A Serpente e o Pecado – 1ª Parte

“Creio que o pecado é realmente um mistério tão grande como a virtude” (Charles Chaplin)

O pecado, no sentido genérico, é um comportamento que viola um preceito religioso em desobediência à vontade de Deus (Catecismo, 392). “Todo aquele que comete o pecado, comete também violação da lei; porque o pecado é a violação da lei.” (1 João 3,4).

A primeira narrativa da criação (Gênesis 1,1-2,4a) não descreve proibições ao homem e à mulher. Já na segunda narrativa (Gênesis 2,4b-25) Adão e Eva, os primeiros seres humanos criados por Deus, são os responsáveis pela introdução do Pecado Original, que é entendido desde sempre pelo polêmico consumo do fruto proibido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, praticado pelo casal primevo, provocando, assim, o rompimento de uma aliança fundada na relação de confiança com Deus.Imagina-se que a interdição e a punição assinalada já pressupunha o cometimento da infração, pois a obediência era uma opção.

O contexto simbólico daquele acontecimento tem várias versões, sendo bastante difundido o simbolismo da maçã como o fruto da árvore do meio do jardim, que não é citado no Livro do Gênesis. A narrativa diz que Eva foi enganada e seduzida pela serpente falante, que produziu a sua semente do mal e a introduziu no seio da raça humana. Diz a sabedoria popular que Deus não deu asas à cobra, mas, possivelmente aquela tinha pernas, pois na sequência dos acontecimentos e sendo a mesma condenada a se arrastar, pode-se depreender que ela tinha um formato quase humano e uma conversa bem envolvente,pois era “sabedora” de que a proibição estimula a imaginação e a vontade, é a mola do desejo.A propósito, essa não é a única menção a animal falar e raciocinar no contexto bíblico, valendo o destaque ainda para a reclamação da jumenta de Balaão (Nm 22,28).

Mais intrigante é que, após a consumação do ato de comer o fruto, Adão e Eva deram conta de que estavam nus, se esconderam de Deus e fizeram aventais feitos de folha de figueira para cobrir as partes íntimas, dando a entender toda sorte de interpretações. Uma delas é que, superada a fase da infância no Jardim do Éden e, ao se tornarem adultos, foram expulsos de casa, com a condenação ao trabalho e às dores do parto face à gravidez de Eva, que na sequência introduziu a figura do primogênito, chamado Caim.

Posteriormente nasceu Abel. Os dois irmãos cresceram juntos, tendo Caim se dedicado ao cultivo da terra e Abel à criação de ovelhas. Estranhamente, Caim não gozava da simpatia Divina, tanto que ao apresentarem ofertas ao Criador, a de Abel agradou e a de Caim foi rejeitada. Por isso, Caim armou uma cilada para seu irmão e o matou, numa conjuntura em que ainda não havia o 5º mandamento, pois o único até então existente era: “não pode comer da árvore…”.

Sabemos que a utilização de imagens, símbolos e elementos míticos podem criar várias interpretações, que refoge ao escopo desta reflexão.Especulações à parte e com ênfase na segunda narrativa, Adão e Eva, ao amparo do fabuloso e imprevisível livre arbítrio, livre vontade ou livre escolha, como queiram, decidiram desobedecer a Deus e por isso a humanidade inteira descende deles e teve os seus desdobramentos que nos trouxeram até os dias de hoje, possibilitando o desenrolar da história até agora conhecida e o decantado conceito de fraternidade universal.Caso assim não o fora, “a Bíblia terminaria ao final do capítulo 2 do Gênesis”, segundo Karnal (2014).

Gibbon (2012) ao se referir à casta severidade dos Pais da Igreja destaca entre eles a “opinião favorita de que, se Adão se tivesse mantido obediente ao Criador, teria vivido para sempre num estado de virginal pureza, e algum inofensivo modo de vegetação teria povoado o paraíso com uma raça de seres inocentes e imortais”. Os Pais da Igreja foram líderes do período pós-apostólico e os responsáveis pelo povo de Deus daquela época e pela teologia que até hoje serve de base para a Igreja.

Devemos, pois, ao casal de pecadores a humanização e a nossa existência, pois somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe.“A partir de então o homem passou a reconhecer-se como separado e independente da natureza, adquirindo consciência de sua morte e finitude, adotando valores, crenças e objetivos independentes da natureza. Deu-se a traumática transição do animal para o hominal, como definia Teilhard de Chardin”.Segundo ele, envergonhando-se da nudez, o homem “tomou consciência da morte e da mortalidade, e passou a trabalhar para acumular”.

