A “Vigilância da Pátria” – A ação da maçonaria brasileira durante a década proibida (1822-1831) – Parte II

Capítulo 1

Das muitas clandestinidades aos impactos da Carta

Esta ordem, que apesar da incansável, e maligna vigilância do Governo Colonial, nasceu e medrou nas cidades principais do Brasil; e agora bafejada pela Liberdade Constitucional ressurge mais gloriosa de uma injusta e bárbara perseguição, que cobre de eterno opróbio seus autores, e merece ser bem conhecida por um povo, que faz rápidos progressos no caminho da civilização60

Quando os autores dos Annaes Maçônicos Fluminenses publicaram, em 1832, as primeiras memórias da atuação da maçonaria no Brasil61, a fraternidade a que pertenciam enfim saía de uma década de fechamentos e proibições de suas atividades, não muito diferente do que fora vivenciado em princípios do oitocentos, período de constituição das primeiras lojas no então território colonial português.

Gozando de períodos de maior ou menor liberdade, a maçonaria esteve sempre relacionada ao imaginário popular e a diversos episódios da história nacional, embora muitas vezes este engajamento maçônico estivesse mais relacionado a uma construção de identidade a posteriori feita própria instituição maçônica do que na realidade cotidiana dos irmãos. Embora a participação dos maçons brasileiros não tenha em todos os episódios reivindicados pela memória da irmandade62, isto não os exclui de outros tantos momentos em que a atuação da ordem se destacou como local de articulação de ideias e pessoas imbricadas em conjunturas e ações diretamente relacionadas à política da época.

No que se refere aos primórdios da ordem no Brasil, não se sabe ao certo quando as atividades maçônicas tiveram início. Mas, há indicativos da presença de maçons em território brasileiro a partir da década de 1780, com especial destaque para as capitanias de Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco. Não é de se estranhar o apontamento destas localidades como focos iniciais das atividades maçônicas, uma vez que eram as capitanias de maior destaque na economia e na política colonial e, consequentemente, com maior circulação de pessoas. Embora a memória maçônica e mesmo uma historiografia mais antiga aponte a existência dos primeiros maçons brasileiros nestes locais, não é possível identificar a existência de lojas no Brasil no último quartel do século XVIII.

Os primeiros maçons brasileiros, como grande parte dos primeiros irmãos da América hispânica, não foram iniciados em seus locais de origem, mas sim em países europeus. Embora, haja referência constante ao papel das universidade como lócus prioritário de acesso à ordem maçônica – com destaque para as universidades de Coimbra, em Portugal, e Montpelier, na França -, Alexandre Mansur Barata, atenta para “outras trajetórias de expansão da maçonaria”, mais especificamente o “papel exercido pelos comerciantes, militares, funcionários públicos que no Brasil se estabeleceram, ou mesmo degredados que, a caminho da África e da Índia, desembarcavam em portos brasileiros e estabeleciam contato com os maçons locais”63.

No que tange a organização de lojas maçônicas na América portuguesa, a historiografia aponta a possível existência de uma loja em Salvador no final do século, segundo a memória maçônica, essa teria sido a primeira oficina no território colonial, fundada em 1797 e contando em seus quadros com alguns nomes ligados à Conjuração Baiana64. Entretanto, faltam estudos sobre essa loja intitulada Cavaleiros da Luz, e que muito provavelmente teria desaparecido ao fim da conjura, como resultado da repressão à revolta65.

Apesar da existência de maçons no território brasileiro e de possíveis articulações entre os irmãos ainda no século XVIII, tais ocorrências não configuram uma atividade coesa e regular que permita maiores considerações (inclusive pela inexistência de fontes sobre suas atividades). Assim, a articulação de maçons como um esforço de construção da fraternidade enquanto instituição no território colonial só se deu a partir da década de 1800, e com maior ou menor destaque, se manterá como força de articulação por todo o século XIX.

1.1 – A maçonaria entre Pernambuco, Rio de Janeiro e Bahia

Nos primeiros anos do século XIX, a formação de lojas maçônicas no território da América portuguesa tornou-se mais frequente apesar da proibição dessas atividades nos domínios ibéricos. Como uma herança da atuação do Santo Ofício, continuada em certas práticas através da Mesa de Consciência e Ordens e da Intendência Geral de Polícia, estabelecida na metrópole em meados do setecentos e no Brasil com a chegada da Família Real. Os processos contra os Pedreiros Livres cresceram em Portugal em fins do XVIII, com a perseguição dos estudantes de Coimbra, de membros de grupos ilustrados da elite portuguesa, além de comerciantes, cônegos, funcionários públicos e militares, atingindo assim, em alguma medida, todos os estratos sociais que compunham a maçonaria no território português66.

