A “Vigilância da Pátria” – A ação da maçonaria brasileira durante a década proibida (1822-1831) – Parte VI

As tradições maçônicas e a Vigilância

A própria existência da Vigilância dependia sobretudo da capacidade de seus membros de passarem longe das suspeitas daqueles encarregados de aplicar a lei de proibição das Sociedades Secretas. No Rio de Janeiro, essa era uma das atribuições da Intendência Geral de Polícia, que, como destaca Nathália Lemos203, possuía espias pela cidade. Ainda assim, chama atenção que o secretário da Vigilância, fosse um oficial da contadoria da própria Intendência, em cuja posse permaneceu o livro de atas até a fixação da loja em um único endereço em 1830. A própria escolha o secretário nos parece uma manobra de proteção, já que grosso modo o livro de atas da maior loja maçônica do país esteve, de alguma forma, ao alcance da polícia.

Assim, para tentar solucionar esses óbices, os primeiros membros da Vigilância, principalmente seus dois nomes principais, Nicolau Vergueiro e José Joaquim de Lima e Silva, apresentaram como solução a combinação de muitas tradições, aparentemente aprendidas em seus locais de iniciação204, oferecendo respostas para conciliar um funcionamento tradicional e as novas realidades205. Estas estratégias vieram não apenas da tradição francesa na qual grande parte dos irmãos foi iniciada, mas também da tradição anglo-saxônica.

Tradicionalmente, uma loja era composta pela congregação de irmãos em um espaço físico determinado, fosse uma taverna (como nas origens da ordem na Grã- Bretanha), a casa de um dos membros ou um espaço específico para esse fim. Tal exigência, contudo, já nas primeiras décadas do século XVIII, impunha restrições àqueles que, por sua ocupação, estavam sempre em movimento, como é o caso dos batalhões do exército ou das tripulações dos navios de guerra.

Segundo Jessica Harland-Jacobs, em 1731, para solucionar tal problema e permitir aos irmãos em trânsito a manutenção dos trabalhos, a Grande Loja da Irlanda emitiu a primeira patente para uma loja volante, um “Travelling Warrant”206. Tal patente permitia que os irmãos se congregassem fora de um templo maçônico, ou seja, bastava que os irmãos se reunissem, onde quer que fosse, para que ocorresse uma sessão. Patentes volantes foram concedidas especialmente para as Lojas Regimentais, isto é, oficinas maçônicas que funcionavam dentro dos regimentos e batalhões de militares.

A concessão desse tipo de patente, que nasceu nos regimentos do exército irlandês, se expandiu rapidamente, não só passou a ser concedida por outras Grandes Lojas e Grandes Orientes, como para outros irmãos em trânsito, não somente pertencente aos quadros dos exércitos. Volantes se formaram na marinha de guerra e depois na marinha mercante, assim como em tropas de milícias e outras composições militares. Na França, a prática foi ainda mais expandida, dado que patentes de volantes passaram a ser emitidas de forma a permitir, em períodos de maior repressão à maçonaria, o funcionamento das lojas fora dos templos, isto é, mais uma vez pela simples reunião dos irmãos ou de espaços.207 Como coloca Harland-Jacobs, a criação das lojas volantes foi fundamental, nos séculos XVIII e XIX, para a expansão das atividades maçônicas por diferentes países e continentes.208

Tal como uma loja com endereço fixo, às volantes era permitido iniciar novos irmãos, bem como conceder os graus de companheiro e mestre. Mas não só, parte das patentes de volantes permitia a fundação de novas lojas ou a regularização das oficinas que encontrassem e manifestassem desejo por se associar à potência originária da volante209. A própria filiação de boa parte das lojas brasileiras do início do século XIX foi possibilitada por lojas volantes militares, como as que provavelmente figuravam nas corvetas de guerra Hydre e La Preneuse, fundadoras das lojas União do Rio de Janeiro e Cavaleiros da Luz de Salvador, tal como visto no capítulo anterior.

