Padres na Maçonaria: Prisões e Delações no Santo Ofício (Parte 2)

O caso de D. André de Moraes Sarmento – (Continuação)

Terminada a cerimonia iniciou-se a ceia. A mesa já estava posta e provida frugalmente, com os lugares dispostos em ordem, a saber: O Presidente assentou-se a cabaceira da mesa, tendo diante dele um castiçal com vela e uma taça; os outros se assentaram nos dois lados laterais, esquerdo e direito, tendo em cada lugar uma taça; no final da mesa tinham dois castiçais com luzes a vela diante dos dois Vigilantes[8], que no documento são chamados “servaillantes”. O primeiro Vigilante tem como seu instrumento básico o nível, e Hércules como sua figura. Simboliza a força. O Segundo Vigilante tem o fio-de-prumo como seu instrumento, e Vênus é a sua figura. Simboliza a beleza. Durante a ceia, ou banquete tudo correspondeu aos ritos maçônicos na sua essência, como por exemplo, ao invés de pedir para ser servido do pudim, pedia argamassa, ou ao invés de um assado pedia-se uma pedra bruta.

Durante a ceia o Venerável pede um brinde à rainha D. Maria I, seguindo toda a simbólica necessária e adequada ao rito maçom. Para a execução de tal brinde o Venerável pede para todos se porem a Ordem, e carregarem com pólvora forte os canhões. Em seguida, pediu para apresentar as armas e autorizou o primeiro, segundo e o terceiro fogo fazendo três vezes uma esquadra no ar com os copos diante do rosto, e depois os depositaram sobre a mesa. Vemos, pois, que a pólvora era a representação do vinho, canhões era a denominação dos copos e o fogo era tomar um gole do vinho. Após a cerimonia de fechamento da loja “A noutte estava adiantada e cada hum se foi recolhendo a sua caza. Eu fiz o mesmo despedindo-me muito satisfeito do entretenimento do noutte” (ANTT, 1791, p. 15). Note-se, que o Padre, diante do Santo Ofício, chamou a sua iniciação como aprendiz na maçonaria de entretenimento, de divertimento, e de patranha toda a cerimonia simbólica. Portanto, no seu depoimento, de alguma forma ele pilheriou com os rituais e segredos maçônicos tendo-os como mentirosos e infantis. Afirmo, no entanto, que fora dos olhos dos inquisidores o D. André foi um entusiasta da doutrina maçônica e um grande arrebanhador de pessoas para a mesma sociedade. Neste momento, em que escrevia a sua defesa ele foi um delator dos seus irmãos e entregou ao Santo Tribunal os nomes de todos os dirigentes que conduziram a sua iniciação. Nesse sentido, o símbolo é o elemento principal da comunicação entre os maçons. Paul Naudon, entende que o símbolo é a forma usada para provocar uma

iluminação interior, projeção e apreensão no centro do Eu humano da luz transcendente. (…) É difícil traduzir os símbolos maçônicos em linguagem usual sem lhes falsificar o sentido profundo e o valor” (NAUDON, s.d., p. 12)

Para outros autores, no entanto, com cunho mais racionalista, o símbolo não passa de uma analogia que, pode ser explicada com uma linguagem mais coloquial, e em termos racionais, sem lhe tirar a sua complexidade e função. Ainda, porem, quando se trata de senso comum sabe-se que os símbolos são interpretados de forma individual “cabendo a cada maçom a tarefa de os compreender e sentir no seu significado mais profundo” (OLIVEIRA MARQUES, 1986, p. 1352).

Continuando a sua narrativa, D. André afirmou que ficou algum tempo sem saber da Maçonaria, a não ser esporadicamente, quando se encontrava com outro maçom. No entanto, cada dia mais aguçava a sua curiosidade para saber o que se passava nos outros graus da sociedade, e qual era o início dela. Com este propósito, tomou o grau de Companheiro junto com José Pereira Vasconcellos.

Descreveu também a cerimônia ritual do grau de Companheiro, mas esta é muito parecida com a do grau de Aprendiz. O local do ajuntamento foi na mesma casa do inglês Carlos Aldre, e lá estava riscado o Templo de Salomão, ornada como na cerimonia anterior.