O processo de consolidação institucional da ordem maçônica em Portugal se deu no início do século XIX, embora a presença maçônica no reino fosse anterior. Oliveira Marques aponta a Ilha da Madeira como sendo o grande centro difusor maçônico, em parte devido à menor pressão da coroa portuguesa, e também porque contava com a circulação de maçons de diversas localidades, dado seu papel de porto intermediário das rotas atlânticas67.

Ressaltamos que ainda que os processos de consolidação da ordem em Portugal e Brasil sejam paralelos, estes se deram sob as influências de centros maçônicos diversos, o que caracterizou caminhos distintos de institucionalização nos dois lados do Atlântico. Considerando as realidades diversas dessas duas maçonarias e a tênue influência do Grande Oriente Lusitano nos quadros brasileiros, em poucos momentos seus caminhos se cruzaram, dado não apenas as dificuldades de organização da ordem maçônica em Portugal, assim como as aparentes resistências a influência lusa entre os maçons das áreas coloniais, sobretudo no Brasil68.

A formação de uma organização maçônica no Brasil atendia não apenas uma busca por congregar os quadros locais da ordem em um ou mais centros que articulassem atividades, proteção e pertencimento, mas respondia também a projetos políticos distintos surgidos em diferentes partes do território, com destaque para uma certa dualidade Norte- e Centro-Sul, especialmente depois da chegada da Família Real.

As primeiras lojas (1801-1820)

Parte da historiografia considera que a primeira loja maçônica do Brasil teria sido criada no Rio de Janeiro em 1801, com o nome de União e fora fundada por cinco maçons, expandindo seu quadro de membros de forma rápida, congregando irmãos já iniciados, mas também promovendo novas iniciações. Não há relatos sobre aqueles que pertenceram aos quadros originais da União, nem o número exato de membros, mas segundo o autor dos Annaes Fluminenses a loja teria crescido rapidamente, ganhando o reconhecimento de diversas localidades69. No que se refere a essas afirmações dos Annaes Fluminenses, precisam ser vistas a luz da própria construção de uma memória maçônica da década de 1830, que muitas vezes se valiam dos relatos orais de antigos maçons do Rio de Janeiro. Assim, ainda que a União seja a primeira loja formal da colônia, não há mais informações sobre ela além das registradas pelos autores dos Annaes70.

Segundo Colussi e os próprios Annaes, tal expansão teria levado a oficina a mudar seu nome, em 1803, passando a se chamar Reunião. Só depois da mudança de nome é que a loja ganhou sua “carta de reconhecimento e filiação”, emitida por irmãos franceses de passagem pelo Rio de Janeiro. Estes maçons seriam soldados franceses que iam da França para a Ilha de Bourbon na corveta de guerra Hydre, chefiados por um certo “Mr. Laurent”71.

A patente da loja Reunião foi contestada, anos depois, por alguns representantes da maçonaria portuguesa. Fundado o Grande Oriente Lusitano, em 1802, havia a pretensão de concentrar todas as lojas maçônicas em uma única potência que respondesse pelos quadros de ambos os lados do Atlântico. Esta disputa entre a obrigatoriedade de filiação ao Oriente Lusitano ou a permanência de filiação ao Oriente de França implicava não apenas no projeto de construção de um corpo maçônico unificado, mas também de formação de redes de circulação e fidelidades, dado que a potência portuguesa estava diretamente ligada à Grande Loja Unida de Londres. Tais disputas acabaram por fragilizar a Reunião, ao mesmo tempo em que favoreceram a fundação das lojas Philantropia e Constância, ambas ligadas ao Oriente Lusitano.

