A Royal Society e a Grande Loja de Londres de 1717 – Parte III

O Papel de Sir Robert Moray

Apenas um desses fundadores originais teve qualquer influência real com o Rei e esse foi Sir Robert Moray. Mas este antigo espião francês e monarquista agitador parece fora do lugar entre os puritanos Parlamentaristas do grupo de Gresham. Como é que ele se envolveu com eles?

Em 05 de dezembro de 1660, a ata da Society mostra que:

“Sir Robert Moray trouxe notícias da Corte de que o rei tinha sido informado sobre a finalidade da Reunião. E ela a aprovava, e daria incentivo a ela.”

Esta foi apenas uma semana depois da primeira reunião. Então, Sir Robert estava ou extremamente ansioso para agradar seus novos amigos puritanos, ou ele já tinha preparado o seu terreno.

Quando garoto, Robert Moray era fascinado por engenharia civil e inspirado pela mina submarina que George Bruce construiu sob o Firth of Forth. Depois de estudar na Universidade de St. Andrew, ele tornou-se um soldado e em seguida um político. Enquanto servia no Exército, tornou-se maçom, e descobriu que as ideias e filosofia da Maçonaria complementavam seu amor pela ciência e atendia à sua necessidade de realização espiritual que havia sido satisfeita pela religião convencional. A Maçonaria incentivou seu amor inato pelo simbolismo e o ajudou a pensar sobre as coisas por si mesmo para desenvolver ideias distintas ao longo de sua vida. Sua autossuficiência, muitas vezes provocava seus inimigos, mas ele tinha aprendido com a Maçonaria a ser cauteloso em suas respostas. Ele certa vez escreveu sobre si mesmo: “Eu tenho sido denunciado como ter escrito contra as Sagradas Escrituras, ser um ateu, um mágico ou Nigromante, e um maligno conhecido por meio Reino.” Isso não parecia incomodá-lo muito. Também não parecia preocupar Charles II. O rei era tão cínico quanto Sir Robert. Charles II tem sido descrito como um rei indiferente à religião que deixou Moray seguir seu próprio caminho, observando provocativamente que ele acreditava que Moray era o chefe de sua própria igreja.

Mas a acomodação com os reis Stuart veio mais tarde na vida de Robert. Como um jovem soldado, ele mostrou um talento para a manipulação e espionagem, e uma fraqueza para o glamour da corte francesa, que trabalhava contra Charles I.

Como um agente para os franceses, ele era ativo nos acontecimentos que levaram ao impeachment de Charles. Moray utilizou sua condição de membro da Loja de Edimburgo, que tinha entre os seus membros muitos dos cortesões escoceses de Charles I e o General Hamilton (que havia iniciado Moray na Maçonaria em Newcastle) para melhorar a sua rede de contatos. Os Stuarts e sua corte tinham estado envolvidos com a Maçonaria desde 1601, quando James VI (I) havia sido iniciado na Maçonaria em Scoon como parte do plano de William Schaw para estabelecer patrocínio real para a Maçonaria.

Moray foi adotado pelo Cardeal Richelieu para espionar contra os ingleses. Ele parece ter realizado esse papel com grande prazer durante o tempo em que Richelieu o apoiou. Moray levou a notícia da morte de Richelieu para Charles I em Oxford. As conexões de Moray com os maçons da corte escocesa de Charles podem ter persuadido o rei que ele poderia ser confiável, pois em 1642, Charles sagrou Sir Robert cavaleiro, para lhe dar o status suficiente para atuar como mensageiro do rei britânico junto ao Rei da França.

Quando Moray retornou à França e entregou a mensagem de Charles, ele foi promovido por seus esforços. Então ele entrou para o serviço ativo na Baviera, onde ele teve o azar de ser capturado e preso. Louis XIII morreu e o Cardeal Mazarin tomou o poder sobre a França. O novo rei, Luís XIV era muito jovem para governar. Mazarin não estava interessado em Moray e deixou a definhar na prisão.  Ele só foi resgatado quando Mazarin viu a chance de usá-lo na negociação entre Charles e seu Parlamento Inglês. As conexões maçônicas de Moray com os principais Covenanters eram a chave para a sua importância. Moray foi enviado a Londres onde o General Hamilton liderava a delegação escocesa. Mazarin somente comprou a libertação de Moray para usar suas conexões maçônicas e trabalhar como agente provocador contra Charles.

Sir Robert quase convenceu Charles I a fugir para a França, onde ele teria se tornado um peão útil para Mazarin. Mas Charles perdeu a coragem, depois que Moray o vestiu de mulher para tentar fazê-lo passar pelos guardas. Moray poderia ter comprometido tanto a linha Stuart, persuadindo Charles I a buscar exílio na França, que Cromwell teria criado uma República inglesa duradoura. No entanto, Charles não chegou à França; ele foi posteriormente levado a julgamento, considerado culpado de traição e executado.

