Maçonaria como Disciplina Acadêmica (Parte II)

Questões de Sexo, Masculinidade e Emancipação

O espaço como uma expressão de poder e hierarquia é um tema de destaque na ciência moderna para a qual o estudo da Maçonaria tem muito a contribuir. Templos maçônicos e centros cívicos eram espaços masculinos, distintos de outro desenvolvimento importante da cidade no período vitoriano – a loja de departamentos – vista como um espaço em grande parte do sexo feminino. A análise de Catherine Hall e Leonore Davidoff traçando o surgimento, nos séculos XVIII e XIX de esferas separadas para diferentes sexos influenciou muito o recente trabalho sobre história social, e fornece outra poderosa ferramenta interpretativa para a história maçônica. Isto é demonstrado pelos trabalhos de Robert Beachy, que recentemente discutiu como escritos apologéticos maçônicos do final do século XVIII ajudaram a popularizar o estereótipo das diferenças entre homens e mulheres, e Mark Carnes, que analisou como os rituais de sociedades fraternais moldaram as visões da masculinidade da classe média na América do século XIX.

Os escritos maçônicos do século XIX são uma rica fonte de informações sobre o panorama social e moral do homem de classe média. Por exemplo, os sermões e discursos maçônicos são uma fonte útil, mas negligenciada d estudo da mentalidade das nova elites provinciais dos períodos vitoriano e eduardiano. Um discurso proferido por M.C. Peck, Grande Secretário Provincial de Reading Norte e Leste de Yorkshire, na sagração de um templo maçônica em Hull em 1890, descreve as qualidades esperadas de um habitante do sexo masculino honrado de Hull na época. Ele devia acreditar em Deus, tratar o seu próximo de forma justa, e cuidar de seu próprio corpo e mente. Ele deve evitar o desperdício e a intemperança, e suportar o infortúnio com firmeza. “Maçons nunca devem ser homens espertos como o mundo os chama, prontos para enganar e explorar seus companheiros. Quantas vezes ouvimos aqueles elogiarem um homem por sua perspicácia e habilidades de negócios, mas eles confiariam nele com para seus próprios negócios? Por outro lado, o homem verdadeiramente justo e honesto é o mais nobre trabalho de Deus, e ninguém pode merecer mais elogios do que ele!” Apesar do seu tom confiante, há não muito abaixo da superfície daquelas palavras uma ansiedade que lembra o comentário de Mark Carnes de que a Maçonaria Vitoriana oferecia trégua das crescentes pressões econômicas e sociais do mundo exterior: “mesmo à medida que as classes médias emergentes estavam abraçando o capitalismo e as sensibilidades burguesas, elas estavam simultaneamente criando rituais cuja mensagem era largamente oposta àqueles relacionamentos e valores”.

Na Inglaterra, o consolo masculino oferecido pela Maçonaria estava intimamente ligado às memórias da escola e da vida escolar. Paulo Rich sugeriu que as escolas públicas e a Maçonaria foram elementos centrais de um ritualismo que era uma ligação cultural importante do Império Britânico. A maçonaria permitia que o adulto do sexo masculino revivesse os rituais de ligação da escola ou da universidade. As Lojas eram fundadas especificamente para membros de determinadas escolas ou universidades que procuravam, nas palavras de uma circular propondo a formação de uma loja para os antigos garotos de uma pequena escola primária em Londres, fortalecer “os estreitos laços de bem fraternal aquelas amizades que tantos de nós formamos durante nossa vida escolar”. O relacionamento simbiótico entre a vida escolar e a Maçonaria moderna é encapsulado por um artigo sobre uma loja escolar na Revista da Escola Aldenham citado por Paul Rich, que declara que ‘eu me pergunto se você realmente sabia como era a vida na escola até que você entrou’. Uma história recente de Christopher Tyerman da Harrow School, onde Sir Winston Churchill foi educado, destaca o papel central da Maçonaria na vida escolar, observando que “entre 1885 e 1971, os diretores tendiam a ser maçons, assim como muitos governadores e, muitas vezes, poderosas grupos de mestres e chefes de dormitório”. A capela da escola estava decorada com símbolos maçônicos; em 1937, o Diretor deu aos meninos um feriado de meio-dia a pedido do Grão-Mestre. Tyerman também observa que a Maçonaria era importante na afirmação de interesses do grupo e de solidariedade profissional dos mestres. Esse não era só o caso em escolas públicas. Dina Copelman estudou os professores das escolas primárias administradas London School Board, que foi criada em 1870. A maioria desses professores eram mulheres, muitas delas casadas. Como os seus colegas de escola pública, os professores do sexo masculino usavam a Maçonaria para afirmar seus status profissional e social. Em 1876, a Loja Crichton foi fundada por um grupo de professores e funcionários da London School Board, incluindo o seu Presidente e Secretário, e fundaram outras lojas incluindo principalmente professores no sul de Londres. Estes meios de exibir credenciais de classe média não estavam disponíveis para as professoras, e seu status social e profissional era mais tênue.

