O Simbolismo da Roda – Capítulo 2 (1ª Parte)

Alguns Aspectos do Simbolismo da Roda

Dos numerosos símbolos que aparecem em uma ou outra tradição, ou civilização, afastadas no espaço (geográfico) ou no tempo (histórico) e que são idênticos, merece especial atenção o símbolo da roda. Não só porque este se dá em todas as culturas das quais temos notícia, mas também pelas inumeráveis possibilidades que brinda, a diversidade de campos que abrange, e a ação concentradora que exerce no estudo e no ordenamento indispensável em qualquer investigação séria.

Por outra parte, as relações de todo tipo a que se presta este símbolo parecem indefinidas, assim como suas conexões com outros pantáculos igualmente tradicionais[1]. De fato, sendo o símbolo da roda a expressão do movimento e da multiplicidade, também o é da imobilidade original e da síntese. É, do mesmo modo, a expressão simbólica da expansão e da concentração. Da energia centrífuga, que parte do centro à periferia, e da energia centrípeta, que retorna a seu centro, eixo ou fonte. Para voltar a se estender uma vez mais, seguindo uma lei universal à qual obedecem as marés (fluxo e vazante) e a terra (condensação, dilatação). Assim como a diástole e a sístole, a aspiração e a expiração do homem ou do universo, quer dizer, tanto do microcósmico, quanto do macrocósmico.

Este símbolo é, também, a manifestação daquilo que, sendo apenas virtual (o ponto), gera um espaço ou plano (que delimita a circunferência)[2]. E está obviamente ligado, portanto, com o espaço e com o tempo, e associado ou unido a qualquer ideia de cosmogonia e criação. Neste mesmo sentido, o movimento superficial da roda, ou externo, estaria vinculado com a manifestação, enquanto a virtualidade, a imobilidade do ponto central ou eixo, achar-se-ia conectada com o imanifestado[3]. As modalidades especiais do símbolo da roda surgem pela irradiação, ou pela “atualização”, das “potencialidades” do ponto central, que se faz “presente” no tempo, criando um campo espacial. Vimos que um ponto gera um plano, quer dizer, um espaço. Esse ponto central é um eixo na tridimensionalidade. Portanto, o símbolo da roda está estreitamente ligado com todo símbolo axial e vertical. E deste modo, com todas as projeções da vertical, quer dizer, com a criação de planos ou espaços horizontais, articulados através de um eixo ao qual refletem, sendo um deles o perímetro limitado de nosso mundo, ciclo, ou qualquer campo definido em relação com as coordenadas espaço-temporais.

Entre os símbolos que manifestam a verticalidade, ou o eixo, devem ser destacadas: a árvore (associada, por certo, à vida e à geração cíclica), a montanha (ou a pedra como “Miniatura” daquela) e do mesmo modo o homem. Pelo que concerne a este último –tal qual hoje o encontramos–, extraiu seus conhecimentos, toda sua cultura, de um modelo simbólico revelado, que é a projeção da energia vertical ao criar um plano horizontal (uma civilização, por exemplo), que em seu movimento cíclico, rotativo, é reintegrada a seu não ser primitivo. A cidade, o sistema social, o templo, o lar, os objetos de uso cotidiano, os costumes, a arte, as lendas, os mitos, o artesanato, a agricultura, os trabalhos domésticos, assim como os ritos religiosos, civis ou pessoais, ou as normas de ordenamento, leis e pautas de comportamento atuais, foram aprendidas de civilizações tradicionais anteriores em pleno processo de degradação. Essas estruturas, que constituíram por séculos a forma do ordenamento social e pessoal (hoje completamente desvirtuadas), reconheciam como antecedentes o mito, o supracósmico, supra-individual e divino, destacando suas origens sagradas.

Quanto a outras modalidades deste pantáculo (pequeno todo), ao qual estamos nos referindo, assinalaremos sua identificação com a ideia de ciclo ou de espaço fechado sobre si mesmo; seja o ciclo do sol em um ano, ou seu movimento aparente em um dia, ou represente a vida inteira de um ser humano (desde seu nascimento até sua morte), ou um período histórico nessa existência, ou na existência do mundo em geral (ex.: um século). É interessante neste sentido associá-lo ao estudo do movimento, os calendários, os períodos vinculados com a agricultura, o conhecimento da harmonia dos céus e a terra, e todo o concernente à ciência dos ritmos.

