Maçonaria, anticlericalismo e livre pensamento no Brasil (1901-1909)

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Introdução

Componente inseparável da História das Ideias desde o início do século XIX aos dias atuais, a história da Maçonaria, do anticlericalismo e do livre pensamento é também a da cultura, da religião, da educação e do poder na sociedade contemporânea. Sistemas característicos de ideias e teorias, o anticlericalismo e o livre pensamento organizaram-se, em diferentes períodos, como movimentos específicos de feições particulares, sobretudo no final do século XIX e inícios do XX, articulando-se em primeiro lugar com tendências políticas liberais e radicais tais como o anarquismo e o socialismo e em seguida, com a Maçonaria e com correntes espiritualistas[1].

Desde meados do século XIX, os movimentos de livre pensamento e anticlericalismo marcaram profundamente a sociedade contemporânea. A crise das religiões cristãs tradicionais, os avanços do pensamento materialista, racionalista e científico, o surgimento de novas formas políticas de pensar o poder, fizeram parte da difusão das ideias anticlericais e de livre pensamento.

Mas, apesar da importância desta corrente de pensamento, poucos estudos históricos vêm sendo realizados sobre este tema. Pierre Lévêque ao estudar as relações entre livre pensamento e socialismo entre 1889 e 1939, a difusão de tais ideias entre a classe operária, afirma:

“Un désert bibliographique: telle aparait l’Histoire de Libre Pensée française, vieille pourtant de plus de trois quarts de siécle.” (“ Libre Pensée et Socialisme (1889/1939): Quelques points de repère” in Cristianisme et Monde Ouvrier, Cahiers du Mouvement Social, n. 1, Paris, Les Editions Ouvrières, pp. 117-153, 1989.).

Como exceção que confirma a regra, está o trabalho já clássico de René Rémond, L’Anticlericalisme en France de 1815 à nos jours. (Paris, Fayard, 1976). Para este autor, o anticlericalismo raramente é estudado por ele mesmo, assim como acontece com o livre pensamento, apontando alguns poucos trabalhos sobre o assunto especificamente, entre eles o de Alec Mellor, Histoire de l’Anticlericalisme français (Tours, 1966, 496 pp.) e o de George Weil, Histoire de l’Idée laique en France au XIX siécle (Paris, 1929).

Segundo Remond, o anticlericalismo como movimento só teria surgido no século XIX. No campo das ideias, o anticlericalismo não foi uma mera ideologia negativa porém um campo fértil de proposições, uma matriz de movimentos, de ideias políticas que manifestavam-se na organização de grupos e ligas, na literatura e na imprensa. Seria, portanto, um campo de ação política, dotado de uma positividade atuante ao denunciar a hipocrisia clerical, construindo um sentido moral/ético laico ao atacar os focos de corrupção da Igreja e depois da política. Surgindo como reação organizada ao ultramontanismo do século XIX, era ao mesmo tempo, movimento e ideologia. Sem um corpo teórico fechado, o anticlericalismo e livre pensamento podem ser vistos como um vasto campo de sínteses de ideias e escritos circunstanciais, numa dinâmica viva enraizada nas mentalidades e sensibilidades.

Assim sendo, para Rémond, o historiador tem que partir da análise acurada das fontes, frequentemente diversas e ambivalentes, para reconstruir o universo cultural do anticlericalismo e do livre pensamento. O que une tanta diversidade teórica e conceitual são temas clássicos: a Igreja vista como um corpo singular separado da sociedade; a Igreja como uma ameaça ao Estado, a Nação, ao indivíduo e a família. Poderia-se, portanto, falar em uma grande gama de formas de anticlericalismos. Temos vertentes que  não contestam a moral cristã mas a posição incoerente da Igreja face a esta moral. Em outros casos, afirmam-se os ensinamentos evangélicos mas vai contra os princípios anti-naturais propostos pela Igreja (ex. o celibato). Há também uma postura libertária que recusa a imposição de qualquer forma de coerção moral exterior, valorizando as relações e a busca individual do conhecimento e do comportamento perfeito, correto e adequado. Fica marcada a antinomia entre a sociedade moderna e o clericalismo. A modernidade deveria combater as pretensões clericais de ascendência através da irreligião, do poder político laico forte, de uma legislação concisa, através da liberdade de cultos, do ensino científico não religioso. O papel do poder político e constitucional seria o de garantir a liberdade de consciência. É desta forma que o autor fala das diferentes filiações dos tipos de anticlericalismo (jansenismo, radical democrático, direita liberal, anticlericalismo cristão e protestante, etc.).

