Pitágoras – Parte I

Pitágoras, um dos filósofos mais famosos e controversos da Grécia antiga, viveu de 570 a 490 a.C.. Passou seus primeiros anos de vida em Samos, na costa da atual Turquia. Já havia completado quarenta anos quando emigrou para a cidade de Crotona, no sul da Itália, e lá desenvolveu a maioria de suas atividades filosóficas. Pitágoras não escreveu nada, nem teve seus pensamentos escritos em detalhe por seus contemporâneos. Nos primeiros séculos antes da era cristã, no entanto, tornou-se moda apresentar Pitágoras, sem bases históricas, como uma figura semi-divina, que teria originado tudo o que era verdadeiro na tradição filosófica grega, inclusive muitas das ideias amadurecidas por Platão e Aristóteles. Vários tratados foram forjados em nome de Pitágoras e outros pitagóricos a fim de dar sustentação àquela moda.

A Questão Pitagórica, então, é como investigar essa falsa glorificação de modo a determinar o que o Pitágoras histórico realmente pensava. A fim de obter uma apreciação exata das realizações de Pitágoras, é importante que nos detenhamos nas evidências mais antigas, antes que as distorções da tradição mais recente fossem criadas. A imagem popular moderna de Pitágoras é a de um mestre matemático e cientista. As mais antigas evidências mostram, no entanto, que na sua época e 150 anos mais tarde, na época de Platão e Aristóteles, Pitágoras não era famoso pela matemática ou pela ciência. Sua fama era devida ao fato de ser visto como:

  1. Conhecedor dos destinos da alma – que acreditava imortal e suscetível a uma série de reencarnações;
  2. Especialista em rituais religiosos;
  3. Alguém realizador de prodígios que tinha uma coxa de ouro e que podia estar em dois lugares no mesmo tempo;
  4. Fundador de um modo de vida regrado que enfatizava as restrições dietéticas, o ritual religioso e a autodisciplina rigorosa.

Permanece controverso se ele se engajou na cosmologia racional típica dos filósofos/cientistas pré-socráticos e se era, de fato, um matemático. As evidências mais antigas sugerem, contudo, que Pitágoras apresentava um cosmos estruturado segundo princípios morais e relações numéricas particulares, e similares aos conceitos de cosmos encontrados em mitos platônicos, tais como aqueles que constam do final do Fedo e d’A República. Em tal cosmos, os planetas eram vistos como instrumentos da vingança divina (“os cães de Perséfone”), o sol e a lua eram as ilhas dos abençoados, para onde a alma iria caso tivesse tido uma vida boa, enquanto os trovões amedrontariam as almas que eram punidas em Tártaro. Os corpos celestes também pareciam mover-se de acordo com as relações matemáticas que governam os intervalos musicais harmônicos, a fim de produzir uma música celeste que nas tradições posteriores tornar-se-ia “a harmonia das esferas”. É duvidoso que Pitágoras tenha pensado em termos das esferas, e sua matemática dos movimentos celestes não foi trabalhada em detalhes. Mas há evidências de que ele tenha analisado os relacionamentos entre os números, tais como aqueles contidos no assim chamado teorema de Pitágoras, embora não seja provável que ele tenha desenvolvido a comprovação desse teorema.

O cosmos de Pitágoras foi desenvolvido em um sentido mais científico e mais matemático por Filolau e Arquitas, seus sucessores na tradição pitagórica. Pitágoras obteve sucesso na divulgação de uma visão mais otimista do destino da alma depois da morte e em fundar um modo de vida que era atraente por seu rigor e disciplina e que lhe garantiu muitos seguidores devotados.

A Questão Pitagórica

Quais eram as opiniões e as práticas do Pitágoras histórico? Esta questão aparentemente simples transformou-se na intimidadora Questão Pitagórica por diversas razões. Primeiramente, o próprio Pitágoras não escreveu nada, de forma que nosso conhecimento a respeito de suas opiniões é totalmente derivado de relatos de terceiros. Em segundo lugar, não há nenhum relato contemporâneo oficial de Pitágoras. Ninguém fez por Pitágoras o que Platão e Xenófone fizeram por Sócrates. Em terceiro lugar, somente fragmentos dos primeiros relatos detalhados sobre Pitágoras, escritos aproximadamente 150 anos após sua morte, sobreviveram. Em quarto, está claro que estes relatos discordam entre si em aspectos significativos. Estes quatro pontos, por si só, já tornariam o problema de determinar as crenças filosóficas de Pitágoras mais difícil do que o seria para qualquer outro filósofo antigo, mas um quinto fator complica a matéria mais ainda.

