A Simbologia da Franco-­Maçonaria (Parte III)

A Loja, Imagem do Mundo

Em primeiro lugar, prestemos atenção ao sentido etimológico da palavra Loja: ela deriva de Logos, que é o Verbo ou Palavra, que emitida no mundo o resgata das trevas e do caos, criando assim a possibilidade da manifestação e da ordem universal. Igualmente, “Loja”, se não etimologicamente mas quanto a seu sentido simbólico, é idêntica à palavra sânscrita loka, que quer dizer “mundo”, “lugar” e, por extensão, “cosmos”. Por outro lado, também se dá uma identidade entre Loja, Logos e o grego lyke, que significa “luz”.

Aqui temos, em resumo, o que distingue a Loja maçônica: um espaço iluminado, mas iluminado interiormente graças à influência espiritual transmitida pela iniciação. Daí que a Loja se assemelhe à “caverna iniciática”, termo que se utiliza em diversas tradições para designar o que há de mais central e oculto no cosmos: seu próprio coração. Como a caverna iniciática, ou o athanor hermético, a Loja permanece protegida e a coberto do mundo profano e das “trevas exteriores”, que jamais penetrarão nela porque na realidade se encontra situada em outro plano. Explicando melhor: não se trata de um “lugar” no sentido literal, mas sim da consciência interna onde habita o mistério da alma humana. Evidentemente existe uma Loja concreta e física, que pode estar situada em qualquer rua de qualquer cidade de qualquer nação, e que pode mudar de localização tantas vezes quanto se queira. O importante é que o templo exterior simboliza com imagens mnemônicas e evocadoras nosso próprio espaço e tempo interior. Além das aparências deve penetrar-se no que estas velam e ocultam, pois do que se trata, realmente, é de conhecer o “Templo que não está feito por mãos de homem”, como dissemos anteriormente.

A forma da Loja é a de um quadrado longo ou retângulo, cujo comprimento é o dobro da largura. Tridimensionalmente seria um paralelepípedo, figura geométrica que, para Platão, dava as proporções e relações harmônicas do universo. De fato, na Loja maçônica se dão uma imensidão de correspondências simbólicas que tecem um conjunto perfeitamente tramado onde é possível perceber a harmonia do mundo. Nada neste templo é supérfluo nem foi posto por acaso, e cada símbolo ali presente, cada palavra ou gesto emitido, está refletindo um matiz particular dessa harmonia. Assinalaremos que o desenho da Loja maçônica parte da ideia diretriz marcada pelo “número de ouro” ou “divina proporção”, regra que era utilizada pelos arquitetos medievais. Este número determina, a partir de um ponto central que se expande em um movimento logarítmico, as proporções harmônicas presentes em todos os organismos vivos, quer se trate, por exemplo, da estrutura corporal do homem, de uma flor, do caracol, da estrela do mar ou das espirais galáticas. Para os pitagóricos, o “número de ouro” manifesta a inteligência criadora da Mônada ou Unidade, o Hieros Logos, ou Grande Arquiteto, em sua ação, ou gesto, sobre a matéria caótica, plasmando-se nela as ideias de simetria e ordem, equilíbrio e beleza.

Por tudo isso a Loja maçônica sintetiza a totalidade da vida universal, do cosmos manifestado, até ser como a transfiguração qualitativa deste. É, pois, uma imagem do mundo, uma Imago Mundi, um protótipo dele, reduzido à sua forma essencial. Nesse sentido, poderia aplicar-se à Loja maçônica aquela frase inscrita no templo de Ramsés II: “Este templo é como o céu em cada uma de suas dimensões e proporções”. Por outro lado, a estrutura encompridada da Loja permite seguir o curso diurno do sol, o astro que ilumina a terra partindo do Oriente para o Ocidente, passando pelo Meio-dia ou Sul. Por tudo isso, e ao ser como uma imagem simbólica do universo, a Loja está ordenada pelas direções do espaço, que surgidas simultaneamente pela irradiação de um ponto central (o “Coração do Mundo”) gera um sistema de coordenadas onde o alto, o baixo, o comprido e o largo formam a cruz de três dimensões, outro esquema simbólico do cosmos.