O estudo de Copelman explora a fronteira entre as “duas esferas” e sugere que o processo de troca social entre os sexos era complexo. Talvez, os aspectos mais interessantes da Maçonaria e sexo sejam aquelas áreas que confrontam as claras divisões de um modelo de “duas esferas”. A retórica vitoriana tardia de diferença sexual retratava as mulheres como clientes e consumidoras, mas os espaços privados da loja maçônica permitiam aos homens se dar o luxo de exibição visível. Os maçons compravam joias de enorme valor para usar em suas lojas, e decoravam seus templos com móveis e acessórios de grande opulência. Nas lojas maçônicas, como Kennings em Londres eles tinham suas próprias lojas de departamentos. De maneira semelhante, a filantropia era uma área em que diferentes gêneros tiveram papéis distintos. Mas a atividade caritativa maçônica poderia tranquilamente atravessar algumas dessas distinções.

Acima de tudo, no outro sentido, a Maçonaria de mulheres ofereceu uma saída social significativa para as mulheres. Janet Burke e Margaret Jacob argumentaram que a as Lojas de Adoção possibilitaram que as mulheres, através da Maçonaria, se envolvessem com a sociedade civil emergente no século XVIII. James Smith Allen e Mark Carnes recentemente documentaram a ampla participação das mulheres em organizações fraternais no século XIX, enquanto a Co-Maçonaria, através de figuras como Annie Besant e Charlotte Despard desempenhou um papel significativo no movimento pelo sufrágio feminino com mulheres maçons comparecendo a marchas pelo sufrágio usando seus paramentos.

Raça, Império e Nacionalidade

Imagem do Mais Venerável  da Grande Loja Maçônica Prince Hall  do Estado de Nova York  colocando a primeira pedra angular da Igreja Batista Abissínia

No passado, havia uma ênfase exagerada na importância da atividade econômica como um componente da identidade social. O estudo de gênero tem sido uma maneira em que os estudiosos vêm demonstrando a complexidade da identidade social; outra foi a raça, uma área onde a pesquisa sobre a Maçonaria oferece possibilidades emocionantes. A ilustração mais conhecida disto é a maçonaria Prince Hall, a forma de maçonaria organizadas pelos negros nos Estados Unidos, que tem sido vista por estudiosos como William Muraskin e Loretta Williams como importante na definição e na criação de uma classe média negra na América, apesar de Williams em particular, enfatizar a contradição entre a ideologia universalista da Maçonaria e o caráter distinto segregado da Maçonaria Prince Hall. Existem muitas outras áreas em que a Maçonaria oferece percepções sobre a etnia, que são menos bem exploradas. A Maçonaria foi um importante componente cultural do Império Britânico. O Pro Grão-Mestre inglês Lorde Carnarvon, declarou na década de 1880 que “Aonde a bandeira vai, lá vai a Maçonaria para consolidar o Império. A loja de raça mista oferecia um espaço social em que o colonizador e o colonizado se misturavam no Império Britânico. Rudyard Kipling declarado de sua loja, em Lahore, que “não há coisas tais como infiéis entre os Irmãos pretos e marrons”. A importância desta área de pesquisa foi brilhantemente demonstrada por um estudo de Augustus Casely-Hayford e Richard Rathbone da Maçonaria em Gana colonial. Isto mostra como “a Maçonaria estava entre as malas e bagagem tanto do império formal quanto do informal. Ela facilitava contatos comerciais e oferecia um meio de sinalização “realização, muito trabalho, dignidade e, em alguns casos berço de ouro”. Ela oferecia um vínculo importante nas políticas racial e nacional da colônia, com muitos membros do Congresso Nacional da África Ocidental sendo maçons. Intimamente relacionado com a raça é o papel da Maçonaria na formação da identidade nacional. Por exemplo, na Grã-Bretanha a Maçonaria era uma poderosa expressão do estabelecimento Hanoveriano, enquanto que era, por outro lado, na França, na década de 1870, uma das forças por trás do desenvolvimento do moderno republicanismo francês.

