Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 6ª Parte

Estamos no século XVIII. Um saber estranho circulava por toda a Europa sedenta de luz. O oculto reinava supremo nas mentes. Transmitido pelo rosacrucianismo, que prometia a imortalidade, pela alquimia, que prometia a riqueza, pelo hermetismo, que daria o poder, e pela Cabala, que traria o conhecimento, tudo adequado a um mistério próprio para despertar todas as curiosidades, este mesmo mistério que parece haver nas Lojas Maçônicas, tão antigas, ou pelo menos pensávamos que sim. A tentação de confrontar esse conhecimento com o que tínhamos, e adquirir outros, era grande. Na realidade, as Lojas tinham poucos, muito poucos, e sua pobreza intelectual e esotérica era decepcionante. Era necessário alimentá-las, dar-lhes uma razão para ser qualquer outra coisa, que não sociedades “vazias”.

A lenda de Hiram chega justamente num momento que se formava o conteúdo doutrinal da Maçonaria especulativa nascente. Vimos antes que não se sabe sua origem e que ela apareceu em algum lugar na Inglaterra ou na Irlanda. Ela é implantada gradualmente, tendo lugar, em 1738, na segunda edição das Constituições de Anderson, embora tenha tido de esperar até 1760 para ser admitida de forma permanente, pelo menos na Grã-Bretanha, porque na França o processo de integração foi mais rápido. Ela gerará toda a série de Altos Graus que envolverão totalmente o mundo maçônico. Era óbvio que o assassinato de Hiram não podia ficar impune. Assim nasceram os graus de vingança e as cenas grandiloquentes que deram lugar às recepções que se seguiram, tornando-se necessário, para lhes dar um tempero, a introdução dos graus cavalheirescos. Ele – o assassinato de Hiram – é incorporado ao grau de mestre surgido antes dele por desdobramento do de companheiro, e sem que ninguém saiba por que ou como, foi completamente absorvido.

A incrível popularidade dos Altos Graus e, especialmente, a dramatização das admissões e, decorrente delas, uma necessária estruturação da liturgia apropriada à recepção de aprendiz, para a qual se trouxeram elementos de todos os tipos, o que se estende de 1740 a 1850.

Nenhuma doutrina propriamente dita: nada da muito vaga filosofia Rosacruz, nem da mística judaica, introduzida furtivamente e aos poucos no rito bem cristão dos “Antigos” estabelecido na Irlanda por Laurence Dermott, e depois propagado por ele na Inglaterra antes de 1750, apesar da adoção em rituais de uma série de palavras hebraicas que ainda hoje representam problemas semânticos não resolvidos.

Somente símbolos…

Muitas vezes díspares, emprestados daqui e dali, aos quais foram atribuídos múltiplos significados, um tanto absurdos, incompatíveis com qualquer raciocínio lógico ou mesmo analógico. Alguns deles surgem tipicamente da magia cerimonial, como é caso do malhete do venerável – forma especial da varinha, sinal do poder e da soberania (lembremo-nos que as ferramentas não eram consideradas símbolos pelos maçons operativos) – das “insígnias” britânicas, aventais, cordões, joias, ornamentos, como roupas e os pantáculos, das baterias, dos lances com o pé (agora extintos, mas mantidos no companheirismo) da cadeia de união, das circunvoluções de caráter cósmico, das repetições – verdadeiros “mantras” destinados a mexer com o inconsciente, do gestual – que se identifica com os “mudras” da Índia (o do grau de mestre é encontrado naquele país e figura nas esculturas da civilização pré-colombiana do México), etc., etc….

Queríamos reconstituir os primeiros cerimoniais de recepção de aprendizes, companheiros e mestres da Maçonaria especulativa. O manuscrito Graham (1726) e duas revelações, Exame do Maçom (1723) e Maçonaria Dissecada, de Prichard (1730) fornecem os elementos através de perguntas e respostas, corroborados pelo testemunho de John Coustos, em dezembro de 1736, em Lisboa, durante seu julgamento no Tribunal da Inquisição. Aquilo que era relativamente simples no começo se complica singularmente no início de 1740 e a França não ficou de fora nas inovações que se seguiram.

Todos os textos insistem no fato de que o candidato requer sua admissão de própria vontade e se exige que forneça as razões do seu pedido. É necessariamente apadrinhado e a Grande Loja da Inglaterra torna isso obrigatório em 15 dezembro de 1730. Na recepção, o padrinho o põe em um quarto sem luz, completamente escuro, onde ficam juntos por algum tempo sem que uma palavra seja pronunciada. No final de sua estada lhe é perguntado duas vezes se é de sua vontade ser recebido. Sua resposta afirmativa faz com que ele seja levado “… com os olhos vendados, despojado de metais, nem nu nem vestido, nem calçado nem descalço, mas de forma decente” diante da Câmara de recepção, em cuja porta ele dá três golpes que são repetidos a partir de dentro. Em seguida, é introduzido pelo padrinho, que o entrega “… pobre, sem dinheiro, cego e ignorante dos nossos segredos” e é recebido pelo aprendiz mais novo da Loja.

