As angústias da (des) esperança

‘Eu sou o limite de minhas ilusões perdidas”, escreveu o filósofo francês Gaston Bachelard. E é nessa tensa relação entre angústia, desespero e esperança que transcorre a nossa existência.

“Deserto e vazio. Deserto e vazio. E as trevas à beira do abismo.” Eis a voz do poeta a T. S. Eliot[1]. Há neste verso solene a sombra de um desespero presente – este que ataca não como um estresse quotidiano, mas que encurrala o homem como um animal indefeso frente ao seu poder avassalador. Não será preciso perceber isso nas doutrinas ou nos apontamentos da Filosofia e Psicologia. Basta-nos folhear as páginas do jornal diário, das revistas semanais e assistir aos programas televisivos com suas fórmulas mágicas para aplacar as angústias do ser humano.

O homem não quer mais aceitar sua condição existencial, por isso busca todos os tipos de terapia que ofereça a negação de sua condição temporal. Os métodos mais diversificados estão sendo empreendidos para retardar o envelhecimento, as academias estão lotadas, o consumo desenfreado cresce tresloucadamente, pois a ditadura do “vestir-se bem” determina que as pessoas se rendam à nova coleção do momento. Ser celebridade, seja em que patamar, e ter fama são outros dois vilões que encantam o homem moderno. Isso é apenas um quadro simplório do que vem acontecendo nesses a tempos de liquidez[2], bem definidos por Zygmunt Bauman.

JOHN MILTON: ESPERANÇA NA ESCURIDÃO

Sem dúvida, esses encantos conseguem seduzir até mesmo os grandes homens. O poeta John Milton contava com 23 anos de idade quando, tomado de indignação, lamenta-se e angustia-se por não ter alcançado o seu ideal de grandeza e notoriedade, veja isso nestes versos que escreveu quando tinha essa idade:

“O tempo, que é ladrão defraudador, Levou voando meus vinte e três anos. Vão-se meus dias em ritmos insanos, E a primavera acaba e não há flor”

Devo acrescentar – para que o amigo leitor não pense que o poeta inglês foi durante todo o curso de sua existência um presunçoso arrogante – um detalhe digno de nota: Milton sagrou-se, pari passu com a John Donne[3], o maior poeta que a Inglaterra já viu. Seu poema Paraíso Perdido, foi ditado quando já estava totalmente cego. Sobre seu estado, escreveu certa vez:

Quando penso que a luz está apagada Neste meu mundo vasto e tenebroso, E meu talento, único e precioso, Jaz inútil, mas a alma está inclinada A servir seu Criador sem deixar nada (…)

No meio dos anseios e da vontade do querer-ser, há as angústias da não realização de nossos projetos. E quando eles falham nasce o desespero. A falta de esperança. Quando percebemos que não há como evitar o envelhecimento, que o consumo não pode efetivamente nos trazer a satisfação essencial de que necessitamos, que a fama pode ser provisória… o homem contempla as trevas à beira do abismo. A angústia toma conta de seu ser frágil e o remete ao desespero. Desespera-se o homem moderno quando percebe que é um nada e, por isso, não pode ser imortal.

KIERKEGAARD: O SALTO DE FÉ

É Søren Kierkegaard[4] quem vai dissecar o indivíduo tomado por predileções a que a vida moderna o apresenta. Mas, uma advertência! Se você é um otimista incondicional, uma Poliana convicta, então é melhor não ler o dinamarquês. Não obstante, aqui e acolá é possível encontrar um lampejo de otimismo ou um ponto luminoso em meio à penumbra, à moda dos quadros de Rembrandt[5]: uma nesga de luz irradia timidamente de uma escuridão pesada. Conforme Kierkegaard, a fé seria esse foco de luz na densa escuridão. Para ele, angústia e desespero convivem juntos no âmago do ser humano; entretanto, a fé pode ser um antídoto para a cura dessa doença mortal que é o desespero, como ele mesmo define. É preciso que se diga que a fé aqui não é qualquer uma. Virginia Stem Owens diz que “ninguém que saiba de onde virá sua próxima refeição ou onde irá dormir hoje à noite deveria ter o direito de dizer que tem fé. Fé é uma palavra que deveríamos ter medo de pronunciar, para evitar que ela nos seja definida de maneira que não imaginamos. Kierkegaard iria mais longe. Você não deveria falar de fé, diria ele, a menos que estivesse preparado para erguer, como Abraão, a faca sobre o corpo do seu filho[NB].” O paradoxo, aqui, é que em meio a toda falta de esperança, a fé pode nascer no indivíduo e fazer com que ele se jogue nos braços Daquele que pode ser o sentido de tudo. Kierkegaard denomina isso de salto de fé.