Por volta do século III a.C., quando foram escritos os primeiros relatos detalhados sobre Pitágoras que sobreviveram intactos, Pitágoras era considerado, em alguns círculos, como o filósofo mestre, do qual derivou tudo o que era verdade na tradição filosófica grega. Ao final do século I a.C., uma extensa gama de livros havia sido forjada em nome de Pitágoras e de outros pitagóricos anteriores, que pretendiam ser os textos pitagóricos originais dos quais Platão e Aristóteles derivaram suas ideias mais importantes. Um tratado forjado no nome de Timeu de Locri foi supostamente o modelo para o Timeu de Platão, da mesma forma que os tratados forjados atribuídos a Arquitas foram supostamente o modelo para as Categorias de Aristóteles. O próprio Pitágoras foi apresentado como sendo um predecessor da Metafísica de Platão, na qual o Um e a Díada são os primeiros princípios. Assim, não somente as evidências mais antigas sobre as opiniões de Pitágoras são escassas e contraditórias, mas, além disso, foram encobertas pela apresentação hagiográfica de Pitágoras, que se tornou dominante na antiguidade. Dadas estas circunstâncias, a única abordagem confiável para responder à Questão Pitagórica deve começar pelas evidências mais antigas, que são independentes das tentativas posteriores de glorificar Pitágoras, e usar o retrato que emerge destas evidências antigas como o padrão para avaliação do que pode ser aceito e o que deve ser rejeitado na tradição posterior. Seguindo tal abordagem, Walter Burkert, em seu livro que marcou época (1972a), revolucionou nossa compreensão sobre a Questão Pitagórica, e todos os estudiosos modernos de Pitágoras, inclusive este artigo, repousam sobre ela.

Fontes Pós-Aristotélicas sobre Pitágoras

Os problemas relativos às fontes sobre a vida e a filosofia de Pitágoras são bem complicados, mas é impossível compreender a questão pitagórica sem, pelo menos, uma apreciação exata, da natureza geral destes problemas. É melhor começar com as extensivas e mais problemáticas evidências antigas e trabalhar em direção às evidências mais recentes. Os mais detalhados e extensos e, portanto, os mais influentes relatos sobre a vida de Pitágoras e suas ideias datam do século III d.C., uns 800 anos depois que ele morreu. Diógenes Laércio (200-250 d.C) e Porfírio (234-305 d.C.) escreveram, cada um deles, uma Vida de Pitágoras, enquanto Jâmblico (245-325 a.C.) escreveu Sobre a Vida Pitagórica, que inclui alguns dados biográficos, mas com mais foco no modo de vida estabelecido por Pitágoras para seus seguidores. Todos estes trabalhos foram escritos num momento em que as realizações de Pitágoras se tornavam consideravelmente exageradas. Diógenes pode ser visto com alguma restrição quanto à sua objetividade, mas Jâmblico e o Porfírio têm estilos que pouco têm a ver com a exatidão histórica. Jâmblico apresenta Pitágoras como uma alma enviada pelos deuses para iluminar a humanidade (O’Meara 1989, 35-40). O trabalho de Jâmblico foi justamente o primeiro de um total de dez volumes, que de fato “pitagorizou” o neoplatonismo, embora o pitagorismo apresentado fosse uma concepção própria de Jâmblico sobre um Pitágoras envolvido particularmente com a matemática, do que um relato do pitagorismo baseado em evidências próximas. Porfírio também enfatiza aspectos divinos de Pitágoras e o define quase como um rival de Jesus (Jâmblico 1991, 14). Estes três relatos de Pitágoras do século III foram, por sua vez, baseados em fontes mais antigas, que foram perdidas.

Algumas dessas fontes mais recentes foram muito contaminadas pela opinião dos neopitagóricos sobre Pitágoras, que o apresentam como sendo a fonte de toda a filosofia verdadeira, cujas ideias Platão, Aristóteles e todos os filósofos gregos mais antigos plagiaram. Jâmblico cita as biografias de Pitágoras escritas por Nicômaco de Gerasa e Apolônio de Tiana e parece tê-las usado extensivamente mesmo quando não as cita. Nicômaco (entre 50 e 150 d.C.) atribui a Pitágoras uma metafísica patentemente platônica e aristotélica e que emprega de fato a terminologia que distingue o platonismo e o aristotelismo (Introdução à Aritmética I.1), enquanto Apolônio (séc. I d.C.) venerava Pitágoras como o modelo por sua vida ascética. Porfírio (VP 48-53) cita explicitamente Moderato de Gades como uma de suas fontes. Moderato foi um neopitagórico atuante do século I d.C., que relata que Platão, Aristóteles, e seus alunos Espeusipo, Aristoxeno e Xenócrates tomaram para si tudo o que era frutífero no pitagorismo, atribuindo à escola somente o que era superficial e trivial (Dillon 1977, 346). Diógenes Laércio, que parece ter menos fidelidade pessoal à lenda pitagórica, baseia seu relato da filosofia de Pitágoras (VIII. 24-33) nas Memórias Pitagóricas coletadas por Alexander Polyhistor, que são uma falsificação datada de cerca de 200 a.C. e que atribuem a Pitágoras não só as ideias platônicas, mas também as estoicas (Burkert 1972a, 53; Kahn 2001, 79-83).