O “nem nu, nem vestido” não é encontrado em nenhuma parte dos documentos operativos, fazendo parte apenas dos “aceitos”. Parece que vem da tradição templária e provavelmente era usado para verificar o sexo do candidato. Não há explicação para o pé descalço, nem para o ombro, apesar da evidência de que o símbolo diz respeito aos metais, rejeitados por todas as mitologias e pela própria Bíblia, que os considerava nefastos, o que parece que foi ignorado pelo “Catéchisme” (1740), pelo “Secret” (1742) e pelo “l’Anti-Mason” (1748), etc. que diziam “… desprovido de todos os metais, porque quando nós enviamos os cedros do Líbano para o Templo (de Salomão) eles iam todos cortados, e não ouvimos nenhum golpe de martelo ou de outras ferramentas quando construímos aquele edifício.” É evidente que falta se arranjar uma justificativa. De acordo com William Preston, em “Illustration of Masonry” (1772), a iniciação afasta qualquer caráter maléfico dos metais ” … o metal (a moeda) não pode fazer a diferença entre os maçons, cuja ordem é baseada na paz, virtude e amizade”.

A câmara escura é a ancestral da Câmara de Reflexões. Ela era, e ainda é, totalmente desconhecida pela Maçonaria inglesa. Também permaneceu um certo tempo na França. Ninguém sabe onde e quando ela foi introduzida na recepção, mas, mais provavelmente, foi entre 1765 e 1770. As Lojas a utilizaram entre 1776 e 1780 e o Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramita, de 1783, escrito por Guillemain de Saint-Victor, dá uma descrição semelhante à dos rituais do Grande Oriente estabelecidos em 1786. Um quarto escuro com paredes escuras, iluminado por uma única vela, um banco, uma mesa sobre a qual há um crânio e todos os ingredientes – sal, enxofre, água, pão (o vitriol virá mais tarde). Nas paredes, os emblemas da morte e uma série de sentenças escritas em branco invocando a fragilidade da vida e a insignificância das coisas terrenas, além da ameaça caso o candidato não vivencie sua admissão com o coração puro. Há uma certa analogia entre este retiro de silêncio no “quarto escuro” e a reclusão do aspirante a cavaleiro às vésperas de seu juramento. Ele também era convidado a escrever um testamento. Em 1786, um manuscrito do Grande Oriente acrescenta uma inovação: as questões ditas “de ordem”: o que um homem honesto deve a si mesmo? E aos seus semelhantes e à sua terra natal? Elas desapareceram em 1858 e reapareceram no final do século XIX.

O manuscrito Dumfries no 4 (1710) indica que o candidato entrava na Loja com “a corda no pescoço”. Para a pergunta que seu mestre lhe fazia, respondia: “para enforcar-me se eu trair meu juramento”. Esta é a primeira menção de tal símbolo vinda de uma “Loja” de aceitos. Apenas em 1760 foi retomado, e apenas na Inglaterra. Não aparece em qualquer das gravuras da série das “Réceptions“, de 1745, nem nas do ” Recueil précieux ” (edição de 1787), já citado, nem no quadro de Maler, de 1786, Réception dans une Loge de Vienne en Autriche, do acervo do Kuntshistoriches Museum de Viena, Áustria.

A recepção prosseguia com as viagens. De acordo com Prichard (1730) havia apenas uma, feita desde a entrada, no sentido dos ponteiros do relógio, e que terminava com três passos diante do Mestre da Loja para a realização do juramento. Na França, a “Réception d’un Frey-Maçon” informa três “em torno da área marcada no chão, onde estão desenhados a lápis um grande J e um grande B”, prenunciando o painel da Loja que seria estabelecido definitivamente entre 1740 e 1745. Sua decoração variava em função do grau, assim como a disposição dos símbolos (o esquadro e o compasso, em particular, encontraram o seu lugar definitivo durante o século XIX), mas igualmente de acordo com os autores. É por isso que, para o aprendiz, temos “um painel da Loja de aprendiz, em seguida o verdadeiro painel …, depois o painel de verdade”, etc. cada qual superando o anterior. A intromissão hermética é muito clara, e a obra de Lenglet Dufresnoy, Histoire de la philosophie hermétique, em três grandes volumes publicados em 1742, desempenhou um papel considerável na criação e evolução do pensamento esotérico em gestação. Provavelmente se deve a ele a confirmação do caráter cósmico do que viria a se tornar o Templo Maçônico, com a presença do sol, da lua, da abóbada estrelada, da estrela flamejante, e a introdução de circunvoluções de acordo com as formas desta última. Surpreende, por isso, que nenhum dentre os catecismos, tão prolixos em suas explicações, fale sobre o sentido das viagens impostas ao candidato. Mas se não o faz, é porque sem dúvida este sentido não existia!