JOHN DONNE: POR QUEM OS SINOS DOBRAM?

As grandes preocupações do ser humano nos dias de hoje são o desejo e a vontade de querer ter. Aliás, é Gabriel Marcel que fala sobre a vontade do ter em detrimento da do ser. Em tempos de modernidade líquida – para usar uma expressão baumaniana – o ter predomina sobre o ser. O imediatismo, o desejo de estar em evidência angustiam o ser humano, uma vez que vive na esperança de que a sorte mude seu destino e de que a fortuna bata à sua porta. Viver assim não é uma escravidão? Contrário a toda essa via negativa de aceitação da finitude, coloco como paradigma o nome do poeta John Donne. Paradigma não é uma palavra que se apresenta aqui por acaso, ela tem toda uma razão de aqui estar, pois J. Donne, ou seja, sua vida encarna toda a via positiva da aceitação de forma cabal. Esperança é uma palavra mística, que calha bem quando aplicada a J. Donne. Mas antes de falar sobre o poeta inglês, faço uma pequena digressão para contextualizar melhor: quando disseram a Mark Twain que o mundo estava chegando ao fim, ele teria respondido: – “Ótimo! Podemos viver sem ele”. John Donne poderia ter dito como Twain sobre esse mundo; no entanto, o poeta inglês conviveu com suas desgraças triunfantemente.

Sob os ares da Londres elisabetana, viveu J. Donne. W. Shakespeare, seu contemporâneo, já havia alcançado notoriedade invejável. A peste negra assolava e vitimava os londrinos, desafiando a medicina da época. Seu rastro epidêmico de morte vitimou 40 mil pessoas. Nas ruas de Londres, a peste bubônica foi pretexto para profetas desatinados anunciarem o apocalipse. Donne não escapou. Também adoecera. Os médicos diagnosticaram sua enfermidade, erradamente, como peste; no entanto, sua doença foi uma febre com erupções cutâneas similares ao tifo. Fora posto em quarentena por causa disso. Por seis semanas esteve no limiar da morte. É aí, por meio de seu suplício, que nasce Devoções (Devotions), obra que o coloca, como já dissemos, ao lado de John Milton, como o maior poeta da Inglaterra.

A Meditação 17, sobre o significado dos sinos da igreja, é passagem mais famosa de Devoções e, também, uma das mais cultuadas da literatura inglesa. A inspiração dos versos desta Meditação veio quando Donne ouvia da janela de seu quarto o toque dos sinos. Era o anúncio de que um vizinho seu havia morrido de peste bubônica. Essa percepção o levou a compreender que aquilo era um duro lembrete da finitude humana. Eis um trecho da celebrada passagem:

“Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. (…) A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

Durante todo o período de sua enfermidade, a ideia de seu fim o persegue. Tanto é que, em Devoções, a sombra da morte paira em cada verso, mas Deus não deixa de estar presente no processo. Era comum Donne ouvir à noite o barulho das carroças que passavam para coletar os mortos vitimados pela peste. As Devoções é a obra de um poeta talhado na escola da dor, que perdera sua esposa cedo, que ficou debilitado fisicamente por causa de doenças, que alcançara o grau de Doutor em Divindade em Cambridge, que fora deão em Londres, que ganhou as multidões com sua oratória sacra e com seus versos imortais. O poeta sobreviveu, e veio a viver mais oito anos. No último ano de sua vida e novamente enfermo, manifestou o desejo de fazer o sermão da primeira sexta-feira da Quaresma. Donne, debilitado, contra a vontade dos amigos que temiam por sua vida, partiu de Essex, onde residia naquele momento, para a capital inglesa. Essa intrepidez que desafiava a morte apenas demonstrava que ela não mais lhe causava medo, em Um Hino ao Deus Pai (A hymn to God the Father) se percebe isso:

