Porque Lincoln não foi Maçom

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I – Introdução

Apesar de possuir um perfil delineado pelas qualidades próprias dos  maçons, Lincoln jamais foi iniciado na Arte Real. O presente artigo busca refletir sobre as razões por que o eminente estadista não ingressou na maçonaria. Baseia-se num artigo de Paul M. Bessel sobre “Lincoln e a Maçonaria” (Abraham Lincoln and Freemansonry) publicado em setembro de 1994.

II – Um Pouco de História Profana

Lincoln nasceu em 12 de fevereiro de 1809 numa cabana de madeira, em Hodgenville, no Estado de Kentucky. Morreu, em Washington, em 15 de abril de 1865 como 16º presidente dos Estados Unidos da América. Era filho de Thomas, um carpinteiro e pequeno fazendeiro e Nancy Hanks Lincoln. Seus pais eram membros de uma congregação batista que se separou de uma outra igreja por manter uma oposição mais rígida em relação à escravidão.

Quando Lincoln completou 7 anos, sua família mudou-se para o sul de Indiana. Lá, sua mãe faleceu em 1818. Seu pai casou-se no ano seguinte e Lincoln se deu muito bem com sua madrasta: Sarah Bush Johnston Lincoln. Ela deu mais três filhos ao pai de Lincoln.

Durante seu crescimento, Lincoln adorava ler e preferia a leitura a trabalhar na fazenda. Tal fato criou uma certa animosidade com seu pai, pois, além de tudo Lincoln vivia pedindo livros emprestados aos vizinhos.

Em 1830, os Lincolns mudaram-se para o oeste de Illinois e Lincoln se fixou posteriormente em New Salem onde viveu até 1837. Naquela cidade,  trabalhou em diversos empregos, tais como balconista, agrimensor e gerente dos Correios. Conseguia impressionar os habitantes de New Salem devido ao  seu caráter pacificador, capaz de amansar os briguentos da cidade. Ganhou, por isso, o apelido de “Honesto Abe”. Era altíssimo e magérrimo. Tentou ser deputado estadual em 1832, não obtendo sucesso. Logrou êxito, posteriormente, pois elegeu-se quatro vezes sucessivas, em 1834, 1836, 1838 e 1840. Era membro do partido Whig até 1856 quando então se tornou Republicano. Como se sabe, o Partido Whig foi formado nos Estados Unidos na década de trinta no século XIX como oposição ao Presidente Andrew Jackson e ao Partido Democrata. Os grupos anti-jacksonianos tomaram o epíteto das duas revoluções: a americana e a inglesa do século XVII. Em ambos os casos, a oposição ao rei se apelidava de Whig. Agora, o tirano era o ‘rei’ Andrew Jackson. O termo Whig era de uso comum em 1834 e persistiu até a desintegração do partido após a eleição presidencial de 1856, quando começou a nascer o seu sucedâneo: o Partido Republicano. O Partido Whig foi o grande responsável pela elaboração do Sistema de Economia Política Norte-Americano em que o Estado opera fortemente o crédito e cria barreiras alfandegárias para impulsionar o desenvolvimento econômico da nação. Posteriormente, foi suplantado pelo sistema inglês de livre-comércio.

Lincoln estudava leis durante todo seu tempo livre e formou-se em advocacia em 1836. Em Springfield, em 1839, Lincoln conheceu Mary Todd. Casaram-se três anos depois em 1842. Conceberam quatro filhos: Robert, Edward, William e Thomas. Verdadeiramente autodidata, Lincoln tornou-se um advogado bem sucedido a partir de 1844.

