Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 9ª Parte

Até 1730 havia praticamente só dois graus, e a recepção do segundo consistia de uma obrigação, da comunicação de um sinal não descrito, de uma palavra até hoje secreta e dos cinco pontos do companheiro. Documentos anteriores a 1727, como o Manuscrito Edinburgh Register House, de 1696, o Manuscrito Trinity College de Dublin, de 1711, o The Mason’s examination, de 1723 e o Manuscrito Graham, de 1726, explicam muito bem o cerimonial de passagem do grau de aprendiz para o de companheiro, assim como aqueles publicados até 1750, depois de Prichard (1730), sobre a contribuição simbólica ocorrida a partir dessa data. Além do próprio episódio do assassinato de Hiram, é fato que o terceiro grau foi estabelecido por sucessivas divisões dos dois primeiros, apropriando-se, em particular, dos principais elementos do grau de companheiro. Alguns deles voltaram mais tarde para a sua fonte original.

O aspirante a companheiro tinha de ser instruído nos “Mistérios” da Maçonaria. Assim, ele era interrogado, por um lado, sobre as circunstâncias da sua admissão, sobre o cerimonial usado e o porquê dele, e, também, sobre aquilo que havia aprendido.

As perguntas e respostas eram breves. Na verdade, recitavam “de memória” o catecismo sem pararem para pensar, num rigoroso exercício de memorização. Há os 90 pontos de Prichard relativos à orientação, à aparência e ao mobiliário da Loja, ao papel de seus oficiais, ao “segredo”, à linguagem corporal. Este texto revelador é precioso e podemos aprender com ele, guardando dele somente isto: “Que o fundamento desta Câmara sejam três colunas ou pilares, força, sabedoria e beleza”, que o teto “seja um céu de nuvens embelezado por cores de todos os tipos”, que o pavimento “seja decorado com obras de mosaico”, “que no centro haja um cometa (a estrela flamejante)” e que “ao redor da Câmara haja um forro com um brocado de ouro que constitua a cerca ao seu redor”. Todos estes elementos, além de alguns utensílios, foram incluídos no painel da Loja. Além disso, dizia “que o ponto Je, ou ponto central, impeça qualquer erro do mestre ao fazer a circunferência, a linha um comprimento sem largura, a superfície um comprimento com uma largura e que um corpo compacto (volume) envolva tudo”.

Há também enigmas. Assim, o mestre está “vestido com uma jaqueta amarela e calças azuis” (empunha um compasso, que na época era o seu atributo), e os segredos estão escondidos “no peito esquerdo (do maçom), a ‘chave’ que permite o acesso está fechada em uma ‘caixa de osso osso[23]‘”, a qual “se abre e que não se fecha a não ser com uma chave de marfim” pendurada e amarrada “a uma correia de seis polegadas[24]”. Solução do enigma: a boca, o palato e os dentes, e se o idioma é a chave de marfim (?) o que se chama de “guardiã do palavreado” são as palavras.

Um aprendiz não pode passar a companheiro sem haver “servido a seu mestre”, o que ele faz “com cal, carvão vegetal e uma pá”, significando respectivamente “liberdade, seriedade e zelo” (tradução da edição de 1743) ou “com giz, carvão vegetal e o recipiente de preparar argamassa” ou “Liberdade, fervor e zelo” (1788). Esta interpretação livre dos símbolos, expressão de um humor muito britânico neste caso, não haveria de satisfazer tanto o abade Perau, cujo aprendiz em “Trahi“, de 1742, tinha trabalhado com “cal, pá e tijolo”, ou seja,” liberdade, confiança e zelo “, porque ele pensava adicionar, em uma nota: “É preciso que o maçom sinta a precisão destes emblemas.” No entanto, a se acreditar no prefácio do livro de um de seus concorrentes na literatura maçônica, ele tinha sido “iniciado” de autoridade, e para aquela ocasião o termo “iniciado” é adequado, porque havia se feito introduzir indevidamente em uma loja e, descoberto, havia sido antecipadamente “colocado sob uma goteira ou (sob uma bica de calha durante uma chuva forte) para que a água o penetre da cabeça aos pés e encharque os seus sapatos” punição reservada para curiosos e formulada nos catecismos.

Se bem que “nem nu, nem vestido,” sem a venda e a corda no pescoço, ainda estejam em vigor no Rito de Emulação, nem os textos nem a iconografia existente sugerem que tenha sido assim durante a maior parte do século XVIII. Deve ter sido um presente dos “Antigos” para os “Modernos” da segunda metade do século, confirmado na fusão de 1813. Na França, e bem depois, alguns poucos rituais escoceses o adotaram. O aspirante tinha provado que havia sido instruído nos mistérios maçônicos, aprendido que se tornara companheiro “por causa da letra G” ou “pelo amor da letra G”, e reiterava, da mesma forma que antes, o juramento proferido em sua admissão ao grau de aprendiz.

Não parece que tenha havido qualquer viagem durante a recepção ao segundo grau, a menos que se identifique como tal os cinco passos praticados pelo Rito de Emulação, que os traz do século XVIII. As mencionadas pelos catecismos não têm a característica da marcha bem específica do aprendiz, e parece puramente simbólica.

Você já viajou alguma vez?, pergunta o Grão-Mestre (que se tornará o Venerável)

– Fiz viagem no Oriente e no Ocidente. e, em outra versão “de Leste para o Oeste”.

 Você alguma vez já trabalhou?

Sim, para a construção do Templo.

– Onde você recebeu o seu salário?

– Na Câmara do Meio.

– Como você pode entrar na Câmara do Meio?

