A Lenda do Ofício – análise crítica: Abraão

Depois de ter referido o estabelecimento da Maçonaria na Caldeia, a Lenda do Ofício efetua uma rápida transição para a sua introdução no Egito. Fá-lo através da invocação de um personagem que a Bíblia efetivamente regista ter estado no Egito, Abraão, mas, como se verá, com a exteriorização de mais um evidente anacronismo. Recorde-se o texto desta passagem da Lenda do Ofício:

Mais tarde, quando Abraão e Sara, sua mulher, foram para o Egito, ali ele ensinou as sete ciências aos egípcios; e teve um valioso discípulo, chamado Euclides, que aprendeu bem e foi Mestre das sete ciências liberais.

A Bíblia refere Abraão, designadamente no Gênesis, como pertencendo à nona geração de Sem, filho de Noé, e ser originário de Ur, cidade do Sul da Mesopotâmia. Relativamente à sua estada no Egito, a Bíblia refere que, tendo ocorrido seca e fome em Canaã, onde Abraão se havia estabelecido, este levantou o seu acampamento e rumou ao Egito. Aí, temendo ser morto, em virtude da grande beleza de sua esposa Sara, combinou com esta que ela se dissesse sua irmã, e não sua cônjuge. O Faraó apaixonou-se pela beleza de Sara e levou-a para o seu palácio. Porém, Deus castigou o Faraó e este, bem mais prudente do que viria a ser o seu sucessor, no tempo de Moisés, mandou chamar Abraão e devolveu-lhe Sara, ordenando que ambos deixassem o país, com todos os seus bens.

Abraão não é referenciado na Bíblia pela sua sabedoria, antes pela sua piedade, crença, obediência a Deus. Exemplo maior disso é o episódio do Sacrifício de Abraão (melhor seria dizer sacrifício de Isaac…), ilustrado pela pintura que acompanha este texto.

Os autores da Lenda foram beber essa reputação de sapiência em Josephus e nas suas Antiguidades. Ali, Josephus escreveu que Abraão foi considerado pelos egípcios um homem muito sábio e que, para além de ter reformado os seus costumes, lhes ensinou aritmética e astronomia.

Esta passagem da Lenda é interessante precisamente por ilustrar diretamente duas das fontes de que os autores medievais dela se socorreram, em relação à Antiguidade: A Bíblia e as Antiguidades de Josephus. Outras fontes dos autores da Lenda, em relação à Antiguidade, terão sido também as Etimologias, de Santo Isidoro e o Polychonichon, de Ranulph Higden. Aliás, provavelmente, quer as Antiguidades, quer as Etimologias, terão sido conhecidas em segunda mão, através precisamente das transcrições delas feitas no Polychonichon.

A passagem hoje analisada contém um evidente anacronismo: a alegada contemporaneidade de Abraão e Euclides. Este, na realidade, viveu dois mil anos depois de Abraão!

O anacronismo só se resolve se considerarmos que a relação de Mestre-discípulo invocada pela Lenda não foi uma relação física e contemporânea, mas antes uma relação de influência. Isto é, Euclides, que não foi contemporâneo de Abraão, inspirou-se, recolheu, os ensinamentos deste e desenvolveu, a partir daí, os seus grandes conhecimentos na Ciência da Geometria.

Por este processo, a Lenda transfere, assim, a sua atenção da Caldeia para o Egito e, partindo do personagem bíblico de Abraão, associa-lhe o grande geômetra que foi Euclides e passa seguidamente a narrar a introdução lendária da Geometria, sinônimo de Maçonaria, no Egito.

Mas essa é já matéria para o próximo texto.

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: Nimrod

Depois da Torre de Babel, mas continuando por terras entre o Tigre e o Eufrates, prossegue a Lenda do Ofício:

E o rei da Babilônia, que se chamava Nimrod, era ele próprio um maçom; e amava bem a ciência, e isto é dito pelos mestres em História. E quando a cidade de Nínive e outras cidades do Oriente foram construídas, Nimrod, o rei da Babilônia, enviou para lá três mil maçons a pedido do rei de Nínive, seu primo. E, quando os enviou, deu-lhes um Dever do modo seguinte: Que deveriam ser verdadeiros uns com os outros e que deviam gostar de estar uns com os outros e que deviam servir lealmente o seu senhor em troca do seu salário (…). E outros deveres de conduta lhes deu. E esta foi a primeira vez que aos Maçons foram impostos Deveres da sua ciência.

Nimrod é referido na Bíblia (Gênesis, 10:8 e 1 Crónicas, 1:10) como o primeiro poderoso na Terra. É identificado como filho de Cush, neto de Cam, bisneto de Noé. O seu reino incluía as cidades de Babel, Arac, Acad e Calene, na Babilônia. Dominou também a Assíria e aí construiu Nínive, Reobote-Ir, Calá e Resem.

O historiador da Antiguidade Josephus não o descreve de forma agradável. Declara-o um tirano e imputa-lhe a decisão da construção da Torre de Babel, como um desafio a Javeh, pois seria tão alta que nenhum novo Dilúvio a poderia inundar. O plano correu-lhe mal…

Seja como seja, o desafiador e rebelde Nimrod (escritos rabínicos defendem que o nome Nimrod deriva do verbo hebraico ma-rádh, que significa “rebelar”; Nimrod seria então aquele que se rebelou contra o Deus de Noé… e sobreviveu, mesmo derrotado no seu projeto) criou o primeiro império referenciado na Bíblia, unificando sob o seu domínio as terras da Babilônia e da Assíria.

Lenda não lhe assaca, porém, a faceta de conquistador. Pelo contrário, declara-o cooperante com o seu primo, rei de Nínive, na Assíria, enviando-lhe três mil trabalhadores (maçons) para o auxiliarem na construção desta e de outras cidades. Afasta-se a Lenda da fonte bíblica de que é tão manifestamente tributária? Nem por isso. A Bíblia não apoda Nimrod de conquistador, apenas refere que ele estendeu o seu domínio à Assíria e aí construiu Nínive e as outras cidades. Se aquele território foi conquistado ou povoado, é matéria omissa. Se o rei de Nínive era seu vassalo ou aliado, também nada nos esclarece.

Curiosamente, a Lenda acaba por ser mais esclarecedora – mantendo-se na esteira do que se registou na Bíblia.

A denominação de Assíria deriva de Assur. E quem foi Assur? Foi filho de Sem. E Sem foi filho de Noé, irmão de Cam. Assur e Nimrod foram então primos (Assur foi primo direito de Cush, pai de Nimrod e, logo, segundo primo deste).

Eis como o relato da Lenda confere com o ensinamento bíblico!

Que Nimrod terá sido um grande construtor (de várias cidades), confirma-o a Bíblia e o historiador da Antiguidade. Claro que não foi pessoalmente um trabalhador da construção. Foi quem ordenou, financiou, organizou, a construção das cidades. A referência da Lenda de que foi ele próprio um maçom não quer dizer que tivesse sido um construtor ou arquiteto, antes que tenha sido o patrono, o patrão das construções. Teremos oportunidade de ver que mais vezes a Lenda atribui ao patrono de construções a designação de maçom. No fundo, maçom aceito, como, séculos mais tarde, veio a realmente suceder, originando a transição da Maçonaria Operativa para a Especulativa…

Mas a Lenda vai bem mais longe. Nimrod não foi apenas quem decidiu construir, não foi apenas um maçom aceito. Foi efetivamente o primeiro Grão-Mestre! É que a Lenda expressamente refere que foi por ele que aos maçons foram pela primeira vez impostos Deveres da sua ciência. Ora, quem tem o Poder de impor deveres aos maçons é unicamente o Grão-Mestre…

Lenda prossegue na sua senda de encarar – como era usual na época medieval da sua criação – a Bíblia como fonte histórica. E realça algo que só a Ciência Histórica moderna veio a apurar: que a Ciência, enquanto tal, nasceu na Caldeia – a região que venho designando por Babilônia.

Continua a confirmar-se que a Lenda é lenda – mas tem mais pontos de contato com a História do que se pensaria…

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: a Torre de Babel

No último texto, vimos como a Lenda do Ofício relata o achado por Hermes Trismegisto de um dos pilares contendo os ensinamentos de todas as ciências registados antes do Dilúvio e que este divulgou esses ensinamentos. Mas ainda estamos no domínio da teoria, da “ciência pura”. Só subsequentemente a Lenda nos confronta pela primeira vez com a aplicação prática desses ensinamentos. E fá-lo em grande estilo: nada mais, nada menos do que trazendo à colação a Torre de Babel.

O fragmento da Lenda a que hoje me dedico é singularmente pequeno, uma singela frase:

E na construção da Torre de Babel se fez o primeiro uso da Maçonaria.

No entanto, esta frase de catorze palavras apela a um dos mitos mais arreigados da Bíblia: a fantástica construção do primeiro “arranha-céus”, da Torre destinada a unir a Terra dos Homens ao domínio de Deus (ou dos deuses), a passagem do conhecido para o imaginado, a ligação entre o terreno material e o domínio do divino.

O mito bíblico da Torre de Babel culmina com o desagrado divino pela prosápia humana e com um castigo “exemplar”: para além da destruição da construção, a quebra do entendimento universal entre os humanos, mediante a sua separação em várias línguas.

