Padres na Maçonaria: Prisões e Delações no Santo Ofício (Parte 1)

O caso de D. André de Moraes Sarmento

1. Introdução

Este artigo que ora apresento é resultante de pesquisa realizada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo[1], localizado em Lisboa, Portugal. Tal investigação foi tema do Pós-doutoramento feito na Universidade Nova de Lisboa, com acolhimento do Centro de História d’Aquém e d’ Além Mar – CHAM, pertencente à mesma Universidade. O Pós-doutoramento foi realizado no período entre 2008 a 2012 sendo este, financiado pela Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT), órgão de fomento da União Europeia em Lisboa, Portugal.

Inicialmente, parece contraditório falar em padres maçons, quando essa associação era proibida pela Igreja, em função dos seus membros serem acusados de praticar heresia. Tal proibição ocorreu a partir de 27 de Abril de 1738, quando o papa Clemente XII proibiu aos católicos de participarem das lojas maçônicas, e em Portugal D. João V, na mesma época, ameaçou punir gravemente quem fosse iniciado na Sociedade dos Pedreiros Livres. Apesar de tal proibição, e, de acordo com o nosso banco de dados, os eclesiásticos formavam o segundo maior grupo de seguidores da maçonaria, no Portugal de finais dos setecentos. Tal grupo era antecedido em número, apenas pelos militares.

No entanto, é importante ressaltar que o Santo Tribunal foi instalado em Portugal a pedido do rei D. João III, via solicitação ao Vaticano, em 1533. O Papa, porém não deliberou de pronto a instalação do Santo Oficio em terras lusitanas, demorando 14 anos para que o pedido do Rei fosse atendido. Assim, após muita insistência da diplomacia real, a Inquisição se tornou realidade em terras portuguesas, com a emissão da bula papal em 16 de Julho de 1547.

O Tribunal do Santo Ofício era uma instituição eclesiástica de carácter “judicial”, ávida por perseguir judeus e mouros, mas também os que adotavam a doutrina dos Pedreiros Livres, por considerá-los heréticos e libertinos. Prendiam-nos aos Estãos do Santo Oficio, de forma secreta, objetivando inquiri-los para que se autodenunciassem heréticos da doutrina católica. Tal inquirição era detalhada e constante, diria mesmo que, representava uma forma de tortura para que o reo falasse o que eles, inquisidores desejavam ouvir, – daí o Santo Ofício ser também conhecido como Inquisição.

As origens desta instituição podem ser encontradas na Idade Média, embora nesse período da História assumisse contornos bem distintos dos da época moderna. A repressão aos movimentos heréticos foi, desde sempre, uma preocupação que afligia os senhores laicos e também os eclesiásticos, tanto é que os maçons ao serem presos nunca sabiam a razão da sua prisão. Não obstante, antes de serem trancafiados nas celas do Santo Oficio, vasculhavam lhes a casa e recolhiam todo material que encontrassem. Nunca, porém lhes confessavam que a razão de estarem sendo detidos era por praticarem o crime de adoção da doutrina dos Pedreiros Livres.

Quando, no entanto, examinei os processos inquisitoriais, alguns até com 150 páginas, percebi que em primeiro lugar são condenados pela acusação do crime de heresia e somente no final do depoimento é que os inquisidores lhes diziam que praticavam a doutrina maçônica. Nesse artigo, analisarei o processo inquisitorial do Padre André, tendo como base o seu depoimento, durante o período em que esteve nas garras dos inquisidores.

2. André de Moraes Sarmento—Padre Arrebanhador

Natural de Vinhaes, freguesia da Junta Marinha de Quintela, e habitante da cidade de Lisboa, com aproximadamente 30 anos de idade. Seu pai, Caetano de Morais Sarmento, já falecido, vivia das suas fazendas, e era também nascido na mesma freguesia da Marinha de Quintela. Sua mãe Isabel Teixeira, já defunta, era natural de Cesnande, pertencente à Sintra. No que diz respeito aos seus avós, os paternos se chamavam Ignácio de Morais Sarmento e Marianna Rego Maria da Nóbrega, e os maternos Antônio Fernandes e Domingas Teixeira. O avô, tal qual sua mãe, era nascido em Cesnande e a avó natural do Idral.