Deixemo-lo falar:

Entrei só com um olho fechado, contei os sete degraus do Templo riscado, depois das ∴ voltas em sinal de viajar, e passei a Colluna da Direita que tinha hum B, e me disseram que esta era a Colluna de B∴, donde os Companheiros pedreiros que traballhavão no Templo de Salomão eram pagos. Como toque de Companheiro erão ∴ pancadas, se se davão no dedo ∴, a quando dois se encontravão e cumprimentavam dando as mãos: Como sinal era por a mão ∴ sobre o ∴ estendida e que a pallavra chave era B∴ (…) e da Paz Chiprozet ( sic) […] (ANTT, 1791, p. 16).

O Cônego, ainda afirmava que nada, além disso, aconteceu neste grau, e que os banquetes sempre eram realizados da mesma forma após as cerimonias. No entanto, observou algo de diferente, que eram os castigos aplicados àqueles que se descuidavam, e falavam mais alto. Os castigos eram, por exemplo, colocar a pessoa para comer em pé; carregar o seu canhão com pólvora fraca, ou seja, servir o copo com água e não com vinho como os demais; ou fazer um brinde e impedir o infrator de bater palmas maçonicamente.

D. André resolveu ir embora do Funchal, em função dos seus interesses particulares, e por ter adquirido a doença do reumatismo, que sempre o atacava. Antes, porem, de voltar para Lisboa, foi se despedir, e passar uns dias em casa de um maçom chamado Mendo de Brito de Oliveira. Percebendo os amigos a proximidade de sua partida determinou dar-lhe o grau de Mestre. Para lhe ser gentil, o dito Mendo de Brito foi ser o Venerável da reunião.

Para receber este grau é necessário, a presença de sete mestres. Reuniram-se todos e foram para a casa do Padre João Pereira, professor de latim. A sua casa foi transformada numa loja, mas sem ornamentação, mesmo que sendo o costume ornar o ambiente de preto.

D. André relata o cerimonial realizado para se tornar Mestre:

Eu entrei com os olhos abertos, mas os dois Servillante me conduzião andando para traz ao redor da caza para não ver o que estava no meio. Dei assim sete voltas, e quando chegava a presença do Venerável, eu punha a mão no peito fazendo o sinal de compromisso, mas elle fazia o sinal de Mestre em correspondência, que he levar a mão diante do rosto com a palma para fora. Acabadas as sete voltas fui levado ao fundo da caza, e vi que nella estava riscado hum Compasso e diante do Compasso em distancia, estava hua Esquadra, e no meio destes dois instrumentos riscados e hum tumulo, e hua caveira, e sete luzes: fizerão me marchar com hum pé para a parte Norte, e derão me hua pancada com hum rolo de papel dizendo me Momento Mortes (grifo nosso): marchei a parte oposta fizerão me o mesmo: marchei direto ao Venerável ahi me derão a hultima pancada, e me fizerão deitar entre a Esquadra, o Compasso que estavão riscados no plano. Então fizerão a Cerimônia de me lamentar como Morto juntando as mãos em sinal de dor. Depois veio o Venerável pegou uma mão por um braço, depois pelo outro, juntou o seu joelho com hum dos meus, meteo-me hua mão por baixo da cabeça e levantou-me dizendo= M∴= Be∴ (ANTT, 1791, p.17). 

Esta cerimônia representa a essência da História da Maçonaria com seu simbolismo[9] e representação, contidos na lenda de Hiram. Tal lenda, essencialmente relata a construção do Templo que Salomão e sua grandiosidade.

Com a morte do seu provedor, a família do Hiram ficou desamparada, e ao mesmo tempo necessitada de apoio para financeiro para se sustentar. Em função desta situação, reuniram-se os Mestres, com mais alguns Aprendizes e Companheiros, que por suas próprias deliberações resolveram socorrer a viúva e seus filhos das agruras, que se encontravam. Desde então, esta passou a ser uma prática da Sociedade dos Maçons, juntamente com seus sinais, toques e palavras sagradas e secretas.

