. 85)

Apesar de que em sua cosmologia Heráclito não aceite um princípio de dualidade que distinga o um do múltiplo, a nível microcósmico parece ser evidente sua crença numa dualidade entre corpo e alma, como se pode verificar nos fragmentos abaixo:

De noite, o homem acende uma luz para si próprio, ao extinguir-se-lhe a visão; em vida, está em contato com o que é morto (frag. 26).

E, também:

As almas virtuosas não se transformam em água quando da morte do corpo, mas sobrevivem para, eventualmente, se juntarem ao fogo cósmico (frag. 25, 63).

Imortais mortais, mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles (frag. 62). [22]

Além disto, percebe-se na linguagem heraclitiana a influência da crença órfica segundo a qual a vida do corpo seria a mortificação da alma e a morte do corpo seria a vida da alma. Da mesma forma como naquelas crenças, Heráclito admitiu prêmios e castigos depois da morte e, portanto, uma imortalidade pessoal, como expressamente diz o seu fragmento 27:

Depois da morte aguardam os homens coisas que estes não esperam e nem sequer imaginam.

Conforme Marilena Chauí (p.105), a revolução heraclitiana consiste em exigir que o conhecimento do kósmos seja antecedido pelo conhecimento da alma, isto é, da natureza de uma parte pelo todo, parte que é de mesma essência que o todo e está submetida à mesma lei que ele. Assim, conhecer deixa de ser somente pensar e passa a envolver, também, uma sabedoria prática ligada à prudência, isto é, um agir que se fundamenta na sabedoria e na virtude.

Através de sua alma, que é um sopro inflamado, de mesma essência que o fogo divino, o homem participa do princípio universal. Seu esforço deve ser o de manter em si o fogo vivo, de tal forma que ele reste em comunicação com o todo das coisas. (HERÁCLITO, apud Charles Werner, p.21, tradução nossa)

Além da Jônia, a filosofia grega desabrochou em outras regiões do Sul da Itália, com os chamados filósofos itálicos ou eleatas. De acordo com Reale (1993, p.25), a Magna Grécia e a Sicília foram, certamente, a pátria dos cultos-mistéricos relacionados com a morte e com os “deuses do além”. Nestes solos, onde o Orfismo foi particularmente florescente, as escolas filosóficas assumiram características diferentes com relação às escolas que se originaram na Ásia Menor, levantando uma problemática em parte distinta daquelas e criando uma têmpera teórica diferente. Também Cornford (p.176) sustenta que na tradição itálica o impulso fundamental que movia o pensamento tinha especiais características religiosas e morais.

Conforme Kirk, Raven e Schofield (p.222), foi no Sul da Itália que surgiram os dois mais distintos elementos da moderna concepção de filosofia: Pitágoras, representando o arquétipo do filósofo-sábio que ensina aos homens o significado da vida e da morte, e Parmênides, fundador da escola dos eleatas, que, não só condicionaram os sistemas físicos pluralistas, como, também, incidiram de maneira determinante sobre a formação da filosofia platônica e aristotélica.

Consta que Parmênides de Eleia[23] foi ensinado por pitagóricos que foram alunos e colaboradores diretos de Pitágoras. Assim, formula uma ideia que já estava implícita na visão pitagórica do mundo e da natureza humana: “a ideia de que a alma imortal que pode existir separada do corpo e visitar o outro mundo é a alma racional, em oposição aos sentidos e paixões que residem no corpo perecível” (CORNFORD, p.194).

Para Parmênides, a phýsis é o ser. Se o ser é o que permanece sempre idêntico a si mesmo, onde melhor se mostra a aparência enquanto aparência? Na mudança contínua. No deixar de ser de uma maneira para tornar-se de outra. Em outras palavras, no devir ou no incessante vir-a-ser em que as coisas se tornam outras, tornando-se o que não-são. O devir é o movimento – a kínesis – a mudança qualitativa, quantitativa e local. Por isso, o movimento é o campo principal da aparência e da opinião: as coisas parecem mudar e as opiniões mudam com elas. O devir é a aparência mutável, é o não-ser. O mutável é, pois, o não-ser (CHAUÍ, p.92).