Ao fazer a opção de passar de um quadro fixo, mais facilmente identificável pelas autoridades, para uma loja volante, os quadros da Vigilância da Pátria precisaram traçar estratégias para a circulação da loja pela cidade, garantindo, por exemplo, que os espaços escolhidos comportassem o número de irmãos que iria se reunir. Mas tal circulação não pareceu suficiente para garantir a segurança dos membros. Optou-se, também, pela variação dos irmãos em cada sessão. Isto é, foi implementado um rodízio, de maneira que, de uma sessão para outra mudassem os presentes, dificultando, assim, a identificação dos seus membros.210

Se a circulação da loja entre diversos locais, dispensando os padrões fixos do templo, tinha suas origens nas tradições anglo-saxônicas da maçonaria, o rodízio dos membros tinha sua origem na França, mais especificamente no período pré- revolucionário, com as chamadas “Licenças de liberdade”, prática que se espalhou pela Europa durante as guerras napoleônicas.

As tais “licenças” permitiam um sistema de rodízio interno dos irmãos como forma de dificultar sua identificação pelas autoridades. Assim, era facultado aos irmãos das lojas francesas – e depois onde mais a prática foi adotada – não frequentar todas as reuniões, obrigação imposta aos maçons em lojas e situações normais. Certo grupo participava de uma reunião, sendo substituído por outro na sessão seguinte. Isto é, havia intervalos na participação de um mesmo irmão nos trabalhos da loja de forma a eludir as autoridades, assim como a filiação em lojas que contemplassem grupos sociais próximos, de forma a não gerar estranhamentos das mesmas autoridades211. Este sistema de circulação, ainda que utilizado pelas lojas de origem francesa, não era, portanto, estranho aos maçons brasileiros, muitos deles iniciados em lojas vinculadas ao próprio Grande Oriente da França.

Ao adotar ambas as tradições, tanto das lojas volantes, como do rodízio entre seus membros, a Vigilância procurou se cercar de todas as proteções possíveis, utilizando as tradições maçônicas, para garantir a continuidade dos trabalhos e a segurança dos irmãos. Entretanto, tais práticas pressupunham uma sofisticada logística para que fossem funcionais e, ao mesmo tempo, se preservasse a coesão dos irmãos.

Diferentes questões deveriam ser pensadas para determinar quem compareceria a tal ou qual sessão. Na reunião de 20 de agosto de 1825, o vigilante José Joaquim de Lima e Silva, destacou que, a fim de não despertar a atenção das autoridades, era importante que se reunissem membros que, em sua vida profana, tivessem motivos para se congregar. Colocar em uma mesma reunião homens que não necessariamente apresentavam alguma ligação social externa à loja aumentava o risco de identificação da reunião como pertencente a algum tipo de sociedade secreta. Ademais, tampouco era recomendável juntar um número muito grande de notórios opositores do governo, sempre sob os olhos atentos da Intendência de Polícia. Finalmente, como grande parte das reuniões muitas vezes aconteciam nas residências de irmãos da loja ou imóveis ligados a algum deles, a estratégia de circulação necessitava considerar a quantidade de membros que poderiam ser comportados nos locais de reunião.212

Entre 24 de junho e 18 de outubro de 1825, a Vigilância se reuniu apenas oito vezes, número pequeno de reuniões para os padrões de lojas regulares, mas um número significativo para uma loja clandestina. As duas primeiras reuniões ocorreram em semanas seguidas (24 de junho e 01 de julho), mas as seguintes foram bem mais espaçadas (17 de julho, 07 e 20 de agosto, 12 de setembro, 02 e 18 de outubro). É possível que tal se devesse à conjuntura da época, mas também da dificuldade de reunir os membros da loja tomando-se todas as precauções necessárias para sua segurança. Nota-se que a partir de 27 de julho de 1825, o rodízio já estava em funcionamento.