É, pois, o símbolo da roda, um protótipo ou modelo da ideia arquetípica que o cosmos íntegro não faz senão manifestar. E ao ser um modelo do cosmos, bem poderia ser qualificado como universal na acepção mais ampla deste termo. Por isso chama poderosamente a atenção, que sendo de tão singular importância, não se lhe preste a dedicação devida, ainda que apareça como um legado fundamental, em unânimes formas tradicionais.

Isto se deve, em grande parte, ao fato de que a simbologia aparece, aos olhos de nossos contemporâneos, como uma ciência nova, no sentido historicista deste término. Sendo que tanto os antecedentes desta ciência, como sua razão de ser, remontam-se precisamente ao símbolo, ou seja, à possibilidade de toda manifestação –atual ou pretérita–, relacionando-se com as origens não-históricas ou atemporais de qualquer expressão. Já que esta expressão não faz senão modelar a energia essencial através de uma forma substancial. Entretanto, nunca foram mais citados que hoje em dia os autores que se ocuparam, no passado ou no presente, com relação aos temas da simbólica, que entusiasma o investigador atual, e nos quais este vê uma possibilidade nova, ou uma maneira de acessar o conhecimento (não à soma de informação ou ao enciclopedismo estéril) autêntico.

De todas maneiras, não é demais sublinhar o fato de que, ainda entre estes autores, o tema não foi tratado especificamente, mas tão somente foi incluído entre outros estudos e ensinos simbólicos[4]. Tampouco é demais ressaltar certa dificuldade na compreensão da linguagem simbólica por parte do leitor corrente, não familiarizado com o método analógico e com a utilização da síntese e não da análise. É importante, por outro lado, destacar que muitas destas dificuldades se devem às diversas terminologias, ou palavras, que se empregam com distintas acepções, em tal ou qual contexto, em um mesmo ou em diferentes códigos; às vezes com sentidos ou entonações completamente alheias aos originais, quando não invertidos, como é o caso da leitura “literal”, ou “sentimental”, de qualquer texto, símbolo, rito, mito ou lenda. Ou da própria existência, sem ir mais longe.

Em todo caso, diremos que o símbolo é a expressão de uma energia oculta, que se manifesta através da própria estrutura simbólica. A essa energia o símbolo deve sua razão de ser, pois sem ela este nada estaria simbolizando. É, portanto, o recipiente no qual se molda sua própria forma, e o transmissor de uma energia que, ao configurá-lo, expressa a si mesmo. Nesse sentido dissemos que, em termos gerais, qualquer expressão é simbólica. E a manifestação inteira é um símbolo de algo que está por trás, ou além dela. Ou melhor, de algo que é imanente nela, ou daquilo que se acha oculto, ou que é virtual ou potencial em seu ser. Deve haver, pois, uma correlação muito definida e analogias muito precisas (embora sejam invertidas) entre o simbolizado e o símbolo. Assim, estas são tomadas do ponto de vista do simbolizado, como energia atuante que cria o símbolo e se manifesta através dele, ou do ponto de vista do símbolo, como mediador de uma energia-força que o transcende e que ele não faz senão manifestar. Sem esta correlação seria impossível que qualquer símbolo, palavra ou gesto, expressasse algo. Ou se chegaria à confusão de línguas, onde as palavras, os gestos ou os símbolos, carecessem de todo sentido. O caos, a negação da ordem, a torre de Babel.

Nesta desordem, os símbolos[5] teriam perdido sua energia e não atuariam como transmissores da ideia-força, pois teria sido rompida sua conexão com o simbolizado, ao serem isolados de sua fonte de vida e tratados analiticamente ou de maneira literal. Entretanto, em forma potencial, estes símbolos conservam a vibração que os criou, e basta com que sejam atualizados para que recuperem seu vivificante trabalho mediador, e se convertam no veículo, ou na estrutura necessária, que nos vai levar para além de si mesmo, a um plano ou nível diferente de compreensão. Neste ponto, deverão ser dissipados rapidamente alguns equívocos. O primeiro é o de confundir alegoria com símbolo, e dar a este um valor como de algo provável ou possível, na “esfera” do “como se fosse”. Quer dizer, fazendo-o “simbólico”, na versão degradada que hoje em dia temos deste termo. Portanto, negando-lhe toda possibilidade real, didática ou atuante. Ou o que é o mesmo, negando-o simplesmente[6]. O segundo é tratá-lo como algo do passado. Algo já morto e que nada significa. Ou tomar o que este diz como uma coisa “superada”. Todo dia da criação é o primeiro e todo símbolo expressa hoje, a sua maneira, uma ideia arquetípica, universal, simultânea e eterna. O terceiro é o crasso engano de confundir o símbolo com o simbolizado, do qual a idolatria e a literalidade dão bons exemplos.