– Pelo pórtico. e, em outra versão “passando por uma antecâmara”.

– O que você viu pelo caminho?

– Dois grandes pilares …

E o candidato, em seguida, toma contato com os dois pilares de Salomão cujos nomes ele tinha aprendido sem saber a que aplicá-los, e as suas dimensões, conforme a descrição dada pela Bíblia (Reis I. cap. 7).

– Como você chegou na Câmara do Meio?

– Por uma escada oculta em caracol, ou “por uma escada oculta em espiral de lance duplo.”

– Quantos degraus naquela escada?

– Sete ou mais …“… porque sete ou mais compõem um colégio perfeito, ou fazem uma loja justa e perfeito”.

Sinal, palavra e toque são necessários para franquear a porta, muito alta, da câmara do meio, onde ele vê “algo parecido com a letra G”.

– O que significa este G?

– Geometria ou a ciência.

Ele tinha dito no início do catecismo. Mas esta questão não era pertinente nem poderia receber outra resposta. Prichard, ou os autores dos textos, talvez tomados de remorso ou pela inquietude de eliminar Deus, o que, em uma época em que os poderes estavam sob a tutela das igrejas, era um perigo considerável, acrescentou um pouco mais tarde, como resposta à mesma pergunta:

– “O Grande Arquiteto da roda do mundo, ou aquele que foi enviado sobre o topo do Templo” (tradução, palavra por palavra, da edição de 1743);

ou “o Grande Organizador do Universo, que foi colocado no ponto mais alto do Templo” (tradução da edição de 1788).

Duas frases que merecem uma análise …

A letra G estava traçada no centro da câmara do meio. Em 1740, duas gravuras no “Dialogue between Simon and Philip” a representam. Uma, fechada em um contorno “de diamantes”; a outra, no meio de um sol radiante que não pode ser confundido com a Estrela Flamejante, que também pertencia à panóplia[25]do grau de aprendiz. Todas duas fizeram sua primeira aparição, em 1726, em uma etiqueta que anunciava uma série de palestras sob o título de “The Antidiluvian Masonry“, criadas a dar o significado da letra G, da Estrela Flamejante etc., inovações introduzidas por Desaguliers e outros, e para se levantar contra a indignidade que constituía o fato de apagar o quadro de Loja com vassoura e balde ao final da reunião.

A aparente simplicidade do significado da letra G, geometria, Grande Arquiteto (God) faz esquecer que ela que é a terceira letra do alfabeto hebraico, o número 3 em si, o da trindade divina, e que está, portanto, ligada ao simbolismo Cabalista. Desde a sua origem ela é o único elemento estável do segundo grau e ainda mantém os seus dois sentidos primitivos. A eles juntamos outros: um catecismo manuscrito anterior a 1750 a define como: “glória, grandeza, geometria, a 5a ciência”, glória ao Grande Arquiteto, grandeza para o mestre da Loja, geometria para os irmãos”. Contrariando isso, outro manuscrito que data da década de 1780 cita somente a geometria e elimina o Grande Arquiteto. Um acidente, sem dúvida, porque o ritual do Grande Oriente, de 1786, reimpresso no Régulateur Maçon, em 1801, depois no Régulateur Symbolique, de 1839, diz que “ela é o monograma de um dos nomes do Altíssimo, fonte de toda luz e de toda ciência.”

Quando a Estrela Flamejante foi associada com a letra G?

Uma menção em 1726, uma segunda que a inclui na mobília da Loja de aprendiz, em 1730, uma terceira no “Dialogue between Simon and Philip“, em 1740, que atribuem sua paternidade a Desaguliers e seus amigos – o que deve ser verdade – e sem qualquer significado especial. Ela parece ter seguido o caminho da abóbada estrelada, surgida em 1711. Mas os Reis Magos ficaram muito tempo vagando na estrada, como diz o “Trahi“, edição de 1767. Em ambos os painéis, de aprendiz e companheiro, mostrados no primeiro “tal como foi publicado em Paris, mas impreciso”, aparece a letra G na estrela que arde, e, no segundo, “o verdadeiro plano de recepção”, a estrela sempre flamejante sobre uma esfera ao pé da qual está a letra G. No “Les Francs-Maçons Écrasés“, de Larudan (1778), nos painéis de aprendiz e companheiro, a estrela arde, sem a letra, aparece sem chamas no painel do Mestre, e o G não aparece em nenhum dos três. “A estrela misteriosa” – ela asim permaneceu – havia adquirido notoriedade durante o período de separação dos dois graus, companheiro e mestre, e da estabilização de seus respectivos rituais, por volta de 1760. Ela foi confirmada desde o momento em que a tradição hebraica penetrou na maçonaria e introduziu o iod no seu centro, o que a tornou divina. O Grande Oriente a consagra definitivamente entre 1773 e 1786, quando estabeleceu o chamado rito “francês”.

Continua…

Autor: André Dore
Tradução: S. K. Jerez
Publicado originalmente em setembro de 1979

Notas

[23] – O texto original diz “boette d’or” mas o livro de Prichard diz, em inglês “Bone Bone box” (N.T.).

[24] – Prichard diz Cabo de reboque de 9 polegadas ou um palmo(N.T.).

[25] – Segundo o Houaiss, na Idade Média, armadura completa de cavaleiro europeu (N.T.).

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Ensaio Sobre as Origens dos Rituais e dos Graus Simbólicos – 9ª Parte

  1. (Barão) Jose Gonçalves Machado disse:

    Ótimo!!! Assim espero buscar mui documentações para ampliar o meu conhecimento (Barão)

    Curtir

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