O Devir, o Múltiplo e o Eterno Retorno em “Nietzsche”

O múltiplo já não é justificável do Uno nem o devir, do Ser. Mas o Ser e o Uno fazem melhor do que perder o seu sentido; tomam um novo sentido. Porque, agora, o Uno diz-se do múltiplo enquanto múltiplo (pedaços ou fragmentos); o Ser diz-se do devir enquanto devir. Tal é a inversão nietzscheana, ou a terceira figura da transmutação. Já não se opõe o devir ao Ser, o múltiplo ao Uno (estas mesmas oposições sendo as categorias do niilismo). Pelo contrário, afirma-se o Uno do múltiplo, o Ser do devir. Ou então, como diz Nietzsche, afirma-se a necessidade do acaso. Dionísio o jogador. O verdadeiro jogador faz do acaso um objeto de afirmação: afirma os fragmentos, os membros do acaso; desta afirmação nasce o número necessário, que reconduz o lançamento dos dados. Vemos qual é a terceira figura: o jogo do Eterno Retorno. Retornar é precisamente o ser do devir; o uno do múltiplo, a necessidade do acaso.

Assim é preciso evitar fazer do Eterno Retorno um Retorno do mesmo. Isto seria desconhecer a forma da transmutação  e a mudança na relação fundamental. Porque o Mesmo não preexiste ao diverso (salvo na categoria do niilismo). Não é o Mesmo que volta, já que voltar é a forma original do Mesmo, que apenas se diz do diverso, do múltiplo, do devir. O Mesmo não volta, é o voltar apenas que é o Mesmo daquilo que devém.

(…) O segredo de Nietzsche é que o Eterno Retorno é seletivo. E duplamente seletivo. Primeiro, como pensamento. Porque nos dá uma lei para a autonomia da vontade desgarrada de toda a moral: o que quer que eu queira (a minha preguiça, a minha gulodice, a minha covardia, o meu vício como a minha virtude) ‘devo’ querê-lo de tal maneira que lhe queira o Eterno Retorno. Encontra-se eliminado o mundo dos ‘semi-quereres’, tudo o que queremos com a condição de dizer: uma vez, nada senão uma vez. Mesmo uma covardia, uma preguiça que quisesse o seu Eterno Retorno torna-se-ia outra coisa diferente de uma preguiça, de uma covardia: torna-se-iam ativas e potências de afirmação.

E o Eterno Retorno não é só o pensamento seletivo, mas também o Ser seletivo. Só volta a afirmação, só volta aquilo que pode ser afirmado, só a alegria volta. Tudo o que pode ser negado, tudo o que é negação é expulso pelo próprio movimento do eterno Retorno. (…) O Eterno Retorno é a Repetição; mas é a Repetição que seleciona, a Repetição que salva. Segredo prodigioso de uma repetição libertadora e selecionante.

Fonte: G. Deleuze, “Nietzsche” (Edições 70)

O Eterno Retorno – Diálogo entre Nietzsche e Josef Breuer

O filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor alemão Nietzsche (1844-1900) sempre foi alvo de muita admiração e de controvérsias. Há um número elevado de teses acadêmicas e livros acerca deste pensador. Seus livros carregam uma proposta ousada e polêmica: uma total inversão nos valores morais tradicionais e nas ideias cristãs e filosóficas nestes 2000 anos de história. O psiquiatra e escritor norte-americano Irvin D. Yalom escreveu um romance que trata do início da psicanálise e a essência das ideias de Nietzsche. O livro “Quando Nietzsche chorou” nos aponta uma fictícia amizade entre Breuer, mentor de Freud, e Nietzsche, construída a partir de uma casualidade. Neste vídeo é encenada uma das partes do livro, na qual os dois personagens centrais dialogam em um cemitério acerca da teoria do “Eterno Retorno” de Nietzsche.

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