Todas estas questões necessitavam não apenas de uma coordenação de logística por parte dos responsáveis pela loja, mas de uma sistematização das ações necessárias. Essas eram as atribuições do primeiro vigilante e do secretário da loja, encarregados da condução do cotidiano da oficina, assim como de sua manutenção. Ambos deveriam ser auxiliados pelo andador, cuja atribuição passava pela integração entre os irmãos, facilitando e garantindo a comunicação entre eles e com a própria loja.

Tradicionalmente na maçonaria brasileira, cabia ao andador transmitir aos irmãos as datas de reuniões e avisos sobre o funcionamento da loja em geral.213 Este não era o caso do andador da Vigilância, uma vez que ele, possivelmente com exceção do venerável e do vigilante da loja, era o único que conhecia a totalidade dos membros da Vigilância214. Sua função era essencial para a sobrevivência loja, já que dele dependia a dinâmica de funcionamento das reuniões. Portanto, para ocupar tal cargo era preciso que o irmão tivesse ampla circulação pela cidade e, posteriormente, por diferentes províncias do país. Tal pré-requisito fez com que a maior parte dos andadores da Vigilância fossem militares ou comerciantes, cujo deslocamento não levantava maiores desconfianças por parte das autoridades.

Os Andadores do período proibido eram os únicos encarregados, diretamente pelo Venerável ou pelos Vigilantes da loja, de comunicar aos irmãos cuja presença seria admitida em cada sessão, assim como local e horário do encontro. O comunicado só poderia ser repassado ao maçom específico, não podendo este mesmo membro repassar o comunicado a outros membros de seu grupo. Estas especificações sobre como comunicar os quadros sobre sessões e cotidianos da loja era essencial no período, uma vez que as pressões sobre a clandestinidade exigiam sigilo sobre as atividades. Entretanto, apenas a circulação não garantia o sigilo e o controle pleno dos quadros da loja. Com este fim, os irmãos optaram pelo uso do Rito Francês. Embora fosse o rito de iniciação de grande parte dos maçons brasileiros, a escolha atenderia principalmente ao nível de coesão e controle estabelecido por este rito, dado o menor número de graus215.

Com poucos graus filosóficos, a ascensão dos irmãos era dada de forma muito mais parcimoniosa, o que permitia um maior controle hierárquico dos membros. Mas, em tempos de clandestinidade, tal restrição também garantiu para a Vigilância uma menor alternância entre os quadros principais da loja, fundamental para a proteção dos trabalhos e dos próprios irmãos, uma vez que apenas as lideranças conheciam efetivamente a totalidade do quadro de membros, garantindo maior sigilo sobre a extensão da maçonaria no período.

Tal controle não era uma mera formalidade, mas uma condição de sobrevivência, especialmente a partir de 1826, quando a Vigilância passou a contar não só com um número maior de membros, mas também estendeu sua atuação para além do Rio de Janeiro. Pouco a pouco a loja alcançou outras províncias, ainda que, num primeiro momento, os trabalhos tenham se dado de forma esporádica e com poucas pretensões de criação de oficinas distantes do corpo central. Afinal ante à situação política, tornava-se mais complexo iniciar quadros numerosos, como a presença de maiores atividades maçônicas em outras províncias poderia facilitar a identificação pelo governo.

Além dessas estratégias, a Vigilância também pode contar com outra proteção adicional, qual seja a da posse de duas cartas patentes autorizando o funcionamento da maçonaria.216 Ainda que não fique claro se esta foi uma estratégia utilizada pelos irmãos em algum momento, a posse dessas cartas de fundação e, portanto, de seu reconhecimento por potências estrangeiras tinha o potencial de proteger os irmãos de maiores perseguições caso fossem descobertos pelo governo.

A primeira das duas cartas patentes foi emitida em 1822 pelo Grande Oriente da França, em nome de João Paulo dos Santos Barreto, que retornou daquele país no final de 1822 como delegado do Grande Oriente de França no Brasil, com carta delegada para fundação de lojas no país recém independente.217 Essa carta, ainda que provavelmente emitida para reconhecimento e regularização do oriente de 1822, nunca chegou a ser apresentada aos irmãos do extinto Oriente, dado o encerramento dos trabalhos.