O mito é interessante, na medida em que mostra a busca de uma explicação para algo que, manifestamente, intrigou os nossos longínquos antepassados: como coadunar a sua similitude essencial (e a pretensa origem única, no casal do Éden) com a variegada confusão de línguas e dialetos que os nossos antepassados distantes verificaram existir? Da unidade primitiva à multifacetada diferença, o caminho terá parecido óbvio: os estouvados humanos já então davam mostras do gênio criativo da espécie e, quais crianças insensatas, mais uma vez (a lição do Dilúvio foi rapidamente esquecida…) deram um passo maior que a perna e aspiraram para além do que deviam… E o Poder Divino, simultaneamente desagradado e temeroso (!), não se limitou a destruir o instrumento do atrevimento: tratou de minar o que, pelos vistos, seria uma ameaçadora força dos ex-símios, a sua capacidade de se entenderem e de cooperarem, condenando-os ao perpétuo desentendimento através de uma multitude de línguas. No fundo, dividir para reinar…

Esta percepção da relação do humano com o divino, embora reiterando o Poder do Inentendível, sofre do mesmo pecado que alegadamente teria sido punido e resolvido com a introdução da algaraviada de muitas línguas (sim, algaraviada, pois, embora os povos bíblicos desconhecessem ainda o Algarve, o seu Sol e praia e a mistura de línguas que por ali campeia no Verão, o Criador, omnisciente, dizem, já antecipava que lá por alturas dos séculos XX e XXI, a confusão multilingue, associada ao dialeto autóctone da região, originaria um substantivo que na perfeição ilustrava o resultado da sua punição pelo atrevimento do alçamento da Torre de Babel). Com efeito, o mito bíblico reduz o alegadamente Omnipotente ao (humilhante?) papel de se sentir ameaçado pela união humana e… ter necessidade de tomar providências!

O mito bíblico é, claramente, o resultado de uma tradição oral em que a Divindade é criada e descrita à luz da capacidade de entendimento humana, em que Deus, mais que Criador, é criatura criada pelas criaturas que terá criado, com as limitações e defeitos que a limitada inteligência das criaturas não pôde evitar…

Este mito porventura ter-se-á baseado numa difusa, desconhecida e limitada realidade, a construção de uma torre de tamanho nunca visto e o fracasso do projeto, por incapacidade técnica de o levar até à pretendida conclusão, quiçá com o recurso a mão-de-obra de diferentes paragens, tornando visível e aparente a diversidade de linguagens e o potencial de desentendimento que daí advinha, que impressionou um povo que, unilíngue, manifestamente não teria sido ainda seriamente confrontado com a diversidade linguística e os problemas daí decorrentes.

Note-se que o mito bíblico não é único, em termos de narrativa com contornos similares. Conforme se lê na Wikipédia em português, e cito, com pequenas alterações, na mitologia suméria, a rivalidade entre dois deuses, Enki e Elil, acaba por resultar, como que em subproduto das suas lutas, na confusão da Humanidade em diversas línguas. Também o Alcorão descreve uma história similar, mas alegadamente ocorrida no Egito de Moisés, em que o Faraó pede a Haman para lhe construir uma torre de barro para que ele possa subir até ao céu e confrontar o Deus de Moisés. Outra história, em Sura 2:96, menciona o nome de Babil, mas dá poucos detalhes adicionais sobre isso. Contudo, o conto aparece mais completo em escritos Islâmicos de Yaqut e de Lisan el-Arab , mas sem a torre: os povos foram varridos por ventos até à planície que foi depois chamada “Babil”, onde lhes foram designadas as suas línguas separadas por Alá, e foram depois espalhados da mesma forma. Na História dos Profetas e Reis, do historiador muçulmano Tabari, do século XIX, é dada uma versão mais completa: Nimrod faz a torre ser construída em Babil, Alá destrói-a, e a língua da humanidade, previamente o siríaco, é então confundida em 72 linguagens. Abu Al-Fida, outro historiador Muçulmano do século XIII, relata a mesma história, adicionando que o patriarca Éber (um antepassado de Abraão) tinha sido autorizado a manter a língua original, neste caso o Hebraico, porque ele não participava na construção.

Lê-se ainda no mesmo artigo da Wikipédia – e continuo a citar com pequenas alterações – que várias tradições similares à da Torre de Babel são encontradas na América Central. Uma diz que Xelhua, um dos sete gigantes salvos do dilúvio, construiu a Grande Pirâmide de Cholula para desafiar o Céu. Os deuses destruíram-no com fogo e confundiram a linguagem dos construtores. Outra lenda, atribuída pelo historiador nativo Don Ferdinand d’Alva aos antigos toltecas, diz que depois dos homens se terem multiplicado após um grande dilúvio, eles erigiram um alto zacuali ou torre, para se preservarem no caso de um segundo dilúvio. Contudo, as suas línguas foram confundidas e eles foram para diferentes partes da terra. Outra lenda ainda, atribuída aos Índios Tohono O’odham ou Papago, afirma que Montezuma escapou a uma grande inundação, depois tornou-se mau e tentou construir uma casa que chegasse ao céu, mas o Grande Espírito destruiu-a com relâmpagos. Rastos de uma história um pouco parecida também têm sido citados entre os Tarus do Nepal e do Norte da Índia; e, de acordo com David Livingstone, os africanos que ele conhecera e que viviam junto ao Lago Gnami, em 1879 tinham uma tradição assim, mas com as cabeças dos construtores a serem partidas pela queda da construção. Finalmente, o mito estônio do “Cozinhado das Línguas” também tem sido comparado com o mito bíblico, assim como a lenda australiana da origem da diversidade das falas.

Enfim, como referi na introdução a esta análise crítica,

“sucessos existem que estão marcados nas culturas de vários povos de muitos lugares. Os mitos primitivos, com algumas variantes, mais ou menos acentuadas, são comuns, na sua essência às culturas ocidentais como orientais, mediterrânicas como nórdicas, africanas, asiáticas ou europeias. Mesmo em alguns mitos dos povos primitivos do continente americano podemos reconhecer traços comuns com mitos do resto do globo.”

Mas este mito, do ponto de vista dos construtores, tinha ainda uma insuspeitada virtualidade: era a primeira referência “histórica” (recordemos que, para a mentalidade da Idade Média, a Bíblia era um documento histórico) a algo de grandioso construído em pedra. Empreendimento que não podia deixar de ter apelado ao uso dos conhecimentos da Geometria aplicados à Arquitetura e à Construção. Isto é: era a visível primeira aplicação da Maçonaria!

Não poderia, obviamente, a corporação medieval de construtores em pedra deixar de sublinhar tão insigne fato, referenciando-o na sua Lenda do Ofício!

Que a referência se tenha limitado a uma singela linha e menos de duas dezenas de palavras, não é, apesar de tudo, de admirar. Tenhamos em mente que a Torre de Babel, apesar de projeto ambicioso, revelou-se um fracasso… E, por outro lado, os mais auspiciosos inícios merecem ser recordados com a singeleza da simplicidade!

Mas importa reter que, nas insondáveis voltas do espírito medieval, duas certezas avultam: o episódio da Torre de Babel era considerado realidade histórica – e, mais uma vez, a Lenda do Ofício, continua, segundo a mentalidade e conhecimentos da época da sua criação, a basear-se em fatos históricos; e exprime-se a difusa, mas acertada, noção medieval de que a ciência aplicada nasce em terras de Babilônia (Babel), no berço de civilização que, entre os rios Tigre e Eufrates, foi denominada por Mesopotâmia – e hoje denominadas por Iraque. Voltas que a História dá!

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: Hermes

Prosseguindo a análise crítica da Lenda do Ofício e da sua compatibilidade com a História, deparamos, após a referência aos filhos de Lamech e aos pilares por eles construídos, com a seguinte passagem:

O nosso propósito é contar-vos com verdade como e de que maneira foram encontradas as pedras em que estas ciências estavam escritas. O grande Hermarynes, que foi filho de Cuby, o qual foi filho de Sem, que foi filho de Noé, mais tarde chamado de Hermes, o patrono dos homens sábios, encontrou um dos dois pilares de pedra e encontrou a ciência nele escrita e ensinou-a a outros homens.

O Hermes aqui referido não é o deus da mitologia grega com o mesmo nome, correspondente ao Mercúrio da mitologia romana. Trata-se aqui de uma divindade de segunda ordem egípcia, também referido por Hermes Trismegisto, o nome dado pelos neoplatônicos, místicos e alquimistas ao deus Thot que, tal como o Hermes grego, era o deus da escrita e da magia. Thot simbolizava a lógica do universo, era o deus da palavra e da sabedoria. Os egípcios atribuíam-lhe a autoria de um conjunto de livros sagrados (provavelmente na realidade escritos por diversos autores, ao longo de muitas gerações…), contendo ensinamentos sobre artes, ciências, religião e filosofia. Era, na cultura egípcia da antiguidade, considerado o depositário do Conhecimento.

Albert Mackey refere que, nos tempos medievais, Hermes Trismegisto era considerado generalizadamente o inventor de todas as ciências e, de entre elas, evidentemente, a Geometria e a sua aplicação prática na construção, a Arquitetura.

Mais uma vez, a corporação de construtores em pedra constrói a Lenda do seu ofício com base num mito, mas um mito histórico, isto é, aquilo que era, na época, considerado verdade histórica.

Nesta passagem da Lenda do Ofício perpassa também o que são algumas das suas características mais evidentes, o anacronismo e o sincretismo. É assim que Hermes é dado como bisneto de Noé e enxerta-se no mito do Dilúvio um personagem advindo da cultura egípcia, obviamente diversa e muito posterior.

Na Lenda, o papel atribuído a Hermes é apenas o de transmissor. Encontrou um dos pilares – não refere a Lenda qual – e os ensinamentos nele gravados e transmitiu-os a outros homens.

Obviamente que o que transmitiu foi a Geometria, conjuntamente com as outras ciências.

Não deixa de ser de alguma forma irónico que esta medieval apropriação de um reumanizado deus de segunda ordem egípcio por parte dos maçons operativos venha, muito mais tarde, nos séculos XVIII e XIX a ter uma nova versão nos delírios dos ocultistas, neoalquimistas e demais esotérico-birutas que pululavam por essa época.

