A Origem da Alma – Epílogo

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um dos objetivos propostos na Introdução era o de apontar para o surgimento da noção de alma no Ocidente. Apesar de não ser possível precisar seu período exato, depreende-se deste estudo que o conceito de alma começa a adquirir dignidade e importância por volta do século VI a.C. A nova concepção de alma – aquela que implica em imortalidade – começa a ser divulgada pelo poeta Píndaro, enquanto que, simultaneamente, expande-se o fenômeno do Orfismo ajudando a difundir a nova percepção.

Sobre a segunda proposta, a de entender a origem ontológica da alma, seu estatuto e proveniência, pode-se observar que esta preocupação começa a se fazer perceptível em alguns pré-socráticos como Heráclito e Empédocles, que, efetivamente, abordam este tema de uma forma racional, apresentando as primeiras averiguações referentes à ontologia da alma.

Pitágoras, como pôde ser visto, elabora uma cosmologia mais complexa, construída sobre a ciência e o conhecimento, dentro da qual insere a existência anímica. Infelizmente, não temos todos os detalhes de suas proposições já que a obra pitagórica não nos chegou em sua completude; entretanto, os fragmentos deixados por seus discípulos conseguem nos transmitir parte da visão pitagórica da alma humana dentro da hierarquia universal.

Finalmente, com Platão, nos chega a maior elucidação neste sentido. Platão ousa apontar para uma origem ou momento de criação da alma no Timeu e a descrevê-la detalhadamente, introduzindo a figura do deus criador através do “Demiurgo”. Os detalhes da trajetória da alma, de sua substância, das partes que a compõem, enfim, os detalhes relativos à psychè que seria possível analisar foram abordados por Platão de forma empenhada. Este estudo pôde nos dar uma ideia de seu profundo interesse por estas questões e da dedicação despendida para compreendê-las e divulgá-las.

Com relação ao terceiro ponto apontado no início, ou seja, a hipótese de existência de um dualismo entre o corpo e a alma, e, apesar desta discussão não ser o escopo principal desta pesquisa, parece-nos visível a aceitação e divulgação desta teoria tanto nas crenças órficas quanto em alguns dos pré-socráticos visitados. Em Platão, a crença neste dualismo torna-se manifesta, como verificável nas várias citações apresentadas.

Apreendemos, no entanto, que este dualismo não despreza a importância do corpo material. Assim como a alma tem uma “função” dentro da grande organização universal – que é aprender a governar o corpo e a governar-se a si própria – também o corpo, enquanto instrumento, denota uma clara essencialidade no processo de obtenção de conhecimento da alma. Verifica-se que esta dualidade corpo-alma – com suas implicações que envolvem tanto o processo de purificação da alma quanto o respeito pelo corpo material – é uma herança que passa do Orfismo para Pitágoras e que alcança e influencia fortemente Platão.

É importante salientar que este estudo, em sua integralidade, deve ser entendido como um “primeiro olhar” à temática da alma, dadas a grandeza e a dimensão do assunto. Qualquer aprofundamento sobre algum dos pensadores escolhidos, ou, quem sabe, sobre algum dos mitos platônicos em particular, seria suficiente para originar um outro específico trabalho, fugindo à proposta deste. Por isso, foi feita a opção de lançar um olhar abrangente sobre determinado período e compreender o fio condutor que ligou as primeiras manifestações do pensamento metafísico da época.

Neste sentido, é importante perceber que o período pesquisado encerra uma verdadeira revolução na forma de se enxergar a alma. Quando Sócrates afirma que preservar do mal a alma do homem é a coisa mais importante da vida e que, em comparação com isto, tudo o mais deve ceder, esta ênfase na alma seria incompreensível para os gregos das épocas anteriores se a religião órfica já não tivesse chamado a atenção daquele público para a ideia de imortalidade da alma. A partir daí, as bases de uma nova teologia, que influenciaria profundamente o Cristianismo, estariam lançadas.

Para o professor Werner Jaeger, foi graças a Platão que o helenismo sobreviveu, se mesclou e influenciou o Cristianismo. Apesar desta tese não ter sido explorada neste trabalho, é interessante, como finalização desta reflexão, enxergar que, na opinião de Jaeger, as “Ideias” de Platão passariam a ser interpretadas como os “pensamentos de Deus” no nascente Cristianismo. A distinção entre corpo e alma e as implicações éticas contidas nesta teoria influenciariam de forma determinante as primeiras elaborações teológicas da nova religião que tomaria forma alguns poucos séculos mais tarde.

É, pois, com Platão que ocorre a grande revolução na forma de se encarar a vida e a morte: o homem é livre de decidir seu destino já que “a escolha das condições é deixada à inteira liberdade das almas”; ninguém poderá, posteriormente, reclamar delas à divindade que, neste caso, encontra-se “alheia ao assunto”. Os deuses, portanto, não mais interferem no destino dos homens. E esta noção de liberdade perante o próprio destino seria fundamental na formação dos novos valores morais e religiosos da civilização ocidental.

Com o Orfismo, a religião grega passa a ser uma religião de interioridade e se desenvolve a fé através da devoção catártica da alma às Leis universais; com Pitágoras, a ciência adquire papel fundamental na busca da Verdade e temos a primazia do conhecimento enquanto instrumento de purificação e ascensão da alma. Em Platão percebemos a presença do duplo legado: a fé racionalizada presente em seus mitos evidencia a união entre fé e razão. E, assim, em Platão, temos a primeira importante fusão entre teologia e filosofia, fusão que determinaria não só a trajetória do pensamento, como a forma de compreender o sentido da alma humana por vários séculos.

Autora: Anna Maria Casoretti

Anna é Graduada em Filosofia, mestranda em Filosofia pela PUC, participante do Grupo de Pesquisa de Estudos Platônicos (PUC-SP/ Cnpq).

Fonte: Revista Pandora Brasil

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Outras obras utilizadas na elucidação de conceitos e dados biográficos:

ABBAGNANO, NICOLA – Dicionário de Filosofia, Ed. Martins Fontes, 2003, São Paulo HUISMAN, DENIS – Dicionário dos Filósofos, Ed. Martins Fontes, 2004, São Paulo

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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