Daí se deriva uma geometria espiritual bem conhecida pelos maçons operativos que, aplicando-a na orientação e disposição dos edifícios sagrados, faziam com que fossem penetrados pelos eflúvios e pelas forças mágicas da natureza e do cosmos. Do espaço íntimo e oculto da gruta ou caverna onde nossos antepassados pré-históricos oficiavam seus ritos e cultos sagrados, passando pela choça ou tenda ritual dos povos nômades e os templos construídos de madeira, até, enfim, os monastérios e catedrais, uma longa cadeia tradicional foi dando testemunho dessa vontade do homem por enquadrar e delimitar determinados espaços “carregando-os” de significado espiritual, de modo que refletissem na terra a própria ordem do céu.

Continuando com a descrição da Loja, observamos que no Oriente se acrescenta o Devir, que no Templo de Jerusalém simbolizava o Sancto-Sanctorum ou “Santo dos Santos”. O Devir tem forma de semicírculo, idêntico ao abside semicircular das igrejas e catedrais cristãs, o mesmo que o mihrab das mesquitas muçulmanas. Tal semicírculo é a projeção no plano horizontal terrestre da cúpula ou abóboda celeste. Todo o espaço restante da Loja, que vai desde a porta de entrada até onde começa o Devir, se denomina Hikal, que era o Sanctum ou “Santo” no Templo de Jerusalém. O Hikal está separado do Devir por três degraus, que aludem aos três graus iniciáticos de aprendiz, companheiro e mestre. Assim, pois, esses três degraus se referem à ideia de elevação gradual e hierarquizada a outros planos ou níveis superiores de realidade. De fato, no “Santo dos Santos” se depositava o que havia de mais sagrado para o povo de Israel: a “Arca da Aliança”, pequeno receptáculo, em si mesmo um modelo do cosmos, que “continha” os eflúvios e bendições emanados da divindade. Da “Arca da Aliança”, como centro simbólico do mundo, espalhavam-se as bendições em todas as direções do espaço, comunicando-as, além dos muros e paredes do templo, para a cidade e o universo inteiro.

No lugar que aproximadamente corresponderia à “Arca da Aliança” está situado o Altar ou Ara, coração da Loja onde incide o eixo vertical que comunica o céu à terra. Também se chama “Altar dos juramentos”, porque sobre ele se realizam os compromissos e “alianças” que o maçom contrai com a organização iniciática. Não em vão, sobre o Altar se encontra a Bíblia, ou Livro da Lei Sagrada, aberta nos versículos do livro dos Reis ou nas Crônicas, nos quais se mencionam a edificação e as medidas exatas do Templo de Jerusalém, ainda que também possa ser aberta no prólogo do Evangelho de São João, que começa com as palavras: “No Princípio era o Verbo…”.

Os versículos do Antigo e do Novo Testamento se referem, pois, à construção do templo material e do templo espiritual, respectivamente; o primeiro como reflexo ou símbolo do segundo, pois existe antes que o próprio mundo, e nele residem eternamente a sabedoria e a inteligência do Sumo Fazedor. Sobre a Bíblia se depositam o compasso e esquadro, os dois emblemas maçônicos por excelência . Estas são as ferramentas ou utensílios que simbolizam o céu e a terra. Com o compasso se traça o círculo ou circunferência, figura geométrica que em todas as tradições é considerada como uma imagem do céu e do celeste. Com a esquadro se traça o quadrado, ou melhor, a cruz (que se forma pela união de dois esquadros unidos por seus respectivos vértices), inseparáveis da ideia de quaternário; assim: os quatro elementos, os quatro pontos cardeais, as quatro estações, os quatro períodos cíclicos da humanidade, as quatro fases da lua, os quatro períodos da vida humana, etc., isto é, tudo o que está relacionado com a terra e o terrestre. O compasso como “ciência do céu” e o esquadro como “ciência da terra”, sintetizam os mistérios da cosmogonia, que são também os mistérios do homem compreendidos em sua totalidade. Em uma gravura hermética atribuída a Basílio Valentino aparece a figura do rebis ou andrógino (união das energias contrárias numa só natureza ou substância) com um compasso em sua mão direita e um esquadro na esquerda, simbolizando assim a união do céu e da terra. Esta mesma representação iconográfica aparece em uma gravura chinesa onde se vê a figura andrógina do imperador Fo-Hi e sua irmã Niu-Kua, o que vem a confirmar a universalidade destes dois símbolos. A união entre o superior e o inferior, entre o céu e a terra, é representada na Maçonaria pela superposição e entrelaçamento do compasso e o esquadro, o primeiro com o vértice para cima e o segundo para baixo, assemelhando-se à “estrela de Davi” ou “selo de Salomão”. Esta complementariedade, que não obstante mantém uma ordem hierárquica, está assinalada pela fórmula hermética de que “… o que está em cima (o macrocosmos) é como o que está em baixo (o microcosmos) e o que está embaixo é como o que está em cima”. Se a Bíblia, como livro sagrado, recolhe a revelação da Palavra, o compasso e o esquadro são as ferramentas que servem para aplicar o conteúdo espiritual dessa revelação na ordem da arquitetura. Bíblia, compasso e esquadro são as “Três Grandes Luzes” da Maçonaria, porque no estudo, na meditação e no uso ritual que delas se faz se vai iluminando a trilha que conduz ao Conhecimento.

