Religião: Uma Compreensão Sociológica (1ª Parte)

Religião deriva do termo latino “Re-Ligare“, que significa “religação” com o divino. Essa definição engloba necessariamente qualquer forma de aspecto místico e religioso, abrangendo seitas, mitologias e quaisquer outras doutrinas ou formas de pensamento que tenham como característica fundamental um conteúdo Metafísico, ou seja, de além do mundo físico.

As religiões são então um fenômeno inerente a cultura humana, assim como as artes e técnicas. Grande parte de todos os movimentos humanos significativos tiveram a religião como impulsor, diversas guerras, geralmente as mais terríveis, tiveram legitimação religiosa, estruturas sociais foram definidas com base em religiões e grande parte do conhecimento científico, “filosófico” e artístico tiveram como vetores os grupos religiosos, que durante a maior parte da história da humanidade estiveram vinculados ao poder político e social.

Apesar de todo o avanço científico, o fenômeno religioso sobrevive e cresce, desafiando os poderes constituídos, o que em certa medida são produtos das próprias religiões. A grande maioria da humanidade, cerca de noventa por cento, professa alguma crença religiosa direta ou indiretamente. Assim, a Religião continua a promover diversos movimentos humanos, e mantendo estatutos políticos e sociais. Tal como a Ciência, a Arte e a Filosofia, a Religião é parte integrante e inseparável da cultura humana, é muito provavelmente sempre continuará sendo.

A religião faz parte da cultura, em outras palavras, é um fenômeno cultural que reflete a cultura. A religião é constituída por mitos, rituais e comportamento moral; ela interpreta o processo da cultura e pode interpretar também a união ou a comunhão humana; ela nos diz algo sobre o significado de comunidade. A religião expressa aquilo que é importante no processo cultural. Dessa ênfase na “importância”, podem emergir ideias sobre “deve” e “não deve”, “certo” e “errado”. Pode-se argumentar que esse processo que vai do ritual à práxis, que identifica o que é importante para o “dever” ser, representa a entrada da religião na ética, seja ela mais ampla ou particular.

Todas as sociedades conhecem alguma forma de religião, pois esta é um fato social universal encontrado em todas as partes desde os tempos mais remotos. Ao longo da história da humanidade surgiram muitas formas de manifestação religiosa, religiões surgem e desaparecem mais algumas resistem se transformam e estão presentes até hoje. A crença em algum tipo de divindade ou ainda, o sentimento religioso, são fenômenos generalizados em toda sociedade e são inerentes ao ser humano. Como meio de controle social, a religião é um dos mais eficientes e:

Dentro das mais variadas culturas, o culto ao sobrenatural apresenta-se como fator de estabilidade social e de obediência às normas sociais. As religiões e as liturgias variam, mas o aspecto religioso é bem evidente. As pessoas procuram no misticismo e no sobrenatural algo que lhes transmita paz de espírito e segurança. Por isso a religião sempre desempenhou uma função social indispensável.  (OLIVEIRA, 2002, p.169).

Sobre a gênese das religiões há muitas explicações.  Uma delas parte da ideia de que o homem primitivo pensava a natureza como animada, isto é, os animais, as plantas, astros e montanhas continham espíritos.  Essa teoria foi denominada animista pelo antropólogo Sir Edward Burnett Tylor ( 1832-1917). Ele partiu da teoria evolucionista de Darwin e sustentava que junto à evolução cultural e tecnológica verificava-se uma revolução religiosa que tendia do politeísmo ao monoteísmo. Tylor pensava que as populações tribais não progrediram da Idade da Pedra e, portanto praticavam esta mesma forma de animismo.  Hoje essa tese não é mais aceita e o termo animismo não é acolhido para tipificar as religiões tribais.

Há estudiosos que consideram as religiões como produto de fatores sociais e psicológicos. Trata-se de uma ideia reducionista que limita a religião a um elemento de relações sociais ou resultado da vida espiritual humana. Para Karl Marx, a religião, como a arte, a filosofia, a moral e as ideias, é apenas uma superestrutura edificada sobre a base do sistema econômico. O progresso histórico é regulado pelo modo no qual está organizada a produção e por quem possui os meios, as fábricas e as máquinas. A religião refletiria apenas estas relações fundamentais.