Contemporaneamente à fundação da Reunião no Rio de Janeiro, há relatos do estabelecimento de oficinas na Bahia, cuja primeira loja oficial teria sido a Virtude e Razão, em 1802, de breve funcionamento, seguida pela Virtude e Razão Restaurada, fundada cinco anos depois e de vida mais longa que sua antecessora72. Não há, contudo, maiores informações sobre a filiação destas lojas a potências estrangeiras, embora o autor dos Annaes aponte que, em 1804, quando um emissário da loja Reunião foi a Portugal negociar os termos dos regulamentos com o Grande Oriente Lusitano, ao parar na Bahia

[…] aí teve o prazer de achar os maçons daquela cidade nos mesmos sentimentos que os do Rio. E porque souberam qual era sua missão, prometeram esperar os resultados dela para decidirem, nunca abraçando o Código maçônico lusitano tal como se lhes apresentava, porque também o consideravam enfermo dos mesmos princípios onde se regia a metrópole para com o Brasil73.

As ligações com o Grande Oriente Lusitano teriam sido problemáticas também em Pernambuco, favorecendo a vinculação das primeiras lojas ou proto-lojas sobretudo à França, suposto local de iniciação dos primeiros irmãos da capitania74.

Embora considere-se que apenas em 1809 foram fundadas as primeiras lojas pernambucanas – Regeneração, em Olinda, e Restauração, no Recife, – há relatos de reuniões maçônicas em Pernambuco ainda nos fins do século XVIII, indicando a existência de uma proto-loja ou loja irregular denominada Areópago de Itambé, cujo fundador seria o padre Arruda Câmara, figura central da ilustração pernambucana em fins do setecentos. Segundo Colussi, tratava-se de uma sociedade política e de pensamento, que pela “perspectiva de organização maçônica, o Areópago se assemelhava ao funcionamento das lojas, devendo-se a isso, talvez, a razão de muitos autores relacionarem o surgimento da maçonaria à existência dessa sociedade”75.

Esta perspectiva de organização das sociedades de pensamento, sociedades patrióticas e outras associações políticas do período se assemelharam em alguma medida ao funcionamento de lojas maçônicas, podendo ser traduzida pela identificação da ação dos maçons como “agentes da revolução”. Para Barata, essa identificação foi iniciada pelos adversários destes grupos como forma de legitimar a repressão do Antigo Regime, mas que permaneceu em uso pela construção de uma memória maçônica como forma de valorização dos seus primeiros quadros76.

É no esteio do Areópago, uma vez que a memória difundida principalmente por Mário Mello, maçom pernambucano do início do século XX, que se encontram as afirmativas acerca da existência de uma outra “composição maçônica” liderada por membros da família Cavalcanti e Albuquerque, cujas ações estariam ligadas à Conspiração dos Suassuna77.

Embora existam genéricas referências à existência dessas lojas nos primeiros anos do oitocentos, elas carecem de fontes documentais que informem sobre suas atividades. Assim, estudos mais recentes remetem à institucionalização da ordem em Pernambuco apenas quando da fundação das lojas de Olinda e Recife. Estas não apenas reuniram os quadros dispersos pela capitania, como multiplicaram seus membros e formaram novas lojas, além de constituírem o eixo fundamental da Revolução Pernambucana em 181778.

O aumento do número de lojas e mesmo a manutenção daquelas já existentes em Pernambuco e outras partes da colônia se tornou mais problemática após a nomeação do último vice-rei do Brasil, dom Marcos de Noronha e Brito, o oitavo conde dos Arcos, em 1806. Contrário às ideias repercutidas pela Revolução Francesa, tal governante é retratado pela memória maçônica como seu maior perseguidor por ver na irmandade o grande vetor de ideias revolucionárias79. A identificação do conde de Arcos pela maçonaria como seu principal antagonista no período deve, entretanto, ser entendida pela própria identificação do conde como um agente do Antigo Regime, assim como a própria ideia de que a maçonaria fosse o grande agente político revolucionário no território colonial80.

Mas, apesar da pressão exercida pelo governo do vice-rei, é importante notar que a própria capacidade de articulação dos maçons luso-brasileiros ainda era muito frágil. A composição de novas lojas de forma regular tinha como obstáculo os próprios conflitos de filiação das lojas luso-brasileiras, divididas entre suas formações originais, com destaque principal ao Oriente de França, o recém-criado Oriente Lusitano e até mesmo a construção de uma potência maçônica proto-nacional81.

A expansão de novas lojas ganhou folego após a chegada da família real em 1808. Ao redor da corte teria funcionado uma loja chamada São João de Bragança82, cujo funcionamento, contudo, é registrado apenas na memória maçônica, que destaca seu fim por ordem do ministro Tomás António de Vila Nova Portugal. Apesar disso, é certo que novas lojas surgiram, em especial nas capitanias onde já havia quadros anteriores. Entre estas novas lojas, merece destaque a loja Distintiva, em Niterói, fundada em 1812, cujo primeiro venerável foi Antonio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, além de diversos outros membros de destaque na corte e mesmo no paço83.