Após a morte de Charles I, Moray deixou o Exército francês e voltou para Edimburgo, e para renovar seus contatos com sua Loja de Edimburgo, sua atas registram seu comparecimento a reuniões. Ele se casou com Sophia Lindsey e pareceu tornar-se menos mercenário. Até aquele momento, o seu talento tinha estado à venda e a França pagou-lhe bem. Mas depois de seu curto e trágico casamento (Sophia morreu no parto menos de um ano após o casamento), ele se tornou muito mais leal. Ele chegou a Charles II no momento em que o jovem estava sob enorme pressão política e religiosa dos presbiterianos e foi atraído por ele. A partir de então, ele parece ter usado todas as suas habilidades militares e políticas indubitáveis ​​para apoiar o novo Stuart, Rei dos Escoceses.

Ele ajudou nas negociações para a coroação de Charles II em Scoon. Após a morte de sua esposa, Moray tornou-se mais chegado a Charles II e organizou um levante em seu favor nas Terras Altas. Quando Lord Glencairn falsamente acusou Moray de conspirar contra o jovem rei, Moray fez um apelo maçônico peculiar a Charles para protestar por sua inocência. Depois de receber esta carta Charles falou em sua defesa. A escolha de palavras de Moray quando apela ao rei chamou a atenção para o seu envolvimento contínuo com a Maçonaria. Ele escreveu: “Vossa Majestade pode, fazer comigo o que um Mestre Construtor faz com seu material.”

Mais tarde Moray trabalhou para Charles contra os Roundheads, nas Terras Altas e ele se manteve fiel mesmo depois de ser preso e falsamente acusado de conspirar para matar o Rei.  Uma vez que seu nome tinha sido limpo, Moray usou sua influência na França para ajudar a causa do Rei. Charles tinha fugido para a França, para se juntar à sua mãe, após a invasão Roundhead da Escócia. Moray mais tarde passou a fazer parte da corte de Charles em Paris e, em seguida, mudou-se com o Rei para Bruges.

Após a morte de Cromwell, parecia provável que Charles II seria restaurado ao trono da Inglaterra. Charles era próximo de sua irmã, que era casada com o duque de Orange e dela ele soube que a guerra naval com os holandeses, que Cromwell havia começado, provavelmente se incendiaria novamente. Moray foi convocado, ou se ofereceu para usar seus contatos maçônicos para conseguir o máximo de informações militares sobre as intenções dos estados holandeses que pudesse. Ele foi para Maastricht, onde recolheu informações políticas e militares sobre as intenções dos holandeses. Ele usou suas conexões maçônicas para se juntar aos maçons locais e com base nessa aceitação tornou-se um cidadão de Maastricht. O objetivo das missões de espionagem de Moray era dimensionar a ameaça holandesa e, em seguida, voltar a Paris para avaliar a provável resposta francesa, antes de finalmente se juntar ao Rei, em Londres.

Uma vez que Charles estava de volta a Whitehall, Moray se juntou a ele. Quando chegou a Londres, ele foi saudado como um velho amigo, “o rei segurando e apertando sua mão’, como um irmão, e lhe foram dados apartamentos privados no Palácio de Whitehall com acesso regular ao Rei. Moray, trouxe de volta notícias preocupantes de que a marinha holandesa superava a frota de Charles e que a retomada da guerra naval era extremamente provável. Charles não tinha dinheiro e pouca experiência para melhorar sua marinha. Ele tinha um grande entusiasmo por assuntos navais, mas nenhum recurso.  O que poderia ser feito, sem quaisquer especialistas navais, ou o dinheiro para contratá-los?

Moray veio com uma solução inspirada. Ele renovou seus contatos maçônicos em e em torno de Londres, provavelmente com a ideia de descobrir quem estava envolvido no estudo “dos mistérios ocultos da natureza e da ciência”, o tema do Segundo Grau maçônico até hoje. Dentro de semanas, Moray tinha feito contato com grupos maçônicos que estavam agora apoiando os irmãos “pobres e aflitos” que tinham sido expulsos de cargos acadêmicos pelo retorno de um governo monarquista.

Ele rapidamente descobriu que o principal centro de Maçonaria, na Londres da Restauração era o Gresham College. Gresham era uma faculdade pública que Sir Thomas Gresham tinha criado para apoiar seus ideais maçônicos de estudo. Aqui Moray encontrou a resposta para o dilema de Charles. Quando o rei voltou para a Inglaterra, ele tinha removido muitos dos cientistas parlamentaristas de seus cargos universitários em uma resposta quase instintiva, e eles estavam lutando para sobreviver. Um grupo importante estava baseado no Gresham College, sobrevivendo com os pequenos salários do Colégio pagos a eles ou a seus amigos. Eles representavam um grupo de peritos em tecnologia naval que poderia ser utilizado. Mas esses “cientistas” estava todos politicamente em desgraça, bem como extremamente empobrecidos. E Charles não tinha dinheiro para pagá-los.

