A Origem da Alma – Capítulo 3 (3ª Parte)

Pitágoras 

Como já mencionado, na Itália meridional a filosofia cria uma nova têmpera e se aperfeiçoa. De acordo com Giovanni Reale (1993, p.75), os pitagóricos tiveram o mérito de criar por primeiro essa nova têmpera, da qual se beneficiariam os próprios eleatas: antigas fontes referem que Parmênides, fundador do eleatismo, teria sido introduzido à filosofia por um pitagórico.

Conforme Charles Werner, foi do coração do Orfismo[27] que surgiu a grande figura de Pitágoras[28], fundador de uma comunidade cujos membros cultivavam em conjunto a ciência e a sabedoria e que restou como modelo de todas as livres associações através das quais os homens quiseram se unir pelo bem (WERNER, p.22, tradução nossa).

Pitágoras foi o fundador da escola itálica e o primeiro a falar do kósmos enquanto ordem. Comparado aos seus antecessores, Pitágoras traz uma inovadora forma de enxergar o universo, como poderá ser visto a seguir.

Para Pitágoras, a phýsis era o número – ou arithmós. É bastante provável que seu vislumbre tenha ocorrido a partir da observância dos sons produzidos pela lira – instrumento utilizado em sua comunidade. Estes sons obedeciam a princípios e regras, não só na formação dos acordes, como também na concordância entre sons discordantes. Em outras palavras, os sons da lira seguiriam regras de harmonia que poderiam ser traduzidas em expressões numéricas – as proporções. Ora, se o som é, na verdade, número, porque toda a realidade – enquanto harmonia ou concordância dos discordantes – não seria um sistema ordenado de proporções e, portanto, número? (CHAUÍ, p.69)

Cria-se, assim, sua valiosa teoria baseada nos números enquanto princípios da natureza. O Um, ou a Unidade, é a totalidade dos números e, por isso mesmo, a totalidade das coisas visíveis e invisíveis. Decorre daí uma importante elaboração cósmica onde a unidade é o princípio de permanência ou de identidade e a dualidade é o princípio da mudança, do devir ou vir-a-ser.

O número exprime a própria essência das coisas: é o modelo ideal do qual as coisas procedem, pois as coisas existem na medida em que imitam a natureza do número, participando de sua soberana realidade. Nas palavras de Werner, “os números são os princípios eternos, viventes no seio da harmonia.”[29] Se quisermos ir além desta harmonia original, ainda acima dela, será necessário invocar a unidade que está na origem do número, a mônada criadora, que dá origem a todos os seres (WERNER, p.24).

No entanto, a harmonia não reina igualmente em todas as partes do universo: ela existe, sobretudo, na parte superior, onde está marcada pela revolução dos astros. Pitágoras e sua escola estabeleceram uma distinção entre o mundo dos astros, que é o mundo das realidades eternas e bem ordenadas, e o mundo “sublunar”, que é o mundo das coisas perecíveis e entregues, em parte, à desordem. Esta distinção seria adotada por Aristóteles e se manteria até o início dos tempos modernos (WERNER, p.24).

Apesar das aparências de desordem que o mundo inferior apresenta, é importante ressaltar que ele não deixa de estar submetido a uma lei (WERNER, p.25). E a lei é a própria ordem que perpassa todos os níveis do universo. O universo dos pitagóricos é, portanto, um kósmos. E este termo foi utilizado pelos pitagóricos, pela primeira vez, no sentido específico de ordem, sentido este que se manteria definitivamente no pensamento ocidental (REALE, 1993, p.85).

Grandioso e complexo é o sistema metafísico postulado por Pitágoras, o que impossibilita sua explanação ou entendimento neste tipo de estudo aqui apresentado. Sendo assim, nossa atenção será mantida no objetivo traçado, que é a averiguação das proposições acerca da alma dentro dos sistemas filosóficos dos pensadores que nos interessam.

Ora, se a natureza numérica da phýsis ou a estrutura harmônica do mundo está presente em todas as coisas, estará presente, também, na alma, na psykhè. Segundo os doxógrafos, Pitágoras teria dito que “a alma é harmonia”, significando uma unificação de muitos elementos e uma concordância dos contrários ou discordantes. Justamente por ser constituída pela mistura de muitos elementos discordantes, a alma precisa buscar a concordância entre eles e fazer com que os elementos superiores dominem os inferiores (CHAUÍ, p.69). Mais adiante veremos que esta questão dos elementos discordantes que compõem a alma é retomada por Platão, de uma outra forma, em seu Mito do Cocheiro.

