Os Três Reis Magos

Nós, criados sob a égide da igreja do Vaticano, conhecemos de cor e salteado a estória dos três reis magos (no contexto bíblico a palavra mago não significa bruxo ou feiticeiro, mas sim assume o sentido de sacerdote ou sábio, possuidor de poderes e dons divinos). Mas até que ponto existe alguma realidade? Uma mera estória de carochinha?

Segundo a estória que nos foi passada, os três reis magos vieram do oriente, conduzidos por uma linda e brilhante estrela, para venerar o pequeno menino Jesus, trazendo-lhe presentes: mirra, ouro e incenso, cada um com seu sentido simbólico:

  • mirra[1] simbolizava a pureza, a mortalidade, o perfume suave e de sacrifício, era o presente oferecido a profetas  resina anti-séptica mirra usada em embalsamamentos desde o Egito antigo, também nos remete ao gênero da morte de Jesus, o martírio, sendo que um composto de mirra e aloés foi usado no embalsamamento de Jesus (Jo 19:39-40)[2], sendo que estudos no Sudário de Turim encontraram estes produtos;
  • ouro representava a realeza, nobreza sendo apenas oferecido para réis;
  • incenso simbolizava a fé e era presente oferecido apenas para sacerdotes (religiosos)  – é usado nos templos para simbolizar a oração que chega a Deus assim como a fumaça sobe ao céu (Sl 141:2)[3].

Simbolicamente os reis magos também representavam os ricos e poderosos que, apesar de suas posses e conquistas, se curvaram a Jesus, homem humilde que nasceu de um ventre virgem em uma estrebaria rodeada de animais mostrando que todos nós nascemos para servir o próximo independente de etnia e classe social. Reconhecidos como Baltazar, rei da Arábia de cor negra, Belchior[4], rei da Pérsia de cor clara e Gaspar, rei da Índia de cor amarela, representam os povos de todas as cores e nações.

A tradição atribuiu à visitação dos Magos o dia 6 de janeiro estando ela a associada o presépio onde os três personagens aparecem de forma contundente ao menino Jesus – lembramos que a estrela colocada no topo das árvores de Natal representa a estrela de Belém, que conduziu os reis magos para a cidade onde nasceu o menino Jesus.

Nós que residimos em pequena cidade do interior de Minas Gerais, Lima Duarte, já tivemos oportunidade de perceber quão forte é a tradição do culto católico quanto à visitação dos reis magos ao menino Jesus. Estamos nos referindo à Folia de Reis onde pessoas, com vestimentas típicas e extremamente coloridas, algumas com máscaras (de extremo mau gosto para não dizer arrepiadoras), vão de porta em porta pedindo oferendas e cantando seus ‘louvores’…

Conclusão

Granjeamos essas tradições de nossos pais, dos nossos tios, avós etc. que, por sua vez, as receberam de seus pais, avós…

Mas a pergunta não cala: Elas têm alguma veracidade histórica?

A resposta nua e crua: NÃO! Tudo não passa de folclore! De meras lendas. 

Senão vejamos:

1 – Os magos apenas são mencionados em um dos quatro evangelhos, o de Mateus; mesmo assim sem mencionar quantos eram (sabe-se apenas tratar-se mais de um, porque a citação está no plural). Porque o silêncio dos outros três escribas? Porque só aceitar Mateus em detrimento dos demais? Não teria Mateus criado a passagem bíblica? Não há evidência histórica da existência dessas pessoas”, diz André Chevitaresse, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “São personagens criados pelo evangelista Mateus para simbolizar o reconhecimento de Jesus por todos os povos.” Possivelmente três, não por ser o três um número cabalístico, mas sim em função das prendas oferecidas, em número de três, estas sim, também atreladas a forte simbolismo.

2 – No evangelho de Mateus não há qualquer menção de que tivessem sido reis. Segundo historiadores, foi apenas no século III que eles receberam o título de reis – provavelmente como uma maneira de confirmar a profecia contida no Salmo 72:11: “E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão” e, assim, ‘ajustar as coisas’. Na melhor das hipóteses eles seriam sacerdotes… Poderiam até ser astrólogos ou astrônomos: viram uma estrela e foram, por isso, até a região onde nascera Jesus, dito o Cristo.

3 – De onde vieram seus nomes? Ainda segundo os historiadores, por volta de 800 anos depois do nascimento de Jesus, é que eles ganharam nomes e locais de origem! Mais uma ‘adaptação’!