A variante da ligação da Maçonaria ao Ocultismo, Hermetismo, Alquimia e quejandas correntes foi uma moda com alguma expressão no século XIX, que deixou alguns resquícios, aqui e ali, em segmentos rituais de alguns dos Altos Graus, mas que sobretudo deixou uma nefasta herança de um não negligenciável conjunto de escritos do Mago disto e do Cavaleiro daquilo, espuriamente ligados a uma determinada conceção, que então floresceu, da Maçonaria como integrante do Conhecimento dito Hermético e Oculto. Herança nefasta, na medida em que, quer o profano, quer mesmo aquele que ainda pouco progrediu no seu trabalho de aperfeiçoamento pessoal pelo método maçônico, têm os seus esforços de obtenção de material publicado de consulta e estudo sobre Maçonaria dificultados por um poluidor acervo de escritos e publicações esotérico-birutas, que só complicam a vida de quem busca conhecer e entender o que é a Maçonaria e o seu método de aprendizagem e evolução.

Os maçons operativos medievais “desgraduaram” um deus menor egípcio em homem. Os intelectuais românticos, embalados nas suas ilusões e crendices, “elevaram” homens a “magos”… Ironias da vida…

Por mim, confesso que, entre uns e outros, prefiro os simples construtores medievais. Ao menos esses construíram a sua Lenda do Ofício com base no que na época se pensava ser verdade histórica, enquanto os “magos”, ocultistas e outros cultores de esotérico-birutices pretenderam elevar os meros produtos da sua imaginação à categoria de verdade…

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: antes do Dilúvio

Tendo presente os limites e condicionalismos que apontei no texto anterior, vamos então tentar proceder a uma análise crítica do início da Lenda do Ofício.

Para que estejamos identificados, recordemos, então, o que nessa Lenda reza quanto aos tempos antediluvianos:

Vou contar-vos como estas valiosas ciências apareceram. Antes do Dilúvio de Noé, havia um homem, chamado Lamech, tal como está escrito na Bíblia, no quarto capítulo do Gênesis; e este Lamech tinha duas mulheres, uma chamada Ada e outra chamada Sella; da sua primeira mulher, Ada, teve dois filhos, Jabell e Tuball e da sua outra mulher, Sella, teve um filho e uma filha. E estes seus quatro filhos criaram o princípio de todas as ciências no mundo. O seu filho mais velho, Jabell, fundou a ciência da Geometria. (…) E o seu irmão Tuball fundou a ciência da música (…). E o terceiro irmão, Tuball Cain, fundou a ciência de trabalhar ouro, prata, cobre, ferro e aço (…). Esses filhos sabiam bem que Deus iria tirar vingança dos pecados, ou pelo fogo, ou pela água; portanto, escreveram as suas ciências em dois pilares de pedra, que pudessem ser encontrados após o Dilúvio de Noé. E uma das pedras era mármore, pois essa não arderia com o fogo; e a outra pedra era argila cozida em tijolos e não afundaria na água de Noé.

Obviamente que nenhum documento histórico suporta esta parte da Lenda. O único elemento em que se baseia é a Bíblia, no Livro do Gênesis.

No Gênesis, existe a referência a dois personagens com o nome de Lamech. Um era descendente em sexta geração de Caim, filho de Methusael e a primeira referência a um polígamo na Bíblia, com duas mulheres, Ada e Tselah (na Lenda, Sella). O outro era descendente de oitava geração de Seth (Abel), filho de Methuselah, e foi o pai de Noé.

Alguns estudiosos consideram que estes dois personagens corresponderão a um único ser, apontando a semelhança dos nomes dos respetivos progenitores e, sobretudo notando que, na coletânea rabínica Genesis Rabba, refere-se que Na’amah, a filha de Tselah e Lamech, filho de Methushael (Methusael), foi a mulher de Noé, alegadamente o filho do outro Lamech, filho de Methuselah.

Seja como seja, a Lenda do Ofício não se perde em rabínicas subtilezas e toma como personagem Lamech, o primeiro polígamo referenciado na Bíblia, descendente em sexta geração de Caim.

Lenda do Ofício parte, portanto, do mito bíblico, acrescentando-lhe os elementos da fundação das ciências pelos filhos de Lamech e a premonição de que o castigador e vingativo Jehovah do Antigo Testamento iria punir duramente os pecados humanos, fosse pela água, fosse pelo fogo – os dois grandes elementos com capacidade destruidora da Antiguidade Primitiva. E, anacronicamente – pois a escrita ainda não tinha sido inventada – relata a escrita do registo de todas as ciências em dois pilares, concebidos para resistir à água, um, e ao fogo, o outro.

Mito, evidentemente! Lenda, obviamente! No entanto, que deduções ou ilações de natureza histórica (melhor dito: proto-histórica) podemos tirar desta parte da Lenda?

Albert Mackey, na sua História da Maçonaria, informa-nos que esta história, na parte não bíblica, deriva de um registo de Josephus (historiador romano do Povo Judeu da Antiguidade, autor das Antiguidades dos Judeus), que conta a história do fabrico dos dois pilares como tendo ocorrido com descendentes de Seth (Abel).

Não sendo de presumir que os autores medievais da Lenda estivessem familiarizados com os textos rabínicos e fossem dados às subtilezas dos estudiosos que defendem serem os “dois” Lamech um único personagem, verifica-se que a Lenda parte da história relatada por Josephus, mas alterando os personagens.

Segundo Mackey, tal ter-se-á devido a uma adulteração do texto de Josephus ocorrida numa obra intitulada Polychronicon, da autoria de um monge beneditino, Ranulph Higden, que viveu no século XIV.

Portanto – e não esqueçamos que a Lenda do Ofício se estruturou na época medieval – esta parte da Lenda do Ofício radica num relato de um historiador, adulterado por outro. Mas resulta do que, na época da sua construção, era tido como um fato histórico. Esta parte da Lenda do Ofício terá, assim, sido incluída na mesma não antes do século XIV – altura da adulteração, no Polychronicon, do que Josephus escrevera. E corresponde ao que, na época, era tido como um fato histórico.

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – análise crítica: Introdução

Uma análise do ponto de vista histórico da Lenda do Ofício deve ser feita segundo as regras da Ciência da História. E regra básica desta ciência é que a História é constituída por FATOS – não lendas, nem mitos, nem hipóteses, nem probabilidades. Fatos! Este o alimento da História e os fatos são estabelecidos por DOCUMENTOS. Traços ou registos inequívocos de que algo sucedeu mesmo. O documento pode ser um registo de um fato ou um relato sério e credível. Tanto mais sério quanto maior crédito merecer o seu autor. Tanto mais credível quanto mais contemporâneo for o seu narrador.

Este princípio ou regra da Ciência Histórica coloca um problema sério, quiçá insolúvel, quanto a um grande período de sucessos da Humanidade Primitiva. Tudo o que sucedeu antes de haver escrita não está registado. Daí que se chame ao (imenso) período anterior à invenção da escrita Pré-História.

Em relação à Pré-História, por força da natureza das coisas, a fixação de fatos não se faz mediante a sua comprovação documental, mas em face de indícios credíveis. Daí que sejam importantes todas as descobertas arqueológicas, que permitem analisar “livros não escritos” que indiciam como era a vida dos nossos longínquos antepassados dessas primitivas eras.

Mas se os indícios arqueológicos nos permitem deduzir as condições de vida genéricas de um determinado período, não nos possibilitam estabelecer um dado fato concreto – à míngua de registo contemporâneo, ou próximo disso.

No entanto, sucessos existem que estão marcados nas culturas de vários povos de muitos lugares. Os mitos primitivos, com algumas variantes, mais ou menos acentuadas, são comuns, na sua essência às culturas ocidentais como orientais, mediterrânicas como nórdicas, africanas, asiáticas ou europeias. Mesmo em alguns mitos dos povos primitivos do continente americano podemos reconhecer traços comuns com mitos do resto do globo.

A ciência dos nossos dias estabeleceu que o homem terá deixado de ser símio em África. Daí ter-se-á espalhado para a Ásia, desta para a América e a Europa, em movimentos diversos e momentos distintos e autônomos. O conjunto de mitos primitivos dos vários ramos de distribuição geográfica do bicho que se tornou Homem é, quando dotado de similitudes essenciais, significativo. Corresponde, pensa-se com foros de lógica, a memórias de fatos relevantes efetivamente ocorridos, memórias passadas oralmente de geração em geração, alteradas quer por virtude do decurso do tempo, quer em face das diferentes condições geográficas e evoluções culturais dos diversos povos ou tribos.

Os relatos míticos de sucessos ocorridos milhares de anos antes da sua fixação escrita são, obviamente, inaceitáveis enquanto fonte histórica. Mas são significativos de uma dada tradição cultural – e tanto mais significativos e merecedores de atenção quanto comuns a diversas tradições.

Os Livros Sagrados de todas as religiões não terão sido ditados ou dados diretamente pela Divindade ou Divindades. Mas esses Livros Sagrados, enquanto repositórios de tradições, de contos, de lendas, de lembranças alteradas e adulteradas pelo decurso do tempo e do acrescentar de um ponto por quem conta um conto, são elementos indiciários de panos de fundo, de fatos memoráveis ou extraordinários que, pela sua magnitude, importância, bizarria ou incapacidade de serem compreendidos, marcaram os imaginários primitivos.

O que de similar existe nas várias tradições das diferentes civilizações ou, simplesmente, povos primitivos é elemento fortemente indiciário de que algo dessa natureza comum efetivamente sucedeu. Não sabemos quando, nem onde, nem como, nem concretamente o quê (não há registos documentais…). Mas temos por indiciado que algo da natureza da essência dos diferentes mitos comuns terá sucedido e terá sido tão importante que impressionou, ao ponto de o seu relato ser transmitido e alterado e adulterado, de geração em geração, até ser fixado em escrita, milhares de anos depois da ocorrência.