Hoje o estudo da ciência das religiões propõe o conceito de religião como um elemento independente na existência humana, vinculado aos fatores psicológicos e sociais, mas também dotado de estrutura própria. É difícil, entretanto,  encontrar um conceito de religião que se adapte a todos os grupos humanos que professam uma fé e realizam seus cultos. As diversas religiões não são todas comparáveis entre si e torna-se difícil colocá-las sob um único referencial. Justamente porque há adeptos religiosos que afirmam ser a sua forma de fé a única religião verdadeira, o que exclui valores e sentido em todas as outras, uns denominam as outras de ilusórias ou, no melhor dos casos, incompletas. Há cientistas das religiões que preferem estudá-las singularmente, individuando-as no seu contexto cultural e histórico. O problema aparece quando se pretende fazer analogias ou aproximações que resultam de interpretações com critérios diversos: alguns as consideram como produto de encontros e influências entre grupos populacionais, assim, as ideias de fé e culto seriam transmitidas como os conhecimentos culturais. Outros procuram, através de confrontos, descobrir o que distingue o conceito de religião em si.

A religião reflete questões referentes ao transcendente: quem sou? De onde vim? Para onde vou? Por que vivo? O que devo fazer? O vocábulo religião tem várias interpretações. Alguns entendem como re-ligare, dando o sentido de reatar.  Ela tem a função de aproximar pessoas que alimentam crenças comuns. Ela, neste sentido, é simbólica, enquanto une, dá sentido e significado comum a um grupo.

“Nossa palavra “religião” vem do latim re-ligare, que quer dizer “ligar de novo”. O homem de fato mereceu seu nome quando procurou ligar-se a seus mortos e, portanto, a um além da morte”.

Outros entendem religião como relegere, isto é, reler, observar conscienciosamente. Cícero dirá que a palavra religião vem do verbo legere: ler. E os sacerdotes antigos eram considerados intelectuais que detinham vários saberes: os ritos, as leis divinas e a moral que delas derivava.

A definição de religião, contudo, precisa partir de um pressuposto fundamental: a noção de sagrado: “Religioso ou pio é aquele para o qual algo é sagrado”, sentenciou o estudioso das religiões e arcebispo sueco, Nathan Söderblom ( 1866-1931). O conceito chave para estudar as religiões é a ideia de sagrado presente em todas e em cada tradição religiosa. Este conceito foi introduzido no livro de psicologia da religião: O Sagrado, publicado em 1917 por Rudolf Otto. Para quem a palavra sacro expressa a ideia daquilo que é absolutamente diverso de todo resto e por isso não pode ser descrito através de conceitos usados comumente. Refere-se a uma especial dimensão do ser que Otto descreve como mysterium tremendum et fascinosum, isto é, uma capacidade que, de um lado, faz temer e, por outro, tem uma força atraente, difícil de resistir.

Apesar de sofrer críticas, Otto foi copiado e suas ideias se desenvolveram no pensamento de outros estudiosos da religião. É o caso do romeno Mircea Eliade que trouxe uma nova contribuição para a ciência das religiões, através de sua análise das diversas formas de experiência religiosa nos indivíduos. Mais do que trabalhar conceitos de Deus e religiões, ele postula que o sagrado é o oposto ao profano, justamente porque a etimologia da palavra sagrado remete à ideia de separado, consagrado, enquanto profano é aquilo que está fora da sacralidade. O ser humano reconhece o sagrado quando ele se manifesta (revelação) de uma forma bem diversa do profano.

Essa manifestação sacra, Eliade denomina de hierofania, palavra grega que significa literalmente “algo sagrado está se revelando a nós”. Esta revelação pode ser uma planta, uma pedra, uma pessoa, um livro ou um deus. O livro, a pedra, ou a pessoa são venerados justamente porque, através deles, o sagrado se manifesta.