Nas Memórias Pitagóricas, Pitágoras é retratado como alguém que adotou a mônada e a díada indefinida como princípios incorpóreos, dos quais surgem primeiro os números, depois as figuras planas e contínuas e, finalmente, os corpos do mundo sensível (Diógenes Laércio VIII. 25). Este é o sistema filosófico que é atribuído mais comumente a Pitágoras pela tradição pós-aristotélica, e é encontrado também em relatos detalhados de Sexto Empírico (século II d.C.) sobre o pitagorismo e, mais significativamente, na coletânea de opiniões de filósofos gregos, que foi compilada por Aécio no século I d.C. e que vai até Teofrasto, discípulo de Aristóteles (por exemplo, H. Diels, Doxographi Graeci I. 3.8). O testemunho de Aristóteles, no entanto, deixa completamente claro que este era o sistema filosófico de Platão em seus primeiros anos e não de Pitágoras ou mesmo dos pitagóricos mais antigos. Aristóteles é explícito quando diz que a díada indefinida é criação de Platão (Metafísica 987b26 os ff.) e que o pitagóricos reconheciam somente o mundo sensível e, portanto, não o derivavam de princípios imateriais. Embora Teofrasto siga geralmente seu mestre Aristóteles em seus relatos sobre as opiniões os filósofos gregos mais próximos de sua época, neste caso parece concordar com a tradição mais antiga ao atribuir a metafísica platônica a Pitágoras. Como poderemos explicar esta divergência com relação à visão aristotélica? Parece que, por razões que não estão inteiramente claras, os sucessores de Platão na academia, Espeusipo, Xenócrates e Heráclides, decidiram apresentar a Metafísica platônica como um mero ramo do pitagorismo e que Teofrasto escolheu seguir esta tradição. No Filebo, o próprio Platão, ao atribuir à filosofia o crédito pelos limitadores e os ilimitados – que é encontrada em relatos de Aristóteles sobre o pitagorismo e nos fragmentos pitagóricos de Filolau, no século V – torna claro que esta é uma filosofia consideravelmente mais recente, que foi completamente retrabalhada para suas próprias finalidades (16c ff.; veja Huffman 1999a e 2001). O ponto crucial e determinante é que a tradição que falsamente atribui a Pitágoras a Metafísica de Platão começa não com o neopitagóricos nos primeiros séculos a.C. e d.C., mas já no século IV a.C. entre os próprios discípulos de Platão (Burkert 1972a, 53-83). As claras distinções que Aristóteles faz entre Platão e o pitagorismo do século V, que têm muito sentido em termos do desenvolvimento geral da filosofia grega, são ignoradas em sua maior parte na tradição mais antiga, em favor da atribuição do Platonismo maduro a Pitágoras.

Se nós pararmos por um minuto para comparar as fontes sobre Pitágoras com as aquelas disponíveis sobre outros filósofos gregos mais recentes, a extensão das dificuldades inerentes à questão pitagórica torna-se clara. Ao tentar reconstruir a filosofia de Heráclito, por exemplo, os estudiosos modernos confiam acima de tudo nas citações do livro de Heráclito preservado por alguns autores mais antigos. Uma vez que Pitágoras não escreveu nenhum livro, a mais fundamental de todas as fontes nos é negada. Ao lidar com Heráclito, o estudioso moderno se depara, com relutância, com a tradição doxográfica, representada por Aécio no século I a.C., que preserva, sob a forma de um manual, um relato sistemático da opinião dos filósofos gregos, em uma série de tópicos relacionados com o mundo físico e seus primeiros princípios. O trabalho de Aécio foi reconstituído por Hermann Diels com base em dois outros trabalhos derivados dele, as Seleções de Estobeu (século V d.C.) e as Opiniões dos Filósofos do pseudo-Plutarco (século II d.C.). A fé dos estudiosos nesta evidência é, em geral, baseada na suposição de que a maior parte dela remonta à escola de Aristóteles e, em particular, aos Princípios dos filósofos naturais, de Teofrasto. Aqui, outra vez, o caso de Pitágoras é excepcional. Pitágoras é representado nesta tradição mas, como vimos, Teofrasto neste caso adotou a visão sobre Pitágoras que era defendida pelos sucessores de Platão na academia, visão que, contra toda a plausibilidade histórica, atribuía a metafísica de Platão a Pitágoras. Esta é uma visão que era rejeitada explicitamente pelo mestre de Teofrasto, Aristóteles. Assim, a segunda fonte de evidências para a filosofia grega posterior está, no caso de Pitágoras, emaranhada na fonte. Qualquer que tenha sido a visão de Pitágoras possa ter tido, foi substituída pela metafísica platônica na tradição doxográfica.