A historiografia portuguesa tem trabalhos clássicos sobre o tema. O de Fernando José de Almeida Catroga, A Militância e a Descristianização da Morte em Portugal: 1865-1911 (2 vols., Coimbra, Univ. de Coimbra, 1988) estuda a penetração do positivismo e do cientificismo em Portugal destacando a importância de movimentos que definiram as estratégias culturais para que tal processo fosse possível: secularismo, laicismo, anticlericalismo, livre pensamento e Maçonaria. Destaca como as elites intelectuais portuguesas influenciadas pelo positivismo e cientificismo oriundos destas tendências diferentes, porém convergentes, fomentaram uma nova moral social e mesmo cívica.

No 6° volume da História de Portugal: A Segunda Fundação (1890-1926) (Lisboa, Ed. Estampa, 1994), Rui Ramos destaca o papel dos intelectuais, sobretudo escritores anticlericais como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, entre outros, na formação de uma nova mentalidade cultural e política que procurava construir um republicanismo ideal apoiado no positivismo científico, liberalismo, civismo. Aponta o papel de fundamental importância que as organizações maçônicas portuguesas tiveram no acolhimento, discussão, e difusão destes novos ideais bem como a sua estreita associação com movimentos e idéias secularizantes.

No caso do Brasil, destacam-se alguns trabalhos. O de Carlos Alberto de Freitas Balhana, Ideias em Confronto (Grafipar, Curitiba, 1981) tornou-se referência obrigatória. Para este autor, a organização e difusão de novas ideias políticas, religiosas e filosóficas esteve profundamente ligada ao surgimento do movimento de anticlericais e livre pensadores que se incorporaram aos discursos modernizadores dos projetos de reorganização da sociedade brasileira, associados com a expansão da Maçonaria por ser esta o abrigo natural para as diferentes correntes de ideias e movimentos sociais, filosóficos e espiritualistas, tentando contudo ela própria, por preceito básico, enquanto instituição, respeitar a liberdade e o direito às crenças individuais, evitando tomar partido político ou religioso de forma sectária e radical, o que lhe é, ademais, expressamente vedado através das suas leis, códigos, regulamentos, regimentos e estatutos. Porém, dentro do conjunto das grandes linhas do pensamento nacional do final do século XIX e inícios do XX, a mentalidade “conservadora” x “liberal” fizeram parte da história cultural da Maçonaria brasileira e traduziram-se dentro das facções deste movimento nas vertentes anticlericais e livre pensadoras.

Segundo Balhana, o livre pensamento não resumiu-se em uma simples proposta de retomada da consciência individual mas abrangia propostas libertárias em todas as campos e níveis, sendo o anticlericalismo uma derivada. O anticlericalismo combatia principalmente o poder papal e da Igreja, tanto no plano religioso como temporal, sobretudo no seu caráter ideológico e religioso observando neles um forte caráter e instrumento de dominação, consolidação de poder e enriquecimento. Pode-se observar, desta forma, ser o livre pensamento uma posição mais abrangente que o anticlericalismo.

Em A Guerra aos Párocos: Episódios Anticlericais na Bahia (Salvador, EGBA, 1991), o antropólogo Thales de Azevedo define o anticlericalismo como uma manifestação pública e hostil de oposição a uma instituição eclesial, que se articula com o laicismo social, liberalismo, positivismo, cientificismo e maçonaria. No caso preciso do anticlericalismo do século XIX, o autor destaca como marco inicial no qual questões políticas entre monarquistas e republicanos são destacadas, o brado do deputado francês Leon Gambetta em 4 de maio de 1877: “Le Clericalisme, voilé l´ennemi!”. Tal questão desdobra-se, em surtos, na Itália, Espanha, Portugal, Bélgica, Áustria, por inspiração liberal, maçônica ou socialista, e atingindo protestantes e judeus. Expandiu-se, inclusive no Brasil, através de uma pluralidade de formas e motivações básicas: a Igreja como uma ameaça ao Estado, à Nação, aos Indivíduos, à Família; o contraste entre a moral ensinada preconizada e a conduta corrompida do clero; os resultados desastrosos do ensino religioso, etc. Para Thales de Azevedo o anticlericalismo é uma ideologia negativa e um fenômeno coletivo que contamina grupos de perceptível extensão e continuidade, traduzido por líderes, intérpretes e manifestações públicas. Destaca a importância para a difusão destas tendências, da atuação da maçonaria brasileira, sobretudo após o episódio da Questão Religiosa e a consequente expulsão dos maçons das irmandades e cargos pelos Bispos do Pará, D. Antônio Macedo Costa, e de Olinda, D. Vital Maria da Conceição, que evidenciaram e agravaram as tensões e a situação favorecendo o acirramento de posições. Aponta para importância de maçons como Saldanha Marinho, o Visconde do Rio Branco, entre outros, na difusão do anticlericalismo no Brasil, com especial destaque para a obra de Saldanha Marinho A Igreja e o Estado (1874-1875).