Portanto, para Parmênides, aquilo que está sujeito à corrupção não é. Nunca. Se há ser, não pode haver o não-ser. Este é o grande princípio que receberá de Aristóteles a sua mais célebre formulação e defesa e que constituirá não só o fundamento de toda a lógica antiga, mas de toda a lógica do Ocidente. O ser não tem, pois, um passado (porque em tal caso não seria mais) e nem mesmo um futuro (porque não seria ainda), mas é presente eterno sem início e nem fim. Esta é a concepção de imortalidade em Parmênides (REALE, 1993, p.109).

Além disso, o ser é indivisível, visto que é um Todo absolutamente pleno, contínuo, dentro do qual não há jamais nenhum vazio, nenhum intervalo, sendo uma perfeita Unidade que não admite em si nenhuma multiplicidade. Finalmente, o ser é imóvel, pois, para se mover o ser deveria dispor de um espaço vazio dentro do qual teria lugar o seu movimento. Assim, o movimento é impossível. Não é apenas à alternativa do nascimento e da morte que o ser está subtraído, mas, também, a toda espécie de movimento (WERNER, p.27, tradução nossa).

A originalidade de Parmênides reside na sua percepção da existência de “um abismo intransponível entre o reino da Verdade atemporal e metafísica e a confusão de qualidades mutáveis que os sentidos e as opiniões dos mortais tomam erradamente por realidades” (CORNFORD, p.195). É imprescindível observar que Parmênides trará profundas transformações para o estudo do ser e a sua revolução consistirá na descoberta de exigências internas ao pensamento e na identidade destas exigências com o próprio ser. Ou seja, o ser é o foco e a consciência é sua ferramenta.

Prosseguindo com os eleatas, temos Empédocles de Agrigento[24], discípulo de Parmênides e filósofo de importância singular para este estudo. Foi o primeiro pensador que procurou resolver o confronto da aporia eleata com a jônica, tentando salvar, de um lado, o princípio de que nada nasce, nada perece e de que o ser sempre permanece e, de outro, a experiência dos fenômenos em constante modificação (REALE, 1993, p.134). Neste sentido, a construção de sua cosmologia merece especial atenção pela introdução de novos conceitos.

Empédocles introduz em sua cosmologia o amor e o ódio concebidos como forças cósmicas e, ao mesmo tempo, como causas, respectivamente, da união e da separação dos elementos. Fala da alternância entre o predomínio de uma ou de outra força, em ciclos constantes fixados pelo Destino. E, assim, predominando o amor, os elementos se recolhem em unidade; predominando o ódio, separam-se; e, entrelaçando-se os influxos do amor e do ódio, nascem as coisas. Se faz necessária uma abstração dos conceitos humanos de amor e ódio para compreender a dimensão do pensamento empedocliano. Quando fala de ódio e amor, fala de formas de energia e não das formas-sentimento por nós conhecidas.

O Princípio de Unidade é chamado por Empédocles de Uno ou Esfera. O amor, ao prevalecer, dissolve o kósmos e recolhe os seus elementos na Esfera indiferenciada, assim como o ódio, inserindo-se na Esfera, lança as premissas para o nascimento do kósmos. É também claro que o momento de absoluta perfeição não está no kósmos, mas, sim, na Esfera. Vislumbra-se uma dualidade na qual ódio e amor são forças de mesma dimensão geradoras de um conflito eterno. Este conflito – chamado Discórdia – é a lei do mundo (CHAUÍ, p.111).

Além de uma bem organizada cosmologia, Empédocles fez profundas especulações sobre a origem e o destino das almas. Escreveu os poemas intitulados Purificações, cujos fragmentos se conservaram em boa parte. A temática das Purificações é a queda do homem de um lugar original e as práticas necessárias à sua reabilitação (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, p.296). Alguns fragmentos das Purificações apontam para a imortalidade da alma, porquanto Empédocles vislumbra que a nossa verdadeira existência se prolonga para antes do nascimento e para além da morte.

No corpo central das Purificações, Empédocles afirma que, à semelhança dos outros espíritos divinos (dáimones), fora, também ele, condenado à mortalidade, mas que, após um correto ciclo de encarnações, a divindade poderia ser novamente atingível. E prossegue com uma explicação não apenas do pecado, devido ao qual tanto ele como os demais teriam decaído do seu estado de graça, mas também das práticas rituais necessárias para se atingir a religião pura (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, p. 329, 330).

