A Lenda do Ofício – análise crítica: Carlos Martel

Finalmente, a Lenda do Ofício chega à introdução dele na Europa. Relembremos esta parte do texto:

Homens da Fraternidade curiosos viajaram por diversos países, uns para aprenderem mais da arte de construir e aparelhar, outros para ensinar aqueles que tinham poucos conhecimentos. E assim sucedeu que houve um curioso Maçom, chamado Maymus Grecus, que esteve na construção do Templo de Salomão e que veio para França e aí ensinou a ciência da Maçonaria aos homens de França. E houve um, da linhagem real de França, chamado Carlos Martel; e ele era um homem que gostava muito desta ciência e aproximou-se deste Maymus Grecus, acima referido, e aprendeu com ele a ciência e obteve através dele os Deveres e as Regras; e mais tarde, pela graça de Deus, foi escolhido para ser Rei de França. E quando ele estava nessa função, contratou Maçons e ajudou a fazer Maçons de homens que não eram nada; e pô-los a trabalhar e deu-lhes os Deveres e as Regras e bom salário, tal como tinha aprendido de outros Maçons; e confirmou-lhes uma determinação de se reunirem anualmente; e acarinhou-os muito; e assim chegou esta ciência a França.

Esta passagem confirma-nos uma já anteriormente verificada característica da Lenda: o anacronismo. Neste caso, particularmente evidente por indicar a convivência de um trabalhador que teria participado na construção do Templo de Salomão, Maymus Grecus, com Carlos Martel, coisa notável, se tivermos presente que o Templo de Salomão foi construído no século XI antes de Cristo e Carlos Martel viveu entre 688 e 741 depois de Cristo. Só dezessete séculos de diferença…

Mas, como já anteriormente tivemos oportunidade de ver, o anacronismo reincidente na Lenda funciona como elemento de ligação dos personagens da estória. No caso, avultam nesta passagem dois elementos: a crença na introdução na Europa da ciência da Geometria e da arte da construção em pedra aplicando os princípios descobertos por essa ciência através de França e a admiração que, manifestamente, existia por Carlos Martel na Idade Média.

Ao primeiro destes elementos não são, seguramente, alheios os fatos de ter sido em território francês que existiu grande atividade de construção de catedrais em tempos medievais e de, manifestamente, ter existido uma categoria de trabalhadores que muito beneficiou e se desenvolveu com essa construção, que ciosamente guardaria para os seus elementos os segredos da arte de construir. Basta notar a importância que tinha, para a construção de uma catedral com dezenas de metros de comprimento, a correta e exata determinação dos ângulos retos entre a sua fachada e as paredes laterais: um ínfimo erro na determinação dese ângulo e resultaria uma catedral com as paredes laterais alargando-se ou estreitando-se, formando um grotesco paralelogramo, tanto mais visível quanto maior fosse a extensão das paredes laterais…

Não se pode asseverar que a introdução da Arte Real na Europa se fez via França. Mas num ponto a Lenda indiscutivelmente acerta com a realidade histórica: a História da Arquitetura mostra-nos que, na Alta idade Média, circulavam pela Europa grupos de construtores, buscando emprego na construção de edifícios religiosos, palácios, torres, praças-fortes, etc.

Personagem aparentemente misterioso é o mencionado Maymus Grecus. Nenhuma referência histórica existe a este nome. Mas não se afigura particularmente difícil estimar a origem deste nome, se estivermos atentos a que, numa passagem posterior da Lenda se refere que o Príncipe Edwin publicou uma proclamação no sentido de que que qualquer maçom que tivesse em seu poder quaisquer textos contendo Deveres ou práticas da Arte Real deveria apresentá-los e que, em resposta, reuniram-se textos, “alguns em francês e alguns em grego e alguns em inglês e alguns em outras línguas“.

Se alguma referência existia a um arquiteto grego num texto em alemão, seria algo como “ein Maurer Namens Grecus)” (um maçom=construtor de nome grego). Se tal texto fosse em francês conteria provavelmente a expressão “un maçon nommé Grecus” (um maçom chamado Grecus). É fácil entender que, na transcrição para inglês e com a corruptela propiciada pelo voar do tempo, qualquer destas referências conduzisse a que se designasse tal putativo arquiteto grego de Namus Grecus (versão do nome em vários antigos manuscritos maçônicos contendo versões da Lenda do Ofício) ou Maymus Grecus (versão do manuscrito Downland, que utilizei para traduzir e neste blogue publicar a dita Lenda).

É, pois, razoável inferir-se que, mais do que um nome, Maymus Grecus constitui a referência a um qualquer arquiteto ou artista grego, que tenha estado em Jerusalém e ou tenha aprendido os princípios da arquitetura bizantina e tenha viajado para França, no tempo de Carlos Martel. Esta inferência é confirmada pelo fato histórico de que, no século VIII (época em que viveu e reinou Carlos Martel), houve um afluxo de arquitetos e artífices gregos à Europa do Sul e Europa Ocidental, em consequência de perseguições infligidas pelos imperadores bizantinos.

O anacronismo denunciado resolve-se assim se considerarmos que a referência na Lenda é feita a um dos arquitetos gregos que, tendo contactado e aprendido os princípios da arquitetura bizantina, que na época eram aplicados em todo o Médio Oriente, chegou e trabalhou em França, aí aplicando e difundindo esses princípios. E assim se congraça a Lenda com a História…

Uma referência final a Carlos Martel. Embora usualmente referido como um importante rei merovíngio de França, não terá propriamente alguma vez usado esse título, antes os de prefeito do palácio e duque dos francos. Prefeito do palácio era o título utilizado pelo funcionário merovíngio que representava o rei franco no palácio. No século VII, na Austrásia, um dos reinos francos, os prefeitos do palácio passaram a deter de fato o poder político, em nome do rei, que se limitava a um papel cerimonial, tendo-se o cargo de prefeito tornado hereditário. O pai de Carlos Martel, Pepino de Herstal, foi prefeito do palácio da Austrásia. Após derrotar um exército da Nêustria (região que hoje corresponde ao Norte de França, onde está situada Paris) e da Borgonha, foi o primeiro prefeito a estender a sua autoridade sobre todo o domínio franco e assumiu o título de Duque (dux, chefe) dos Francos. Carlos Martel herdou os títulos e manteve e reforçou a sua autoridade sobre todos os reinos dos Francos (Austrásia, Nêustria e Borgonha).

Um ano antes da sua morte, dividiu os seus territórios por dois dos seus filhos adultos: a Carlomano (não confundir com Carlos Magno) entregou a Austrásia e a Alamânia (com a Baviera como vassala); a Pepino o Breve a Nêustria e a Borgonha (com a Aquitânia como vassala). Carlos Martel tinha deixado o trono de rei dos Francos vago desde a morte de Teodorico IV em 737. Os dois irmãos seus sucessores decidiram instalar rei dos Francos (teórico senhor de ambos os prefeitos, mas na realidade mero detentor de poder nominal, sem qualquer poder real, totalmente assumido pelos prefeitos) Childerico III, que veio a ser o último rei merovíngio. Em 747, Carlomano, um homem profundamente religioso, retirou-se para um mosteiro, renunciando ao cargo de prefeito da Austrásia, assumido também por Pepino o Breve. Este então entendeu que era tempo de fazer coincidir o título com o poder de fato e depôs o rei. Foi ele próprio coroado rei dos Francos em Soissons e inaugurou a dinastia carolíngia.

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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