É, desta forma, evidente em diversos autores, a profunda articulação entre a maçonaria e o anticlericalismo, bem como todas as outras formas laicistas do século XIX. As lojas maçônicas eram centros de difusão de tendências laicistas europeias, de positivismo, de formas alternativas de expressão religiosa tais como o espiritualismo em geral e do espiritismo em particular, bem como do protestantismo. Era o direito à voz e onde se abrigavam minorias e grupos intelectuais.

No livro Protestantes, Liberales y Francomasones; Sociedades de Ideas y Modernidad en America Latina (Ed. Siglo XXI, México/CEHILA, 1990) organizado por Jean Pierre Bastian, há uma contextualização da importância das “sociedades de ideias” que teriam servido como espaços para a elaboração de alternativas sociais e políticas, de novas visões de sociedade onde a igualdade e a autonomia do indivíduo como autor democrático eram o centro das proposições. Tratava-se de uma ampla frente anticatólica romana integrada  por maçons, espíritas, protestantes, liberais radicais, socialistas e anarquistas, organizados em grupos, associações, centros, lojas maçônicas, grupos literários que manifestavam-se em palestras, conferências, literatura e, principalmente, na imprensa. Eram redes de oposição que se consideravam portadoras da modernidade combatendo os conservadores, a Igreja Católica e os próprio liberalismo quando este tornou-se autoritário e começou a aliar-se com os conservadores, inclusive a Igreja. Para Bastian, as minorias liberais agrupadas em trono de lojas maçônicas e sociedades de ideias, tais como grupos anticlericais e de livre pensadores, radicalizaram-se à partir da segunda metade do século XIX e tornaram-se decadentes com a consolidação dos ideais republicanos. Da mesma forma, é possível pensar que dentro do ecletismo que caracterizava o universo cultural das sociedades de ideias do período (que ia da leitura de Lamartine, Comte a Allan Kardec), as diferentes tendências eram um reflexo das lutas e confrontos de ideias internas aos grupos e tendências liberais que iam de um liberalismo conservador, autoritário e antidemocrático em franca conciliação com a Igreja Católica a grupos minoritários sempre mobilizados que denunciavam e propunham transformações mais radicais através da educação, de um crítico civismo liberal que, com freqüência, levou ao socialismo e ao anarquismo, bem como a projetos de transformação espiritual da sociedade.

Também neste livro destacam-se os artigos de David Gueiros Vieira, “Liberalismo, Masoneria y Protestantismo en Brasil – siglo XIX”, e outro de Antônio Gouveia de Mendonça, “La Cuestion religiosa y la incursion del Protestantismo en Brasil durante el siglo XIX”, onde as referências ao relacionamento da maçonaria com outras tendências e movimentos de época passam por liberalismo, ideais de progresso, liberdade de crenças e cultos, separação Igreja-estado, a modernidade, o ensino leigo e científico, etc.

Um outro autor, Alexandre Barata, em seu artigo “A Maçonaria e a Ilustração Brasileira” (in Manguinhos, vol. I (1), jul-out., 1994) redimensiona a atuação da instituição maçônica brasileira no século XIX, mostrando-a engajada (ou pelo menos setores importantes e atuantes dela) com a construção de uma nova identidade nacional, batendo-se contra a Igreja católica, ampliando os investimentos em beneficência e instrução como forma de influenciar a reorganização da sociedade e contrapor-se a Igreja, destacando a atuação dos maçons na imprensa, na administração pública, no ensino.