Foi em torno do grupo de Andrada Machado que se constituiu um primeiro ensaio de construção de uma potência maçônica proto-nacional, articulando os grupos de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, com sede em Salvador. Tal potência, fundada em 1813, teria se intitulado Grande Oriente Brasiliano. Mas, como destaca Barata, pouco se conhece, seja em relação ao número de lojas vinculadas ou a composição e número de seus membros84.

Há indicativo de que esse Grande Oriente teria funcionado ao menos até 1817, tendo um papel importante na articulação das pretensões dos irmãos luso-brasileiros quando da Revolução Pernambucana. Tal potência, segundo Oliveira Marques, teria tido maior conexão com as capitanias ao centro e ao norte85, especialmente frente à atuação Vila Nova Portugal no combate à fraternidade no Rio de Janeiro.

A divisão da maçonaria brasileira entre Rio e Pernambuco

Acerca do processo de fundação e refundação das primeiras lojas maçônicas no século XIX, se deu em locais diferentes conforme maior ou menor perseguição aos irmãos. A memória maçônica relaciona a escolha do rito Adonhiramita (ou Rito de 12 graus) pelas lojas da corte como fruto da perseguição86, cuja particularidade central estava na adoção de nomes simbólicos pelos seus membros, o que dificultaria a identificação dos irmãos, uma vez que estes adotavam nomes maçônicos. Outra parte das lojas aderiu ao Rito Moderno ou Francês, que embora não utilizasse a prática de nomes simbólicos, era bastante criteriosa quanto a escolha dos iniciados e a conduta dos irmãos em suas vidas profanas87. Os maçons brasileiros, em sua maioria foram iniciados em lojas de ritos franceses, fossem elas na Europa ou depois no Brasil88.

No que se refere a localização das lojas, nas duas primeiras décadas do oitocentos a maioria se localizava no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. No caso da Bahia, as oficinas se localizavam em Salvador e no Recôncavo, por onde as lojas se espalhavam em caso de perseguição. Entretanto, estas lojas – tal como no Rio de Janeiro – pouco expandiram seus quadros de membros para além dos números iniciais, tratando-se muitas vezes da refundação de lojas antigas ou mesmo da fusão de duas ou mais oficinas. Ainda que para a memória maçônica essa dificuldade se deva em grande parte à própria pressão que os irmãos sofriam por parte das autoridades89, é preciso considerar que neste primeiro momento, a pequena expansão no número de irmãos também se deveu às próprias dificuldades de organização dos maçons no território brasileiro90.

Já no caso de Pernambuco, a situação era diferente, o número de irmãos e de lojas se expandiu significativamente a partir de 1809, com a fundação das lojas Restauração e Regeneração, que deram origem a outras oficinas a partir do crescimento do número de irmãos. Entre as lojas criadas na segunda década do século XIX destacamos a fundação de quatro novas lojas em Recife: Patriotismo (1814), Guatimozim (1816), Pernambuco do Oriente e Pernambuco do Ocidente (1817); além da criação de uma nova loja em Olinda, Universidade Democrática (1815) e de uma loja em Igarassu, Oficina Igarassu91.

Sendo assim, Pernambuco apresenta uma realidade muito particular em relação às demais regiões brasileiras que, no mesmo período (1809-1816) tiveram a criação de apenas três novas lojas, a União (1813) em Salvador, e as lojas Comércio e Artes (1815) e Beneficência (1816), no Rio de Janeiro.

Neste período, Pernambuco concentrava metade das lojas maçônicas do território brasileiro, a porcentagem de iniciados em Pernambuco era similar ao restante da América portuguesa toda. Essa maior organização dos maçons dessa região estava relacionada a própria articulação de um Grande Oriente, e consequentemente de um Grão-Mestre de identificação local, em oposição às imposições e conflitos de interesse com o Grande Oriente Lusitano. O Grão-Mestre eleito para este Oriente teria sido Andrada Machado, maçom respeitado por sua trajetória de resistência na antiga loja Distintiva de Niterói, da qual foi venerável antes do fechamento desta por ordem de d. João92.

