René Guénon e a Maçonaria (Parte III)

Estas sucintas indicações a respeito do rito e da Loja Maçônica queremos pensar que serviram pelo menos para formar-nos uma ideia de por que Guénon considerava a Maçonaria como uma organização iniciática que continua conservando os elementos simbólicos necessários para transmitir uma influência espiritual, cujo desenvolvimento no interior do ser conduz ao conhecimento da Cosmogonia e dele mesmo como integrado dentro dela, e a partir daí atingir o estado não-condicionado da Unidade metafísica, que por ser tal está “além” (por dizê-lo de alguma maneira) do domínio cósmico e individual.

Mas até agora mal falamos de sua estrutura iniciática segundo os ensinos que a este respeito nos transmite a obra guenoniana. Para Guénon, repetiu-o muitas vezes, a Maçonaria propriamente dita é a dos três primeiros graus: aprendiz, companheiro e mestre, que são os que estão diretamente relacionados com a iniciação de ofício. A efetiva realização destes graus (dos ensinos que contêm) conduz ao cumprimento dos “pequenos mistérios”, que são os mistérios da Cosmogonia e do homem, e cujo conhecimento é plenamente atualizado no grau de mestre “já que a realização completa deste implica a restauração do estado primordial”, ao que conduzem precisamente os “pequenos mistérios”[18].

No que se diz respeito aos chamados “altos graus”, Guénon distingue “de uma parte, aqueles graus que têm um laço direto com a Maçonaria, e, de outra, aqueles graus que podem ser considerados como representando vestígios ou recordações, vindos a se injetarem na Maçonaria, ou a ‘cristalizar-se’ de alguma maneira em torno dela, de antigas organizações iniciáticas diferentes da Maçonaria”. Essas organizações iniciáticas às quais se refere Guénon são especialmente a Ordem do Templo e a Ordem hermético-cristã da Rosa-Cruz, parte de cuja herança simbólica tem “cristalizado” efetivamente em vários altos graus maçônicos, sobretudo nos pertencentes à Maçonaria Escocesa. Com respeito a esses altos graus, Guénon assinala que “teria muito que dizer sobre este papel ‘conservador’ da Maçonaria, e sobre a possibilidade que este papel lhe dá de suprir numa verdadeira medida a ausência de iniciações de outra ordem no mundo ocidental atual”. Isto é muito importante, por diversas razões, entre elas porque desautoriza completamente e nega qualquer valor real a essas organizações pseudo-iniciáticas que hoje em dia se dizem templárias ou rosacrucianas. Mas, sobretudo porque essa função conservadora e receptiva a converte numa espécie de “arca” que concentrou em seu seio a herança tradicional de Ocidente, o que foi possível, entre outras coisas, porque a Maçonaria não tem uma forma religiosa que pudesse derivar por degradação num dogmatismo excludente, senão que ao ser uma organização iniciática está, por isso mesmo, aberta a quantas doutrinas tradicionais, de caráter igualmente iniciático, entraram ou pudessem entrar em contato com ela. Nos tempos que estamos vivendo, onde numerosos signos anunciam o final de um ciclo, esse papel conservador da Ordem Maçônica não deixa de ter sem dúvida alguma sua importância e sua transcendência[19].

Por conseguinte, é na Maçonaria atual, e em alguns de seus altos graus concretamente, onde se depositou o que se pôde conservar da Ordem do Templo e da Rosa-Cruz. Que estas tenham desaparecido como formas iniciáticas, não quer dizer que seu espírito não tenha permanecido de alguma maneira latente e em estado germinal, e se é assim, é na Maçonaria onde se lhe poderia achar. Enfim, é este um tema muito interessante, mas que logicamente não podemos desenvolver neste momento. Remetemo-nos, isso sim, a vários estudos que Guénon escreveu inteiramente, ou em parte, sobre o tema, a saber: “Os altos graus maçônicos”, “Palavra perdida e nomes substituídos” e “Heredom“, todos eles incluídos no volume II de Etudes sul a Franc-Maçonnerie et lhe Compagnonnage; em Initiation et Réalisation Spirituelle, ver o capítulo titulado “Realização descendente e ascendente”; em Aperçus sul L’Initiation, o que leva por nome “Sobre duas divisas iniciáticas”; em Símbolos Fundamentais…, “A saída da caverna cósmica”; bem como alguns capítulos do esoterismo de Dante.