Após disputar uma cadeira para a Câmara dos Deputados e ganhar em 1846, tornou-se, em Washington, um acirrado opositor à Guerra contra o México e ferrenho anti-escravagista. No final do mandato, retornou à sua cidade e reassumiu a sua prática advocatícia com êxito cada vez maior. Nos primórdios de 1851, faleceu-lhe o pai. Tentou sair candidato ao Senado e disputou a nomeação como candidato republicano à Vice-Presidência da República em 1856. Em 16 de junho de 1858, pronunciou o seu famoso discurso “Casa Dividida”. Manteve, nessa época, uma acirrada polêmica com Stephen A. Douglas no intuito de tomar-lhe a lugar de Senador da República. Embora derrotado nessa empreitada, ficou conhecido nacionalmente. Preparou, então, sua candidatura vitoriosa à Presidência em 1860. Lincoln mostrava-se contra à propagação da escravatura nos novos Territórios, não era, todavia, um abolicionista declarado.

Ainda que fosse William Seward, o candidato preferido da pré-convenção do Partido Republicano, Lincoln ganhou no terceiro escrutínio e foi eleito o 16º Presidente americano em 6 de novembro de 1860. Em fevereiro de 1861, desembarcou em Washington, portando uma barba sugerida por uma menina de 11 anos. Seu juramento de posse ocorreu em 4 de março.

Após a eleição, muitos Estados do Sul, temendo um controle Republicano, declararam-se em secessão contra a União. Estava aberta a maior crise – política, militar e civil – que um presidente americano já enfrentou. Com a queda de Forte Sumter, Lincoln armou um exército e decidiu lutar para salvar a União de uma desintegração. A despeito das pressões hercúleas, perdas de vidas, fracassos em batalhas, generais incompetentes para a arte da guerra, ameaças de assassinatos etc., Lincoln aguentou firme o leme do Estado numa época de plena Guerra Civil. Demonstrando seu pulso, em janeiro de 1863, firmou a Proclamação de Emancipação, declarando livres todos os escravos nas áreas da Confederação do Sul, fora ainda do controle da União. Em 16 de novembro de 1863, pronunciou o seu imortal Discurso de Gettysburg, que, em pleno campo de batalha, foi dedicado aos soldados mortos. Conclamava os vivos a terminarem a missão iniciada pelos soldados agora mortos tinham iniciado.

Lincoln, assim como F. D. Roosevelt posteriormente, voltou-se, com unhas e dentes, para o Sistema Americano de Economia Política, ou seja, estabeleceu as Lei do Banco Nacional, assinou tarifa de proteção à indústria estadunidense e assinou a lei que dava a concessão para a primeira estrada de ferro transcontinental nos EUA.

Em 1864, o General Ulysses S. Grant foi nomeado comandante-chefe do Exército da União. Lincoln reelegeu-se presidente em 8 de novembro. Em 9 de abril de 1865, o General sulista Robert E. Lee rendeu-se a Grant. Dois dias depois, Lincoln pronunciou um discurso para um público postado defronte à Casa Branca e, entre outras coisas ditas, sugeriu que poderia apoiar o direito de voto a certos negros. Isto enfureceu o racista e simpatizante do Sul, presente à audiência: o ator John Wilkes Booth que mantinha um ódio visceral a Lincoln. Assim, na sexta-feira Santa de 1865, precisamente no dia 14 de abril, enquanto Lincoln assistia à peça Nosso Primo Americano no Teatro Ford, Booth penetrou no Camarote Presidencial e atirou, pelas costas, na cabeça do Presidente, às 22:15h. O presidente moribundo foi levado à Casa Petersen onde faleceu, no dia seguinte, às 7:22h da manhã. Foi o primeiro assassinato presidencial da História dos EUA. O corpo de Lincoln fez um périplo por trem por todo o país. Terminou em Springfield e está enterrado na Tumba de Lincoln no Cemitério de Oak Ridge desde 4 de maio de 1865.

III – Lincoln e a Arte Real

A relação de Lincoln com a maçonaria era de respeito e acenava sempre com o desejo de ingressar na Ordem algum dia. Tanto assim que a Grande Loja de Illinois, durante a campanha presidencial de 1860, tentou chamar Lincoln para aderir à maçonaria e a sua resposta foi a seguinte:

“Senhores, sempre tive um profundo respeito pela  fraternidade maçônica e há longo tempo sempre aspirei ao desejo de ingressar na Ordem.”