Um desses sucessos é o que na Bíblia é descrito como Dilúvio. Não podemos saber se terão sido chuvas prolongadas e fortes, se alterações geológicas, se inundações fortes e inesperadas. Mas a existência de um mito primordial e comum a diversas civilizações de que existiu um alagamento, uma destruição de lugar ou civilização importante – tão importante que, no registo bíblico, é descrito como universal – é indício seguro de que algo cataclísmico relacionado com a água e a sua força destruidora ocorreu. Que muitos pereceram e só poucos sobreviveram. E que os poucos sobreviventes tiveram como que recomeçar de novo. A Bíblia chamou-lhe o Dilúvio. Outras tradições e mitos chamam-lhe, por exemplo, a destruição da mítica Atlântida…

Quanto mais recuados os tempos, menos provas existem, de menos indícios dispomos. Recuando aos primórdios do bicho feito Homem, muitas vezes, para além de ossadas aqui e ali descobertas – que de pouco, em termos factuais, servem – os únicos elementos que restam ao estudiosos são os relatos míticos dos ditos Livros Sagrados.

Os relatos dos Livros Sagrados, particularmente da Bíblia, não sendo fontes documentais históricas, assumem, à falta de melhor, o papel de registos de mitos correspondentes a sucessos muito antes ocorridos, seguramente adulterados, quiçá embelezados, porventura exagerados. Mas indiciam que algo do género ocorreu, algures nas profundezas do passado do primitivo bicho que se tornou Homem e se agrupou em tribos e se fixou aqui e acolá e construiu e viu destruído, e vagueou e lutou e algo fez e viu e viveu e achou memorável – e por isso passou de geração em geração, alterando, adulterando, acrescentando, embelezando, imaginando, relatando, contando, derivando, criando uma estória que não será História, mas que se baseia numa história efetivamente ocorrida.

Relativamente à Antiguidade profunda verdadeiramente antiga, tão antiga que já era antiga e imemorial nos primitivos tempos em que os textos bíblicos – e outros textos sagrados – foram escritos, apesar dos pesares o registro bíblico é um indício de que algo do gênero, parecido, tendencialmente da mesma natureza, ocorreu, repito, não se sabe quando, nem onde, nem exatamente o quê e como.

Lenda do Ofício inicia-se nessas profundezas do tempo que foi a Antiguidade da Antiguidade, o tempo que os Primitivos, se deles tivessem consciência, considerariam primitivo. O relato bíblico não é – longe disso! – elemento histórico. Mas é o menos longínquo que possuímos para deduzir o que terá acontecido nessa infância da Humanidade.

Por aí – com todas as limitações para que neste texto alerto – começarei a minha análise crítica da Lenda do Ofício.

Continua…

Autor: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

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A Lenda do Ofício – 2ª Parte: a Idade Média

Continuo a divulgação, em tradução livre minha, da Lenda do Ofício, a lenda da origem da Maçonaria, tal como consta no manuscrito Downland, um manuscrito da maçonaria operativa, que se considera datar de cerca do ano 1.500. Relembro que, ao tempo, e conforme se verifica de vários manuscritos da maçonaria operativa que foram descobertos e estudados, as palavras Maçonaria e Geometria eram consideradas sinônimos entre os maçons operativos, os construtores em pedra reunidos em associações profissionais, que preservavam e transmitiam aos mais novos os segredos da construção, nomeadamente as regras geométricas que lhes permitiam facilmente determinar com acerto ângulos retos, alinhar paredes na vertical, etc..

No texto anterior, a Lenda evolui desde os primórdios da Humanidade, na era pré-diluviana, até à época do rei Salomão. O texto que segue prossegue a partir daí.

Homens da Fraternidade curiosos viajaram por diversos países, uns para aprenderem mais da arte de construir e aparelhar, outros para ensinar aqueles que tinham poucos conhecimentos. E assim sucedeu que houve um curioso Maçom, chamado Maymus Grecus, que esteve na construção do Templo de Salomão e que veio para França e aí ensinou a ciência da Maçonaria aos homens da França. E houve um, da linhagem real de França, chamado Carlos Martel; e ele era um homem que gostava muito desta ciência e aproximou-se deste Maymus Grecus, acima referido, e aprendeu com ele a ciência e obteve através dele os Deveres e as Regras; e mais tarde, pela graça de Deus, foi escolhido para ser Rei da França. E quando ele estava nessa função, contratou Maçons e ajudou a fazer Maçons de homens que não eram nada; e pô-los a trabalhar e deu-lhes os Deveres e as Regras e bom salário, tal como tinha aprendido de outros Maçons; e confirmou-lhes uma determinação de se reunirem anualmente; e acarinhou-os muito; e assim chegou esta ciência a França.

A Inglaterra em todo este tempo manteve-se alheia, quanto a qualquer assunto de Maçonaria, até ao tempo de Santo Albano. E nos dias deste o rei da Inglaterra, que era pagão, edificou as muralhas da cidade que agora se chama Saint Alban. E Santo Albano era um valoroso cavaleiro e nobre da corte do Rei e tinha a direção dos assuntos do reino e da edificação das muralhas da cidade; e gostava dos Maçons e acarinhava-os muito. E fixou o seu salário bem, de acordo com os padrões do reino; pois deu-lhes dois xelins e seis dinheiros por semana e três dinheiros para as suas refeições. E antes desse tempo, por toda esta terra, um Maçom recebia apenas um dinheiro por dia e a sua refeição, até que Santo Albano emendou isso e deu-lhes uma carta patente do Rei e do seu Conselho para reunirem em conselho geral e deu-lhe o nome de Assembleia; e, a partir daí, ele próprio ajudou a fazer Maçons e deu-lhes Deveres, tal como ouvirão mais tarde.

Pouco tempo depois da morte de Santo Albano, houve diversas guerras no reino da Inglaterra entre diversas nações, pelo que a boa regra da Maçonaria foi destruída até ao tempo dos dias do Rei Athelstone, que foi um valoroso Rei da Inglaterra e trouxe a esta terra descanso e paz; e construiu muitas grandes obras de Abadias e Torres e muitos outros tipos de edifícios; e gostava muito dos Maçons. E ele tinha um filho chamado Edwin, que gostava dos Maçons muito mais do que o seu pai. E era um grande praticante da Geometria; e dedicou-se muito a falar e a confraternizar com Maçons e a aprender a sua ciência; e depois, pelo amor que dedicava aos Maçons e à ciência, ele foi feito Maçom e obteve do rei seu pai uma carta patente para realizar todos os anos uma assembleia, onde lhes conviesse, no reino da Inglaterra; e para corrigirem os erros uns dos outros e os atropelos que fossem feitos dentro da ciência. E realizou ele próprio uma Assembleia em York, e estes fez maçons e deu-lhes Deveres e ensinou-lhes as regras e ordenou que esta norma seria seguida para todo o sempre, e guardou então a carta patente para a conservar e deu ordem para que fosse renovada de rei para rei.

E quando a Assembleia estava reunida, anunciou que todos os Maçons, velhos e novos, que tivessem alguma notícia ou conhecimento dos Deveres ou das regras que foram feitos antes nesta terra, ou em qualquer outra, deveriam deles dar conhecimento. E quando assim se fez, foram encontrados alguns em francês e alguns em grego e alguns em inglês e alguns em outras línguas; e o seu propósito foi de reunir todos num único. E fez um livro deles e de como a ciência foi fundada. E ele próprio proclamou e determinou que deveria ser lido ou contado sempre que um Maçom fosse feito, para lhe dar a conhecer os seus Deveres. E desde esse dia até agora as regras dos Maçons mantiveram-se dessa forma, tanto quanto os homens as podem executar. E a partir daí diversas Assembleias tiveram lugar e ordenaram certos Deveres, segundo o melhor juízo dos Mestres e Obreiros.

Por natureza, uma lenda não é realidade histórica. Nesta Lenda da Ordem é fácil, por exemplo, detectar anacronismos evidentes: Abraão contemporâneo de Euclides, um obreiro do Templo de Salomão contemporâneo de Carlos Martel.

Outros anacronismos não serão tão evidentes a quem não conhecer profundamente História e a História de Inglaterra, mas estão lá. Mas, anacronismos à parte, imprecisões expectáveis de uma estória que passa de geração em geração por tradição oral, se analisarmos bem a Lenda tendo sempre presente que Maçonaria é palavra utilizada como sinônimo de Geometria e que maçom é palavra utilizada tanto para significar o trabalhador de construção em pedra, como o estudioso de Geometria, como aquele que aplica noções de Geometria à arte de construir, como ainda aquele que se insere numa corporação organizada de construtores em pedra, poderemos verificar que esta Lenda tem mais correspondência com fatos históricos do que, à primeira vista, se poderá supor.

Faço notar que, embora em inglês moderno se faça a distinção entre “mason” e “freemason”, significando o primeiro termo “pedreiro” ou “construtor em pedra” e o segundo o que hoje se designa por maçom, aquele que se integra na Maçonaria especulativa, tal como existe desde o século XVIII, tal distinção inexistia, obviamente na época da maçonaria operativa, em que os termos “mason” e “freemason” eram indistintamente usados. Nesta tradução livre, optei por utilizar sempre indistintamente o termo maçom. Numas passagens do texto, significará o oficial do ofício da construção, noutras o cultor da ciência da geometria, noutras ainda o membro da corporação de construtores, e também porventura nalgumas delas assumirá simultaneamente dois ou mais destes significados.

Procurarei distinguir os vários significados do uso do termo, ao longo da análise crítica da Lenda do Ofício que me proponho levar a cabo. Sempre seguindo de perto os ensinamentos de Mackey, essa análise crítica será o objeto da série de textos que se seguirá.

Traduzido por: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Referência bibliográfica

MACKEY, Albert G. The History of Freemasonry. Gramercy Books, New York.