D. André revelou ao Santo Oficio, que retornou a Corte satisfeito, porque sua curiosidade a respeito da Maçonaria foi atendida. Além disso, conhecendo os sinais de todas as categorias poderia fazer amigos, mesmo sem conhecê-los.

Em Lisboa, o Cônego mostrou-se grande entusiasta da doutrina maçônica, tornando-se um grande arrebanhador de pessoas para membros desta Sociedade. No entanto, da mesma forma que foi um prosélito da Sociedade, ao ser preso, revelou a Inquisição o nome[10] de todos aqueles que ele mesmo iniciou na maçonaria, fosse militar, médico, sacerdote, nobre, negociante ou secretário de Estado, o que fez o chefe de Polícia, Pina Manique prender a todos com o seguinte pensamento:

Aquele que V.M. vir de sapatinho bicudo e mui brunido, atilhos nos calções, com gravata por cima da barba, colarinho até meia orelha, cabelo rente no toitiço e tufado sob a moleirinha, com suíças até aos cantos da boca, agarre -me logo dele, tranque-mo na cadeia carregado de ferros: é iluminado ou pedreiro livre (JARDIM, 1989, p. 316).

Nota-se que o religioso não poupou na sua acusação nenhuma pessoa, por mais importância que tivesse na corte, mas ao seu contrário, o chefe da Polícia só prendeu aqueles de menor destaque, pois que não se sabe de nobres ou políticos poderosos, que foram presos e violentados pela Inquisição. A heresia de participar da Sociedade dos Pedreiros Livres era considerada, como crime horrível contra a Igreja e o Estado, apenas para algumas pessoas e para outras, não o era, dependendo do seu estatuto nesta Sociedade de Corte. Por outro lado, o ser maçom também dava prestígio, e ainda assegurava ajuda mutua como demonstrado na fala do Desembargador e Conselheiro José Theles, que disse desejava entrar para maçonaria

porque queria aparecer na Sociedade do Duque de Luxemburg, onde tinha entrado o Duque de Cadaval, o Márquez de Niza, seu irmão, e outros: mas que tinhão feito um gasto enorme, o que elle não queria fazer, e assim que convidasse alguns amigos […] (ANTT, 1791, p.20).

Mesmo tendo um cargo de distinção, o Desembargador queria aparecer junto à nobreza numa mesma Sociedade, para assim, adquirir mais distinção também na sociedade civil. A economia do “dom” capitalizava seguidores, e era praticada tanto pelo Rei, como pela Igreja e pela própria Maçonaria, o que ao fim e ao cabo, resultou em profunda rivalidade e conflito entre a Sociedade dos Pedreiros Livres e a aliança Igreja e Estado.

D. André no seu estado fóbico provocado pela Inquisição, não deixou pedra sobre pedra, descreveu e denunciou tudo o que “sei de certo, de vista, de ouvido, e de conjecturas” (ANTT, 1791, p.20) sobre a Maçonaria. Acusou, quase diretamente, Martinho de Melo e Castro de fazer parte da Maçonaria, ao afirmar que “Só me resta dizer que alguns maçons me tem ditto que elles se tem correspondido com Martinho de Melo, Secretário de Estado pois que elle o he.” (ANTT, 1791, p.20). Digo que, quase diretamente afirmou que Martinho de Melo e Castro era maçom, porque a informação que passou sobre o fato, não foi constatada pelo acusador, mas sim por terceiros, que também eram membros da Sociedade. Neste mesmo teor, se refere ao Márquez de Pombal: “Eu de mim posso dizer que alguns favores, e obséquios tenho recebido do Márquez de Pombal, aquém correspondi com hua Canção, ou Ode Maçonica” (ANTT, 1791, p.20).

Neste caso, também há quase uma afirmativa categórica, não por ouvir dizer, mas por “saber de certo”, na medida em que, a correspondência foi trocada por ele, acusador, e o próprio Márquez, através da qual trocaram impressões só conhecidas entre os membros da Maçonaria. Em outro Processo da Inquisição de Lisboa de nº 17800, houve confirmada tal denuncia de praticar o crime de Maçonaria, a estes dois maiores Secretários de Estado da Monarquia Portuguesa. Tal denuncia foi feita também por um Cônego de São João Evangelista. Fica a questão: Porque o Santo Oficio não os inquiriu, e nem os admoestou, e nem os prendeu? Porque o chefe de Polícia, Pina Manique não usou com os dois poderosos Secretários de Estado, toda a robustez que lhe era peculiar e, que aplicou a alguns outros denunciados por D. André?