Do mesmo modo, deve recalcar-se que todas as tradições atribuíram a seus símbolos e códigos simbólicos o caráter de revelações, ou de origem supra-humano; ao qual se deve adicionar a coincidência de que os símbolos fundamentais estão presentes em todas as tradições de maneira manifestamente idêntica, até em suas aplicações secundárias, ou em suas formas derivadas e folclóricas. E assim, estes dois simples fatos: a) a observação da identidade assombrosa entre as simbólicas de todas as tradições (vivas ou mortas); e b) que todas elas atribuíssem a essas simbólicas um caráter não humano e revelado. [Tais fatos] devem ser para nós tanto um tema de meditação, quanto um incentivo para o estudo e a compreensão destas simbologias e tradições, as quais poderemos acessar graças ao veículo simbólico, tomado como a estrutura de uma ideia. Desde esta perspectiva, há que se visualizar o símbolo como um gesto pelo qual se expressa uma ideia-força: ou seja, o arquétipo em ação. Do “fogo aos fogos”, do sintético ao múltiplo. Do mesmo modo, inversamente, trocando o ponto de vista, do múltiplo ao sintético. Dos inumeráveis fogos, ao fogo arquetípico.

No que se refere especificamente ao símbolo tratado nestas páginas, interessa-nos, fique claro, sua relação com duas energias complementares, que chamamos vertical e horizontal, e que também podem ser designadas –fazendo uma transposição analógica– como essencial e substancial. O eixo central (vertical) enlaça uma cadeia de mundos, ou de planos de manifestação (horizontais), um dos quais é nosso mundo ou nossa vida, na variedade indefinida de mundos e vidas. De ciclos dentro de ciclos. Não é necessário dizer que o ponto que gera o plano é invisível, como qualquer ponto no espaço. E que o eixo, que é a razão de ser de qualquer espaço tridimensional (na arquitetura por exemplo), permanece oculto e imperceptível, expressando-se só de forma reflexa, nas inumeráveis manifestações às quais ele dá lugar. Tal como o espaço vazio, com relação às paredes, às colunas, estruturas ou ornamentos, que constituem sua roupagem substancial. O mesmo poderia ser aplicado à arquitetura universal. Também deve dizer-se que este eixo central, que vincula dois ou mais planos entre si, leva implícita a ideia de movimento, como no caso das rodas de um carro, veículo simbólico (como o cavalo), que expressa a possibilidade de uma viagem, o trasladar de um ponto a outro ponto, ou a conexão de um plano com outro plano. A associação óbvia deste símbolo com o movimento, se expressa em distintas tradições pela ideia de um carro solar, ou pela roda calendárica de um tempo cíclico, reiterado por suas próprias limitações (no caso do sol por seus dois solstícios e dois equinócios). Que não são senão as mesmas limitações (enquadramento, ordem) de todo o manifestado.

É assim, então, que o ponto central em um plano horizontal (ou o que é o mesmo, o eixo vertical, no volumétrico), deve-se relacionar com a potência essencial do ilimitado, enquanto que sua expressão manifesta, quer dizer a circunferência, deve-se vincular com a limitação do ato, que forma as superfícies periféricas ou substanciais da figura. Por outra parte, esta inversão que faz do horizontal um reflexo do vertical, e de toda manifestação substancial uma projeção da imanifestação essencial, diz-nos muito a respeito da ilusão de tudo o que se move, do relativo. O que tem princípio e fim, ou está sujeito a causa-efeito. Por isso mesmo nos fala também da realidade daquilo que sendo um (o centro como projeção da vertical), não tem par. Daquilo que permanecendo imóvel (o absoluto), não está subordinado a nenhum processo dialético[7]. Por outra parte, este esquema da roda é o modelo do ciclo. Na vida que nos rodeia, da qual fazemos parte, tudo são ciclos que, existindo simultaneamente, se inter-relacionam, como podem ser o do átomo incluído no [ciclo] maior da molécula, e este no da célula, e a célula no do organismo humano; ou como o ciclo do dia, incluído no [ciclo] da semana, e este no do mês, e o mensal no do ano, etc. Tudo o que reconhece princípio e fim, causa e efeito, nasce e morre em forma indefinida, enquanto o incriado, o não dual, é infinito e eterno.

