A Jornada dos Trabalhos e Zoroastro

Deus está sempre à tua porta, na pessoa dos teus irmãos de todo o mundo.– Zoroastro

Na abertura e também no encerramento dos trabalhos maçônicos figuram curiosas perguntas acerca da jornada de trabalho dos Maçons. A resposta é que tais trabalhos se iniciam ao Meio-Dia e se findam a Meia-Noite. Mas que mistério encerra trabalhar do Meio-Dia à Meia-Noite? A Tradição Maçônica usualmente afere tal hábito a Zaratustra, fundador e iniciador da religião persa do Zoroastrismo.

ZOROASTRO

Por volta de 700 a.C. teria nascido numa vila nas estepes da Ásia Central, atual Irã, perto do Mar de Arai, um menino. Seus pais decidiram dar-lhe o nome de Zaratustra (ou Zoroastro, versão grega de seu nome, como é mais conhecido). Ao nascer, segundo a tradição, Zoroastro não teria chorado, pelo contrário, teria rido sonoramente.

Na vila, entretanto, havia um sacerdote que teria percebido de imediato, que aquela criança era distinta e, portanto, poderia vir a se tornar uma ameaça a aqueles que dominavam as crenças do povo. Dessa forma, ele, então, decidiu reagir e procurou Pourushaspa, o pai de Zoroastro, afirmando que seu filho era um mau presságio para sua vila porque havia rido ao nascer e que, além disso, que ele teria em si um demônio. Tal sacerdote então teria ordenado a Pourushaspa a matar seu filho[1] ou os deuses iriam destruir suas criações e plantações.

Pourushaspa não queria ferir seu filho, mas o sacerdote insistiu e impôs uma prova. Na manhã seguinte, Pourushaspa faria uma grande fogueira colocando Zoroastro no meio do fogo, mas a criança acabaria por não sofrer dano algum.

O sacerdote então demandou que Zoroastro fosse levado para um vale estreito e colocado no caminho de uma manada de mil cabeças de gado, a fim de ser pisoteado. O primeiro boi da manada percebeu a criança e ficou parado sobre ela, protegendo-a, enquanto o resto passava ao seu lado, e a criança novamente não teria sofrido dano algum.

Zoroastro por fim teria sido colocado na toca de uma loba que, ao invés de devorá-lo, cuidou dele até que Dugdav, sua mãe, viesse buscá-lo. Diante de tantos prodígios o sacerdote ficou humilhado e exilou-se da vila.

A partir de então vivendo uma vida voltada para a meditação Zoroastro passou a viver isolado, habitando no alto de uma montanha, em cavernas sagradas[2]. Já com a idade de trinta anos recebeu a revelação divina por meio de visões.

Assim, Zoroastro começou a missão de divulgar as suas ideias. Entretanto, ele encontrou dificuldade para converter as pessoas à sua nova fé que diferia em muito daquelas então praticadas. Aos 40 anos, Zoroastro conseguiria converter o rei Vishtaspa, que o passaria a respeitá-lo e ouvi-lo após ter sido o único, entre todos do reino, a conseguir curar o seu corcel que tinha sido envenenado, tornando-se um fervoroso seguidor.

Dessa forma, Zoroastro iniciou a difusão de seus ensinamentos que pretendiam, de maneira geral, reformar e sistematizar o antigo e tradicional politeísmo persa, dando-lhe uma base ética e moral. Além disso, Zoroastro buscava a reforma das condições sociais que prevaleciam na época. Assim sendo, denunciou a desorganização do nomadismo e lutou pela fixação do homem a terra, introduzindo a prática da agricultura e outras técnicas.

A religião que Zoroastro pregou espalhou-se por todo atual Irã e por outros países, e influenciou o desenvolvimento posterior do Judaísmo, do Cristianismo e do Islamismo. Segundo a tradição, Zoroastro teria morrido aos 77 anos assassinado[3] enquanto rezava no templo, diante do fogo sagrado.

DO ZÊNITE AO NADIR

O prolifico escritor maçom J.M. Ragon afirma que “A Maçonaria é como a fé de Zoroastro” reforçando ainda mais os encontros entre Zoroastro e a Tradição Maçônica, e discorrendo ainda mais:

“A explicação corrente, apenas aceitável para um homem que tem espírito crítico, é que o homem aprende durante a primeira parte de sua vida e é somente quando chega ao meio-dia de sua existência que ele se torna útil à comunidade. Mas então, meia-noite corresponde à morte, as horas antes do meio-dia são visivelmente mais fecundas e úteis que os anos enfraquecidos da velhice.

Astrologia traz uma significação muito mais profunda a esta fórmula. Sabe-se que por analogia com a divisão do ano em doze meses ou signos, a Astrologia divide o dia em doze casas […], possuindo cada uma o seu caráter nitidamente determinado. Neste sistema, meio-dia corresponde à casa X, o pôr do sol à VII e meia-noite à VI.