Evidente está que o poder, seja da Igreja, ou da Polícia só era exercido entre os membros mais fracos, e menos conhecidos da Maçonaria. A Inquisição não enfrentava o seu mais forte; a sua atitude de mandar para os seus Estãos pessoas com uma acusação de ser pedreiro livre, só ocorria, no geral, com aqueles pouco apadrinhados, e que lhe seria presa útil para obter as informações de que necessitava. Atitude própria de uma instituição amorfa, mas que se faz grande em função do poder que lhe é atribuído.

D. André no seu depoimento entra em contradição várias vezes, pois ao mesmo tempo em que dizia não saber de mais nada, além do que já tinha declarado, iniciava outras descrições e mais denúncias. Evidente que tal atitude atiçava os Inquisidores a lhe inquirir outras tantas vezes, por acreditarem que o mesmo sempre tinha mais informações a fornecer, o que normalmente as tinha. Nesse sentido, os inquisidores eram astutos, e a cada vez que insistiam em mais perguntas, mais o Padre lhe abria relatos, como o que fez sobre José de Melo, que saiu de Lisboa numa fragata em direção a Gibraltar, e que assim que a nau aportou em terra, o mesmo desertou da dita fragata, indo encontrar-se com o governador de Gibraltar.

Nesse encontro, apresentou-se maçom, e após relatar suas necessidades foi recomendado ir a Londres, da qual cidade retornou a Lisboa recomendado a Martinho de Melo, que de imediato nomeou-o comandante de uma Fragata que ia em direção a América. O certo é que, José de Melo tido como desertor, ao invés de ser punido foi agraciado pelo Secretário de Estado, a pedido do governador de Gibraltar, em função de ser maçom. Daí, o ser membro da Maçonaria significava também ter privilégios e benesses, benefícios característicos da Sociedade de Corte do século XVIII português.

D. André, seja por medo, ou por uma frágil convicção, realmente revelou tudo o que sabia da Sociedade dos Pedreiros Livres em Portugal, chegando mesmo a dizer que só não reproduzia o que viu figurar no Templo de Salomão, por não saber desenhar; não descrevia o catecismo maçônico porque não teve pachorra para decorar, além dele não ser exigido em Portugal, pelo fato de não existir loja organizada nem no Reino, nem nos seus domínios, como em outros países europeus. O que existia em Portugal era apenas ajuntamentos em algumas ocasiões. Tal fato, de acordo com o Padre acarretava transtornos, porque se não havia loja também não havia local certo para se reunirem, nem fundo, nem pessoas deputadas como Venerável, Vigilantes, Gram Mestre, Tesoureiro e Secretário. Apesar de toda esta justificativa, o Cônego relatou ao Santo Oficio todas as perguntas contidas no catecismo as quais serviam de exame para a pessoa que quisesse ser reconhecido como maçom.

Da mesma forma, que foi revelada as perguntas do catecismo maçônico, também o foram o alfabeto usado nas letras supostamente secretas. Apesar de pouco usado, consistia em duas paralelas horizontais cortadas ao centro por duas paralelas perpendiculares em ângulo reto. As quatro linhas em ângulo reto formavam nove figuras, nas quais simulavam duas Esquadras. Como as letras do alfabeto são 21 era necessário formar duas da esquerda para a direita a cada figura, e assim restavam 3 que eram u, x e z. A letra z é suprida pelo s, que são fixadas por um Compasso V.