A “Edição Pastoral” da Bíblia Sagrada (1990) traz um atual e elucidativo esclarecimento sobre os Capítulos 1 e 2 do Livro do Gênesis. Sobre o primeiro relato (Gênesis 1,1 – 2,4a), diz: “A narrativa da criação não é um tratado científico, mas um poema que contempla o universo como criatura de Deus. Foi escrito pelos sacerdotes no tempo do exílio na Babilônia (586-538 a.C.) e procura salientar vários pontos. Primeiro que existe um único Deus vivo e criador. Segundo, que a natureza não é divina, nem está povoada por outras divindades. Terceiro, que o ponto mais alto da criação é a humanidade: homem e mulher, ambos criados à imagem e semelhança de Deus. E a humanidade é chamada a dominar e a transformar o universo, participando da obra da criação. Quarto, que o ritmo da vida é trabalho e descanso: assim como Deus descansou do trabalho criador, também o homem tem direito ao dia semanal de descanso. Importante notar que a criação toda é marcada pelo selo de Deus: era bom…muito bom”.

Quanto ao segundo relato (Gênesis 2, 4b-25), comenta: “ A primeira narrativa da criação (1,1-2,4a) apresenta as águas disformes como caos, desordem e ausência de vida. A segunda narrativa, elaborada no tempo do rei Salomão (séc. X a.C.), se originou entre os nômades que viviam no deserto; para eles, terra seca é ausência de vida. Por isso imaginam, como início da criação, a chuva e a possibilidade de o homem encontrar água. A grande bênção inicial é, portanto, a água (vv.4b-7). Os vv. 8-17 narram a  história do Éden, um paraíso na terra, para onde confluem os maiores rios do mundo então conhecidos, e onde as árvores e os frutos são abundantes. Deus criou a terra para que o homem usufrua dela e possua vida plena (árvore da vida). A condição única é o homem se subordinar a Deus: obedecer ao seu projeto de vida e fraternidade, e não querer decidir por si mesmo o que é bem e o que é mal (comer o fruto da árvore do bem e do mal), a fim de não ser causa a espécie alguma de opressão e morte. Os vv.18-25 salientam duas coisas: primeiro, que o homem tem domínio sobre a criação ‘dando nome aos animais’ e, por isso, participa do poder criativo de Deus; segundo, que a mulher não foi tirada da cabeça do homem para mandar nele, nem foi tirada dos pés dele para ser sua escrava; mas foi tirada do lado, para ser sua companheira”. A Bíblia de Estudos Matthew Henry assim comenta: “Não foi feita da cabeça, para não dominá-lo, nem dos pés, para não pisar sobe ele, e sim das costelas, para ser igual a ele; debaixo de seus braços, para ser protegida; e próxima ao seu coração, para ser amada”.

Como já comentado anteriormente, a origem do pecado está alegoricamente descrita em Gn3, 1-24, que trata da relação entre a famosa serpente – que raciocinava e falava, a mulher e o  homem, onde é ressaltada a pretensão do ser humano em igualar-se a Deus, usurpando o seu lugar para tornar-se autossuficiente, um falso deus, introduzindo o conceito de orgulho, egoísmo e vaidade.  Conforme Notas da Bíblia Sagrada (1990), “a autossuficiência é a mãe de todos os males, que são apenas consequências dela”. O projeto de Deus para o ser humano é de vida e liberdade para todos, em clima de fraternidade e de partilha. Ao se tornar autossuficiente, o homem se rebela e faz seu próprio projeto: “liberdade e vida só para si mesmo”. E por isso produz escravidão e morte, decorrente das relações de poder e opressão e “a relação de partilha transforma-se em exploração, e esta produz a riqueza de poucos e a pobreza de muitos”. Nesse caminho que se construiu o mal (pecado) este se multiplicou não levando mais para a vida, mas para a morte, na forma representada nos versículos 22-24.

A doutrina da Igreja ao longo dos tempos apresentou várias explicações sobre a nossa tendência pecaminosa, identificada a partir daquele acontecimento simbólico onde a humanidade então emergente passou a sentir os efeitos no relacionamento com Deus, mesmo para aqueles que não tivessem discernimento suficiente para interpretar o alcance de tal ato, mas foram por ele afetados por herança e pelo simples fato de terem nascido, sem ainda cometer um pecado próprio (Doutrina, 116; Catecismo, 76).Em toda a Bíblia encontramos a personificação da serpente como símbolo do mal e da maldade da humanidade e todo o texto sagrado gira em torno do pecado da transgressão.