Há no plano manifestado uma energia (centrífuga) que parte da origem virtual até o limite de suas possibilidades, e que retorna ao mesmo ponto original (centrípeta), para continuar perenemente este percurso. Estes dois aspectos são também os de dilatação ou expansão, e contração ou concentração, simbolizados respectivamente pelo círculo e pelo quadrado. Ambas as figuras –como símbolos de um espaço ou campo limitado– são equivalentes. E tanto o círculo quanto o quadrado representaram para a antiguidade idêntica perspectiva simbólica. Às vezes, uma mesma tradição utilizou com preferência uma dessas formas, em tal ou qual período, ou as duas de maneira conjunta[8]. As tradições do extremo Oriente simbolizam estes dois aspectos[9] com o Yin e o Yang, que atuam como forças permanentes e equilibradoras de todo ciclo ou processo. No caso do ciclo do homem, haveria também uma energia ascendente relacionada com a infância e a juventude, e outra descendente equiparada com a maturidade e a velhice. Em rigor, esta divisão binária do ciclo é muito importante e parte em dois o nosso modelo da roda. Se fosse a porção oriental a ascendente, e a ocidental a descendente, corresponderia, desde este ponto de vista, a primeira ao símbolo do círculo (energia centrífuga), e a segunda ao do quadrado (energia centrípeta).

Mas, antes de seguir, devemos esclarecer que o modelo simbólico da roda é válido não só para um ciclo em particular, qualquer que este seja, mas também é o protótipo de uma ideia arquetípica, e pode ser aplicado a qualquer ciclo, mesmo que se trate de um ciclo de ciclos, etc., em sucessão indeterminável. Neste sentido não é demais recordar que, para a antiguidade, a ideia de cosmos é uma só. Não há vários mundos ou cosmos, mas sim a soma de todos esses mundos ou cosmos, galáxias ou estrelas indefinidas, é a que constitui a ideia de cosmos ou mundo, em sua acepção mais ampla. Não há, portanto, nada “fora” do cosmos. Nem tampouco nada que não esteja sujeito às leis desse cosmos, nem a seu ordenamento cíclico[10]. Isto o souberam todos os povos civilizados do mundo, e de sua concepção do cosmos extraíram toda sua cultura. Ao fixar seus próprios limites espaciais e temporais deram lugar a sua cidade. Ao criá-la, quer dizer, ao solidificá-la ou cristalizá-la, e ao estabelecer as marcas reincidentes dos períodos agrícolas, conseguiram alimento necessário para a satisfação de suas necessidades básicas. No plano horizontal do mundo, tudo está aqui e agora. E todas as evasões das evasões, são também ilusões.

Entretanto –e segundo a feliz frase do Paul Eluard, “há outros mundos, mas estão neste”– nos oferece através do modelo tradicional, a possibilidade de escapar do movimento reiterativo, sempre constante, da “roda cósmica” ou “roda das encarnações”. Pois a solução, ou salvação, está presente em forma imanente, nessa mesma roda, de maneira oculta, como se encontra na semente toda a potencialidade da nova árvore, e no ovo a “origem do ser”[11]. Portanto, o ordenamento cultural, todas as estruturas de uma civilização, não são senão o reflexo de um centro invisível, que se manifesta, ou se revela, através destes. Pois elas não são senão suportes, ou símbolos, de uma realidade muito mais vasta, não sujeita à mudança. E tudo isto que se acaba de dizer, referido à cultura e a suas estruturas, poderia ser aplicado a qualquer ordem. A tal ou qual organismo vivo. Pois assim como qualquer objeto visível tem uma estrutura interna fundamental, graças a qual este se faz reconhecível como tal, também os símbolos, pelos que se manifestam externamente as coisas –que não são senão simbólicas–, têm que ter alguma estrutura interna. Estas estruturas dos símbolos tradicionais[12], não são senão ideias, ou jogos de ideias, que eles mesmos plasmam com suas formas. O que levaria a pensar que o universo tem uma estrutura precisa, e leis, e jogos de módulos prototípicos. Quer dizer, um modelo que se expressa simbolicamente, através de números e formas geométricas, dando lugar às ciências correspondentes.