Alguns testemunhos doxográficos atribuem aos pitagóricos Alcmeão e Filolau uma teoria do conhecimento, isto é, uma teoria da alma humana capaz de conhecer a estrutura numérica do mundo. O número seria o princípio do conhecimento porque ordena e organiza a realidade ao engendrar as coisas como unidade e diversidade de proporções inteligíveis. O número torna as coisas discerníveis umas em relação às outras e as torna concordantes com a alma, concórdia que decorre do fato de que a alma também é número. Assim, as coisas e a alma são comensuráveis (proporcionais) porque possuem a mesma medida comum ou o mesmo lógos: são feitas da mesma phýsis (CHAUÍ, p.76).

Conhecer é, pois, encontrar a unidade de alguma coisa e o princípio de sua mudança. O número é o que produz a unidade e a diversidade das coisas, permitindo, desta maneira, que sejam conhecíveis por nossa alma. A alma é, pois, o elo entre os dois mundos, aquela à qual é permitido participar de duas realidades, seja do princípio de unidade, seja do princípio de mudança. Nas palavras de Werner, “o verdadeiro traço de união entre os dois mundos é a presença, no mundo inferior, de um princípio divino. Entre as coisas perecíveis brilha uma luz que vem do alto: é a flama imortal da alma” (WERNER, p.25, tradução e grifo nosso).

A alma tem, portanto, um papel a desempenhar, e este papel era ensinado nas doutrinas pitagóricas. Para muitos comentadores, Pitágoras foi certamente o primeiro filósofo a ensinar a doutrina da metempsicose, aquela segundo a qual a alma é constrangida a reencarnar-se muitas vezes em sucessivas existências corpóreas, não só em forma de homem, mas também em diversas formas de animais, para expiar uma culpa originária cometida. Os estudiosos de hoje concordam em afirmar que Pitágoras extraiu esta doutrina do Orfismo, seguramente anterior (REALE, 1993, p.87).

Para os pitagóricos a alma é imortal, preexiste ao corpo e continua a subsistir depois do corpo. A sua união com um corpo não só não é conforme à sua natureza, mas lhe é até mesmo contrária. A natureza da alma é divina e, portanto, eterna, enquanto a natureza de todo corpo é mortal e corruptível; a união da alma com um corpo, como já visto, é uma punição de uma obscura culpa originária por ela cometida e é, ao mesmo tempo, expiação de tal culpa. O homem deve viver não em função do corpo, que é “cárcere”, “prisão” da alma e lugar no qual paga sua culpa originária, mas em função da alma. E viver em função da alma significa viver uma vida que seja capaz de “purificá-la”, ou seja, desatá-la dos laços que, por culpa própria, ela contraiu com o corpo (REALE, 1993, p.88).

Assim, e conforme a confirmação que lemos também na obra de Kirk, Raven e Schofield (p.2), Pitágoras teria sido o primeiro filósofo grego a tratar explicitamente da questão da alma humana como algo de moralmente importante. Ou seja, a busca e a prática de uma vida virtuosa, juntamente com o conhecimento, seriam prerrogativas para a purificação da alma, e, a théoria, ou vida contemplativa, seria a única que poderia promover a libertação da cadeia dos nascimentos (CHAUÍ, p.68).

Por estas razões, a escola que Pitágoras fundou na Itália não tinha como principal escopo a pesquisa científica, mas a realização de determinado tipo de vida, com relação ao qual a pesquisa científica não era o fim, mas, antes, o meio. A escola pitagórica nasceu como confraria, ou melhor, como seita ou ordem religiosa, organizada segundo regras bem precisas de convivência. As doutrinas da escola eram consideradas um segredo do qual deviam participar só os adeptos, atitude que impediu a divulgação e o conhecimento das mesmas (REALE, 1993, p.75).

Uma vez que o fim último era a volta ao lar original, os pitagóricos introduziram em seu cotidiano o conceito do reto agir humano para que se alcançasse uma vida em comunhão com a divindade. Conforme registra um antigo testemunho, “tudo o que os pitagóricos definem sobre o fazer e o não fazer tem em vista a comunhão com a divindade: esse é o seu princípio e toda a vida deles se ordena a esse objetivo de deixar-se guiar pela divindade” (REALE, 2004, p.29).

Para atingir tal fim, os pitagóricos praticavam um tipo de vida chamado de “bios theoretikós”, um tipo de vida contemplativa que, posteriormente, foi chamada simplesmente de “vida pitagórica”. Buscavam a purificação na contemplação da verdade, através do saber e do conhecimento (REALE, 1993, p.89). Só o conhecimento, a gnosis, permitiria que o homem penetrasse a via que conduziria à Mathesis Suprema, a suprema sabedoria. Só o conhecimento traria a felicidade, pois a felicidade suprema consistiria na verdadeira eudaimonia[30] da alma, na contemplação da harmonia dos ritmos do universo, ou na perfeição dos Números (FERREIRA DOS SANTOS, 2000, p.68).