No final do seu depoimento, D. André reiterou que relatou a verdade de tudo o que sabia sobre a Maçonaria, não sendo sua intenção, porém, ofender nem defender a ninguém, muito menos ocultar os fatos e nomes de pessoas, ou ao contrário, acusar alguém por maldade ou vingança. Reafirmou o que já havia relatado: que nada havia nas reuniões maçônicas, que fosse contra a religião ou a Igreja, ou as leis do Estado ou qualquer ofensa a Pátria ou a Rainha D.Maria I, nem mesmo contra a doutrina eclesiástica e os bons costumes. Agiu de acordo com sua consciência. Revelando ao Santo Ofício os segredos da Maçonaria, o Padre, rompe o silêncio, a discrição e o vinculo em torno do segredo. Descortinando os segredos maçônicos, rompe o véu tecido pela própria Maçonaria (KOSELLECK, 1999, p.63).

Outrossim, não podemos olvidar que, quem rompeu o véu que encobria a Maçonaria, foi um homem que sofria nos cárceres inquisitoriais e que sob júdice da Inquisição, na sua condição humana, não apenas revelou segredos, como também frequentemente recorria à confiança de Deus e implorava piedade aos inquisidores na sua condenação, argumentando que era um

homem amante de Deos e da Pátria, hum sacerdote de Jesus Cristo, obediente a Rainha, e á Santa Igreja, que aborrece o crime, que ama a virtude, e que todos os seus cuidados ao presente he chorar o seu abandono, e escolher hum sitio deserto, aonde longe dos homens vá passar os dias que lhe restam na mizeria, na pobreza, suspirando pela morte, que o venha livrar do cárcere em que sua alma geme aos 22 anos cada vez mais aflita (ANTT, 1791, p.23)

O sacerdote neste desespero elogia o Santo Tribunal dizendo que, confiava nos inquisidores e na sua justiça, posto que fossem infalíveis em punir apenas os que realmente cometiam delitos contra a doutrina da Igreja sendo “suavíssimos” em amparar as almas inocentes. Ainda como forma de convencer o Santo Oficio da sua inocência, menosprezou a cerimônia maçônica, afirmando que se reuniam algumas vezes para passar a noite no entretenimento e brincadeira. Desvalorizou, enfim, a pratica maçônica da qual era um entusiasta, na esperança de receber um socorro e deixar de ser um homem encarcerado.

Concluindo o seu depoimento antes de receber a sentença da Inquisição disse saber quem o denunciou, acusando o Padre Antônio de Queiroz ou Padre Loio. Segundo D. André a delação foi por vingança. Explica a razão do ódio do Loio sobre ele dizendo que morava em um quarto na casa de D. José de Noronha, e o dito padre pediu para passar algumas noites com ele, e o mesmo dividiu o seu quarto. Neste convívio o hóspede viu a sua banda maçônica e alguns aventais. Dai, esperando encontrar mais instrumentos de prova que comprovasse que D. André era pedreiro livre, lhe arrombou a porta, a fim de descobrir outros objetos. Depois pediu para entrar na Sociedade e lhe foi negado pelo seu mau caráter. Para se vingar ele denunciou o colega ao Santo Tribunal.

Esta delação, porem, não foi à única, na medida em que, pelo que podemos apurar os maçons ao serem presos, denunciavam uns aos outros. No entanto, a população no geral, influenciada pelo discurso enganoso do Santo Oficio, também denunciava qualquer pessoa pela pratica maçônica, até na base do “ouvir dizer”, por considerá-los obra do demônio e para aliviar a consciência do bom cristão.

Os Inquisidores, após avaliação do depoimento de D. André o condenou, argumentando que ele, como sacerdote, ao invés de dar exemplo de bom cristão e divulgar a palavra de Deus, o ofendeu ao agregar-se a Sociedade dos Pedreiros Livres, que como padre sabia que ela era condenada pela Igreja pela prática da heresia. Frequentou as suas reuniões varias vezes, e recebeu

com aplausos e satisfação os grãos, e proeminências vans, com que entre si se distinguem seus sócios, promovendo, e viciando alliciando pessoas de differentes condições, e estados para sectários da mesma reprovada corpora- ção, e finalmente attrevendose a recitar nas mesmas Assembleas Discursos apologéticos com que persuadia justificada a sua Instituição (ANTT, 1791, p.69)

A Inquisição, após reproduzir toda a inquirição feita a D. André, entra em contradição com sua própria interpretação, na medida em que, ao mesmo tempo em que diz que ele não confessara todas as suas culpas, e nem a verdadeira intenção que as cometera, relatou que o padre expôs a mesa inquisitorial

com a maior ingenuidade, e miudeza todas as acçoens, ritos, cerimônias, e fatos (…) tudo quanto sabia, conceituara e lhe fora revelado sobre a Origem e Instituição, fim e exercício da dita Sociedade, e todas as pessoas, com quem como membros della concorrera nas mesmas Assembleas; e as mais, de quem, como taes, tinha notícia (ANTT, 1791, p.70).