Moray, no entanto, era engenhoso. Ele tinha muitos contatos com os nobres escoceses maçons e conhecia muitos cavalheiros ricos maçons. Esses maçons não eram apenas amadores no estudo da ciência, mas eles tinham dinheiro e influência. Moray viu uma maneira de instrumentalizar esses dois grupos e persuadi-los a trabalhar juntos para o bem de seu rei e do país. Ele viu que poderia usar seus contatos maçônicos para resolver os problemas da marinha de Charles.

Moray reuniu Monarquistas com dinheiro e Parlamentaristas com competências científicas, para criar um grupo de autofinanciamento para resolver os problemas prementes para da triagem para organizar a Marinha. Moray, o soldado, estava com medo de uma nova guerra com os holandeses e ele percebia que suas habilidades de construção naval eram muito mais avançadas do que as inglesas na época. Sua solução tocou a imaginação do reino recém-restaurado. Ele usou o interesse pela ciência, que era compartilhado por todos os maçons, como base para uma nova Sociedade para focar a aplicação da ciência aos problemas da defesa.

Sir Robert incentivou seus amigos e contatos a participar da palestra semanal, realizada por uma das estrelas brilhantes dos cientistas Parlamentaristas, Christopher Wren.  Parece que apenas dois do fundador não tinha vínculos com a Maçonaria. Estes eram Christopher Wren e Robert Boyle. Eles são registrados como estando na primeira reunião, mas também como adicionados à lista de membros elaborada na reunião para ser os primeiros a serem convidados a participar. Esta omissão pode ser explicada se eles haviam deixado a reunião antes que Moray e seus irmãos maçons passassem à discussão detalhada sobre a criação de uma nova sociedade para estudar o objetivo maçônico dos mistérios ocultos da natureza e da ciência. Embora Wren quase certamente se tornasse um maçom em uma data posterior, Robert Boyle nunca ingressou na Ordem pois ele não faria um juramento sob nenhuma circunstância.

Para fazer sua ideia funcionar, Moray tirou da Maçonaria a limitação de não falar sobre religião ou política dentro das reuniões. E ele coletou fundos, apelando para a caridade daqueles que podiam pagar, permitindo assim que homens capazes, mas pobres, fossem capazes de realizar experimentos.

Moray conquistou a confiança dos maçons Parlamentaristas quando garantiu que seu líder deposto, John Wilkins, assumisse a presidência dessa primeira reunião. Wilkins tinha sido muito chegado a Cromwell e sua família. Reabilitando-o com o Rei, Moray mostrou aos outros cientistas Parlamentaristas que eles eram todos iguais no novo órgão científico de inspiração maçônica que ele estava criando. Ele lançou as bases com cuidado e, apesar de agenda lotada do Rei, Moray relatou de volta ao grupo, dentro de uma semana, que eles iriam receber uma Carta Régia.

Pelos dois primeiros anos, ele dirigiu e atormentou o grupo em direção à sua visão de uma nova marinha científica. Ele foi satirizado como mostram estes versos sobre ele:

O Primeiro-Virtuoso empreendeu
Através de todos os Experimentos fazer
daquele homem letrado, Sir Francis Bacon
mostrando que pode o que não pode ser feito.

Moray certificou-se de que a maioria dos cientistas, entre esses primeiros membros, tinha interesse em assuntos que importavam para a Marinha. Ele incentivou projetistas de navios, especialistas em navegação e especialistas em armas a contribuir para os primeiros trabalhos. No começo, ele se certificou de que ele presidia a maioria das reuniões, para estabelecer uma forma estruturada de reunião. Ele seguia uma agenda e mantinha atas; formas de trabalho que tinha aprendido das Lojas maçônicas de Schaw da Escócia . As duas regras básicas estabelecidas eram: todos os homens eram bem vindos para participar, independentemente de política, raça ou religião; e durante as reuniões apenas assuntos científicos deveriam ser discutidos, sendo expressamente proibidos religião e política.

Moray conseguiu criar algo muito maior do que jamais sonhou. À medida que a Sociedade se desenvolvia, ela ganhava vida própria e logo se separou de suas raízes maçônicas. Moray preparou outros para assumir as tarefas do dia a dia da gestão das reuniões, e dedicou-se à elaboração de um regulamento para a criação de seu cérebro. À medida que a sociedade cresceu, ela aceitou muitos outros que não eram maçons.

Continua…

Autor: Dr. Robert Lomas
Tradução: José Filardo

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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