Uma terceira fonte da evidência para a filosofia grega posterior é vista com grande ceticismo pela maioria dos estudiosos e, no caso dos filósofos gregos posteriores, usada somente com grande cuidado. Esta é a tradição biográfica representada por Vidas dos Filósofos, escrito por Diógenes Laércio. Neste caso, à primeira vista parece que estamos com sorte, pelo menos considerando a quantidade de evidências sobre Pitágoras, já que, como vimos, dois importantes relatos da vida de Pitágoras e do modo de vida pitagórico sobreviveram além do relato de Diógenes. Infelizmente, estes dois relatos são escritos por autores (Jâmblico e Porfírio) cujo objetivo é explicitamente não-histórico, e todos os três se baseiam em autores da tradição neopitagórica, cujo objetivo era mostrar que toda a filosofia grega do período anterior, na medida que fosse verdadeira, tinha sido roubada de Pitágoras. Há, entretanto, alguns pormenores nos relatos destes  três autores que derivam das fontes que antecedem a influência do neopitagorismo, fontes estas do século IV a.C. , que são independentes da posterior tentativa da academia atribuir aos pitagóricos a metafísica platônica. A mais importante destas fontes são os fragmentos dos tratados perdidos de Aristóteles sobre os pitagóricos e os fragmentos dos trabalhos sobre pitagorismo ou de trabalhos que trataram de passagem sobre o pitagorismo, escritos por Dicearco e Aristoxeno, discípulos de Aristóteles, na segunda metade do século IV a.C..

O historiador Timeu de Tauromênio (350-260 a.C.), que escreveu uma história da Sicília que incluía material, da época em que Pitágoras estava ativo, sobre o sul da Itália, também é importante. Em alguns casos, os fragmentos destes trabalhos estão claramente identificados com vidas de épocas anteriores, mas em outros casos podemos suspeitar que sejam a origem de passagens não confirmáveis. Grandes questões permanecem mesmo no caso destas fontes. Todas foram escritas de 150 a 250 anos após a morte de Pitágoras; dada a falta de evidências escritas por Pitágoras, são baseadas, na maior parte, em tradições orais. Aristoxeno, que cresceu na cidade de Tarento, no sul da Itália, onde o pitagórico Arquitas era a figura política dominante, e que era, ele mesmo, pitagórico antes de se juntar à escola de Aristóteles, teve indubitavelmente um rico conjunto de tradições orais sobre as quais trabalhar. Não obstante, está claro que, 150 anos após sua morte, surgiram tradições conflitantes sobre as opiniões de Pitágoras, mesmo sobre os temas mais centrais. Assim, Aristoxeno é enfático ao afirmar que Pitágoras não era estritamente vegetariano e que não comia alguns tipos de carne (Diógenes Laércio VIII. 20), enquanto que um contemporâneo de Aristoxeno, o matemático Eudoxo, retrata-o não somente como avesso a todo tipo de carne, mas como alguém que até se recusava a manter contato com os açougueiros (Porfírio, VP 7). Mesmo entre os autores do século IV, que tinham ao menos algumas pretensões à exatidão histórica e que tiveram o acesso à melhor informação disponível, há amplas divergências, simplesmente porque tais contradições eram endêmicas nas evidências disponíveis na época. O que nós podemos esperar obter das evidências apresentadas por Aristóteles, Aristoxeno, Dicearco e Timeu não são, assim, um retrato de Pitágoras consistente em todos os aspectos, mas pelo menos definem as principais áreas de suas realizações. Este retrato pode então ser testado contra as evidências mais fundamentais de todas: o testemunho dos autores que antecederam Aristóteles, e que, em alguns casos, derivam dos próprios contemporâneos de Pitágoras. Este testemunho é extremamente limitado – aproximadamente vinte referências breves – mas esta escassez de evidências não é exclusiva de Pitágoras. Os testemunhos pré-aristotélicos sobre Pitágoras são mais extensos do que os da maioria dos demais filósofos gregos posteriores, o que atesta sua fama.