Na realidade, toda estrutura tem uma forma. No caso da urdidura e trama dos tecidos, da rede de pesca ou caça, ressalte-se quanto ao entrelaçamento do vertical com o horizontal, por meio de interligações ou contexturas, formando um reticulado. Este desenho simbólico de ordem, dado pelo quadriculado de qualquer plano, poderia expressar também a própria ideia de estrutura, seja a da casa-templo, da cidade, da agricultura, ou da cultura. E os limites mesmos desse quadriculado (o enquadramento final sob a mesma forma), a ideia prototípica de um ciclo de ciclos ou, o que é o mesmo, da unidade e da multiplicidade coexistindo de maneira simultânea. O fato de que um número limitado de formas (o quadriculado), seja emoldurado em uma forma prototípica (o quadrado ou tabuleiro de xadrez), permite às definidas peças do jogo (sejam reis ou peões), uma quantidade indefinida de movimentos e jogadas múltiplas. Se o total do tabuleiro simbolizasse o cosmos[13], o quadriculado expressaria uma ordem dentro desse plano ou campo, perfeitamente delimitado, graças ao qual existem as leis (do jogo), que permitem às diferentes peças protagonizar suas próprias jogadas, ou conjuntos de jogadas[14].

Esta estrutura é a expressão de uma ordem ou de uma inteligência universal, que permanecendo secreta e invisível, é o protótipo de tudo o que pode ser chamada ordem ou inteligência. Por outro lado, essas mesmas leis expressas em medidas e pesos quantitativos, e definidas a nível espaço-temporal, referem-nos também a uma estrutura invisível do cosmos. Ou a um equilíbrio e harmonia universal, que configuram uma linguagem articulada, relacionada com outra “visão” do espaço e do tempo.

Autor: Federico González
Tradução: Igor Silva

Notas

[1] – A esfera é na tridimensionalidade o que o círculo é no plano. Sabido é que o símbolo da roda é representado graficamente como um ponto e a circunferência a que dá lugar pela irradiação de suas possibilidades. Enquanto o ponto central (ou eixo da roda) permanece fixo e imutável, a periferia se move e gira ao redor dele.

[2] – É curioso observar que o ponto central e a circunferência, “que juntos conformam a figura do círculo”, constituem o emblema astrológico do sol, que é o pai da vida, a que produz por irradiação de sua energia até seus próprios limites.

[3] – Na nomenclatura alquímica, o ponto e a circunferência e às vezes só um círculo (simbolizado pelo Uróboro, a serpente que morde a própria cauda), são imagens da vida e de sua origem, da sucessão e da simultaneidade. E também do ouro entendido como rei dos metais ou símbolo da perfeição mineral. Recorde-se que a alquimia sustenta que a energia dos astros nos céus cristaliza-se na dos minerais, sendo ambas análogas entre si. Isto é o mesmo que dizer que existe uma reciprocidade entre céu e terra e vice-versa. É desnecessário adicionar que estas relações estão invertidas uma com relação à outra e que a perspectiva ou visão varia conforme se tome um ponto de vista ou o oposto. O mesmo acontece com o ponto central e a circunferência a que dá lugar. Sendo estes termos complementares, estão, entretanto, hierarquizados. O mais alto é o céu, o mais baixo, a terra. O homem acata as leis da terra, a terra acata as leis do céu” (Tao Te King 25). É imprescindível um ponto central ou eixo para que a circunferência ou a roda existam, não o inverso. Há uma inter-relação, mas também uma preeminência com respeito à metade superior (céu) e na metade inferior (terra) de uma esfera.

[4] – Depois de haver-se publicado estes artigos o autor conheceu o excelente trabalho de Maryvonne Perrot, Le Symbolisme de la Roue que trata extensamente do tema, embora de uma perspectiva distinta –e convergente– a estes textos.

[5] – Quando se fala aqui de símbolos leia-se também mitos e ritos, lendas e textos sagrados.

[6] – O mesmo acontece com o mito ou a lenda. Na linguagem corrente passaram a ser sinônimo de “contos”.

[7] –  A expressão natural do conceito que o ponto geométrico manifesta no plano, é a unidade aritmética, geradora de toda a série ou código ou campo ou mundo numérico. Terá que se esclarecer também que a unidade aritmética é só uma imagem da não dualidade metafísica. Ao ser o primeiro número é também a primeira determinação. O mesmo ocorre com o ser, com referência ao não-ser, e ambos com respeito à não dualidade. Nesse sentido, o ponto central “criador” do espaço, ou o que é o mesmo, o “ser” desse espaço horizontal, é por sua vez o reflexo do não-ser, ou da imanifestação vertical, e ambas da “não dualidade”.