“Eu pequei por temer que ao chegar ao meu fim Na última remada eu vá morrer no cais. Mas jura-me por ti que teu Filho então sim Brilhará como agora e sempre muito mais (…)”

John Donne havia manifestado várias vezes o desejo de morrer no púlpito. Por isso que, no seu último sermão, pregou como se fosse concretizar sua aspiração. O duelo da morte (Death’s duel) foi o tema de sua mensagem, este sermão ficou por muito tempo impregnado na memória dos que o ouviram. De volta para casa, viveu ainda cinco semanas. Nesse ínterim, escreveu cartas, poemas e compôs seu próprio epitáfio.

Um Indício de Esperança

Permitam-me concluir retomando o mesmo poeta que citei no começo. “Deserto e vazio. Deserto e vazio…”. O homem moderno, quando direciona sua vida para o imediatismo, para o desejo e para a vontade de evitar sua condição humana, mergulha sua vida num abismo, e logo ao perceber que tudo é provisório e supérfluo, ei-lo num deserto. Z. Bauman definiu como modernidade liquida esses novos tempos. Tudo se esvai desenfreadamente.

Depois de termos chegado até aqui, passeando por J. Milton, Kierkegaard, J. Donne, por seus sofrimentos, angústias, desesperos e esperanças, penso que neles encontraremos aquele pequeno ponto de luz perdido nas densas sombras do quadro da existência humana. Por isso, peço ao leitor que tome o verso de T. S. Eliot como um vestígio de esperança.

Autor: José Fernandes Pires Júnior

*José Fernandes é professor de Filosofia na rede pública do DF; Bacharelando em Direito e autor de vários artigos nas áreas da Filosofia e do Direito

Fonte: Revista Filosofia

Nota do Blog

[NB] – Clicando AQUI você, caro leitor, poderá ler o artigo A fé como suspensão da ética – O mito de Abraão e Isaac segundo Søren Kierkegaard e José Saramago, de autoria de Eduardo Carli de Moraes.

Notas

[1] – O poeta e dramaturgo Thomas Stearns Eliot, o T.S. Eliot (1888-1965), embora nascido nos EUA, sentia-se pertencente a uma tradição cultural europeia. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1948, T.S. Eliot escreveu livros como Poemas e A terra devastada.

[2] – O termo “tempos de liquidez” refere-se à noção de “modernidade líquida” ou “tempos líquidos”, metáfora utilizada pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman nos livros Modernidade líquida, Amor Líquido, Vida Líquida, Medo Líquido, etc.

[3] – John Donne (1572-1631) foi um poeta e pastor anglicano nascido em Londres. além da densa obra poética, produziu ensaios críticos. a poesia de Donne influenciou alguns autores do romantismo.

[4] – Nascido em Copanhague, Dinamarca, o filósofo Sören Kierkegaard (1813-1855) é considerado uma das bases do Existencialismo. Ao longo da sua vida, utilizou vários pseudônimos e produziu obras do porte de Temor e Tremor e A repetição, ainda que especialistas informem que Kierkeggard não escreveu uma Magnum-Opus que sintetize o seu pensamento.

[5] – Pintor e gravador holandês, Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669) deixou seu nome gravado com tintas fortes na história da arte. Sua residência, em Amsterdã, foi transformada em um museu: Museu Casa de Rembrandt, cujo site você pode conferir clicando AQUI.

Referências

YANCEY, Philip; SCHAAP, James Calvin. Muito mais que palavras: como os mestres da literatura influenciaram escritores cristãos. Tradução Almiro Pisetta. 2. ed. São Paulo: Editora Vida, 2005.

 

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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