Se o Mundo lhe fala através de suas estrelas, suas plantas e seus animais, seus rios e suas pedras, suas estações e suas noites, o homem lhe responde por meio de seus sonhos e de sua vida imaginativa. (ELIADE, 2002, p.126).

A religião pode ser definida como o elo entre o ser humano e o sagrado. Ela estabelece o vínculo do homem com o transcendente. O termo “sagrado” é básico para entender uma tradição religiosa. É necessário, portanto, defini-lo, diferenciá-lo de outros conceitos e caracterizá-lo. Em sua estrutura fundamental o sagrado é sempre um ato misterioso, é a manifestação de algo totalmente Outro que não pertence à ordem natural. O sagrado se mostra e, ao se revelar no espaço e no tempo, deixa-se descrever. Essas manifestações do sagrado, contudo, são mediadas por outras coisas. A mediação evita que o Mistério seja objetivado, pois tudo permanece em forma de linguagem, representação e símbolo, sem esgotar a alteridade do divino.

A busca pela transcendência pode se manifestar na vivência das tradições religiosas ou por meio da religiosidade. Toda tradição religiosa pretende responder às grandes questões que povoam a inquietude humana. As respostas são dadas pelas tradições de forma oral ou escritas, em seus livros sagrados, ou ainda, nas suas formas celebrativas ou mesmo  através de condutas éticas. Essas respostas partem de uma cosmovisão, ou seja, de uma visão do ser humano, de mundo e de Deus.

Barros (2000), afirma que a religião é uma das dimensões mais importantes da vida humana, na medida em que esta influencia no sentido da vida e da morte, o modo como se encara o mundo e os homens, as alegrias e o sofrimento, o modo como se vive a vida familiar, a maneira como se interpreta e vive a sexualidade, a tolerância e o racismo, a política, a profissão e entre outras situações da vida cotidiana.

William James, um dos mais significativos representantes da Psicologia da Religião, enfatiza que a religiosidade é a maior das forças psicológicas do homem. Esta religiosidade deve ser vista a partir de seu componente emocional e não desde seu lado intelectivo e sócio-institucional. O interesse deve ser concentrando na experiência direta e imediata do religioso, o qual chamou de experiência religiosa. Assim, entende a religião como sendo .sentimentos, atos e experiências do individuo humano, em sua solidão enquanto se situa em uma relação com seja o que for por ele considerado divino. (VALLE, 1998, p. 258).

Carl Gustav Jung (1990, p. 09) fundador da psicologia analítica observou no decorrer de seu trabalho, principalmente na prática com seus pacientes, que a religião possui uma inegável importância na vida do ser humano. Notou a possibilidade de uma relação da psicologia prática com a religião, apontando a existência de uma função religiosa no inconsciente.

[…] a religião é como . diz o vocábulo latino religere . uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolfo Otto acertadamente chamou de numinoso, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico não causado por um ato arbitrário da vontade. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vitima do que seu criador […] o numinoso pode ser a propriedade de um objeto visível ou o influxo de uma presença invisível, que produzem uma modificação especial na consciência.

A centralidade da religião na sociologia clássica é evidente. O fenômeno religioso tem uma importância na compreensão da lógica interna da sociedade. Os clássicos da Sociologia dialogaram com a religião na tentativa mais ampla de individuar as características da nova sociedade, industrial, burguesa, capitalista, moderna que estava se delineando no começo do século XIX. Durkheim e Weber referendaram suas ideias nas mudanças sociais vigentes nas sociedades europeias, principalmente na crise e na decadência da autoridade das estruturas religiosas. Esta propositura deu condições, sob ângulos precisamente originais, para que Durkheim e Weber redescobrissem a relação entre a experiência religiosa (as ideias e as práticas) e a sociedade moderna, ressaltando e tornando inteligível o complexo papel da religião no desenvolvimento da consciência humana (MACHADO, 1996, p. 13-14).

Continua…

Autor: Mauro Ferreira

Mauro é Teólogo, Filósofo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em Filosofia Contemporânea e Historia pela UMESP, e também um colaborador do blog.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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