Quando um maçom comentou com Lincoln, numa conversação durante a campanha, que todos os seus oponentes eram maçons, especialmente Stephen A. Douglas, um antigo membro em Springfield, sua terra natal e que, no entanto, ele não era, respondeu-lhe ele simplesmente:

“Eu não sou maçom, Dr. Morris, embora tenha um profundo respeito pela instituição.”

Após a morte de Lincoln, o Grão-Mestre do Distrito de Colúmbia, que dele tinha sido um grande amigo, escreveu:

“Disse-me uma vez quão profundo era seu respeito pela nossa Ordem e que uma vez quase mudou seu comportamento para ingressar na Fraternidade.”

Uma outra razão para Lincoln ter um respeito pela maçonaria era a coincidência de ambas as crenças: ser um cidadão que mantenha uma religiosidade particular, que acredite num Ser Supremo, ao mesmo tempo que defenda, com unhas e dentes, a liberdade religiosa e de consciência para todos os membros da sociedade.

Outra aspiração compartilhada era o eterno desejo maçônico de  “melhorar homens bons” e o desejo de Lincoln de ver como cada indivíduo poderia avançar e progredir na vida tanto quanto possível.

Em suma, a aspiração do credo norte-americano na iniciativa individual, na liberdade e na igualdade perante a lei, conceito formado pela maçonaria dos Pais Fundadores da Nação, era também a crença enraizada em Lincoln. Tanto assim que ele foi às últimas conseqüências no tocante à abolição da escravatura, fato tabu para os maçons sulistas dos Estados Unidos que eram, e ainda muitos o são, extremamente racistas. Ou seja, Lincoln foi muito mais igualitarista do que muitos maçons de sua época e, por que não dizer, até mesmo de hoje em dia?

Existem, ainda, razões profanas para pensar que Lincoln deveria ser maçom. A maçonaria e outras organizações semelhantes são locais típicos também para políticos que buscam ser conhecidos e obter suporte para suas teses. Lincoln sempre foi um dos políticos mais ambiciosos de sua época e poderia perfeitamente beneficiar-se com as conexões que o seu ingresso na maçonaria poderia proporcionar. Lincoln também exercia uma ativa e trabalhosa prática forense como advogado e os maçons poderiam turbinar essa atividade. Nessa especulação profana, poder-se-ia também pensar que ele quereria ser maçom pelo desejo frenético de compartilhar companheirismo com os membros de sua comunidade. Lincoln amava estar em companhia de outros homens e, ser aceito pela sociedade, era o que mais desejava. Essa ânsia, muito bem poderia ser trabalhada numa fraternidade articulada e vivenciada pelos irmãos na Maçonaria. Quem gostava, como ele, de compartilhar discussões filosóficas e literárias, contar estórias picantes e humorísticas, intercambiar informações sobre experiências vividas, trocar idéias sobre a vida política e social, em suma, viver entre amigos de maneira fraterna, veria na maçonaria um local ideal para esse desiderato. Lincoln, com seu ingresso na maçonaria, poderia matar dois coelhos de uma só cajadada: satisfazer sua ambição política e projetar-se, com sua liderança natural, obtendo, cada vez mais, proeminência na comunidade.

Lincoln cultivava centenas de amigos maçons e, por eles foi convidado a ingressar na Ordem. Um deles, o juiz Bowling Green era seu amigo íntimo e uma eminente pessoa em New Salem, Illinois. Green foi Venerável Mestre da Loja maçônica da cidade e membro da Grande Loja de Illinois. Com ele, Lincoln passava horas e horas jogando conversa fora. Estimaram-se tanto que, no funeral maçônico do juiz, a senhora Green convidou-o para ser o orador na cerimônia em fevereiro de 1842 e, na mesma Loja Springfield nº 4, em setembro, fez um discurso em sua memória.

Vários dos mais proeminentes membros da cidade de Springfield eram maçons, incluindo o já citado Stephen A. Douglas, além de Ninian Edwards e James Shields. O mais importante homem, presente no casamento de Lincoln com Mary Todd, era James Matheny, membro da Loja Springfield e ex-Grão-Mestre da Grande Loja de Illinois. O vizinho mais próximo de Lincoln – James Gourley – era também maçom assim como muitos amigos e companheiros de negócios.