Seguindo ainda para o Oriente, sobre a parede do fundo encontramos o Delta luminoso com o Tetragrama ou nome inefável de Deus no centro. Este Delta é um triângulo com o vértice para cima, figura que expressa a realidade dos princípios universais, uma vez que é a primeira estrutura arquetípica que se expressa em todos os planos da manifestação como uma força que cria, outra que conserva e uma terceira que destrói, ou melhor, transforma. Estas três ideias-força surgem da unidade primordial que fica simbolizada no Delta por um só olho que às vezes substitui ao Tetragrama, mas que refere-se ao sentido de presença imutável da deidade no próprio seio da manifestação. Ademais, a manifestação, da sua realidade mais sutil até a mais densa e material, está simbolizada pelas quatro letras que compõe o Tetragrama: IOD, HE, VAU, HE, correspondendo-se, cada uma delas, com os quatro níveis ou mundos que constituem a existência universal, e que são os mesmos que se encontram na Árvore da Vida cabalística. Neste nome divino fica, então, resumida a obra da criação em seu conjunto, e seu conhecimento se vincula diretamente com a busca da “Palavra Perdida”.

Mas o templo, e neste caso a Loja maçônica, não é só uma estrutura estática – como tampouco o é o universo – mas dinâmica também, podendo ser visualizada como uma roda, imagem da “roda do cosmos” ou Rota Mundi. Isso está expressamente indicado pelas doze colunas ou pilares que cercam o recinto da Loja, e que equivalem aos doze signos zodiacais. Seis destas colunas estão situadas no Setentrião, e seis ao Meio-dia. Diremos que o zodíaco (que quer dizer precisamente “roda da vida”) é como o marco do universo visível, e seu movimento cíclico, unido ao dos planetas e demais constelações, influi na troca alternativa das estações e na manutenção e renovação da vida do cosmos e do homem. Disso se deduz que a Maçonaria não desconhece a antiga ciência da astrologia, que junto a da alquimia revela também os mistérios do céu e da terra.

As colunas Jakin e Boaz se vinculam à simbologia dos dois solstícios, e portanto, com as duas fases ascendente-descendente do ciclo anual. Elas se assemelham, assim, aos dois São João, o Batista e o Evangelista e, em consequência, à “porta dos homens” e à “porta dos deuses”, respectivamente. Estas são as portas zodiacais de Câncer e Capricórnio, que correspondem à entrada do verão e do inverno, isto é, ao descenso e à ascenso da luz solar. As portas solsticiais cumprem um papel muito importante dentro do processo iniciático, que, não se deve esquecer, reproduz exatamente as etapas do desenvolvimento cosmogônico. Para os pitagóricos, pela porta de Câncer as almas penetram no “antro das ninfas”, que é o mesmo que a caverna platônica, outra imagem do mundo. Ali se regeneram pelo conhecimento dos “pequenos mistérios”. Pela porta dos deuses estas almas saem do cosmos para participar dos “grandes mistérios”. Ou seja, a alma humana “… entra no mundo por uma porta e sai por outra, e no ínterim – assinado pelo espaço e o tempo – tem a oportunidade de reconhecer-se e escapar dessa condição pela identificação com outros estados do ser universal, que pode vivenciar por meio da consciência individual – semelhante à consciência universal – e que constituem a possibilidade da regeneração particular – e também da universal -, sempre, é claro, tomando como suporte a geração e a criação no espaço e no tempo”[1]. Esses dois processos são idênticos aos realizados por Cristo, cujo nascimento, paixão, morte e ressurreição, representam um arquétipo da iniciação. Esse mesmo processo pode ser visto também na mitologia de grande número de heróis e deuses solares, como é o caso de Osíris, Quetzalcóatl, Mitra e do próprio arquiteto Hiram. Com relação à vida de Cristo é interessante assinalar o dado, sem dúvida não casual, de que as iniciais das colunas Boaz e Jakin são também as iniciais de Belém e Jerusalém, as duas cidades que presidem o nascimento e a morte do Salvador, ou seja, o ciclo completo de sua existência humana.