Ao meio-dia, o Sol sai da X casa horoscópica, a dos negócios e da situação social, para voltar a entrar na IX, a da religião e do impulso espiritual. O homem, portanto, despe-se das coisas exteriores para voltar-se para o interior de si mesmo, para um mundo sutil e não material. A X casa é a dos negócios e das distinções sociais que é preciso abandonar ao serem abertos os trabalhos de caráter filosófico, caráter que é da própria essência da IX casa.

Depois da IX, o Sol atravessa a VIII casa, a da morte, da desagregação do antigo e do nascimento sobre um plano superior. Vários astrólogos deram a esta parte do céu (e só esta parte) o sentido da Iniciação. Depois vem a VII casa, a do amor não físico, da dedicação e da vida social. Nascido num plano novo, o Maçom traz aqui o seu óbolo à Sociedade, tanto mais que a VI, que é a casa horoscópica seguinte, é a do serviço. Pode-se interpretar também esta passagem da VII à VI casa horoscópica como indício de que o Maçom não espera recompensa de sua ação social, mas que se prepara, ao contrário, para encontrar os espinhos da VI casa. O que quer que seja, deste serviço nasce a criação, que é a síntese da V casa depois da qual o ciclo termina pela IV, cujo sentido principal é o fim das coisas.

Portanto, esta curta fórmula, ritualística já oferece o resumo da evolução iniciática, sem falar de cada parte do dia, que possui uma influência real, mas ainda pouco conhecida pela nossa ciência, pois esta influência começa apenas a ser estudada pela astrofísica. Os longínquos criadores do nosso ritual tomavam certamente em consideração esta variação do influxo cósmico no decorrer do dia, de maneira que as horas do trabalho maçônico tinham somente o significado esotérico que acabamos de indicar, mais também constituíam a prova consciente das forças cósmicas em vista da iniciação.”

Outras alusões dão conta que o Meio-Dia é à hora em que o Sol se encontra no zênite, no pico de sua elevação, antes de desbancar para o poente. Simbolicamente, a hora em que começam os trabalhos na Oficina Maçônica. Outra, é que a contagem temporal entre determinados povos antigos era diferente, onde o dia era dividido em 2 partes de 12 horas cada e se iniciaria na noite do dia anterior, assim o Meio-Dia seria equivalente às 6 horas, ou seja, ou trabalhos maçônicos se dariam nas 12 horas as quais o sol opera. Tal medição de tempo teria sido posteriormente adotada pelas agremiações de pedreiros na Idade Média.

Com efeito, nos tempos antigos, quando as artes e ciências não possuíam um caráter laico e estavam intimamente (chegando a confundir-se) associadas às escolas de mistérios e religiões, a astrologia/astronomia foi elemento preponderante para os primitivos Maçons Operativos.

As primeiras construções quais não possuíam apenas função de abrigo/defesa eram destinadas a prática religiosa que por sua vês estavam imbricadas de fatores astronômico-astrológicos. Afinal, os astros eram a única forma de medir o tempo, e a mediação do tempo era essencial à perpetuação da humanidade, principalmente em tempos longevos quando o ambiente era hostil em relação a ainda frágil cultura humana.

Dada a importância da mecânica celeste para os antigos construtores, o Sol como maior luminar do firmamento e regente das estações certamente assumiria papel central entre estes. O Sol passava a figurar como o maior símbolo da Lei Divina, afinal, era o motriz do firmamento e das evoluções do tempo. Os antigos iniciados passaram a decodificar o comportamento dos astros em princípios para o comportamento humano, e Zoroastro em suas meditações encontrava-se dentre tal grupo.

A ALTÍSSIMA MORADA

Zoroastro como outros iniciadores das antigas escolas de mistérios, compreendiam os céus como a morada da divina, como fica explicitado no verso[4] abaixo:

“A recompensa que Zoroastro prometeu aos Magos[5] e a todos os seguidores desta crença é Garo-Nemana ou a Casa dos Hinos e Louvor, o Paraíso. Esta morada tem sido a Casa nas Alturas aonde Ahura Mazda mora por toda a Eternidade. Esta recompensa que é uma dádiva divina que apenas se pode obter mediante os pensamentos puros e a verdade, isso eu lhes prometo.”

Essa compreensão que os céus eram a morada do divino por vezes era tanto metafórica quanto literal, o que voltava parte dos estudos iniciáticos a observação (e registro) do firmamento, e esse fato permeia a obra de Zoroastro[6]:

Tais pessoas denunciam como o maior dos pecados contemplar o sol e a terra com respeito, ainda assim subvertem os ensinamentos sagrados. Eles convertem aos de mente pura em seguidores da falsidade, destroem a vegetação e se utilizam armas contra a gente honrada.”

Neste verso fica a interpretação que a contemplação das evoluções do sol e da terra permite a seu observador conclusões morais, como o respeito aos ensinamentos sagrados, ao meio ambiente e as pessoas honradas.

OH Ahura Mazda, Zarathushtra escolheu para si mesmo a pura sabedoria como seu guia. Que a verdade e a honradez fortaleçam nossas vidas materiais. Que o poder espiritual junto com a fé e o amor iluminem nossos corações como resplandecentes raios de sol. Concede recompensa, OH meu Senhor, às pessoas que fazem suas ações seguindo uma mente pura e a sabedoria.