Entre os altos graus que, como diz Guénon, têm um laço direto com a Maçonaria de ofício ele esteve particularmente interessado no do Royal Arch (ou Arco Real), pertencente ao Rito inglês [20]. Deste grau nos diz que “é como o nec plus ultra da iniciação Maçônica… o único que deve ser tomado como estritamente maçônico propriamente falando, e onde a origem operativa não oferece nenhuma dúvida: é, de qualquer forma, o complemento normal do grau de Mestre, com uma perspectiva aberta sobre os ‘grandes mistérios'”, ou seja sobre o supra cósmico e o metafísico. Daí que, como menciona Guénon na Grande Trindade (outra de suas obras em que se fazem numerosas referências ao simbolismo maçônico, e também hermético-alquímico, em correspondência com a Cosmogonia extremo-oriental), na Maçonaria anglo-saxônica se faça uma distinção entre o que se denomina a “Square Masonry” (a Maçonaria do Esquadro) e a “Arch Masonry” (a Maçonaria do Arco). O Esquadro e o arco se relacionam evidentemente com as figuras geométricas do quadrado e do círculo, e ambas são os símbolos respectivos da Terra e do Céu, representados precisamente na Maçonaria pelo esquadro e o compasso, seus dois emblemas talvez mais característicos.

O esquadro e o compasso se referem aos mistérios da Cosmogonia, que são os mistérios da Terra e do Céu, e também do homem como síntese nascida da união entre ambos. Mas no simbolismo maçônico, o esquadro, que serve para traçar figuras retilíneas, e portanto vinculadas ao terrestre, está posto em relação com os três primeiros graus (os que conformam a “Square Masonry”), enquanto o compasso, que serve a sua vez para traçar as figuras circulares, e, por conseguinte vinculadas ao celeste, está mais bem em relação com a Maçonaria do Arco, e nos graus de outros Ritos maçônicos de alguma maneira semelhantes a ela. O esquadro está diretamente ligado à construção e à obra da Cosmogonia, na que também intervem a perpendicular (ou prumo) e o nível. Esta é a razão de que o distintivo do Venerável de uma Loja (chamado nos antigos rituais o “Mestre da Loja”, porque ele é o representante de dito grau tanto numa Loja que trabalha em grau de aprendiz como de companheiro) seja um esquadro, que é a união precisamente da perpendicular e do nível, isto é da vertical e a horizontal, cuja interação geram permanentemente a vida universal. No entanto o compasso está mais bem vinculado com o “acabamento” e “perfeição” de dita obra, perfeição que desde depois já está implícita no grau de mestre, mas que adquire seu desenvolvimento completo no grau complementar do Royal Arch. Neste sentido, e como diz Guénon, “se o grau de Mestre fora mais explícito, e também se todos aqueles que são admitidos estivessem verdadeiramente qualificados, é em seu interior mesmo que estes desenvolvimentos deveriam encontrar seu lugar, sem que sejam necessários outros graus nominalmente diferentes daquele”. Que esses outros graus sejam necessários hoje em dia para complementar todo o ensino iniciático contido no grau de mestre, em nada diminui o significado simbólico do que este grau no fundo representa, que é, como antes dissemos, a restauração do estado primordial, ou do “homem verdadeiro” como se diz no Taoísmo, o qual não é senão o reflexo do “homem transcendente”, isto é, do próprio Grande Arquiteto do Universo. Tenhamos em conta que a restauração desse estado é ao mesmo tempo a recuperação da “Palavra perdida”, que é o fim que persegue todo o trabalho maçônico, e que essa recuperação não é outra coisa que restabelecer a comunicação com o “Centro Supremo” ou a Tradição primordial, “porque esta Tradição não é senão una com o próprio conhecimento, que está implicado na posse deste estado”[21]. Talvez tudo isto o vejamos com maior clareza se o transladarmos ao simbolismo construtivo, que é o modelo do qiual a iniciação Maçônica extrai o essencial de seu ensino. E para fazê-lo nada melhor do que ir àqueles artigos dos Símbolos Fundamentais da Ciência Sagrada que foram reunidos sob o título geral de “Simbolismo construtivo”, e desses artigos concretamente os que levam por título “O simbolismo da cúpula” e “A pedra angular”, já que neles se assinalam certos aspectos simbólicos do ritual de Royal Arch.

