Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 7ª Parte

A cena do perjúrio merece ser incluída na antologia das cerimônias escocesas de antes da Revolução:

“Uma mesa, no meio da qual fazemos um buraco redondo, é colocada em um canto da Loja. É coberta com um manto que vai até o chão. Um irmão, geralmente o mais pálido, é colocado debaixo da mesa, se ajoelha e coloca a cabeça pelo buraco que é tapado por um prato de estanho cujo fundo foi removido e a cabeça é envolta em um pano tingido de tinta cor de sangue, produzindo a ilusão de uma decapitação”.

Segue a descrição da cena em que a venda do recipiendário é removida, com os comentários de costume e a conclusão do redator “essa prova terrível causa grande impacto”. Grande parte dos fatos descritos pode parecer suspeita, embora seja retirada de uma famosa enciclopédia. São estas descrições e outras da mesma ordem que permitiram a P. Méjanel, de modo realista, ilustrar as obras do famoso Léo Taxil contra a Maçonaria. E como não mencionar a história surpreendente que consta da monografia de uma Loja de Paris, ativa ainda hoje, publicada em 1830 e disponível na Biblioteca Nacional, que diz que durante uma iniciação entre os anos 1806 e 1810, o candidato foi convidado a decapitar um cadáver real, trazido para o Templo com essa finalidade. Houve um escândalo …

Sem querer pôr em dúvida a realidade dos fatos apresentados, seria imprudente generalizar estes poucos e raros episódios cuja execução, além de tudo, trazia problemas materiais difíceis de resolver. Jogo duvidoso, um pouco perverso, bem próprio de uma época em que os heróis eram comuns, ou simplesmente desejo de impressionar os espíritos para valorizar uma pseudo-iniciação de misticismo ambíguo, com a qual os atores identificavam-se inconscientemente?

Mais reservado e fiel às instruções do Grande Oriente, a Loja Isis Montyon, do Oriente de Paris, especialista em iniciações extravagantes, inventou a “prancha de bolas[20]” e a introduziu com a balança, em 1810, nas recepções de aprendiz!

A prestação do juramento, tornada obrigatória no século anterior, era acompanhada de ameaças terríveis em caso de perjúrio. Elas eram obra dos especulativos, pois os operativos jamais as fizeram. Os manuscritos de 1696 a 1710 indicam que havia penalidades registradas na obrigação de aprendizes, mas não dão sua natureza e se há “a corda no pescoço” citada no manuscrito Dumfries no 4 (1710), pois parece que ela era apenas um símbolo.

A língua e o coração arrancados, a cabeça decepada de Prichard (1730), e os funerais impostos entre a maré baixa e a maré alta, eram as penas infringidas nos séculos XVI e XVII por crime de traição e até apareciam no código penal britânico da época; a França, que as recebeu, preservou-as até perto de 1780. Não há exemplos de que tiveram de ser aplicadas.

Na Inglaterra, desde o início do século o juramento era prestado sobre a Bíblia. Entre 1727 e 1730, o candidato segurava um malhete na mão direita e uma espátula (trolha) na mão esquerda. Na França, o faziam sobre a Bíblia, mais frequentemente sobre os Evangelhos ou o Evangelho de São João, jurando perante Deus, segundo o Recueil Précieux (1782). Em 1786, o Grande Oriente adiciona em seguida ao Grande Arquiteto, os termos “…sobre os Estatutos da Ordem e sobre esta espada, símbolo de honra.”

A cerimônia de juramento e consagração que se seguia sofreu muitas variações. Em atitude solene os assistentes ficavam todos de pé, de espada na mão. Dois oficiais conduziam o neófito, sempre com os olhos vendados, ante a mesa do Venerável (não diziam altar ou plano). Ele ficava em pé, com joelho direito apoiado em uma almofada sobre a qual era colocado um esquadro. Com a mão esquerda, segurava um compasso aberto com as pontas sobre sobre o peito esquerdo, a mão direita apoiada no “Livro” e às vezes levantada para o céu. Em seguida, repetia a fórmula que lhe era transmitida pelo Venerável.

Ao longo de todo o século XVIII, o juramento era prestado nos três graus. Era, por vezes, embora raramente, feito apoiando-se os dois joelhos sobre a almofada, às vezes variando: joelho esquerdo, aprendiz, joelho direito, companheiro, ambos os joelhos, mestre ou mesmo aprendiz; esta diversidade durou na Inglaterra até 1814. Às vezes as mãos do recipiendário eram colocadas sobre o “Livro” enquanto o Venerável mantinha um compasso sobre seu peito.