Cristão batizado tinha como padrinho um tio, chamado Antônio Teixeira e, como madrinha sua irmã Maria Antónia. Foi crismado pelo Bispo de Miranda, D. Francisco Aleixo. Ignora o nome do padrinho de crisma. Desde que atingiu a adolescência nunca deixou de frequentar a Igreja, assistir a santa missa e cumprir todas as obrigações de um verdadeiro católico, e até fez-se sacerdote. Em Santa Cruz de Coimbra, tornou-se Cônego Regular de Santo Agostinho[2]. Depois que saiu de Coimbra foi para Mafra, onde permaneceu por um período entre 8 a 9 anos. Estudou filosofia, teologia e tinha algumas noções de hebraico. Até ser preso pelo Santo Oficio em 1791, nunca tinha sido apresentado e nem penitenciado pelo mesmo.

Aos 08 dias do mês de outubro de 1791, D. André foi surpreendido em sua residência, com a presença dos não convidados, Joaquim Antônio Cabral e Doutor Alexandre Barbosa de Albuquerque, este juiz do crime no bairro do Limoeiro. Tal visita inesperada deu-se em observância de uma ordem vocal, despachada pelo Desembargador Intendente Geral da Polícia da Corte e Reino, Diogo de Pina Manique. Por este despacho, o referido Juiz tinha autorização, para dar uma busca geral na casa do Padre mencionado, e averiguar os seus pertences quais sejam: papéis, livros, manuscritos ou insígnias pertencentes á maçonaria. Pela denuncia que dele foi feita a Inquisição, constava que ele era maçom, e que tinha em seu poder prova de que era doutrinário da “seita” (ANTT, 1791)

Após vasculharem e remexerem nos guardados de D. André foi encontrado em um pequeno baú, onde ele arrumava sua roupa de uso pessoal, os seguintes objetos:

entre as cartas de ordens do mesmo, um manuscrito com o titulo seguinte: Explicação da maçonaria aos recém-recebidos e igualmente foram encontrados no baú quatro embrulhos e em um dos quais se achava hum pedaço de pelica branca á maneira de pequeno avental com umas fitas azuis nas pontas, tendo todos os quatro aventais as insígnias e distinções e dísticos seguintes estampados nos mesmos a saber: de um lado a figura do sol, de outro a da lua e no meio hum compasso e um triangulo e por baixo um dístico = Lux Mundi = e da outra parte nas costas dos mesmos aventais a figura de uma caveira com dois ossos que demonstra a morte e por baixo o dístico= Memento Mortis= porém em um dos aventais em tudo semelhante aos três, não tinha estampada a dita figura da morte nem o seu dístico (ANTT, 1791).

Entretanto, ainda, foi encontrado no mesmo baú “uma fita larga de seda azul feita á maneira de banda[3] com seus laços nas extremidades”. (ANTT, 1791). Além de todos os objetos citados, por mais que continuassem as buscas não foram encontrados, nenhum papel impresso ou manuscrito que o comprometesse. Ao terem a certeza que, nada mais havia na morada de D. André que lhes interessassem o juiz do crime Doutor Alexandre Barbosa, por ordem de Pina Manique prendeu o Padre, e o conduziu até a Cadeia da Corte, onde ficou num quarto secreto, à espera da ordem do dito Desembargador. Junto aos autos foi anexado, todo o material recolhido na casa do Cônego. Nota-se, claramente, que o delator de D. André era alguém das suas relações pessoais e que muito o conhecia, na medida em que, a diligência foi bem sucedida, e foram encontradas as provas de que o Santo Oficio precisava para trancafiá-lo na cadeia.

No dia 31 de Outubro, de acordo com a certidão do decreto, António Gomes, notário do Santo Oficio da Inquisição de Lisboa, entregou o Padre D. André ao Cárcere Inquisitorial, transferindo-o da Cadeia da Corte. A exemplo do que ocorreu, aquando da sua prisão na cadeia da corte, a sua transferência de cárcere, também foi feita de forma sigilosa com um aviso no seguinte teor:

O Excelentíssimo e Reverendíssimo senhor Bispo Inquiridor Geral manda remeter a Vossa Senhoria o Auto Judicial do que se achou ao Padre D. André de Moraes Sarmento com o mais de que o mesmo auto faz menção e ordena que o dito Padre seja recebido no competente cárcere dessa Inquisição e proceda na forma de direito. Lxa. 31 de Outubro de 1791 (ANTT, 1791).