Anticlericalismo e Maçonaria vistos através do A Lanterna e O Livre Pensador (1901-1909)

No caso do trabalho aqui apresentado serão destacadas as análises particulares da articulação de idéias anticlericais e de livre pensamento com grupos maçônicos a partir de dois periódicos específicos, A Lanterna  e O Livre Pensador.

A Lanterna começou a ser publicado em 1901, parou em 1902, sendo sua publicação retomada entre 1903 até 1904. Após um período de interrupção que vai até 1909, passou por um período de auge que se estendeu até 1916. Neste ano foi transformado no jornal anarquista A Plebe, reaparecendo como A Lanterna entre 1933-5.

Sua periodicidade foi variada nestes anos devido, sobretudo, a problemas financeiros, dificuldade de distribuição, interferência clerical, proibição de venda e outras formas de repressão mais ou menos sutis aos seus membros e leitores. No ano de 1903, houve uma fusão com dois outros periódicos anticlericais, O Livre Pensador e o L´Asino, e passou a ser publicado com o subtítulo de “diário da noite anticlerical e independente”. No seu cabeçalho encontramos junto com a data normal uma data segundo o calendário revolucionário francês. Em 1904 acontece a dissolução da sociedade entre A Lanterna editada por Benjamim Mota e O Livre Pensador de Everardo Dias e Antônio Garcia de Oliveira, devido a problemas pessoais e profissionais. O Livre Pensador reenceta sua publicação sob a direção de Everardo Dias, mas A Lanterna com a saída de Benjamim Mota, não sobrevive muito tempo, só reaparecendo em 1909 sob a direção de um grupo de anticlericais com o apoio de Mota e tendo como subtítulo “folha anticlerical de combate”. O jornal teve onze anos de publicação e um dos seus diretores foi Edgard Leuenroth.

Os dois jornais tem grande quantidade de artigos de propaganda do livre pensamento e do anticlericalismo, seções para correspondentes de outras localidades, temas que saem durante longos períodos voltados para a discussão de religião, ciência, ensino laico x religioso, a situação da mulher na sociedade, bem como notícias nacionais e internacionais do movimento livre pensador e anticlerical, de Congressos e Ligas, etc. Há espaço também para folhetins de natureza anticlerical, anúncios variados, indicações e comentários sobre jornais, revistas e obras literárias de caráter anticlerical, de livre pensamento e maçônicas.

O que se percebe, pela análise dos artigos e da correspondência que chegava aos dois jornais, era a difusão das propaganda anticlerical e do livre pensamento em diversas regiões e localidades brasileiras. Porém, não podemos dizer que esta tendência tenha sido disseminada em amplos setores sociais. Uma corrente de simpatizantes que se encarregava de fortalecer e disseminar, de forma articulada, idéias anticlericais e de livre pensamento. O movimento estava restrito a um grupo de intelectuais, profissionais liberais, pequenos comerciantes, funcionários públicos e algumas esferas da política.

Temas, tendências e imagens de A Lanterna e O Livre Pensador

Neste dois jornais, as tendências não são iguais embora apresentem as características básicas do movimento anticlerical de período,. No que se refere a relação com a maçonaria apresentavam aspectos singulares que refletem com clareza as tensões entre diferentes grupos e ideias características desta época da história do Brasil republicano.

O jornal A Lanterna  definiu-se, quando surgiu, como um órgão de propaganda anticlerical que deveria denunciar e julgar a Igreja Católica Apostólica Romana e seus membros, vistos como causadores da ignorância e miséria de populações inteiras pelo mundo. Defendia projetos de constituição de uma sociedade laica, do progresso e da civilização em oposição às concepções clericais. Em 1909, quando reaparece, pretende ser “(..) uma tribuna de livre discussão, para uma investigação sincera da verdade, eco às aspirações do nosso tempo.”(A Lanterna, ano IV, n.1).