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A Lenda do Ofício – 1ª Parte: Antiguidade

O manuscrito Downland, que se pensa datar de cerca do ano 1.500, é um dos manuscritos da maçonaria operativa que foram encontrados e estudados. Nele está, além do mais, transcrita a Lenda do Ofício a lenda da origem da Maçonaria (não esquecer que, conforme assinalei em Maçonaria = Geometria = Arquitetura, naqueles já remotos tempos Maçonaria e Geometria eram sinônimos).

Dada a sua extensão, vou divulgá-la em dois textos. Eis a primeira parte, em tradução livre minha:

(…) Pode um homem verificar que a ciência do trabalho se funda na Geometria, pois a Geometria ensina ao homem a dimensão e a medida, a forma e o peso, de todas as coisas na Terra, e por isso não existe homem algum que execute alguma ciência, sem que utilize alguma dimensão ou medida, nem nenhum compra ou vende sem que compre ou venda algo com medida ou peso, e tudo isto é Geometria. (…) Daí que se pense que a ciência da Geometria é a mais valiosa e que contém todas as outras.

Vou contar-vos como estas valiosas ciências apareceram. Antes do Dilúvio de Noé, havia um homem, chamado Lamech, tal como está escrito na Bíblia, no quarto capítulo do Gênesis; e este Lamech tinha duas mulheres, uma chamada Ada e outra chamada Sella; da sua primeira mulher, Ada, teve dois filhos, Jabell e Tuball e da sua outra mulher, Sella, teve um filho e uma filha. E estes seus quatro filhos criaram o princípio de todas as ciências no mundo. O seu filho mais velho, Jabell, fundou a ciência da Geometria. (…) E o seu irmão Tuball fundou a ciência da música (…). E o terceiro irmão, Tuball Cain, fundou a ciência de trabalhar ouro, prata, cobre, ferro e aço (…). Esses filhos sabiam bem que Deus iria tirar vingança dos pecados, ou pelo fogo, ou pela água; portanto, escreveram as suas ciências em dois pilares de pedra, que pudessem ser encontrados após o Dilúvio de Noé. E uma das pedras era mármore, pois essa não arderia com o fogo; e a outra pedra era argila cozida em tijolos e não afundaria na água de Noé.

O nosso propósito é contar-vos com verdade como e de que maneira foram encontradas as pedras em que estas ciências estavam escritas. O grande Hermarynes, que foi filho de Cuby, o qual foi filho de Sem, que foi filho de Noé, mais tarde chamado de Hermes, o patrono dos homens sábios, encontrou um dos dois pilares de pedra e encontrou a ciência nele escrita e ensinou-a a outros homens. E na construção da Torre de Babel se fez o primeiro uso da Maçonaria. E o rei da Babilônia, que se chamava Nimrod, era ele próprio um maçons; e amava bem a ciência, e isto é dito pelos mestres em História. E quando a cidade de Nínive e outras cidades do Oriente foram construídas, Nimrod, o rei da Babilônia, enviou para lá três mil maçons a pedido do rei de Nínive, seu primo. E, quando os enviou, deu-lhes um Dever do modo seguinte: Que deveriam ser verdadeiros uns com os outros e que deviam gostar de estar uns com os outros e que deviam servir lealmente o seu senhor em troca do seu salário (…). E outros deveres de conduta lhes deu. E esta foi a primeira vez que aos Maçons foram impostos Deveres da sua ciência.

Mais tarde, quando Abraão e Sara, sua mulher, foram para o Egito, ali ele ensinou as sete ciências aos egípcios; e teve um valioso discípulo, chamado Euclides, que aprendeu bem e foi Mestre das sete ciências liberais. E no seu tempo, sucedeu que o senhor e os nobres do reino tinham tido muitos filhos, alguns das suas mulheres, outros de outras senhoras do reino; porque aquela terra é uma terra quente e propícia a gerar. E eles não tinham encontrado modos de vida satisfatórios para os seus filhos, de que muito gostavam, e então o rei do país convocou um grande Conselho e Parlamento para decidir como poderiam encontrar um modo de vida honesto para os nobres seus filhos, e não conseguiram encontrar boa maneira. E então anunciaram por todo o reino que se houvesse algum homem que os informasse, então deveria comparecer perante eles e seria recompensado pelo seu trabalho, de forma a deixá-lo satisfeito.

Depois que este pregão foi feito, veio então o valoroso Euclides e disse para o rei e todos os seus nobres: “Se me entregarem os vossos filhos para que eu os governe e lhes ensine uma das sete ciências, de forma que eles possam viver honestamente como nobres, deverão dar-me a mim e a eles uma carta patente, de que eu tenho o poder de lhes determinar o modo como essa ciência deve ser regulada.” E o rei e o seu Conselho concederam-lhe isso e selaram a sua carta patente. Então o valoroso Doutor levou consigo os filhos dos nobres e ensinou-lhes a ciência da aplicação da Geometria ao trabalho de construção em pedra de igrejas, templos, castelos e palácios; e deu-lhes Deveres da seguinte forma.

O primeiro era que deviam ser verdadeiros para o Rei e para o Senhor de quem dependiam. E que deveriam gostar de estar juntos, ser verdadeiros uns com os outros. E que deviam chamar-se uns aos outros Companheiro ou Irmão, não por servo, ou escravo, ou outros nomes tolos. E que deveriam merecer o salário pago pelo Senhor ou pelo Mestre que servissem. E que deveriam designar o mais sábio deles para Mestre do trabalho e não deixar que essa designação fosse afetada por linhagem, riqueza ou favor, pois então o senhor seria mal servido e eles desonrados. E também que deveriam tratar o responsável pelo trabalho por Mestre, durante o tempo em que trabalhassem com ele. E muitos mais deveres de conduta que seria longo contar. E a todos estes Deveres fez jurar um grande juramento que naquele tempo se usava; e determinou que deveriam receber salários razoáveis, com os quais pudessem viver honestamente. E também que deveriam reunir-se anualmente, para discutir como poderiam trabalhar melhor e melhor servir o seu senhor, para ganho dele e deles próprios; e para corrigirem no seu próprio seio aquele que tivesse errado contra a ciência. E assim ali foi implantada a ciência; e o valoroso senhor Euclides deu-lhe o nome de Geometria. E agora é chamada em toda esta terra por Maçonaria.

Muito depois deste tempo, quando os filhos de Israel chegaram à Terra Prometida, que agora é chamada entre nós de Jerusalém, o rei David iniciou a construção do Templo que é chamado entre nós de Templo de Jerusalém. E o rei David apreciava os maçons e tratava-os bem e dava-lhes bom salário. E deu-lhes os Deveres pela forma que tinha aprendido no Egito, dada por Euclides, e outros deveres de conduta de que ouvirão falar mais tarde. E depois da morte do rei David, Salomão, que era filho de David, concluiu o Templo que o seu pai começara; e mandou vir maçons de diversos países e várias terras; e juntou-os, de forma a ter 40.000 trabalhadores em pedra e chamou-lhes maçons. E escolheu de entre eles 3.000 que determinou fossem Mestres e responsáveis pelo trabalho. E, para além disso, havia um rei de outra região que os homens chamavam Hiram, que era amigo de Salomão e que lhe deu madeira para a sua construção. E ele tinha um filho chamado Aynam (hoje designado por Hiram Abif) e ele era Mestre de Geometria e foi o Mestre Chefe de todos os maçons e foi o Mestre de todos os aparelhamentos e gravações das pedras e de toda a espécie de Maçonaria que dizia respeito ao Templo; e isto é testemunhado pela Bíblia, no Livro dos Reis, capítulo terceiro. E Salomão confirmou, quer os Deveres, quer as disposições que o seu pai tinha dado aos maçons. E assim foi a valiosa ciência da Maçonaria confirmada na terra de Jerusalém e em muitos outros países.

Traduzido por: Rui Bandeira

Fonte: Blog A Partir Pedra

Referência bibliográfica

MACKEY, Albert G. The History of Freemasonry. Gramercy Books, New York.

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A Maçonaria, o Eu e a ideia de Morte

“Não se pode julgar da beleza da vida senão pela da morte (…)
Não se pode julgar da beleza da morte senão pela da vida.”
Isidore Ducasse – Conde de Lautrémonte, Poesias II

Segundo Deepak Chopra, o mundo é a vibração do infinito e é assim que ele existe na nossa imaginação. A filosofia vedanta afirma:

“Quando o infinito não vibra, os mundos parecem afundar-se”.

Tudo o que conseguimos pensar – uma cadeira, uma cor, uma montanha, um pensamento, um arco-íris – é apenas uma vibração diferente da nossa essência. Algo está a vibrar e a criar tudo e essa vibração está a acontecer na presença da alma. A alma vibra e cria os pensamentos. A alma vibra e cria o corpo. A alma vibra e cria todo o Universo. Todos, ao longo da Antiguidade, dos alquimistas egípcios aos filósofos gregos, afirmaram que a criação é vibração. Criar é trazer para o Ser ou para a existência. E, para criar algo de novo, é preciso morrer para o que já existe. Algo tem que morrer para que algo novo possa emergir. Assim, cada morte é um salto quântico de criatividade. Através da morte recriamo-nos a todos os níveis: ao nível do intelecto, do corpo e da personalidade. A cada morte armazenamos a sabedoria das nossas experiências desde o início dos tempos e efetuamos saltos quânticos de criatividade para que possamos olhar de novo para nós como se fosse a primeira vez. Ciclos de nascimento, transformação e morte mantêm-se frescos para que possamos imaginar novos reinos para a nossa existência.