Platão e Aristóteles como fontes sobre Pitágoras

Ao reconstruir o pensamento de filósofos gregos mais antigos, os estudiosos tendem frequentemente para os relatos de Aristóteles e de Platão sobre seus predecessores, embora os relatos de Platão estejam encaixados dentro da estrutura literária de seus diálogos e, assim, não almejam a exatidão histórica. Já a apresentação aparentemente mais histórica de Aristóteles mascara uma quantidade considerável de reinterpretações de opiniões de seus predecessores como se fossem seu próprio pensamento. No caso de Pitágoras, o que impressiona é a coerência entre Platão e Aristóteles com relação à sua importância. Aristóteles frequentemente discute a filosofia dos pitagóricos, que ele data como sendo de meados e da segunda metade do século V e diz que ela postulava limitadores e ilimitados como primeiros princípios. Ele se refere aos pitagóricos como “os assim chamados pitagóricos” sugerindo que tinha algumas reservas quanto a rotulá-los assim. Surpreendentemente, Aristóteles nunca menciona o próprio Pitágoras nos escritos existentes. (Metaph. 986a29 é uma interpolação; Rh. 1398b14 é uma citação de Alcidamas; MM1182a11 pode não ser de Aristóteles e, se for, pode ter sido um caso onde “pitagóricos” foi transformado “em Pitágoras” na transmissão). Nos fragmentos de seu tratado em dois volumes sobre os pitagóricos, agora perdido, Aristóteles discute o próprio Pitágoras, mas as referências são todas a um Pitágoras criador de um modo de vida, que proibia comer grãos (quadro 195), que realizava prodígios, que tinha uma coxa dourada e que mordeu uma serpente até matá-la (quadro 191). Se esse é o único tipo de material que Aristóteles quer atribuir ao próprio Pitágoras, torna-se claro porque nunca menciona Pitágoras quando fala sobre seus próprios predecessores filosóficos e porque usa a expressão “assim chamados pitagóricos” para se referir ao pitagorismo do século V. Para Aristóteles, Pitágoras não pertenceu à dinastia – iniciada por Tales – dos pensadores que tentavam explicar os princípios básicos do mundo natural e, consequentemente, não via sentido em chamar de pitagórico um pensador  do século V, como Filolau, que se juntou a essa dinastia ao propor limitadores e ilimitados como principais princípios. Frequentemente imagina-se Platão como alguém que deve muito aos pitagóricos, mas ele é tão parcimonioso em suas referências a Pitágoras quanto Aristóteles, e o menciona apenas uma vez em seus escritos. A única referência de Platão a Pitágoras (R. 600a), o trata do mesmo modo que Aristóteles, ou seja, como o criador de um modo de vida. Quando Platão descreveu, no Sofista, a história da filosofia antes de seu tempo, (242c-e), não fez qualquer alusão a Pitágoras. Em Filebo, Platão descreve a filosofia dos limitadores e ilimitados, que Aristóteles atribui aos “assim chamados pitagóricos” do século V e que é encontrada nos fragmentos de Filolau, mas, como Aristóteles, não atribui esta filosofia a Pitágoras. Os estudiosos antigos e modernos, sob a influência da glorificação de Pitágoras, supunham que Prometeu, a quem Platão descreve como o portador desse sistema para os homens, fosse Pitágoras (por exemplo, Kahn 2002: 13-14), mas a leitura cuidadosa da passagem mostra que Prometeu é apenas Prometeu e que Platão, como Aristóteles, atribui o sistema filosófico a um grupo de homens (Huffman 1999a, 2001). Os fragmentos de Filolau mostram que ele era a principal figura deste grupo. Quando Platão refere-se a Filolau no Fedo (61d-e), não o identifica como um pitagórico, de modo que, mais uma vez, Platão concorda com Aristóteles em distanciar de Pitágoras “os assim chamados pitagóricos” do século V. Para Platão e Aristóteles, então, Pitágoras não é parte da tradição cosmológica e metafísica da filosofia pré-socrática nem tem conexão próxima com o sistema metafísico apresentado pelos pitagóricos do século V, como Filolau. É, preferencialmente, o criador de um modo de vida.

Continua….

Extraído da Stanford Encyclopedia of Philosophy
Tradução: S. K. Jerez

Anúncios

Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
Esse post foi publicado em História e marcado , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Pitágoras – Parte I

  1. Ronaldo José Luiz disse:

    Interesante relato de Pitágoras…gostei e agradeço ao Ir. Luiz Marcelo pelo seu trabalho e disposição em compartilhar…TFA, Ronaldo José Luiz

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s