A segunda patente, e talvez a mais importante para a loja, foi emitida em 1826, em nome do Commodore David Jewett, oficial da marinha brasileira218, concedida pelo Sovereing Gran Consistory of the United States (Nova York, Estados Unidos), um conselho de graus superiores da maçonaria estado-unidense. A patente do comodoro Jewett possuía um grau de proteção mais significativo para a Vigilância, uma vez que esta era mais ampla em suas atribuições do que a patente francesa, como por exemplo autorizava a concessão de graus219. Entretanto, apesar da Vigilância ter, em sua posse, ambas as cartas, não consta nas atas informação sobre filiação a alguma potência, o que fazia dela uma loja irregular.220 Não era incomum, no início do século XIX no Brasil, encontrar uma loja não vinculada a uma potência, como no caso, por exemplo, da loja Comércio e Artes em 1821, em razão do desejo dos irmãos de fundar uma obediência própria. Mas, em se tratando da Vigilância, chama a atenção o longo tempo que a loja permaneceu irregular.

Considerando o exposto, a Vigilância da Pátria representou uma inovação na curta história da maçonaria brasileira, ainda que suas novidades fossem influenciadas pelas tradições da própria fraternidade. Desta mistura de tradições e inovações nasceram as primeiras articulações dessa loja e que permitiram a ampliação de seus quadros para além da cidade do Rio de Janeiro.

Os primeiros passos da loja

Todas as tentativas de nucleação da maçonaria no Brasil, nas primeiras décadas do século XIX, padeceram do mesmo problema fundamental, isto é, da dificuldade de congregar os maçons dispersos pelo território brasileiro em uma única obediência, mas não apenas isso. Segundo um dos próprios irmãos da Vigilância, outro fator desagregador era a “não representação do pensamento e dos interesses dos membros da ordem como um todo, mas antes apenas a representação de projetos de núcleos específicos, principalmente aqueles pertencentes ao Rio de Janeiro”.221 A Vigilância precisava, então, não apenas congregar os diversos núcleos dispersos pelo país após os acontecimentos de 1822 a 1824, mas também solucionar a questão da representatividade dos diversos grupos que a ela se vincularam ao longo do tempo, num equilíbrio entre a proteção dos trabalhos da loja e a liberdade de ação e pensamento de seus membros.

Assim, a Vigilância da Pátria não atendeu às formas de nucleação tradicionais das lojas brasileiras, mas antes foi formada em menor número por membros pertencentes aos grupos políticos da cidade do Rio de Janeiro. Suas principais lideranças não eram oriundas da cidade e nem mesmo pertenciam aos grupos instaladores ou membros conhecidos da maçonaria fluminense anteriores, mas sim eram ou membros de outras lojas cujos pertencimentos não foram agregados as anteriores tentativas de formação de uma obediência nacional ou mesmo eram recém iniciados na fraternidade.

Esta não vinculação das lideranças a um local específico de antigas filiações ou até mesmo a imposição de restrição de filiação de antigos membros do Oriente Brasílico não apenas atendiam à preocupação em passar longe dos radares das instituições responsáveis pela repressão às atividades da maçonaria, mas também atendiam a uma preocupação de que a nova obediência não fosse identificada como herdeira de algum modelo de imposição de autoridade central advindo das antigas tentativas de formação de uma potência nacional.

Para isto, as lideranças da Vigilância da Pátria se utilizavam de uma espécie de duplo filtro para as filiações. Primeiramente, havia uma investigação sobre a vida e as atividades políticas do candidato, a sindicância era algo comum na maçonaria em qualquer tempo. Mas, a intenção era saber se o candidato manteria em segredo sua condição de maçom e o que se passava nas sessões. Apenas depois de tais procedimentos é que um irmão era autorizado a convidar o futuro iniciando222. Não à toa, apenas em 24 de maio de 1826, foi iniciado um novo irmão, no caso Francisco da Silva França223, identificado como negociante de 38 anos, natural de Santa Catarina.