O Duque de Connaught, GM da Maçonaria Inglesa liderando uma procissão maçônica em Bulawayo, Rodésia, 1910

A interação entre a Maçonaria, nacionalidade, raça e classe é muito bem ilustrada por um estudo clássico de Abner Cohen da Maçonaria em Serra Leoa, que é um modelo de como a pesquisa acadêmica de Maçonaria deve ser realizada. Cohen descobriu que, em 1971, existiam dezessete lojas maçônicas em Freetown, com cerca de dois mil membros, a maioria dos quais era africana. A maioria destes maçons negros eram Creoles, descendentes de escravos emancipados entre 1780 e 1850, um grupo alfabetizado, altamente educado e profissionalmente diferenciado, que foram primeiro considerados e em seguida menosprezados pelos administradores britânicos. Cohen constatou que um em cada três Creoles era maçom. Cohen relacionou o envolvimento Creole na Maçonaria aos ataques sobre o poder Creole durante o período a partir de 1947. Ele concluiu que “em grande parte, sem qualquer política consciente ou projeto, os rituais e organização maçônicos ajudaram a articular uma organização informal que ajudou os Creoles a proteger a sua posição diante de ameaça política”.

Redes Sociais

O estudo de Cohen levanta um tema final importante, o das redes sociais. Como estudiosos têm explorado cada vez mais a natureza pluralista da identidade social, a importância da análise das redes sociais tornou-se evidente. Fatores tais como a medida que todo mundo conhece todo mundo (“acessibilidade”); as diferentes formas como as pessoas estão ligadas (“multiplexidade’) e as obrigações impostas pelas redes a seus membros (“intensidade”), são essenciais para a compreensão de como as sociedades locais, a Maçonaria e outros grupos fraternais têm um efeito importante sobre essas dinâmicas. Os arquivos maçônicos são ricos em material para pesquisar redes sociais, não apenas em fontes tão óbvias quanto listas de adesão, mas também em petições e correspondências, onde, ao discutir a necessidade de uma loja, suas conexões sociais podem ser descritas. Por exemplo, uma carta de uma loja formada por trabalhadores em Stratford, no leste de Londres, protestando contra uma decisão da Grande Loja Inglesa de que ela era um corpo maçônico espúrio, contém a seguinte declaração incomumente explícita das vantagens da Maçonaria para o artesão Vitoriano: “Stratford e sua vizinhança contêm uma população de cerca de milhares de hábeis mecânicos, artesãos e engenheiros, muitos dos quais, por suas realizações superiores ou pelas exigências do comércio são chamados a exercer sua vocação em vários estados da Europa continental ou em nossas próprias possessões coloniais e a quem, portanto, as vantagens decorrentes da Fraternidade Maçônica são de grande importância.”

O potencial entusiasmante de uma abordagem que analisa a interação entre a Maçonaria e outras redes sociais, tais como contatos profissionais e a participação em outras organizações fraternais, foi recentemente demonstrado por dois artigos excepcionais relacionados com duas profissões muito diferentes. O estudo de Simon McVeigh sobre Maçonaria e vida musical em Londres do século XVIII mostrou como a Maçonaria ajudava a garantir patrocínio e trabalho para músicos e também apoiava alianças profissionais, às vezes de maneira surpreendente. O estudo de Roger Burt sobre a Maçonaria Cornish no século XIX chega a algumas conclusões interessantes sobre a composição social das lojas maçônicas no sudoeste da Inglaterra. Ele constatou que “as lojas eram dominadas em sua maioria por jovens (a maioria dos iniciados tinha menos de 30 anos) de grupos de classe média e “pequeno-burgueses” de interesses mercantis e de produção, profissionais e operadores de pequenos negócios.” Os registros da participação Cornish refletem a crescente mobilidade desse grupo social, e a Maçonaria pode ter ajudado a estabelecer contatos internacionais para promover um emprego rentável no exterior.

