As Quatro Causas em Aristóteles

Ao explicar e sistematizar o saber filosófico produzido por seus antecessores, Aristóteles ajudou a construir todo um cânone ocidental.

“A história da filosofia não se inicia com Aristóteles, mas a historiografia da filosofia sim. Aristóteles foi o primeiro filósofo que, de forma sistemática, estudou, registrou e fez a crítica das obras dos filósofos anteriores” (ANTHONY, 2004, p. 25). No primeiro livro da sua obra Metafísica, Aristóteles resume os ensinamentos de seus predecessores e percebe que os filósofos até então não haviam sido precisos ao mencionarem as causas de todas as coisas. Para ele, a investigação filosófica é acima de tudo uma investigação sobre as causas das coisas, das quais há quatro diferentes tipos: a material; a eficiente (motriz); a formal; a final.

Segundo Aristóteles todos os homens são inclinados ao saber. Como prova o estagirita nos explicita o amor pelas sensações. Mas, sabemos que somente as sensações não nos garantem o verdadeiro saber; os animais são dotados de sensações, e nem por isso possuem a razão. A memória armazena as sensações, e pela repetição delas produz um juízo universal, ou seja, um conceito que abarca a totalidade de uma espécie, “aquilo cuja natureza é afirmada de diversos sujeitos” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p. 191), causando a experiência, e da experiência surge a ciência. A experiência é conhecimento dos particulares, a ciência é conhecimento dos universais, e quem conhece os universais conhece também os particulares, haja vista estarem os particulares contidos nos universais. Por isso os que possuem a arte dos universais, são capazes de ensinar, pois conhecem a causa das coisas, e isso distingue quem sabe de quem não sabe.

Conforme Aristóteles (2002, p. 5), “os empíricos conhecem o puro dado de fato, ao contrário, os outros conhecem o porquê e a causa, em virtude disso são mais sábios que os primeiros”. Então, ele afirma que as sensações nos dizem apenas “o quê”, mas não “o porquê” das coisas. O tato nos comunica que o que está quente queima, mas não nos diz o porquê nem a causa. Após fazer algumas alegorias ele nos afirma no livro alpha da sua Metafísica que as primeiras ciências se detiveram às coisas essenciais e necessárias, ou seja, tinham como finalidade a produção de mantimentos indispensáveis para a vida do homem. A essas ciências ele deu o nome de Poiéticas; elas tendem a produção de coisas.

Se remontarmos à história das civilizações perceberemos que depois de suprir as necessidades físicas, postas em primeiro lugar, os homens perceberam a necessidade de se organizarem em sociedades, fazendo surgir as Ciências Práticas, como a Ética e a Política que tem por fim a ação. Após tratarem das necessidades e do bem-estar, os homens atentaram para a filosofia; por isso conforme Aristóteles (2002, p. 9), “todas as ciências serão mais necessárias que esta, mas nenhuma lhe será superior”. Todavia, a filosofia, é a ciência que tem como fim a ela mesma, o próprio conhecimento, e aí estão as características de uma ciência superior: ciência das causas e princípios primeiros (das coisas divinas), ciência que apenas Deus possui em grau máximo.

Fica claro que o objetivo da investigação é uma única ciência, que deve especular os princípios primeiros e as causas. E para realizar um estudo sobre as causas, Aristóteles remonta aos seus predecessores, aqueles que antes dele teorizaram essa busca incessante da causa das coisas, tendo em vista que ele não é o primeiro a falar acerca desses assuntos.

A análise das doutrinas dos predecessores

A filosofia nasce da admiração, da tentativa do homem de explicar a causa das coisas, e é por isso que para Aristóteles os amantes do mito também foram, de certo modo, filósofos. Tales considerado por Aristóteles “o fundador da filosofia”, expressa em sua doutrina que a água é elemento primordial de todas as coisas. Posteriormente Aristóteles menciona Anaxímenes e Diógenes que consideraram o ar como princípio por excelência. Heráclito e Hipaso consideraram como princípio o fogo. Empédocles adicionou a terra, que ainda não havia sido mencionada, e afirmou que dos quatro elementos surgiram todas as coisas. Anaxágoras afirmou que os princípios eram infinitos. Portanto, nota-se que, os primeiros a filosofarem, em sua maioria, pensaram que os princípios de todas as coisas fossem exclusivamente materiais.

“Quando alguém disse que na natureza, como nos animais, existe uma inteligência que é causa e ordem, pareceu esse ser o único filósofo sensato”

Fica claro que para Aristóteles os jônicos[1] não foram suficientemente claros ao tentarem sistematizar a doutrina das causas, pois falaram apenas de princípios únicos e materiais, não notaram que as coisas infinitas não podem surgir daquilo que é finito. Exceto Anaximandro que mencionou o infinito como princípio de todas as coisas. Apesar de não terem sido claros quanto às demais causas, o que disseram acerca da causa material foi de fundamental importância, pois se notarmos a nossa volta tudo que apreendemos com nossos sentidos está materializado.

“De fato, mesmo tendo admitido que todo processo de geração derive de um único elemento material, ou de muitos elementos materiais, por que ocorre e qual é a causa? Certamente não é a própria matéria que provoca mudança em si mesma” (ARISTÓTELES, 2002, p. 17). Investigar isso seria buscar outro princípio, isto é, como diríamos nós, o princípio do movimento, a causa eficiente, o que executou a mudança (a transformação). Notamos ainda, os que admitem apenas um princípio tiveram muitas dificuldades, e melhor resolveram a questão os que admitiram vários princípios, por exemplo, os que se servem do fogo como se fosse dotado de natureza motora, e da água, da terra e do ar como se fossem a matéria. Mesmo assim, após esses pensadores e depois da descoberta de certos princípios insuficientes para produzir a natureza e os seres, os filósofos puseram-se em busca de outro princípio. Não aceitaram que as coisas belas e boas tivessem sido geradas pelo fogo, ou pelos demais elementos, e nem muito menos pelo acaso. Para Aristóteles (2002, p. 21), “quando alguém disse que na natureza, como nos animais, existe uma inteligência que é causa e ordem, pareceu esse ser o único filósofo sensato”.