Desde sua fundação a Vigilância se tornou uma congregação de maçons brasileiros de passagem na cidade do Rio de Janeiro ou residentes nas imediações, ainda que limitada a participação pela necessidade de filiação e seguindo os critérios apresentados anteriormente.

A despeito de todas as tradições recuperadas e reinventadas, a Vigilância em seu primeiro ano foi pensada como uma loja de funcionamento quase tradicional, respeitando o rodízio entre seus membros, de forma que não comparecesse um número maior do que 20 irmãos por reunião. Para tanto, estabeleceu-se uma forma de revezamento por meio de um sorteio entre 3 grupos. Os dois primeiros grupos compareceriam às suas respectivas reuniões a cada semana, enquanto na terceira semana de rodízio compareceriam metade de cada um dos dois grupos prévios, misturando-se assim os grupos. Em cada reunião haveria a presença do venerável ou do 1º vigilante, acompanhados de um dos dois segundos vigilantes, responsáveis pela organização do local da reunião. Já as demais funções da loja não eram fixas, mas exercidas por sorteio entre os presentes em cada reunião224.

O grupo original da Vigilância, dividido entre os grupos de rodízio, é considerado o primeiro círculo da loja. À medida em que esta se expandiu, foram criados novos círculos, seguindo os mesmos critérios de rodízio do círculo principal, cada um deles confiado a um maçom específico, que exercia a função de segundo vigilante225. Assim, as reuniões contariam sempre com a presença de, ao menos, um segundo vigilante e outras autoridades.

Essas são diferenças importantes em comparação com as lojas maçônicas em geral. Em uma oficina qualquer, havia um quadro específico de funções, para as quais os irmãos eram eleitos para um exercício de dois anos. Compunham o quadro de uma loja maçônica no período: um venerável mestre, um 1º vigilante, um 2º vigilante, um orador, um tesoureiro, um secretário, um chanceler, um mestre de cerimônia, um cobridor, um andador e um experto. Tais funções podem ser divididas em funções de chefia e organização da loja (venerável, vigilantes, tesoureiro, chanceler, andador e secretário) ou cerimoniais (vigilantes, orador, mestre de cerimônia, cobridor e experto).

Às funções de chefia cabia a organização da loja, tanto dos membros e registros de reuniões, quanto das finanças. O venerável ou presidente da loja preside a sessão e é responsável pela existência dela como um todo. Ao 1o vigilante cabia substituir o venerável em sua ausência e administrar conjuntamente a loja. O 2o vigilante, por sua vez, substitui o primeiro vigilante, além da função cerimonial. O tesoureiro é responsável pelas finanças da loja, recolhendo os pagamentos devidos por cada irmão, além de pagamentos diversos de manutenção da própria loja e auxílio aos irmãos se necessário. O chanceler é responsável pelo registro dos irmãos da loja, anotações diversas acerca de graus e funções, além do contato com outras lojas. O secretário é responsável pelos registros de reuniões, além de controle de presença e da articulação daqueles que exercem as demais funções. E o andador é responsável por comunicar os membros da loja sobre dias, horários e locais de reunião, além de repassar recados226.

Já àqueles que ocupavam funções cerimoniais cabia cuidar das sessões da loja, como os cargos de mestre de cerimônias, cobridor e outros, cujas funções são responsáveis pelo andamento da cerimônia e organização dos ritos específicos que possam ocorrer na sessão, tais como a organização do cerimonial e o controle de acesso dos membros227.

As funções dentro da Vigilância também seguiam a um ordenamento específico. O venerável e o 1º vigilante dividiam entre si a liderança da loja, revezando-se nas reuniões, às quais, como mencionado, deveria comparecer sempre um dos segundos vigilantes228. Ademais, os segundos vigilantes acumulavam a função de chanceler e cobridor do círculo sob sua responsabilidade.