Entretanto, esta articulação em torno de Andrada Machado, não era uma unanimidade entre os quadros pernambucanos. Diferente das lojas das demais capitanias, que estavam ligadas a Portugal, França ou mesmo sem vinculações externas na tentativa de construir uma potência própria, a maçonaria pernambucana desde 1813, com a fundação da Restauração, tinha sua vinculação por carta patente à Grande Loja Unida de Londres. Esta potência maçônica havia emitido uma carta de reconhecimento e filiação em nome de Domingos José Martins, ao qual é atribuído o papel de emissário da maçonaria inglesa em Pernambuco93.

Para Colussi, embora a formação do Grande Oriente Brasiliano se apresentasse sob a liderança dos maçons da Bahia, agregando os quadros fluminenses, os primeiros aparentaram uma menor influência sobre os rumos desse Grande Oriente, que estaria mais alinhado principalmente aos interesses fluminenses ligados à corte94. A designação de Andrada Machado como Grão-Mestre atenderia aos desejos dos maçons fluminenses de controle dos quadros brasileiros, sobretudo dos maçons de Pernambuco e capitanias próximas, local de presença maçônica mais antiga e de maior vulto que outras localidades. Assim, relacionar a centralidade do Grande Oriente na Bahia se dava por uma preocupação mais discursiva, reconhecendo a existência da Cavaleiros da Luz como a primeira loja maçônica do Brasil, mas estava relacionado aos interesses dos maçons fluminenses.

Enquanto para Colussi o Grande Oriente Brasiliano representava os interesses dos maçons fluminenses, para Pablo Magalhães esse Oriente seria a materialização da força e do papel da maçonaria da Bahia como centro formador e irradiador da fraternidade pelo país. Magalhães, argumenta em seu artigo “A Cabala Maçônica”, que embora as lojas da Bahia, em especial de Salvador, não fossem tão numerosas, tais lojas possuíam um contingente significativo de irmãos filiados a elas em termos de representação da sociedade da capital baiana. Assim, o Grande Oriente Brasiliano seria uma composição igualitária de forças das três principais províncias do país, atraindo a repressão sobre a maçonaria na Bahia após a Revolução Pernambucana95, influenciando na brevidade dessa potência maçônica.

Domingos José Martins era membro do primeiro núcleo da maçonaria pernambucana, tributário do grupo em torno do naturalista Arruda Câmara e do padre João Ribeiro, e que contava com aliados como Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, e o médico Vicente Ferreira Guimarães Peixoto, além de alianças com outros maçons da localidade como o Coronel Suassuna. Este grupo, responsável pela fundação das lojas pernambucanas, embora mantivesse relações com outras partes da maçonaria brasileira, conservou uma política própria sobre a articulação das lojas da capitania.96

Esta articulação própria procurou isolar o grupo fluminense dos planos costurados entre as lojas, com especial destaque para as lojas Pernambuco do Oriente, Pernambuco do Ocidente, ambas fundadas por Cabugá, e a Guatimozim, ligada a Guimarães Peixoto. Estas lojas em conjunto compuseram a chamada Grande Loja de Pernambuco, centro articulador da Revolução de 1817. A formação dessa Grande Loja não apenas configurava uma organização centralizada dos quadros pernambucanos, mas os colocava em consonância com a tradição anglo-saxônica das Grandes Lojas locais. Para Colussi, a formação de uma Grande Loja para Pernambuco não apenas espelhava os modelos da Grande Loja da Inglaterra, mas politicamente se espelhava com o modelo federalista estadunidense de Grandes Lojas estaduais autônomas97, sem que houvesse uma pretensão ou a necessidade de formação de uma Grande Loja nacional, contrastando assim com o projeto fluminense de criação de uma única potência maçônica nacional.

Segundo Evaldo Cabral de Mello, este aparente isolamento dos grupos ligados ao Rio de Janeiro por parte da maçonaria pernambucana sob a liderança de Domingos Martins, se vinculava muito mais ao caráter republicano da Revolução de 181798. Assim, a linhagem maçônica pernambucana seria mais próxima ao modelo de organização do mundo maçônico anglo-saxão, enquanto a maçonaria fluminense era mais tributária do modelo francês. Tal diferença aparecia inclusive na defesa ou bem de uma monarquia constitucional ou de uma república aos moldes federativos.

