Maçonaria e Filosofia – O ensaio de um adeus

“Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses.” Sócrates 

A Maçonaria, tal como um austero templo românico, originalmente era harmoniosa. Um lugar de arte e espiritualidade, um legado de saber pouco dado a decorações supérfluas e fácil de definir no seu propósito. Contudo, os sucessivos restauros e acréscimos tornaram-na num edifício híbrido, desfigurado interiormente e adulterado no seu traçado original. Já houve uma Idade do Ouro maçônica, mas o tempo fez suceder as idades rapidamente e hoje é difícil encontrar a Luz que vinha do Oriente. 

A Maçonaria revestiu-se de muitas Maçonarias diferentes ao longo dos séculos, fazendo, nesse percurso, papel de heroína e vilã. Fundou nações, reclamou liberdades e direitos cívicos, mas procurou, de igual modo, liquidar a religião em nome do progresso. Defendeu os fracos e os aflitos, é certo, mas ajudou a manter no poder os já poderosos. A história da Maçonaria é uma história de contradições aparentemente irresolúveis, sujeita às paixões e temperamento dos próprios homens. 

Na concepção daqueles que originalmente redigiram os rituais e catecismos só havia uma Maçonaria. Tudo o que se desviava da ética, espiritual, estrutural e filosoficamente dos seus princípios fundamentais era uma fantasia criada por ignorantes da Arte Real. Efetivamente ao Maçom exigia-se que soubesse responder de maneira invariável a um conjunto de questões que descreviam a sua iniciação e definiam a Ordem. Dentro destes limites fazia-se Maçonaria. Fora deles estava o mundo profano. Hoje a Maçonaria é “plural”, feita de visões múltiplas e inconstantes nos seus princípios, estrutura e filosofia, e as perguntas e respostas de outrora já não são conhecidas da maioria dos Irmãos. As fronteiras entre o que é a Maçonaria e o mundo profano foram-se diluindo. 

Sob o mesmo nome “Maçonaria” subsistem um sem número de organizações de tendências diversas e não importa estar aqui a dissecar as inúmeras variantes conhecidas e os seus ritos mas, se nos reportarmos aos documentos antigos, verificamos claramente que existem limites simbólicos tradicionais na sua raison d’être. A Maçonaria de hoje, ao não aceitar limites, em tudo incluir, cai presa dessa enorme gula e, embora seja dita Universal, aceita negar esse mesmo Universo de onde provém. Assim sendo, o que é afinal a Maçonaria? 

Tal como todos os grandes conceitos como a Justiça e a Liberdade, a Maçonaria é uma afirmação em abstrato e outra bem diferente no plano concreto das realizações. Ali revela-se como uma sociedade iniciática, fraternal e simbólica, capaz de melhorar homens e de lhes dar uma visão de transcendência que os coloca numa posição justa e perfeita para intuírem a Verdade Universal, a essência das coisas, a Luz que sai por si mesma das trevas. Aqui está sujeita à imperfeição dos seus membros, ás suas paixões e ao seu entendimento limitado sobre o seu propósito e natureza. Cada um vive-a à sua maneira e move os limites filosóficos do que ela é realmente para os adaptar à sua estreita inaptidão humana, à dimensão do seu mundo. Os homens que não a entendem não querem crescer para abarcar a sua transcendência. Adaptam-na. Amputam-na. Reduzem-na para que caiba no bolso e se possa arrumar numa estante ou num vão de escada.  

Hoje, depois de três séculos de transformações na Maçonaria especulativa, é difícil encontrar uma definição aceitável para o que ela é. Um dos refúgios gerados pelo pensamento moderno é abordar a questão maçônica pelo lado utilitário. Não se trata apenas de saber o que é a Maçonaria, mas sim e também para que serve. É aqui, ao tentar-se ser objetivo que se perde a objetividade de entender que a Maçonaria é uma Escola Iniciática e nada mais. Sempre que procure ser outra coisa qualquer, perde simplesmente o rumo por perder a sua essência. Aliás, para a maior parte dos Maçons o conceito de Iniciação escapa totalmente à sua compreensão. A Maçonaria hoje perdeu o seu papel na sociedade porque a sociedade atual criou outras formas de fazer um seu equivalente. Por outro lado, a Maçonaria esqueceu-se do que é (uma via iniciática) e procura viver o que não é. Antes do mais, a Maçonaria não é uma sociedade filantrópica, caritativa e beneficente. Para fazer filantropia não são necessários templos, rituais, passagens de grau, nomes simbólicos, medalhas ou aventais.