[8] – Ressalte-se que o círculo tem 360º e que a soma dos 4 ângulos retos do quadrângulo (90º x 4 = 360º) é a mesma. Além disso, 360 = 3 + 6 + 0 = 9. O 9 (número cujos múltiplos sempre se reduzem a ele mesmo), é o número do ciclo. Também o é da circunferência, que somada à unidade central (9 + 1 = 10), dá-nos a totalidade das possibilidades do ciclo numérico e da tetraktys pitagórica. Também, a do retorno à origem (10 = 1 + 0 = 1).

[9] – O movimento centrífugo ou o que vai do centro à periferia, tem relação, como se já se disse, com a expansão. Este movimento deve ser transposto no plano circular do ciclo, situando-o ao norte, originando a circunferência e correspondendo esta energia na metade ascendente da roda do dia, quer dizer, a que partindo do Norte, identificada com a zero hora, chega ao Sul ou meio-dia. A porção descendente do ciclo (que vai do Sul ao Norte, quer dizer, que retorna a seu ponto original) está então relacionada com a contração ou concentração centrípeta ou entardecer e noite. Algumas culturas, em distintos lugares e épocas, dividiram o ciclo de forma aparentemente diferente, o que está em relação direta com a razão de ser dessas civilizações. Assim, não se localiza o Norte sempre acima nem o Sul obrigatoriamente abaixo. Tampouco o movimento é visto, necessariamente, da esquerda à direita –quer dizer, no sentido dos ponteiros do relógio–, mas sim o considera em forma retrógrada. Estes dois exemplos podem encontrar-se nas culturas pré-colombianas e extremo orientais.

[10] – E um dos enganos contemporâneos mais comuns é o de conceber um infinito finito. A soma indefinida de finitos (ou ciclos) não pode constituir o infinito. Este, por definição, é o que não é finito. Ou seja, o que não está sujeito a finitude. É o mesmo que fazer de um relativo, ou da soma de inumeráveis relativos (ou circunstâncias), algo absoluto.

[11] – A tradução da palavra sânscrita chakra é precisamente roda ou disco. A “abertura” dos chakras ou sua expansão geradora, estaria vinculada com a ampliação do plano da consciência, simbolizada pela flor de lótus (que se abre à manhã e se fecha de noite). No Ocidente, esta flor seria a rosa. Em particular aROSA MUNDI, idêntica à ROTA MUNDI.

[12] – Talvez fosse oportuno estabelecer aqui, uma diferença entre significado e signo. O significado é a essência ou ideia universal que o signo cria (ou encarna), que deve ser como a forma ou a roupagem do significado, adequado à relatividade espaço-temporal. O significado de um signo é o que este significa não seu rol significante. O simbolizado é aquilo que o símbolo expressa verdadeiramente, sua razão de ser, não sua capacidade transmissora. O mito é realmente a ideia expressa no personagem mítico, e através dele, não as andanças e aventuras computáveis dos heróis e dos deuses. O rito não é só uma cerimônia comemorativa de sentido social, mas sim a correspondência de energias entre um plano de realidade –ou de consciência– e outro desconhecido. Ao outorgar-se os a estes termos uma leitura linear, os degrada fazendo-os incompreensíveis. As acepções dadas às palavras e às coisas em certos lugares ou durante determinadas épocas, não só nos ilustram sobre a mentalidade dessas sociedades, mas também muitas vezes constituem exemplos evidentes de inversão. Desgraçadamente na atualidade se toma o significado do símbolo como se este significado fosse sua função significante. O significado dos antigos sinais (ou milagres) era o da revelação sobrenatural; jamais o efeito que esses sinais produziam na população. Por outra parte, haveria uma distinção entre símbolos naturais e símbolos tradicionais (iniciáticos) precisos, desenhados especialmente para produzir uma comunicação direta com o princípio. Estes últimos teriam uma função “didática”, obviamente relacionada com o ensino e o com conhecimento.

[13] – Conhecido é que o jogo de xadrez tem origens astrológicas.

[14] – A ideia de desenrolar dos céus, quer dizer, a de criar o cosmos, ou o que é o mesmo, o plano ou tabuleiro onde este se manifesta, está em estreita relação com o símbolo do pano de fundo, que se abre na caixa (cubo) de cena [N.T.: palco.] e onde se começa a representar uma obra ilusória, com papéis e róis [N.T.: textos, falas.]. Especialmente o teatro de bonecos. E também o cinematógrafo, que mediante uma inversão da visão óptica, projeta na tela ou plano, indefinidas imagens, episódios ou “histórias”.

Nota do Blog

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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