Assim, a própria organização da Grande Loja pernambucana, se alinhava ao projeto federativo dos revolucionários pernambucanos, mais próximos ao modelo político estadunidense, oposto àquele pensado pela maçonaria do centro-sul brasileiro, mais centralizador. Estas disputas de tradições internas à maçonaria brasileira, aliadas à realidade política do reino do Brasil acabaram por criar uma profunda cisão entre os irmãos das diferentes regiões, consolidando a formação de dois centros organizadores da fraternidade. Sendo um primeiro núcleo ligado ao Rio de Janeiro e ao insipiente Oriente Brasílico e outro ligado às lojas centrais do Recife, ainda que houvesse irmãos com trânsito entre os dois grupos, como é o caso do próprio Andrada Machado.

Nesta perspectiva, a indicação de Andrada Machado para Grão-Mestre refletia uma tentativa de aproximação dos grupos fluminenses ao projeto pernambucano, ainda que possivelmente como uma forma de controlá-lo e frear interesses diversos daqueles estabelecidos no Rio de Janeiro. Andrada Machado teria circulação na Grande Loja pernambucana99, aproximando-a do Grande Oriente fluminense, buscando uma forma de unificação entre as duas potências em consonância com o projeto fluminense.

A existência de duas obediências maçônicas não é uma exclusividade brasileira do período, mas antes uma constante na história da maçonaria em todo mundo. Não há, ainda hoje, qualquer exigência sobre a quantidade de obediências em determinado local, sendo comum a existência de uma pluralidade de potências maçônicas em um mesmo país, como também a existência de lojas ligadas a diferentes potências maçônicas internacionais100.

Assim, a existência de mais de uma obediência maçônica no Brasil das primeiras décadas do século XIX obedece a uma busca de uma organização própria pelos grupos locais, cujos interesses eram distintos de outros grupos nacionais ou internacionais101. Desta maneira, os grupos formadores do Grande Oriente brasiliano ou da Grande Loja Pernambuco estavam relacionados aos projetos políticos que seus respectivos grupos defendiam.

O processo revolucionário pernambucano apresentou diversos desdobramentos para a realidade maçônica. Em virtude da eclosão da Revolução, Cabugá foi enviado aos Estados Unidos para negociar apoio à nova república, além da compra de armamento para os revolucionários. A missão Cabugá e sua posterior permanência nos Estados Unidos (impossibilitado de voltar em razão da perseguição imposta aos rebeldes) acabou criando mais um vínculo de reconhecimento da maçonaria brasileira102. Algumas obras maçônicas destacam o vínculo brasileiro com a Grande Loja de Nova Iorque e um corpo maçônico de Altos Graus existente na mesma cidade, ainda que Cabugá tenha se estabelecido na Filadélfia103.

Finda a Revolução, seus membros foram presos e processados. Embora a memória maçônica relacione como maçons todos os processados da revolução, é certo que ao menos os grandes quadros de liderança pertenciam à fraternidade. O resultado imediato de 1817 para a maçonaria brasileira foi a prisão, morte ou exílio de seus principais líderes

– Manoel Carvalho Paes de Andrade, por exemplo, se juntou a Cabugá nos Estados Unidos –, assim como estabeleceu-se um novo período de proibição e perseguição à ordem, após a promulgação do Alvará de Proibição das Sociedades Secretas por d. João VI em 1818, cujo maior alvo era certamente a maçonaria, vista como ameaça104.

O projeto de centralização da maçonaria brasileira sob a liderança fluminense seria então adiado pela publicação do Alvará, uma vez que as dificuldades impostas pela repressão à fraternidade, sob o comando do conde de Arcos, foram significativas105. Ainda que nunca tenha de fato significado uma interrupção completa das atividades da fraternidade, a fase de repressão inaugurada em 1818 teria dificultado, dado que não apenas as atividades do núcleo pernambucano e seu grande número de lojas foram dispersas, quanto a própria repressão na corte aumentou significativamente106.

Este quadro só sofreu alterações após a eclosão da Revolução do Porto em 1820, que favoreceu a rearticulação dos maçons brasileiros. Entretanto, se até 1817 a maçonaria luso-brasileira se dividia sob a influência de diversos outros centros maçônicos, o quadro político de 1821 e 1822 favoreceu a formação de uma centralidade que se propunha nacional, buscando concentrar parte significativa dos quadros maçônicos do Brasil, sob a liderança de um núcleo de maçons no Rio de Janeiro107.