4 – No livro sagrado dos cristãos não há qualquer menção quanto à data 6 de janeiro, mas uma vez instituído o nascimento do menino, 25 de dezembro, é de se supor já se havia passado algum tempo até o momento da ‘visita’ por causa da distância… Outro ‘belo chute’! Aliás, ‘bela caminhada’ de uns 11 dias perseguindo uma, certamente vagarosa, estrela…  Uma ‘caminhada’ possivelmente noturna a menos, é claro, que tal estrela também fosse visível durante o dia…

5 – A tradicional crença de que Jesus foi visitado quando do seu nascimento não é consensual entre todos os pesquisadores bíblicos. Existem os que aceitam que Jesus já possuía uma certa idade. Essencialmente há quatro linhas de evidência para acreditar que Jesus já não era mais um bebê quando recebeu a visita dos, perdoem, três reis magos:

  • a tradução para o texto de Mt. 2:1[5] usa a expressão “uma criancinha”, “um menino”, e não um bebê – atente para essa passagem: Mateus inicia Entrando na casa,… Nada de manjedoura…!
  • em diversas traduções de respeito é citado que quando Jesus foi encontrado estava em uma casa e não em uma manjedoura – vide Mt. 2:1.
  • o fato de Herodes mandar matar as crianças de até dois anos; e, por último,
  • o fato de Maria ter dado apenas dois pássaros no templo como contribuição pelo nascimento do menino, o que a identificava como muito pobre, e não doando parte dos presentes que supostamente teria ganho, presentes oferecidos pelos visitantes estranhos:  ganhou ouro e outros itens extremamente valiosos para a àquela época.

Da revista Superinteressante, edição de janeiro/2002, extraímos o seguinte:

…Quem hoje for visitar a catedral de Colônia, na Alemanha, será informado de que ali repousam os restos dos reis magos. De acordo com uma tradição medieval, os magos teriam se reencontrado quase 50 anos depois do primeiro Natal, em Sewa, uma cidade da Turquia, onde viriam a falecer. Mais tarde, seus corpos teriam sido levados para Milão, na Itália, onde permaneceram até o século 12, quando o imperador germânico Frederico dominou a cidade e trasladou as urnas mortuárias para Colônia. “Não sei quem está enterrado lá, mas com certeza não são eles“, diz o teólogo Jaldemir Vitório, do Centro de Estudo Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. “Mas isso não diminui a beleza da simbologia do Evangelho de Mateus ao narrar o nascimento de Cristo.

Mesmo com todos os fatos bem à mostra as lendas continuam… E muitos ainda crendo nelas! E muitas sendo publicadas como se verdades fossem.

Não o são!

“Vivemos num mar de mentiras verdadeiras e verdades fictícias.” (Jesus Rocha)

Autor: Aquilino R. Leal – M.’.I.’.
Loja Stanislas de Guaita, 165 – REAA – GLMERJ

Nota do Blog:

O irmão Aquilino é colaborador do semanário FOLHA MAÇÔNICA, do mensário espanhol RETALES DE MASONERÍA, e produtor do programa MÚSICA E MEMÓRIA, UMA VIAGEM AO PASSADO, apresentado todas as quartas-feiras das 17 às 18 horas na Rádio Naphtali (http://www.naphtaliwebradio.com). É também colaborador do blog O Ponto Dentro do Círculo, com seus artigos sendo publicados toda sexta-feira.

NOTAS

[1]Certamente a resina da mirra a qual se obtém dos seus caules é usada na preparação de medicamentos, devido a suas propriedades anti-sépticas (fonte, inclusive a imagem da árvore: http://pt.wikipedia.org – 8/2010).

[2]E foi também Nicodemos (aquele que anteriormente se dirigira de noite a Jesus), levando quase cem arráteis de um composto de mirra e aloés. Tomaram, pois, o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com as especiarias, como os judeus costumam fazer, na preparação para o sepulcro. (Bíblia Sagrada, Antigo e Novo Testamentos – João Ferreira de Almeida)

[3]Suba a minha oração perante a tua face como incenso, e as minhas mãos levantadas sejam como o sacrifício da tarde.

[4]Uma outra possível grafia é Melquior.

[5]Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entraram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra. (Bíblia Sagrada, Antigo e Novo Testamentos – João Ferreira de Almeida)

 

 

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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