Noutra perspectiva, a Maçonaria não é uma escola de doutrinamento moral e espiritual do indivíduo, porquanto a mesma não comporta uma doutrina. A Maçonaria também não é um fórum de livres-pensadores porque, para além de extravasar o quadro racional, há componentes dogmáticos de “livre pensamento” que excluem, por exemplo, o pensamento místico nas suas lojas. E será a Maçonaria um lobby? Há uma percepção pública, de índole negativa, em que a Maçonaria é tida como uma agência de interesses, um grupo de negociatas ou um areópago de decisões políticas. São conhecidas as tristes histórias de grupos de homens que se serviram do nome da Maçonaria para agirem em nome de interesses específicos e individuais pouco salutares. Os títulos de jornais chamaram-lhes Maçons, mas podiam dizer com a mesma legitimidade que eram advogados, arquitetos, membros do clube do livro ou adeptos de um determinado clube de futebol. 

Sendo a Maçonaria uma via iniciática esta implica uma transformação interior do indivíduo. A Iniciação obriga o homem a trabalhar as suas imperfeições e ambições, confrontando-o com elas. Assim, para ensinar a sabedoria e a virtude, a Maçonaria usa o véu dos símbolos. Os símbolos são, por sua vez, as regras da linguagem metafísica, do código linguístico partilhado por todos os seus estudantes. Há, assim, uma necessidade imperiosa de estudo no campo da Maçonaria. Nenhum homem se transforma se não se conhecer a si mesmo, como profetizou um dia o Oráculo de Delfos. E para se conhecer é preciso estudar! O estudo de si mesmo chama-se reflexão, o estudo do meio que nos envolve, sob o ponto de vista as grandes questões existenciais, chama-se Filosofia.

A Maçonaria aguçou em mim o profundo respeito pela Verdade. Só a Verdade é congruente. Como refere o Novo Testamento sobre o tema da Verdade: 

“Quem pratica a VERDADE, aproxima-se da Luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.” (JOÃO 3:21)

“CONHECEREIS a verdade e a verdade vos LIBERTARÁ”. (JOÃO 8:32)

Como costumo referir algumas vezes em jeito de brincadeira, antes de ser Maçom já o era. Cruzei-me com a via maçônica, como antes escrevi outros textos, por “fatalismo” inevitável do destino. Digamos que era um acontecimento da minha vida destinado a sê-lo. Nesse propósito, a Maçonaria, para além de toda a áurea de mistério que desde sempre a envolveu na minha percepção, tinha a acompanhá-la um modelo (perfeito) de comportamento humano. E a Verdade, nesse quadrante, era para mim a sua pedra de toque. A verdadeira humildade do homem está em ser-se verdadeiro. Consigo e com os outros. Só na verdade se constroem os grandes desígnios humanos. Com o cinismo e com a hipocrisia por colunas nenhum edifício se portará à continuidade duradoura. Assim, no meu modesto entendimento, a Verdade é contígua à perfectibilidade. Individual e societária. Como determina o preceito bíblico, a Verdade aproxima-nos da Luz, de Deus, e, nenhuma instituição, pessoal ou societária, se deve desviar do seu Oriente. Como Maçom é-me imperativo dizer a Verdade, mesmo que incômoda, no seio da loja a que pertenço. O direito à crítica, desde que justa e necessária, deve prevalecer sobre as conveniências relacionais. Expresso o meu direito à crítica, nesta prancha, por entender que o caminho maçônico trilhado pela nossa Ordem não o é. Pelo menos não o é como eu o entendo. Não que tenha a fórmula e o conhecimento exatos do que é a Maçonaria justa e perfeita, mas tenho, pelo menos, a formulação e equação do seu estudo e trabalho. Tenho o direito à crítica, construtiva, por entender merecer o direito de opinar sobre o que me parece incorreto e enviesado no caminho trilhado. 

Ter Irmãos em loja que sentem que fazer Maçonaria é “fazer acontecer” em contraposição a um pretenso intelectualismo de “clube do livro”, denegando a essência filosófica da obra maçônica, não é, no meu entendimento, conhecer da verdadeira via iniciática. A Maçonaria não são as obras paramaçônicas nem os encontros de lazer (e de trabalho) entre Irmãos fora das portas do Templo. Poderão dela fazer parte como complemento, natural e afetivo, de uma relação de fraternidade. Não são a prioridade! E não o são para os Maçons que têm da Maçonaria porventura uma visão, se quiserem, mais “filosófica”! Há espaço para todos na Maçonaria, mas dentro da Maçonaria, não no reduto das nossas prioridades de estômago! Muita celeuma se levantou, durante estes tempos de pandemia, sobre a impossibilidade de se realizarem sessões maçônicas com mais de dez maçons em templo. Correto. Era de lei, da sua interpretação, e uma questão de premente salvaguarda da saúde pública. No entanto, na primeira oportunidade de se organizarem os conhecidos almoços de clube não se hesitou, por um segundo, em se equacionar sobre a moralidade/legalidade de tais atos. Se para as realizações de sessões em loja se levantaram as “armas e os barões assinalados” porque se renderam tão facilmente às seduções das ninfas de Pantagruel? 