Em resumo, e apesar do invulgar silêncio que reinava entre os pitagóricos, consegue-se depreender de seus fragmentos a seguinte escatologia: (1) a alma é imortal e, após a morte do corpo, estará sujeita a um julgamento divino; (2) após o julgamento, os perversos serão castigados no mundo subterrâneo; ou, (3) haverá um melhor destino para os bons, que – se se mantiverem isentos de maldades no próximo mundo e numa posterior reencarnação – poderão finalmente alcançar as Ilhas dos Bem-Aventurados (KIRK; RAVEN; SCHOFIELD, p.248). Estes acontecimentos ocorreriam em determinados ciclos universais.

Se Orfismo e Pitagorismo coincidem em remeter o sentido da vida a um ultraterreno fim escatológico e em atribuir às “purificações” o meio para libertar a alma do ciclo das reencarnações, levando-a a se unir com o divino ao qual pertence, diferenciam-se, em seguida, nitidamente, na escolha dos instrumentos para tal e nos modos com os quais acreditam atingir a purificação da alma.

Os órficos sustentavam que os meios de purificação seriam as celebrações e práticas religiosas dos sagrados mistérios – através das quais elevariam a alma gradativamente até que esta se tornasse extaticamente uma com o divino. Permaneciam, portanto, ligados à mentalidade mágica, confiando-se quase inteiramente ao taumatúrgico poder dos ritos. Os pitagóricos, diversamente, atribuíam, sobretudo, à ciência a via de purificação. A vida pitagórica diferenciou-se nitidamente da vida órfica justamente pelo culto à ciência, que se tornou o mais elevado dos mistérios e, portanto, o mais eficaz instrumento de purificação (REALE, 1993, p.88).

Além disso, os órficos apoiavam em livros a autoridade das suas doutrinas, ao passo que os pitagóricos renunciavam à palavra escrita. Estes constituíram indubitavelmente uma seita, ao passo que a designação “órficos” parece indicar, de modo geral, praticantes individuais de técnicas de purificação. Foram movimentos herméticos e distintos que trocaram entre si grande número de ideias e de práticas (REALE, 1993, p.87).

Temos, com Pitágoras, a primeira demonstração da imortalidade da alma na filosofia antiga. E esta demonstração decorre do fato da alma se revelar semelhante aos seres que vivem no mundo superior, contendo em si uma centelha da essência divina, o que permite que ela transite tanto pelo mundo sublunar quanto pelo mundo das realidades eternas.

Pelo conjunto de sua concepção do universo, pode-se dizer que o pitagorismo preparou o platonismo. A doutrina de Pitágoras é o primeiro esforço para penetrar nas raízes das coisas. A verdadeira realidade, de acordo com Pitágoras, não são as coisas materiais: é a alma, em sua essência imortal. Acima do mundo das coisas perecíveis há o mundo das essências eternas, o mundo da harmonia e dos números. A partir daí, o caminho estaria aberto para a filosofia das Ideias (WERNER, p.25).

Continua…

Autora: Anna Maria Casoretti

Anna é Graduada em Filosofia, mestranda em Filosofia pela PUC, participante do Grupo de Pesquisa de Estudos Platônicos (PUC-SP/ Cnpq).

Fonte: Revista Pandora Brasil

Notas

[27] – Também conforme Ferreira dos Santos (2000, p.68), antes de chegar a Magna Grécia, Pitágoras esteve em contato com os órficos.

[28] – Pitágoras nasceu em Samos, entre 592 e 570 – cf. Ferreira dos Santos – sendo que o apogeu de sua vida ocorre por volta de 530 a.C. De Samos, Pitágoras passou para a Itália, onde fundou, na cidade de Crotona, uma Escola que logo alcançou grande sucesso, visto que a mensagem pitagórica continha uma nova visão de vida de tipo místico e ascético (Reale, p.75). Fez inúmeras viagens e peregrinações, tendo aulas desde criança com grandes mestres, inclusive Anaximandro. No Egito foi iniciado nos mistérios nos santuários de Mênfis e Heliópolis. Frequentou aulas de famosos mestres na Babilônia, onde, além de ter conhecido Zoroastro, conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente (Ferreira dos Santos, 2000, p.67).

[29] – “Les nombres sont les principes éternels, vivant au sein de l‟harmonie.”

[30] – Na Grécia antiga, o termo eudaimonia designa o fenômeno da felicidade. Etmologicamente, a palavra é composta pelos conceitos de “eu” = bom + “daimon” = divindade menor ou gênio tutelar de cada pessoa.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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