A Geometria e o Número na Arte Real (Parte II)

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Diz o Gênese que Deus concluiu a Criação em seis dias, “e repousou no sétimo dia de todo o labor que fizera”[17]. O sete simboliza o reencontro, no plano da Criação, da Unidade imutável que é sua origem e síntese, o que se expressa aritmeticamente mediante a soma dos sete primeiros números inteiros: 7 = 1 + 2 + 3 + 4 + 5 + 6 + 7 = 28 = 2 + 8 = 10 = 1 + 0 = 1. Também se diz que o sete é o número da Formação, conseqüência imediata das distinções que nossa mente estabelece entre as coisas criadas – representadas pelo senário – que aparecem por isso revestidas de formas.

A construção do heptágono e da estrela de sete pontas, imagens simbólicas do septenário, expressa geometricamente a observação exterior, se é que se pode chamar assim, que a mente efetua da manifestação projetando sobre ela as formas[18]. Para dividir uma circunferência em sete partes iguais e assim determinar os vértices de um polígono regular inscrito de sete lados, há que traçar um diâmetro e dividi-lo em sete segmentos de igual comprimento. Em seguida, com raio igual ao diâmetro desenhado e centros nos dois extremos deste, se abrem dois arcos circulares que se cortam em dois pontos exteriores à circunferência. A reta que passa por um destes pontos e pela segunda das seis divisões marcadas sobre o diâmetro com o fim de dividi-lo em sete partes iguais, corta a circunferência em dois pontos. Tomando a distância entre o ponto mais próximo à segunda divisão do diâmetro e o extremo do diâmetro que se acha mais próximo de tal ponto, e usando-a sete vezes como corda da circunferência, achamos os sete vértices do polígono inscrito[19]. O heptágono se constrói unindo pares de vértices contíguos, enquanto que a estrela de sete braços se obtém traçando uma poligonal que passe pelo primeiro de cada três vértices (isto é, unindo o primeiro vértice com o quarto, o quarto com o sétimo, o sétimo com o terceiro, etc.), ficando fechada ao cabo de três circulações completas.

Sendo o cubo uma expressão geométrica do senário, seu centro, o ponto no qual os braços da cruz tridimensional formada pelas alturas do poliedro são cortados, representa o septenário como símbolo do retorno à Unidade principial, o que também está simbolizado pelo Sabbath judeu e pelo domingo cristão; são dias de descanso da semana durante a qual, à imagem da Criação, transcorre o trabalho do homem.

O sete é também a soma do três e do quatro ( 3 + 4 = 7 ). O septenário pode ser contemplado, pois, como a união da tríade principial presidida pelo Logos e pelo quaternário que dela emana, ao que não é estranha a divisão das antigas sete Artes Liberais em três artes da palavra ou trivium (Gramática, Lógica e Retórica) e quatro ciências cosmogônicas ou quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia). Geometricamente, a soma do ternário e do quaternário é análoga à coroação de um quadrado com um triângulo, sendo a figura resultante o alçado da pedra cúbica em ponta, que, como o número sete, simboliza a perfeição da Arte Real. Sete maçons fazem uma Loja “justa e perfeita”, como sete notas completam a escala musical “que reproduz o som dos sete planetas em sua rotação”[20].

No centro das sete esferas planetárias se encontra a Terra, símbolo do conjunto do mundo material que, como produto da Unidade e do mundo das formas, está caracterizado pelo número oito. Geometricamente, o oito pode ser representado através de dois quadrados, um inscrito no outro e cujos vértices de um sejam os pontos médios dos lados do outro. É a imagem do recipiente no qual se combinam os quatro princípios alquímicos da matéria para produzir a substância do Universo, ou do athanor no qual se vertem os sete metais da grande Obra, caldeirão este que não é senão a alma do próprio alquimista. A forma do oito evoca o contínuo correr das águas do psiquismo que o Adepto busca aquietar.