Nesse sentido, os próprios inquisidores reconheciam que o D. André falou tudo que sabia, e denunciou por ver e por ouvir dizer todos os nomes dos frequentadores da Maçonaria. Chamam-no de ingênuo, lhe acusou e sentenciou a reclusão na Congregação da Missão de São Vicente de Paula, até quando se arrepender do seu feito; e, ainda, lhe impôs o degredo de não mais entrar nem na cidade de Lisboa nem na Ilha da Madeira, além de penitências e pagamento das despesas que o Santo Oficio lhe apresentou no valor de 1788 contos de réis A pena que lhe foi imposta pelo inquisidor. Gregório Godinho, foi bastante severa, e de acordo com o nosso banco de dados, foram presos todos os negociantes, padres e alguns militares cujos os nomes foram denunciados por D. André. No entanto, não encontrei como já dito anteriormente, nenhum processo de prisão de nobres por ele denunciado, e muito menos de Secretários de Estado. Prevalece também no Santo Tribunal a política do effectus em troca de affectus, ou seja, prestações materiais em troca de submissão política (XAVIER, 1993, p.386.).

3. Conclusão

Após estas reflexões, nota-se claramente que a Maçonaria era formada em rede com base na ajuda mútua e na fraternidade, praticando em matéria de religião uma espécie de ecumenismo, sem classe social definida, mas todos bem sucedidos, compondo desde a nobreza a intelectuais, padres, grandes e pequenos comerciantes. Em tal prática estava embutidos o exercício do poder e o prestígio adquirido pela Sociedade, fazendo-lhe entrar na esfera de poder da Igreja, provocando o embate e a relação de conflito entre a Maçonaria e o Santo Oficio, fiel representante da Igreja em aliança com o Estado.

Conclui-se, ainda que no caso português o maior número de maçons que se tornaram réus do Tribunal da Fé era militares, seguidos por padres e comerciantes. No entanto, os padres que ingressaram na Maçonaria eram na sua maioria seculares, e grande parte oriundos da Ilha da Madeira. Várias foram as denúncias de nobres, e pessoas de grande poder político que também eram membros da Sociedade dos Pedreiros Livres. No entanto, estes nunca foram alvo da ira inquisitorial e se quer foram interrogados. Enfim, no final do setecentos em Portugal, durante o reinado de D. Maria I, a perseguição aos maçons pelo Santo Oficio em aliança com a Monarquia de origem divina foi voraz, pretendendo com as prisões destruir a Maçonaria, antes que fossem por ela destruídos. Tudo, no entanto, foi uma questão de tempo histórico.

Autora: Virgínia Maria Trindade Valadares

Virgínia Valadares tem Pós-Doutorado em História Moderna pela Universidade Nova de Lisboa; Doutorado em História da Expansão e dos Descobrimentos Portugueses pela Universidade de Lisboa; Mestrado em História da Expansão e dos Descobrimentos Portugueses pela Universidade de Lisboa; Graduação em História pelo UNIBH – Centro Universitário de Belo Horizonte. É pesquisadora do Centro de História dAquém e dAlém-mar (CHAM), Universidade Nova de Lisboa, professora aposentada da UFMG-COLTEC e atualmente Professora Adjunta IV da PUC-MG..

Fonte: Revista Ciência e Maçonaria

Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo.