Ao ser transferido para os Estãos do Santo Oficio, D. André se desposou de todos os seus pertences e recebeu do Inquiridor Álvaro Xavier Botelho, doze folhas rubricadas para que nelas escrevesse a sua defesa. Ao recebê- las ele escreveu na parte superior das páginas rubricadas: “JMJ[4] sejam comigo” (ANTT, 1791, p. 12). Iniciando o seu depoimento fez o juramento, com a mão direita pousada na Bíblia, aberta no Evangelho de São João, e logo

foi mandado por de joelhos e depois de benzer disse a doutrina cristã, a saber, padre nosso, ave-maria, salve rainha, credo, os mandamentos da lei de Deus, e os da Santa Madre Igreja, que tudo soube (ANTT, 1791). 

O Padre diante do Inquisidor diz que, em nome da fé que professava, e da verdade que jurava perante os Santos Evangelhos; e por ser obrigado, revelaria com toda sinceridade, tudo o que sabia sobre a maçonaria.

Todo o homem, por mais convicto, e destemido que fosse diante de um inquisidor do Santo Oficio tornava -se um delator, fraco e medroso, em função da perversidade e suplício que, inevitavelmente lhe seria aplicado pelo Santo Tribunal. Não é sem motivo que, ao receber as folhas do inquisidor, para escrever seu depoimento o Padre pede socorro a Sagrada Família. Os “cães do senhor”[5] arguiram D. André varias vezes, em dias e seções diferenciadas, ou duas vezes no mesmo dia, tudo dependendo do sabor e bom alvitre do inquisidor.

Dando continuidade ao seu depoimento esclareceu que, seguindo os cânones da ordem dos cônegos regrantes, e com a sua permissão, foi para o Funchal dirigir o Novo Seminário da Ilha, onde também era professor de Teologia. Neste Seminário, conheceu Francisco Manoel de Oliveira, Professor de Filosofia, com quem estabeleceu grande amizade, ao ponto deste lhe apresentar e ser seu padrinho para iniciar na maçonaria.

O diálogo entre Francisco Manoel e D. André nos interessa, na medida em que, através dele, há demonstração do apologismo, do conceito e temores que cerqueava a maçonaria. O filósofo perguntou ao padre se ele sabia o que era maçonaria? Este, não entendeu a pergunta do outro, por não saber o que significava tal pergunta. No entanto, aquele retruca: e Pedreiros Livres? No que D. André respondeu: “tenho ouvido falar de Pedreiros Livres como gente celebre, unidas huns com os outros, e que tinha suspeita da sua Religião; Sendo que, Na História das Heresias, Nem no que tinha lido achei nunqua tal matéria” (ANTT, 1791, p.12). A sua opinião é confirmada por seu interlocutor ao afirmar que, a maçonaria não tinha oposição, nem a Igreja, e nem ao Estado, e que seu compromisso era somente com a caridade mutua. Acrescenta, ainda, que na Ilha da Madeira, os maçons eram homens de bem, e os mais importantes da terra, porque a sociedade maçônica era honrada e virtuosa. Alertava a D. André, que ele por ser um homem esclarecido não deveria acreditar em “tantas patranhas como se contão a este respeito” (ANTT, 1791, p.12). Ao final dessa interlocução, Francisco Manoel convidou D. André a entrar na maçonaria prometendo-o avisar e conduzi-lo, assim que tivesse o dia e a hora confirmados.

Desta forma, o Padre começou o seu relato ao inquisidor: detalhou a sua iniciação como maçom, assim como, delatou os nomes de todas as pessoas com as quais tinha convivido nas reuniões maçônicas. Porem faz-se necessário esclarecer, que, antes de ser um delator, o Padre foi um entusiasta da doutrina dos Pedreiros Livres, tornando-se um prosélito e um arrebanhador de muitas pessoas, que através do seu convencimento, também se tornaram maçons. Assim como, no seu depoimento, ele revela todos os nomes e os supostos “segredos” da sociedade, também durante a inquirição daqueles que ele apadrinhou todos o acusaram.

Ao Santo Tribunal era só o que lhe interessava: que contassem os segredos maçônicos e os nomes de quem frequentavam os ajuntamentos. O não cumprimento desta ordem significava ficar muito tempo na prisão, sem que ninguém soubesse o paradeiro do preso, e sofrer tortura de várias naturezas. Tal constatação, nos mostra que, a prisão dos maçons era mais motivada por razões políticas do que religiosas. Eram fóbicos com relação à ação da Maçonaria por acreditarem que, o seu objetivo era destruir o Estado Monárquico e a Igreja. Dai, o seu desejo era destruir a organização dos Pedreiros Livres assim como seus componentes, antes que fossem por eles destruídos. Desta forma, os mandatários do Alto Clero, que integravam a estrutura funcional hierárquica do Santo Oficio no século XVIII português, transformaram-se em agentes de dominação, e para dissimular a usurpação, valiam-se do titulo de servidores da Igreja em nome de Deus (VALADARES, 2004).