Já o secretário da loja, ainda que nominalmente fosse eleito apenas um dos irmãos, não frequentava todas as reuniões. Assim, caso o secretário não estivesse presente, um irmão era escolhido para anotar os pontos principais da reunião e repassá-los ao secretário, a quem ficava confiado o único livro de atas da loja, como mencionado anteriormente. Por esta razão, as atas das reuniões em que o secretário estava presente são muito mais detalhadas que as demais, com anotações sobre trechos de discursos ou outros detalhes específicos. Além da função de secretariar a loja, o secretário também acumulava a função de tesoureiro e de chanceler geral.

As demais funções cerimoniais eram distribuídas conforme o círculo, por sorteio e respeitando a antiguidade do maçom, por data de filiação ou de iniciação, visto que eles deveriam conhecer em maior profundidade os ritos e cerimoniais. Por esta razão, à medida em que os círculos da Vigilância foram se expandindo, os membros originais ou os maçons com maior tempo de iniciação foram se vinculando a esses novos grupos, criando assim laços entre cada círculo maçônico da loja e o círculo original.

Continua…

Autora: Pilar Ferrer Gomez

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em História – 2022.

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Notas

203 LEMOS, Nathália Gama. Um Império nos trópicos: A atuação do Intendente Geral de Polícia, Paulo Fernandes Viana, no Império Luso-brasileiro (1808-1821). Dissertação de Mestrado. Niterói: UFF, 2012.

204 Lima e Silva apresentou as propostas na sessão de 01 de julho de 1825. Entretanto o secretário não anotou em que local o coronel teria sido iniciado, o que nos impede por hora identificar sua loja de origem. LAVG, Sessão de 01 de julho de 1825 (01/4/5825).

205 LAVG, Sessão de 01 de julho de 1825 (01/5/5825).

206 HARLAND-JACOBS, Jessica. “Global Brotherhood. Freemasonry, Empires and Globalizations”. REHMLAC, Special Issue UCLA, 2013, pp. 77-78.

207 QUÉRUEL, Alain. La franc-maconnerie. Paris: Éditions Eyrolles, 2011, p. 40.

208 HARLAND-JACOBS, Jessica, Builders of Empire. Freemansory and British Imperialism, 1717-1927, Chapel Hill (NC): The University of North Carolina Press, 2007, p. 35.

209 HARLAND-JACOBS, op. cit., p. 37.

210 LAVG, Sessão de 17 de julho de 1825 (17/5/5825).

211 O sistema de circulação por rodízios é descrito como originado por volta de 1760 entre as lojas de Bordeaux e Paris, localidades estas onde também se originaram os ritos de origem francesa. Ver BAUER & MOLLIER, op. cit., p. 139.

212 LAVG, Sessão de 20 de agosto de 1825 (20/6/5825).

213 O Grande Oriente Brasílico, por exemplo, contava com um Andador, cuja atribuição era apenas o de comunicar horários e locais de reuniões aos membros das lojas. MENEZES, op. cit., p. 14.

214 Ainda que a figura dos andadores não seja estranha às lojas brasileiras, chama atenção que não se localiza nas discussões da bibliografia internacional qualquer referência a esta figura. Entretanto, não nos parece que esta função fosse exclusiva das lojas brasileiras, mas talvez que esta tenha resistido por mais tempo dadas as dificuldades brasileiras, dada a proibição das sociedades secretas.

215 O rito francês, ainda que tenha passado de 7 a 9 graus em sua totalidade durante o século XX, ainda é considerado o “menos democrático” dos ritos praticados pela maçonaria, dada a menor ascensão aos graus superiores. Sobre o funcionamento do rito francês ou moderno ver JONES, op. cit., pp. 117-122.

216 Machado Nunes anota a informação das posses das duas cartas em 24 de junho de 1827, ainda que não informe como e quando as respectivas patentes chegaram à loja. LAVG, Sessão de 24 de junho de 1827 (24/4/5827).