No centro da Loja se estende o “pavimento mosaico”, tapete de quadros brancos e pretos exatamente igual ao tabuleiro de xadrez, cujas origens também são simbólicas como a da maioria dos jogos. O “pavimento mosaico” é, sem dúvida, um símbolo da manifestação que, efetivamente está determinada pela luta e delicado equilíbrio que, entre si, sustentam as energias positivas, masculinas e centrífugas (yang, luminosas) e as energias negativas, femininas e centrípetas (yin, obscuras), expressas também na alternância dos ritmos e ciclos vitais e cósmicos. Neste sentido, é ao redor do pavimento mosaico por onde se efetuam as circunvoluções rituais que os maçons realizam em Loja, seguindo assim uma ordem marcada pelos quatro pontos cardeais, as direções do espaço.

Por último, deve-se mencionar que no próprio meio do pavimento mosaico se dispõe o “quadro da Loja”, que antigamente era desenhado no chão ao começar os trabalhos, e apagado quando os trabalhos eram finalizados. Já dissemos que este quadro é um esquema sintético de todo o templo maçônico, além de constituir um suporte simbólico para a meditação e a concentração. De fato, o quadro da Loja, ao conter em seu interior o desenho dos símbolos mais significativos e importantes, torna-se um veículo da influência espiritual na Maçonaria. Não é, então, casual que seja precisamente ao redor deste quadro (que é o ponto geométrico mais central do templo maçônico) que tem lugar o rito da “cadeia de união”, na qual se invoca a potência criadora e iluminadora do Grande Arquiteto e, implicitamente, também a de todos os antepassados míticos e históricos que contribuíram na edificação do templo material e espiritual. E esta invocação vertical se realiza mediante a união encadeada e fraterna de todas as forças vivas presentes na Loja, isto é, de todos os “irmãos”, que estabelecem assim uma comunicação sutil entre suas respectivas individualidades, servindo como suporte para a manifestação da influência sagrada.

Cabe mencionar, por último, que ao redor do “pavimento de mosaico” e do “quadro da Loja” se encontram os três pilares da Sabedoria, da Força e da Beleza. Esses pilares também recebem o nome de “três pequenas luzes”, porque sobre cada uma delas arde uma pequena vela; são pois colunas de luz e de fogo, três nomes do Arquiteto diretamente relacionados com a construção do templo e do cosmos.

Mas não queríamos terminar sem oferecer um texto das Leituras do Rito de Emulação que resume belamente tudo o que até aqui dissemos sobre o templo maçônico: “Permita-me atrair vossa atenção sobre a forma da Loja, a qual é um paralelepípedo cujo o comprimento se estende de Leste a Oeste, a largura do Norte ao Sul e, a altura, da superfície da terra até seu centro, inclusive com tanta altura como os céus. “Uma Loja de maçons se descreve assim para mostrar a universalidade da Ciência e ensinar-nos que a caridade de um maçom não deve conhecer limites além dos da prudência . “Nossas Lojas devem estar orientadas de Leste a Oeste, porque todos os Templos dedicados à adoração divina, como as Lojas dos maçons estão ou devem estar assim orientadas. “O Universo é o Templo do Deus que servimos. A Sabedoria, a Força e a Beleza sustentam seu Trono como pilares de sua obra, porque sua Sabedoria é infinita, sua Força onipotente e sua Beleza resplandece na ordem e na simetria do conjunto da Criação. Ele estendeu os céus ao infinito, como um vasto dossel; dispôs a terra como uma tarima, coroou seu templo com as estrelas como um diadema e de sua mão irradiam a potência e a glória. O sol e a lua são os mensageiros de sua vontade e toda sua lei é a concórdia [o Amor]”.

FINIS

Autor: Francisco Ariza
Tradução: Sérgio K. Jerez

Notas

[01] –  Federico González, La Rueda, una imagen simbólica del cosmos.

Nota do Blog

Clique AQUI para ler a primeira parte do artigo A Simbologia da Franco-Maçonaria, e AQUI para ler a segunda parte.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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