Um maçom cuja profunda influência sobre Lincoln, que o considerava seu ídolo em política, era o ex-senador, ex-presidente da Câmara e ex-candidato a Presidente dos EEUU e um dos mais influentes americanos na primeira metade do século XIX – Henry Clay. Clay mudou-se para Kentucky no início do século, onde se tornou um dos melhores e maiores advogados do Estado. Ajudou o Presidente John Quincy Adams a ganhar a eleição de 1824, decidida por pequena margem de diferença na Câmara e, por isso, foi nomeado Secretario de Estado. Retornou ao Senado em 1831 em oposição ao Presidente Andrew Jackson. Foi um dos líderes do partido Whig. Clay foi Grão-Mestre em Kentucky em 1820-21. Convém salientar que viveram os tempos difíceis dos anos da influência do Partido Anti-Maçônico que atingiu o auge quando Clay postulava sua candidatura à Presidência dos EUA. Especula-se, hoje em dia, que sendo Clay o modelo político de Lincoln e tendo aquele aguentado a fúria do Partido Anti-Maçônico na época de sua pretensão à Presidência, Lincoln teria preferido esperar um pouco para arrefecer os ânimos exaltados contra a maçonaria e deixado o ingresso num momento mais oportuno.

O Partido Anti-Maçônico nos EUA atuou no período de 1826 a 1843 e foi fundado para combater as sociedades secretas na política norte-americana. Sua formação deveu-se ao caso Morgan deflagrado em setembro de 1826, na Batávia, devido ao desaparecimento e morte de William Morgan, fato que desencadeou uma onda anti-maçônica por todos os Estados Unidos. Seitas protestantes mais fundamentalistas, como os Quakers, e certos ramos mais radicais de Luteranos e Batistas, opuseram-se veementemente contra a maçonaria de então. O movimento foi crescendo até chegar à formação de uma Sociedade Anti-Maçônica em 1828. Na quarta reunião da Sociedade, os políticos anti-maçônicos tomaram a direção e exigiram que qualquer candidato a governador, a vice ou a qualquer cargo se fosse maçom não poderia contar com o apoio dos eleitores profanos no Estado de Nova Iorque. A Sociedade, finalmente, tornou-se um Partido Anti-Maçônico, atraindo a atenção dos políticos em nível nacional. Henry Clay começou negando qualquer vínculo com a maçonaria. William H. Steward, Martin Van Buren, Thaddeus Stevens e John Quincy Adams também apoiaram o Partido Anti-Maçônico. Visando a uma rápida ideia do desgaste e da evasão do meio maçônico, convém salientar que, se 1826, existiam 480 lojas no Estado de Nova Iorque, em 1835 restaram somente 75. Decadente o Partido Anti-Maçônico, a maçonaria ressurgiu de forma mais conservadora e religiosa.

Lincoln, certa vez, disse aos membros da Grande Loja de Illinois, durante a sua campanha para a presidência em 1860:

“Eu nunca pedi ingresso [na maçonaria] por que me me sentia sem o necessário valor para isso. Poderia ter superado minha hesitação e pedir o ingresso  atualmente, mas sou candidato a um posto político, e tal ato poderia ser considerado artificial. Por essa razão, porque meus motivos poderiam ser percebidos como artificiais, devo refrear meu desejo.”

Após a morte de Lincoln, um amigo e proeminente maçom, disse da razão por ele não ter pedido ingresso na Ordem: “Eu [Lincoln] temia que fosse um pouco relapso para cumprir minhas obrigações como pretenderia se fosse um membro efetivo, daí fui prorrogando o pedido”. Quando o amigo disse que não era ainda tarde, Lincoln replicou sorrindo: “Bem, talvez algum dia eu lhe peça para encaminhar o meu pedido”.