Na Biologia há um termo denominado apoptose, que traduz a morte celular programada. Na ausência de apoptose, as células esquecem-se de morrer e esta condição é denominada por cancro. As células cancerígenas perderam a memória da morte e, na sua busca da imortalidade, matam o corpo hospedeiro do qual dependem para sobreviver. Assim, a morte é o bilhete para a vida e a morte está a ocorrer neste preciso momento no nosso corpo-mente. Nesse sentido, há algo que em nós sobreviva na morte? Antes do mais, a alma. E a personalidade, sobrevive? A personalidade não sobrevive sequer enquanto estamos vivos, porque o indivíduo que tomamos pelo “Eu” é diferente a cada momento, de hora para hora, de semana para semana, de ano para ano. Se a personalidade sobrevivesse de qual delas estaríamos a falar? A da nossa criancice, a da adolescência, ou a dos vários estágios de adultez?

A larva que morre para se tornar uma crisálida opera, efetivamente, uma transformação. Não uma morte efetiva. Também a morte, em si, é um processo de transformação, um movimento para outro lugar ou tempo, uma alteração na qualidade da nossa consciência. O mundo que experienciamos, com terra e céu, plantas e pessoas, Sol e Lua, é uma expressão particular da consciência a uma dada frequência. Estes estados de consciência são experiências vibratórias da consciência infinita, em que o Cosmos se movimenta e afirma a sua existência. É mais que certo que infinitas frequências de consciência existem e dá-se a presença simultânea de muitos planos de existência, de inúmeros universos paralelos.

Tudo na vida se revela passageiro e mutável, porque essa é a natureza do nosso mundo. Há quem procure, por natureza, resistir à mudança. Contrariar a própria natureza do universo em que vivemos parece ser um exercício de pura impossibilidade ou juízo de loucura. Contudo, quando se utiliza a autorreferência, esta mudança não se revela “adversa” (por contrária aos nossos desejos) mas positiva. No entanto, temos que ir além de uma mente positiva ou negativa para alcançarmos uma mente silenciosa, que se abstenha de julgamentos, análises ou interpretações. Por outras palavras, a paz com o “momento” só se consegue pela experiência da testemunha silenciosa, pela consecução do silêncio interior. Na pureza do silêncio, sentimo-nos ligados à nossa origem e a tudo o resto. As tendências que emergem desta ligação são evolucionárias e espontâneas. O reconhecimento do nosso universo dual, onde toda a experiência é feita por contrastes (luz-sombra, nascimento-morte, frio-calor, etc.), permite compreender que é possível “viver (e morrer) além do bem do e do mal”, como diria Nietzsche, no campo da pura potencialidade.

Quando um profano entra na Maçonaria, ou numa qualquer outra Ordem iniciática, ele dá, ainda que muitas vezes não tenha disso consciência, os seus primeiros passos naquilo que se considera uma via espiritual. Compreender essa via é lembrarmo-nos, a cada momento, que o nosso mundo é apenas uma parte visível, perceptível dos nossos sentidos, de um universo muito mais vasto, de um mundo espiritual de onde emana a realidade objetiva. Para o conjunto das religiões do mundo a realidade dissimula a realidade objetiva dum outro universo, o Reino de Deus ou dos Deuses, povoado de espíritos. “O visível é o reflexo do invisível”, diz o Zohar. É, assim, muito difícil ao homem comum, graduado na materialidade, perceber, e ainda menos compreender, esse outro mundo, muito mais real que o nosso, sem o qual o nosso simplesmente não existiria. Todavia, o Homem participa na realidade desses dois mundos, porque possui uma dupla natureza. Uma terrestre, material, temporal, mortal, e a outra celeste, espiritual, intemporal e imortal. Com a “Queda”, o Homem esqueceu a sua natureza divina e chegou ao ponto de crer que só a sua natureza terrestre existe. A via espiritual não mais é que o conjunto de meios que permite ao Homem operar o reconhecimento da sua natureza primeira.

A Iniciação, cerimônia eminentemente simbólica, visa provocar no candidato uma ruptura da representação condicionada e egóica do mundo para lhe abrir um acesso ao Real, ao espaço de liberdade da sua natureza plena. A natureza deste trabalho, uma profunda metanoia reflexiva – até porque o iniciado é confrontado com os caracteres da vida e da morte -, é levar ao questionamento mais profundo do “Quem sou eu?”. Serei este corpo? Serei o meu espírito ou a minha alma? Ou, ainda, serei a minha personalidade? A natureza humana é complexa e é evidente que o Homem não é o que ele pensa. Interpretamos vários papéis no teatro da vida e rapidamente nos identificamos com eles, que constituem, no seu conjunto, aquilo que classificamos como “pessoa”, a personalidade ou o nosso eu. Esta “mentalização” do mundo e de nós próprios tem pesadas consequências, sendo responsável, desde logo, pela criação da noção de tempo, tão fundamental na nossa época. É curioso notar que a noção de tempo evoluiu com a própria evolução da história e a natureza sociológica do homem e nunca, como hoje, essa noção foi tão premente e acelerada. Contudo, outra das fabricações da mente foi a elaboração do eu, que, de fato, não passa de uma ficção, de um fantasma. A ideia que temos de nós próprios é uma construção mental, uma inacreditável mistura de instintos, de condicionantes da nossa educação, das nossas experiências, da influência da sociedade, de sentimentos, de emoções, de pulsões mais ou menos controladas e de recordações acumuladas, às quais damos sentido através de uma narrativa. No quadro dessa artificialidade, o Eu pode tornar-se cambiante, turvo e dividido.

Como atrás referido, o que somos hoje é diferente do que fomos há 30 anos, 20 ou 10 anos atrás. Temos, todavia, a sensação de sermos sempre os mesmos. Essa sensação é sólida? Uma observação atenta permite compreender que não temos apenas um eu variável, mas antes uma multitude de “eus”, que muitas vezes, se opõem, se contrariam ou negoceiam mutuamente. Muito do nosso tempo é usado a gerir as nossas contradições e as nossas incoerências para as tornar suportáveis. Isto não seria dramático se, de maneira inconsciente, mas muito vibrante, não sentíssemos que o nosso “eu” é frágil, fragmentado, dividido, instável, e se não sentíssemos então a necessidade imperiosa de o afirmarmos, a fim de mantermos, a todo o custo, o que pensamos ser o “eu”. É esta identificação com o “eu” e a necessidade de manter essa falsa identidade que causam as manifestações mágicas do ego que afetam a vida de todos os seres humanos em graus diversos. Note-se que o medo de ver esse “eu” desaparecer torna a perspectiva da morte particularmente angustiante.

Em todos os Mistérios se congregou a ideia de uma alma espiritual no homem e uma vida para além da morte. Nesse conceito a alma seria preexistente, habitando num espaço astral, num mundo superior dos deuses e dos espíritos. Por ser uma visão tão subjetiva, a imortalidade da alma não se ajusta à visão prática da ciência e da sua evolução, ainda que a física quântica, no último quartel do século XX e entrada no século XXI tenha vindo a redefinir a questão. Ainda assim, milhões de pessoas testemunham o privilégio de terem vislumbrado uma realidade que abrange espaço e tempo como uma vasta bolha multidimensional. Algumas dessas pessoas parecem ter contactado este reino atemporal através de experiências próximas da morte. Outros, como Einstein, experimentaram episódios de completa libertação das fronteiras do espaço-tempo, através dum processo de ampla lucidez:

“Em tais momentos imagina-se que se está de pé em qualquer ponto desde pequeno planeta apreciando, deslumbrado, a fria e, mesmo assim, profundamente comovente beleza do eterno, do imperscrutável. Vida e morte fluem numa coisa só e não há evolução nem eternidade, apenas Ser.”

O medo da morte marca muito mais as nossas vidas do que as nossas mentes conscientes estão dispostas a admitir. Conforme escreveu David Viscott:

“Quando se diz que se tem medo da morte, na verdade está-se a dizer que se tem medo de não ter vivido a sua verdadeira vida. Este medo cobre o mundo de silencioso sofrimento.”

Na realidade, a morte não é força toda-poderosa que o nosso medo diz que é. Na natureza, a morte faz parte do ciclo maior do nascimento e da renovação. O ciclo interminável da renovação da vida não se situa além da morte – ela incorpora a morte, usando-a para um objetivo maior. Presumir que a morte existe é, de igual modo, uma meia verdade, pois há muitos níveis do nosso corpo que nem tomam conhecimento de algo designado como extinção. Os nossos átomos têm bilhões de anos de idade e ainda restam neles outros bilhões de anos de vida. Sabiamente, dizia Shakespeare:

“Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos”.

Sim, como “afirmara” já o grande poeta inglês do século XVI, os átomos não passam de energia transformada, e se somos compostos por estes ingredientes imortais, porque não nos vemos à mesma Luz?

Também a morte – esta simbólica -, opera no processo iniciático maçônico uma tradição primordial. Quer no processo iniciático quer no processo de exaltação, a morte, nas suas várias interpretações alegóricas, é tida como um fator impressivo de aprendizagem. Como afirmou Fernando Schwarz:

“A morte é um valor essencial, e os valores morte e iniciação são interativos”.

A morte física acaba por ser assimilada a um rito de passagem a uma condição superior. Não podemos transformar o neófito num homem superior sem “matar” o homem inferior que nele existe. Esta, mais que a morte física, representa a morte do Ego. Não se trata de uma morte efetiva, mas sim de um processo de apaziguamento do nosso homem-animal, do aniquilamento possível dos nossos mecanismos egoístas. A morte é assim encarada como um processo de renascimento, de evolução do homem dentro do homem. A morte não é um fim, é sim um recomeço. A maçonaria transmite esse conhecimento imemorial que, para se renascer, física e simbolicamente, é preciso “morrer” primeiro. Esta, na sua conceção deísta-teísta, concebe a imortalidade da alma humana e crê – como via espiritual – na regeneração (em vida) do Homem. A vincada alegoria da morte no simbolismo maçônico é uma mensagem vivente de fé na imortalidade do Ser. Não de uma fé cega e dogmática, mas de uma fé prenhe de saber espiritual e racional. O mundo é vibração. O pensamento é energia. Tudo vibra na compleição da existência e a morte – estado vibratório pretensamente nulo-, só pode ser concebida como estado transitivo, porque tudo no universo “vive”. Mesmo a morte, por artificio poético, estético ou literário, só pode ser concebida como a antecâmara de mais vida, de mais sonho e de maior imaginação. O que existirá para além da morte? O que é a morte? Qual o sentido da morte? Há um eu na compleição da morte? Relatos de quase morte evidenciam esse plano ascensional como centro observatório. Será a morte a matéria inefável reveladora da consciência, dessa individualidade única forjada no momento da Iniciação final?