217 João Paulo Barreto, militar brasileiro, permaneceu na Europa entre 1819 e 1822, estudou engenharia e hidráulica na França, onde foi iniciado na irmandade. Retornou ao Brasil no final de 1822. A Carta Patente emitida em nome de João Paulo Barreto encontra-se nos arquivos da Biblioteca do Supremo Conselho do grau 33º do Rito Escocês Antigo e Aceito, na cidade do Rio de Janeiro. Sua reprodução pode ser encontrada em ASTREA 33: Órgão Official do Supremo Conselho do Brasil. Rio de Janeiro, ano 2, vols. 9 e 10, set. e out., 1923, pp. 333-334.

218 David Jewett era membro da marinha brasileira desde 1822, quando participou da Guerra de independência da Bahia, tendo tomado de parte de outras batalhas da marinha imperial, como, por exemplo, a repressão à Confederação do Equador, permanecendo como alto oficial por mais de uma década. Ao longo dos anos retornou esporadicamente aos Estados Unidos, de onde trouxe a patente, em 1826. DANTAS, Monica Duarte. Corsários, militares, diplomatas, comerciantes: David Jewett e a maçonaria nas Américas (1800-1842). Projeto para Bolsa produtividade CNPq, 2021 (texto inédito cedido pela autora).

219 Na cidade de Nova York, à época, funcionavam dois conselhos para os graus superiores, o Grand Consistory e o Supreme Councilof the Schottisch Rite, Northern Masonic Jurisdiction, este vinculado ao Supreme Council, criado em 1801 na Carolina do Sul, intitulado Mother of the World por ter sido o primeiro do mundo. Agradeço à Professora Monica Duarte Dantas pelas informações sobre os conselhos superiores dos Estados Unidos. A Carta Patente de Jewett consta, transcrita, na ASTREA 33: Órgão Official do Supremo Conselho do Brasil, p. 336-339. Conforme pesquisa realizada por Monica Duarte Dantas junto ao arquivo do Supreme Council of the Schottisch Rite, Northern Masonic Jurisdiction, em Lexington (Massachusetts), lá se encontra exemplar manuscrito da referida patente.

220 Uma loja maçônica só é considerada regular a partir do momento que recebe a carta de filiação de uma obediência. No caso da Vigilância, ao menos no livro de atas que encontramos, não há nenhuma informação sobre esse vínculo, ainda que o secretário tenha anotado as posses das patentes pela loja.

221 O maior crítico desta “centralização”, principalmente quanto Oriente de 1822 é Lino Coutinho, assim como os irmãos da Bahia. LAVG, Sessão de 12 de junho de 1826 (12/4/5826).

222 Ainda que grande parte dos maçons fossem iniciados apenas aos 21 anos, filhos de maçons poderiam ser iniciados aos 18 anos, conforme constam nas regras usadas pela Vigilância. Ao limitar a iniciação de qualquer candidato aos 21 anos, a loja restringia seus quadros em idade ao critério de cidadania da constituição. As decisões sobre as idades para candidatos se encontram nos debates do círculo principal em 27 de abril de 1826. LAGV, Sessão de 27 de abril de 1826 (27/2/5826).

223 Francisco da Silva França é provavelmente um dos irmãos de Manoel José De Souza França, deputado pela província do Rio de Janeiro, também membro da loja, responsável pela apresentação da candidatura de Francisco.

224 O estabelecimento final dos critérios para os revezamentos ocorreu na sessão de 20 de julho de 1825. LAVG, Sessão de 20 de julho de 1825 (20/5/5825).

225 A função com mais membros na Vigilância da Pátria eram os segundos vigilantes, dada a organização dos círculos. Em 1825 foram eleitos dois segundos vigilantes, como visto anteriormente, mas dada a expansão da loja, em 1828 constam nas atas 12 segundos vigilantes, elencados mais à frente no capítulo.

226 JONES, op. cit., pp. 123-132.

227 JONES, op. cit., pp. 131-133.

228 Dada as características da loja, a Vigilância elegeu em um primeiro momento, dois 2º vigilantes ao invés de um. À medida em que a loja se expandiu, foram eleitos outros segundos vigilantes, como detalhados mais a frente neste capítulo.

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