Os ataques eram dirigidos aos dogmas e crendices da Igreja, às incoerências existentes entre o cristianismo primitivo, puro e seu desdobramento nas explorações do Vaticano, assim como às relações de poder que garantiam aos sacerdotes desta instituição livre trânsito na sociedade brasileira, intervindo em círculos que iam da política até a intimidade familiar. Atacava-se o papado, o clero em geral, a vinda de ordens religiosas para o Brasil, os desmandos da República que se dobrava à Igreja, a violência da polícia defendendo o clero. O jesuitismo, associado a Inquisição, foi a imagem de tudo o que era atrasado, mal e imoral, representando a corrupção e o passado, sendo o oposto dos ideais de progresso e civilização moderna. A moralidade dos padres é colocada em dúvida: os seminários são locais de perversão e devassidão. Denunciam, entre outros, casos de abuso sexual de menores e mulheres, pederastia, concubinato, abortos, filhos ilegítimos, alcoolismo, exploração da fé, vadiagem, impunidade, desvio de doações, riqueza do clero, etc.

A propaganda anticlerical do A Lanterna procurava desacreditar a Igreja católica como instituição e o caráter nocivo e pernicioso de seus sacerdotes. Os rituais da Igreja são criticados por serem pura hipocrisia e exploração da ignorância. A confissão aparece como um grande mal, sendo considerada absurda, imoral e perigosa para crianças inocentes sem a possibilidade de maiores transgressões além de manter informados os seus “confessores” acerca do que ocorria no âmbito familiar,  e mulheres que expondo seus segredos, suas intimidades e sua vida particular, poriam-se à mercê e sob a tutela direta de padres de comportamento duvidoso.

Na propaganda anticlerical o projeto de laicização da sociedade passava pelo necessário desmantelamento da Igreja Católica vista como uma instituição incoerente, imoral e propagadoras de formas de dominação que mantinham os homens no conformismo, na ignorância e na miséria, calando anseios de rebeldia, liberação e progresso. Contra a Igreja, devia-se investir forte na educação laica feminina e infantil, valorizando a racionalidade, a cultura, o trabalho, a igualdade, a moralidade pública, a ética pessoal e social, as artes, a sensibilidade, e uma espiritualidade desvinculadas dos cabrestos de dogmas e instituições, etc. Era fundamental a completa separação de Igreja e estado, da política e religião.

O ensino tornou-se um ponto fundamental. Reafirmava-se a necessidade do governo coibir a atuação dos clérigos na educação através do incentivo e promoção de um ensino laico moral e sadio, público e científico.

Cabe destacar o caráter maniqueísta da propaganda anticlerical: de um lado, livre pensadores e anticlericais, representando a razão, o progresso, a civilização, a ciência, a liberdade, a sociedade, a aspiração justa; de outro, a Igreja e seus membros, representando a hipocrisia, a ignorância, o atraso e a miséria, tudo que era nocivo. Algo assim como um verdadeiro cancro que deveria ser extirpado o quanto antes, ainda que por métodos enérgicos, conforme defendiam algumas alas. A decadência de alguns países, como Portugal e Espanha, era intimamente associada a influência da Igreja Católica. Se o Brasil quisesse progredir devia livrar-se do clericalismo, do jesuitismo, do domínio católico, sob pena de se condenar ao imobilismo, ao atraso, ao definhamento e a asfixia. A ciência, essencial para este progresso, seria sempre perseguida pelas forças clericais lançando mão, para isso, de todos os meios ao seu dispor.

Aliás, o caráter internacional do movimento era destacado de forma constante: tanto perseguições como os avanços do movimento no mundo eram noticiados. Artigos traduzidos e ficava muito claro o contato com o movimento anticlerical e de livre pensamento internacional, principalmente em Portugal.

No A Lanterna aparecem muitas críticas às influencias clericais no governo de Rodrigues Alves e ao protecionismo que ele dá ao clero. Afirmava que a presença da maçonaria e de maçons na política deveria representar uma arma contra este tipo de aliança. Tempos depois alguns maçons no governo como Campos Sales, Prudente de Morais, Bernardino de Campos, Rio Branco, foram citados como traidores, fracos e omissos, diante dos avanços políticos dos aliados do clericalismo no poder. Defendiam o papel da maçonaria no combate ao jesuitismo. Em setembro de 1903 esta questão ganhou destaque no artigo intitulado “O jesuitismo e a Maçonaria” onde foi apresentada a moção aprovada na Assembleia Geral do Grande Oriente de São Paulo e dirigida ao Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, Quintino Bocaiúva, que “(..) resolveu em sessão de 21 corrente votar uma moção de confiança ao Gr∴ Or∴ do Brasil certo de que ele saberá manter as tradições gloriosas de Saldanha Marinho e Rio Branco, opondo barreira forte à invasão perigosa que ameaça tudo avassalar, desde as mais altas regiões da vida nacional até as mais ínfimas camadas das classes sociais.” (19-27 de setembro de 1903, ano II, nº 16-7).