Alguns Irmãos tomaram esta minha posição, já feita no fórum do WhatsApp, como se de um ataque pessoal se tratasse. Nada mais errado! Nada tenho contra as realizações da “maçonaria à mesa”, como as classifiquei de forma amistosa, porque sei que muita obra se produziu às mesas do restaurante do … FC, mas a pergunta subsiste: é preciso ser-se sócio do clube para nos inteirarmos das obras maçônicas da Ordem? E quem não participa dos prazeres da cabidela? 

Insisto, a Maçonaria tem o seu campo específico e os assuntos paramaçônicos devem ficar circunscritos ao espaço de quem deles quer participar. Não devem, em circunstância alguma, sobrepor-se aos vetores estritamente maçônicos. Todos os projetos culturais discutidos para a Ordem não saíram do seu juízo de intenções, da sua fátua vontade em fazê-los, do seu jogo de vaidades pueris. É isso que lamento. À mais ténue tentativa de realização dos nossos prazeres de mesa dispomo-nos prontamente aos “trabalhos maçônicos”, mas para apresentar Filosofia Maçônica, seja num simples trabalho escrito ou numa palestra pública, isso é trabalho para as calendas gregas (sempre a Grécia, maldita Filosofia!) …

Além de que não é unânime que esse seja esse o vetor e razão substancial da existência da Ordem, da obra maçônica em si. Como ficamos, afinal? Há uma essência filosófica na aspiração maçônica ou a prioridade são as realizações paramaçônicas, obras de realização física, de importância primordial na sociedade (e ainda mais nos tempos que vivemos), mas necessariamente coincidentes com as realizações de outras instituições profanas?

Este é o meu terceiro ensaio de saída. Aquilo que me motivou a voltar, das outras duas vezes em que saí, era muito mais forte que as razões para o abandono. Neste momento, quando se percebe que o livre pensamento, pedra basilar na construção do edifico maçônico, ofusca a fundação das relações pessoais, é sentido que é hora para o abandono definitivo. Não que deixe alguma vez a condição de Maçom; isso vou sê-lo eternamente. Aliás, antes de o ser já o era. Nada me demove nas minhas convicções de espírito, na minha fundação da Verdade, no meu propósito de homem e Maçom. Ser-se Maçom é ser-se livre, frontal e arrojado nas suas ideais, expressando-se as na sua clareza de espírito e no desassombro das suas convicções. A Maçonaria é uma escola de Mistérios, que leva o Homem a combater os seus vícios e exaltar as suas virtudes. A livre expressão da palavra, palavra essa pela qual tantos homens (e tantos Maçons) deram a vida para a deterem e usarem expressamente, é o cinzel do Maçom, o seu controle da vontade e a expressão visível da sua futura obra. Nenhum Maçom é Maçom sem obra feita, sem um caminho trilhado no qual outros Irmãos se revejam e nele se reconheçam como tal. Aspirar a ser-se Maçom sem um compromisso de Vontade, sem a sua expressão da Verdade e sem o seu manifesto de Virtude, é o mesmo que tentar fazer Filosofia numa gaiola de vaidades. 

Encerro este meu percurso nesta Ordem com um manifesto trinitário. Elaborei antes dois trabalhos onde concatenei a Maçonaria com a Psicologia (o Ego) e com a Literatura (a Poesia), encerro hoje com a Filosofia (como manifesto de um adeus). Para mim não existe Maçonaria sem Filosofia, porque a Maçonaria é razão e sentimento. É mente e coração. Pensar sem filosofar é esquadrinhar o vazio sem o propósito do Conhecimento. Saber sair quando as circunstâncias o impõem não é um ato de amuo, de vindicta momentânea, de afirmação dum ego pretensamente ofendido, é sim uma afirmação filosófica, um ato de amor maçônico. A Maçonaria que alguns dos meus Irmãos pretendem praticar nesta Ordem não é a minha Maçonaria, não é a Maçonaria que eu concebo por via iniciática. Por saber que posso ser eu a estar errado deixo-vos em liberdade decisória, mas também em incerteza filosófica. Do caos surgirá a ordem, hoje e sempre. 

Até sempre!

Autor: [Giordano Bruno], M∴M∴

Fonte: Academia.edu

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