Dentre as primeiras ações dos revolucionários lusitanos se localizam a anistia dos revolucionários de 1817, tanto do Brasil como de Portugal (dos implicados na Revolta de Gomes Freire), e a supressão do Alvará de 1818. Ambas as medidas tiveram efeitos não apenas na configuração dos diversos grupos atuantes na política lusa de ambos os lados do Atlântico, como no significativo número de maçons nas Cortes Gerais Constitucionais em Lisboa, e na rearticulação das atividades maçônicas de Portugal e Brasil, destacando-se a refundação da loja Comércio e Artes, do Rio de Janeiro.

Continua…

Autora: Pilar Ferrer Gomez

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em História – 2022.

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Notas

60 ANNAES Maçônicos Fluminenses. Rio de Janeiro: Na Typ. dos IIrm⸫ Seignot Placher e Ca, 1832, pág iii.

61 Embora os Annaes não evidenciem informações sobre sua autoria, alguns acreditam que estes tenham sido escritos por membros da loja Comércio e Artes, apontado sobretudo para dois de seus maçons de maior destaque, o Padre Januário da Cunha Barbosa, seu orador à época, ou Evaristo da Veiga, seu então secretário eleito.

62 Dadas as poucas pesquisas sobre o tema na historiografia brasileira, como visto na Introdução deste trabalho, se faz necessário muitas vezes a utilização da produção bibliográfica da própria maçonaria brasileira. Entretanto, a maior parte destes trabalhos, realizados por pesquisadores sem formação na área, não informam fontes das informações ou os documentos originais. Por isso, quando forem citados trabalhos desta bibliografia sem a informação das fontes, estes serão sempre identificados nesta pesquisa como “memória maçônica”, apenas para uma distinção formal sobre a comprovação ou não das fontes.

63 Cf. MARQUES, op. cit.; BARATA, Alexandre Mansur, Maçonaria, sociabilidade ilustrada, op. cit., p. 64-65.

64 Sobre a Conjuração Baiana e as possíveis identificações da maçonaria na Bahia do fim do século XVIII ver JANCSÓ, István, Na Bahia, contra o Império. História do Ensaio de Sedição de 1798. Salvador, Hucitec-Edufba, 1995.

65 A fundação da Loja “Cavaleiros da Luz” teria ocorrido a bordo da fragata francesa La Preneuse, ancorada na Barra (em Salvador) no início de julho de 1797. Sobre a “Cavaleiros da Luz”, ver CASTELLANI & CARVALHO, op. cit, Capítulo III, p. 103-154.; BUCHAUL, op. cit., p. 357-364. Alexandre Barata discute também a possibilidade da existência desta loja, ainda que para o autor, a Cavaleiros não tenha outros indícios além das listadas. BARATA, op. cit., p. 51.

66 Sobre as perseguições e processos contra os maçons portugueses ver BARATA, op. cit., Cap. 3, pp. 141- 207.

67 BARATA, op. cit., pp. 59-61.

68 COLUSSI, op. cit., p. 80.

69 ANNAES Maçônicos Fluminenses, p. 3

70 COLUSSI, op. cit., p. 79.

71 ANNAES Maçônicos Fluminenses, p. 4.; COLUSSI, op. cit., p. 80.

72 COLUSSI, op. cit., pp. 80-81.

73 ANNAES Maçônicos Fluminenses, p. 5.

74 COLUSSI, op. cit., p. 81.

75 COLUSSI, op. cit., p. 73.

76 BARATA, op. cit., pp. 47-48.

77 Sobre a possível articulação da conspiração ver ANDRADE, Manuel Correia de. A Revolução Pernambucana de 1817. São Paulo: Editora Ática, 1995. ANDRADE, Breno. Os filhos pagam pelos pais: (In)Fiéis, vassalos e outros termos utilizados na devassa sobre a suposta Conspiração dos Suassuna em 1801. OPSIS, Catalão, v.11, n.2, p. 239-252, Jul-Dez 2011.

78 A Revolução Pernambucana teria sido organizada desde 1816 no interior das lojas pernambucanas Patriotismo, Restauração, Pernambuco do Oriente e Pernambuco do Ocidente. COLUSSI, op. cit., p. 80.

79 COLUSSI, op. cit., pp. 80-82.

80 BARATA, op. cit., pp. 47-49.

81 COLUSSI, op. cit., p. 80.

82 A loja de São João de Bragança teria funcionado sob os auspícios de dom Rodrigo de Sousa Coutinho, o conde de Linhares, contando em seus quadros diversos membros da alta corte portuguesa. ANNAES Maçônicos Fluminenses, p. 8.