É apenas na década de 1780 que eles informam que a primeira viagem “… é feita em câmaras subterrâneas; a segunda, nas galerias superiores; a terceira, ao redor do templo”, mas não há qualquer explicação do por quê. E só em 1832 elas foram relacionadas às três fases da vida, através do Irmão Vassal, dignitário do Grande Oriente, interpretação que se manteve.

Foi também por volta de 1780 que os três elementos, água, ar e fogo, foram associados às viagens. O processo de dramatização vindo dos altos graus as transforma de provas simbólicas e purificadoras em testes reais, imitando as antigas iniciações que o trabalho do abade Robin, já citado, popularizou. Isso foi feito sem ordem ou diretrizes. Nada está estabilizado: as variações de um ritual para outro são inúmeras e as vagas explicações que acompanham as viagens revelam a indigência de um pensamento que se pretende iniciático, mas que ainda não está firmemente estabelecido. O sentido moral prevalece, e o objetivo buscado e admitido é intimidar o candidato, talvez para verificar a firmeza de seu caráter. Ainda que o breve contato com as chamas da prova de fogo pudesse impressionar, a prova da água era inócua e que a do ar não passava de uma ameaça. O manuscrito do ritual do Loja Mãe escocesa de Marselha o explica assim:

“Senhor, você ainda tem (esta é a terceira viagem) que se submeter a uma prova, muito mais intensa e mais dolorosa que outras: é necessário que você viaje no ar. Você não tem medo de ser lançado na atmosfera aérea e não se dá conta das consequências fatais de uma queda a que você se expõe?”

“Tendo o Recipiendário dito que não, todos os irmãos pedem que seja poupado de uma viagem tão perigosa.”

Havia a marcação do selo com um ferro quente, claro que um simulacro. A prova de sangue com o qual ele tinha que assinar seu juramento é tão assustadora para o candidato, aos olhos dos irmãos, que um destes, bem-intencionado e cheio de piedade, gritava “graça” no momento da preparação, que era concedida. Esta mesma prova viria se tornar a mistura de sangues, ainda praticada[18] hoje de uma forma simbólica. Havia o cálice da amargura cuja interpretação não traz nenhuma dificuldade. Veio da Alemanha, através do rito retificado praticado em 1755. A prova da Terra, vivenciada na Câmara de Reflexões, só aparece como tal no decorrer do século XIX. Tudo isso, completamente ignorado anteriormente, surgiu de repente na década imediatamente anterior à Revolução Francesa e se perpetua por trinta anos após a “retomada de 1794[19]”. O Grande Oriente tinha aprovado essas inovações e deu a elas um sentido exclusivamente moral, incluindo-as em seu ritual de 1786 e depois no Régulateur Maçon de 1801, mas sem abrir mão de sua natureza intimidatória.

“A primeira viagem deve ser a mais difícil. Deve ser feita devagar, muito lentamente, com uma caminhada muito irregular que deverá se utilizar da disposição do local para torná-la difícil, por obstáculos e dificuldades criados com esmero, mas sem o uso de qualquer meio que possa ferir ou molestar o recipiendário. Faz-se com que caminhe a passos lentos, às vezes um pouco mais rápido. Faz-se, de tempos em tempos, com que se abaixe como se fosse entrar em um subterrâneo, onde será levado a dar um passada larga como se fosse atravessar um fosso, e por último vai andar em ziguezague, de modo que não possa avaliar a natureza do terreno em que viaja. Durante esta viagem, lançar-se-á sobre ele granizo e trovões a fim de imprimir em sua alma uma sensação de medo.”

A explicação desta viagem: as vicissitudes da vida humana. Se até então a Maçonaria simbólica havia escapado da dramatização exagerada dos altos graus escoceses, parece que o convite para encher de dificuldades a recepção ao grau de aprendiz teve como resultado a junção do grotesco à tragicomédia.

Uma enciclopédia do início do século XIX reproduziu o artigo Franc-Maçonnerie l’admission d’un candidat. Dizia que, durante a primeira viagem, o candidato “…é conduzido à beira de uma armadilha que lhe dizem ser um precipício, no qual é convidado a saltar. Caso se recuse, é empurrado e cai da altura de vinte pés sobre dez lâminas de papelão a dois pés de altura uma da outra, que se arrebentam em sucessão, fazendo um barulho terrível. Na parte de trás se encontram os colchões que o receberão.”

Continua…

Autor: André Dore
Tradução: S. K. Jerez
Publicado originalmente em setembro de 1979

Notas

[18] – Não no REAA da GLESP (N.T.)

[19] – Queda dos jacobinos? (N.T.)

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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