A cena de perjúrio foi uma invenção do século XIX. Não parece ter sido praticado em todo o século XVIII, e a renovação do juramento era feita após a queda da venda (Régulateur Mason, 1801). Isto acontecia depois que o candidato era reconduzido ao Ocidente. A seu pedido, e ao golpe do malhete, lhe era dada a luz. O momento podia ser impressionante. Alguns irmãos “portando tochas com mechas embebidas em álcool de vinho, no corpo das quais havia sido colocado pó de licopódio. Ao serem agitadas, o pó se espalhava, inflamando o álcool que queimava e produzindo uma chama muito alta de luz muito brilhante.” O neófito, então, se dava conta de que todos os maçons ali reunidos estavam apontando suas espadas contra ele. Depois de uma pausa, o Venerável tranquilizava o novo aprendiz, dizendo que essa atitude deles doravante lhe garantiria ajuda em caso de necessidade.

Os demais regressavam às suas colunas, e de pé e com a espada na mão, o Mestre da Loja procedia à consagração. Esta era feita, de acordo com a época, o lugar e a Loja, pelo malhete, depois pela espada, pelo malhete e a espada e, às vezes, pelo malhete e pelo compasso. Uma vez o neófito em pé, ou em pé com um joelho sobre a almofada e o esquadro que havia sido usado para a Obrigação, o Venerável o constituía aprendiz maçom, “para a glória do Grande Arquiteto do Universo”, de acordo com uma fórmula um pouco semelhante à usada hoje, confirmando em seguida sua admissão na Ordem ao aplicar-lhe na cabeça pequenos golpes de malho ou espada por três ou três vezes três vezes. Após um abraço, era-lhe entregue o avental e as luvas. Naquela época e ao longo do século XVIII, a abeta do avental de aprendiz ficava para dentro, invisível. A dos companheiros, às vezes adornadas com os utensílios, ficavam levantadas e abotoadas a fim de se manterem assim, e as dos mestres, abaixadas. Até o colar do mestre fazer sua entrada em loja nos anos 1775, só a posição da abeta permitia identificar o grau de um irmão. Na Idade Média, o uso de luvas estava associado a cerimônias religiosas e militares.

Entre os operativos, o empregador oferecia um par ao “aprendiz registrado” quando de sua recepção, sem que haja qualquer explicação sobre isso. O The Maçon’s examination, de 1723, indica que o recém-admitido recebe dois pares de luvas brancas, um “para ele e um para uma mulher”, sem mais comentários. Prichard (1730), nada menciona a respeito. Mas Hérault, na Réception d’un frey-maçon (1737) acrescenta “…o segundo par é para a mulher que ele mais considera.” Em 1760, ao entregá-las, o Venerável dizia: “Um pedreiro jamais deve mergulhar suas mãos na iniquidade” e, em 1786, orientava “as luvas, por sua brancura, vos lembra da candura que sempre deve reinar na alma de um homem honesto, e da pureza de nossas ações.” Quanto à mulher “…nós rendemos homenagem às suas virtudes.” E Goethe mostrava que o grande valor deste presente residia no fato de “…que um pedreiro poderia fazê-lo apenas uma vez em toda a sua vida.” Tendo o costume se tornado tradição, a oferta de luvas continua até hoje.

Em seguida, vinha o convite para o reconhecimento do novo aprendiz, a comunicação dos sinais, da postura, da marcha, das palavras. A primeira era manifestada pela bateria e pela aclamação vivat, vivat, et semper vivat, substituída em meados do século por Huzzé nas lojas escocesas. Na Inglaterra, os trabalhos eram interrompidos, fazia-se um brinde no local, ao novo irmão, e retomavam-se os trabalhos. Na França, instituiu-se um costume de fazer com que o(s) recém-chegado(s) oferecesse(m) um banquete após a recepção; os abusos foram tantos que acabaram desistindo dessa prática.

Continua…

Autor: André Dore
Tradução: S. K. Jerez
Publicado originalmente em setembro de 1979

Notas

[20] – Uma tábua sob a qual havia bolas e sobre a qual o aprendiz deveria se equilibrar. A balança citada tem a mesma finalidade. É uma tábua com um cilindro transversal em seu centro, sobre a qual o aprendiz deveria caminhar. (N.T.)

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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