83 Além de Andrada Machado, é apontado pela memória maçônica como secretário da loja o Padre Belchior Pinheiro de Oliveira. BUCHAUL, op. cit., p. 392; BARATA, op. cit., p. 81.

84 No Manifesto atribuído à José Bonifácio, a informação sobre o oriente de 1817 não informa a composição de lojas e membros. Outras fontes, entretanto, afirmam que o oriente de 1817 teria sido composto por ao menos quatro lojas, sendo três da Bahia e uma do Rio de Janeiro. MANIFESTO do Grande Oriente do Brasil, em seu reerguimento, p. 2. BARATA, op. cit., p. 88.

85 MARQUES, A. H. de Oliveira, op. cit., v.1, p. 109.

86 ANNAES Maçônicos Fluminenses, p. 3.

87 Sobre as condutas dos ritos e as particularidades do rito Adonhiramita ver JONES, op. cit., pp. 188-191.

88 Tanto o rito Adonhiramita quanto o rito Moderno possuem origem francesa. Sobre as escolhas dos ritos nas lojas, ver COLUSSI, op. cit., pp. 105-107.

89 ANNAES Maçônicos Fluminenses, pp. 7-8.

90 Ao mesmo tempo que se encontram relatos da presença de maçons em locais como a vila de Óbidos, no Pará, ao mesmo tempo não há uma memória de outras lojas organizadas além das muitas já listadas, ainda que estas mesmas listas tenham sido elaboradas em sua maioria apenas na década de 1830. BARATA, op. cit., pp. 80-85.

91 MELO, Mário. A Loja Maçônica Seis de Março de 1817 ao Oriente do Recife. Recife: Typ. Recife- Graphico, 1923, p. 13.

92 A loja Distintiva teria sido fechada após denúncia formulada ao intendente-geral de polícia Paulo Fernandes Viana e teria seus pertences, objetos, alfaias e livros, lançados ao mar na altura da Ilha dos Ratos, atual Ilha fiscal, por ordem do então príncipe regente Dom João. BUCHAUL, op. cit., p. 392

93 MELO, op. cit., pág. 9.

94 COLUSSI, op. cit., p. 105.

95 MAGALHÃES, Pablo Antonio Iglesias. A Cabala Maçônica no Brasil: O primeiro Grande Oriente Brasileiro (Bahia e Pernambuco, 1802-1820). Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, v. 70, p. 73-138, 2017.

96 MELO, op. cit., pp. 9-10

97 COLUSSI, op. cit., p. 82. A tradição maçônica não hierarquiza Grandes Lojas e Grandes Orientes, mas antes os compreende como uma forma de organização de obediência maçônica, decorrente de tradições de distintas nomenclaturas, oriundas da França no final do século XVIII. Até 1773, a designação Grande Oriente referia-se apenas a reunião de Grandes Lojas. Na fundação da Grande Loja Nacional da França, esta designação foi substituída por Grande Oriente da França. BEAUREPAIRE, op. cit., p. 53.

98 MELLO, Evaldo Cabral de. “Dezessete: a maçonaria dividida”. Topoi, Rio de Janeiro, março de 2002, p. 13.

99 A indicação de Andrada Machado como ouvidor de Olinda teria sido manobrada pelos maçons do Rio de Janeiro, para ampliar sua influência sobre os quadros pernambucanos. MELLO, op. cit., p. 12.

100 AZEVEDO, op. cit., pp. 38-39.

101 AZEVEDO, op. cit., p. 44.

102 Sobre a missão de Cabugá e seu período nos Estados Unidos cf. RABELO, Pedro Henrique de Mello, Amizade, comércio e navegação: o tratado de 1829 e as relações político-mercantis entre o Brasil e os Estados Unidos na formação do Império brasileiro (1808-1831), Ouro Preto, Dissertação de mestrado, UFOP, 2017, pp. 88-90.

103 CASTELLANI & CARVALHO, op. cit., pp. 69-71. RABELO, op. cit., p. 58.

104 Alvará de 30 de março de 1818, Declarando Criminosas e Proibidas as Sociedades Secretas. Disponível em http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/518750

105 BARATA, op. cit., p. 210.

106 COLUSSI, op. cit., p. 81.

107 BARATA, op. cit., p. 212.

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