Para que nos reunimos aqui?

Logo no início dos trabalhos de Aprendiz Maçom, o Venerável Mestre, ao indagar o 1º Vigilante sobre os motivos da realização da reunião, tem como resposta:

“Para combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício.”

Apesar do assunto ser bem trabalhado na sessão de Iniciação, a intensidade da cerimônia talvez não atraia a atenção necessária. Lado outro, talvez tal resposta seja uma das mais importantes para a vida do maçom. Muitas vezes, afetado pelos problemas do dia a dia, o maçom pode se indagar: por que continuo maçom? Para que serve mesmo a reunião? 

A resposta está no próprio ritual e é repetida, reiteradamente, toda reunião.

Necessário nos aprofundarmos sempre no ensinamento ali contido:

“(…) combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros (…)”

Vejam meus irmãos que a ideia aqui é mostrar ao maçom que ele deve sempre preservar o livre pensamento da pessoa humana, preservando-o das adversidades do mundo profano. Se volvermos nossos olhos à época de fundação das primeiras lojas maçônicas e da edição de nossos landmarks, constataremos que toda a doutrina maçônica se baseia no ideal iluminista, que tinha como pensadores pessoas como Descartes, Adam Smith, Diderot e Montesquieu, entre outros. O movimento iluminista que serve como pano de fundo para a maioria das revoluções do século XVIII, como a Revolução Francesa, a Revolução Americana e até mesmo a nossa Inconfidência Mineira (uma tentativa frustrada de revolução).

Tal doutrina tem como elemento principal o direito de o cidadão viver e agir de maneira digna, reduzindo, sensivelmente, o poder do Estado sobre o indivíduo. A partir daí, valorizam o pensamento racional (e daí o direito de questionar até mesmo o Estado), os direitos naturais (que nascem com ele) e a crítica a governos autoritários, com ampla liberdade política, econômica e religiosa.

A ideia do maçom de se combater os tiranos é exatamente de evitar render louvores a posições autoritárias, com supressão pelo Estado de direitos individuais do cidadão. O ritual vai além e exige do maçom que ele não se renda aos preconceitos e à ignorância, ou seja, que lute contra o posicionamento típico daqueles que levam o pensamento dogmático (muitas vezes nutridos por uma religiosidade sem questionamento), literalmente.

Não cabe ao maçom apenas cumprir sem questionar! O maçom é um pensador na essência e, como tal, tem a obrigação de questionar.

Propagar ignorância (ausência de estudo sobre um determinado termo) ou preconceito (opinião desprovida de um mínimo de pensamento crítico), é vedado ao maçom. Necessário um especial cuidado!

Mas daí poderíamos pensar: Ora, então cabe ao maçom desrespeitar deliberadamente as autoridades? Não é esse o ideal maçônico…

O ritual diz:

“(…) glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade, para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos á virtude e cavando masmorras ao vício(…)”

A primeira parte de tal frase chama a atenção por usar os termos Direito, Justiça e Verdade em letra maiúscula. O uso do termo “Direito” com letra maiúscula é a consagração da “ciência do Direito”. Se partirmos do princípio de que o REAA é originalmente em inglês, a palavra original seria o termo “law” e não “right”. Por força do nosso idioma, o termo Direito (como ciência) e direito (certo, correto) são palavras homônimas, mas não são sinônimas. O uso da palavra varia conforme o significado.

Quando o ritual opta pelo Direito como ciência, diz que cabe ao maçom respeitar a ciência do Direito, aí incluindo, especialmente, nossa Constituição Federal (norma máxima e base do Estado Democrático de Direito). O respeito à Constituição pressupõe o respeito às autoridades constituídas.

Ou seja, cabe ao maçom questionar racionalmente, mas jamais propor o desrespeito às leis; jamais propagando a desobediência civil.

E o ritual continua pregando o respeito da Justiça e da Verdade. Aqui, uma vez mais, o termo Justiça não advém da noção de “justo ou injusto”, noção totalmente individual. O que é justo para mim pode não ser para o meu irmão e vice-versa.

A noção de Justiça que o ritual traz, interpreto como sendo a autoridade judiciária; ou seja, respeito àquele a quem a nossa Constituição dota o poder de “dizer o Direito”, o que a doutrina jurídica chama de jurisdição. Assim, nossos juízes são as pessoas a quem a Constituição deu o poder para definir o que é justo ou injusto, dentro dos limites da própria Constituição.

A noção de Verdade talvez seja um dos principais deveres do maçom, especialmente em época em que o ser humano tem acesso infinito à informação (de todos os tipos), com o uso do sistema mundial de computadores. Nosso ritual exige que apenas propaguemos a verdade. Devemos ter noção de saber muito bem diferenciar a opinião (livre convicção do indivíduo) do que é fato (verdade indiscutível).

Em época das malfadadas “Fake News”, o maçom deve ser um catalisador de informações, tendo o dever de apenas passar à frente aquilo que seja fato e de desmentir o que seja falso! É nosso dever saber e propagar o que é verídico! Apenas com a estrita observância de nossos ensinamentos é que sairemos de casa com a justa consciência do objetivo de nossas reuniões, lembrando que, se nos desvirtuarmos de nosso objetivo, nos desvirtuaremos como maçons.

Autor: Fernando Ramos Bernardes Dias

*Fernando é ex-Venerável Mestre da ARLS Renovação e Progresso, nº 250, do oriente de Patrocínio, jurisdicionada à GLMMG.

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