Parmênides pareceu ser o primeiro a buscar uma causa desse tipo, pôs como princípios o amor e o desejo, “Primeiro entre todos os deuses a deusa produziu o amor” (ARISTÓTELES, 2002, p. 21), como se ele reconhecesse que deve existir nos seres uma causa que move e reúne as coisas. Empédocles, entendendo essa lógica falou de amizade e discórdia. Parece que esses alcançaram apenas duas das quatro causas que defende Aristóteles, a saber, a causa material e a causa do movimento.

Os pitagóricos tinham mais interesse nos números da receita do mundo do que os próprios ingredientes. Eles supunham, diz Aristóteles, que os elementos dos números eram os elementos de todas as coisas. Eles generalizaram a noção de que as diferenças qualitativas poderiam ser a consequência de diferenças numéricas. Sua investigação, nas palavras de Aristóteles (2002. p. 27), “foi uma investigação sobre as causas formais do universo”. Também se referiram aos pares de contrários, porém, diferentes dos demais, disseram quais eram e quantos eram.

Chegando a seus predecessores imediatos, Aristóteles afirma que Platão, em sua teoria filosófica, combinou as abordagens das escolas de Tales e Pitágoras. Mas a Teoria das Ideias de Platão, apesar de ser o mais abrangente sistema científico até então concebido, parecia a Aristóteles insatisfatório em vários níveis. Platão fala da existência de formas, porém, diferente de Aristóteles. Para aquele as formas estavam em outra dimensão, enquanto este cria que as formas estavam inseparavelmente contidas nas coisas. Podemos dizer então que, Platão vê a forma de maneira transcendente enquanto Aristóteles, seu discípulo, a vê de forma imanente.

A crítica de Aristóteles

Depois de expor o pensamento dos filósofos anteriores a ele, Aristóteles faz sua crítica apontando primeiramente o fato de tais pensadores terem se descuidado em não mencionar de forma clara as causas, descuidando-se ainda mais da causa final que na doutrina aristotélica consiste ser a causa mais importante da filosofia da natureza. Visto estar todas as coisas em constante devir, segundo o estagirita, deve haver algo que sempre foi, pensamento do pensamento, ato puro, o primeiro motor. Ou seja, o constante vir-a- ser da passagem da potência, que é o estado de potencialidade (possibilidade), ao ato, exige um motor imóvel.

Quanto à causa final para o qual todas as coisas tendem, os filósofos até então a haviam negligenciado, por isso Aristóteles se mostra inovador e expõe o quanto sua tese aperfeiçoou o problema das causas. Para ele aquilo que em última análise faz as coisas serem o que são é a finalidade para qual nasceram, ou seja, a estrutura interna de cada coisa depende do seu fim.

Finalmente entendemos o porquê da grande influência do pensamento de Aristóteles na teologia cristã percebida mais claramente na teosofia[1] de Tomás de Aquino, nas suas cinco provas lógicas da existência de Deus, onde o teólogo utiliza a filosofia aristotélica das causas para fundamentar seus argumentos acerca da existência de Deus.

Fica claro que a causa final e o motor imóvel idealizado por Aristóteles fundamentou os dogmas religiosos por toda Idade Média, sendo revistos no Humanismo, até o Iluminismo, período onde a revolução científica dá novos rumos à filosofia, e consequentemente à religião.

Autor: Tássio Ricelly Pinto de Farias

*Tássio é Graduando em Filosofia na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

Fonte: Revista Filosofia

Notas

[1] – O termo jônico refere-se à Escola da Jônia, na Ásia Menor, fundada por Tales de Mileto. A Escola Jônica é um dos marcos da filosofia Grega, pois alguns dos discípulos de Tales foram os pré-socráticos Heráclito, e Anaxágoras.

[2] – Segundo o dicionário Houaiss, a Teosofia é o “Conjunto de doutrinas religiosas de caráter sincrético, místico e iniciático, acrescidas eventualmente de reflexões filosóficas, que buscam o conhecimento da divindade e, assim, a elevação espiritual”. Em resumo, ela procura articular a filosofia, a religião e a ciências.

Referências

ARISTÓTELES. Metafísica. Liv. I. São Paulo: Loyola, 2002. p.2-67., 21cm. ISBN 85-15- 02427-6.

HOUAISS, Antônio; VILAR, Mauro. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 2.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. CD-ROM 1.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. DICIONÁRIO BÁSICO DE FILOSOFIA. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

KENNY, Anthony. Aristóteles e As Quatro Causas na História da Filosofia. Projeto Phronesis. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2010.

KENNY, Anthony. Uma Nova História da Filosofia Ocidental. Volume I. Filosofia Antiga: Loyola, 2004. p. 25-28.

MORA, Ferrater; Dicionário de Filosofia. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 349-350.

NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada. São Paulo: Globo, 2005. p.84-99. ISBN 852503899-7.

REALE, Giovani. Aristóteles Metafísica – Ensaio Introdutório. São Paulo: Loyola, 2001. 341p., 21cm. ISBN 85-15-02361-X.

Anúncios

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
Esse post foi publicado em Filosofia e marcado , . Guardar link permanente.

Uma resposta para As Quatro Causas em Aristóteles

  1. Pingback: Aristóteles: O Mundo da Experiência, as Quatro Causas, Ética e Política | O Ponto Dentro do Círculo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s