Notas

[08] – “Cada um dos dois oficiais de loja simbólica que ajudam o Venerável na direção e orientação dos trabalhos, cada qual em sua coluna, substituindo-o nos seus impedimentos e constituindo, com ele, as Luzes da oficina. O Primeiro Vigilante, segunda personagem na hierarquia dos oficiais da loja, tem a seu cargo a inspecção dos Companheiros, sentados na coluna J e a direção desta mesma coluna. Senta-se no ocidente, na ponta da coluna B, o que lhe permite uma fácil fiscalização da coluna dos Companheiros, que lhe fica diagonalmente em frente. Consequentemente, e como as colunas variam de posição segundo os ritos, senta-se à esquerda na loja do REAA (Rito Escocês Antigo e Aceite, grifo nosso) ou à direita dela no RF (Rito Francês, grifo nosso) […]. O Segundo Vigilante, terceiro na hierarquia dos oficiais da loja, tem a seu cargo a inspecção dos Aprendizes, sentados na coluna B e a direção desta mesma coluna. Senta-se no Meio – Dia, a meio da coluna J ( segundo o RF) […]. Nos graus superiores, os dois Vigilantes têm, por vezes, outros nomes […]” (OLIVEIRA MARQUES, 1986, p. 1488-1489).

[09] – Conceito no sentido dado por Bourdieu, isto é, representa “o acto pelo qual se outorga a alguém um título, uma qualificação socialmente reconhecida” (1987, p.164).

[10] – Os nomes das vitimas da delação de D.André foram: Antônio Alberto Perdigão, Major de Artilharia, que foi transferido para Madeira; Thomaz de Ornelas, ajudante; Velozo, Desembargador que foi transferido para Madeira como Corregedor; Bernardino Henriques de Oliveira, oficial de Artilharia, que morava na casa de Madame Melon à Ribeira Nova; Bittencourt, Brigadeiro da Marinha; Henrique Correa, Mestre maçon, irmão do esposo da filha do Secretário de Estado, Balsemão e o próprio; Payol, médico; Mainey, negociante, Francisco Maria de Andrade Corvo; Francisco da Silva de Queiroz, Cônego da Sé de Santa Maria; Reverendo José de S. Bernardino; Francisco da Silva, cavalheiro de Guimarães, ou do Porto e que hospeda na casa de Montano; Marques, da casa do negociante Quintela; Humberto Estrangeiro, chamado por Monsieur Gil, Capitão da guarda real de França; Gregório Freire Carneiro, morador do Rossio e dono de uma Chapelaria; Antonio Caetano; Márquez de Ponte de Lima; João do Coutto, morador á praça do Comercio no Armazém da Iluminação; Francisco da Silva, Cônsul Geral na Dinamarca; José Joaquim, do Bergantim Dois Amigos; Dorknin, estrangeiro que às vezes presidia a mesa de alguma iniciação maçônica; Santos, dono de uma casa de campo no Poço do Bispo e da fábrica de xitas de Chelas,; José Theles, Desembargador Conselheiro; Duque de Cadaval; Márquez de Niza; José Francisco de Noronha; João Bilton, oficial da Marinha; José Maria de Medeiros, oficial da Marinha; José de Melo; Martinho de Melo e Castro, Secretário de Estado; Márquez de Pombal, Secretário de Estado; António de Queiroz também chamado Padre Loio; Padre José Simplicio; Paulo Joaquim da Costa Quintella, moço fidalgo; Padre Antônio Vieira; Padre Antônio Pereira Coelho; Malaquias, boticário; N. Queiroz, cirurgião; José Crisostómo, cavalheiro; Francisco Manoel de Oliveira, Professor de Filosofia; Carlos Aldre, negociante inglês; Francisco João Barreto, Major de Auxiliares; Francisco Xavier de Ornelas, Capitão Mor da Ordenança e Presidente da Mesa quando D.André foi iniciado; Euzébio, negociante; Padre João Pereira, Professor de Língua Latina; Tristão Joaquim, nobreza da terra; José Joaquim de Vasconcelos; José de Brito, entre outros. (ANTT, 1791, p. 12 e seguintes até 68.).

Referências

Fonte manuscrita

ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. Inquisição de Lisboa. Processo nº 8614, 1791.

ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. Inquisição de Lisboa. Processo nº 17800, 1791.

Bibliografia

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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