Conclusões

A pesquisa sobre a Maçonaria explora as conexões entre esses grandes temas da moderna erudição tais como espaço público, gênero, raça e redes sociais. Estes temas essencialmente giram todos em torno de uma questão mais importante: a construção da identidade social e o estudo da Maçonaria, porque ele está relacionado com uma identidade que é pública e oculta ao mesmo tempo e fornece uma perspectiva única sobre o assunto. Metodologicamente, o estudo da Maçonaria apresenta muitos desafios, mas o ponto que deve ser observado aqui é o seu caráter intrinsecamente interdisciplinar. A natureza dos arquivos maçônicos significa que o pesquisador de Maçonaria precisa usar muitos tipos diferentes de mídia: os textos que vão desde listas de membros até rituais, joias, banners, gravuras, música e artefatos de vários tipos diferentes. A interpretação de tais materiais exige uma mistura de habilidades acadêmicas. Mark Carnes observou como suas pesquisas exigiram “excursões nos campos da história religiosa e da teologia; educação infantil e psicologia do desenvolvimento; a história das mulheres e estudos de gênero, e antropologia estrutural e cultural”. Embora estudiosos frequentemente aspirem a interdisciplinaridade, eles raramente a atingem. O estudo da Maçonaria talvez possa servir de modelo para estudos interdisciplinares.

Os temas que eu discuti estão na vanguarda da pesquisa em ciências humanas e sociais, mas suas raízes estão no antigo pensamento, refletindo tanto as mudanças sociais dos anos 60, e particularmente a resposta aos acontecimentos franceses de 1968, e o desafio colocado aos modelos marxistas pelo colapso da União Soviética. Embora o estudo da Maçonaria possa contribuir muito para aquelas preocupações intelectuais, ainda mais emocionante é a questão de como ela ajudou a formar completamente novas agendas intelectuais. Será que os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 terão um impacto de nível global tão grande quanto os de maio de 1968?

É cedo demais para dizer, mas há indícios de que, seja qual for o resultado, as reações à Maçonaria terão novo significado. A maneira em que a destruição do World Trade Center deu origem, paradoxalmente, a uma nova forma de antissemitismo foi bem documentada. Tem havido pouca discussão sobre a nova anti-maçonaria. Dentro de poucos dias depois dos atentados em Nova York, publicações em sites na Internet atribuíam os ataques aos Illuminati, traçavam paralelos entre as Torres Gêmeas e as colunas maçônicas Jaquim e Boaz, e utilizavam numerologia espúrias para sugerir o envolvimento maçônico nos ataques. Isto é deplorável, mas talvez não seja surpreendente.

Mais significativo para o longo prazo é a maneira em que os ataques à Maçonaria fazem parte das denúncia muçulmanas extremas de valores ocidentais. Houve uma longa história de grupos árabes circulando libelos desacreditados dos Protocolos dos Sábios de Sião. Nos últimos anos, entretanto, alguns muçulmanos, com base na literatura antimaçônica ocidental, vêm ligando a Maçonaria à figura do Dajjal, o anticristo. Essas ideias foram inicialmente desenvolvidos em 1987 pelo escritor egípcio, Sa’id Ayyub. Na Inglaterra, uma figura-chave na elaboração e popularização dessas ideias foi David Musa Pidcock, um consultor de máquinas Sheffield, que se tornou muçulmano em 1975 e é o líder do Partido Islâmico da Grã-Bretanha. A ideia de que os maçons adoram o Dajjal tem se tornado comum em comunidades muçulmanas na Inglaterra e em outros lugares. Nos últimos meses, sites islâmicos publicaram análises entusiasmadas de uma fita de áudio chamada Shadows, produzida por uma companhia de Londres, Hallaqah Media, que argumenta que os maçons criaram uma nova ordem mundial e são os servos do Dajjal. Se estamos no início de uma luta para proteger e reafirmar os valores seculares do Iluminismo, é inevitável que o estudo da Maçonaria, muito ligada à criação desses valores, assumirá nova relevância.

Autor: Andrew Prescott
Tradução: José Filardo

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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