Bourdieu, interpretando Nietzsche, afirma que os mandatários se apropriam de valores e requisitam a moral, imputando a si mesmos os valores considerados universais e açambarcando, dessa forma as noções de Deus, de verdade, de sabedoria, de povo, de mensagem, de liberdade, transformando-as em sinônimo de si próprios, auto sacralizando-se e consagrando-se, ao mesmo tempo em que vão impondo fronteiras entre eles e os restantes. Tornam-se nome do poder e do mando, a medida de todas as coisas. Bourdieu deu a essa duplicação de personalidade, bem característica dos inquisidores, o nome de efeito de oráculo: “a pessoa individual, o eu, anula-se em proveito de uma pessoa moral transcendente” (BOURDIEU, 1989, p. 196), ou seja, o individuo comum morre, tornando-se uma instituição com seus ritos. Tal assertiva confere-se também aos maçons, pois estes enquanto presentes nos seus ritos simbólicos deixam-se morrer enquanto indivíduo social.

E assim, continuando o seu depoimento, D. André fala aos inquisidores como foi a sua iniciação, os ritos e sinais que aprendeu como Aprendiz, Companheiro e Mestre, além de explicar a representação simbólica de cada objeto utilizado numa cerimônia maçônica. Como havia combinado com o filósofo foram os dois até a casa de Carlos Aldre, negociante inglês, onde permaneceu numa sala, que se encontravam pessoas, que se frequentavam, e outras que mal se conheciam. Dai, foi levado a um quarto ou sótão superior da casa, onde permaneceu fechado por algum tempo. Depois, foi ao seu encontro um militar, Major de Auxiliares, chamado Francisco João Barreto, que era pessoa nobre na cidade. Este fez-lhe um discurso que mais “parecia hum missionário pelo seu modo de falar” (ANTT, 1791,13). Dizia o Major que se ele queria entrar para a sociedade maçônica deveria passar por algumas provas, e se desejasse se confessar antes, isto seria feito, pois que deveria estar com uma consciência pura para o que viesse acontecer. Acrescentava porem, que a intenção deles não era lhe fazer nenhum mal, mas poderiam quebrar-lhe uma perna ou um braço. Se não estivesse disposto a passar pelos trabalhos exigidos para se tornar maçom, estava em tempo, e ele poderia se retirar.

D. André, no entanto, permaneceu firme no seu propósito, porque o seu padrinho já havia lhe alertado que tudo aquilo não passava de uma cerimonia. No dizer do Padre, ele respondeu ao Major, que iria prosseguir e que passaria por todas as provas, desde que, não houvesse ofensa a sua religião, ao direito natural e as leis do seu Rei. Depois de tranquiliza-lo que não haveria nenhuma ofensa ao que ele acreditava, taparam-lhe os olhos com um lenço, despojaram-lhe de todos os metais e descobriram-lhe um ombro e um joelho. Permanecendo nestes trajes viu que havia mais uma pessoa ao seu redor, que ora lhe mandava saltar, ora lhe mandava abaixar-se para passar um buraco, e sempre lhe segurando pelo braço.

Alguns minutos depois, junto a uma porta fechada, deram três pancadas, e de dentro responderam com outras três, perguntando quem era ao que respondeu o seu condutor: um amigo que queria entrar naquela sociedade.

De dentro perguntaram se já tinham informado delle, dos seus costumes, honra e reputação para o abonar e se tinham contratempo nos trabalhos que tinha passado, dito, que queria entrar, ou se hûa por mera curiosidade ou com tensões más (ANTT, 1791, p.13)

Diante de tais perguntas o seu condutor disse que lhe abonava, e dai fizeram-no entrar por três pancadas nas costas. Ainda de olhos vendados deram-lhe uma espada para pegá-la pela ponta, e lhe fizeram dar uma volta ao redor da casa, até chegar a quem presidia à mesa que novamente o alertou que, ainda estava em tempo dele desistir. No entanto, prosseguiu e deu três voltas, as quais findas lhe falou o Presidente[6], Francisco Xavier de Ornellas, morgado de primeira nobreza daquela terra:

Já que vos tendes mostrado Constança nos vossos trabalhos sereis recebido maçon: porem como amigo vos aconselho que se tendes algum receio ou não haveis produzir honra na sociedade livremente vos podeis ir embora. Eu prometi ser homem de bem. Nisto mandou que me levassem a parte e que me destapasse os olhos (ANTT, 1791, p.13).