A Lanterna sempre esteve ligado a maçonaria, ou, pelo menos a certos grupos de maçons fortes e influentes. Surgiu de um esforço de Benjamim Mota (advogado) e de um grupo de maçons da Loja Luso Brasileira (cf. A Lanterna, ano III, n.16). Maçons aparecem nas listas de subscrição que sustentavam o jornal, como articulistas, anunciantes. Há notas e artigos referentes a Lojas Maçônicas – tanto nacionais como internacionais – a associações maçônicas beneficentes, políticos relacionados com a Maçonaria e críticas aos setores da maçonaria que não defendiam o anticlericalismo.

Existem informações sobre auxílio financeiro que lojas maçônicas fizeram para garantir a existência do jornal. O noticiário dava conta da vida das lojas maçônicas. Por exemplo, no A Lanterna de 14-15 de novembro de 1901 (ano 1, nº 9) existe uma referência a instalação do Grande Oriente de São Paulo como integrante do Grande Oriente do Brazil. A articulação do movimento livre pensador e anticlerical revelam aspectos sociais amplos. Em junho de 1903, o A Lanterna noticia o falecimento da livre pensadora D. Antonietta Algaya de Almeida, fundadora da Associação Beneficente de Senhoras do Rio Grande do Sul e filha de José Domingues de Almeida, Gr∴ Sec∴ do Grande Oriente de Rio Grande do Sul.

O Livre Pensador dirigido por Everardo Dias, maçom, socialista e espiritualista, tem uma faceta característica: embora esteja dentro das tendências gerais do movimento anticlerical e de livre pensamento revela algumas nuances distintas. Quando o assunto era desmoralizar a Igreja surgiam os artigos contra o papismo, o dogmatismo, a exploração da fé, a teologia, a canonização, etc. Apareciam muitas críticas contra os padres que atacavam protestantes, maçons, espíritas, livre pensadores, socialistas, etc., em suas prédicas. (p.ex. O Livre Pensador, ano II, n. 73).

Procurava-se “dessacralizar” a verdade absoluta da religião católica amparando-a com cultos pagãos, desmistificando relatos bíblicos. A ciência, o conhecimento histórico de outras religiões e da própria história da Igreja eram elementos fundamentais para determinar novos parâmetros da religião. A investigação, as explicações científicas baseadas em fenômenos físico-químicos ou em dados empíricos, o método científico-experimental, seriam os crivos pelos quais a religião seria analisada e julgada.

No O Livre Pensador apareciam, claramente colocadas, duas tendências no que se referia a religião: uma detração completa ao pensamento religioso em geral e ao da Igreja em particular; ou então, uma comparação entre o cristianismo primitivo puro e autêntico e o catolicismo caracterizado como corrompido, nocivo e retrógrado. Havia também defesa do que eram chamadas seitas mais humanas, mais científicas, como o espiritualismo e o espiritismo, defendidas dos ataques dos clericais e dos protestantes.

Os temas eram os tradicionais: a mulher na sociedade, igualdade, ensino laico. Surgiam críticas aos maçons, espíritas e republicanos que, na vida política e pública, cediam às pressões da Igreja e não defendiam ideais anticlericais. A República era cobrada por permitir que o clero interferisse em decisões importantes como as propriedades de ordens religiosas e na educação.

Destacavam os projetos que estavam no Congresso referentes à liberdade de cultos e de associações religiosas, a intransigente defesa da função de uma imprensa livre pensadora e anticlerical. Citavam viagens de propaganda pelo interior de São Paulo, no meio operário. Estas “Conferências Livre Pensadoras e Maçônicas-Liberais” eram feitas ao longo das ferrovias Mogiana e Paulista (cf. O Livre Pensador, ano VI, n.193). São constantes as notícias do exterior, bem como a tradução de artigos, editoriais. A natureza dos assuntos era eclética: espiritualismo, medicina preventiva, homeopatia, combate ao alcoolismo, tuberculose, doenças sexualmente transmissíveis e tabagismo, etc.