Mary Todd Lincoln, quando informada por um membro do Partido Anti-Maçônico, que apoiaria seu marido para Presidente em 1860 se ele não pertencesse a uma sociedade secreta [maçônica], respondeu-lhe: “O Senhor Lincoln nunca foi maçom ou pertenceu a nenhuma sociedade secreta… por que sempre está muito ocupado com suas diversas atividades”.

Edwin M. Stanton, Secretário da Guerra de Lincoln, era um ativo maçom. Escreveu uma vez que tentou sondar Lincoln sobre seus pontos-de-vista sobre a maçonaria e sentiu-o extremamente evasivo. Talvez, o Estadista não tivesse fortes razões, naquele momento, para ingressar na Ordem.

Outra hipótese do porquê de Lincoln ter evitado a maçonaria seria o desastrado, mas elucidativo incidente, ocorrido com dois maçons. Um foi James Adams. Em maio de 1837, Lincoln advogou um de seus primeiros casos ao representar a viúva e o filho de Joseph Anderson num esforço de tomar posse e vender dez acres de terra presumidamente pertencentes a ele quando de sua morte. Entretanto, James Adams, ex-advogado de Anderson e autoridade na Loja de Springfield, estava de posse das terras, baseando sua justificativa no fato de tê-las como pagamento de alguns trabalhos executados para Anderson. Lincoln alegou que a obtenção das terras tinha sido espúria. No tempo dessa demanda, Adams estava postulando, como Democrata, a nomeação para juiz de paz no Condato de Sangamon contra um amigo whig de Lincoln. Durante a campanha, seis cartas foram publicadas no jornal local, escritas por Lincoln, insinuando fraude perpetrada por Adams. Alguns dias antes da eleição, Lincoln ainda escreveu cartas manuscritas e distribuídas em Springfield afirmando explicitamente que Adams teria obtido as terras de Anderson por fraude. Após a resposta de às acusações, Lincoln publicou uma tréplica. O caso tornou-se cada vez mais acirrado e público. Lincoln acusou Adams de ter espalhado o rumor de que ele seria um deísta. Tal rumor causou-lhe muitos problemas no futuro. Nesse ínterim, Adams ganhou a eleição e as terras ainda estavam sob sua posse quando morreu seis anos depois. James Adams era Venerável Mestre na Loja Springfield em 1839 e foi eleito Grão-Mestre Adjunto dos maçons de Illinois em 1840. Talvez, então, Lincoln não quisesse ingressar numa loja na qual Adams era um membro proeminente.

Anos mais tarde, Lincoln teve problemas com outro maçom, James Shields. Este era um imigrante irlandês que se estabeleceu em Illinois e tornou-se maçom em janeiro de 1841, seguindo Stephen A. Douglas como Segundo Vigilante. Shields era um Democrata que se tornou auditor do estado em 1841. Lincoln e o Partido Whig protestaram contra sua política e muitas cartas satíricas apareceram nos jornais de Springfield, questionando a honestidade de Shields e desdenhando sua coragem física. Shields acusou Lincoln de ter escrito as cartas e desafiou-o para um duelo. Lincoln tentou encerrar a disputa com uma explanação parcial, mas o duelo foi marcado para o dia 22 de setembro de 1842. Os duelantes, com seus respectivos padrinhos, atravessaram de bote o Rio Mississippi até o estado de Missouri onde duelar era ainda legal. Amigos comuns, contudo, intervieram no sentido de Shields aceitar as explicações de Lincoln e o duelo foi abortado. Lincoln, contudo, ficou mortificado com o episódio, pois os irmãos maçônicos de Shields deram-lhe toda a assistência. Esse episódio, mais o caso envolvendo James Anderson, possivelmente, levaram Lincoln a ter sentimentos negativos contra os maçons em geral.

Outra possível razão a impedir de Lincoln não ter sido maçom, foi política. Em 1830, havia um forte sentimento anti-maçônico e o Partido Anti-Maçônico até mesmo elegeu alguns de seus membros para posições no Estado e na União. Vários políticos ganharam favores e postos por atacarem a maçonaria. Muitas lojas perderam seus membros e adormeceram. Tornar-se maçom poderia cortar carreiras políticas. Ex-maçons, temerosos, tomaram atitudes anti-maçônicas nos seus discursos.