O Presidente ou Venerável tem no Esquadro o instrumento que o representa e em Minerva a sua figura. Simbolicamente, representa o Oriente de onde vem à luz, ou seja, a sabedoria.

Com os olhos desvendados, D. André observou que estava em um quarto interior da casa, bem ornado com cortinas de damasco, e que havia duas alas de maçons com suas insígnias, e espadas que foram desembainhadas, e apontadas para ele. Ao final das duas alas estava o Presidente de chapéu na cabeça, e uma mesa para ele virada. Sobre a mesa três castiçais com luzes postas em triangulo. Diante deste cenário ornado, repetiu ao Padre que aquelas espadas estariam a seu favor se praticasse o bem, e que ele deveria fazer um juramento prometendo guardar segredo de tudo o que ali lhe foi ensinado.

O segredo exigido tanto pelo Santo Oficio quanto pela Maçonaria representa o poder de forma intima e oculta. O detentor do poder que se vale do segredo fá-lo de acordo com o seu significado, escolhendo quem e como espreitar. Todo o individuo que guarda sozinho um segredo é vigiado por quem deseja arrancá-lo das suas entranhas, ou seja, quem vigia é também vigiado. (VALADARES, 2004). Desta forma

o detentor de poder está sempre a par da confiabilidade e da segurança dos recipientes nos quais deposita seus segredos, e é capaz de avaliar quais desses recipientes estão repletos e que podem, por isso, transbordar. Se o confia inteiramente a alguém sente-se em perigo (CANETTI, 1995, p.281).

O poderoso indaga o que se passa com os outros para dominá-los a partir das suas próprias informações, mas impede que se perceba o que ele pensa e abriga. Era exatamente nesta proporção, que o Inquisidor estabelecia sua relação de poder com o maçom. Esse, porem na sua esfera também era poderoso, na medida em que era o grande silenciador e detentor do segredo que o Santo Oficio desejava saber para dominá-lo. As relações humanas estabelecem-se principalmente por meio da fala; alguém que se protege no silencio do segredo torna essas relações rígidas: “Sucinta e isolada sua fala aproxima-se mais da transmissão de uma ordem”. (CANETTI, 1995, p.295). Assim, fica claro que as relações entre o Santo Tribunal e a Maçonaria eram tensas e fóbicas.

Retomando o que D. André declarou no seu processo, o Presidente ou Venerável disse que ele iria saber os segredos que regem os maçons, mas que estes nunca podiam ser revelados, ao que ele prometeu mediante juramento. Dai, o Padre esclareceu que ele ajoelhou sobre uma almofada em frente ao Presidente, e sobre uma mesa estava um Esquadro, um Compasso e uma Bíblia aberta no Evangelho de São João. Ele colocando a mão sobre tudo isto, jurou guardar segredo e não revelar sinais, palavras e toques maçônicos; jurou, ainda, estimar, amar e ajudar os seus irmãos maçônicos em qualquer necessidade. Tal juramento foi ditado pelo Presidente, e repetido por ele, porque não havia nada escrito.

Após este juramento fizeram-no vestir-se, e lhe apresentaram no plano da casa o Templo de Salomão[7] que estava riscado com giz.

D. André descreveu o Templo de Salomão e revelou o sinal de Aprendiz:

Fui levado à entrada delle que tinhão sete degraus que eu contei com sete passos e logo passei para a Colluna da Esquerda das duas que estavão riscadas e tinha hum J=: Disserão-me, que aquella era a coluna de J∴, donde os Aprendizes, que trabalhavão no Templo de Salomão, recebião o salário de seu trabalho. Dahi ensinarão-me, que o toque porque me faria conhecer erão ∴ pancadas sobre a junta do dedo ∴; que o sinal, era fazer hua Esquadra em ar de Cortejo, passando com a mão Direita do lado Esquerdo ao seu lugar e deixando-a cahir; porque assim descreve hua perfeita Esquadra. Quanto a palavra era uma sagrada, outra de Páz. A sagrada era J∴, mas que esta nunqua se dava, senão soletrada alternadamente: a outra podia se dar livremente, sem reserva: a saber = T∴ (ANTT, 1791, p.14).