A lei que ordena a série de encarnações como consequência do pecado é descrita em termos quase idênticos aos empregados para especificar a lei que governa a disrupção da Esfera por obra da Discórdia; o pecado é explicitamente associado com a “confiança na tresloucada Discórdia”. E a passagem cíclica dos dáimones pelos elementos evoca o domínio sucessivo de diferentes elementos que se segue à fragmentação da Esfera.

Com Empédocles nos aproximamos muito das concepções órficas e pitagóricas. Para Chauí (p.107), não resta a menor dúvida de que Empédocles tenha sofrido a influência da religiosidade órfica, além de ter sido discípulo dos pitagóricos.

Em seu Poema lustral, Empédocles não apenas defende as concepções órfico-pitagóricas, como também se apresenta como profeta e mensageiro delas. Assim, o homem, ou melhor, a alma do homem, é um dáimon que, por causa de uma culpa originária, teria sido banido do Olimpo dos bem-aventurados, jogado num corpo e ligado ao ciclo dos nascimentos:

[…] se alguém mancha os membros de sangue culpável, ou impiamente jura, seguindo a Contenda, vá errante longe dos bem-aventurados por três vezes dez mil estações, e renascendo no tempo em toda espécie de seres mortais, mude os dolorosos caminhos da vida.

[…] Um destes agora sou eu, fugitivo dos deuses e errante, porque prestei fé à furiosa Contenda… . Porque fui um tempo menino e menina, arbusto, passarinho e mudo peixe do mar […] (EMPÉDOCLES, apud Reale, 1993, p.139)

Os homens que souberem se purificar encarnarão progressivamente em existências e em vidas mais nobres, até que, livres de todo o ciclo dos nascimentos “voltarão a ser deuses entre os deuses” (REALE, 1993, p.140).

Interessante é a descrição que Empédocles faz da existência mortal, onde conta, em primeiro lugar, a sua descida a um lugar de suplícios no qual se encontravam reunidos outros dáimones que para lá haviam sido lançados, e, em seguida, como fora conduzido a uma gruta, onde os dáimones eram revestidos de carne e submetidos às forças contrárias que regem a existência mortal.

Segundo Kirk, Raven e Schofield (p. 332), Empédocles utiliza esse mito escatológico tanto para sublinhar a sua convicção sobre a miserável condição da existência humana, como para dar o maior realce possível à ideia de que a vida se enquadra em mais do que as simples dimensões humanas de espaço e tempo.

Em outros versos, Empédocles explicava o modo como um dáimon poderia, em cada vida sucessiva, ascender através de reinos da criação cada vez mais elevados, passar pela melhor forma de encarnação possível em cada um deles, e, por fim, reconquistar a sua condição original de deus. Seu próprio conceito de que o homem é um deus exilado aperfeiçoa o ensino pitagórico que lhe antecede, pois identifica a questão de um ciclo de destino humano dentro de um esquema cósmico (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, p.337).

As Purificações têm sido interpretadas como a obra que sustenta ou contém implícita a ideia de que a alma ou o dáimon poderá um dia usufruir de uma existência incorpórea, tal como aconteceu antes da sua queda.

Voltando à Jônia, verifica-se em Anaxágoras[25] a continuidade da perspectiva de Parmênides e de Heráclito, isto é, de que somente a Razão, ou Inteligência, pode alcançar a realidade última e originária. Verifica-se, ainda, a antiga tradição da alétheia, do não-esquecido, devido ao papel fundamental que Anaxágoras dá à memória na obtenção do verdadeiro conhecimento (CHAUÍ, p.117).

De acordo com Reale, há na cosmologia de Anaxágoras uma poderosa intuição concebida e expressa no âmbito da filosofia pré-socrática: a intuição de que o princípio é uma realidade infinita, separada do resto, a mais fina e mais pura, igual a si mesma e, sobretudo, inteligente e sábia, e que, justamente enquanto tal, move e ordena todas as coisas. E os seus contemporâneos, e sobretudo os filósofos posteriores, deram-se perfeitamente conta de que essa intuição implicava em algo verdadeiramente novo (REALE, 1993, p.147).