Por certo, é chegando ao grau de mestre, que no simbolismo construtivo se corresponde com a pedra fundamental situada no centro mesmo do plano quadrangular do templo (quadrilongo que simboliza a Terra), que se produz a passagem da “esquadro ao compasso”, ou do “quadrado ao círculo”, isto é, da Terra ao Céu, o qual está representado pela cúpula semi-esférica[22], situada logicamente na parte superior do edifício, em cuja sumidade se encontra a “clave de abóbada”, sobre a que se dispõe a pedra angular. Esta, devido a sua forma, não acha sua localização no templo até que se finalize a construção mesma, e que a pedra angular literalmente “coroa” ao situar-se em seu ápice ou ponto mais alto, ou seja, em seu zênite. A pedra angular é, como diz Guénon, o símbolo da Unidade metafísica, da qual toda a construção depende e da qual não é senão um reflexo, como o é a própria manifestação universal do Princípio in-manifestado. Dessa clave de abóbada parte um eixo ou pilar invisível para o centro mesmo do templo, onde se encontra a pedra fundamental (que corresponde ao altar na simbólica cristã), a qual aparece, em efeito, como o reflexo da pedra cimeira, projetando-se a sua vez nas quatro pedras situadas em cada um dos ângulos da base, as que “sustentam” e sobre as que se apóia toda a construção. Esta se levanta toda inteira ao redor desse eixo, que é verdadeiramente o símbolo do Eixo do Mundo, e é ele o que possibilita que uma vez chegado ao centro ou altar se produza essa passagem ou “exaltação” (assim se chama exatamente a cerimônia de admissão ao grau de Royal Arch) que conduz até a clave de abóbada, que como seu próprio nome indica é uma “clave” ou “chave” que abre a “porta estreita” por onde se produz a saída definitiva da construção cósmica, para os estados supra-individuais e metafísicos, e com eles à Identidade Suprema e à Libertação, objetivo, se assim pudesse dizer-se, de todo o processo iniciático.

FINIS

Autor: Francisco Ariza
Tradução: Igor Silva

Notas

[18] – Uma das figuras mais representativas da estrutura simbólica dos três graus iniciáticos da Maçonaria, ou de qualquer outra tradição, é a do “tríplice recinto druídico”, ao que Guénon dedica um estudo no cap. X dos Símbolos Fundamentais da Ciência Sagrada. Ali se diz que “o sentido das quatro retas dispostas em forma de cruz que vinculam entre si os três recintos se faz imediatamente bem claro: são por certo canais, por meio dos quais o ensino da doutrina tradicional se comunica de cima a baixo, a partir do grau supremo que é seu depositário, e se reparte hierarquicamente aos demais graus”. Está claro que esses três recintos se correspondem perfeitamente, de ad intra a ad extra, com as três Câmaras Maçônicas de mestre, companheiro e aprendiz, respectivamente.

[19] – Sobre tudo isso conferir a obra de Denys Roman, René Guénon et lhes destins da Franc-Maçonnerie, Edit. Lhes Editions de L’Oeuvre. Também, e no que se refere ao simbolismo maçônico em general, conferir as obras Simbolismo Maçônico e Tradição Cristã, de Jean Tourniac (Edit. Dervy-Livres), Os Números na Tradição Pitagórico-Maçônica, de Arturo Reghini (Edit. Arché, Milano). Na atualidade, e em contraste com a época de Guénon, existem numerosos autores que abordam o simbolismo maçônico desde uma perspectiva tradicional, e pensamos que isso é devido, em grande parte, à influência da obra guenoniana.

[20] – Este grau é quiçá o que conservou com mais pureza a herança do esoterismo judeu-cristão na Maçonaria. Seu nome completo é “Santo e Real Arco de Jerusalém”, e seu simbolismo gira em torno precisamente ao Templo de Jerusalém ou de Salomão, que ainda que está presente em todos os graus maçônicos, é neste, e o equivalente a ele nos altos graus de outros Ritos, onde se revela sua significação profunda. Assim o atestam os símbolos distintivos deste grau, nos que aparece um círculo, dentro do qual se inscreve um triângulo, em cujo interior aparece a “Triplo Tau” (em alusão aos três templos, que em realidade são um só: o de Salomão, o reconstruído por Zorobabel e aquele “que não é feito por mãos de homem”, ou seja Cristo mesmo), mas disposta de tal maneira que aparecem as iniciais de Templum Hierosolimitano, o Templo de Salomão.

[21] – “Palavra perdida e nomes substituídos”. Por isso uma Loja que trabalha em grau de mestre se denomine precisamente a “Câmara do Meio”, pois ela é como uma imagem do Centro ou Coração do Mundo.

[22] – O templo cristão tem normalmente a forma de uma cruz latina, realizada pelas seis caras de um cubo rebatidas sobre o plano da base. Guénon diz em “O simbolismo da cúpula”, que este ponto está expressamente indicado no simbolismo do Royal Arch, e adiciona que “a face da base, que naturalmente permanece em sua posição primitiva, corresponde então à parte central por cima da qual se eleva a cúpula”.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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