Autor: [Giordano Bruno], M∴M∴

Fonte: Academia.edu

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O silêncio em Loja ou o silêncio do discurso?

Introdução

Uma das questões que sempre me chamou a atenção dentro das lojas ou Obediências é a regra de silêncio imposta aos Aprendizes, e que tanto me faz lembrar muito dos meus dias de noviciado, e eu já digo que não estou valorizando o silêncio, seus efeitos e as orientações dadas na interpretação do Ritual.

Podemos ver esta regra do silêncio nas colunas do Norte em várias versões, por um lado, o silêncio imposto diretamente, sem outra possibilidade de poder falar, exceto pela boca do tutor das referidas colunas (2º Vigilante), uma vez que se assume que 

“O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação.”

Outra versão é uma abordagem de natureza mais formativa em que: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria. Quem fala muito, pensa pouco, leviana e superficialmente.” 

Geralmente, também quem se alinha nesta corrente proíbe aos aprendizes poderem falar.

Então haveria outra versão talvez mais perigosa que é quando não se regulamenta o tema do silêncio dos aprendizes e ele passa a ser colocado sob a vontade ad libitum, em função de situações e até mesmo de maçons.

Não devemos nos esquecer de que transversalmente ao silêncio dos Aprendizes, outros temas como sigilo, discrição etc … também são definidos, o que nos levaria através de outros corredores conceituais longos, e aqui estou interessado em desenvolver de onde nasce ou parte e como se desenvolve a questão de deixar ou não os Aprendizes falarem em loja.

Pessoalmente, não é um assunto que me preocupa enquanto Mestre, mas sim como formador, embora não tenha sofrido muito com a questão do silêncio que muitas vezes é imposto aos Aprendizes, já que, tanto nas lojas em que trabalhei, tais como Gran Atanor, quanto em Amigos da Natureza e Humanidade (GLSE), essa não era uma regra fixa, e era aplicada mais do que qualquer outra coisa naquelas situações estranhas para impor sobre o resto, se recorria a instalar o silêncio aos Aprendizes de forma oportuna, constituindo assim uma segunda classe de maçons.

E nem na Loja Rosario de Acuña (GOdF) é um tema que seja imposto, embora o que seja como um tema ad libitum cria certos desequilíbrios.

Em todo caso, esse silêncio imposto cria uma distinção quase esmagadora e avassaladora, porque se tem a sensação de que, se o conceito não é claro e incluído no Regulamento Geral ou Particular da Obediência ou da Loja, então fica essa mesma sensação que se produz no eterno debate profano de querer mudar a lei eleitoral, quando se obtêm votos negativos …, pois aqui é a mesma coisa.

Frustração

Essa arbitrariedade não deixa de produzir na dinâmica da loja coisas curiosas e até paradoxais, tais como optar pela liberdade de expressão para algumas questões e depois fecha-la de novo, ou envolver os Aprendizes e não lhes fornecer as informações em jogo, ou a desculpa de seu grau e desconhecimento da Maçonaria, ou de não atrapalhar seu trabalho e desenvolvimento maçônico que nos leva ao duplo jogo do silêncio e do silêncio do discurso.

Esta não é uma questão menor, e é a fonte de muitos conflitos, talvez não sua aplicação férrea, mas quando permanece nessa discricionariedade que dá origem a muitas arbitrariedades. A este respeito, estou ciente de um caso sintomático em que se pede uma participação ativa em um tema controverso e complexo aos Aprendizes para posicionar a loja em uma determinada questão; e meses depois quando chega uma documentação sobre o assunto votado e vinda da Obediência, diz-se que não deveria ser filtrada aos Aprendizes, deixando nas mãos do VM, a administração da informação sob o critério tangencial de não perturbar esse silêncio ou a concentração maçônica exigida por todo Aprendiz Maçom que, curiosamente, esteve envolvido em todas as dinâmicas anteriores. Quantas vezes isso aconteceu conosco?

Cada vez que avanço no aprofundamento do desenvolvimento deste tema, mais me lembro da imposição do silêncio em formas eclesiásticas, com essa caracterização tão própria de manipular o silêncio de acordo com as necessidades e paradoxos do sistema, o que se aproxima de certo totalitarismo perverso na forma e muito usado dependendo dos jogos de poder que são desenvolvidos, neste caso em loja, porque o tema normalmente não vai em frente até que sejam necessários votos.

E, claro, não ignorando os benefícios do silêncio, não posso negar que às vezes passou de um tema de comportamento em loja um tema pseudo-regulativo e até mesmo cerceador do discurso em alguns de seus aspectos.

As fontes

Por preocupar-se tanto com essas questões de silêncio e por comprovar de onde poderia vir essa presumível regra de silêncio em loja, pedi a meu bom amigo e irmão Joaquín Villalta, que me ilustrasse em função de rastreamento dos rituais que usamos.

Na Constituição de Anderson de 1723 (3), art.  VI: 1) Do comportamento dos Irmãos em Loja Aberta:

“Você não deve ter uma reunião privada ou conversa separada sem a autorização do Mestre, ou dizer qualquer coisa irrelevante ou não apropriada, ou interromper o Mestre ou os Vigilantes ou qualquer Irmão que esteja se dirigindo ao Mestre.”

Mas nada fala em impor silêncio aos Aprendizes.

O resultado dessa busca em outros catecismos, como  o Sceau Rompu, aparece o tema do silêncio, mas mais como um tópico de observação da conduta de âmbito geral da qualidade maçônica.

  1. O que deve observar um bom Maçom?
  2. Quatro coisas: o Silêncio, o Segredo, a Prudência, & a Caridade em relação a seus Irmãos.

E aqui está o mencionado catecismo.  Quando, por exemplo, recorremos a outra fonte, neste caso dos “modernos”, o Luquet. Este nos diz o seguinte:

..os deveres para com os Aprendizes?

  1. Ajudar os Comp.’. , obedecer aos mestres, trabalhar com assiduidade e guardar o silêncio.

Outro ritual como  o Marquês de Gages, não indica nada em particular, digamos que o silêncio está presente em muitas partes do cerimonial ritualístico, mas não parece fazer parte de um regulamento no uso da palavra.

No catecismo do Duque de Chartres, vemos que se reproduz de forma idêntica o Luquet, o que não nos leva a pensar que esse poderia ter sido sua fonte)

  1. Quais são os deveres de um Apr.’. ?
  2. Ajudar os Comp.’., trabalhar assiduamente e guardar o silêncio.

No Regulação de 1801 , que é nossa fonte de trabalho ritual por excelência, não indica nada de um trabalho restritivo dependendo do grau, exceto com a ideia de criar uma situação de expectativa no ritual. Portanto, nenhuma recomendação sobre “necessidade de silêncio“, isso sim, reconhece a introspecção como um instrumento de perfeição moral, sem no entanto especificar em que sentido essa introspecção deve ser praticada:

“A pedra bruta é a imagem do homem rude e selvagem que o profundo estudo de si só pode polir e tornar perfeito ”

Tentando encontrar fontes mais próximas que pudessem me orientar quanto à presença do silêncio em loja, vejo que parece vir de uma tradição mais propensa à “ala dogmática”, tal como recolhemos da legenda trinitária que a Grande Loja da Inglaterra adotou de “Ouvir, ver e calar” que, a propósito, não está muito em sintonia com a praxis da ala liberal maçônica.

Quem parece dar a pista para esta questão controversa, é alguém que tem sido parte da instrução e formação da maçonaria espanhola, uma vez que não foi possível acessar outros catecismos e documentos de instrução, ocorrendo paradoxos de ainda termos um Aprendiz ou um Mestre Maçom lendo e estudando textos de origem dogmática sem questionar suas procedências ou sua origens, ou a possível coerência com linha da obediência e da loja na qual se situa o maçom.

Por isso, observamos as mais estranhas misturas de escolas e doutrinas e se entenda tudo isso como parte do corpus maçônico.

Entre os textos que fazem parte da bagagem maçônica educativa espanhola estão os textos do escocista e grau 33 uruguaio, Aldo Lavagnini, que formou o conjunto “totun revolotun” que os maçons espanhóis têm em sua bagagem formadora, e cujos textos contêm essa importante mistura de escolas e orientações doutrinárias, tão assentadas na prática escocesa, e ao mesmo tempo distantes de outras escolas rituais, tal como o Rito Francês.

É o que nos diz Lavagnini em seu Manual de Aprendiz, sobre o silêncio: 

“A disciplina do silêncio é um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria.  Quem fala muito, pensa pouco, leve e superficialmente. Geralmente, sua visão das coisas será estreita e inflexível e, portanto, não terá elementos para valorizar novas ideias ou horizontes. Por isso, a Maçonaria busca que seus membros se tornem melhores pensadores do que oradores.”

Para justificar a presença do silêncio em loja, foram pesquisadas todas as escolas e doutrinas que inseriram a filosofia do silêncio, que vão desde os pietistas, passando por Buda e concluindo nos pitagóricos, de tal modo que se propôs uma certa etapa como método de introspecção, silenciar os sentidos, ou mesmo criar efeitos de expectativa, ou como um sistema de atitudes permanente para melhorar o trabalho de redescoberta interna, que faz parte de uma uma certa regulamentação que se torna apenas em ultima análise um roubo da palavra na loja.