No O Livre Pensador é possível perceber uma convivência do materialismo e do cientificismo com a defesa dos espíritas e de sua doutrina contra os argumentos clericais: tratava-se da defesa da liberdade de culto. Também instrumentalizavam o passado através de análises sobre a Inquisição e de figuras como Galileu, Giordano Bruno, colocados como mártires do livre pensamento.

As diferentes características dos dois periódicos refletiam tendências do movimento em sua época, encarnadas nas figuras de seus editores: O Livre Pensador dirigido por Everardo Dias, maçom, anarquista e espiritualista, revela um contexto intelectualizado, de discussão e defesa do espiritualismo e doutrinas afins; A Lanterna de Benjamim Mota, maçom e anarquista, revela uma tendência de discussão de temas relacionados à política e ao anticlericalismo mais ferrenho.

Evidentemente que este artigo levanta questões que devem ser aprofundadas através de pesquisas. Não estamos diante de um movimento representativo para amplos setores da população, de uma mentalidade popular, mas não devemos subestimar a existência e propagação de alguns destes ideais e sentimentos em setores da sociedade e outros movimentos tais como a própria maçonaria. Não devemos entendê-los como cópias de movimentos similares estrangeiros. As similaridades existem mas as especificidades brasileiras devem ser mais estudadas, assim como a instrumentalização ou adaptação de uma determinada linha de argumentação usada contra os clericais.

A queixa frequente da falta de coerência de maçons, espíritas, republicanos, socialistas brasileiros que não eram ostensivamente anticlericais é, por exemplo, um dado que nos coloca em confronto com outros movimentos internacionais. Pusilanimidade? Este era o argumento dos articulistas ferozes. Os jogos de poder, a sobrevivência, a ascensão social, as mentalidades de uma época são elementos que não podem ser desqualificados ou esquecidos: devem ser investigados, interpretados e reinterpretados, revelando tendências, movimentos e debates que desfazem o manto homogeneizador sob o qual abrigam-se denominações genéricas, como maçonaria que sabemos ser hoje também, dividida em “Potências” de várias obediências. Assim também revelam-se múltiplas as denominações de anticlericalismo e livre pensamento.

O que surge até agora, é um tecido cultural riquíssimo para a elucidação e melhor compreensão de diversos aspectos não muito claros porém repleto de espaços para jogos políticos os mais sedutores, curiosos e interessantes, embates de vontades, poderes e influências, de dissimulação, de interesses escusos em posturas, atos e discursos, de ideários febris,  sonhadores, utópicos e delirantes, de utopias transformadoras em nome de interesses comunitários locais, nacionais ou, até mesmo, mundiais, através das quais determinada concepção de sociedade deveria ser colocada em prática. Porém, o elemento de união foi a crença, por vezes contraditória, na existência de verdades e ideais que apontavam o “verdadeiro Destino Natural do Gênero Humano”, definindo e justificando todas as suas ações e argumentações, expressando-se não somente através da imprensa, mas também em manifestações  e ações políticas – nem sempre bem sucedidas.

Autora: Eliane Moura Silva

Nota

[1] – Este artigo faz parte de um projeto mais amplo de pesquisa intitulado O Espiritualismo no século XIX: Correntes culturais e religiosidade, financiado pelo CNPq desde 1995. A observação destas ligações no campo de uma história cultural das idéias do século XIX e XX surgiram durante o trabalho de doutorado que levou a tese Vida e Morte: O Homem no Labirinto da Eternidade (Unicamp, 1993). Ao estudar as crenças e atitudes diante da morte e do após a morte no século XIX ficou claro que o pensamento racionalista e materialista tivera, neste período, opositores no campo da própria ciência, com destaque para  certas construções teóricas ecléticas que produziram discursos sobre Ciência e Fé, Religião e Razão. Espíritas, Esoteristas, Ocultistas, maçonaria mística, espiritualistas em geral, aliaram-se ao livre pensamento e ao anticlericalismo.

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Sobre Luiz Marcelo Viegas

Mestre Maçom da ARLS Pioneiros de Ibirité, Nº 273, jurisdicionada à GLMMG, oriente de Ibirité/MG. Membro da Escola Maçônica Mestre Antônio Augusto Alves D'Almeida - GLMMG Contato: opontodentrodocirculo@gmail.com
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