É atribuído a Santo Irineu, bispo de Lyon (130-202), em sua controvérsia com o dualismo do Gnosticismo, o entendimento sobre a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal através da queda do casal primevo. Os cristãos primitivos de pendor gnóstico rejeitavam os fundamentos judaicos do cristianismo e o Velho Testamento (Gibbon,2012 – nota do tradutor).

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (África) e Doutor da Igreja,um dos formuladores da doutrina do Pecado Original, associava o pecado à culpa herdada pela raça humana em face do ato praticado por Adão e Eva que, rejeitando o amor e obediência devido a Deus, caíram na conversa do diabo travestido de serpente.

O conceito de Pecado Original é restrito à história do Cristianismo que considera a humanidade condenada ao Inferno pelo pecado de Adão e Eva introduzido pela serpente falante, com a possibilidade de purificação na aceitação da crença de que Deus encarnou, morreu e ressuscitou, por intermédio de Jesus Cristo, mediante o Batismo, simbolizando o renascimento no mundo e livramento do pecado: “porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8,2).

A isenção do Pecado Original, sem mancha (em latim, macula), é um dogma católico reconhecidona concepção da Virgem Maria – Imaculada Conceição, na forma contida na Bula Ineffabilis Deus, de 8 de dezembro de 1854, do Papa Pio IX. “O dogma diz que, desde o primeiro instante de sua existência, a Virgem Maria foi preservada por Deus, da falta de graça santificante que aflige a humanidade, porque ela estava cheia de graça divina. Também professa que a Virgem Maria viveu uma vida completamente livre de pecado”. E é ela quem esmaga a cabeça da serpente com o fruto de seu ventre.

A virgindade é outro dogma anteriormente proclamado em 649, pelo Concílio Ecumênico do Latrão (Catecismo, 96-99 e 142), colocando para os Cristãos um fim a uma antiga polêmica entre a Septuaginta (versão Grega) e a versão Hebraica das Escrituras relativa às citações de Isaías 7,14 (jovem moça) e Mateus 1,23 (virgem).Conforme doutrina definida pelo Papa Pio XII, em 1º de novembro de 1950, foi proclamado o Dogma da Assunção da Virgem Maria, afastando-a um pouco mais da condição humana. O conjunto de estudos teológicos acerca de Maria na Igreja Católica denomina-se Mariologia, sabendo-se que Nossa Senhora possui centenas de nomes conhecidos. A proposição de dogmas entendidos como um princípio de fé surgiu como contraponto no curso de combate às heresias, considerados reveladores e não submetidos ao direito da dúvida.

Em religiões como o budismo, taoísmo e confucionismo não existem os sentimentos de culpa ou pecado.O Judaísmo, por sua vez,defende que todo o Homem nasce sem pecado, pois a culpa de Adão não recai sobre os outros homens e o Islã não concorda com essa crença, com o entendimento de que tudo o que aconteceu na história de Adão foi dentro do plano perfeito de Deus. Não por isso, estudiosos acreditam que o dogma do Pecado Original teria contribuído para aumentar o poder de controle da Igreja Católica sobre a vida das pessoas.

Além do Pecado Original, a Igreja Católica apresenta ainda mais duas categorias de pecados, o Mortal e o Venial.  Segundo a Doutrina, o Mortal envolve gravidade e consciência de sua prática.Pecados mortais são, por exemplo, pecar contra os Dez Mandamentos e pecar contra o Espírito Santo. Somente é possível reparar o pecado mortal com a confissão e a penitência sacramental. O pecado contra o Espírito Santo consiste na rejeição da graça de Deus; é a recusa da salvação. Implica rejeição completa à ação, ao convite e à advertência do Espírito Santo (Mc 3,29; Hb 10,8).

Na categoria de Venial incluem-se as pequenas faltas morais, como, por exemplo, omitir algum fato, negligenciar quanto à obrigação como cristão no âmbito dos deveres impostos pela lei canônica, dizer alguma mentira sem maior importância e etc. O Venial trata de temas mais leves ou mesmo graves, desde que sem o conhecimento ou consentimento do praticante, ensejando penas purificatórias, remetendo à imagem do Purgatório (Catecismo, 394-395-396). Caso o pecado cause algum dano à terceiro, aí se aplica a punição prevista pelas leis civis.