Aquele que sempre pensa em sua própria segurança e benefício, como pode amar a Mãe Terra que nos provém felicidade? O homem honrado que segue a Lei de Asha viverá aonde Teu Sol é resplandecente, a morada aonde vivem os sábios.

As ações que tenho realizado no passado e aquelas que serão realizadas no futuro, que sejam todas dignas ante Ti. O brilho do sol e os resplandecentes amanheceres de cada dia refletem Tua Glória de acordo com Asha, OH Mazda Ahura.

Outra alusão usualmente empregada pelas Tradições Maçônicas, o sol como agente iluminador, tanto no sentido físico quanto intelectual (as ciências que como o sol vieram do Oriente ao Ocidente) e espiritual. A luz assume ao clarear os olhos e liberar as vistas o viés do conhecimento, que ilumina o coração do iniciado.

Isto Te peço, OH Ahura e desejo que me diga em verdade. Qual poder mantém a terra e os céus apartados e previne que estes últimos se precipitem?

Isto Te peço, OH Ahura e desejo que me diga em verdade. Quem foi o Criador e Pai Primevo da Verdade? Quem determina o percurso do sol e das estrelas? Quem faz à lua crescer e minguar a seu tempo?Tudo isto e além de muitas outras coisas desejo conhecer, OH Mazda.

Quem é o Criador das águas e das plantas? Quem lhe proporciona velocidade ao vento e faz pairar desde longe as nuvens escuras e saturadas de chuva? Quem é o Criador que inspira Vohuman, OH Mazda?

Zoroastro deixa explícito seu anseio de conhecer os princípios da mecânica e estrutura celeste, suas órbitas, fases e também quanto aos eventos atmosféricos dos céus, suas correntes e climas. Tal conhecimento principiaria da Verdade Primeira e poderia fazer retornar a ela.

VOHUMAN E ASHA

A influência zoroastriana nas Tradições Maçônicas tem a astronomia/astrologia como princípio, mas não como fim. Essas correntes se cruzam em mais de uma instância, e a principal delas é a moral. Como os egípcios (e sua Ma’at), Zoroastro entendia que os aspectos por qual a Divindade se manifesta a humanidade devem ser alcançados através dos Bons Pensamentos (Vohuman) e da Verdade (Asha), ideal que coaduna plenamente como a moral maçônica.

A influência da obra deste iniciador da Antiguidade pode ser sentida não apenas nos anais da Maçonaria, mas também nas grandes crenças que vieram após esse período. Elementos como uma divindade una e suprema, a salvação pela virtude, a punição pelas faltas cometidas, uma vida futura (post-mortem), o paraíso celestial (e o inferno), o dia do julgamento, a vinda de um salvador etc. já estavam ali presentes antes do Judaísmo, do Cristianismo e do Islamismo os apresentarem.

O bem e o mal existem antes de tudo dentro do próprio ser, e estão sempre em conflito. Como o homem conduz seus pensamentos, palavras e ações são o que definirá qual lado será triunfante. Entretanto, para que o bem triunfe, não basta o progresso unicamente pessoal, se faz necessário que o homem trabalhe em função da conservação e avanço do sagrado, do mundano e da humanidade em si, combatendo todas as formas na qual o mal se manifeste. Ou seja, se faz necessário levantar Templos a Virtude e Masmorras ao Vício…

Autor: Tiago Roblêdo

Fonte: Pedra Oculta

Notas

[1] – Aqui não se poderia deixar de mencionar a alusão à outra alegoria empregada pela Tradição Maçônica, o sacrifício de Isaac por seu pai Abraão pelo mesmo motivo: Oferecer sua progênie em sacrifício para aplacar uma demanda divina.

[2] – Para certos povos da Antiguidade, as cavernas eram os mais altos Templos, pois seriam habitações “erigidas” de forma natural, ou seja, pela arquitetação Divina.

[3] – Aqui uma similitude mais pungente com a Tradição Maçônica, especificamente com a própria Lenda do Assassinado de Hiram Abiff. Tanto Hiram quanto Zoroastro teriam sido assassinado por traição de seus pares em um Templo.

[4] – Para a melhor análise do tema, demandou-se uma tradução do texto zoroastriano denominado “Os Gathas”, cuja tradução e adaptação integral encontram-se apensada a este trabalho.

[5] – Outra paridade entre as Tradições Maçônicas e Zoroastrianas, Zoroastro, assim como os Maçons, também operava em uma fraternidade ou irmandade, denominada “A Irmandade dos Magos” ou “A Assembleia dos Magos”. O termo “Mago” ou “Magi” (plural do termo persa magus, significando tanto “imagem” quanto “[homem] sábio”, do verbo cuja raiz é meh, “grande”) é um termo usado desde o século IV a.C. para denotar um seguidor de Zoroastro. O termo ainda denominaria um seguidor do que a civilização helenista associava com o Zoroastro, o que, em suma, era a habilidade de ler as estrelas e manipular o destino que elas previam.

[6] – Que como citado anteriormente era iniciado e iniciador na astronomia, além disso,  outra evidência está na forte associação dos seus seguidores (os magos) com a observação celeste.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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