As fontes que tanto nos lembram os benefícios do silêncio estão presentes nas religiões e tradições místicas, pois se considera que oferece um momento excepcional que favorece o recolhimento e a quietude espiritual necessária para a comunicação com o divino e, portanto, não é difícil observar esta diretriz naquelas famílias rituais de base cristã, como é o caso do Rito Retificado (RER), que de antemão nos indica aquilo que:

“Procurou-se ensinar com isso, que é no silêncio, no retiro e na calma dos sentidos, que o sábio se despoja de suas paixões, preconceitos e que dá passos seguros no caminho da virtude e da verdade.” (Sobre a câmara de reflexão)

E que, além disso, encontramos reforçada tal questão na instrução do Primeiro Grau do RER:

Onde fostes recebido?

– Em uma Loja justa e perfeita, onde reina a união, a paz e o silêncio.

Em alguns documentos maçônicos, inclusive do RF, alguns escritos aparecem da seguinte maneira: 

“Onde reina a União, a Paz, a Candura, o Silêncio e a Caridade, em um lugar muito iluminado, regular e santo, muito fechado e forte.”

Para fechar este capítulo vou encerrá-lo com um texto de Patrick Negrier, exposto em seu trabalho “Art Royal et Régularité”:   

“A referência explícita à prática iniciada por Pitágoras e por Sócrates, de introspecção, parece ter penetrado na Maçonaria por volta de 1746-1751 na obra “Maçom Desmascarado” onde Thom Wolson convidava o maçom a conhecer a si mesmo para desafiar-se: “Maçom, conhece a ti mesmo, coloca tua esperança em Deus.”

Outras explicações, algumas dão passagem ao discurso

Há quem extrapole esse assunto como um elemento geral essencial para o grau de Aprendiz, uma vez que ele não sabe ler nem escrever e, portanto, precisam de atitudes receptivas e criadoras de expectativas e, portanto, silenciosas, convertendo-a  por sua vez em “leis” que, como diz Valdimir Biaggi se parecem muito com a “omentá” da máfia.

Nesta pseudoescola do silêncio se embosca também Juan Carlos Daza que com seu Dicionário da Maçonaria, confirma também parte dessa bagagem que eu acho que precisa ser desmantelada, em que ele parte de que “O silêncio é o prelúdio da abertura à revelação”, para adicionar “que as lojas impõem ‘a lei do silêncio’ aos aprendizes, se não o mutismo, já que por ele falará seu tutor, o Segundo Vigilante” ; no mesmo sentido e da vertente escocista mais pura, Irene Mainguy reafirma tais teses em seu trabalho sobre o simbolismo no REAA.

Em contraste, devemos salientar que, no Regulateur, fala-se de “não devo”, talvez enfocando a prudência ou dosagem do uso da palavra nesta fase, embora sua proibição nunca apareça.

Talvez pudéssemos aventar que o silêncio na loja está mais para o campo simbolista do REAA que do Rito Francês, que é um rito mais tendente à dialética, e chegadas a este campo, o Aprendiz do Rito Francês não deve perder de vista o fato de que seu primeiro dever é aprender a levantar as questões e formulá-las, a trabalhar no domínio das ideias sem restar uma dúvida, um pouco do mundo das opiniões e convicções, uma vez que a própria caracterização da Maçonaria exige um pensamento específico e original e para isso que melhor meio que o mundo da razão que não pode permanecer em silêncio para, pelo menos, situar-se no plano do discurso.

Nesse sentido, podemos dizer que o Rito Francês deu um passo transcendental e se constitui no Rito da Razão, fugindo de paradoxos simbolistas que o ligam ao silêncio místico de uma providência que flui através de jogos de luzes, onde a coreografia simbolista desempenha um papel mais importante, onde se cabe o discurso dialético.

É por isso que quando o Rito Francês é enquadrado no Iluminismo e reivindicar a presença não do cavalheiro, mas do cidadão, como nos diz o Regulateur, o discurso é recuperado dessa maneira, pois o cidadão tem direito à palavra que além de não poder ser negada, podemos dizer que é a nova ferramenta que se apodera da loja e que vai articulá-la e projetá-la como tal.

Nesse sentido se alinham autores como Beresniak (na seção referente à seção Mestre de Harmonia) que nos dá sua visão do silêncio:

“A música é absolutamente indispensável no ritual, não somente durante cerimônias especiais, mas durante a abertura dos trabalhos ou durante a entrada na Loja. Não substitui o silêncio, já que o silêncio não existe: ela cobre os ruídos inaudíveis, os tremores internos gerados pelo que foi vivido fora do Templo. Cobre as agitações da alma e arrasta as emoções até as alturas. As emoções não geram exercícios de inteligência; mas, pelo contrário, reconfortam o espírito. A música apoia efetivamente a função do ritual de abertura dos trabalhos, uma função que consiste em favorecer um “descondicionamento” e um “recondicionamento” em direção de um modo diferente de ser. E não é por acaso que a palavra “apertura / abertura”, tão densa e bela, também constitui um termo musical. Geralmente, os termos musicais como “composição”, “execução”, “concerto”, “melodia”, “harmonia”, “gama”, “escala”, “compasso”, “tonalidade”, “atonalidade” e outros muitos nos oferecem referências precisas capazes de esclarecer as ferramentas do pensamento. Por isso, o irmão “Mestre de Harmonia” poderia, além de seu trabalho tradicional, sentir-se responsável pela missão de informar sua oficina sobre os recursos que a música pode proporcionar ao estudo sério do simbolismo.”

Para fechar este longo capítulo, que também poderia dar lugar a outras obras sobre as virtudes do silêncio em Loja, que se está programado em muitas ocasiões, e que é muito concentrado em certos estágios, propondo assim dois tipos de silêncio:

O silêncio físico que é como uma reminiscência atitudinal importada de procedimentos e/ou grupos de tipo monástico religioso e implantado na Maçonaria a partir da introdução da abordagem pitagórica e, o silêncio imposto, como estado indispensável para o processo de aprendizagem, que como diz um veterano Mestre e Venerável Mestre de uma loja como o Irmão Joaquín Villalta: 

“Tanto um como o outro têm defensores e detratores, finalmente terminando ad libitum do uso em loja. Sendo da teoria de que “É necessário em certos momentos, mas seu uso não pode ser pautado como um procedimento obrigado nem ritualmente nem atitudinalmente para os aprendizes: é preciso aprender a aquietar os sentidos, mas é preciso buscar condicionamentos (como diz Beresniak) através de processos de estímulo / linguagem fora do campo puramente racional e para isso, o sensível / auditivo é necessário.”

Sem colocar de lado que “no processo de aprendizagem, o Aprendiz. desde sua “falta de conhecimento”, ele deve ter seus momentos de “prática expressiva”, isto é, ele deve poder falar. Não existe Arte (nem mesmo a Arte Real) que não exija uma prática (bem conduzida) desde o primeiro dia. Sem esquecer um paradoxo, pois não se deve esquecer que no início do século XVIII os graus de Aprendiz e Companheiro, eras, conferidos na mesma tarde, ou seja, poderíamos nos perguntar onde estava o silêncio do Aprendiz?

Algumas propostas de regulamento de Loja

Diante dessas situações, diferentes orientações foram criadas: há Obediências, em que, de antemão, os Aprendizes não têm voz ou voto até passarem a Companheiros ou a Mestres, isso aplicando-se uma lógica cartesiana “se eles não falam eles não votam”, portanto, eles colocam os Aprendizes a salvo da possível manipulação e administração da discricionariedade dos Mestres Maçons ou Oficiais da Loja e os fluxos que poderiam ocorrer nas Oficinas.

É uma medida antidemocrática?  Pode ser que sim, mas em pleno século XXI, que se negue a condição de “ser e estar” ao cidadão, ou à pessoa, mesmo que em loja e em virtude de seu aperfeiçoamento pessoal, soa pelo menos estranho e duro.

Mas tem, em todo caso, uma virtude e é que eles sabem de antemão as regras do jogo relacional em que se move a loja e os possíveis benefícios e desvantagens do sistema.

Deixá-lo à discrição, sem que ele se recolha nos Regulamento da Oficina ou da Obediência, traz consigo questões paradoxais e discricionárias que podem resultar ainda mais antidemocráticas e tirânicas que as anteriores, já que joga com as pessoas e Irmãos em função dos interesses, não criando certas regras gerais do jogo, mas muito particulares que se aplicam ou não dependendo de critérios tais como poder, conveniência, oportunidade, etc.

No entanto, existem Obediências e Lojas que não regulam esta situação, nem criam um ambiente regulamentar especial, no qual se afirme que o silêncio não é uma regra de regulamentação e sim uma regra de comportamento individual em loja quanto ao grau de Aprendiz.

Em todo caso, esta questão na órbita do Rito Francês, eu pessoalmente acredito que tal limitação não deva estar presente, a menos que seja voluntária por parte do Aprendiz, pois se partimos de que estamos em um Rito da Razão, um rito por antonomásia dialética, libertário em relação a certos anexos pseudo-religiosos presentes em outros ritos, não deveria partir da imposição de restrições a que a palavra flua, é certo que o Aprendiz não sabe “nem escrever nem falar”, mas o exercício dessas funções é o que lhe dá, em última análise, a capacidade de se tornar um cidadão e que a loja se constitua desde o primeiro momento uma escola de razão e formação, poderia caber a ideia de que em outro século essa limitação poderia fazer sentido, dadas as abismais diferenças sociais e culturais entre Maçons, continuar sujeitando-se hoje  em pleno século XXI, a uma norma que mitiga a liberdade individual de poder falar, ou seja a expressão viva, usando para a língua de outro, não faz sentido

Tema que deixo levantado para o debate.

Autor: Victor Guerra
Traduzido por: José Filardo

Fonte: Bibliot3ca Fernando Pessoa

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