O mercúrio, com o que se relaciona o movimento fluido da psique, está em correspondência com a oitava sefiroth da Árvore da Vida cabalística[21]. O octógono é a expressão geométrica do caráter intermediário que todo o anímico e mercurial possui. Este polígono – que se constrói unindo os extremos de duas cruzes inscritas em uma circunferência de forma que os braços de uma sejam as bissetrizes dos ângulos retos formados pelos braços da outra – é uma forma construtiva de transição empregada nos templos da maioria das tradições para apoiar um domo ou cúpula hemisférica, associada ao céu, sobre uma base quadrada que simboliza a estabilidade da terra. A forma octogonal é também a das pias batismais e os antigos batistérios dos templos cristãos. Tratam-se de lugares de passagem situados no exterior ou na entrada das igrejas, em uma localização intermediária entre um espaço profano e outro sagrado na qual se opera um sacramento que, dentro da esfera do individual, corresponde ao domínio psíquico intermediário entre o espírito e o corpo[22], [23]. A morte iniciática é outro trânsito com o qual o oito está relacionado, poderíamos dizer, com maior razão ainda; como o batismo cristão, comporta um segundo nascimento, porém de uma natureza distinta e superior uma vez que produz, além dos efeitos psíquicos de ordem individual aos quais se circunscreve a regeneração por via exotérica, uma transmutação que conduz o ser ao ponto de partida de uma realização de ordem supra-individual[24].

O estabelecimento de uma (aparente) diferenciação entre a realização material e a Unidade conduz ao novenário ( 8 + 1 = 9 ). O nove é o símbolo da multiplicidade indefinida, representada pelos indefinidos pontos da circunferência que se correspondem com as indefinidas manifestações formais do Ser[25]. O nove, como a circunferência, retorna sobre si mesmo incessantemente ( 9 = 9 + 8 + 7 + 6 + 5 + 4 + 3 + 2 + 1 = 45 = 4 + 5 = 9 ), o que evoca o aspecto aprisionador das formas materiais da manifestação, e em particular, do pele de que se acha revestido o estado humano do Ser. Não há saída possível pela tangente diante da corrente do devir ou da tentativa de correr mais que ela[26], do mesmo modo que não há saída do novenário multiplicando o nove por outro número inteiro, posto que o resultado sempre é redutível ao nove. A única saída da circunferência é interior, a caminho do centro ou Unidade na qual todo o manifestado deve reabsorver-se, completando o ciclo: 9 + 1 = 10 = 1 + 0 = 1.

Epílogo

O Aprendiz maçom que ingressa em Loja toma assento na coluna do Setentrião. Se diz que é a região menos iluminada do templo, apta para quem acaba de iniciar suas andanças pela via do Conhecimento e que “ainda não é capaz de suportar uma grande luz”. Procedente do âmbito da manifestação total do Ser, simbolizada pelo denário e pela roda ou o círculo, começa seu caminho de retorno à Unidade, isto é, ao centro de si mesmo iluminando seus passos com uma ainda débil claridade interior. Como o personagem do nono arcano do Tarot, lanterna na mão, avança lentamente, com paciência e em solidão, regressando do nove ao oito, do oito ao sete…

FINIS

Autor: Marc Garcia
Tradução: Sérgio K. Jerez

Notas

[17]Gn 2, 2.

[18] – A inscrição em uma circunferência de um heptágono ou de seu polígono estrelado equivalente se apoia em um ponto exterior a ela.

[19] – Esta construção geométrica tem uma aplicação mais ampla. Se o diâmetro da circunferência se divide em N partes iguais, sendo N qualquer número inteiro maior ou igual a 3, se obtém os vértices de um polígono regular inscrito de N lados.

[20] – Sete maestros masones, op. cit., cap. 17.

[21] – Ver Federico González, op. cit. cap. 1.

[22] – Ver René Guénon, Símbolos Fundamentales de la Ciencia Sagrada, cap. XLII. Ed. Eudeba, 1988.

[23] – Compreendida, ou ao menos entrevista a razão de ser da forma e da localização da pia batismal, sua substituição por um alguidar situado junto ao altar, tão freqüente nas atuais celebrações do batismo cristão torna-se tremendamente grotesca.

[24] – René Guénon, Aperçus sur l’Initiation, cap. XXIII. Editions Traditionnelles, 1992.

[25] – René Guénon, Sobre el Número y la Notación Matemática. Cuadernos de la Gnosis nº 4, págs. 14-15. Ed. Symbolos, 1994.

[26] – Se diria que algo assim é o que persegue o mundo moderno intensamente: remando, chegar mais rápido que a água do rio à cascata por onde deve precipitar-se definitivamente.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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