Resumindo, pois, as possíveis causas do não-ingresso de Lincoln na Ordem poderiam ser as seguintes:

  • decidiu evitar a oposição dos anti-maçons não ingressando na Ordem por razões eleitorais;
  • sentiu-se verdadeiramente ainda despreparado para cumprir adequadamente os deveres maçônicos;
  • estava tão ocupado com suas atividades profanas que o inabilitavam de ingressar na Ordem; iv) tinha uma visão pouco favorável da maçonaria devido aos entreveros com dois proeminentes membros da Ordem;
  • sentiu-se inseguro com tais incidentes e não desejou que isso lhe possibilitasse uma negativa dos maçons ao encaminhar um pedido formal de ingresso; e finalmente,
  • teria sido sempre indiferente à maçonaria.

Talvez, a verdadeira razão tenha sido uma combinação de todas as aventadas acima.

IV – Conclusão

Os EUA são um país que, tirante a chaga da escravidão, caracterize-se como a terra da maçonaria. A força da maçonaria era especialmente forte no século XVIII e exerceu profunda influência sobre os Pais Fundadores, dentre os quais podem ser citados, por serem os mais eminentes, George Washington e Benjamin Franklin, que eram ativos, entusiastas e proeminentes maçons, aplicando suas crenças maçônicas na formação das instituições norte-americanas.

A Declaração da Independência de 1776 estabelece uma verdade fundamental, desenvolvida pela maçonaria no século XVIII:

Nós apoiamos estas verdades por serem  auto-evidentes, de que todos os homens são criados iguais, que  eles  são providos pelo seu Criador com certos Direitos inalienáveis e entre eles estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade.”

Esta pérola incrustada na Declaração da Independência provém de uma citação de Leibniz e não de Locke como se pensa. O último colocava entre os Direitos inalienáveis, a Vida, a Liberdade e a Propriedade. Lincoln foi mais maçom do que muitos maçons de sua época e até mesmo os de hoje, quando pretendeu aprofundar a Declaração de Independência ao declarar em 1861:

“Eu nunca tive um intuir político  que  não  emanasse dos sentimentos incorporados na Declaração de Independência…  Eu, muitas  vezes  me  auto-inquiri  que grande princípio ou ideia eram guardados por esta Federação por tão longo tempo. Era… de  que  o  sentimento da Declaração de Independência que deu liberdade, não somente para o povo deste país, mas esperança para o mundo nos tempos futuros.  Era  a  promessa de que, no devido tempo, os  grilhões  poderiam ser  retirados dos ombros de todos os homens, e de que  todos pudessem ter uma chance igual.”

Ambas as citações possuem um inconfundível odor da filosofia maçônica universal.

Abraham Lincoln nunca foi um maçom, mas houve como que uma influência recíproca positiva da maçonaria nele e dele para com a maçonaria. Sua filosofia política foi afetada pelos ideais maçônicos contidos na Declaração de Independência e na Constituição dos EEUU. Lincoln foi auxiliado na sua vida política e pessoal pelos maçons e, com orgulho, pode-se afirmar que os maçons e todos que lhe estudam a vida, podem, com certeza, ter a satisfação de antever e de sentir o envolvimento dele, um não-maçom, com a filosofia e os princípios universais da Arte Real.

Autor: William Almeida de Carvalho

William é obreiro da Loja Equidade & Justiça nº 2336, membro da Academia Maçônica de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, autor do livro Espionagem e Maçonaria, editora Trolha, 2006.

Nota do Blog

Agradecemos a Dom William o envio do artigo que, com absoluta certeza, em muito será útil aos leitores do O Ponto Dentro do Círculo.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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Uma resposta para Porque Lincoln não foi Maçom

  1. Amarildo Trindade dos Reis disse:

    A História nos remete um momento marcante, que devemos ter como exemplo e trazer para os dias atuais . T.’.F.’.A.’.

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