Simbolicamente, a figura de pedra tosca que estava no risco do chão do Templo de Salomão, significava que o Aprendiz tinha que desgastá-la, poli-la, pois que neste grão o homem, ainda era inculto, grosseiro e carregado de vícios. Dai a obrigação dele era se polir e se aperfeiçoar até se tornar uma “pedra digna do Templo pela virtude.” (ANTT, 1791, p. 14). O Compasso e o Esquadro deviam acompanhar o verdadeiro maçom para que ele se lembrasse de sempre medir e regular as suas ações tomando como base, a razão e as leis. A lua, o sol e as estrelas que estavam por cima do Templo, significava o céu, debaixo de cujo pavilhão habitava todos os maçons do planeta terra, e que estes eram testemunhas das regras e ações, porque nada ficava encoberto aos olhos de Deus. Faz também uma comparação simbólica, na qual, assim como o sol e a lua iluminavam e nutriam a natureza, era obrigação maçônica iluminar uns aos outros e os nutrir com a caridade.

Logo após tais explicações, lhe foi dado um avental de pelica branca sem nenhuma pintura o que significava que, com ele devia ter assiduidade no trabalho, e evitar os acidentes funestos da vida. Depois lhe colocaram uma fita ao pescoço com um laço, a qual definia que ele estava ligado em caridade a todos os seus irmãos. Em seguida, lhe deram um par de luvas de pelica branca, as quais representavam que todos os maçons deviam conservar as suas mãos sempre limpas do crime, com ações de candura e inocência. Desta forma, D. André foi ornado com as insígnias maçônicas, recebendo do presidente um abraço e dois beijos acompanhados da declaração que se até ai ele o estimava como amigo, a partir de então ele lhe amava como um irmão. O Padre afirma que chorou de emoção, e que abraçou todos os outros irmãos que estavam nas duas alas em completo silêncio.

Continua…

Autora: Virgínia Maria Trindade Valadares

Virgínia Valadares tem Pós-Doutorado em História Moderna pela Universidade Nova de Lisboa; Doutorado em História da Expansão e dos Descobrimentos Portugueses pela Universidade de Lisboa; Mestrado em História da Expansão e dos Descobrimentos Portugueses pela Universidade de Lisboa; Graduação em História pelo UNIBH – Centro Universitário de Belo Horizonte. É pesquisadora do Centro de História dAquém e dAlém-mar (CHAM), Universidade Nova de Lisboa, professora aposentada da UFMG-COLTEC e atualmente Professora Adjunta IV da PUC-MG..

Fonte: Revista Ciência e Maçonaria

Notas

[01] – Denominada a partir de agora como ANTT.

[02] – Apesar de parecer ambíguo, o documento relata que D. André era também Presbítero Secular do Hábito de São Pedro nos seguintes termos: “Entrou Cônego Regular em Santa Cruz de Coimbra”; noutro momento nos autos de diligência e achados refere-se a ele como “D. Andre de Morais Sarmento Presbítero Secular do Hábito de São Pedro” (ANTT, 1791).

[03] – “Faixa que decora o peito dos Mestres Maçons, colocada a tiracolo, da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, conforme os graus. Ao contrário do avental, a banda, que não constitui atributo essencial do maçom nem tem qualquer significado alegórico, é dispensável em quase todos os graus de qualquer dos ritos, embora o costume a faça considerar obrigatória” (OLIVEIRA MARQUES, 1986, p.144).

[04] – JMJ significa Jesus, Maria e José.

[05] – Expressão usada por Miguel Real, nos seguintes termos: “Porém, se umas correntes “matavam” o morto, privilégio dos dominicanos da Santa Inquisição, orgulhosamente autocognominados de os cães do senhor” (2007, p.16).

[06] – O Presidente, também chamado de Venerável é titulo do Mestre “que preside a uma loja simbólica dos graus 1º e 2º e, precedido do adjectivo Muito, do grau 3º. Primeiro oficial da loja, tem por funções convocar a oficina, presidir aos trabalhos e dirigi-los, assinar as pranchas emanadas da loja para o exterior, representar a oficina na grande Dieta e nas cerimônias maçônicas receber e abrir toda correspondência” (OLIVEIRA MARQUES, 1986, p. 1475).

[07] – Lugar onde se realizam as sessões da Loja, da Oficina.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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