Não é novidade, Céu, Purgatório e Inferno são os possíveis destinos das almas, conforme o mérito individual. O Céu, para os que morrem na graça (Catecismo, 209), Purgatório, para os que precisam de purificação e, Inferno, para os que morrem no pecado mortal (Catecismo, 201, 211).  O limbo é considerado uma hipótese teológica. No Zoroastrismo (século VI a.C.), o equivalente ao purgatório, denominado Hamistagan, ocupa uma posição entre o céu e o inferno,não destinado à punição e purificação, mas um lugar neutro e parecido com o católico romano limbo. O Judaísmo usa o termo Gehenna para a possibilidade da purificação após a morte. O Islã não tem um lugar neutro semelhante onde alguns esperam o Dia do Julgamento.

Várias passagens bíblicas do Antigo Testamento narram castigos impostos aos que incorriam em pecados de desobediência às normas Divinas nas sangrentas terras egípcias em direção à Canaã, na Palestina. São memoráveis as ordens superiores recebidas por Moisés no deserto para matanças coletivas e destruição sumária de cidades-estados incursas no pecado da idolatria, inclusive hebreus resmungadores ou que se bandeavam para o culto da magia egípcia, que impediam o povo escolhido de ocupar a terra prometida e eram passados a fio de espada, incluindo crianças e animais. Sodoma e Gomorra (Gn 19) são os casos mais clássicos. Josué, sucessor de Moisés, tinha licença para matar (Js 1,18).

Em tempo e aos que criticam toda aquela matança, Karnal (2014)nos recorda que a Espanha ultraconservadora matou milhares em nome de Deus na Idade Moderna e a União Soviética e a China de Mao mataram milhões em nome da racionalidade ateia e científica. O Tribunal da Inquisição na Idade Média tem toda uma narrativa assustadora envolvendo os que cometeram crimes contra a fé. Da mesma forma, “a carta de Lutero recomendando matar os judeus, os calvinistas enforcando supostos feiticeiros em Salem”, demonstram que a história Cristã é prodiga em crimes.

Do lado do bem, o Novo Testamento é interpretado como o cumprimento da promessa de Deus para a descendência comprometida com o seu projeto. E este se consumou com a vinda de Jesus, que fez o trabalho de sua vida como a reconciliação da humanidade com Deus, perdida na “queda” e expulsão do Jardim do Éden, estabelecendo uma nova relação entre o pecado e o pecador, adotando uma postura de intransigência em relação ao pecado e de misericórdia com o pecador. O Mestre Jesus via todas as pessoas como capazes de ser boas e nunca as discriminava, mostrando que somos bons ou maus devido aos relacionamentos que estabelecemos com Deus e com os outros e não a algo que nos é inerente desde que nascemos.

É paradigmática a referência ao comportamento de Jesus que não condenou a mulher adúltera nem a enviou aos juízes, quando confrontado por escribas e fariseus e sentenciou: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”. Como todos se afastaram sem condená-la, Ele concluiu: “Ninguém te condenou? Ninguém, Senhor” respondeu ela. “Então eu tampouco te condeno; vá e não peques mais”(Jo 8, 3-11). Ficou claro que o maior julgamento é do tribunal da nossa consciência e a misericórdia de Deus. Por isso Jesus é frequentemente apresentado como um dos grandes exemplos do humanista ideal (Baker, 2009).

É importante registrar que, não fora o apostolado de Paulo, ex-líder dos opressores da igreja, convertido na estrada de Damasco e reconhecido como a pessoa mais influente na história da fé Cristã, considerado o 13º Apóstolo, provavelmente não teríamos sido apresentados ao Cristianismo. Paulo que era judeu e tinha o título de cidadão romano, ao ajustar a sua consciência aos princípios cristãos, transformou-se no apóstolo dos gentios por ter levado a mensagem de Cristo, sobretudo às populações fora de Israel, aos pagãos, aos gregos e romanos, a não judeus. Treze de suas cartas (Epístolas), escritas antes dos Evangelhos, estão incluídas no Novo Testamento.

Continua…

Autor: Márcio dos Santos Gomes

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçônica de Letras, e para nossa alegria, também um colaborador do blog.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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