Para Anaxágoras, a força separadora, unificadora e organizadora do kósmos se diferencia dos elementos, embora seja eterna e imutável como eles. Essa força diferenciada é chamada de Noûs, ou força inteligente, pensante. O Noûs é a força que sabe ou reconhece todas as coisas, que introduz o movimento na massa primitiva, e que tem esse poder porque “não está misturado com nenhuma coisa, mas se encontra sozinho e em si mesmo”.[26]

Como Deus, nas religiões hebraico-cristãs, o Noûs ou Inteligência está fora e separado do mundo. O mundo se forma a partir de um movimento rotatório ou turbilhonante que o Noûs realiza no magma primitivo, ampliando-se e estendendo-se até alcançar o todo. Sua rapidez separa o rarefeito e o denso, o frio e o quente, o úmido e o seco, o luminoso e o obscuro. Para Anaxágoras, o nosso não é o único mundo existente, mas um dentre os inúmeros mundos formados pelo Noûs. Como o fogo de Heráclito, o Noûs é inteligência e poder, porém, diferentemente do fogo heraclitiano, não participa do processo que realiza, mas permanece separado do mundo e do magma primitivo, movendo-os de fora. É um motor cósmico feito de matéria diáfana incorruptível e responsável pela vida universal e por sua ordem (CHAUÍ p.118).

Kirk, Raven e Schofield (p. 383) confirmam que, para Anaxágoras, o Espírito é infinito e autônomo, e não se mistura com o que quer que seja, mas existe sozinho, de per si. É a mais sutil e a mais pura de todas as coisas, possuindo um conhecimento total de tudo e o maior poder sobre tudo. Foi ele, o Espírito, o Noûs, que teve poder sobre toda a revolução, dando-lhe, no início, o impulso necessário.

Nas palavras célebres de Anaxágoras, “todas as coisas foram colocadas em ordem pela Inteligência” (WERNER, p.36).

Conforme Werner (p.36), verifica-se em Anaxágoras o primeiro esforço filosófico para desvelar a noção de espírito. Ao afirmar que a Inteligência não está mesclada a nada, que ela não entra em nenhuma composição, marcando sua absoluta independência nos confrontos de tudo aquilo que não é ela mesma, Anaxágoras exprimiu o caráter próprio do espírito, em oposição às coisas materiais. E, sobretudo, Anaxágoras concebe a Inteligência como a causa ordenadora das coisas: a verdadeira causa não são os elementos materiais, mas, sim, a Inteligência, que dispõe a matéria conforme as leis de harmonia. Esta ideia produziria uma profunda impressão sobre o jovem Sócrates, instruído na escola que Anaxágoras havia fundado em Atenas e que foi a base do novo desenvolvimento que tomaria o pensamento humano.

Continua…

Autora: Anna Maria Casoretti

Anna é Graduada em Filosofia, mestranda em Filosofia pela PUC, participante do Grupo de Pesquisa de Estudos Platônicos (PUC-SP/ Cnpq).

Fonte: Revista Pandora Brasil

Notas

[21] – Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, em cerca de 540 a.C e faleceu em cerca de 470 a.C. É considerado por muitos o mais eminente pensador pré-socrático, por formular o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal.

[22] – Os três fragmentos são de Heráclito, citados no livro de Kirk, Raven e Schofield, p.215

[23] – Parmênides nasceu em Eleia, na Magna Grécia, e viveu entre 530 e 450 a.C. Em Eleia, fundou a escola chamada eleata destinada a ter um grande influxo sobre todo o pensamento grego. Alguns estudiosos dizem que foi introduzido à filosofia pelo pitagórico Amínia e, com efeito, o espírito religioso e místico está bem presente no poema parmenidiano.

[24] – Empédocles nasceu em Agrigento, na Sicília, em cerca de 490 a.C. e morreu em cerca de 425 a.C. Conforme Souza, J.C., Empédocles era um misto de cientista, místico, pitagórico e órfico.

[25] – Anaxágoras nasceu em Clazômenas, na Jônia, provavelmente em torno a 500 a.C, e faleceu em 428 a.C. Talvez tenha sido o primeiro filósofo a levar a filosofia a Atenas, fazendo-a ali enraizar-se. Gozou de grande reputação como físico, matemático, astrônomo e meteorologista.

[26] – Esta última sentença é atribuída integralmente a Anaxágoras e é citada por Reale em sua obra de 1993.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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